Erário mineral
11. Tratado IV – Das deslocações, fraturas e suas observações
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
junta de vários cirurgiões
Capítulo V
Das fraturas sem ferida e uma boa observação
1. Fraturas, em nome cirúrgico, se chamam às quebraduras dos ossos de nosso corpo, as quais podem acontecer em qualquer deles, mas as que mais comumente sucedem são em pernas ou braços, e algumas em costelas, e nos ossos chamados da fúrcula, que são aqueles que vão do ombro para o pescoço e para a parte dianteira, a modo de travessas. Sendo, pois, a fratura em perna ou braço, o que mais importa em primeiro lugar é reduzir o osso, ou ossos, a seu próprio lugar, o que se fará, sendo em perna, estando o doente deitado de costas, mandando puxar um ministro pelo pé, pondo-o em sua forma natural, e outro ministro que segure o doente por baixo dos braços, puxando cada um para a sua banda com toda a força, advertindo que só se puxará com força sendo a fratura na perna, ou braço, do cotovelo para a mão, aonde temos duas canas, ou sendo a fratura na perna, do joelho para baixo, aonde também temos duas, e, sendo também a fratura ao comprimento dos ossos ou meio atravessada e meio ao comprido, de sorte que não seja totalmente atravessada, pois, neste caso, se puxará com sentido, para que não fiquem as duas cabeças dos ossos divididas uma da outra; e muito principalmente se deve atender a isto com muito grande cautela, sendo a quebradura na perna do joelho para cima, aonde não temos mais que um só osso ou cana, ou sendo a quebradura no braço, do cotovelo para cima, onde também não temos senão um só; porque, se nestas duas partes se puxar pelos membros com muita força, de sorte que fiquem as cabeças dos ossos apartadas, assim mesmo desunidas, cria, cada uma, o seu poro na ponta e, infalivelmente, fica o doente aleijado para toda a sua vida, sem remédio, como nas observações mostrarei.
2. Sendo, pois, como dizia, a fratura do joelho para baixo, estando o doente deitado e os ministros puxando, o cirurgião, ou quem fizer a cura, irá correndo os dedos pela quebradura, carregando nos ossos que estiverem mais altos, compondo-os e igualando-os com toda a brandura que for possível, de modo que fiquem todos em sua forma natural, o que se conhecerá porque a parte da quebradura, correndo-lhe os dedos por cima, se achará lisa, igual e sem alto ou baixo, olhando bem a figura do membro, tomando-o pelo comprimento do corpo para ver se fica em forma natural ou não, olhando também para o são, o que é de muita importância, porque, nesta primeira cura, está toda a circunstância para o bom ou mau sucesso do enfermo, como também em todas as mais curas. Estando, pois, o membro direito, os ossos compostos e os ministros puxando não demasiado, se lavará todo o membro com aguardente do Reino, da melhor que se puder achar, e bem quente, deixando estar o pano molhado nela por algum espaço em cima da quebradura para aquentar aquela parte, corroborar aqueles ossos e nervos, desalterar a contusão da carne e feridas que as pontas dos ossos por força haviam de fazer dentro, o que tudo é de grandíssima utilidade, que tudo isto faz a dita aguardente. E, depois disto assim feito, se lhe porá o emplasto feito de olhos-de-embaúba, aguardente e pós, o qual já fica referido, ou o de terebintina, conforme a cada um lhe parecer, o qual estará preparado com as talas, panos e ataduras fortes e compridas, antes de entrar à cura.
