Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler

Tarcísio Badaró · Capítulo 18 de 32

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Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler

Vladimir, Rússia. 24 de novembro de 1945.

A ESTAÇÃO estava cheia. O trem que levaria Horst embora da Rússia já havia recolhido prisioneiros em outros lugares. Eles caminhavam ao lado dos vagões, parecendo ansiosos, as botas fazendo barulho ao palmilhar as pedras perto dos trilhos. Homens de sorte. E Horst logo seria um deles. No caminho até ali, Horst observara a cidade como quem se despedisse. Não sentiria nenhuma falta de Vladimir.

O russo que acompanhava o grupo indicou onde deveriam procurar pelo oficial que havia chegado com o trem. Eles entraram no cubículo, uma sala de ar opaco e quente, o que a tornava um bom local naquela noite. O oficial, sentado a uma mesa, conversava com outros homens. Um deles também era prisioneiro, algum chefe de companhia. Foi ele quem fez sinal para os seis, indicando que o russo os chamava. Horst foi o último a ser atendido, achou ter esperado uma eternidade, mas não haviam se passado mais que alguns minutos.

– Documentos – disse o sujeito, esticando a mão direita, sem erguer os olhos da mesa.

Horst entregou o que tinha consigo. O chefe de companhia o olhava, bem ao lado.

– Horst Ewaldo Brenke – disse o oficial russo.

– Sim, senhor. Horst Brenke.

– Brasileiro, então? – tornou, ainda com os olhos baixos, em russo.

– Ele quer saber se você é brasileiro – repassou o chefe de companhia

– Sim, senhor. Eu sou brasileiro – Horst disse, e viu o chefe de companhia balançar positivamente a cabeça.

– Curitiba... – leu com dificuldade o russo.

– Curitiba, Brasil – Horst confirmou.

O homem levantou os olhos e mirou Horst por um instante. Era um oficial do GPU. Usava o mesmo uniforme que o capitão. Tinha os olhos vazios que todos eles pareciam ter. Devia ter a idade de Richard.

– Horst Ewaldo Brenke – repetiu. – E onde está a sua família?

– Ele perguntou onde está sua família.

– Berlim, senhor.

– Como?

Antes de ver o oficial russo riscar o nome que havia acabado de escrever no papel, Horst compreendeu.

Horst ainda tentou reafirmar que era brasileiro, explicar que apenas era filho de alemães, que todos partiriam em breve para o Brasil. Já era tarde. Foi enxotado e colocado em um canto, sob vigilância. O mesmo russo que o havia levado até a estação o acompanhou de volta ao campo principal. O trem ainda não havia partido quando ele subia o morro próximo ao monastério.

“Nada!! Toda alegria em vão! É de se desesperar! Não é mesmo tão fácil como eu pensei!”, Horst escreveu, em sua nova cama, no campo principal. “O destino aparentemente quer me testar por toda a duração da vida!”

Novamente não aconteceu. Ele não se atrasou, mas o trem partiu e ele não estava a bordo. Horst foi riscado da lista de transporte internacional, enviado de volta para o campo principal, e por lá ficou. Não o devolveram para a fábrica de tratores. Foi colocado em um alojamento com prisioneiros que haviam acabado de chegar, transferidos de outros campos. A nova companhia atendia pelo nome de Décima Primeira, e a nova cama de Horst lhe permitia deitar sobre um saco de palha. Ele soube que teria outra vida a partir dali. Lá se fora o trabalho no escritório de construções técnicas. Lá se foram os papos com Jupp, o tempo ao lado de Alexandra, as partidas de xadrez com o comandante. Tudo isso era passado e ele ainda estava na Rússia.

Horst estava certo em suas previsões. No dia seguinte bem cedo já foi enviado com o grupo para o trabalho. Foram parar num ponto remoto e secundário da ferrovia, o trecho final onde os vagões descarregavam. Os prisioneiros chegaram e foram logo iniciando a atividade. Horst hesitou por um momento. O vigia gritou um xingamento qualquer em alemão, que ele, pela distância, não entendeu muito bem. O lugar era ermo. O som ecoava nas árvores mais adiante, e o vento fazia muito barulho. O chão estava todo coberto de neve. Um dos prisioneiros colocou a mão nas costas de Horst e o guiou até perto de um dos vagões.

– Nós devemos descarregar – disse ele.

