Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler

Tarcísio Badaró · Capítulo 3 de 32

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Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler

Halbe, Alemanha. 28 de abril de 1945

NO DIA em que Horst Brenke reencontrou a morte, fazia um tempo aprazível. O sol lhe aquecia a pele sob a barba rala, e o vento o atingia sem força suficiente para mover seus cabelos partidos de lado, cujos fios loiros estavam escurecidos pelos dias sem banho. A floresta, ao longe, perdera o manto branco da neve. Parecia silenciosa e fria. Era primavera.

A noite anterior fora de calmaria para o 9º Exército alemão. Caminhara-se muito e incessantemente, como de costume; do mesmo modo, Horst e quase todos os outros soldados praguejaram o tempo inteiro. Lamentavam a má sorte de terem caído no meio daquela guerra que pouco compreendiam, e mais ainda o caminho que ela tomara. Às vezes, maldiziam em voz alta. Cuspiam. Ansiavam por um fim. As entranhas ulceravam. O humor do chefe então... Consumira-se todo ao longo da floresta.

Na maior parte da noite, no entanto, houve um silêncio agoniante. Marchando próximo aos granadeiros, Horst observava, nas pausas, eles se sentarem e imediatamente caírem no sono. O chão de musgo verde-escuro da floresta às margens do Spree era fofo, os pinheiros formavam corredores tão capazes de provocar miragens quanto um oásis. O corpo doía. As pálpebras pesavam. Logo tornava a caminhar.

As notícias chegavam constantemente, e não eram nada boas. Diziam que os russos já haviam cercado Berlim. Suspeitava-se da derrota e, com isso, sentiam-se o perigo e a fragilidade da vida. Os homens sabiam que seu armamento era inferior ao do inimigo. Faltavam combustível, soldados e, muitas vezes, coragem. Ninguém mais parecia acreditar na arma secreta de que tinham ouvido falar algumas vezes. Já não acreditavam em coisa alguma. A ordem era combater até o último homem cair, mas já tomava conta o sentimento de que nada daquilo fazia sentido.

Horst era exemplar perfeito da maioria dos soldados que marcharam a noite toda numa luta contra o sono e o cansaço para permanecer de pé: um rapazote sem nenhuma instrução militar, laçado à revelia e enviado para a guerra quando o Terceiro Reich percebeu que a situação havia desandado, no início de 1945. Passados três meses da vida de soldado, Horst já não via tudo com a inocência de seus 18 anos. Por algum tempo, tivera a impressão de que a guerra poderia ser até divertida se pessoas não estivessem morrendo. Conviver com homens durões, manejar uma arma, cruzar florestas e montanhas, viver aventuras e, um dia, voltar para casa cheio de histórias para contar. Mas não. Pessoas morrem de verdade. E só têm uma vida para morrer.

O grupo de que Horst fazia parte, um rescaldo de soldados reunidos pela floresta, já havia sido ultrapassado pela frente soviética. Eram, com isso, retardatários, cercados em um bolsão na floresta, mas com esperança de atravessar por uma brecha entre as linhas soviéticas. Por vezes, grupos como aquele combateram na retaguarda, o que despertou a ira do exército russo, que passou a caçá-los como quem cata migalhas indesejadas, restos de um serviço malfeito. Os alemães queriam seguir para o oeste a fim de se juntar ao 12º Exército. Falava-se do plano de reunir forças mais à frente para resistir, encarando o inimigo em Berlim. Mas muitos homens apenas desejavam se render aos americanos e evitar a morte por um tiro de Shpagin ou serem feitos prisioneiros russos, o que para eles significava o mesmo. A caminhada, portanto, assemelhava-se a uma fuga. Mas era mais complicada.

