Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler
Vladimir, Rússia. 14 de maio de 2016.
QUASE NÃO chego a tempo, desorientado com as palavras em cirílico no metrô, mas consegui pegar o trem das 11h. Uma hora e trinta e nove minutos depois, havia percorrido os 188 quilômetros que separam a capital da cidade de Vladimir. Meu amigo Vitaly Gurinovich foi me receber na estação. Logo que me viu, abriu um sorriso e veio em minha direção. Vitaly usa um bigode fino e tem o nariz grande; os cabelos são penteados para trás; ele já passa dos cinquenta, mas tem um corpo enxuto e aprumado. É a cara do Sean Penn.
Vitaly Gurinovich trabalhou durante décadas no museu histórico de Vladimir. Atualmente, dedica-se a negócios internacionais, ele me conta. Ainda é o maior entendido da história dos prisioneiros alemães na cidade. Explico a ele que tenho fome e vamos para um café no centro, depois de deixar minha mala no apartamento. No caminho, ele me mostra os pontos turísticos e tenta me explicar a estrutura da cidade. Seu inglês é muito bom.
Vladimir – eles pronunciam a segunda sílaba como a tônica, diferente de nós, brasileiros – é uma cidade medieval, construída no século XII, às margens do Rio Kliazma. Seu passado está visível nas catedrais ortodoxas, com suas torres douradas, que lembram bolas de glacê. Há ainda outros monumentos pelo centro histórico, que na verdade são duas grandes avenidas que acompanham o rio por cerca de quatro quilômetros. Vladimir tem hoje mais de 350 mil habitantes, tendo crescido muito após os anos 1990. Em 1945, quando Horst chegou por lá, não tinha sequer um quinto disso.
Enquanto almoçamos, Vitaly me explica o plano do dia. Vai me mostrar onde ficavam os cinco campos que havia na cidade durante a guerra e nos anos que a seguiram. Sabemos que Horst passou por pelo menos três deles, possivelmente quatro. Vitaly sabe também onde funcionava o tal escritório do GPU, que Horst tanto mencionou no diário. Segundo Vitaly, no entanto, tratava-se do escritório do departamento de polícia, que era onde funcionava uma espécie de secretaria de obras. O GPU propriamente dito, o serviço secreto russo, operava em frente a esse prédio, e os agentes usavam o mesmo uniforme que os policiais; por isso eram todos tratados como uma coisa só. Termino minha sopa, como um bife com batatas e partimos.
Vamos a pé até uma igrejinha ortodoxa, escondida em uma ruela estreita, já no limite da ribanceira que dá para o rio. A igreja foi fechada em 1924, após a revolução, e reaberta em 1944, no final da guerra, para abrigar prisioneiros. Só tempos depois foi concluída e retomada, ganhando a cara que tem hoje. Nos fundos, há um pequeno cemitério para pessoas da comunidade; há também prisioneiros enterrados ali. Entramos pela porta secundária. A igreja parece nova por dentro, tem muitos quadros, grandes imagens, um amarelo calmo e imaculado nas paredes. É obviamente bem diferente do tempo em que foi acampamento de prisioneiros. É até difícil imaginar como devia ser quando abrigava quase duzentos homens maltrapilhos e era conhecido como “acampamento nº 9”.
Saímos dali e tomamos o carro. Paramos perto de um grande prédio, com imensas colunas gregas na entrada. Ali funcionava o tal escritório em que Horst trabalhou. À sua frente, outro prédio menos imponente, onde funcionava o GPU. Mais adiante, um monastério. Por uma rua que mais parece um terreno baldio, pouco depois do monastério, entramos e nos deparamos com um quintal meio abandonado. Ali funcionava o campo nº 10, principal campo dentro da cidade, com capacidade para mais ou menos 150 pessoas. O campo foi construído onde então funcionava um hipódromo. Vários prisioneiros falam disso em suas memórias, do cheiro, do ambiente, do contato com os cavalos. Vitaly me conta como era a disposição do campo. A casa de banho ao fundo, o refeitório à esquerda, o alojamento de madeira bem no centro. Hoje é um terreno baldio cheio de pequenas garagens de ferro, uma pequena casa dando para a rua, um depósito de qualquer coisa na lateral.
Esses eram os dois campos que ficavam na cidade. Pela lateral do prédio do GPU, vemos a rua por onde chegavam os prisioneiros vindos dos campos maiores, fora da cidade. Ela surge como um caminho morro abaixo, deságua em uma grande vala, ainda em obras, cerca de quatrocentos metros depois, quando sobe novamente como um morro ainda mais íngreme; aplaina-se rapidamente e, lá em cima, quase dois quilômetros depois da avenida maior, ultrapassa um grande parque. No quarteirão seguinte estamos no local onde funcionava o campo principal. Hoje em dia a cidade chega até lá, ultrapassa o campo e continua. Em 1945, acabava no pé da subida. Tudo ao redor do campo era mato e floresta. Sobre o campo nº 1, que abrigava cerca de mil prisioneiros, foi construído um grande prédio comercial, além de outras construções menores. Ainda é possível ver um velho prédio erguido pelos prisioneiros, bem no centro; logo atrás, me explica Vitaly, ficava o campo de futebol a que Rudolf Koch se refere em sua carta para Horst.
