Erário mineral

Luís Gomes Ferreira · Capítulo 19 de 31 · parte 3/3

Páginas do PDF

Erário mineral

11. Tratado IV – Das deslocações, fraturas e suas observações

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

2. Tendo tudo preparado, desalterei e lavei as feridas e toda a perna caso grande com aguardente bem quente, tirando bastantes esquírolas de ossos, que de etodo estavam separadas; fui formando a perna de chata em redonda, mandando um ministro que puxasse pelo pé alguma coisa e outros que me fossem ajudando a aperfeiçoar a perna em forma natural. Depois de limpa e redonda o melhor que pude, forrei uma telha de barro e pus a perna dentro dela com uns panos molhados em aguardente quente, cobrindo-a por cima com panos e baetas; estendi a massa do emplasto em um pano grosso aberto por duas partes, para as feridas ficarem patentes, que eram quase de alto a baixo, para se curarem, tendolhe dado, primeiro, alguns pontos para ampararem a tal dilaceração. Estando neste termos, lhe pus o emplasto e, atado, lhe pus as talas que o caso permitiu, ataduras e as mais talas grandes, ficando a perna dentro na telha e bem calçada das bandas para ficar em forma natural; e, depois disto, assim feito e acabado, posto já o doente na parte aonde havia de estar sempre, lhe remolhei a perna toda, de alto a baixo, panos, emplasto e ataduras, com aguardente do Reino tão quente que mal a podia sofrer nas mãos, para que, quando chegasse abaixo, levasse algum calor a respeito de traspassar os panos, o que fiz por largo tempo, atandome bem as talas grandes que acompanhassem o pé para o ter direito, e no meio, no joelho e na coxa, para que, se o doente quisesse bulir com a perna, não pudesse; pondo-lhe também sítio, que é o mesmo que uma corda atada em uma travessa da casa, que lhe ficasse a laçada em cima dos peitos para mover o corpo quando fosse necessário, pegando-se a ela.

3. Por estar o pobrezinho desconfiado que ficava sem a sua perna, o consolei, dizendo que havia de ficar com ela, e que comesse algumas coisas engrossantes, como franga ou galinha cozida com arroz e beldroegas, mãos e pés de boi cozidos com arroz, ou sem ele, usando deste mantimento o mais tempo que pudesse, por ser para o intento de mais utilidade que os outros; e que também podia comer carne de vaca cozida e assada, quando tivesse falta dos mais sustentos; e que, todos os dias, pela manhã e à noite, molhasse toda a perna com aguardente bem quente para não apodrecer e gangrenarse, que era o que mais temia, por estarem os nervos, carne, ossos e músculos pisados; e, por isso, mandava fazer as ditas fomentações a miúdo, ainda que por esta causa o emplasto não obrasse tão bem ou obrasse mais devagar; e por me certificarem que tinha lançado infinito sangue, o não mandei sangrar, e também porque era necessário que a natureza animasse aquela parte com espíritos nativos por estar tão dilacerada.

4. Não há remédio mais singular, nem mais pronto, nem que tenha as virtudes que tem a aguardente para o caso presente e outros semelhantes, principalmente nestas Minas; porque tenho usado dele milhares de vezes, não houve uma em que deixasse de conhecer a sua rara virtude, nem experimentasse mau sucesso; e para impedir gangrenas não há outro.

não há remédio como aguardente para preservar de gangrena

5. Ainda que as matérias eram muitas, dilatei o bulir no emplasto até os vinte e cinco dias, no fim dos quais chamei ministros, preparei outro emplasto, lavei toda a perna com o dito remédio e lho lancei; e daí a um mês lhe lancei outro, que foi o último. Lançou muitas esquírolas de ossos enquanto esteve de cama, que foram três meses e meio, e, ainda depois de levantado, lançou algumas por dois orifícios, ou chagas pequenas que lhe ficaram, mas com a perna redonda, quase em sua forma natural, firme e forte, sem lesão alguma. Depois, como era moço pobre, não sei para onde foi tratar de sua vida, de quem não tive mais notícia.

