Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler

Tarcísio Badaró · Capítulo 5 de 32

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Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler

Sagan, Baixa Silésia. 4 de maio de 1945

A EXTENSA coluna de prisioneiros já estava no sétimo dia seguido de marcha e Horst começava a ter dúvidas sobre o próprio corpo. Foi quando dobraram à esquerda, deixando a rodovia Berlim-Breslau e seguindo rumo ao norte em terras polonesas. Os homens já não caminhavam com firmeza. Haviam se despido das partes mais quentes do uniforme e sentiam-se sobrecarregados com o que traziam às costas, por mais leve que fosse a pouca bagagem restante. Estavam sujos e pegajosos, sentiam o corpo coçar e o rosto arder de tanto sol. Poderia ser febre também. Eles se espremeram no centro da pista, em três filas sem fim, encabeçados por um russo armado e margeados por outros a pé ou em jipes. Depois da curva, ao lado do caminho, os pinheiros ganharam a companhia de bétulas, seus troncos claros dando qualquer coisa de novidade àquela caminhada infinita, que seguia e seguia.

Horst dava com os olhos nas costas do homem à frente, via seus ombros caídos. Levou a mão ao peito e pegou no bolso esquerdo do paletó o maço de Stambul. Abriu-o e tirou dele o último cigarro; acendeu na brasa do companheiro que caminhava ao lado e, ao tragar, viu a ponta do cigarro se iluminar diante do nariz. Sentiu o cheiro de madeira queimada chegar às narinas e atrasou o passo para não tocar as costas do homem adiante. Então olhou a embalagem vazia, branca, o nome escrito em letras verdes. Horst tirou o cigarro da boca para respirar. Olhou de novo para o maço. Em cima do M, havia uma torre de catedral ortodoxa; aos lados, uma lua crescente e uma estrela de sete pontas. Seguiu andando. Esmagou o Stambul na palma da mão e o deixou cair ao chão. Como os cigarros, suas forças chegavam ao fim.

Quase duas horas depois de deixarem a rodovia, chegaram a um grande campo de prisioneiros cuja entrada vinha dar na beira do asfalto. Ele se estendia floresta adentro, descamando cercas de arame farpado, as torres de observação aparentemente abandonadas, os alojamentos de madeira escura sobre a terra clara enfileirando-se até onde as vistas cansadas deixavam de alcançar. Assim que cruzaram o portão, foram autorizados a sentar no chão, transformando o terreno na entrada do campo em um mar de rostos exaustos. À esquerda e não muito longe havia um cemitério já meio destruído. De tão cansados, não se deram conta.

Horst calculava ter caminhado cinquenta quilômetros por dia, e em sua cabeça já estava na estrada havia oito dias seguidos. Estava um pouco perdido. Ele tinha agora um rosto fino que contrastava com as lentes e a armação grosseira dos óculos. Seu uniforme, como o de todos, havia sido depenado de qualquer identificação de guerra. Horst olhou em volta e viu a floresta ao fundo; parecia haver mais alojamentos depois dela.

O campo ficava em Sagan, uma cidade duzentos quilômetros a sudeste de Berlim. Mais vinte minutos de caminhada por aquela estradinha e teriam chegado à cidade propriamente dita, mais destruída pela tomada dos russos alguns meses antes do que pelos anos de guerra. O campo se chamava Stalag VIIIC, embora a placa não estivesse mais na entrada. No início da guerra, fora usado pela Alemanha para manter prisioneiros poloneses, e depois soldados franceses, ingleses, americanos e de uma infinidade de outras nacionalidades. Ainda tinha uns quarenta alojamentos de madeira, todos um pouco acima do chão, formando uma cidade de prisioneiros. Atrás e à esquerda havia uma espécie de praça, depois uma floresta de pinheiros e bétulas, depois novas cercas e novos alojamentos, que se estendiam horizonte adentro em um outro campo chamado Stalag Luft III. Esse outro campo era muito similar ao primeiro, mas parecia estar mais bem cuidado. Fora destinado apenas a oficiais, e isso explicava o melhor estado. O grupo que acabava de chegar a Sagan tinha milhares de prisioneiros. Mas havia espaço mais que suficiente para eles.