fratura do joelho para baixo
3. Estando tudo aparelhado que antes sobejem algumas coisas que faltar uma só que seja, o membro direito e lavado com a dita aguardente, os ossos compostos e o emplasto feito que não fique úmido, se estenderá em um pano de linho grosso e bem tapado que tome todo o membro em redondo e traspasse alguma coisa, tomando também acima e abaixo da quebradura quatro dedos, e pulverizado com os pós que ficam ditos nas deslocações ou os que se puderem achar, conforme a parte ou a necessidade, que eu já fiz curas com os de breu e almécega somente, e nem por isso deixou de sarar o enfermo, o qual se porá quente para pegar, que frio não pegará, e de pouco proveito ou de nenhum servirá; e posto, se lhe meterá uma ponta por baixo da outra, puxando bem por elas para ficar bem unido, tendo os ministros o membro no ar e bem direito, acompanhado com as mãos por baixo, que de nenhuma sorte bulam os ossos, nem se encolha o membro, não puxando com demasia; pegará o cirurgião em uma atadura larga e comprida que terá enrolada e começará a atar o emplasto e o membro, puxando com brandura e com força não demasiada, para que o enfermo não perca o membro, apodrecendo-lhe dali para baixo, como tem acontecido algumas vezes, ficando bem justa e unida, deixando a primeira ponta debaixo da primeira dobra e a última segurará com outra pequena e mais estreita. Depois disto, lhe porá as talas, que serão lisas e com as pontas que ficarem para dentro chanfradas ou rombas, para, quando se apertarem as mais ataduras, não se meterem pela carne, e, de nenhuma sorte, cheguem com as pontas às juntas, as quais se porão compassadas que fique pouco menos de dois dedos de largura entre uma e outra, nas quais pegarão os ministros para o cirurgião lhe atar uma atadura pequena nas pontas de uma banda e outra nas pontas da outra banda; estando assim, as tornará a compor, e, compostas, pegará em outra atadura que terá enrolada como a outra que já atou, e apertará as talas com ela, dando bastantes voltas, que, para isto, será comprida e forte, e no fim segurará a ponta dela com outra atadura pequena; depois, cobrirá com baeta aquele membro. Tudo isso se fará tendo os ministros sempre muito sentido em que não dê de si coisa alguma a quebradura, puxando sempre o necessário; e depois se porá a perna em uma telha de pau, cavado com enxó-goiva, à feição da mesma perna, em que assente muito direita, ficando o calcanhar de fora para assentar melhor, calçando-o com alguma coisa, a qual telha será forrada com pano e será de pau seco, e não de barro; mas, no caso que não haja com que se faça a telha de pau, será telha de barro, e esta será bem forrada; e, depois da perna assentada, se calçará com panos de uma e outra banda, e depois se lhe porá uma tala comprida de pau lavrado por uma banda para assentar, que chegará desde o calcanhar até a coxa, pela parte de fora, e outra pela de dentro, que esta será mais curta, e ambas se atarão juntas com a perna em cima, no meio e em baixo, ficando tudo bem seguro, para, deste modo, ficar a cura com perfeição e livre de que o doente possa bulir com a perna; nem se usará de paus enrolados, como manda Antônio Ferreira, por ser menos conveniente que a telha.
como se fará a cura da fratura do joelho para baixo
nao se apertarão muito as ataduras por não apodrecer o membro dali para baixo
telha de pau para assentar a perna, invento do autor
talas desde a coxa até o calcanhar
4. Esta cura se fará na mesma parte aonde o doente há de dormir e ficar para enquanto durar a doença e, depois de tudo isto assim feito e acabado, se lhe dará sítio, que é uma corda atada na travessa ou caibro da casa, que fique com uma laçada ou seio no direito dos peitos do enfermo, e perto aonde o doente possa chegar e meter a mão para nela fazer força e se suspender quando quiser mover-se, ou para cursar, para deste modo não bulir com a perna; e isto é de tão grande importância que, sem esta corda, ficarão todos aleijados.
sítio nas quebraduras, que coisa é
5. Sendo a fratura em braço, se curará do mesmo modo com ministros que tenham grande sentido no que fazem, segurando bem o membro, olhando para o outro e com os mesmos remédios e tudo o mais que fica referido, só com diferença que o braço se porá ao peito em uma toalha larga em que assente bem, e também se lhe porão, depois das talas pequenas e atadas, duas largas e fortes, que chegue uma desde o cotovelo até às costas da mão e a outra desde o sangradouro, ou perto dele, até a palma da mesma mão, e bem atadas; mas não chegarão ao sangradouro, nem ao cotovelo, para dar lugar a dobrar o braço e se lhe dar sítio, que é metê-lo na toalha e ficar ao peito, e não ficará o braço muito levantado.
fratura do braço 6. Estas talas grandes que mando pôr nas pernas e braços é invento meu, de que tenho sempre usado com bom sucesso, que, deste modo, atándose estas talas juntas com a perna ou braço, não lhe fica lugar de bulir com o membro e são muito precisas, principalmente nos pretos, para quem me foi necessário buscar este meio, vendo que não estavam quietos, e, ao depois que usei delas bem atadas e seguras, sempre achava a cura direita e o membro bem situado, como o deixava. Também é invento meu o emplasto de embaúba com aguardente e também o lavar e desalterar a parte depois dos ossos em seu lugar com aguardente do Reino, cujas virtudes tão singulares se acharão manifestadas em várias partes deste volume. Também é invento meu a telha de pau seco cavado, como fica dito, e outras algumas circunstâncias que os professores perceberão muito bem.