Observação II

Nas mesmas Lavras Velhas curei a um escravo do capitão Simão Álvares Mozinho, o qual quebrou uma perna por junto do tornozelo e lançou uma ponta de osso para fora, rompendo a carne e a pele, ficando-lhe o pé totalmente torto para uma banda. E nesta forma mo trouxeram em uma rede, sendo um dia de jornada da casa do seu senhor à minha, que era nas ditas Lavras Velhas; e, quando chegou com o tal osso de fora, já denegrido, logo prognostiquei a seu senhor, que o acompanhou, que a cura havia ser dilatada por causa do osso alterado vir ao ar, porque de necessidade havia de sair a seu tempo; e, para o meter para dentro, foi necessário o cortar alguma coisa da pele e carne, porque, querendo endireitar o pé, não queria o osso entrar, o qual meti e cometi a natureza, dando alguns pontos para acomodar melhor a dilaceração da carne e não ficar aquela boca da ferida tão exposta ao ar. Lavei muito bem a ferida com aguardente bem quente e fiz a cura como fica dito, ficando a ferida patente para se curar todas as vezes que fosse necessário; botei-lhe os mais emplastos a seu tempo, curando a ferida todos os dias, enquanto fez muitas matérias, e depois mais interpoladamente; e para abreviar a cura, fui tocando o osso com espírito de vitríolo todas as vezes que curava a chaga, deixando passar coisa de um credo depois de tocado, e então curava a chaga com o dito remédio, porque o dito espírito, por ser espirituoso, comunica a sua virtude em pouco espaço de tempo; e, ainda assim, durou a cura três meses, lançou um grande pedaço de osso e sarou a chaga, mas não deixou de ficar com alguma lesão na junta do tornozelo por ser a fratura junto dele, não o perturbando andar de pé.

Observação III

Feita em vários doentes escravos do capitão-mor Custódio da

Silva Serra que ficaram debaixo de um morro, desgraça grande

1. No ano de 1711, fui chamado para curar a treze escravos do capitão-mor Custódio da Silva Serra, morador na Vila Real do Sabará, que em cima de todos correu um morro de terra e pedras, andando os ditos escravos tirando ouro em uma lavra que tinha a parede sessenta palmos de alto ao pé do dito morro; e como mineravam com água que corria por cima da tal parede, se lhe sumiu atrás, e, vendo-se todos sem água na lavra, subiram alguns a ver para onde se tinha desencaminhado, e todos os que subiram ficaram livres e os que ficaram na lavra, que foram treze, ficaram debaixo das ruínas, donde se tiraram quatro mortos, e os mais, uns com braços quebrados, outros com as pernas, outros as costelas metidas com as pontas para dentro, outros com os ossos da fúrcula do pescoço feitos em miúdos pedaços; um com as vértebras do espinhaço deslocadas em duas partes, outro lançando sangue pela boca, narizes, ouvidos e algumas pingas por um olho, e ambos tão vermelhos como o mesmo sangue. Confesso que, quando cheguei ao terreiro da casa, fiquei impossibilitado de ânimo para fazer as tais curas, vendo os mortos e os vivos, todos estendidos no dito terreiro, da cor da mesma terra, uns com gemidos tão sentidos que moveriam à compaixão o mais duro coração que houvesse, outros sem dizerem nada por estarem na outra vida; e se a vizinhança não acudisse com seus escravos a cavar a terra para tirar os miseráveis, poucos se tirariam vivos; ensinando e mostrando os que ficaram livres das ruínas aonde tinham ficado ou tinham aparecido os desgraçados, quando a terra, pedras e árvores iam correndo por um despenhadeiro abaixo para um rio, aonde se foi achar um morto, que admirou pela distância não ser pouca; isto diziam os que ficaram livres por estarem em uma parte mais alta; e, acudindo muita gente, vendo o triste espetáculo, ficaram atônitos e admirados por se não ter visto caso tão lastimoso entre tantos que têm sucedido nestas Minas.

