Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler
Udine, Itália. 5 de julho de 1946.
QUANDO O trem de volta para casa rompeu o limite austríaco, a Itália logo se apresentou silenciosa. As Dolomitas surgiam ao longe pelas janelas do vagão. Os alpes nevados não tinham mais seu manto branco; restavam apenas borrifadas de neve, que podiam ser vistas por trás das nuvens muito altas. Tudo aspirava a vida nova. No quinto dia de julho, quando pisou em Udine, Horst decidiu que tinha uma nova data de nascimento. Era primavera também.
Horst e outros homens foram entregues aos americanos, que se mantinham no norte da Itália desde o ano anterior. Eram bem mais gentis que os russos, Horst logo notou, e ele foi um dos primeiros a ser chamado para o registro. Só então se deu conta de que não carregava nenhum documento; os russos haviam lhe tomado todos os papéis. Restavam-lhe apenas aquelas folhinhas amarronzadas a que chamava de diário e que em nada poderiam ajudar. Horst tinha então um novo e velho problema diante de si: provar que era brasileiro.
Horst já não era o garoto baixo e gordinho que fora jogado sobre a caçamba de um caminhão e mandado para a guerra. Tinha crescido, apesar da alimentação ruim – ele mesmo percebia isso quando estava ao lado dos outros prisioneiros – e além disso, a comida das últimas semanas o recompusera um pouco da magreza. Seus cabelos loiros já haviam crescido ao ponto de serem partidos de lado novamente. A cabeça grande, o rosto vermelho e o português enferrujado não ajudavam em nada naquele momento.
Havia muitos na mesma situação. Horst foi colocado junto com um grupo no qual havia alguns argentinos; todos sem documentos. Foram mandados para o terreno de uma igreja, onde alguém os ouviu e escreveu uma carta para as embaixadas brasileira e argentina, notificando-as de que haviam desembarcado na Itália cidadãos que precisavam de ajuda para voltar para casa. A solução era esperar novamente. Sempre esperar. Horst já deveria ter se acostumado a isso, mas estava ansioso.
Uma semana se passou e nada aconteceu. O grupo acabou transferido para Bolonha, onde se estabeleceu em um campo provisório na entrada da cidade. Os ex-prisioneiros de guerra dos russos passavam a deslocados de guerra. Para Horst, a vida nova estava parecida demais com a antiga. E não havia nada de bom nisso. De Bolonha, mandou notícias para casa. Escreveu perguntando pela vida na Gubitzstraße, contando ter sido liberado do campo de prisioneiros russo e pedindo que lhe mandassem urgentemente algum documento.
No dia 18 de julho, escreveu em seu diário:
“Ainda em Bolonha. Tudo vai tão lentamente quanto foi com os russos. E sem uma lira partiu-se para cá. Antes teria sido isso impossível para alguém. Tinha-se coisas tão ruins e chamava a atenção em todos os lugares.
A UNRRA 2 , que ajuda o mundo, não se move pelas pessoas afetadas pela guerra. Ah! Passa-se por tudo e por todos”.
Horst acordou mais animado no dia seguinte. O Sol era abrasador. Do campo viam-se as montanhas ao redor da cidade, mas não dava para ver a cidade em si, com sua infinidade de pórticos e prédios medievais, todos ainda envoltos em ruínas. Mais de noventa bombas foram despejadas em Bolonha durante a guerra, e a cidade ainda foi palco de fervorosos combates a partir de 1944, quando os alemães foram confrontados por Partisans, primeiramente, e pelo exército aliado, em seguida. Em abril de 1945, poucos dias antes de Horst cair nas mãos dos russos, a liberação da Itália foi perpetrada por americanos, ingleses e poloneses. Naquele julho de 1946, a reconstrução já começara, mas ainda havia muito trabalho a ser feito.
Horst ficou quinze dias em Bolonha. Agosto chegou e nada havia acontecido, só veio a notícia de que eles teriam de seguir para outro lugar. O grupo de deslocados de guerra do qual Horst fazia parte foi enviado para Aversa, uma cidadela próxima a Nápoles. No mesmo dia em que desembarcou em Aversa, Horst seguiu para Nápoles, a fim de conversar com o cônsul brasileiro. Custava dezoito liras o bilhete de terceira classe entre as duas cidades. Horst conseguiu o dinheiro com o pessoal que o recebera na estação, mas teria ido andando se fosse preciso.
No trem que seguia para Nápoles, Horst ensaiava o português. Estava esperançoso com a mudança. Até então, não havia tratado com um brasileiro. Acreditava que tudo se resolveria quando estivesse de frente a um patrício. O trem seguia lento, Horst então se deu conta do quanto havia viajado de trem desde que sua vida tinha tomado aquele rumo. Ele achava tudo muito bonito na Itália e ficou boquiaberto quando viu o Vesúvio surgir pela janela, distante e imponente, além do mar azul. O trem chegou a Nápoles, ele saltou e deixou a estação, mergulhando no tumulto da Praça Garibaldi ainda destruída. Assustou-se com a agitação, o bonde passando aos solavancos, as pessoas pedalando apressadas em suas bicicletas, o barulho e o chão revolvido, as ruínas e o Sol a pino, o vulcão no horizonte e o mar azul, azul...
O cônsul brasileiro em Nápoles também não se convenceu.
Horst tomou o trem de volta para Aversa. Sobraram-lhe algumas liras. Decidiu escrever novamente para casa. Trazia consigo um postal ganhando em Bolonha. Escreveu:
“Meus queridos!