invento do autor
7. Não havendo coisa de novo, se não bulirá nesta primeira cura, senão passados sete dias, ou seja em braço, ou em perna, e, passados eles, se lhe lançará outro emplasto do mesmo, e com as mesmas cautelas e circunstâncias que ficam ditas; e a outra cura será desta a quatorze dias, ou mais, não havendo necessidade, e, ainda que tenho curado alguns doentes com dois emplastos, sempre será melhor acerto lançar-lhe terceiro, que será aos vinte e cinco ou aos trinta dias; sendo perna, do joelho para baixo, estará de cama sessenta dias completos; sendo do joelho para cima, estará três meses, sem lhe faltar um dia, porque já me sucedeu mandar levantar um homem no fim de oitenta e sentiu ranger-lhe os ossos na mesma quebradura, e com o susto se deixou cair no chão, e, com efeito, indo vê-lo, ainda os ossos de todo não estavam unidos, o que conheci tirando tudo fora; e bulindo com a quebradura, lancei-lhe outro emplasto, com que esteve mais um mês, e ficou são; e esta do braço se não dará por segura, senão passados cinqüenta dias.
tempo que devem estar de cama os doentes de fraturas de pernas, coxas e braços 8. Mas, se houver alguma coisa de novo, como dores ou inflamação, se verá: se é por causa das ataduras apertadas, se afrouxarão; se for por causa da quebradura estar fora de seu lugar, como sucede muitas vezes por culpa do enfermo e a mim me sucedeu já algumas, se tirará tudo fora e se curará de novo; se for por inflamação causada de algum decúbito de humor que acudisse à parte, neste caso, sendo perna, se sangrará no braço as vezes necessárias e, sendo braço, se sangrará no pé, sendo antes menos vezes que mais, e, na parte acima e abaixo da quebradura, se porão panos molhados em três ou quatro ovos batidos com claras e gemas, misturando-lhe a terça parte de aguardente do Reino, tudo bem batido, que este remédio é bom para tirar as dores e não prejudica a fratura, como podem prejudicar os remédios frios de tanchagem, vinagres, etc. E sendo as dores muitas, se lhe porão por cima dos panos do ovo panos de água-rosada ou de vinagre destemperado, mas com sentido, e se renovarão todos em se secando; e tanto que se for a inflamação ou se for desvanecendo, se suspenderão as sangrias, as quais serão moderadas, porque pode acontecer desamparar a natureza a quebradura e ser a cura mui dilatada, como já vi, ou ficar o doente com lesão. Comerá coisas engrossantes, como arroz, mãos e pés de boi ou de vaca, e outros semelhantes, que sejam de sustância para criar ou regenerar o poro mais breve e mais firme.
sangrias havendo inflamação, e aonde se hão de fazer
9. Uma coisa de mui grande importância quero advertir na cura das fraturas (ainda que já tenho tocado esta matéria), e é que todas as que quebrarem os ossos atravessados, se não puxe pelo membro, como se puxa nas outras que quebram ao comprido, ou ao meio [guinete?], que nem é atravessado, nem ao comprido; isto é aonde temos um só osso, que são em duas partes, uma é do joelho para cima, a outra do cotovelo para cima. Conheceremos, pois, que a fratura é atravessada, pegando com uma mão fora da quebradura para uma banda e com a outra da outra banda, e, quando uma mão puxar para cima, a outra puxará para baixo, ou uma para uma banda e outra para a outra, e logo se verá no ranger dos ossos se estão lascados ao comprido ou se as cabeças da quebradura passam uma pela outra; e também apertando o osso entre os dedos, examinando isto bem; e, se estiverem quebrados ao comprido, ou a meio [guinete?], puxarão os ministros com mais força, e se estiver o osso quebrado atravessado, puxarão muito devagar, tão-somente para as cabeças do osso ficarem justas e não cavalgadas, nem também apartadas, porque, ficando apartadas, ali criam cada uma o seu poro em cada cabeça, e, por força e sem remédio, fica o doente aleijado. Tornei a falar nesta matéria por algumas circunstâncias que acresceram e por ser de tão grande importância.