2. Das fraturas com feridas tirei logo muitos ossos, por estarem todos dilacerados, e as curei do mesmo modo que fica dito. As que não tinha feridas, as curei na forma já referida; e, para reduzir as pontas das costelas que estavam metidas para dentro, mandei fazer uma tenaz a um ferreiro, por molde que lhe dei, de boca larga, com a qual peguei na carne, e, puxando para fora, se reduziram a seu lugar admiravelmente, e, ainda que ficaram algumas feridas da boca da tenaz, como eram pequenas logo sararam com o mesmo emplasto confortativo da embaúba, por levar aguardente; e, para que não apodrecesse, fiz a segunda cura ao quarto dia, mas, como estavam boas, se fortificaram e sararam com o segundo emplasto; usei da tenaz porque, fazendo as diligências possíveis, pegando com os dedos e unhas, não pude trazer as pontas a seu lugar, o que facilmente consegui com o que inventei.

3. As fraturas com feridas, donde tirei os ossos, lhes dei alguns pontos nas maiores para melhor cobrir os ossos, os quais cortei a seu tempo, curando as feridas como fica dito, tocando os ossos alterados com espírito de vitríolo, que os fez sair e separar em menos tempo.

4. Ao que lançava sangue pela boca, narizes, ouvidos e olhos, ao depois que adquiriu calor no corpo (que todos saíram resfriados) lhe mandei dar quatro sangrias nos pés e seus engrossantes pela boca; e, tanto que o sangue parou, lhe ordenei bebesse, de ordinário e todos os mais, água bem cozida com raízes de capeba e um bocado de raiz de butua machucada, para que se não engrossasse o sangue e os mais humores e causasse algum apostema interno, por causa do qual viessem a perder a vida, pois é a dita bebida excelentíssimo descoagulante e me parece ser a raiz de capeba a mais singular que tem o mundo, pois, não só é descoagulante, mas vulnerária e desopilante dos canais do vivente, por cujas virtudes promove a circulação do sangue admiravelmente.

Raiz mais simular que tem o mundo

5. No mesmo tempo que acabei de curar a todos os treze, que me levaram um dia todo, em que gastei sete varas de pano de linho para ataduras e oito frascos de aguardente, mandei dar a cada um seu copo dela, por estarem todos tremendo com frio, exceto ao que lançava o sangue pela boca, narizes e ouvidos, que, em lugar dela, lhe mandei dar um copo de sumo de mastruços morno com uns pós de açúcar, por ser bom engrossante, e franga cozida com beldroegas, e, conseguintemente, mandei que, em todos os aposentos ou senzalas, se fizesse fogo de dia e de noite para que aqueles corpos que estavam faltos de calor o adquirissem, para se promover a circulação do sangue e mais líquidos, e, tornados os humores fluidos, a natureza socorresse as partes ofendidas com espíritos e calor natural, o que não seria possível estando o sangue e os mais humores estagnados e diminuta a circulação; o que tudo se emendou, assim com estarem as casas quentes, como com a continuação das ditas bebidas e bom tratamento no comer e de sustância.