“De Bolonha eu cheguei em Aversa e quero enviar imediatamente um outro sinal de vida meu. Fui hoje para Nápoles e conversei com meu cônsul. Ele pouco acredita em mim, pois eu não tenho nenhum documento comigo. Por isso eu peço a vocês que tentem fazer chegar em minhas mãos o mais rápido possível ao menos meu passaporte e a certidão de nascimento. Talvez através do cônsul americano ou do cônsul suíço que devem ainda existir. Talvez até uma representação brasileira. Pois ele deve ligar imediatamente para o cônsul em Nápoles e confirmar que eu sou brasileiro. E encerro por hoje.”
Horst foi então conhecer sua nova morada. Caminhou pelas ruelas de Aversa, algumas delas tão estreitas que era preciso passar em filas; as pedras machucavam-lhe os pés; já era noite, mas ainda havia sol. Margeou o centro pelo oeste e foi parar diante de um grande portal de ferro. Sobre ele lia-se a placa “Ospedale Psichiatrico S. Maria Maddalena”. Depois do jardim, seguindo pelo caminho central, havia o grande e velho prédio, repleto de janelas esguias na fachada. Numa delas, depois de uma portinhola envidraçada, ficava o quarto onde ele dormiria. O sanatório em que Horst passaria os próximos dias estava vazio naquela noite.
Horst passou todo o mês de agosto no sanatório em Aversa. O ócio lhe incomodava. Foi algumas vezes a Nápoles, tentou conversar novamente com o cônsul, mas sem documentos de nada adiantou. Não recebeu notícias da Alemanha. Comprou um postal com uma imagem do Vesúvio. Escreveu novamente para casa no dia 21.
“As melhores saudações de Nápoles do seu filho, o viajante do mundo. Espero com saudades a primeira notícia de vocês! Se esta será uma boa ou má? Aqui está ótimo, apenas o dinheiro falta um pouco. Mas, mais do que isso, meus documentos! O pai fez aniversário ontem. Eu pensei muito nele. O que ele faz? Aqui não se conhece a chuva, o céu é eternamente azul. Aí, com vocês, está da mesma maneira?”
Passava muito tempo deitado. Às vezes na cama, às vezes no pátio do sanatório. Em outros momentos, caminhava pela cidade. Começou a juntar guimbas de cigarro, desfazê-las para aproveitar migalhas de tabaco e reuni-las em um novo papel. Com várias guimbas conseguia fazer um cigarro que vendia por qualquer quantidade de liras que conseguisse.
Quando se deitava no pátio do sanatório ficava impressionado com o azul do céu. Por vezes tinha vontade de tocá-lo. Raramente uma nuvem aparecia, e Horst se distraía vendo-a se arrastar pelo céu. Passava tão devagar que ele tinha a impressão de perder a tarde inteira e não vê-la se mover mais que alguns milímetros. O céu mudava tão lentamente quanto sua vida. Os dias passavam e ele andava um tanto quanto desinteressado de tudo. Quase não escreveu enquanto esteve em Aversa. Fazia quase um mês que não pegava no diário quando chegou uma carta urgente do cônsul em Nápoles.
A carta dizia para Horst ir imediatamente até o consulado com três fotografias, a fim de providenciarem o passaporte para que pudesse embarcar para o Brasil no navio que deixaria Nápoles no dia 25 de setembro. Horst correu. Na fotografia tirada na Praça Garibaldi, seu cabelo está partido de lado; o rosto, um pouco inclinado para a direita; é inevitável notar como ainda parece um garoto. E era realmente. O soldado brasileiro de Hitler, o ex-prisioneiro dos russos, o viajante do mundo era um garoto. Era um garoto de vinte anos que ainda pensava em sua coleção de selos e cujo maior sonho era voltar para casa. Para o Brasil.
No dia 25 de setembro de 1946, Horst Brenke subiu a bordo do Almirante
Jaceguay , que deixou o porto de Nápoles rumo ao Brasil. O vapor partiu
abarrotado de deslocados de guerra.
Horst chegou ao Rio de Janeiro no dia 17 de outubro de 1946.
Richard Brenke, Margarete e Maria do Carmo só chegaram em fevereiro de
1948. Maria do Carmo já não se lembrava do Brasil.
Horst foi encontrar seus pais no porto. Richard passou por ele e não
reconheceu o filho. Horst era um homem muito diferente do garoto que
havia saído para comprar pão e sido lançado na guerra.
Os Brenke voltaram para Belo Horizonte.
Horst se casou em 1954, com Ignez Brenck.
Juntos tiveram sete filhos.
Maria do Carmo Brenke se casou e teve quatro filhos. Ela ainda mora em
Belo Horizonte e continua sendo uma linda mulher.
Margarete Brenke morreu em 1957; Richard Brenke, em 1973.
Horst abriu uma loja de ferramentas e viveu em Belo Horizonte até morrer,
em 25 de maio de 1984.
No dia em que a morte o encontrou pra valer,
transvestida de um câncer, ele tinha 57 anos.
Não era primavera.
2 A United Nations Relief and Rehabilitation Administration (UNRRA) foi uma agência internacional de auxílio às nações fundada em 1943. Foi anexada pela ONU em 1945 e encerrou boa parte de suas atividades em 1947, dando lugar ao Plano Marshall. [N.E.]