as quebraduras do cotovelo para cima e do joelho para cima se não deve puxar por elas com força, por não haver nestas partes senão um só osso, e a razão por que
como se conhecerá se o osso está quebrado ao comprido ou atravessado
10. As fraturas também se podem curar com emplastos de terebintina e pós de toda a bisma, como fica dito na cura das deslocações, estando o doente perto de botica, onde comodamente possa usar deles, de que eu também tenho usado com sucesso; mas, estando longe ou sendo o doente pobre, seguramente pode usar dos de embaúba, que são excelentes os simples de que se compõem; e, em suma necessidade, se pode usar do de aguardente e pós, que também fica dito nas deslocações.
razoes acerca dos emplastos, que são três
11. Nota que as fraturas nestas Minas tenho alcançado, por certo hão de mister mais tempo para sararem que em outras regiões, maiormente se forem em pretos que o seu ofício seja mineiro, que ande sempre metido na água, ou branco pobre que ande descalço e exposto a todo o rigor do tempo, ou em sujeito fleumático que abunde de humores frios; e também, por outra razão, que é pelo clima não ajudar, por ser, na minha opinião, frio e úmido, e os ares finíssimos e penetrativos.
fraturas nas minas hão mister mais tempo para sararem que na Europa, e a razão por que
12. Também tenho observado que as fraturas se não devem curar nestas Minas como alguns autores mandam, principalmente Antônio Ferreira, o qual manda se misturem nos emplastos claras de ovos, como já toquei e de que nunca usei, nem me parece acerto usá-lo, por considerar o clima, a habitação dentro da água, os que são mineiros e pretos, que estes são os comuns que quebram braços e pernas, e também alguns brancos, considerando também a nutrição dos alimentos, ou sendo brancos pobres, que estes, pela maior parte, levam pior vida sendo forros do que levam os cativos. E, considerando o referido e os ruins agasalhos e fracas coberturas, sempre usei dos emplastos e modo que fica declarado com felicíssimos sucessos, seja Deus sempre louvado, sem sangrias, nem fomentações mais que as da aguardente. E para corroborar esta verdade, me seja lícito relatar o caso seguinte em uma observação que fiz.
Observação doutrinal muito para se ver
1. No ano de 1711 fui chamado para curar um escravo de Manuel Gonçalves Loures, tesoureiro dos defuntos e ausentes, morador na Vila Real do Sabará, o qual tinha uma fratura no osso fêmur, que é o da coxa, e estava totalmente quebrado, e, ao mesmo tempo, chamaram a outro cirurgião, e como ambos nos achamos juntos, a ambos pediu o senhor do escravo o curássemos. Logo começou o dito cirurgião a pedir claras de ovos, quis eu dissuadi-lo, sem que os circunstantes o percebessem, mas não foi possível; enfim, quebrou quantidade de ovos e se fez o emplasto com suas claras e pós da bisma, mas como eu fui com ele ao fogo, perverti a virtude das claras em as deixar cozer bem. Curamos o enfermo e passou bem até o seteno dia, em que nos tornamos a ajuntar para fazer a segunda cura, antes da qual mandou o dito cirurgião quebrassem ovos bastantes e fossem lançando as claras à parte. Disse-lhe com silêncio e como companheiro que não curássemos com claras, por não serem convenientes, como já lhe tinha advertido, ao que respondeu, com voz inteligível, que todos os circunstantes perceberam e não eram poucos, que as claras eram muito necessárias e que se não podia fazer a cura sem elas, pois os autores assim o mandavam; e, como eu desejava tanto a saúde do enfermo, como o meu crédito, respondi que bem podíamos fazer a cura sem elas por serem muito frias. Alterou vozes, apontou autoridades e eu me despedi da cura e do senhor do enfermo, protestando com palavras moderadas que o doente até aquele ponto estava bom e, se dali por diante, lhe sucedesse mal, carregaria ele só com a cruz e, se bem, com o aplauso.