sete varas de panos e oito frascos de aguardente

engrossante de sumo de mastruços

fogos de dia e de noite

6. O que ficou com as vértebras ou juntas do espinhaço deslocadas lhe mandei fazer uma tábua por um carpinteiro, lavrada com o lombo pelo meio, para assentar no vão que todos temos no espinhaço; preparada a tábua, o emplasto de embaúba nas deslocações já referido, ataduras, panos, ministros que me ajudassem, mandei que um pegasse pelos pés, outro pela cabeça, outro por baixo dos braços, e que todos puxassem a um tempo com toda a força, estando o doente com a barriga para baixo e eu com as mãos carregando aonde era necessário, até aquela parte do fio do lombo ficar lisa e direita, sinal por onde se conhece estarem as deslocações e fraturas em seu lugar; estando nestes termos, lavei toda aquela parte acima e abaixo, para as bandas, com aguardente do Reino bem quente, por espaço de algum tempo, e, enxuta a parte, lhe pus o emplasto de embaúba, e por cima dele outro pano dobrado seco e a tábua, forrada, em cima deste; ficando bem assentada e justa, a segurei com ataduras de pano novo, bem apertadas e bem compridas para darem muitas voltas, rematando a última ponta com agulha e linha. Feito isto, mandei virar o enfermo e pô-lo na sua cama por bastantes pessoas, para o levarem direito, aonde esteve por espaço de três meses, sempre deitado de costas, lançando-lhe emplastos novos ao seteno, quatorzeno, aos vinte e cinco e aos quarenta dias, pouco mais ou menos, que disto não há necessidade precisa, não havendo coisa de novo, como neste a não houve, com o que ficou são e sem lesão alguma.

vértebras de espinhaço deslocadas

sinal por onde se conhece estarem as deslocações e fraturas em seu lugar

7. Também todos os mais ficaram perfeitamente sãos, exceto um, que ficou com defeito em uma mão, por ficar toda pisada e os ossos feitos em miúdos pedaços, assim os da mão como os da junta do pulso, que para os reduzir a seu lugar pus a mão e os dedos em cima de uma tábua da feição e do tamanho necessário, e nela a conservei sempre com os dedos bem estendidos; e por fim, quando já os ossos estavam seguros, que foi aos trinta dias, lhe puxei a tábua para trás alguma coisa, para que os dedos fossem buscando o jeito de fecharem; e como o restante da fratura da mão e pulso era necessário mais tempo para os ossos fazerem poro, sempre conservei emplasto confortativo por tempo de sessenta dias, no fim dos quais ficou são, mas com defeito na junta, porque pouco a movia, por respeito dos ossos da mesma junta ficarem pisados e os nervos contundidos; nem era possível menos.

junta da mão pisada, e como se curou

8. Nota que, havendo nervos cortados ou ossos quebrados nos dedos das mãos, se os curarem encolhidos, encolhidos ficarão para sempre, mas, se os curarem estendidos, é certo fazerem seu movimento pelo tempo adiante, mais ou menos, conforme for o dano, curando-se com aguardente, o que digo por ter curado muitas feridas que cortaram nervos, uns totalmente cortados, outros cortados até o meio e outros em parte, e muitas destas uniram os dedos de tal sorte que os dedos e os membros ficaram com seu movimento perfeito, o que se pode ver nas observações.

nervos cortados nos dedos das mãos ou pés não se curem encolhidos

9. Na primeira cura, que foi só lavar com aguardente a terra e sangue de todos os enfermos, para ver os danos que tinham e aparelhar o necessário, embrulhar com panos molhados as feridas, fraturas e deslocações, gastei quase um barril de aguardente; e para o restante de todas as curas, até as acabar, gastei oito barris dela, custando, naquele tempo, quarenta oitavas de ouro cada um.

oito barris de aguardente, de dez canadas cada um

10. Não explico a miudeza com que fiz estas curas, porque o tempo não me dá lugar e os anos que há me desculpam, mas, quando alguns ossos das fraturas que romperam a carne e se alteraram do ar, enquanto se não curaram, estes, ainda que foram metidos para dentro, sempre vieram a fazer-se denegridos, quando as chagas estavam fazendo matérias, e, por serem grossos e a natureza os não poder lançar senão em discurso de muito tempo, para se despedirem mais breve os tocava com um pincel molhado em espírito-vitríolo, em dias interpolados, com o que se foram separando dos sãos em menos tempo, sem comparação do que haviam de fazer sem o tal remédio, vindo logo crescendo o poro, que é o mesmo que segundo osso em lugar do que saiu ou ia saindo; e as carnes que cresciam nas chagas, a que chamamos carne supérflua ou esponjosa, também as tocava com o mesmo espírito para a comer, dessecar e fazer mais dura, para não cobrir os ossos, que também para isto é bom remédio, ou lhe lançava pós de pedra-ume queimada para gastar e consumir a dita carne, uma e tantas vezes quantas eram necessárias, pondo-lhe em cima fios secos para esperar que a natureza despedisse os ossos; e, deste modo, se despediram e fecharam as chagas com muito mais brevidade do que se esperasse que a natureza per se despedisse os ossos podres.

