Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler

Tarcísio Badaró · Capítulo 20 de 32

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Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler

Berlim, Alemanha. 6 de janeiro de 1945.

BERLIM FOI uma cidade adormecida nos primeiros dias de 1945. O novo ano chegou numa segunda-feira. Houve os bombardeios a que todos estavam acostumados. A família Brenke esteve quase todo o tempo no bunker ao final da rua. O feriado de ano-novo só terminou na manhã do dia 3, com as pessoas tentando ir ao trabalho, caminhando por entre os escombros ou usando os poucos bondes e trens que ainda funcionavam. O sexto dia do ano caiu num sábado frio, em que Horst acordou com fome, vestiu o casaco e se aproximou de Margarete pedindo os cupons de racionamento. Ela se surpreendeu ao ver que a intenção do filho era sair.

– Vou tentar comprar pão – Horst disse.

– Não, meu filho. É perigoso.

– Eu corro até o armazém perto da estação – tornou Horst. – Se também não tiver pão eu volto na mesma hora.

Fazia frio e havia fila. Significava que havia pão. Horst se juntou ao grupo com os cupons de racionamento à mão, metidos no bolso do casaco. Era um dos poucos homens ali. Ainda não havia sido atendido quando um caminhão militar freou fazendo barulho no asfalto escorregadio. Nem todos se assustaram. Os soldados desceram e passaram a fila em revista. Horst foi um dos primeiros a ser visto.

– Documentos – disse o militar.

Horst entregou o que tinha consigo.

– Por que você não se apresentou para servir ao país?

– Porque eu não sou alemão – disse Horst. – Sou brasileiro.

– E por que você está em Berlim? – tornou o militar.

– Porque não nos permitiram embarcar de volta ao Brasil.

– Por que você fala alemão?

– Porque eu estudei aqui – retrucou.

– Onde está a sua família?

– Minha mãe está em Berlim. Em casa. Doente.

– Os seus pais são brasileiros?

– Não – afirmou Horst.

– São alemães?

– São sim, senhor.

– Então você também é alemão – finalizou o militar.

O sujeito devolveu os documentos a Horst e lhe indicou a carroceria do caminhão. Horst guardou os documentos.

– Suba! – ordenou.

As pessoas em volta observavam. Um outro homem já havia deixado a fila e subia no caminhão. Horst olhou a rua. O militar o pegou pelo braço. Deram alguns passos e subiram à carroceria do caminhão, que partiu. Horst se sentou contra o guarda-corpo, enfiou as mãos no bolso para se aquecer. Viu a rua ficando para trás, enquanto apertava os cupons de racionamento que estavam no bolso. As pessoas na fila já não o observavam mais.

No dia em que Horst saiu para comprar pão e acabou enviado para a guerra, ela estava às margens do Vístula. A frente de batalha entrou o ano a poucas centenas de quilômetros de Berlim, com o rio que corta a Polônia do sul ao norte, dos Cárpatos na Alta Silésia até o Mar Báltico, separando russos e alemães. Foi então que os soviéticos lançaram a maior ofensiva da Segunda Guerra, avançando do Vístula ao Oder em apenas duas semanas e deixando 450 mil soldados alemães mortos em um único mês. Janeiro foi um mês bastante frio. Foi em janeiro que a maioria dos soldados da frente oriental começou a perceber que a Alemanha seria derrotada. E pior: que eles seriam mortos.

Em nenhum outro momento da guerra morreram tantas pessoas quanto nos primeiros meses de 1945. Não só no front e nas cidades bombardeadas, mas em todos os lugares aonde a guerra chegava. À medida que os soviéticos progrediam sobre a Alemanha, civis fugiam em massa para o oeste. De cima do caminhão, Horst viu as estradas entulhadas, as famílias, que àquela altura eram só mulheres, velhos e crianças, tentando fugir em carroças cheias de pertences; muitos outros iam a pé, carregando tudo o que fossem capazes de levar além de suas próprias histórias.

Fevereiro fez menos frio que o habitual, e as enchentes de primavera do Oder se mostraram úteis aos russos. Horst esteve alguns dias em treinamento e chegou à posição avançada no final do mês. No caminho até o front, viu um país destruído, cidades em ruínas e quase vazias. Imaginou que encontraria uma situação ainda pior mais à frente; a guerra de verdade deveria ser um verdadeiro inferno.

Horst foi despachado para o front com uma porção de pão, linguiça e fumo. Usava um uniforme maior que seu corpo, e o capacete italiano só não lhe tapava as orelhas, como ocorria com muitos do grupo, porque sua cabeça era grande em relação à altura. Chegou a um vilarejo perto de Frankfurt, às margens do Rio Oder, e só encontrou homens cansados escondidos em trincheiras mal cavadas sobre o terreno congelado. Nos primeiros dias no front, apenas cavou e construiu a própria trincheira, ouviu histórias dos mais velhos, fumou e ansiou pelo ensopado noturno que chegava das cozinhas de campanha, na retaguarda.

O Oder era bastante largo no ponto em que estavam. Havia começado a degelar. Março entrou e passou como se existisse guerra em todo o mundo, menos no front onde Horst estava. Do outro lado do rio estavam os russos. Mas pouca coisa acontecia. Durante a noite, algumas vezes, uma das margens disparava um tiro a esmo. Do outro lado, os homens ficavam atentos para ver de onde vinha a luz provocada pelo disparo e retrucavam imediatamente, tentando acertar o ponto onde surgira a luminosidade. A guerra, para Horst, não passava disso.