claras de ovos não convêm nas quebraduras, por serem frias
2. Dali a três dias me foi chamar o dito tesoureiro para lhe ir ver o dito enfermo, e, ainda que fiz bastantes diligências para me escusar, como era vizinho me não pude livrar e achei o doente na forma seguinte: assim que pus as mãos na coxa da quebradura, para cima e para baixo do emplasto que tinha, achei a parte sem calor, com muito pouco sentimento e muito disformemente inchada, cedendo ao tato e fazendo covas como em maçã; logo peguei na mão do dito seu senhor e lha pus em cima da inchação, dizendo-lhe carregasse com os dedos e visse a cova que fazia e o calor que tinha. Ficou o homem admirado e confuso, e, instando comigo lhe dissesse a causa de tão horrenda novidade, com grande importunação lhe disse, por me ver livre dela, que eram claras de ovos e que logo, sem demora, chamasse o dito cirurgião para tratar do caso; mas, pedindo-me com rogos enternecidos lhe aplicasse algum remédio, pois sendo o seu escravo bom o via perdido, sem embargo que recusei bastantemente instou, de sorte que, compadecendo-me assim do miserável estado em que via o enfermo, estando a pique de perder a vida, dilatando-se-lhe o remédio qualquer espaço de tempo ou não se lhe aplicando o que fosse capaz de aquentar a parte, chamar espíritos a ela e diminuir a grande inchação que tinha, para que, ausentando-se o humor frio e ficando a parte mais aliviada, pudesse melhor a natureza corroborá-la com a ajuda da arte, como de seu senhor, para não perder um monte de dinheiro, como é o de um escravo bom.
claras de ovos iam sendo causa de apodrecer a coxa de um enfermo, e morrer
3. Fazendo estas considerações, me vi precisado a aplicar-lhe algum remédio, e excogitando qual seria o melhor e que prontamente o houvesse à mão, para com toda a presteza acudir a tal necessidade, ocorreu-me que não podia haver mais pronto, nem de melhor virtude, que a aguardente do Reino, da melhor que se pudesse achar, e que, em cada canada dela, se lhe lançasse uma mão cheia de sal, também do Reino, pois o do Brasil é muito mais inferior; e bem quente a fogo brando, e que esteja o sal derretido, nela se molhassem panos e se chapejasse e fomentasse toda a perna, desde o joelho até a virilha, molhando o emplasto que tinha e ataduras; mas que havia de ser tão quente ali junto do enfermo que mal se pudesse sofrer nas mãos e, depois que lhe fizesse uma larga fomentação, se lhe cobrisse toda a perna com panos molhados, e, por cima deles, sua baeta nova, seca e atada, e, se fosse dobrada, melhor, assim para resguardo do ar, como para os panos molhados na aguardente se não secarem tão depressa, abafando e rebatendo em parte os seus espíritos; e que houvesse grande cuidado que, em se secando os panos, se tornasse a fazer outra fomentação na mesma forma, panos molhados, baetas e ataduras por cima, e tratasse logo de comprar um barril da dita aguardente escolhida, que tudo lhe havia de ser necessário, e chamasse logo o cirurgião que estava encarregado da cura, e estivesse de acordo, para que, querendo mudar de remédio, não o consentisse, porque, na minha opinião, o não havia nas Minas melhor e que tinha cura dilatada.
a aguardente com sal salvou a vida a um enfermo
4. Bem sei que não faltará quem me calunie, tanto neste remédio, como em muitos mais que vão neste meu livro, mas eu lhes quero responder em poucas palavras: vejam e considerem bem as razões que se acham na primeira folha do prólogo e as de estarmos nesta altura; e também do ver a ouvir dizer.
5. Assim, e do mesmo modo, continuou o dito cirurgião com o mesmo remédio, por achar lhe era conveniente, e não me constou que usasse de outro, mas, sim, constou a todos que esta cura durou acima de cinco meses. Com o tal remédio se desvaneceu toda a inchação e foi a parte adquirindo calor, mas a causa de durar a cura tantos meses foi por respeito da fratura ficar relaxada e aberta novamente, com a vizinhança de tanto humor frio; e o ficar aquela parte tão fraca e falta de calor foi a causa de o ver andar encostado a um bordão, depois de passados os cinco meses.
6. Tornando ao ponto de dizer eu que eram claras de ovos, aqui houve muito que ver, porque, indo o tal cirurgião ver o enfermo, lhe disse seu senhor que eu havia dito ser a inchação procedida das claras com que ele lhe fizera a segunda cura, de que ficou tão enfurecido que, topando-me na rua, me perguntou se eu havia de negar que fraturas se não curavam com claras de ovos, ao que respondi que, se respondesse ao que eu perguntasse, nenhuma dúvida tinha; disse que estava pronto. Perguntei então em que clima estávamos, em que partes habitavam os pretos mineiros, que agasalhos eram os seus, que mantimentos, que qualidade tinham os ossos e, finalmente, que qualidade tinham as claras de ovos. Respondeu, quanto à primeira pergunta, que o clima lhe parecia frio; à segunda, que as partes em que habitavam os pretos mineiros era dentro da água e que esta era fria; à terceira, de mantimentos e agasalhos, que tudo lhe parecia mais frio que quente; à quarta, que as partes ósseas eram frias e secas; e, finalmente, que as claras de ovos eram frias, secas e estíticas, o que não podia negar.