A noroeste dali, dois quilômetros depois, chegamos à fábrica de tratores, principal local de estadia de Horst. O terreno da fábrica era muito maior – hoje há um shopping nele – mas a fábrica ainda está lá, pequena. Logo na entrada, há três pequenos prédios de tijolos vermelhos. Foram construídos pelos prisioneiros a partir de 1946. Uma pracinha em frente a eles contém uma homenagem; foi construída por iniciativa de Peter Steger. Vitaly me guia de volta ao carro e vamos para uma entrada lateral. De lá, vemos de longe o velho galpão em que funcionava a fábrica na década de 1940. É o mesmo que Horst via. Se parece com o desenho que ele fez no caderno da transcrição. O campo dentro da fábrica de tratores era tratado como “campo nº 8”, mas nunca foi um campo propriamente dito, esteve sempre em caráter provisório – o que não impediu que Horst e muitos outros passassem bastante tempo ali. Um campo provisório tem estrutura ainda pior que um campo normal, que já não era lá grandes coisas. Estamos no meio da primavera, mas é possível imaginar o lugar à minha frente durante o inverno. Nada fácil.
No caminho de volta ao centro passamos por onde funcionava a fábrica de tijolos. Quase ao lado ficava o campo nº 2. Segundo Vitaly, era provavelmente o campo com as piores condições, e o trabalho na fábrica, provavelmente o mais duro. Vitaly já mostrava um pouco de dificuldade de encontrar as palavras em inglês para dar suas explicações. Estava cansado. Eu também. Foi um dia longo.
Vladimir tornou-se ponto para alocação de prisioneiros ainda durante a Batalha de Stalingrado. Ou seja, os primeiros prisioneiros começaram a chegar em 1942. Alemães em sua maioria, mas também franceses, ingleses, romenos, poloneses, italianos... Ser prisioneiro em Vladimir significava pertencer ao campo de número 190 na Rússia. Não há um número exato, mas milhares de homens passaram por lá. Muitos, como Alfons Rujner e Wolfgang Morel, entravam jovens e, quando voltaram para casa, eram adultos.
Horst só foi libertado em 1946 por ser brasileiro. Caso contrário, ficaria mais tempo. A maior parte dos prisioneiros alemães só voltou para casa depois de 1949. Muitos morreram em Vladimir. Quase sempre por má alimentação ou doença relacionada à falta de alimento ou higiene – tifo, por exemplo.
A vida dos prisioneiros em Vladimir podia ser bem distinta. Os prisioneiros que viviam no campo nº 9, na igreja do centro da cidade, pareciam ter uma vida aceitável. Há várias fotos deles durante esse período. Pode-se dizer que parecem saudáveis. Nos últimos anos, alguns deles formaram uma orquestra e realizavam apresentações musicais na igreja. Outros não tiveram tanta sorte. Horst foi um desses, embora, durante os quatro meses em que trabalhou no escritório na cidade, pudesse ser considerado um prisioneiro de sorte. No resto do tempo, no entanto, não. Viveu em campos com más condições. Trabalhou duro.
No dia seguinte, Vitaly me levou até o museu. Já não trabalhava lá, mas transitava, solicitava favores e fuçava os arquivos como se ainda fizesse parte. Pacientemente, traduzia as informações para o inglês e me ajudou a preparar a carta com os pedidos de pesquisa para o Arquivo do Estado Russo. Além disso, me fez cumprir obrigações de boa vizinhança, me apresentando a diretores e altos funcionários do museu e da cidade.
Passei quase uma semana em Vladimir. Diariamente, fui ao museu para pesquisar, ver fotos, documentos, ler memórias de outros ex-prisioneiros. Só durante essas conversas no museu é que fui perceber algo curioso na história de Horst Brenke. Todos ficavam abismados com o fato de o diário ter sobrevivido. Nunca haviam encontrado um ex-prisioneiro que tivesse voltado para casa em posse de seus papéis. Eu tinha então um novo mistério: como Horst havia conseguido escapar com seu diário? Era mais uma resposta que eu nunca iria obter sobre a história de Horst Brenke.
À tarde, eu andava pela cidade, pelos locais onde Horst havia passado. Fui até uma cidadezinha a poucos quilômetros dali, chamada Suzdal. Suzdal abrigou um grande campo de prisioneiros após a guerra e hoje tem um museu muito rico de informações. É uma pena que a situação não seja tão bem registrada em Vladimir, mas é compreensível. O campo nº 160, em Suzdal, foi um campo para oficiais. O Marechal Paulus esteve preso lá. Foi um campo com boas condições para os prisioneiros e, por isso, usado como propaganda para o restante do mundo, ilustrando com fotos e depoimentos o modo humano como os russos tratavam seus prisioneiros. Em Suzdal viveram também muitos italianos. E essa foi uma hipótese levantada para o fato de Horst ter ido parar na Itália quando partiu da União Soviética.