Horst olhou para dentro do vagão. Estava entupido de carvão. Começaram a ensacá-lo, depois, a levar os sacos até um ponto mais adiante, de onde eles seguiriam, de caminhão, para uma fábrica. Havia ainda vagões com madeira, outros com turfa. Todos trabalharam até a metade da manhã em silêncio. Fazia muito frio. Um intervalo foi anunciado. Os homens se reuniram em uma barraca de madeira onde havia fogo. Horst tentava se aquecer, sentia os dedos enrijecidos, via neles pequenos machucados, mas não sentia dor. Aproximou-se da fogueira, pisou muito perto e não sentiu os pés. O homem que lhe indicara o vagão se aproximou. Horst deu um passo para trás, seus dedos queimavam.

– Rudolf – disse o sujeito, com um leve cumprimento de cabeça, enquanto indicava a Horst a distância que ele deveria manter do fogo.

– Horst.

Rudolf Koch era de Berlim, ele contou. Chegara a Vladimir havia dois meses, depois de passar por outros campos dentro da Rússia.

– Sibéria? – perguntou Horst.

– Por Deus, não.

Todos voltaram ao trabalho. Horst e Rudolf conversaram novamente no almoço. Este falou sobre a vida antes da guerra, o caminho até ser preso, a família: pais, esposa, filhos. Voltaram ao trabalho. Ficaram próximos nos dias seguintes. Trabalharam sempre na estação de descarga. Quando não houve mais vagões, surgiram caminhões para serem carregados; quando os caminhões acabaram, chegaram novos vagões.

A vida no campo principal era diferente. Talvez porque Horst fosse um desconhecido; talvez porque algo havia mudado. Rudolf lhe disse que esperava o inverno passar para jogar futebol no campo que havia nos fundos dos alojamentos. Horst se lembrava daquele lugar. Havia terraplanado aquela área logo nas primeiras semanas em Vladimir. Agora era um campo de esportes. Um campo coberto de neve até a altura dos joelhos.

Logo chegou o Natal. A véspera caiu numa segunda-feira. À noite, no campo, Horst se sentou próximo à porta do alojamento, ao seu lado sentou-se Rudolf. Horst pensava na sua casa, nos natais anteriores. Vivera bons natais no Brasil. Dezembro costumava ser um mês quente e chuvoso em Belo Horizonte. A noite de Natal, muitas vezes, se passava embaixo de chuva.

– Se eu estivesse lá já teria tomado muita cerveja – disse Rudolf, certo de que pensava a mesma coisa que Horst. – Comeria carne de porco.

Falaram de comida. De bolo, de biscoitos, de chocolate, de fruta, de salada de batata com salsicha. Horst se lembrou do pato que sua avó Wanda costumava fazer. Iam ele, Nenê e Richard visitá-la. Margarete nunca ia. Os três comiam até não suportar mais. “O que será que ceiam na minha casa?”, Horst se perguntou. “Será que ceiam? Será que tenho casa?”

Outro homem se aproximou, sentou-se também no chão. Não deu atenção para a conversa entre Horst e Rudolf. Ficou quieto, olhando para o céu e baforando as mãos para se esquentar. Fechava os olhos por alguns segundos, depois retomava o olhar fixo para o nada, como se procurasse uma resposta, uma pessoa, uma saída... Horst prestava atenção no sujeito. Tentou deduzir o que pensava. Não era preciso muito esforço. Todos pensavam o mesmo, tinham os mesmos vazios.

Horst tinha escrito pouco nas últimas semanas. Havia ficado sem papel no começo de novembro, mas conseguiu escapar do escritório com uma folha, que dobrou em quatro para ganhar um novo diário de oito páginas. Mas elas não iriam durar muito. Aí, adeus diário. Sem o escritório, não teria como arrumar papel. Além disso, o trabalho o esgotava. Pensar parecia fazer cada vez menos sentido, assim como escrever. Naquela noite, no entanto, não se preocupou com nada disso e escreveu por mais tempo.

“O Natal mais triste da minha vida! Talvez também o último. Em um campo de prisioneiros russo, separado de todo mundo, sem saber se ainda tem ou não parentes, piolhento e sujo em roupas engorduradas, fedido, com o estômago faminto senta-se aqui e pensa nos belos tempos que talvez não voltem mais!”

Na noite de Natal, fazia 25 graus negativos. Os prisioneiros não sentiam os pés. As botas de Horst já eram buracos cercados de couro sujo. Os trapos usados pelos soldados russos poderiam evitar pés de trincheira, mas não serviam muito para prisioneiros de guerra no inverno em Vladimir. Ainda assim, Horst precisava cuidar delas. No alojamento novo do campo principal havia quem tivesse botas piores; e, durante a noite, havia quem roubasse botas um pouco melhores. Ele se manteve atento. Nenhum presente amanheceria em sua meia no dia 25 de dezembro. Devia ao menos prezar pelas botas.

Na noite de ano-novo, o frio foi um pouco menor. Horst ainda tinha suas botas.