Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler

Tarcísio Badaró · Capítulo 12 de 32

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Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler

Vladimir, Rússia. 23 de julho de 1945.

DEZENAS DE prisioneiros em fila aguardavam a ordem de deixar o campo para caminharem até o trabalho. Encostado à parede do alojamento, Horst os via, ansioso, enquanto fumava um cigarro, com cuidado para não queimar a ponta dos dedos. O Sol, no horizonte além do arame farpado, havia colocado apenas os olhos para fora, mas tornava os colegas apenas borrões; um borrão atrás de outro borrão, e assim infinitamente até o amarelo da alvorada. Horst sabia que, naquela manhã, eles continuariam a pavimentação da rua próxima à cidade, onde ele também havia trabalhado dois dias antes. Horst, no entanto, aguardava com quatro outros prisioneiros que o vigia os buscasse e levasse até um escritório na cidade. Começaria a trabalhar em sua profissão.

Os homens partiram e o cigarro acabou. Horst queimou a ponta dos dedos. O vigia não demorou a chegar, e cruzaram os cinco o portão da fábrica de tratores. A estrada diante do campo começava plana, mas logo principiava a descer. A inclinação era leve; Horst sentia a mudança nas pernas fracas. Passaram perto do campo principal e seguiram. Caminharam por meia hora até chegarem à cidade, e depois mais alguns minutos até onde parecia ser o lugar do trabalho. Era um prédio baixo, com imensas pilastras em estilo romano na entrada, bem ao gosto do que Stalin havia espalhado pela Rússia nos anos anteriores.

Horst foi entregue pelo vigia a outro prisioneiro, que o levou até o chefe do escritório. Era um russo bem mais velho, usava um uniforme idêntico ao dos comissários do GPU que costumavam interrogar os prisioneiros, o que fez Horst concluir que era um deles. O sujeito foi cortês, para sua surpresa. Levou-o até a sala em que começaria a trabalhar e o deixou com alguns homens que lá se encontravam. Eram alemães também, trabalhavam no escritório havia mais tempo. Eles lhe explicaram as tarefas.

O escritório de construções técnicas tinha a função de planejar as obras que ocorriam na cidade – normalmente, construção de casas, pavimentação de ruas, canalização da água e esgoto, além de reparos na ferrovia, nas vias, nas estradas e numa infinidade de coisas, pois tudo em Vladimir parecia danificado. Todo o entorno da cidade era um canteiro de obras. Quem explicou isso a Horst foi um sujeito chamado Jupp. Horst gostou do novo camarada e logo viu que tivera sorte de conseguir aquele trabalho. Criou esperanças de mostrar serviço e seguir por ali. Por um momento, até se esqueceu de pensar na volta para casa.

Horst sentou-se à mesa e começou a revisar cálculos a pedido de Jupp. Às vezes levantava as vistas do papel. Todos estavam concentrados no trabalho. A sala do escritório era ampla, não parecia bem ventilada, porque deixava oco o som que chegava da rua. Havia uma espécie de cozinha à sua frente. No canto próximo a ele, alguns quadros, no chão, inclinados sobre a parede. Também havia deles na parede. Os cálculos não lhe exigiam muito, Horst trabalhou neles durante a manhã. Receou conversar com os colegas, mas logo viu que não havia problema em trocar algumas palavras. O novo chefe parecia diferente do anterior. Enquanto trabalhou na obra próximo à cidade, um minuto que parasse para respirar era motivo para uma esbravejada. Enxotavam os Woina Plennis imediatamente de volta ao trabalho. Ali parecia ser diferente.

Por volta do meio-dia trouxeram o almoço. A mesma sopa de batatas com duzentos gramas de pão. Alguns russos, que moravam no mesmo prédio do escritório, apareceram para comer. Entre eles, duas mulheres, aparentemente mãe e filha, que não pareciam mais bem alimentadas que o próprio Horst. Ele concluiu que os civis viviam tão mal quanto os prisioneiros. Apenas tinham liberdade. Além disso, logo descobriria, eles fumavam um cigarro a que chamavam papirosa. Era um papel comum a enrolar o tabaco, mas eles colocavam uma espécie de bico em uma das pontas. Assim, aproveitavam tudo que houvesse para fumar, não desperdiçando nem um trago. Além disso, não queimavam a ponta dos dedos.