Na manhã do dia 28 de abril, o plano era combater em um vilarejo chamado Halbe, na região do Mark, cerca de cinquenta quilômetros ao sul de Berlim. Os russos se aproximariam pela estrada a leste, e o intuito era impedi-los, desgastando e atrasando os invasores. Horst e outros dois homens foram designados para proteger uma área de cerca de cem metros ao sul e nas costas da cidade. Lá havia uma leiteria e uma fábrica de manteiga, ambas abandonadas, que serviriam de bom abrigo. Foi onde se instalaram. A manhã passou rápida e tranquila. A brisa do início da tarde insinuou-se agradável, as folhas no topo dos pinheiros estalavam com o vento. Por volta das duas horas, o ruído ainda distante aumentou. Horst seguiu tranquilo. Suava dentro do uniforme, piscava pouco por trás das lentes grossas dos óculos. Estava acostumado ao som da guerra que sempre se avizinhava mas quase nunca chegava. Não intuía nada de especial. Ainda ouvia o estalo das folhas ao vento. De repente, o fogo o surpreendeu.

Granadas estouraram sem pausa. Terra voou pelos ares. Fogo. Pedras. Poeira. O barulho parecia dentro de suas cabeças. A sequência rápida de granadas deu lugar a bombas espaçadas e graves. O ciclo se repetiu. Seguiam rajadas de metralhadoras. Ouviam-se os inimigos chegando. Tambores rufavam.

Horst deitou-se, aguardando. Também sem anúncio, a agitação se desfez. Pareceu-lhe ter durado duas horas. Ainda deitado, nariz no chão, Horst sentia o cheiro da terra. Parecia podre. E várias eram as possíveis causas. Talvez o sujo que se esvai com a vida dos homens mortos na guerra tivesse seguido curso por ali. Talvez fosse apenas obra de sua cabeça. Ele, no entanto, era tomado de uma alegria. As bombas tinham parado de explodir, o ataque cessara, e isso significava que fora poupado. Reuniu-se com os outros na leiteria e, em silêncio, os três partilharam o mesmo sentimento de alívio. Uma nova explosão jogou a chaminé da leiteria e a esperança dos rapazes pelos ares. Eles correram para o porão, onde se abrigaram.

A trezentos metros dali, um canhão antitanque no alto da colina arremessava bombas que atingiam indiretamente a leiteria. A arma emitia um som agudo e penetrante no lançamento. A cada tiro, uma chuva densa de pedras caía sobre os três, seguida de uma nuvem gigantesca de poeira. Eles ainda tinham impressão de segurança, até que um amontoado de pedras despencou, quase fechando a saída do porão.

– Nós vamos ficar presos aqui – disse um dos rapazes.

– É melhor procurar abrigo na casa.

Eles aguardaram o próximo tiro e, assim que a poeira baixou um pouco, saíram aos pulos, atravessaram a rua e se meteram no porão da casa à frente. Foi uma boa decisão. Nenhuma bomba poderia alcançá-los ali. Depois de um bom tempo, viram o fogo cessar novamente. A esperança começava a voltar.

– Nós devemos permanecer aqui abrigados – começou a falar Horst, que tinha esperança de, em algumas horas, ser resgatado por companheiros. Vozes lá fora o interromperam.

Ouviam-se passos e conversas. Cada vez mais altos. Os três se concentraram, mas não entenderam nada. Maldição. Não falavam alemão. As vozes ficavam mais próximas. Não havia mais dúvida.

– São os Ivans – disse um deles. Os russos se encontravam na cidade.

“E agora? Estamos perdidos. Sem salvação”, Horst disse a si mesmo. “Pense, rapaz, você sempre foi cheio de ideias. Encontre uma agora!”

Uma salva de tiros no chão da casa o interrompeu.

“Como se diz ‘não atirem’ em russo?!”, pensou.

– Nie Strelatsch! – gritou um dos companheiros.

Um deles falava russo. Que sorte danada!

– Nie Strelatsch! – disse novamente o sujeito, um grandalhão sisudo, não muito mais velho que Horst e, pelos olhos empedrados, tão assustado quanto ele.

De fora da casa, convidaram:

– Venham! Venham, camaradas! Venham!

O outro rapaz abriu a porta do porão. Nenhum deles ousou sair. Eles sabiam muito bem o que os aguardava. Tinham escutado infinitos relatos sobre a crueldade dos russos. Horst sabia do risco desde que fora designado para aquela missão. Raios, por que não tivera a sorte de combater contra os americanos, que ainda conservavam algum grama de humanidade? Quando se está muito perto da morte não se pensa nela como uma palavra. Ela é apenas um fato. E passa a ser tão insignificante quanto a vida.

