Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler

Tarcísio Badaró · Capítulo 15 de 32

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Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler

Vladimir, rússia. 3 de setembro de 1945.

JÁ ERA setembro quando a chuva reapareceu em golfadas, numa manhã de segunda-feira. Pareceu um presságio.

 

O dia anterior havia sido bem diferente. O domingo havia amanhecido ensolarado, a luz já entrando pelas gretas do alojamento da fábrica de tratores antes mesmo de Horst abrir os olhos. Assim que ele acordou, lembrou-se de que o dia era de folga. Seu estômago o lembrou de que sentia fome, e desse modo ele passou impacientemente pela revista, ansiando pela sopa aguada que imaginava receber em seguida. Surpreendeu-se quando despejaram a sopa na tigela que chamava de prato e sentiu algo sólido acompanhar o líquido. Havia batatas novamente. Houve também pão. Os homens comeram apressados e logo retomaram a formação para seguir para o banho no campo principal.

Foi um domingo especial. Primeiro, pela folga; depois, pela boa comida. Por fim, porque, à tarde, os prisioneiros receberam a visita de Stalin.

Horst havia acabado de voltar ao campo principal e parecia perdido em seus pensamentos. Os alto-falantes no topo dos postes tossiram alguma coisa, engasgando e apitando até limparem a garganta e começarem a transmitir o discurso que Stalin fazia naquele momento, em Moscou. Horst compreendia apenas algumas poucas palavras, mas logo se espalhou a informação de que, naquele domingo, era decretado o dia Internacional da Paz. Horst não soube muito bem o que aquilo significava. Não compreendeu que o Japão havia se rendido formalmente, pondo um fim definitivo à guerra, motivado por uma enorme bola de fogo que tinha caído sobre o país.

Horst se encorajou a lavar as calças de seu uniforme. Passou o resto do dia no alojamento, de pernas nuas, as calças estendidas em um varal improvisado, Stalin já o havendo deixado. Encontrou-as secas no dia seguinte e as vestiu assim que se levantou. Estavam duras. A chuva que batia forte sobre as paredes do alojamento indicava que as calças não ficariam daquele jeito por muito tempo.

A segunda-feira foi anunciada como feriado para todos os prisioneiros, mas Horst foi levado ao escritório. Suas calças custaram a secar; seus pés mais ainda. Com as botas cheias de buracos, era impossível mantê-los secos em um dia de chuva. Os prisioneiros do escritório não precisariam trabalhar, embora tivessem sido mandados para lá. “Até melhor”, pensou Horst, “em tempos de chuva o campo é quase insuportável”. Conversou longamente com Jupp. Falaram do futuro. Horst admirava a engenhosidade do amigo. Depois, ficaram quietos e os pensamentos foram dar no número 11 da Gubitzstraße. Ele pegou o diário.

“Se lá em casa também chove momentaneamente? Onde é realmente meu lar? Tenho mesmo um ainda?”, escreveu. “Ah! Adiante com todos os pensamentos turvos. Se eu não tenho mais nenhum, então vou criar novamente um para mim!”

Na semana que se seguiu não houve pão; a urtiga reapareceu na sopa, enquanto as batatas sumiram. Muitos homens mostravam logo os reflexos da alimentação ruim. Além da fraqueza, criavam brotos, machucados que não cicatrizam. E não podia ser diferente: foi uma semana de chuva, quase ninguém tinha boas botas e, para piorar, vários homens andavam perdendo os dentes – escorbuto. Jupp, Jupp, sempre o genioso Jupp... Horst aprendera com ele a roubar cebolas na cozinha e esfregá-las nos dentes. Seus dentes se mantinham firmes, e ele creditava isso ao conselho do amigo.

A chuva só deu trégua no domingo seguinte. Horst trabalhou pela manhã e foi ao campo principal durante a tarde para se banhar. O dia demorou a escurecer: já eram oito horas e ainda havia luz do sol, mas um sol que não aquecia absolutamente nada. Horst terminava de se secar ao ar livre e sentia uma fome lancinante. Encostou-se a um dos alojamentos para fugir do vento. Costumava se encolher para enganar a fome. Servia também para tentar se aquecer. Enquanto aguardava os companheiros terminarem, tomou o papel.

“Já irão nos deixar loucos. Para mim, em breve, é como se eu deitasse na cova. O principal é que eu deite quente. Já está tão frio que o lápis escorrega dos dedos duros! Daqui a pouco não vou poder mais escrever! Tomara que essa miséria tenha logo um fim. De um jeito ou de outro.”

