Era um garoto: o soldado brasileiro de Hitler
Opole, Alta Silésia. 2 de junho de 1945.
QUANDO O trem, aos solavancos, se pôs em movimento, Horst teve esperança de que as coisas fossem melhorar. Não aguentava mais caminhar. Seu cansaço, no entanto, não era apenas físico. Precisava chegar a algum lugar. Aí outro medo ficava mais intenso. Chegar aonde? O destino daquele trem atemorizava a todos, pois receavam que ele fosse dar na Sibéria. Era o que haviam lido, escutado e conversado dezenas e dezenas de vezes durante a guerra. Era o que dizia a propaganda nazista para tentar estimular coragem, fidelidade e raiva entre seus soldados. Era o que lamentavam os homens ao voltar da frente oriental, ao se lembrarem dos companheiros que haviam ficado por lá. Era também o que se dizia baixinho, ao som do vagão rangendo nos trilhos, os prisioneiros ainda se acostumando à penumbra, enquanto conversavam com Deus.
O trem deixou Opole pela manhã. A cidade foi ficando para trás, o grande número de trilhos foi se reduzindo até ficar um único par. O trem que levava Horst e outros milhares de homens adiante era uma locomotiva claramente remendada. Funcionários da estação ainda transportavam dormentes de um lado para o outro pela manhã, quando o grupo chegou para embarcar. Horst havia olhado atentamente e confirmado: não havia vagões de passageiros. Partiram amontoados quarenta homens em cada vagão de animais e logo ficou claro que não seria fácil.
No vagão escuro, eles se sentaram pouco depois da partida. Horst, recostado à parede suja, sentia-se bem em movimento. O trem sacolejava, vencendo, lentamente, trilho após trilho, seguindo caminho rumo a algum lugar. Das gretas do vagão, os pinheiros pareciam mais esguios e altos. De novo o mesmo tapete verde de Halbe ao pé das árvores, que logo começaram a diminuir de tamanho. Seus galhos ficaram mais secos. Surgiram algumas árvores nuas, mas com bolas de folhas e pequenos galhos emaranhados nos pontos mais altos. Horst não as conhecia muito bem. Eram viscos. Aquele mesmo visco que, segundo a tradição natalina do hemisfério norte, poderia significar beijos – algo que não lhe passaria pela cabeça naquele momento.
Do vagão escuro ele via viscos, via outras árvores, via surgir à beira da ferrovia pequenas cidades com suas casas de tijolos vermelhos. Via pessoas. Mas a vida parecia suspensa. Passaram por Katowice, os grandes galpões e os velhos sobrados vinham até a beira do caminho do trem. As pequenas janelas ainda estavam protegidas por qualquer coisa que impedisse ver a vida lá dentro. Tudo era cinza e sem vida. Pouco depois da cidade, cruzaram um rio, e novamente outra cidade, com as pequenas e muitas janelas nos sobrados, as pessoas nas ruas, livres, observando o trem passar. As crianças apontavam, algumas eram detidas pelas mães, outras corriam por algum tempo no sentido do trem, que logo parou novamente. E depois novamente. E novamente. E outra vez, até parecer não sair do lugar.
“Até agora nós só viajamos um pouco”, Horst escreveu na primeira vez que pegou o diário durante a viagem, já alguns dias depois de partir. “Um mau sinal, e pode-se deduzir daí que essa viagem não vai passar tão rapidamente como foi a primeira, de Sagan até Opole.” Era difícil entender como, em sua cabeça, uma marcha de mais de vinte dias havia passado rápido. Horst continuou: “O destino é desconhecido. Não se sabe de absolutamente nada e pode-se no máximo imaginar algo. Bom ou ruim? Isso está entregue a cada um”.
O trem seguiu lento até parar próximo ao Rio Vístula, um dia depois. As dúvidas seguiam na cabeça de Horst e provavelmente de todos ali. Haviam começado as brigas. Por comida, por espaço, por qualquer coisa que parecesse fazer sentido. Normalmente, dormia-se de dia para enganar a fome, já que a comida estava cada vez pior. Horst descobriu que não fazer nada a não ser tentar seguir vivo era cansativo. E muito. Não era nada bom pensar, e era difícil não pensar. Parecia impossível escolher o pior: lembrar do passado ou cogitar o futuro.