11. Não deixará de causar admiração a algumas pessoas que lerem a página antecedente e virem que na primeira cura, sem ser cura, gastei tanta aguardente só para lavar, desalterar e pôr panos molhados, e oito barris para fazer as mais curas até sararem, digerindo, mundificando, encarnando e cicatrizando todas as chagas, muitas feridas unindo em poucos dias, e ainda algumas contusas, tudo com a mesma aguardente; pois, não só com ela fiz todas estas curas maravilhosas, mas as preservei de gangrenas e herpes, de que muitos nestas Minas têm perdido a vida, por serem estes casos muito sujeitos a elas.

nao cause admiração

12. Ese alguém se admirar, como dizia, saiba que tudo o que digo é verdade, e saiba também que a experiência deve prevalecer a toda a razão, e os que a duvidarem fiquem com a sua opinião. Eu digo o que experimentei neste clima de vinte anos a esta parte e as curas, que nele fiz e me lembram, não havendo nestas Minas professor mais antigo; cada um seguirá o que lhe parecer.

a experiência deve prevalecer a toda a razão

13. Como atrás digo, que nas fraturas que sucederem, quebrando os ossos atravessados, haja grande vigilância em não puxar pelos membros, senão quanto bastar para que as duas cabeças dos ossos fiquem unidas e não apartadas, porque, se assim ficarem, criará cada uma o seu poro na sua cabeça e ficarão os membros dependurados pelos seus nervos, carne e músculos, jogando para todas as partes. Isto se entenderá, principalmente, nas fraturas do joelho para cima e nas do cotovelo para cima, por haver ali um só osso, porque, nas mais partes, poucas vezes acontecerão atravessadas. Em confirmação desta verdade, exponho os dois casos seguintes.

fraturas do joelho para cima e do cotovelo para cima, haja grande vigilância, e a razão por que

Observação IV

De uma fratura no osso da cia, ou fêmur, na qual ficaram as

duas cabeças do osso apartadas e o doente aleijado para

sempre

1. No ano de 1724 me chamou um homem, cujo nome me não lembra, morador no morro chamado de Antônio Dias, para lhe ver um escravo, no qual queria fazer junta de cirurgiões para ver se poderia ter algum remédio; e, antes de ir ver o enfermo e de subir o morro, lhe perguntei que achaque tinha o seu preto. Respondeu-me que havia mais de três meses quebrara uma perna pelo meio da coxa e que, chamando um cirurgião para o curar, lhe perguntara se carecia de outro para o ajudar, o qual respondeu que para aqueles casos e outros semelhantes não carecia de quem o ensinasse; curara o enfermo a primeira, segunda, terceira e quarta vez e, por fim, lhe dissera não tinha feito nada e que era necessário fazer junta, porque o osso estava apartado um do outro nas cabeças, aonde tinha quebrado, pondo culpa a desmanchos do enfermo; que chamasse cirurgiões para se lhe aplicarem os remédios mais convenientes.

