Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler
Vladimir, Rússia. 20 de janeiro de 1946.
NÃO EXISTIU silêncio durante todo o inverno.
O vento assobiava sem pausa, cortando a estação de descarga, viajando em redemoinhos de neve e variando de tom. Era uma tarde cinzenta de fins de janeiro, e Horst caminhou até a barraca construída no meio do pátio. A tempestade de neve lhe atrasava o passo, o vento reverberando dentro de sua cabeça, como ocorria a todos o tempo inteiro. Tudo era branco ao redor. Uma locomotiva uivou em algum lugar. Estava por perto, além das árvores ou poucos trilhos adiante, mas a neve não permitia ver. Em Vladimir, por aqueles dias, os trens eram como lobos, e lobos eram só o que faltava naquela paisagem fantasmagórica.
Havia outros homens na barraca. Quietos, tentavam se aquecer, mas o fogo estava tão fraco que pouco tempo depois restaram apenas cinzas. Era preciso buscar mais turfa e madeira, o que significava deixar a cabana, cruzar o pátio coberto de neve, encarar o vento e voltar com a carga. Se fosse dias atrás, teriam mandado Horst ir buscar; era o que faziam com os novatos. Agora, ele já não deu a mínima quando o olharam, e ninguém teve coragem de lhe dizer nada. Àquela altura, Horst também não se importava mais com a possibilidade de um guarda aparecer. Decidira fazer uma pausa e não temia ouvir qualquer repreensão.
O frio diminuíra um pouco pelo meio de janeiro, e o degelo ameaçou começar. Mas não passou de ilusão. A neve caiu ainda mais forte alguns dias depois, a temperatura chegando aos trinta graus negativos. Era o que marcava o termômetro da estação de descarga na tarde em que os homens se escondiam na barraca. O vento varria a neve do chão, e Horst olhou a estrada que haviam limpado para a passagem dos caminhões. Estava novamente tomada de branco. Dentro da barraca, o fogo seguia apagado e ninguém parecia querer acendê-lo. Algo então pareceu diferente no barulho do vento: ao longe, o ronco de um motor anunciou a chegada de novo caminhão. Horst amaldiçoou a todos, levantou a gola do paletó e partiu para fora. Calçou as luvas – umas luvas esfarrapadas que havia recebido para trabalhar – e apanhou outra vez a pá para abrir o caminho.
Naquela noite, no campo principal, Horst gastou um longo tempo observando os vigias. Não estavam armados. Tentou ver, apesar da neve e do escuro, a guarita na entrada. Havia apenas um homem, não era possível garantir que estivesse desarmado, mas era certo que não usava capacete. Nunca usavam capacetes. Horst pensava na facilidade com que poderia alvejá-lo da distância em que se encontrava, sentado próximo à entrada do alojamento. Lembrou-se de Hetzenauer, o soldado de que ouvira falar durante a guerra, um atirador com centenas de mortes no currículo e que havia cravado uma bala num russo a mais de um quilômetro de distância. Hetzenauer acertaria com os olhos fechados. Ele, Horst, também, se tivesse um bom Mauser nas mãos. Ele teria coragem de fazê-lo. Neste caso teria.
Horst andava cada vez mais irritado. Deixara de ter esperanças de ser enviado de volta para casa. Agora, estava apenas decidido a voltar. Resolvera que conseguiria de qualquer forma. Assim que o inverno acabasse e o sol tornasse a brilhar, fugiria dali.
Horst estava com o espírito forte, mas seu corpo estava cansado. Não suportava mais aquela sopa que só trazia mais fome. Passou a dormir muito quando estava no campo. Quase tinha preguiça de se levantar para comer. Nos dias de folga, mal deixava seu colchão de palha. Havia voltado aos dias da viagem de trem: tentava combater a fome dormindo, se esquecendo dela, mas ela não o abandonava.
Horst também não escrevia muito. Ainda usava o papel roubado do escritório e ele chegava ao fim; não via perspectiva de conseguir mais. Além disso, o trabalho lhe tomava muito tempo; os dias de folga passavam sem se ver. Nestes, pela manhã, iam todos ao banho. Horst costumava gastar algum tempo remendando o uniforme sujo e esburacado; às vezes, lia um livro grosso e amassado que rodava pelo alojamento. Quando percebia, o dia havia passado e ele dormira a maior parte do tempo. Pegava então o diário e voltava a dormir.
O papel chegou realmente ao fim no dia 12 de fevereiro. A última coisa que escreveu foi sobre o tempo. Os termômetros marcavam novamente trinta graus negativos.
