Erário mineral

Luís Gomes Ferreira · Capítulo 16 de 31 · parte 2/3

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Erário mineral

8. Tratado I – Da cura das pontadas pleuríticas e suas observações

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

2. Não usei nunca nesta doença de xaropes preparantes, porque umas vezes não dava lugar e, outras, entendia que bastava a continuação de beber água cozida com raiz de capeba e butua, ou qualquer delas, que são admiráveis raízes.

 

Capítulo X

 

De outra advertência não menos necessária.

Se o doente for preto ou branco rude, a informação que se tomar se repetirá duas e três vezes, porque, como é gente agreste e variável, agora dizem uma coisa, e, tornando a ser perguntados, respondem outra, como a mim me tem sucedido com todos; e por folgar de acertar, evitar perigos e despesas ou não fazer as enfermidades maiores do que haviam de ser, sempre quando tomo informações a esta casta de gente, me ponho com toda a paciência; e, outrossim, primeiro que tome o pulso ao doente, converso com ele algum intervalo de tempo e sempre lho tomo por duas e três vezes, por ter experiência certa de que, assim que entro e o salvo, se assusta, levantandose, se pode, compondo-se e salvando também, e, neste princípio, se lhe alteram os pulsos, mais do que estavam de antes e do que ficam ao depois; e se não, faça cada um experiência e verá se isto é certo como digo; e, ainda digo mais, que não só nesta qualidade de gente é certo o que tenho dito, mas também em todos os mais, e a razão é porque, com a política das cortesias do médico ou do cirurgião e com o sentido no que receitará, naturalmente se hão de alterar, mais ou menos.

gente agreste e variável

tomar o pulso duas e três vezes

 

Capítulo XI

 

De outra breve e precisa advertência para os que

não forem professores e tiverem necessidade de

saberem as medidas e pesos de botica, em que

hei de falar

1. As libras de botica de coisas líquidas têm doze onças; cada uma destas onças é uma medida de metal que levará pouco mais, ou menos, tanto como um ovo de galinha ordinário, onde tem também, pegada da outra banda, a medida de meia onça, que é por onde se medem as águas, os xaropes e as coisas líquidas; e não são onças, nem libras de peso, como muitos imaginarão. As coisas sólidas, ou grossas, e secas se pesam por libras, onças, oitavas e meias oitavas dos marcos comuns. Estas libras têm dezesseis onças, as oitavas têm, cada uma, setenta e dois grãos. Os escrópulos têm, cada um, vinte e quatro grãos, os meios escrópulos têm doze grãos; e estes pesos de escrópulos são uns pesos de folha de metal que costumam vir nas balanças estrangeiras e os ourives têm, os quais têm seus números cada um deles, que todos, ordinariamente, são seis; cada um deles com letras de conta imprimidas de um, dois, três, seis, doze e vinte e quatro, que querem dizer um grão, dois grãos, três grãos, seis, doze e vinte e quatro; e não são grãos de trigo, nem as onças onças de peso, como muitos imaginam. As mãos cheias, em que tenho falado e hei de falar, é, regularmente, quanto pode abranger uma mão com os dedos. E a palavra dose, ou doses, é o mesmo que uma porção; tudo o mais é o comum.

Outra advertência

2. Os medicamentos que se aplicarem às enfermidades das Minas sejam sempre de qualidades quentes em sua natureza, ou que inclinem a quentes, porque as doenças do tal clima pela maior parte procedem de causas frias, e, por esta razão, os que são de sua natureza quentes obram excelentemente, como a aguardente do Reino, a água do chá, a água de raiz de capeba, de que hei de falar muitas vezes e queira Deus inclinar os ânimos a darem crédito ao que disser (de que resultarão grandes proveitos), que tudo será com ajuda do mesmo Senhor, verdade lisa e sem dúvida; e outros muitos remédios. Os medicamentos que se aplicarem aos olhos sempre hão de ser frios, isto é, sem se aquentarem, e, pelo contrário, os que se aplicarem aos ouvidos sempre hão de ser mornos: isto digo para os principiantes e tudo o mais para o comum.

os medicamentos que se aplicarem às enfermidades das minas serão sempre de natureza quentes e a razão por que

os que se aplicarem aos olhos hão de ser frios e aos ouvidos quentes

Outra advertência para a saúde

3. As pessoas que comerem alguma coisa nestas Minas pela manhã e lhe beberem em cima um copinho de aguardente do Reino conservarão melhor a saúde, e, se forem achacadas de flatos, sararão deles ou, ao menos, passarão com muitas melhoras; e quem não puder comer pela manhã (como há muitos) beba um dedal da dita bebida, ou beba chá, ou chocolate, que observarão grande proveito em não andarem em jejum, como eu em mim experimentei no princípio que cheguei à Vila Real do Sabará destas Minas, pouco tempo passado da minha chegada, por me sobrevir uma surdez que quase de todo perdi o ouvir; e como por uma parte tinha grande pena e pela outra muitos doentes a que assistia, me resolvi a comer alguma coisa de manhã e a beber em cima um copinho da dita aguardente, e assim a todos os comeres, por me persuadir que seriam flatos, por ter zunido nos ouvidos e na cabeça; e, sem embargo que não podia almoçar pelo não ter de costume, me fui costumando, e com efeito me não enganei, porque, em poucos dias, experimentei muita melhora e no discurso de pouco tempo fiquei são, sendo este o único remédio que fiz.