O trem permaneceu algum tempo nesse ponto próximo ao Vístula, que devia ser um lugarejo qualquer na região de Pulawy, onde a linha férrea ramifica rumo ao leste. Passaria a noite ali, já a quinta de Horst dentro daquele curral. Quando começou a escurecer, o sol avermelhado se pondo à esquerda do vagão, a sentinela deixou a porta aberta e foi possível tentar, à distância, comunicação com os funcionários da estação. Eles não foram desagradáveis. O vagão ganhou deles cinco cigarros, o que deu um trago para cada um. Horst não se envolveu na conversação, mas desfrutou sua fração numa tragada profunda e lenta, a fumaça escapando dos lábios com o pesar de não haver mais. Espalhou-se a notícia de que o destino seria o Cáucaso, o que lhes soava definitivamente melhor que a Sibéria. A boa nova trouxe ânimo. Homens que haviam se desentendido nos dias anteriores trocaram sorrisos. Alguns bendisseram em voz alta, discutindo as possibilidades, e o clima logo foi contido por xingamentos lá de fora. Uma sentinela se aproximou do vagão e fechou a porta com violência.
No dia seguinte, serviram uma sopa gordurosa e quase sem nada substancial. O pão era um naco duro e de cor duvidosa. Horst chegou à porta, esticou o braço para encher a caneca de metal, voltou e comeu sentado em seu canto. Depois dormiu por toda a manhã, tempo em que o trem não saiu do lugar. Lá fora, homens trabalhavam. Como sempre, consertavam algo nos trilhos ou na locomotiva. Diversas vezes naqueles dias, e em quase todos os lugares por onde tinham passado, haviam encontrado algum trecho danificado pela guerra. Utilizavam prisioneiros para o trabalho. Era uma sorte isso ainda não ter chegado ao vagão de Horst.
Seguiram no fim daquela tarde para Lublin, aonde chegaram já de noite. Horst se perguntava até onde iriam naquele ritmo. Já viajavam havia cinco dias e sequer tinham saído da Polônia. A fome o corroía. Pela manhã, crianças e mulheres apareceram na estação a oferecer comida. Traziam pão, batatas, biscoito, leguminosas, latas de conserva com uma bebida turva, além de cigarros. Pelas frestas do vagão, a porta cerrada desde a última conversa com os funcionários, os homens salivavam. Nada era de graça, e nenhum prisioneiro tinha dinheiro. Não tinham nem mesmo algo para dar em troca. Os soldados russos já tinham sugado tudo havia muito tempo. Horst perdeu um longo tempo observando as pessoas lá fora. Era gente humilde. As mulheres tinham as cabeças e os rostos envoltos por lenços, suas roupas escuras iam até as canelas com saias rotas e de pano grosseiro; estavam em mangas longas mesmo com o forte sol que fazia. Os poucos homens eram velhos, usavam chapéus em mau estado, cuja sombra cobria seus rostos pipocados de marcas. Não pareciam irritados ou rancorosos. Ofereciam seus alimentos como uma súplica. Precisavam vendê-los tanto quanto os prisioneiros ambicionavam comer.
Naquela noite partiram novamente, agora em direção a Chełm, e depois até Kovel, aonde chegaram no início da manhã. O sol era abrasador. Horst suava dentro do vagão. Os homens reclamavam sem parar. Viam uma mata rala a leste e a cidade a oeste. À esquerda do vagão, a cúpula de uma catedral ortodoxa se esgueirava por trás da velha casa da estação. Não se viam moradores, apenas funcionários, muitos funcionários, e soldados russos caminhando para lá e para cá. Eles também eram mais numerosos.
Horst estava fraco. Bem perto dos trilhos, as galkas vinham bicar os pedregulhos como se fossem sementes. Voavam ágeis de um ponto a outro sem dar muita atenção aos prisioneiros que as observavam. Quando o acinzentado de suas nucas sumia, seus olhinhos se encontravam com o olhar cansado dos homens dentro dos vagões. Diz-se que aqueles pássaros pretos trazem mau agouro. Talvez por isso eram tantos à beira do trem.