No começo da tarde, Horst rabiscava um papel sobre sua mesa. A sala estava silenciosa, cada um parecia ocupado com sua função. Jupp se aproximou e puxou conversa.

– De onde você é, Horst?

– Sou brasileiro.

– Brasileiro? Falando alemão?

– Brasileiro.

– Mas onde você estava quando começou a guerra? – perguntou Jupp.

– Em Berlim.

– Mas você não é brasileiro?

– Sou – afirmou Horst. – Meus pais são alemães.

Jupp assentiu com a cabeça.

– Voltamos para a Alemanha quando eu ainda era criança – continuou Horst.

– Berlim, então.

– Sim.

– Eu sou de Bochum – tornou Jupp.

– Bochum?

– Isso mesmo.

– A minha mãe nasceu em Mülheim.

– Mülheim an der Ruhr?

– Sim – confirmou Horst. – Acho que meu avô nasceu em Bochum. Blankenstein, se não estou enganado.

– Sim, Blankenstein. E qual o nome de sua família?

– Brenke.

– Me parece um nome austríaco. Não conheço nenhum Brenke em Bochum.

– A família da minha mãe se chama Birkenfeld, na verdade. Brenke é o sobrenome do meu pai.

– Os Birkenfeld de Bochum, então.

– Mülheim an der Ruhr.

– Que seja. Também não conheço nenhum Birkenfeld – disse Jupp. – O que você estudou para ser mandado aqui para o escritório?

– Me formei desenhista técnico.

– Desenhista técnico.

– E você? – quis saber Horst.

– Eu sou arquiteto.

– Um arquiteto de Bochum.

– Sim, um arquiteto de Bochum.

– Há quanto tempo você está em Vladimir?

– Três meses – disse Jupp, sem precisar fazer contas. – E você?

– Quarenta dias.

– Onde te pegaram?

– Em Halbe.

– Halbe?

– Sim. Não fica muito longe de Berlim. Tentávamos seguir para o oeste, talvez para o lado americano, mas antes disso fomos cercados em Halbe.

– Os russos já estavam dentro da Alemanha, então?

– Já haviam nos ultrapassado e chegado a Berlim.

– Já estavam em Berlim?

– Já – Horst confirmou. – E você combateu em que lugar?

– Antes me diga, você foi ferido?

– Não.

– Eu parei no exército – dizia Jupp, quando foi interrompido. O chefe do escritório surgiu e resmungou qualquer coisa em russo. Os dois encerraram a conversa. Voltaram para suas mesas, Horst tornou a rabiscar o papel.

– Ele percebeu que falávamos da guerra – disse Jupp pouco depois. – O capitão não gosta que falemos de guerra. Ele foi piloto na guerra. Foi duas vezes abatido.

– Duas vezes abatido? – Horst falava em voz baixa, cuidando para que não fosse notado pelo chefe.

– Sim, por nós, alemães.

– Hum.

– Ele não gosta que falemos de guerra.

– Ele pareceu bravo – tornou Horst.

– Ele fica furioso se falamos da guerra.

Os dois voltaram ao trabalho.

A tarde passou rápido. Horst pensou algumas vezes em como estaria o trabalho na obra das ruas próximas à cidade. Estaria exausto àquela hora se estivesse lá. Pouco depois, o final do trabalho foi anunciado pelo capitão, que já não aparentava qualquer sinal de irritação. Horst foi se lavar no porão.

Ainda era dia claro, mas estava escuro no prédio. Horst desceu sozinho, sem companhia ou vigia. Chegando lá embaixo, esquadrinhava o local em busca de água, quando percebeu que havia uma garota. Ela também o viu. Por um instante, ninguém disse nada.