bom conselho

observação de uma surdez do autor e como sarou dela com facilidade

4. O mesmo tenho aconselhado a muitas pessoas que eram atormentadas de flatos e maus cozimentos no estômago, e depois me davam os agradecimentos do bom conselho que lhes dera. O mais que agora podia dizer para o bom regime e conservação da saúde acharão os curiosos em seu capítulo separado.

 

Capítulo XII

 

Das pontadas pleuríticas que dão de repente

Chegando ao doente, veremos se a pontada é da parte direita ou da esquerda; se for da esquerda, é mais perigosa, e, como tal, se deve tratar; veremos também se a febre é grande ou pequena, se tem a língua branca, e os olhos, pela parte debaixo, o que se verá carregando com os dedos nas pestanas, debaixo ou junto delas, que, puxando, se verá, porque, se a língua estiver branca, pela maior parte também os olhos o estão na dita parte; veremos também se tem sinais de lombrigas ou de enchimento de estômago; se tiver alguns destes dois sinais, se curará o enfermo como fica dito, e, não os tendo e a pontada for forte com a língua branca e os olhos, a febre maior purgar o doente ou menor, seja a pontada da parte direita ou da esquerda, se purgará logo o doente, sem esperar mais tempo, ou seja de manhã, ou de tarde, a qualquer hora do dia ou da noite (isto é, quando o doente estiver muito apertado que não possa esperar para outro dia) com uma oitava de resina de batata feita em pílulas, estando o doente com forças e idade suficiente, que, não sendo assim, será a purga de três partes da oitava; e sendo uma ou outra, sempre levará alexifármacos contra lombrigas, como atrás fica referido no volume 1, na página 240, ou também, em falta dos ditos alexifármacos, se poderá misturar ao fazer das pílulas meia pataca, ou um escrópulo, de lombrigueira, sendo nova; e, antes de tomar a dita purga, como a pontada é com aperto, também é preciso ampará-la para que o doente se não esteja sufocando, o que se fará pondo-lhe em cima um guardanapo ou toalha dobrada e bem quente, ou panos dobrados e molhados em aguardente do Reino com sua baeta seca por cima e atadura larga, que fique bem fixa na parte, para que se não mude e fique a parte agasalhada do frio e se conforte; e, depois de acabada a obra da purga, se porá em cima da dita pontada o emplasto de erva-de-santa-maria que fica dito na página 15; e no dia seguinte da purga descansará o doente, renovando-lhe o dito emplasto com aguardente ou fazendo-o de novo; e, no fim do dito dia, veremos como o enfermo tem passado, e, se virmos que passou com melhoras e obrou bem com a purga, descansará outro dia para se tornar a purgar com a mesma purga, e depois se continuará a cura, como fica dito no volume 1, na página 242 até 244.

olhos e língua branca são sinais certos de proceder a enfermidade de causa fria, ainda que haja febre

purgar o doente a qualquer hora do dia ou da noite Capítulo XIII

 

Das pontadas que dão com sufocação da

respiração

1. Estas pontadas são muito perigosas, principalmente se logo se não remedeiam, pelo perigo que têm de sufocarem ao doente; nestas que têm dificuldade na respiração, por nenhum caso se dêem vomitórios, porque com eles tenho visto morrerem muitos doentes com a respiração tolhida a um médico que era muito afeiçoado a eles; lástima, sem dúvida, para se chorar com lágrimas de sangue, vendo acabar a vida tão miseravelmente sem remédio, uns no segundo dia do vomitório, outros no terceiro; e a razão de morrerem com este aperto em tão pouco tempo é, na minha opinião, o estar a causa da pontada na segunda região e o vomitório tirar da primeira; e, como a primeira está abaixo da segunda, e os vomitórios puxam os humores para cima, para os lançar pela boca, que é a sua verdadeira virtude, os que saem da primeira região passam pela segunda, onde está a causa da pontada, e não só não tiram a tal causa, mas ainda acrescentam mais humores a ela, fazendo-a maior e atraindo-os à garganta, fazendo nela a que chamam filga ou pigarro, com que acabam a vida. Esta me parece ser a verdadeira razão e, se houver quem dê outra mais coerente e de mais proveito para os enfermos, eu o estimarei por eles ficarem com essa fortuna; mas é de advertir que os doentes que tomavam vomitórios em pontadas com a respiração apertada, ou falta nela, todos morriam sufocados, e os que eu purgava com purgas solutivas (que são todas as que puxam os humores para baixo) quase todos livravam; porque vai grande diferença de puxar os ditos humores para longe donde está a causa ou puxá-los para a mesma causa, acrescentando-a; que, a este respeito, verá o curioso o que digo na observação de um escravo de João Gonçalves da Costa, e o que mais é morrerem sem confissão; e beberá água cozida com raiz de butua ou de capeba.