Todos os prisioneiros foram colocados para fora na manhã seguinte. Caminharam em fila até outra locomotiva do outro lado da estação e trocaram de vagão. Mais prisioneiros chegaram. Passaram a ser noventa homens espremidos. O calor desfalecia. Homens como animais, sem espaço para se sentarem no chão do vagão; as galkas lá fora, com tanto espaço para seu mau agouro. Não demorou para o trem chacoalhar, as sardinhas se espremendo lá dentro, cada um tentando demarcar com o corpo um espaço para si. O trem se pôs em movimento. Horst percebeu que o trem ia agora sobre bitolas largas e se animou. Significava que viajariam mais depressa. No entanto, significava também que iam mesmo para a Rússia. Mas para onde na Rússia? A angústia o maltratava.
Na manhã seguinte já estavam em território russo. Tinham viajado a noite toda. Sem parar. Horst calculava terem percorrido uns cem quilômetros Rússia adentro. Surgiram os prados, vastos campos permeados por uma cabana ou outra. Horst se lembrou das histórias que ouvira dos companheiros que combateram na frente oriental. Talvez fosse o caso de alguém ali dentro. Ele se perguntava se algo mudaria agora que estavam definitivamente em território inimigo. Mas já não era, havia muito tempo, território russo? As placas a dezesseis quilômetros de Halbe sugeriam isso. Estavam em cirílico. Havia placas em alfabeto russo a poucos quilômetros de Berlim e isso significava que a poucos quilômetros de Berlim já era Rússia. Berlim já devia ser Rússia àquela altura. Como será que estavam no número 11 da Gubitzstraße? Era melhor evitar a armadilha de pensar em casa. Horst já havia tido tempo de aprender isso.
No meio da tarde pararam numa estação de triagem desconhecida e receberam comida. Era cada vez menos alimento: duas finas fatias de pão seco e umas poucas colheres de sopa de batatas aguada. Escureceu cedo, e eles seguiam no mesmo lugar.
Houve muita movimentação de homens no breu da noite. Nada se via do vagão, apenas se ouvia o som de botas amassando pedras ao lado dos trilhos e conversas em russo. Aparentemente havia muitos homens lá fora e que tinham trabalho para fazer na ferrovia. Horst tentava dormir um pouco, mas não havia posição confortável naquele vagão atulhado de homens. Ele estava mais ao centro e se assustou quando algo atingiu com força a lateral de madeira do vagão. Outro grande estalo veio logo em seguida. E depois outros. Os tiros estalavam nas madeiras e entravam para o vagão. O tiroteio engrossou. Todos os homens já haviam acordado e estavam de pé gritando para que parassem com aquilo lá fora. Horst ficou apreensivo. O ataque lembrou-lhe vagamente a chegada dos russos em Halbe. Todos os homens se assustaram. Xingaram. Lá fora, os vigias achavam graça. Riam. O bombardeio só parou porque os pais das crianças que jogavam pedra no vagão os repreenderam.
O trem russo com prisioneiros alemães passou por uma série de pequenas cidades do interior da Rússia e parou em Briansk e Oriol, ganhando a companhia dos charques à beira da estrada. Foram dois dias quentes, em que viajaram muito e sentiram muita fome. Um homem morreu não muito longe de Horst, outros pareciam seguir o mesmo caminho. Horst escrevia nas paradas, pois era impossível fazê-lo com o trem em movimento. Ainda assim, dizia pouco.
No dia 13 de junho, onze dias após terem iniciado a viagem de trem, o sol sobre as cabeças raspadas marcava meio-dia e milhares de prisioneiros chegavam a Moscou. Agora era a hora da verdade. Para onde? Horst só conseguia pensar em como o futuro era sempre incerto, naquele instante mais do que nunca.
“Moscou”, disse consigo ao saltar do trem, “quem teria imaginado isso? Em janeiro, ainda em casa com a esperança de voltar rapidamente para o lar amado; seis meses depois, em um transporte de prisioneiros viajando no interior da Rússia, deixando para trás uma grande quantidade de aventuras e vivências”. Horst observava os outros prisioneiros, todos pareciam imersos em pensamentos nebulosos. “Terão os russos consideração para o fato de que eu possuo cidadania brasileira?”, seguiu falando consigo. Horst agora era um prisioneiro de guerra em Moscou. Um semivivo sem saber por quanto tempo aguentaria, para onde iria, como tudo acabaria. Para onde? Sibéria? Montes Urais? Cáucaso?
“O que trará o futuro?”, registrou no diário.