Desde a manhã em que fora acordado em Halbe, Horst caminhara rumo ao leste. Na primeira semana, uma média de trinta quilômetros por dia até Sagan. Um pouco menos do que calculara. O grupo havia seguido sempre pela estrada. Assim, os russos eliminavam qualquer risco de encontrar algum grupo de soldados alemães à deriva, perdidos pela floresta. A caminhada pareceu amistosa nas primeiras horas. Não muito depois de iniciá-la, Horst e os outros cruzaram com um grosso poste de madeira fincado no chão; pregadas a ele havia tábuas menores e pontiagudas, com palavras escritas em russo e uma marcação de distância em quilômetros. Era uma placa de orientação. Indicava o caminho para cidades alemãs. Qualquer um podia imaginar que uma daquelas palavras significasse Berlim. À frente dos 18 km, uma palavra que mais parecia um desenho indicava o caminho de Halbe, o caminho de onde vinham.

Percorrer trinta quilômetros em um dia – ou mesmo cinquenta, como calculara Horst – não era absurdo. Exceto diante das condições que alguns prisioneiros apresentavam. A marcha era intensa e parecia infinita. Havia pausas raras e espaçadas, de uns quinze minutos. Mas era melhor que não houvesse. Quando se parava um pouco era que se percebia o quanto o corpo doía. Pouco depois de Lübben, dois soldados sucumbiram: Horst, que caminhava mais à frente, não viu quando as pernas deles vacilaram, como se o peso do tronco fosse insuportável. Caíram e levaram consigo um outro homem que estava próximo e também com as forças no fim. Quase não fizeram barulho ao cair. Só o som das pistolas-metralhadoras dos russos foi ouvido, as balas repicando no asfalto quente, muito mais numerosas que o espaço dos corpos. Assim que os prisioneiros caíram no chão, uma rajada encerrou a jornada deles. Todos entenderam que seria assim com qualquer um que não suportasse.

Entenderam também – ou intuíram – que era melhor ficar no meio da fila. Marchar nas extremidades poderia ser um grande azar. Horst aprendera a dormir em pé, a caminhar dormindo. Quase como zumbis, os soldados escoravam-se uns aos outros e deixavam a esperança guiar os passos e atender às ordens. De Halbe a Sagan foram cerca de 160 quilômetros. Horst conseguiu. Mas havia mais.

Depois de um tempo sentados no chão do campo em Sagan, os homens começaram a ser alimentados. Sopa. Uma sopa aguada, com batatas mal lavadas. Pão para acompanhar. Estavam famintos. Foram encaminhados para os alojamentos; a Horst coube um longe do pátio, mas de onde ainda se podia ver a movimentação próxima à estrada. Os alojamentos eram caixas de trinta metros de comprimento por dez de largura, tinham vários pequenos cômodos – espécie de quarto com beliches de madeira, colchões fedorentos e objetos claramente largados para trás durante a chegada dos russos do início daquele ano. Havia recortes de jornais e revistas pregados nas paredes. Panelas, pratos e talheres, além de uma série de outras coisas aparentemente inúteis. No centro, uma mesa bamba e cadeiras meio quebradas, tudo de madeira. Logo um russo chegou com uma máquina e indicou aos prisioneiros que retirassem suas roupas.

Horst sentou na cadeira ao centro do recinto. Os outros o olhavam apreensivos. O russo ligou a máquina, que fazia um ruído de esforço, sofrendo para permanecer ligada. O sujeito levou a máquina em direção ao rosto de Horst, que fechou os olhos, ouviu um zumbido rouco, sentiu a cabeça vibrar e percebeu quando um tufo de cabelo caiu por suas costas. Teve todo o cabelo raspado. Depois mandaram-no levantar os braços. Foram-se os pelos da axila. Depois os pubianos. Foi um grande alívio. Pouco depois a coceira diminuiu. Estava temporariamente despiolhado.