vomitórios por nenhum caso se dêem aos enfermos que tiverem pontadas com faltas na respiração, e a razão por que

2. Isto assim suposto, digo que, assim que houver pontada nesta forma, logo, logo, a qualquer hora que seja, do dia ou da noite, se lhe ponha o emplasto de erva-de-santa-maria que fica dito no volume 1, página 242 ou, em sua falta, o de alecrim, ou de farelos de milho, dito no volume 1, página 243, e, atado bem o tal emplasto, se lhe dê logo uma purga de resina de batata com as condições que ficam ditas no volume 1, página 242, porque, na minha opinião (como quem o tem experimentado), só este remédio é capaz de livrar o doente da morte; e depois se continuará com as mais purgas e o mais que fica referido nas páginas antecedentes.

purgar o doente a qualquer hora do dia ou da noite

3. No caso, porém, que, depois de purgado, o doente ainda fique com o aperto na respiração e tiver grande febre, os olhos vermelhos, a língua seca ou com secura, pedindo água, neste caso se sangrará e fará o mais como se dirá adiante no capítulo das pontadas de causa quente.

 

Capítulo XIV

 

Das pontadas que dão com moderação

1. Assim que acontecer pontada pleurítica, não sendo com veemência, se mandará tomar ao doente um diaforético ou, por outro nome, sudorífico, feito de poejos na forma seguinte. Tomem duas mãos cheias de poejos e, depois de lavados, se ponham a ferver com água da fonte em panela de barro com duas canadas de água até diminuir a metade; deste cozimento, se dará a beber ao doente seis onças, com duas ou três colheres de açúcar, com toda a quentura que puder sofrer; e assim que o acabar de beber, se abafará na cama com bastante roupa para suar, e, depois que tiver suado bastante, mudará a camisa e a mais roupa que tiver molhada, ou úmida, com tal condição que, quando alimpar o corpo do suor e mudar a roupa, lhe não dê ar de vento algum, o qual medicamento tomará duas vezes cada dia, longe dos comeres, não sendo de manhã, por ser tempo mais frio, mas será pelas nove ou dez horas, e de tarde antes do Sol posto, enquanto os ares estão quentes; e assim as vezes necessárias.

diaforético, ou sudorífico singular, como se faz e como se aplica

2. A água que o doente há de beber será cozida com uma ou duas raízes de capeba, conforme for a quantidade da água em que se fizer o cozimento, porque, como é para beber de ordinário e a toda a hora, será melhor que seja o cozimento antes maior que menor, e ferverá até a água ficar alguma coisa alambreada, a qual poderá beber assim fria; e, se no cozimento se lançar um bocado de raiz de butua machucada, ficará uma bebida vulnerária e descoagulante muito admirável para fazer abrir as vias e os canais, promovendo os humores, liquidando-os e abrindo os poros da pele para que melhor transpirem os humores e as fuligens e, conseqüentemente, suar melhor o enfermo com o sudorífico; e, se o doente, pela manhã em jejum e à noite, quando quiser dormir, depois de cear, duas horas, tomar seis onças por cada vez do tal cozimento, com duas ou três colheres de açúcar, será muito mais conveniente; e o mesmo se observará com todas as mais pontadas que procederem de causa fria no que respeita a esta bebida nos dias que o doente descansar, porque é singularíssima não só para fazer os efeitos que ficam referidos, senão também para fazer circular melhor o sangue e os mais líquidos e, conseqüentemente, desembaraçar o sangue mensal das mulheres e fazer-lhe vir à regra copiosamente. Também o doente poderá tomar seis ou sete onças de água de chá bem quente, com pouco açúcar, pela manhã em jejum, e a toda a hora que quiser entredia, ainda que seja perto dos comeres, depois deles, que é bebida admirável para fazer bom cozimento, discutir flatos, aquentar os humores, fazê-los circular; e também para a tosse, se a houver, e outros muitos proveitos, tomando os doentes desta enfermidade ajudas purgativas feitas na forma seguinte; e também a dita água é vulnerária; ou beberá água a toda a hora, cozida com raiz de butua machucada, que é singular raiz para causas frias.

bebida vulnerária e descoagulante, invento do autor

para fazer circular o sangue e vir o das mulheres copiosamente

água da infusão do chá faz tão singulares proveitos, como se aponta

 

Capítulo XV

 

De como se devem fazer as ajudas fortes

purgativas

1. Tomem uma dúzia de juás-bravos que sejam dos maduros, cozamse em dois frascos de água, que fique em um e meio; e sendo as frutas alguma coisa verdes, ferverá até ficar em um frasco; deste cozimento se tirará o que for necessário para uma ajuda, e nela se lançarão duas colheres de azeite-de-mamona e uma colher, não muito cheia, de sal do Reino, e, mexido tudo no fogo até se derreter o sal e misturar bem o sal com o cozimento, morna se lançará ao doente, como fica dito, que com ela purgará muito bem por ser o dito azeite purgativo, e também as frutas, lançando frialdades às postas com os mais humores; e também são excelentes para quem tiver lombrigas, porque, além de purgarem os maus humores em que elas se cevam, as faz também sair, estando já atormentadas ou destruídas com os seus remédios contrários, que ficam referidos.

ajudas purgativas fortes 2. Com qualquer das ditas bebidas e com estas ajudas e emplastos tenho curado inumeráveis enfermos de pontadas, e, naquelas que não vêm com força, não uso de outra coisa, e sempre com bom sucesso; e se vejo que algumas não acabam de obedecer, purgo os doentes uma ou duas vezes, com purga de resina, e nada mais.