2. Confesso ingenuamente que, quando o homem me explicou este caso como tenho declarado e me certificou era a mesma verdade, me fez admirar e sentir o miserável estado do enfermo e do senhor dele o ter perdido; não deixaram de me lembrar as palavras arrogantes e soberbas que respondeu quando não quis companheiro. Pois, homem, dizes que és sábio e que não é necessário quem te ensine e depois dizes que faça junta? É certo que és mais ignorante que ninguém e mais soberbo que homem algum; para um caso deplorado e já sem remédio, ainda queres fazer gastar mais ouro ao senhor do escravo em cima de o ter perdido, e tudo o que já tem gasto e dar a conhecer a tua ignorância? É certo que tanto ignoravas o caso no princípio, como o ignoras agora. Miseráveis são os enfermos que dão nas mãos de quem lhe ignora a doença e o modo curativo dela e terem valor para andarem curando entre cirurgiões e médicos; mas, enfim, a terra é boa, tudo permite e tudo se acha nela, porque cada um pinta as cores que quer.

homem ignorante ou soberbo

3. Informado, pois, deste homem os termos em que estavam os ossos da fratura, me disse que, pegando na perna e jogando com ela para uma e outra parte, a levava para onde queria; que, claramente, conhecia que os ossos estavam apartados, porque o doente também a não jogava, o que examinara depois que o cirurgião lhe dissera que não tinha feito nada e que chamasse junta. Examinando eu isto bem e conhecendo que as duas cabeças do osso estavam separadas e cada uma tinha já o seu poro pela distância do tempo de três meses, o desenganei, dizendo-lhe que não gastasse ouro em juntas, nem em remédios, porque tudo era baldado, pois tinha o seu escravo perdido e sem esperança de remédio humano, ao que respondeu lastimado contra o autor de tão lastimoso caso as coisas, que não digo por serem indignas de papel. Despediu-se certo no que lhe disse e dissuadido da junta e de remédios, por dar crédito às eficazes razões que lhe dei.

4. Passados alguns tempos, topei este mesmo homem e lhe perguntei pelo doente; respondeu que estava na mesma forma em que dantes estava, sem se poder mover senão com a perna a rasto, e que o cirurgião o desamparara assim que lhe deu as razões que eu lhe havia dado, e que era muita verdade o que eu lhe tinha dito, por ter tudo experimentado por certo.

5. Reflexão. Este caso não podia suceder senão pelos ministros puxarem com demasiada força pelo membro, de sorte que seria, sem dúvida, a causa de ficarem as cabeças dos ossos divididas e distantes uma da outra. Portanto, quando se fizerem curas nesta parte, deve haver cautela para que não suceda desgraça semelhante, como também em todas as quebraduras não se apertarem demasiadamente as ataduras, para que o doente não perca o membro, apodrecendo-lhe por falta dos espíritos se não poderem comunicar das ataduras para baixo, o que se deixa ver apertando-se um dedo com força, que, em pouco espaço de tempo, se achará sem sentimento na cabeça dele.

reflexão

Observação V

De uma fratura em um braço acima do cotovelo, onde temos

um só osso, a qual foi causa de ficar o braço pendurado pelos

nervos e carne, sem governo algum

1. No ano de 1722 foi a minha casa um miserável moço pedir-me uma esmola pelo amor de Deus, porque estava aleijado de um braço por culpa de um cirurgião ou por seus pecados. Perguntei o que tinha e como lhe sucedera a lesão, ou por que causa. Ao que me respondeu que, andando com um machado, derribando mato (como fazem muitos pobres) para fazer sua roça, lhe caíra um pau naquele braço e lho quebrara; chamara um cirurgião para o curar, o qual, passados dois ou três meses, o desamparara e ficara na forma em que eu veria. Desatou uma chapa de latão que trazia para amparar aquela parte das duas cabeças do osso e, pegando eu com as minhas mãos no braço, uma pela parte de baixo, outra pela parte de cima, joguei com as duas cabeças para uma e outra banda, e achei estarem divididas uma da outra, largura de uma polegada, pouco mais ou menos, estando preso somente pelos nervos, músculos e carne. Confesso que me causou isto a maior lástima que se pode imaginar, vendo um braço sem governo algum, nem utilidade mais que andar pendurado no corpo.