perguntas e respostas em um argumento na rua
7. Perguntei mais: “Pois, senhor, se vossa mercê confessa que tudo o que lhe tenho perguntado é frio, neste caso havemos de curar um semelhante com outro semelhante para se conservar a doença ou aumentar-se?” A isto respondeu que os autores assim o mandavam e assim o havia de seguir, e não a minha advertência; ao que disse eu que éramos obrigados a curar as doenças conforme a região e o clima onde nos achássemos, a razão nos ditasse e a experiência nos ensinasse, porque os autores, quando escreveram, estavam em outras terras mui remotas e de diferente clima e não tinham notícia deste. Este caso sucedeu na rua da Barra, do Sabará, em presença de muito povo.
as doenças se devem curar conforme a região e a experiência ensina
8. No princípio que cheguei a estas Minas, usava, nas quebraduras, de emplastos feitos de terebintina e pós de toda a bisma, ou parte deles, que naquele tempo só os cirurgiões e médicos tinham alguns remédios, pois boticas as não havia; e como considerei haver poucos medicamentos e venderem-se por alto preço e ouvia dizer que os olhos-de-embaúba eram bons para quebraduras, compus os emplastos na forma que fica dito, com os quais tive sempre admiráveis sucessos. E nesta forma ficaram os doentes bem servidos, com menos despesa e menos trabalho de os irem buscar, muitas vezes um e dois dias de jornada; e, tendo curado com eles inumeráveis fraturas, ainda não houve uma que não sarasse perfeitamente, porque estes, além de pegarem bem, lançando-lhe os pós, estando bem quentes e postos na parte ainda com bom calor, fazem regenerar o poro para soldar as quebraduras, corroboram a parte, confortam e desfazem a inchação que sempre há mais ou menos, por levarem a aguardente.
razão por que compus os emplastos de embaúba
9. Não posso negar que os emplastos de terebintina e pós da bisma são muito bons e se podem usar, mas fazem mais despesa aos pobres e, na minha opinião, não obram tão bem neste clima, por não levarem a aguardente, que esta é descoagulante das inchações, confortante, balsâmica e amante da natureza.
10. Também o cataplasma, que se faz de duas onças de ferrugem da chaminé, limpa e peneirada, e de uma onça de farinha de trigo com meia onça de incenso em pó, tudo fervido a fogo brando em uma aguardente do Reino até ficar em forma de emplasto, pode servir para curar qualquer fratura; e se podem acrescentar os simples, sendo necessário, de modo que, antes, sobeje massa, que falte na ocasião.
outro emplasto para quebraduras
11. Advirto aos principiantes que, quando fizerem alguma cura destas, depois dos ossos estarem repostos em seu lugar, lavem muito bem a parte e sua circunferência com aguardente do Reino bem quente, como já tenho dito, para desalterar aquela parte e corroborá-la, assim das dores e inchação, como da contusão que sempre se recebe externa e interna, pois, desta sorte, abraçará a natureza melhor o emplasto; eu sempre assim o tenho feito com bom sucesso e, se vejo que o doente, depois de curado alguns dias, se queixa de dores (porque muitas vezes sucede, quando se cura, estar a parte muito inchada), vejo se as dores são procedidas das ataduras ficarem mais apertadas, afrouxo-as; e sendo por causa da inchação não estar ainda de todo remetida, fomento-a com aguardente quente, assim por cima da quebradura, como por baixo dela, e, ainda que molhasse o emplasto, se me não dava. Muitas vezes vi dores procedidas por causa do emplasto estar seco e ter apertado muito aquela parte, o que remediava, admiravelmente, molhando-o com a dita aguardente quente as vezes necessárias, pondo-lhe seus panos molhados com baetas por cima, e logo aliviavam, porque ficava aquela parte mais fresca e menos áspera e desfazia a inchação, se a havia.
os ossos quebrados fazem contusão interna e externa
12. Não trato das mais fraturas, porque, à vista destas que ficam referidas, se poderão curar as mais que sucederem, nem trato de mais observações, sem embargo que pudera referir muitas; mas, porque o tempo me não dá lugar, passo a tratar das fraturas com feridas.