 

Capítulo XVI

 

Dos sinais das pontadas que procedem de causa

quente e sua cura

1. Os sinais das pontadas que procedem de causa quente serão os seguintes: terá o doente grande febre, os olhos estarão vermelhos, assim pela parte debaixo do branco deles, como também no mesmo branco, a língua estará seca, o doente estará pedindo água, o corpo estará muito esquentado, o rosto estará luzente, sendo preto, as urinas serão vermelhas. Tendo estes sinais, ou a maior parte deles, a sua cura se deve principiar por sangria, a qual se fará no braço contrário da pontada, e no pé ao mesmo tempo que é acabada a do braço, e, atada, se abra logo a do pé; e se o doente for robusto, se farão as sangrias boas do braço, principalmente sendo a pontada com aperto, e a do pé será sempre mais pequena, manhã e tarde; e, ao mesmo tempo das sangrias, tomará o doente o cordial solutivo seguinte. Tomem meia onça de flores cordiais, ou de raiz de escorcioneira, e meia oitava de pevides de cidra; machuquem-se estas coisas levemente e se ponham a cozer em panela de barro, e não em vaso de metal, com três libras de água comum até diminuir a terça parte, e, na última fervura, se lhe lancem duas oitavas de sene e uma onça de maná, e, tirando-se logo do fogo, se deixe estar por um quarto de hora, abafando a boca da panela; depois se coe e se guarde para o uso, do qual tomará o doente assim frio, ou quebrado somente da friúra, cinco ou seis onças, meia hora depois das sangrias, assim de tarde, como de manhã; e se o doente fizer obra com que não possa, tomará uma só vez ao dia, porque é purgativo, mas brando; e se quiserem que seja mais cordial, se lhe poderá ajuntar à dita quantidade duas oitavas de triaga magna, ou duas oitavas do cordial do doutor Curvo contra febres malignas, se o houver, feito em pó sutil; e haverá muito cuidado que o doente tome seus banhos no cesto para respeitar a corrupção-do-bicho; e, se for mulher, os tome em ambas as vias porque não suceda, como já vi, corromper-se a via e morrer o doente sem remédio, ainda que lhe fiz quantos pude, procedido da pouca cautela que muitas pessoas têm com os doentes, sendo coisa tão comum e fácil de remediar no princípio.

sangrias do braço e do pé, juntamente

sangrias e cordial solutivo

se for mulher

2. Assim se irá procedendo com cautela nas sangrias, que antes percam por mais pequenas e por menos, que por maiores e por mais das necessárias, tomando, ao mesmo tempo, o cordial e fomentando a pontada com enxúndia de galinha quente, que é remédio benigno e anódino de dores, com seu papel por cima, ou com ungüento peitoral, ou óleo violado, ou banha de flor, ou se lhe ponham folhas de fumo-bravo, a que eu chamo almeirão silvestre, passadas primeiro pelo fogo, que é bom remédio para estas pontadas; e, assim que a febre declinar para melhora e as mais queixas, se suspenderão as sangrias, porque, sendo mais das necessárias, debilitam os doentes por muitos tempos e fazem outros grandes danos, como se podem ver no fim deste tratado; e no dia que parecer está o doente capaz de se purgar, se purgará com purga de maná na forma seguinte: Recipe. Em quanto baste de

cozimento peitoral na última fervura, altere 4 de sene duas oitavas e, coado, se lhe ajunte cristal mineral meia oitava, cremor tartari um escrópulo, de bom maná três onças; desfeito tudo e coado, se dará morno ao doente. Esta purga se mandará fazer na botica, mas, se for em parte onde não haja a dita botica, se fará o cozimento como se diz no volume 1, página 244, e se lhe lançará o peso de maná conforme as forças e a idade do doente, e o menos que se pode dar a qualquer enfermo são duas onças, exceto se a fraqueza for muita, porque, em tal caso, será onça e meia, e o mais a que se pode estender o peso serão até três onças; quem quiser acrescentar à purga que fica receitada acima uma onça de xarope Pérsico e outra de xarope Rei, ou de xarope áureo, que vem a fazer duas onças, uma de cada um, poderá diminuir uma onça, ou até onça e meia, das três onças de maná que ficam ditas, e ficará uma purga composta muito boa para todas as enfermidades do peito; e para os faltos de notícia, que vivem pelos matos, a quero receitar. Recipe. Em quanto baste de cozimento peitoral na última fervura, altere de sene duas oitavas e, coado, se lhe ajunte de cristal mineral meia oitava, cremor tartari um escrópulo, de bom maná duas onças, xarope Pérsico e de Rei, de cada um uma onça, misture-se.