2. Do que deixo referido na cura das deslocações e fraturas se verá facilmente como se devem curar e quanto importa curá-las com toda a vigilância, assim para não apodrecerem os membros que tiverem fratura com ferida, para não perderem as vidas, como muitos têm perdido, ou cortando-se-lhe os membros, como para que não fiquem com lesões para sempre, como este e outros muitos que tenho visto, por culpa, pela maior parte, de quem os cura; e como me parece que neste clima das Minas se não deve observar outro modo curativo, me seja lícita a seguinte desculpa.

3. Não me condenem os leitores por escrever novo modo de curar deslocações e fraturas contra o método curativo do licenciado Antônio Ferreira, sendo um tão grande professor da Cirurgia, que compôs um tomo tão excelente que é a luz verdadeira e recopilado exame de toda ela, encuendóse de estimações e prêmios, com que premiaram os senhores reis do seu tempo os seus grandes serviços e merecimentos, deixando os seus descendentes tão honrados e enobrecidos, como é notório; e, sem embargo da veneração que tenho a tal grande autor, movem-me a piedade e a consciência a dizer o que me parece melhor para os doentes deste clima, o que nele tenho observado; e me não parece fora da razão sirva também para os outros, pois as claras de ovos, os óleos, os vinagres etc. com que manda curar são remédios muito danosos nessa região por serem frios e úmidos, o que não duvido serem convenientes onde foram escritos ou naquele tempo. Mas porque a razão e a experiência me têm mostrado ser o meu método mais conveniente, por isso o exponho e aconselho com toda a clareza que me foi possível e o tempo me deu lugar, e alguma mais que o dito autor; como se pode ver, e por esta e por outras razões, disse no meu prólogo que quanto mais cresce o tempo, mais alcançam os homens; nem isto é tão sem padrinho que não tenha por si opiniões de autores graves, como são o doutor Curvo, o doutor Ribeira, o licenciado Feliciano de Almeida; e a este mesmo sentido podemos aplicar o que diz o doutíssimo Padre Vieira na sua história do futuro, que Deus, nosso Senhor, reserva as coisas para seu tempo: um só sabe pouco, muitos sabem alguma coisa e todos não sabem tudo.

Uralepis virens e Diplachene spioata. (Litografía de von Martius)

Fonte:Desenho sobre papel. Lisboa. Coleção Herdeiros do Prof.

Celestino Costa. In: MOITA, Irisalva.

V Centenário do Hospital Real de Todos-os-Santos. Lisboa: Correios

de Portugal, 1992. p. 35.

Em Lisboa, Luís Gomes Ferreira completou sua formação no

Hospital Real de Todos-os-Santos, onde era aprendiz no ano de 1750, e onde também fez observações anatômicas. Na gravura, vê-se a fachada oriental do Rossio, tendo em primeiro plano o Hospital

e o Convento de São Domingos.

Fonte: Pormenor da farmácia do Hospital de São João de Bruges.

In: MOITA, Irisalva. V Centenário do Hospital Real de Todos-os-

Santos, 1992. p. 16.

 

Fonte: Azeiteira e pote de barro cozido dos séculos XVII/XVIII,

encontrados nas escavações realizadas em 1960 na área ocupada pelas ruínas do Hospital de Todos-os-Santos. In: MOITA, Irisalva. V Centenário do Hospital Real de Todos-os-Santos, 1992. p. 29, 4 1 .

Fonte: Pratos com inscrição do refeitório utilizado no Hospital Real

 

de Todos-os-Santos. In: MOITA, Irisalva. V Centenário do Hospital

Real de Todos-os- Santos, 1992. p.42.

A profissão de cirurgião-barbeiro envolvia a fabricação e a manipulação de medicamentos, o uso de instrumentos de cirurgia e conhecimentos básicos de anatomia. A farmácia de um hospital da época, potes, leiteiras, vasos, azeiteiras e bacias de barro cozido, tesouras e pinças cirúrgicas - instrumentos utilizados por esses profissionais - dão bem a idéia do que era o dia-a-dia dessa atividade.

