Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler
Sagan, Polônia. 4 de maio de 2016.
DEIXEI BERLIM rumo à Polônia no início da tarde de uma quarta-feira. O trem cruzou Halbe sem lhe dar atenção e seguiu na companhia dos pinheiros até Cottbus. Fazíamos quase o mesmo caminho que Horst fizera, pois o traçado da ferrovia é parecido ao da Berlim-Breslau. Tudo era plano, e o dia, feio. Em Cottbus, quando os pinheiros deram folga, fiz uma baldeação e segui para Forst, na fronteira com a Polônia, onde mudei novamente de trem e fui enfim para Sagan. Dentro do grande e confortável trem da Deutsche Bahn, eu observava as pessoas e me lembrava do dia anterior, quando finalmente conseguira entrar no prédio dos Brenke na Gubitzstraße.
O morador que saíra à janela na primeira visita continuava ocupado. O vizinho também, mas permitiu que eu entrasse no prédio para dar uma olhada. Me vi num pequeno vestíbulo, defronte aos dois apartamentos. Uma escada à esquerda levava ao piso superior; outra, à direita, acabava numa porta amarela poucos degraus abaixo. Tentei abri-la, mas estava trancada. Sentamos na escadinha e comecei a ditar à intérprete uma carta aos moradores, a qual eu pretendia passar por baixo das portas. Ouvimos alguém descer as escadas; era um casal, que se assustou quando nos viu. Nos levantamos e a intérprete foi se explicando. “Pergunte a ela se essa porta trancada leva ao bunker”, interrompi. Ela perguntou. A moradora disse que não. Era apenas a casa de máquinas. “Mas onde fica o bunker?” Não havia bunker nenhum, ela garantiu. Perguntou se queríamos dar uma olhada. Entrei mal ela terminara de virar a chave.
Definitivamente não era só uma casa de máquinas. Era uma passagem subterrânea que conectava todos os prédios da quadra. Caminhei pelo corredor, que era cortado por outros, e que sempre dava em novas portas amarelas. Havia escritos nas paredes, mas nada do tempo da guerra. O túnel não chegava mais aos outros prédios, pois as portas impediam. “Se houve um bunker aqui, ele já foi fechado há muito tempo”, explicou a moradora, uma mulher na casa dos quarenta, já impaciente com minha bisbilhotice. Eu seguia andando, atentando para os detalhes, as paredes de tijolos nus, o encanamento e a fiação. Dobrei numa passagem e caímos numa portinha para os fundos do prédio. A cicerone abriu e saímos. Ela logo fechou e deu por encerrada a nossa visita.
Pouca gente desembarcou na estação cinza e vazia de Sagan, que cruzei já no fim da tarde. Saí numa rua deserta, na qual a única alma viva era o taxista sentado ao volante de seu carro na calçada oposta. Ele não falava inglês. Entrei, disse o nome do meu hotel e fui observando a cidade.
Eu estava a menos de cinquenta quilômetros da fronteira, mas era evidente que estávamos agora em outro país. No carro, ia acompanhando o silêncio e as casas nas cores daquele dia nublado, com exceção do belo castelo, logo após o Rio Bóbr. Sagan é pequena e algo bucólica. No caminho até o hotel, vi apenas três dos quase trinta mil moradores que as estatísticas dizem haver na cidade; poucos carros passaram por mim. Ao me registrar, expliquei que desejava ir ao Stalag Luft III, mas a recepcionista disse que ficava um pouco longe e já estava fechado àquela hora. Fui então andar pela cidade.
Meu hotel ficava na periferia. Era uma rua com sobrados sisudos e nenhum movimento. Fui caminhando e logo o asfalto deu lugar a pedras portuguesas. Os sobrados ganharam cor pelo centro da cidade. Havia muitos carros estacionados na praça principal, por onde cheguei após seguir por ruas apinhadas de pequenas lojas e restaurantes. Tudo estava fechado, no entanto. Vi cinco bípedes, um urso e uma placa em homenagem a Johannes Kepler, que morou por alguns anos na cidade. Os bípedes eram jovens em idade escolar, e o urso carregava uma grande bomba. Era uma das peças de metal da praça, que tinha ainda uma moto típica dos anos de guerra.
Sagan tornou-se território alemão em 1939, quando Hitler invadiu a Polônia. No final daquele ano, foi criado o Stalag VIII-C, um dos maiores campos para prisioneiros do Terceiro Reich, cujo primeiro grupo a chegar era composto de soldados poloneses participantes na defensiva contra a invasão alemã. Depois deles, milhares de prisioneiros de dezenas de nacionalidades passaram por lá. Na primavera de 1942, mais um campo foi criado ao lado do primeiro. O Stalag Luft III, comandado pela Luftwaffe e destinado apenas a oficiais, era considerado um campo impossível de se escapar. Ironicamente, acabou famoso devido a uma fuga cinematográfica.
Em março de 1944, 76 prisioneiros fugiram depois de terem construído não um, mas três túneis; o principal deles chamava-se “Harry” e media 110 metros de comprimento, cavado a 9 metros de profundidade. O estratagema só não foi mais bem-sucedido por conta de um erro de cálculo. Faltaram a Harry alguns metros para desembocar já dentro da floresta. Além disso, uma queda de energia na noite da fuga atrapalhou os planos, que previam a saída de duzentos prisioneiros. A história ficou famosa na década de 1960 com o filme The Great Escape , de John Sturges e com Steve McQueen no papel principal, baseado em livro homônimo de Paul Brickhill. Dos 76 que fugiram pelo túnel naquela noite, 73 foram recapturados, 50 foram mortos pela Gestapo, 23 reconduzidos ao campo, e apenas 3 voltaram para casa.