os danos das sangrias com excesso se podem ver no fim deste tratado

purga de maná composta

3. Se, depois de purgado, carecer de mais sangrias, se farão com toda cautela, porque costumam-se estas queixas nos pretos extinguir-se, a febre e os mais sinais de causa quente, de um dia para o outro, e ficarem com grandes catarrões, grande tosse, prostrados de forças, o peito cerrado sem poderem articular uma palavra; e quando os doentes ficam nesta forma, como a mim me tem sucedido algumas vezes, corre grande perigo a sua vida por falta de calor nativo e forças para poder cozer os humores e lançá-los por escarro, que é a melhor via e o melhor intento, ainda que sejam ajudados com os expectorantes de lambedores e tudo o mais que for peitoral; e se há fastio, pior.

forças prostradas de um dia para outro

4. Ao mesmo tempo que o doente tomar as sangrias e o cordial, a língua se lavará com vinagre destemperado com água, umas pingas de sumo de limão azedo e uma migalha de sal, molhando n o tal remédio, depois de bem misturado e derretido o sal, um paninho embrulhado no dedo, que desta sorte se fará melhor; e, depois de lavada, ou antes, se raspará também com uma colher o sarro que há de ter, como todos têm, por abundarem de muitos humores alheios da natureza do sangue, que, sem se lhes fazer isto, não podem comer, e depois o fazem com melhor vontade, o que é muito necessário para não caírem em fraqueza, pois, caindo nela, sobrepõe a enfermidade à natureza e custa muito livrar ao enfermo da morte; e não só é preciso fazê-los comer, dar-lho com mão larga e de boa sustância por este respeito, mas também porque, não havendo bom trato na doença, levam muitos meses a convalescer por ficarem muito debilitados; e, ainda que o doente tenha secura na língua e esteja áspera, nem por isto se deixará de lavar com o dito remédio; e a água que o doente beber será morna e não fria, a que quiser, principalmente aos comeres.

remédio para o fastio

5. Tanto que o doente estiver mais aliviado, se tornará a purgar com outra purga do mesmo maná, ou poderá continuar com o cordial solutivo, se com ele se tiver achado bem, para o que se repetirão as receitas que forem necessárias; e, se de todo estiver aliviado e a língua ficar branca e úmida, é sinal de que já predominam mais humores frios que quentes, e, neste caso, quando haja necessidade de purgar por haver ainda resto de pontada, se dará com purga de resina de batata, do modo que fica referido, respeitando muito as forças do doente, e se lhe dará já a beber a água de ordinário, cozida com raízes de capeba, não muito; e pode-a beber fria, a toda hora e a que quiser, e, se ajuntarem ao cozimento um bocado de raiz de butua, será muito melhor.

sinais de predominarem mais humores frios que quentes

água medicada para o doente beber a toda a hora e a que quiser

6. Suposto que tenho tocado esta matéria em outra parte, contudo, pelo desejo que tenho de proceder com clareza para utilidade dos enfermos, escrevo este parágrafo. Costumam, pela maior parte, as pontadas pleuríticas degenerarem em catarrões; estes, como a sua causa são humores frios, crassos e viscosos, custam muito a adquirir cozimento para se lançarem fora por escarro, que é o melhor intento, o qual se conseguirá com qualquer dos lambedores referidos no volume 1, páginas 244 até 246, estando o doente já purgado, para diminuição da maior carga dos humores; e quando a tosse for grande com dor nos peitos e os escarros crus sem cozimento algum, será melhor o lambedor de aguardente do Reino, porque, além de ser admirável para cozer os catarrões, também é muito peitoral e modera a dor ou pontada que houver no peito, ou na ilharga; e tanto que o doente começar a lançar escarros com algum cozimento, é bom sinal, porque logo as queixas irão a menos, o cozimento a mais, e sarará em pouco tempo; mas, se o doente não estiver ainda purgado e a carga de humores for grande, ainda que não haja cozimento algum, se pode purgar para diminuição dela e a natureza poder mais facilmente regulá-los e cozê-los, com os lambedores, bebidas vulnerárias e fomentações que ficam referidas.

enchimentos de humores crus, crassos e viscosos se devem diminuir com purga, ainda que falte cozimento neles, e a razão por que

7. O lambedor que mando fazer de aguardente do Reino de nenhuma maneira seja da da terra, como fazem algumas pessoas, porque fará graves danos, ainda que logo se não percebam.