Dois dias depois teve pão. O vento assobiava por entre as madeiras do alojamento. Não havia cobertores. Para se aquecer, Horst tinha apenas o uniforme, sua segunda pele havia vários meses. Avizinhava-se o maior receio de todos os prisioneiros: o frio. Horst já tinha dificuldades para escrever no diário, não conseguia firmar os dedos, como previra. O escritório o aliviava consideravelmente, pois lá havia uma lareira, e sua sala ficava aquecida. Mas a vida no campo estava se tornando insuportável. No caminho para a cidade, ele via outros prisioneiros trabalhando na terra, sob um frio de congelar. Ele tinha sorte. Devia sempre se lembrar disso. Às vezes tinha vontade de comer assado, tomar vodka, fumar papirosa, e nada disso passava de devaneio. Devia se lembrar de que tinha sorte.

Houve pão no começo de outubro, e o ânimo dos prisioneiros melhorou um pouco. A volta da chuva, alguns dias depois, tornou a enevoar o horizonte. A partida de um novo trem para casa, na semana seguinte, reacendeu a esperança de muitos, entre eles, Horst.

Ele viu quando os romenos deixaram o campo em direção à estação, parecendo aliviados. Ele se perguntou quando seria sua vez. Por algum motivo, estava esperançoso. Sua fé apontava para a sorte de ser enviado de volta antes de o inverno realmente chegar. Acabada a guerra, não lhe parecia fazer sentido manter um prisioneiro trabalhando naquelas condições em pleno inverno russo. Ainda mais um prisioneiro brasileiro como ele! Ele ainda pensava assim quando as folhas das árvores cobriram o chão ao redor do alojamento, dali a alguns dias, e até tentava manter esse pensamento no final de setembro, quando seu corpo começou a doer e todos começaram a notar como seu rosto estava esquálido e sem cor. Mas já não foi possível.

Foi no trabalho que Horst se deu conta. Rabiscou durante toda a manhã de domingo com muita dificuldade. Ainda queria acreditar haver um trem para si antes do inverno. Gastou suas forças tentando pensar em casa quando recebeu o almoço. Se lá estivesse, receberia um bom pedaço de carne no prato. Horst era capaz de se ver voltando da sala para o quarto, de barriga cheia; deitaria sobre a cama macia e gastaria um bom tempo observando os desenhos pregados à parede. No fim do dia talvez saíssem para passear, como tantas vezes fizeram. Iriam ao cinema, quem sabe o Plaza ou o Scala, por que não uma volta pelo Wintergarten? Pensar em tudo aquilo lhe exigia tanto esforço que ele começou a se irritar com seus pensamentos. Eram todos tolices. Sentou-se em um canto do escritório e encolheu-se, abraçando as próprias pernas. Um tempo depois, chamou Jupp para dizer que precisava ver um médico.

Horst não foi se banhar no campo principal naquele domingo. Deixou o escritório direto para sua cama no alojamento da fábrica de tratores. Nenhum médico apareceu. Ele não foi colocado para trabalhar no dia seguinte. Dispensaram-no logo pela manhã, assim que viram seu estado. Nenhum médico apareceu na segunda-feira. Nem na terça. Ele passou o dia deitado, sozinho no alojamento, que lhe pareceu imenso. Vazio como seu corpo. Horst era agora um homem magro, sem músculos ou gordura. As maçãs do rosto estavam tão distantes dos olhos quanto ele de casa. Horst sentia uma dor estranha. Dor de fraqueza, de cansaço, de morte. Deitado, ele esperou pelo almoço, que lhe foi entregue no beliche. Comeu sem ter fome. Havia batatas na sopa fraca. Elas estavam geladas e não tinham sido descascadas. Horst olhou pela porta aberta e viu o céu lá fora; percebeu que, embora dia, o sol quase não podia ser visto.

Outubro entrou na semana seguinte e Horst seguiu afastado do trabalho. Sentia-se melhor, mas não se sentia bem. Na primeira sexta-feira do mês, de manhãzinha, toda a companhia havia partido para o trabalho e ele estava novamente sozinho no alojamento. Pela janela, Horst via uma das chaminés da fábrica, lá longe, baforando fumaça lentamente. Olhou por muito tempo para elas. Seus olhos se cansavam e elas passavam a parecer vapor, miragem, alucinação. Ele as olhava quando alguém entrou. Era um prisioneiro alemão, chefe de alguma outra companhia, pois ele não o conhecia.

– O comandante quer te ver – disse o sujeito.

Horst saltou da cama. Fez perguntas enquanto catava seus papéis e os poucos objetos que mantivera consigo, jogou tudo no alforje que guardava embaixo da cama e saiu ao encalço do homem, que não disse mais nada. Os dois caminharam até o campo principal; logo no pátio, encontraram o comandante, que disse algo a Horst.