Foi Rudolf quem lhe ensinou como arrumar papel. Eles foram conversar com um dos homens do alojamento, que trabalhava nas obras, levantando pequenos prédios num terreno ao lado da cidade, não muito longe da fábrica de tratores. Ele foi prestativo. Trouxe, logo no dia seguinte, um pouco de papel para Horst. O papel vinha dos sacos de cimento. Os prisioneiros que trabalhavam com construção civil retiravam as quatro folhas que formavam o saco e escondiam a folha mais interna, normalmente, mais macia e menos suja. Horst limpou a folha, cortou-a em retângulos, dobrando-os ao meio e costurando-os ao centro com um pedaço de arame que o companheiro já havia trazido. Horst tinha então um novo diário. Era o terceiro diário desde que se tornara um prisioneiro de guerra.
A rotina no campo principal incluía um trabalho de vigia. Alguns prisioneiros se revezavam à porta do alojamento, velando o sono dos outros e cuidando para que nada fosse roubado. Era a vez de Horst, já pelo fim de fevereiro; a neve ainda cobria o pátio e o vento corria sem trégua quando os alto-falantes bem acima dos beliches começaram a transmitir o julgamento de Nuremberg. Quase ninguém dormiu.
Um sujeito interrogava o Marechal Paulus, e logo o interrogatório se tornou interessante para todos no alojamento do campo principal.
“Testemunha”, dizia uma voz fina, “você pode informar acerca de como eram tratados os prisioneiros de guerra alemães na União Soviética?”.
“Esta questão”, começou o Marechal Paulus, “sobre a qual foi feita uma quantidade incrível de propaganda, a qual levou ao suicídio de tantos oficiais alemães e pessoal alistado no caldeirão de Stalingrado, me obriguei a considerar pelo bem da verdade...”.
“Um momento”, interrompeu um terceiro homem. “A inquirição diz respeito a questões relevantes aos assuntos que o Tribunal deve julgar ou questões relevantes à credibilidade da testemunha. Questões que dizem respeito ao tratamento de prisioneiros na União Soviética não têm absolutamente nada a ver com os assuntos que temos de julgar, e não são relevantes à credibilidade da testemunha. Portanto, o Tribunal não as ouvirá.
“Senhor Presidente, posso dar uma razão pela qual faço tal questionamento?”, tornou o homem com a voz suave, tinha algo de teatral ao falar. “Posso fazer uma breve declaração?”
“Sim.”
“Eu gostaria de propor tal questão porque conseguiria constatar como, de fato, prisioneiros de guerra eram tratados, para que um número maior de famílias alemãs, as quais estão extremamente preocupadas a respeito de tal assunto, pudessem, assim, receber informações, para que suas preocupações cessassem.”
“O Tribunal é da opinião de que não se trata de matéria pertinente ao Tribunal.”
“Não tenho mais perguntas para fazer à testemunha”, a voz fina pareceu distante.
“Nós, os esquecidos”, Horst disse consigo, “sabemos melhor do que ninguém como as coisas estão para nós”.
Ouvir o Marechal Paulus o fez pensar nos comandantes de campo durante a guerra, nas tentativas constantes de impelir os soldados contra os russos, de manter acesos o ódio ao inimigo e a fé na vitória alemã, por mais inacreditável que ela pudesse parecer. Muitos deles agora eram chefes de companhia. Trabalhavam para os russos, se dizendo contra o que por muito tempo haviam defendido. Horst se incomodava com os alemães que trabalhavam no campo dando ordens a prisioneiros alemães. Principalmente, porque eles comiam melhor. E nada poderia lhe irritar mais do que algo relacionado ao estômago.
Nos últimos dias de fevereiro, Horst recebeu seu primeiro salário: 75 rublos. Podia-se comprar, se desse sorte de encontrar, um quilo de pão por 25 rublos. Por esses dias também ele começou a ter dificuldade para respirar. Logo percebeu que tinha algo nos brônquios. Passou dois dias sem ir ao trabalho, embora tenha tido problema para convencer o chefe da companhia de que realmente estava doente. Horst teve febre. Já era março quando voltou ao trabalho. O inverno começava a ceder.
Horst foi colocado para trabalhar carregando ferro durante alguns dias. Sua comida foi roubada pela manhã. Pouco depois, recebeu notícias de casa. Leu a carta com vontade de chorar. Não se recuperou verdadeiramente. Sentia-se cansado o tempo todo, continuava com dificuldade de respirar, mas acreditava que aquilo melhoraria assim que o sol voltasse a reinar. Torcia para o inverno terminar logo. Antes de o mês terminar, alguém apareceu procurando por seu número de categoria. Horst foi novamente à enfermaria, e a mesma médica que um dia o enxotara de lá o atendeu e lhe aplicou uma injeção.
