Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler

Tarcísio Badaró · Capítulo 30 de 32

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Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler

St. valentin, áustria. 30 de maio de 2016.

PASSEI UM dia em Budapeste, um em Viena e dois dias em St. Valentin. Horst apenas atravessou as capitais húngara e austríaca; de Viena seguiu mais algumas horas e foi despejado no lugarejo de nome romântico, ainda menor que Sighetu e já totalmente diferente do leste europeu. Meu hotel em St. Valentin ficava quase em frente à estação; tinha uma grande pintura na parede lateral, algo que parecia uma cena de baile, com mulheres em vestido de gala, pernas à mostra, homens fortes com o peito nu, sombras, bebida e animais. Encontrei a porta trancada, e demorou até que o dono aparecesse para me receber. Fui guiado até o quarto, no segundo andar, após um corredor com muitos quadros, tapetes vermelhos e papel de parede imperial. Não parecia haver mais ninguém no hotel.

Andei pela cidade. Não vi ninguém. Almocei em um restaurante na praça ao lado da igreja central e gostei; falei à dona que voltaria no dia seguinte para almoçar. Voltei no mesmo dia para jantar, no dia seguinte para tomar café da manhã e para almoçar novamente. Foi o único lugar aberto que encontrei. St. Valentin se parece mais com uma cidade do interior da Alemanha do que da Polônia, embora o vazio das ruas tenha me lembrado Sagan o tempo todo.

Durante a guerra, St. Valentin teve papel importante. Funcionava na cidade, disfarçada sob o nome de “OKH Fábrica de Brinquedos”, uma grande fábrica de tanques de guerra do Terceiro Reich. Por isso, a cidade foi bombardeada em 1944. No pós-guerra, os vencedores ocuparam a Áustria, que, como a Alemanha, foi dividida em quatro territórios. St. Valentin ficou na parte soviética. Poucos quilômetros depois, um dos afluentes do Danúbio dividia a Alta e a Baixa Áustria, além de marcar o limite entre a área soviética e a americana. Em Enns, cidade a sete quilômetros de caminhada ou pouco mais de cinco minutos de trem de St. Valentin, Horst deve ter enfim embarcado na locomotiva americana que tanto esperava, embora não o tenha dito em seu diário.

Horst escreveu muito pouco sobre os sete ou oito dias que passou em St. Valentin. Em 26 de junho de 1946, registrou:

“Nós fomos desembarcados em St. Valentin. Fomos novamente alojados em um acampamento russo. A libertação é entediante.”

Só seis dias depois, provavelmente ainda entediado, pôs de novo algo no papel:

“Ainda aqui. O lugar é bastante agradável.”

E foi só.

Mas há de se entender o Brenke. Àquela altura, Horst já não tinha o principal incentivo para escrever: o medo da morte. A guerra havia acabado, ele não era mais um prisioneiro, estava a caminho de casa, a saúde estava melhor, não havia morrido e, ao que parecia, não iria morrer por aqueles dias. Muito pouco o instigava a escrever. Com isso, o marasmo trouxe certo esgotamento. Horst tinha papel para escrever, tinha tempo também, pois não trabalhou em St. Valentin, mas só foi escrever novamente no dia 5 de julho quando chegou à Itália.

Eu embarquei para a Itália na noite do segundo dia em St. Valentin. Passei por Udine, primeiro lugar em que Horst desembarcou. Estive por dois dias em Bolonha e, já no começo de julho, cheguei a Nápoles. Aversa fica a cerca de uma hora de trem e foi uma cidade cuja primeira impressão não me agradou. No entorno da estação ferroviária, Aversa me lembrava uma área qualquer de subúrbio de grandes cidades. Quando cheguei ao centro, no entanto, tudo mudou. As ruelas de pedra dispostas em círculos, os corredores sombreados, as casas com sacadas, a roupa secando nos varais, as motonetas zunindo, o charme típico das pequenas e antigas cidades da Itália.

O sanatório em que Horst viveu seus últimos dias de aventura ainda estava lá. Encontrei o casarão de dois andares pouco depois do centro, com o portão de sempre, o nome escrito sobre o ferro enferrujado. Sucumbia lentamente ao descaso. Estava abandonado.