Estima-se que trezentos mil prisioneiros passaram pelos dois campos entre 1939 e 1945. Quando os russos chegaram, na terceira semana de fevereiro de 1945, o campo já havia sido evacuado.
Passei todo o dia seguinte no museu, o tempo todo na companhia de um jovem espevitado chamado Mirek. Miroslav trabalha no museu há cinco anos e é um aficionado por histórias de guerra. A tarde já ia pela metade quando me pus a caminhar pelo campo, ou pelo que sobrou dele. Andando pela floresta, ainda se vê muitos objetos e roupas parcialmente enterrados entre a vegetação. Pouco mais de um quilômetro adiante cheguei ao local onde o túnel foi cavado e pude perceber o quão perto os prisioneiros estiveram de desembocar na floresta.
Voltei andando do museu e vi o trecho da cidade que fica do lado de cá do rio. É uma região mais pobre, aparentemente, onde em nenhuma venda encontrei alguém que falasse inglês. Chegando ao centro, passei novamente pelo Castelo de Sagan, reformado na década de 1980 e cujo jardim era de um verde-claro estonteante. O castelo foi saqueado e danificado pelos russos nos meses seguintes à chegada soviética, em 1945. Horst não chegou até a cidade para ver isso.
O centro da cidade estava tão vazio quanto no dia anterior. Estaria vazio à noite também. E da mesma forma no dia seguinte, quando pelejei para encontrar um táxi que me levasse à estação ferroviária.
Parti bem cedo de Sagan, num trem da Intercity que passaria por Breslávia. Eu viajava em companhia de Ryszard Kapuscinski. Desde o avião que me levou até Berlim eu vinha lendo o mestre, o exemplar de Minhas viagens com Heródoto embaixo do braço. Nesse livro, Kapuscinski relembra seus primeiros dias como repórter. Quando jovem, sonhava atravessar a fronteira de uma Polônia soviética. Acabou rodando o mundo para contá-lo de forma única. Eu viajo enquanto o leio, e ele revela que lia Heródoto e seu clássico História durante suas viagens. De certo modo, então, cruzo a Polônia com os dois comigo no vagão.
Cheguei a Opole ainda pela manhã. Deixei minhas coisas no hotel e corri ao local do campo em que Horst esteve. Opole é diferente de Sagan. É bem maior, mas tem ruas estreitas, prédios muito antigos, calçamento de pedra e muita gente nas ruas. Fui caminhando pelo centro histórico, atravessando vielas, depois ruas maiores, cruzei o rio e logo cheguei a uma região mais erma. O campo por onde Horst passou é hoje um terreno baldio, numa rua de asfalto defeituoso em que o mato cresce verde e áspero.
Há pouquíssimos registros dessa fase do pós-guerra. Em Opole foram criados, nesse período, quatro pequenos campos temporários; o maior deles, onde hoje está o terreno baldio, destinado aos prisioneiros que seguiam para a Rússia.
Opole é uma cidade às margens do Rio Oder e de história germânica desde sempre. Comerciantes alemães se estabeleceram na região ainda no século XIII. Após a Primeira Guerra, houve um plebiscito para consultar a população; mais de 90% decidiu que Opole deveria fazer parte da República de Weimar, em vez de integrar a Polônia. A cidade é tão conhecida pelo nome alemão Oppeln quanto pelo nome eslavo Opule. Só depois da derrota alemã na Segunda Guerra, após a Conferência de Potsdam, foi que Opole retornou à Polônia e ao nome de origem.
De Opole segui para Lublin, ainda na Polônia. À medida que caminhava para o leste, percebia, pelas janelas do vagão, a paisagem mudando. Antes de Lublin o trem começou a fazer curvas, e a paisagem de pinheiros cedeu definitivamente, substituída por campos ondulados e ensolarados. Eu seguia na companhia de Kapuscinski, e lê-lo só fazia aumentar uma de minhas aflições.
A primeira viagem de Kapuscinski foi para a Índia. Viu-se num país gigantesco, de cultura totalmente diferente da dele, onde não falava o idioma, não conhecia ninguém e onde não demorou a se angustiar com a impossibilidade de captar tudo que via e vivia para relatar. Eu estava apenas na Polônia, ainda no Ocidente, e mesmo assim cruzava o país com um sentimento semelhante.
Lublin, aonde cheguei no meio da tarde, foi um lugar por onde Horst apenas passou. É uma cidade relativamente grande, uma cidade universitária. Sua fundação data da Idade Média, e desde o século XVI uma grande comunidade judaica se estabeleceu lá. Andei pelo centro, visitei os castelos e o bairro onde funcionou um grande gueto judeu durante a guerra. Lublin serviu como quartel para a Operação Reinhardt, o diabólico plano nazista para eliminar judeus na Polônia. Mais de 25 mil judeus foram confinados no gueto de Lublin antes de serem enviados para campos de extermínio como Majdanek, a quatro quilômetros da cidade, ou Auschwitz. A maior parte dos judeus que estiveram no gueto de Lublin foi morta nos anos finais da guerra.
Horst não viu nada disso. Esteve apenas na estação, aguardando que o trem seguisse para o leste.