Os rapazes criaram coragem e, um a um, foram deixando o porão. Seus olhos miraram um grupo de dez a quinze soldados russos armados com pistolas-metralhadoras e prontos para atirar. Estavam barbeados. Um russo se adiantou e iniciou uma revista superficial, em busca de armas, munição e relógios. Os três ficaram sem os relógios.

Para a surpresa geral, nenhuma bala os atingiu. Foram feitos prisioneiros e, ainda mais surpreendentemente, bem tratados. Ganharam cigarros – um maço de Stambul cada um. Havia tempo não fumavam nada semelhante. Fumaram. Tinham 24 bons cigarros.

Conduzidos novamente ao porão, aboletaram-se na mesa repleta de panelas sujas e abandonadas às pressas. Havia potes de conserva numa estante e outros despedaçados no chão. O comissário russo se aproximou e deu ordens. Montaria ali um posto para comandar a operação, já que o combate continuava em outros pontos do vilarejo. Era um homem macilento, de olhos pequenos, rosto quadrado e talhado com traços graves; tinha também uma lustrosa careca alva. Virou-se para os três e iniciou um diálogo. O companheiro que falava russo se esforçou. Arregalou os olhos quando ouviu o nome do homem a sua frente.

– Ivan Konev.

Horst e o outro entenderam e sentiram o mesmo frio na espinha. O russo pareceu notar. O que falava russo explicou a reação. Sabiam quem era o Marechal Ivan Konev, um dos principais homens de Stalin, que travava uma competição particular com a tropa comandada pelo Marechal Georgy Zhukov para tomar Berlim primeiro – e que mostrava melhores resultados entrando pelo sul da Alemanha, após atravessar o Rio Oder como um trator e atropelar tudo e todos que encontrou pela frente. Horst observava o companheiro falar, os gestos dele explicavam tudo. Contava que conheciam a reputação dos inimigos. Haviam ouvido as histórias no front . Os Ivans sabiam ser cruéis. Konev ouviu atentamente até o fim, depois desatou em risos. Logo deixou os três e foi dar ordens a seus comandados.

No início da noite, já não se ouvia nenhum tiro do porão. Cessou quando a escuridão ganhou o céu. Um russo guiou os três prisioneiros até uma dispensa no fundo da casa e os trancou. Sentaram-se no chão. O barracão de alvenaria tinha a janela fechada e já estava tomado pela escuridão. Horst, de frente para o que falava russo, perguntou:

– Onde você aprendeu a falar russo?

– Eu não falo russo – disse ele, sem dar muita atenção.

– Mas o que você disse a eles lá dentro?

– “Não atirem.”

– Em russo?

– Em polonês. Eu sou polonês. Poloneses e russos se entendem ao falar.

– Que sorte eles terem entendido.

Dormiram por cerca de uma hora até serem despertados. O mesmo soldado russo que os havia trancado trouxe uma panela com sopa, que os três tomaram, sorvendo apressados, cada um com sua colher. Saciados, sentiram sede e pediram água. Outro russo, que recolhia a sopa, os rechaçou rudemente. Ao gesticular, deixou ver três relógios num mesmo pulso.

“Meu Deus”, disse Horst consigo. “Vai começar. Aquele tratamento de antes foi apenas momentâneo”. Mas logo o primeiro russo entrou com outra panela e indicou que era algo para beber. O sujeito sorria. No primeiro gole, Horst identificou: chá preto. E bem adoçado. Não tomara nada parecido em todo o tempo de guerra. Tomaram os três até se saciarem, depois encheram os cantis. Ali foram deixados e adormeceram.

Choveu durante boa parte da noite. Pela manhã, bem cedo, foram acordados e levados para fora da casa. O chão ainda estava molhado. Os três caminharam até um descampado próximo à estrada, onde se juntaram a centenas de outros prisioneiros alemães. Partiram em marcha. Para onde, não faziam ideia.