Capítulo VI
Das fraturas com ferida e suas observações
1. Sucedendo haver fratura com ferida que os ossos rompam a carne para fora, a primeira coisa que se deve fazer com toda a presteza é, se estiverem os ossos para fora, metê-los dentro, endireitando o membro, e pôr-lhe alguns panos molhados em aguardente quente, enquanto se aparelha o necessário para a cura; e a razão disto é por não estarem ao ar, que gravemente os ofende e altera, e, alterados, saem ao depois em esquírolas grandes ou pequenas, que fazem com que a cura leve muito tempo e dê muito trabalho.
2. A cura destas fraturas se fará do mesmo modo que as outras, tendo primeiro tudo aparelhado, como para as outras fica referido; se reduzirão os ossos a seu próprio lugar com toda a brandura e suavidade que for possível, pelas grandes dores que se excitam bulindo com os tais ossos, havendo ministros que ajudem; e no caso (como a mim já me sucedeu) que seja necessário fazer maior ferida para meter alguma ponta do osso para dentro, se cortará com uma tesoura aquela parte que servir de impedimento e, depois de recolhidos os ossos para dentro, se desaltere e lave muito bem a ferida com aguardente bem quente por largo tempo, o que também se poderá fazer antes de recolher os ossos; e, feito isso, se cobrirá a parte com panos de aguardente e baeta enquanto se estende o emplasto, o qual será do modo seguinte.
3. A massa para o emplasto será a mesma que fica dita nas fraturas sem ferida, mas o pano em que se há de estender a massa para estas será cortado no meio, onde se lhe fará um buraco redondo, ou como for necessário e a ferida o pedir, para esta tal ferida ficar patente à vista e os seus lábios para se curar quando for necessário; e para se fazer o buraco com melhor acerto, se tomará medida, para se ver onde se há de cortar o pano e o tamanho do buraco; isto assim disposto, se estenderá a massa bem quente e, pulverizada toda com os pós, se aplicará na parte, procurando que fique a ferida bem patente, puxando bem o pano, para que fique bem justo, atando o tal emplasto com sua atadura comprida, que já estará enrolada para melhor se atar, de sorte que fique a ferida livre dela e das talas. Atando o emplasto, se porão as talas; estas, atadas, se meterá a perna (se o for) na sua caixa, ou telha de pau seco cavado, e depois as suas talas grandes atadas e seguras, curando a ferida com panos dobrados, molhados em aguardente; e, se for capaz de pontos, se lhe darão alguns para melhor resguardar o osso do ar, para se não alterar tanto e fazer-se denegrido, como pela maior parte sucede, a qual se curará de dois em dois dias, sempre com a mesma aguardente, e só se curará uma vez cada dia, no caso que faça muitas matérias, que, não as fazendo, bastará que se cure de dois em dois, ou de três em três; e a razão é porque, quantas menos vezes se expuserem os ossos ao ar, tanto será de mais proveito, assim para sarar a ferida em menos tempo, como para não saírem os ossos aos pedaços pelo tempo adiante, passados, às vezes, muitos meses, e em algumas ficam fístulas que nunca mais saram, o que se poderá evitar fazendo-se como fica dito; e de mais que a aguardente não só cura a ferida, mas conforta muito ps ossos, ajuda muito a natureza a fazer o poro para eles unirem, se não que é prodigioso remédio para preservar de corrupção, gangrena e herpes, pois, de ordinário, as gangrenas são muito comuns nestes casos, de que muitos têm perdido a vida, uns, por descuido, outros, por causa de quem os curava serem ignorantes e outros, por taparem a ferida com o emplasto, por serem idiotas, aos quais apodreceram e se gangrenaram os membros sem remédio, sendo tão fácil como fica dito; e, miseravelmente, acabaram as vidas, dos quais eu vi alguns a tempo, que lhes não pude ser bom.
emplasto das fraturas com ferida, como deve ser
á aguardente cura a chaga e preservar de gangrena e herpes
causa por que muitos morrem
4. É muito preciso haver advertência, quando se curar a chaga, para se não descobrir, senão quando o medicamento estiver pronto para se alimpar e curar, a respeito de não estar exposta ao ar; porque muitas vezes sucede ficar a quebradura, ou rachadura do osso, à vista, e, se lhe der o ar, penetra mais por ela e altera o osso de uma e outra banda, o que logo se conhece por ficar denegrido ou mudado de cor; e curando-se com toda a cautela que tenho dito, quando se altere e se mude de cor alguma coisa, a natureza, ajudada do remédio da aguardente, vence muitas vezes a tal corrupção, e, quando a não vença, ou por pouca limpeza que há quando se cura e se expõem ao ar, ou porque, quando se cura a primeira vez, já estão alterados, raspar-se-á, pois, a tal corrupção com alegra as vezes que forem necessárias, que muitas me têm sucedido vencê-las deste modo, sem lançar ao depois esquírolas; e a natureza também ajuda a sua parte, pois é a melhor mestra e melhor agente.