8. As emulsões que se fazem das quatro sementes frias maiores são muito boas neste caso, as quais se acharão receitadas no princípio do tratado da miscelânea; e, havendo febre ardente, com tosse ou sem ela, serão adoçadas com lambedor de violas e, por necessidade, com açúcar, em pouca quantidade, e, não havendo a tal febre e havendo tosse, se adoçarão com lambedor de alcaçus ou de avenca, porque serão mais convenientes; mas se for em parte onde hajam as pevides para fazer as emulsões, e a chicória ou almeirão para fazer o cozimento, e não hajam os lambedores, em tal caso se adoçarão com pouco açúcar; sejam emulsões, ou lambedores, ou tisanas, se tomarão longe dos comeres, porque junto deles não farão proveito algum; e se houver a chicória e o almeirão, se fará o cozimento de ambas.

emulsões

Advertência precisa

9. E advirto que, se o doente for preto, se lhe dê boa cobertura, casa bem recolhida e o comer de boa sustância, que nisto pecam muito os senhores de escravos que hão de dar conta a Deus, e que, por nenhum modo, tendo catarrões, bebam água fria, porque se encruarão mais, antes, quanto mais quente a beberem melhor será, e que não façam desmanchos de mulher, ou cachaça, de que são muito afeiçoados. Outrossim, advirto que os senhores vão ver os seus escravos quando estiverem doentes e lhes façam boa assistência, porque nisto lhes darão muita confiança e consolação, metendo-lhes ânimo e esforço para resistirem melhor à doença; e se assim o não fizerem, como há muitos que tal não fazem, enchem-se os tais de confusão, vendo que não têm outro pai, e se deixam ir passando sem comer, ainda que lho mandem, até que ultimamente morrem, o que digo pelo ter visto assim suceder; e assim, por conveniência, como por obrigação, devem tratá-los bem em saúde e melhor nas doenças, não lhes faltando com o necessário, que desta sorte farão o que devem, serão bem servidos, terão menos doenças, mais conveniência, experimentarão menos perdas e terão menos contas que dar no dia delas.

advertência precisa

 

Capítulo XVII

 

Dos pontadas de causa fria, que são as que

comumente vêm sem febre

1. Estas pontadas se conhecem porque não há febre ou, quando a há, é pouca e, juntamente, porque tem a língua branca e languinhenta, ou úmida, e os olhos brancos pela parte de baixo do branco deles, as quais se remedeiam facilmente, pondo-lhe em cima o emplasto da erva-de-santa-maria, ou de farelos de milho grosso, ou de alecrim, referidos no v.l, nas páginas 242-244, e, dando-lhe a beber em jejum e antes do sol posto seis onças, ou um prato de estanho cheio de água muito bem cozida com raízes de capeba com um bocado de butua machucada; e porque fica bastantemente amargosa sendo bem cozida, a beberá o doente com uns pós de açúcar as primeiras vezes, enquanto se não costumar, as quais continuará todos os dias enquanto for necessário, tomando também todos os dias, à noite, ajudas purgativas das que ficam referidas no v.1, nas página 252-253. A água de chá, neste caso, também é maravilhosa.

2. Se, passados alguns dias, a pontada não obedecer, se purgará o doente com purga de resina de batata, uma ou duas vezes, interpolando alguns dias, conforme parecer necessário, e, se tiver tosse, se lhe acudirá com lambedor de aguardente, como fica dito, e fomentações ao peito para o abrandar; e será isto bastante para curar estas pontadas, e quando sejam necessárias mais purgas, as tomará, porque há alguns tão cheios de humores frios que tudo lhes é necessário, e como há algumas pontadas com febre que procedem da mesma causa fria, com estes auxílios se podem curar, porque são febres que procedem dos mesmos humores frios e, tirando-lhe a causa, cessará o efeito, como experimentará quem isto seguir.

tirando-se a causa, cessará o efeito

 

Capítulo XVIII

 

Do modo mais fácil de entender para os faltos de

prática na cura das pontadas

1. A primeira coisa que se deve fazer havendo pontada é olhar para o doente e ver se tem os olhos vermelhos pela parte de baixo do branco deles, o que se vê carregando-lhe com os dedos, como já disse; ver-se-á também a língua, se a tem vermelha e seca e se o doente tem securas; tomar-se-lhe-á o pulso e se verá se tem grande febre, o rosto sendo preto, se o tem luzente; neste caso se sangrará e fará o mais que fica referido no v.1, na página 254 e nas seguintes.

2. Digo no v.1, na página 254 acima que os doentes se sangrem no braço e no pé juntamente, porque tenho visto ruins sucessos da sangria do braço somente, ainda que logo se não perceba o dano, e depois, pela maior parte, se não pode remediar, assim por falta de não haver forças, como porque se tem aumentado a doença e suspendido os humores para cima com a dita sangria do braço; e, ainda que, ao depois se sangre no pé, não aproveita por ser tarde, e por este mesmo modo tenho visto morrer a muitos; e assim que não só nestas Minas, senão também em todo o Brasil, se tem a sangria do braço somente por muito má, tanto na opinião do vulgo, como pela experiência assim o ter mostrado; e por me ter sucedido bem com as sangrias do braço e do pé juntamente, ainda que estas sejam mais pequenas, por isso aconselho que se faça o mesmo quando houver pontada com necessidade de sangrar, que poucas vezes acontecerá.