– Ele pergunta se você é o brasileiro – disse o chefe de companhia.

Horst confirmou que sim. O comandante apontou e tornou a falar.

– Você deve se juntar àquele grupo – traduziu mais uma vez o sujeito.

Horst já seguira o dedo do comandante e olhava para um amontoado de pessoas sentadas ao chão, em volta de uma das casas de alvenaria do campo principal.

– Partirá um trem em breve – completou.

Horst juntou-se ao grupo. Um homem saía pela porta, e logo foi a vez dele. Ele ainda não conhecia a enfermaria. Um Stabsarzt alemão o recebeu, disse que faria alguns exames rápidos. Pediu que Horst tirasse a camisa do uniforme e perguntou como ele se sentia. Os dois olharam para o corpo magro, as costelas aparentes, e Horst o respondeu com os olhos.

– Não se preocupe – disse o médico. – Neste campo só três pessoas estão bem-nutridas. Os três cozinheiros.

Horst riu, logo depois passou as mãos pelos braços para se aquecer. O médico o autorizou a recolocar a roupa e meneou em direção ao forno que servia de aquecedor. Horst se vestiu e caminhou até ao forno, quando entraram na sala uma mulher baixinha, que também parecia ser médica, e um vigia russo com as mãos cheias de folhetos, dos quais um exemplar entregou para Horst.

O calor do forno era agradável. Horst tomou o folheto em suas mãos e leu a manchete: “O campo de concentração”. Estava escrito em alemão. Ele começou a lê-lo. O texto falava dos crimes nazistas cometidos durante a guerra. Falava de assassinatos, de torturas, de pessoas transformadas em cinzas dentro de fornos crematórios. Horst lia com avidez. Ao terminar, ficou um tempo em silêncio; tentava digerir o que havia lido. O Stabsarzt deixara a sala. Restava apenas a médica russa, pequena e magra, o rosto pontudo e simpático, como um rato de desenho. Horst tentou lhe falar sobre o folheto que o deixara abismado.

– Vá para fora – disse a médica. Horst pediu desculpas. De fato não tinha recebido permissão para se manifestar. – Vá para fora! – repetiu a médica. – A enfermaria não é estufa para aquecimento.

Horst juntou-se novamente ao grupo. Fazia muito frio lá fora. A sexta avançou e nada aconteceu. A noite chegou e nada aconteceu. Eles foram recolhidos a um dos alojamentos. Passaram lá a noite e logo cedo já estavam novamente no pátio. Só foram comer pela manhã. Voltaram para a porta da enfermaria e alguém disse que um caminhão já chegaria para buscá-los. Horst tentava controlar a ansiedade. A tarde correu vazia e nenhum caminhão apareceu. Duas sentinelas russas então vieram e ordenaram que os prisioneiros se colocassem em forma. Partiriam caminhando até a estação.

O comboio deixou o campo caminhando em bom ritmo. Horst demorou para se dar conta de quanto seu corpo doía. Não falou nada com ninguém. Continuou tentando acompanhar a marcha. Com o alforje na mão, desceu a estradinha que levava à cidade, o campo principal já fora de alcance. Não pensou em se despedir de nada nem de ninguém. Não deu atenção para as casinhas de madeira, não percebeu se alguém o olhava das janelas ornadas. Não soube mais dizer se sentia dor, pois apenas caminhava de volta para casa. Chegaram à cidade, cruzaram a rua que levava ao escritório, contornaram o muro do monastério. Ficavam para trás Jupp, Alexandra, o capitão, o maldito campo, os malditos chefes de companhia, os malditos guardas, os malditos russos, aquele horror de cidade chamada Vladimir com suas ruas esburacadas e de pedra escura, suas igrejas nefastas com grandes bolas sobre as torres como pontas de glacê, seus dias escuros e frios. Desceram por um caminho íngreme da ribanceira e viram a estação. Parecia não haver trem algum nela. Mas eles seguiram em frente. Horst apertava o alforje contra o peito, poderia amassar as páginas do diário, aquele caderninho imundo que o fizera companhia nos últimos cinco meses, os piores meses de sua vida sem dúvida alguma – muito piores do que os dias mofando num hospital em Berlim à beira da morte por conta da meningite. Cruzaram a portaria da estação e viram os trilhos, uns homens arrumando alguma coisa um pouco mais adiante, soldados russos de pé conversando e aparentemente se preparando para partir. E iam mesmo partir e falaram isso às duas sentinelas quando passavam por elas. Horst olhava tudo em volta e não via nada, e nem poderia ver. O trem que eles esperavam encontrar já havia partido.

Horst percebeu que era um dia de muito azar e muito frio e que um vento cortante soprava do Kliazma no início da noite.