5. Mas, no caso que se não vencer a corrupção do osso, se irá curando e esperando que a natureza o vá separando, ajudando-a com um pincel de pano pequenino, molhado em espirito-vitriolo, tocando com ele o osso denegrido ou alterado, pondo-lhe em cima fios secos e cobrindo a chaga com panos molhados e espremidos com aguardente; ou se poderá usar em cima dos fios do emplasto Gumielemi estendido em pano, e quente, mas o outro remédio tenho-o por melhor, de que sempre usei com bom sucesso; e, se crescer carne supérflua, como sempre cresce, que vá cobrindo o osso, se gastará a tal carne, ou com o mesmo espírito ou com pedra-ume queimada, esperando que a natureza o vá separando, ajudada com o que fica dito. Grande felicidade tive sempre com o espírito aplicado sobre os ossos alterados, porque uns, legrando-os e tocando-os com espírito, se vencia a corrupção, e, quando via que se não podia vencer e que não havia remédio senão sair alguma ou algumas esquírolas, tocava-as com o dito espírito e saíam muito mais cedo, porque as fazia destacar e separar admiravelmente, o que fiz muitas vezes e sempre me sucedeu bem.
espirito-vitriolo come a corrupção dos ossos alterados do ar 6. O primeiro emplasto se não tirará ao seteno, como se tira nas outras fraturas, mas sim se deixará estar até o quatorzeno, para quando se tirar este primeiro e se lhe pôr o segundo estar a quebradura já com algum poro e mais alguma coisa firme do que ao seteno, e não se dilacerarem outra vez os ossos novamente. E, se não houver coisa de novo e o doente se não queixar muito, ou as matérias não forem demasiadas, e a perna, ou braço, estiver bem assombrada, sou de parecer se lhe não bula, senão passados vinte dias, porque, então, se fará a segunda cura com mais segurança e mais conveniência para o enfermo; e os outros emplastos se lançarão como fica dito nas outras faturas.
em que tempo se hão de por emplastos novos nestas fraturas
7. Já disse que o ar é danosíssimo aos ossos fratos, que é o mesmo que quebrados, e aos nervos, que muitas vezes sucede, como tenho visto, ficarem bem ofendidos; e por este respeito deve haver grande cautela quando se curarem, para que lhe dê o menos que for possível, curando com ligeireza, cobrindo a chaga com muita cautela; e quem assim o não fizer terá paciência para curar o doente até lhe saírem todos os ossos que forem alterados do ar; e muitas vezes sucede, como já vi, saírem, sarar a chaga e depois tornar a arrebentar para saírem outros, ficando fístulas algumas vezes; e, pela maior parte, sucede por culpa de quem cura se não acautelar.
o ar é danosíssimo aos ossos e aos nervos
8. Mas, porque muitas vezes sucedem fraturas tão dilaceradas e com ossos tão miudamente quebrados, que alguns se podem tirar logo, sendo que, assim suceda, se tirarão aqueles que de todo estiverem separados, ou que sem dor nem violência se possam tirar; e os mais se curarão como fica dito, deixando sempre a ferida patente para se curar todos os dias, ou interpolando alguns; isto se observará em todas as fraturas que sucederem com ferida; e, para melhor clareza e doutrina dos principiantes, escrevo as observações seguintes:
Observação I
De uma fratura dilacerada em uma perna
1. No ano de 1718, andando um moço branco na paragem chamada Lavras Velhas de Ribeirão Abaixo, com um machado nas mãos derribando mato para fazer uma roça, lhe caiu um pau em cima de uma perna, que lhe ficou em cima de outro pau, e lhe fez as duas canas em cinza, pisando-lhe e dilacerando-lhe também os nervos. Veio em uma rede para o arraial, onde eu nesse tempo era morador; chamaram-me para curar este miserável, ao qual lhe achei a perna amassada como um bolo e aberta a carne por duas partes, com todos os ossos feitos em miúdos pedaços, dos quais lhe tirei logo alguns que estavam de todo separados; pus-lhe uns panos de aguardente em cima, e assim esteve enquanto preparei o emplasto de embaúba que fica dito, panos, ataduras, talas, aguardente e ministros para me ajudarem.