razões por que, sendo a sangria feita somente no braço, é muito danosa

3. E, quando a febre for ardente, se poderá usar do cordial ou emulsão seguinte. Faça-se cozimento de folhas de chicória e de almeirão, de cada uma uma mão cheia, nele se desfaçam as quatro sementes frias maiores, ou parte delas, como são pevides de melancia e de abóbora, sendo de água, melhor; descascadas e pisadas, se irão mexendo com a mesma mão do almofariz dentro dele com um bocado do dito cozimento, e se irá coando por um pano o que tiver defeito; e a massa que ficar se tornará a pisar e a colocar água do cozimento, coando-o, e assim das mais vezes, até se acabar a massa; depois se lhe misturará tanta água do cozimento até que fique, nem muito clara, nem grossa; estando assim, se lhe lançará o sumo de limão que for necessário para ficar agradavelmente azedo e, conforme forem as pevides, assim será o cozimento, não sendo de prejuízo algum sendo de mais alguma quantidade, uma ou outra coisa adoçado com pouco açúcar.

como se fazem as emulsões

4. Serve este cordial, ou emulsão fresca, para onde houver pobreza ou por necessidade de não haver botica aonde se possa mandar buscar, que, havendo-a e querendo-se mandar buscar a ela, se pedirá nesta forma. Recipe. Em quanto baste de cozimento de chicória e de almeirão, se desfaçam as quatro sementes frias maiores, que fique, em libras duas, a que se ajunte, de lambedor de violas quatro onças, sumo de limão azedo pouca quantidade; e, se quiserem que seja mais cordial, se lhe mandará ajuntar duas oitavas de triaga magna.

emulsão ou cordial fresco para febres ardentes

5. Assim se irão continuando as sangrias com moderação, porque neste clima é muito necessário poupar as forças, a respeito dos mantimentos serem de pouca sustância e pouco nutritivos, por cuja causa caem as forças dentro de poucas horas e não dias; e como sempre se há de purgar, bom será que as haja para se fazer a seu tempo, para o que também é preciso que o doente coma bem e às suas horas. Feitas as sangrias que parecerem necessárias, segundo a grandeza do mal e as forças o permitirem, se verá se o doente tem grande enchimento de humores e que tenha mais sinais de predominarem humores frios do que quentes, os quais ficam apontados nos capítulos antecedentes; e, tendo-os, se purgará com purga de resina e depois com a de maná, e as que forem necessárias, como a cada um lhe parecer; mas, se, pelo contrário, houverem mais sinais de causa quente que de fria, neste caso se purgará com a purga de maná composta que atrás fica referida e as mais vezes que forem necessárias; e se parecer, ultimamente, que será necessário purgar-se com purga de resina para acabar de alimpar os humores frios, que sempre predominam neste clima, se fará, o que não será desacerto.

caem as forças dentro de poucas horas

6. E, sendo caso que o doente haja tido algumas causas gálicas, ou dores de juntas, ou as tenha de presente, se purgará, ultimamente, ou em lugar da purga de resina, ou depois dela, com purga de jalapa, que terá duas oitavas de peso, ou até duas e meia, sendo pisada de fresco e não antiga, por perder muito da sua virtude, porque a dita jalapa purga todos os humores e, principalmente, das juntas, para o que é especial.

purga de jalapa purga todos os humores, e das juntas

7. Este é o método com que tenho curado as pontadas pleuríticas nestas Minas há vinte anos a esta parte com bom sucesso, Deus louvado, como é notório nos distritos das comarcas aonde assisti.

8. Não há dúvida que as doenças variam e há, algumas vezes, constituições malignas, como sucedeu na Vila Real do Sabará o ano de 1730, aonde deu uma constituição de pleurises que se levaram à pura sangria, cordiais e purgas frescas, mas isto foi acaso, porque eu nunca vi tal nestas Minas em tantos anos que nelas assisti; e quando haja alguma variedade ou diferença do que tenho dito, persuado-me que não seja grande, exceto as que dão com escarros de sangue, que destas tratarei no capítulo seguinte e nas observações; mas, porque é factível que algumas sucedam com a tal diferença, cada um as curará como melhor entender, que eu não estou mais obrigado que a dizer o que entendo e o que tenho observado, não como desejava, mas como o tempo mo permite.