O sol em Aversa castigava. O céu era de um azul irreal. Me explicaram que comemorava-se algum feriado, por isso as ruas estavam vazias. Caminhei por horas, sem destino. Tentava ver o que Horst tinha visto e que não foi parar no diário. Talvez fosse inútil, mas era bom tentar. Voltei para Nápoles e me peguei do mesmo jeito, observando o porto, como se tentasse ver o que Horst vira. A cidade abraçava o mar de um modo estranho, como que para reter quem tentasse partir. Foi o ponto final de minha viagem de quase dois meses e mais de seis mil quilômetros num trem por nove países e pela história de um homem que não conheci.

A história de Horst Brenke, essa parte de sua vida, entre os 18 e os 20 anos, é a história de uma geração de jovens. Nenhum evento da história recente mexeu tanto com o mundo e com tantas pessoas quanto a guerra. Centenas de brasileiros lutaram pelo lado alemão na Segunda Guerra Mundial. Quase todos, jovens nascidos no Brasil filhos de alemães, e que viajaram à terra dos pais entre 1937 e 1939. É possível que outros, como Horst, tenham sido prisioneiros russos.

Pelos registros soviéticos, 2,4 milhões de soldados alemães foram feitos prisioneiros durante a “Grande Guerra Patriótica”. Esse número é certamente subestimado, pois não leva em conta os prisioneiros mortos no caminho ou durante o cárcere.

A maior parte desses prisioneiros só voltou para casa quatro ou cinco anos depois da guerra. Horst teve muita sorte. Foi liberado da Rússia em maio de 1946, muito antes dos outros, e tudo por causa de sua cidadania brasileira.

Horst foi um homem bem diferente no restante de sua vida. Era um sujeito calado, focado no trabalho e com pouco interesse pelo passado. Nunca contou da guerra para os filhos. Mauricio Brenck, o mais velho deles, me contou que vez ou outra seu pai o observava assistindo à série Combate , uma produção americana sobre a guerra que passou na televisão brasileira nas décadas de 1960 e 1970. Horst um dia se aproximou e disse que nada daquilo era muito verdadeiro. Ninguém ficava atacando, atirando e matando inimigos o tempo todo como na televisão. “A gente ficava de um lado do rio, os adversários do outro”, ele teria dito. “De vez em quando alguém dá um tiro daqui ou de lá. Na maior parte do tempo não acontece nada.”

Horst só conheceu a frente de batalha no período conhecido como “A Pausa”. A maior parte desse tempo foi exatamente como ele contou ao filho que via televisão.

É curioso como a história da família de Horst foi acompanhada pela guerra. Wilhelm Birkenfeld veio ao Brasil depois de perder os três filhos na Primeira Guerra e de não ver perspectiva numa Alemanha afundada na depressão. Os pais de Horst voltaram para a Alemanha dezoito anos depois e, passados poucos meses, viram-se em uma nova guerra. Tentaram voltar, mas não puderam. Um dia, Richard e Horst se tornaram soldados.

Investigar a história de Horst Brenke foi um grande aprendizado. Infelizmente, deixou quase tantas perguntas quanto respostas. Eu nunca soube ao certo por que a família Brenke voltou para a Alemanha. Não consegui também descobrir como Richard foi parar na guerra. O mais provável é que tenha sido obrigado, mas várias vezes me passou pela cabeça que ele se alistou para ir atrás do filho.

Eu queria fazer tantas perguntas para Horst que não poderia nem numerá-las. A história contada neste livro é a melhor possível. Meu trabalho, por vezes, foi me convencer de que precisava aceitar o que não iria entender, os detalhes que não conseguiria alcançar. Tudo que foi possível descobrir está aqui e não há nada além disso. Todos os buracos são próprios da história mesma.

Um dia, Horst Brenke teve medo de morrer e começou a escrever. Sobreviveu, voltou para casa, guardou seu diário na gaveta e nunca mais mexeu. Depois de sua morte, passaram-se trinta anos até que alguém o lesse. Espero que ele não se importe de, por assim dizer, seguir vivo neste livro.