Só em abril o inverno terminou de vez. Horst foi trocado de trabalho e acabou escavando carvão para uma fábrica de sabão. Definitivamente não era um bom trabalho. Ainda em abril, passou à limpeza da fábrica. Foi melhor, embora ainda tivesse que caminhar muito para chegar até lá. Antes de o mês se encerrar ele retornou aos vagões na estação de descarga, desta vez um trabalho noturno. Quase deu para sentir falta dos meses de inverno.
No dia 28, Horst completou um ano como prisioneiro. Foi um domingo. Um ano havia se passado desde o dia em Halbe, quando os russos atropelaram o batalhão alemão já completamente perdido, sem comando e sem vontade de lutar. Um ano. Um ano sem liberdade. Foi um domingo de trabalho. Mas foi um domingo de sol. Horst recebeu 150 rublos como pagamento. Não havia recebido nada no mês anterior. Estava cansado e ansiava pelo 1º de maio, pois seria um dia de folga. E foi realmente.
Houve boa comida. Houve até um pedaço de bolo e vinte gramas de gordura. Foi um dia ensolarado, e só de não haver trabalho já dava um clima melhor ao campo. Horst também não trabalharia no dia seguinte. Era o dia de folga de sua companhia, quando deviam tomar banho e costurar os trapos que tinham por roupa. Dessa forma, ele teria dois dias para recuperar forças e tentar pôr os pensamentos no lugar. Mas o chefe não pensou assim. Acordou os homens logo e os mandou para fora. Iriam trabalhar normalmente.
Horst trabalhou durante toda a manhã na estação de descarga. Havia chegado um trem abarrotado de carvão e não faltaria trabalho naquele dia. Pela tarde, uma tempestade surpreendeu a todos. Horst e outros três homens saltaram para dentro do vagão e se sentaram no chão. Horst observava a chuva cair com violência sobre o pátio, varrendo a terra que havia sido branca durante muito tempo. As árvores ao redor da estação começavam a recuperar seu verde e balançavam de acordo com o vento. Era boa a sensação de estar dentro de um trem. Se Horst fechava os olhos, conseguia imaginá-lo em movimento, levando-o de volta para casa. Os três camaradas, também sentados ao chão do vagão, não pareciam tão descontraídos. Estavam temerosos de que o vigia passasse e os visse sem trabalhar.
– Se um dia eu voltar pra casa – disse Horst –, vou acertar as contas com eles.
– Eles quem? – perguntou um dos três.
– Esses que se chamam antifascistas.
– Os vigias?
– São os mesmos que nos impeliram no campo de batalha e agora tentam se esconder atrás da máscara de inocentes.
– Mas o que podemos fazer? – lamuriou um dos camaradas.
– Serão todos desmascarados – Horst viu que lhe davam atenção. – Minha convicção é a da paz e da luta contra o fascismo.
– Sei – disse o outro homem, que até então estava calado.
– Conceder ao trabalhador – continuou Horst – uma boa vida.
– Eles só fazem se esconder do trabalho – tornou o primeiro camarada.
– Para comerem até ficarem satisfeitos – conclui Horst. – Enquanto a gente come uma kasha sem força alguma.
– São uns parasitas.
– Se, mais tarde, tudo der certo – disse Horst.
– Vai dar. Tem que dar.
– Vou me levantar e ir adiante – continuou Horst. – Lutarei contra o fascismo e o capitalismo. Eles querem apenas sugar o trabalhador. A guerra, como eu entendo essa palavra, nada mais é que semear desgraça e destruição entre as pessoas; é elaborada em maquinações por alguns poucos, que pretendem enriquecer com o sangue das pessoas, mas querem manter-se incólumes a ela. Mas agora já aconteceu, e a gente tem que suportar as consequências.
Os homens não pareciam mais interessados.
– Não se deve ficar pensando muito a respeito do que nos fizeram – disse Horst. – Nós fomos lançados à força num grupo que tinha a ordem de matar. Atirar com uma espingarda para fuzilar pessoas.
O temporal dava uma trégua. Os homens foram se levantando para voltar ao trabalho.
– Não, eu não pude fazê-lo – seguiu Horst. – A mim essas pessoas não tinham feito nada. – Não havia mais ninguém para ouvi-lo.