Naquela noite, em Sagan, ele conseguiu também papel e lápis. Sentou-se em seu beliche e, em alemão, iniciou algo parecido com um diário.

“Preso! Quem poderia imaginar isso! Apenas aquele que vivenciou isso por ele mesmo”, escreveu na primeira página. Seguiu dizendo onde estava, como se sentia, e a tortura que fora a “marcha da morte”. Sabia que o pior estava por vir, mas não fazia muita ideia de o que seria. De vez em quando, tentava se concentrar e ouvir o que os russos conversavam lá fora, quando passavam perto de sua janela. Tinha esperança de ouvir algo que indicasse os planos para os prisioneiros e que destino teriam. Não teve muita sorte. O maior receio era a Sibéria. Todos sabiam muito bem o que significava. Tinham ouvido histórias terríveis sobre o que Stalin construíra por lá – um campo de trabalho forçado, em que se tornariam escravos até morrer de fome ou frio. Não ouvir nada que soasse parecido foi também um pequeno alívio.

No dia seguinte retomaram a marcha. Voltaram para a estrada que os havia acompanhado durante toda a semana anterior. Era o mesmo asfalto sujo, os mesmos pinheiros, o mesmo rastro de guerra.

Na noite do dia 8 de maio, o grupo andava pela Baixa Silésia e parou para dormir à beira da estrada. Horst não fazia ideia que a três centenas de quilômetros dali, numa velha casa colonial no bairro de Karlshorst, subúrbio de Berlim, um sujeito magro e com olhar de nojo desenhava o próprio nome em papéis datilografados sob a observação de homens tensos. Era a assinatura oficial da rendição alemã. Assim que o marechal Wilhelm Keitel, comandante em chefe do exército alemão desde o suicídio de Hitler, cruzou a porta e foi-se embora, os oficiais russos, americanos, britânicos e franceses começaram a festejar. Beberam champanhe e todas as garrafas de vinho que puderam encontrar. A festa se espalhou pelas ruas, com soldados bêbados a passar embaixo da janela da cozinha em que Margarete e Maria do Carmo dormiam inquietas. O banquete na casa de Karlshorst durou até o amanhecer, com oficiais se abraçando e comemorando a vitória sobre o fascismo, e ainda não terminara quando o grupo de prisioneiros se levantou e retomou a marcha que não parecia ter fim, rumo a um lugar que nunca chegava.

Eles chegaram a Opole junto com o mês de junho. Até lá foram mais 240 quilômetros, dessa vez em ritmo mais lento. No caminho, acompanharam por muito tempo o percurso do Oder. Horst viu de longe o rio e lhe surgiram recordações. Várias vezes nos últimos tempos havia se pegado olhando para aquelas águas, outrora congeladas, se perguntando como tudo aquilo terminaria. Como parecia ocorrer sempre que criava possibilidades para o futuro, ele se encontrava em uma situação que não havia previsto. Sentia que tinha forças para caminhar, mas não sabia até quando. E queria muito saber até onde caminharia, qual seria seu futuro. Eles pararam em Opole, em um campo improvisado e não muito longe do gueto judeu que funcionara na cidade durante a guerra. Ao fim do dia, Horst pegou novamente o papel, mas teve dificuldades de firmar a mão e escrever. Não havia escrito nada desde o dia em que desembarcara em Sagan.

“Opole! Alojados em um campo provisório. Daqui deve-se continuar a caminhar! Para onde, não se sabe.”

Dormiu.

Todos já sabiam que a guerra havia acabado. Alguém podia ter pensado que isso viesse a significar algo de bom para os prisioneiros. Sempre há os inocentes ou muito otimistas. Se havia esse alguém, ele deixou de pensar assim no dia seguinte em Opole. Todos foram acordados muito cedo e colocados em forma. Receberam sopa, foram revistados. Deixaram o campo, seguiram para a cidade, passando muito perto do centro histórico, observados com atenção pelas pessoas nas ruas. Foram para a estação ferroviária, onde vários homens gritavam, xingavam e trabalhavam nos trilhos. Seguiriam agora de trem.