9. Quem usar deste modo curativo que exponho me dará o agradecimento, ainda que o não espero, e escusará de fazer as despesas em boticas que estão fazendo os senhores dos escravos e muitos brancos, terão menos tempo de doença e menos perdas; e quem fizer mais caso da opinião deste mundo que da conta que há de dar a Deus, siga o seu ditame e não a minha advertência, que algum dia, ou no fim deles, lhe fará pendor.

quem usar deste modo curativo experimentará menos perdas nos escravos

 

Capítulo XIX

 

Das pontadas pleuríticas que dão com escarros

de sangue

1. Cuidarão algumas pessoas que as pontadas que dão com escarros de sangue procedem de abundância dele, e, na minha opinião, segundo o que tenho observado, é engano, porque alguns que mandei sangrar, quanto mais sangrias tomavam, mais sangue lançavam nos escarros, por onde vim a entender que o sangue não saía por abundância sua, senão por abundância e corrupção dos mais humores alheios da sua natureza; e tanto que comecei a purgá-los, melhoravam os escarros, porque uns, com a primeira purga, não lançavam mais sangue, e outros, com a segunda, ficavam livres, assim do sangue, como da pontada, pelo que não tenho que me deter mais nesta queixa, senão dizer que se devem purgar com resina de batata as vezes necessárias, e, quem tiver medo de purgar com ela por ser mais forte que o maná, poderá usar do dito maná as vezes necessárias, e de nenhum modo com vomitório, salvo se os amargores da boca forem tão grandes, e o fastio, que o doente não possa comer coisa alguma, pois estes sinais darão claros indícios de haver grande enchimento no estômago e, pelo conseguinte, serem as mais queixas produtos do mesmo enchimento; e, neste caso, se poderá usar do vomitório em diminuta quantidade, porque vale mais usar dele por duas ou por três vezes seguramente que querer tirar o enchimento com um vomitório grande em um dia, com perigo; e depois de dados os que parecerem necessários, se purgará com resina ou maná, e também será muito acertado, depois que o doente estiver purgado, usar do lambedor seguinte, ainda que esteja lançando algum sangue nos escarros ou no cuspo.

sangue nos escarros não sai por abundância dele 2. Cozam uma ou duas raízes de capeba muito bem cozidas e, no cozimento que quiserem, lançarão o açúcar que for necessário para ferver até ficar em ponto de lambedor, que não fique grosso; deste darão quatro colheres ao doente, morno e longe dos comeres, por três ou quatro vezes cada dia, que observarão um proveito maravilhoso, como eu posso afirmar por usar dele muitas vezes sempre com feliz sucesso, e adiante citarei uma observação para maior clareza. Os brancos que andarem descalços por orvalhos, molhados e resfriados, ou tenham pontadas ou catarrões com escarros de sangue, se curarão pelo modo que fica dito, bebendo água cozida com raiz de butua em lascas.

lambedor de raiz de capeba, invento do autor

brancos se curem do mesmo modo que os pretos

 

Capítulo XX

 

De observações com escarros de sangue

1. No mês de maio do ano de 1730, se queixou um escravo meu de dores de ombros e depois lhe desceram para as costas; mandei-lhe fazer uma fomentação com óleo feito de arruda e de alecrim, na forma que logo ensinarei em parágrafo separado, com a qual ficou bom; passaram-se alguns dias, continuando com ele, e teve tanta melhora que foi para a lavra trabalhar; ao sétimo dia, lhe deu tão grande dor nos peitos que nessa noite não dormiu coisa alguma, e, indo vê-lo pela manhã, o achei com bastante febre, bem ansiado, com grande tosse e lançar do escarros de sangue, sem se poder mover de um lugar.

escarros de sangue

2. Quando fui ver este doente, seriam oito horas da manhã, por me não darem parte mais cedo, e, considerando que estas queixas assim grandes não costumam obedecer senão a grande remédio, lhe dei, às mesmas horas, uma purga de resina de batata de três quartos de peso, com que fez quarenta e sete cursos, e a noite seguinte a passou com mais alívio na febre e já sem lançar escarros com sangue; no outro dia de manhã, em jejum, lhe mandei dar o lambedor de aguardente bem queimada para ficar mais dócil e, à noite, o tomou outra vez a respeito da grande tosse que tinha, para ir dulcificando e cozendo os humores crus para melhor se lançarem por escarro, por ser lambedor mais forte que os outros e vencer as tosses em menos tempo, tomando também, todos os dias à noite, ajudas purgativas com bom regimento e banhos por baixo, para respeitar a corrupção-do-bicho; e com bom trato sarou, sem mais coisa alguma.

escarros de sangue se suspenderam com uma purga

3. Nota. Que, nas pontadas em que houver tosse com escarros de sangue, se não sangre o doente como tenho dito, parecendo que, com as sangrias, se há de extinguir o tal sangue, antes se aumentará mais; porque, como a causa não é abundância dele, mas sim a dos mais humores, quanto mais se sangrar, mais sangue aparecerá nos escarros, ou ao menos se não há de remediar por este caminho, enfraquecendo-se e debilitando-se a natureza, de tal sorte que, ainda que se queira purgar ao depois, se não poderá fazer, por cujo respeito se há de dilatar a doença ou morrer o enfermo, o que não sucederá purgando-se logo no princípio com mais ou menos purgas, conforme as forças e o estado em que estiver a doença; e, depois de purgado a primeira vez, se poderão usar dos expectorantes que são os lambedores, ou a emulsão das quatro sementes frias maiores adoçadas com lambedor de violas ou, não havendo febre, com lambedor de alcaçus ou de avenca, e, em falta de tudo, com açúcar; e, havendo febre, com lambedor de violas, ou de camoezas, ou de papoulas.

Continuar: parte 3 de 3