– Privet! – Horst disse.

Ela respondeu algo baixinho e fez menção de fugir. Teria que passar por Horst, então se deteve.

– Qual o seu nome? – Horst tentou reproduzir o melhor que pôde a pergunta que ouvira várias vezes durante os interrogatórios.

A moça não quis responder.

– Horst – ele disse, e apontou para o próprio peito. – Imya, Horst – completou.

A garota o olhou finalmente. Tinha a pele muito branca, os cabelos loiros, o rosto de traços juvenis um pouco encoberto pelos fios longos. Usava uma saia comprida e preta de algodão cru. A camisa era de mangas longas e um xale lhe cobria os ombros.

– Alexandra – finalmente respondeu.

Horst se aproximou e tentou conversar, misturando palavras em russo com outras em alemão e algumas do português. Desde os primeiros dias ouvia palavras em russo que lhe pareciam português. Passara a acreditar que seria entendido se falasse português. Alexandra riu. Eles não pareciam se entender, mas divertiam-se. O vigia chegou pelas escadas com os outros prisioneiros e viu os dois. Soltou impropérios que só a garota compreendeu. Ela passou por Horst e se foi escada acima. Horst deduziu o teor da bronca e foi terminar de se lavar para ir também.

Horst esperou que os outros homens se lavassem, e subiram quando o vigia ordenou. Assim que deixou o prédio, viu à sua frente a igreja de São Nicolau, pequena, o campanário vazio furando as nuvens da noite que teimava em chegar. Ao lado da igreja começava o muro do monastério, que ia longe, até a vista se perder ou se prender na grande bola dourada que surgia de dentro dele. Era a mesma cúpula que ele vira ao chegar a Vladimir, quarenta dias antes. Lá embaixo, lá do outro lado, atrás daquele muro sem fim do velho monastério, estavam o rio e a linha férrea que poderia levá-lo de volta para casa. Do outro lado da rua, Horst observava o muro, que não permitia ver a saída. Aquela era a principal rua da cidade, mas não lhe parecia mais que um caminhozinho para lugar algum. Não seria necessário mais que vinte ou trinta passos para atravessá-la. Se saísse correndo, em poucos minutos estaria na estação. Tinha, no entanto, quarenta minutos de caminhada até o campo de prisioneiros.

O vigia ralhou para que partissem, Horst voltou de seus pensamentos, e eles seguiram por um caminho diferente do que haviam tomado na vinda. Durante a marcha de volta ao campo, Horst teve a oportunidade de ver melhor a cidade. Achou Vladimir um lugar triste. As pessoas ali não viviam tão bem quanto ele pensara. A cada rua que dobrava, atentava para as casas, as casinhas de madeira escura, suas janelas emolduradas, as pessoas que surgiam nebulosas por trás delas, os olhares indecifráveis que lhe lançavam, tudo, tudo era novidade e parecia ter algum significado para ele.

As casas eram ruins, as ruas, esburacadas e sujas. Volta e meia o mau cheiro cruzava o caminho de volta, pois toda a canalização da cidade ainda estava destruída, e as pessoas tinham de cavar covas no quintal das casas para jogar as fezes. Havia muito entulho, muito mato. Umas ruas de pedra, outras de terra, as casinhas de madeira, o mato crescendo, o lixo nos cantos, a estrada chegando, a cidade nas costas... o campo surgiu lá adiante.

Houve sopa aquela noite. Horst teve de aguardar pela revista, pois o grupo que trabalhara no canteiro de obras havia chegado um pouco antes. Ficou entre os últimos, comeu rapidamente e foi logo se deitar. Não escreveu, como não escreveria nos dias seguintes. Estava cansado, embora imaginasse que os outros prisioneiros estivessem muito mais. Além disso, por algum motivo, costumava não escrever quando se sentia um pouco feliz. E, por mais estranho que pudesse parecer, aquele foi um bom dia para ele.