Durante todo o mês de março e as primeiras semanas de abril a guerra esteve em suspenso. Nas margens do Oder, reinou uma pausa, durante a qual os dois lados se reagruparam e refizeram suas forças. Do outro lado do rio, estava o limite entre a Primeira Frente Bielorrussa, de Zhukov, e a Primeira Frente Ucraniana, de Konev. Horst podia ouvir o barulho dos preparativos soviéticos, pois, por mais que tentassem, era impossível disfarçar tamanho movimento.

Do lado alemão, o trabalho às vezes parecia mais destinado a convencer os soldados a combater. Muitos não tinham armas. Alguns usavam uniformes da Primeira Guerra ou sobretudos marrons que os tornavam alvos fáceis sobre a neve branca. Muitos eram tão jovens que trocavam a porção de fumo por doces. O desejo que se espalhava entre eles era conseguir roupas comuns e se misturar aos civis para fugir para o oeste, pelas estradas abarrotadas ou pelas florestas às margens do Spree. Os nazistas, no entanto, haviam instituído tribunais de campo e matavam todos os militares que encontravam tentando desertar. No final de março a comida piorou. Quando abril entrou, todos ficaram atentos; os mais experientes entendiam que algo estava para acontecer.

No primeiro dia de abril, Konev e Zhukov se reuniram com Stalin em Moscou. Às três da manhã do dia 16 de abril, os russos deram início ao ataque final, que acabaria com a Alemanha dentro de poucas semanas. Foi um dia chuvoso e escuro. A oeste do Oder, próximo aos montes Seelow, o 9º Exército alemão contava com 129 mil homens. Muitos eram garotos despreparados e assustados, como Horst Brenke. À frente deles, os comandados de Konev contavam 900 mil soldados. Quando o fogo soviético começou, às três da madrugada do dia 16, o barulho das lagartas e das katiúcha cortando o céu, os soldados alemães voltavam à segunda linha aos gritos de “der Iwan kommt!” – “O Ivan chegou” –, tudo ruiu.

A intensidade do bombardeio soviético pôde ser sentida nos subúrbios orientais de Berlim, a quase sessenta quilômetros do front. Segundo relatos, casas tremeram, quadros caíram das paredes e os telefones tocaram sozinhos. Pareceu um pequeno terremoto. É bem provável que Margarete e Maria do Carmo tenham ouvido algo da Gubitzstraße. No front, o Grupo de Exércitos do Centro tentou resistir e manter a posição, mas não foi possível. Quando amanheceu, os Shturmoviks passavam sobre suas cabeças a despejar bombas. O medo que se criou foi tão grande entre os jovens e despreparados soldados alemães, que alguns surtavam ao ouvir a menor explosão. Não demorou para começarem a recuar.

O 9º Exército se desfez nos dias seguintes. Os batalhões se misturaram. Ordens deixaram de ser ouvidas. Muitos oficiais abandonaram seus homens por aqueles dias. Horst marchou para o oeste, por entre a floresta do Spree. Parte do 9º Exército escapou por uma brecha entre as duas linhas de frente dos russos. Em 19 de abril se desfez em três. Horst seguiu para o oeste. Ele ouvia muita coisa, mas já não sabia em que acreditar.

Correu a notícia de que Hitler preparava uma nova e milagrosa arma. Estavam todos salvos. Um milagre aconteceria e a Alemanha ainda venceria aquela guerra. Houve quem acreditasse, e o clima melhorou bastante. A propaganda nazista havia dito várias vezes que não era possível sair derrotado quando se lutava do lado certo. Tinham dito aos soldados que não havia chance de derrota. Eles deveriam até se envergonhar de terem duvidado por algum momento.

Ainda assim, seguiam em retirada. O grupo de Horst já andava pela floresta havia dias, com receio de encontrar os russos pela estrada e mais ainda de serem vistos pelos aviões inimigos. Pararam para descansar em algum ponto do Spree. Os homens estavam exaustos.

Horst se sentou ao lado de outro soldado. Tinham ficado amigos. Ele era um cabo da tropa de reconhecimento da qual Horst, em tese, ainda fazia parte. A tropa, no entanto, era algo impossível de definir. Estava misturada à massa disforme que se tornara aquele grupo que marchava rumo ao oeste, numa retirada que pouco entendiam. Horst acendeu um cigarro e continuava atento aos gestos do amigo, que limpava cuidadosamente sua carabina automática. Horst soltou a última baforada do cigarro e o jogou ao chão.

– Você viu como o tempo está bom para uma excursão de esqui nas montanhas? – disse Horst.

O amigo não levantou os olhos para conferir as montanhas que se insinuavam além das árvores.

– Essa ideia desaparecerá de sua cabeça já já, quando tiver de tratar de cair fora daqui. – Horst não se incomodou com a resposta do amigo, que continuou: – Você é novato aqui nesta tropa – ele finalmente olhou para Horst –, senão não falaria mais assim.

O grupo de Horst foi cercado no vilarejo de Halbe, aonde chegou na madrugada do dia 28 de abril. O combate na região durou dois dias; estima-se que quarenta mil pessoas, entre civis e soldados, perderam a vida nesse período. Horst Brenke foi capturado logo nas primeiras horas. Foi preso sem tentar lutar, antes da chuva do fim do dia. Haviam se passado três meses e vinte e dois dias desde a manhã em que saiu para comprar pão e foi parar na guerra. Na sua vida como soldado, não teve tempo de escrever para casa, não teve tempo de aprender a ser soldado, não viu a guerra como nos filmes de guerra. Com exceção de algum tiro no escuro, não deu nem um tiro na guerra.