Fonte: Ilustrações do século XII do livro de Cyrurgia de Theodoric

Borgognone. In: LYONS, A. S.; PETRUCKLLII, R. J. Medicine: an

illustrated history. New York, Abradale Press, 1987. p. 326-327.

Entre as funções de um cirurgião-barbeiro constava o conserto de ossos quebrados, sutura de feridas e pequenas cirurgias.

Fonte: KOEDIJICK, Isaac. O barbeiro-cirurgião, de Isaac. In:

 

PORTER, Roy (Org.). Medicina a história da cura.Lisboa: Livros e

Livros, 2002. p. 28.

Fonte: Cirurgião-barbeiro, médicos e atendentes atuando em um

hospital de caridade. In: PORTER, Roy (Org.). Medicina a história

da cura, 2002. p. 49.

Fonte: Ilustração de Luttrell Psalter (1340) mostrando um cirurgião

barbeiro aplicando a sangria. In: LYONS, .. S. e PETRUCELLII, R.

J.Medicine: an illustrated history, 1987. p. 363.

Os cirurgiões-barbeiros mesclavam as atividades de barbeiro (corte de cabelos, fazer a barba, etc.) com pequenas cirurgias, como a retirada de tumores bubônicos e a aplicação da sangria, método considerado por Luís Gomes Ferreira danoso se aplicado aos moradores das Minas Gerais.

Fonte: Afresco italiano que mostra uma botica com sua diversidade

de drogas. In: PORTER, Roy (Org.). Medicina a história da cura,

2002. p. 79.

 

Fonte: Jarros de farmácia marcados Teriaga, ou Triaga, o famoso

medicamento cura-tudo. In: LYONS, A. S. e PETRUCELLII, R. J.

Medicine: an illustrated history, 1987. p. 485.

Fonte: Cipó, desenhado por José Joaquim Freire. In: BELLUZZO,

 

Ana Maria M. O Brasil dos viajantes. São Paulo: Metalivros, 1999.

p.71.

A arte da cura exercida por médicos e cirurgiões no Novo Mundo introduziu na Europa novos medicamentos produzidos a partir da descoberta de plantas e ervas medicinais locais, cuja maioria já tinha sido incorporada na farmacopéia indígena. Tal foi o caso da quina utilizada no tratamento da malária, da Triaga Brasílica, desenvolvida pelos jesuítas da Bahia e do cipó.

Fonte: Os dois touros (tapeçaria des Gobelins). In: BELLUZZO, Ana

Maria .. O Brasil dos viajantes, 1999. p. 109.

A diversidade das plantas, frutos, flores e raízes brasileiras foi rapidamente incorporada à farmacopeia européia. Luís Gomes Ferreira descreveu várias plantas locais, como o picão, a amendoada, o cipó de poalha, o sapé, os jenipapos verdes, a erva-do-bicho, a cataia, a poaia, a jalapa, dentre muitas outras.

 

Fonte: O cirurgião negro. In: DEBRET, Jean-Baptiste. Rio Je

Janeiro: cidade mestiça. Organização de Patrick Straumann. São

Paulo: Companhia das Letras, 2001. p. 101.

No Brasil, no século XIX, com a hierarquização crescente das profissões e a valorização dos médicos em detrimento dos cirurgiões-barbeiros, estes passaram a ser em sua maioria negros. Apregoavam seus serviços nas ruas, cortando cabelos, fazendo a barba, extraindo dentes, aplicando ventosas ou realizando pequenas intervenções cirúrgicas.

Fonte: RUGENDAS, Johann Moritz. Lavagem do minério de ouro

perto da montanha do Itacolomi. In: MOURA, Carlos Eugênio

Marcondes de. A travessia da Calunga Grande. São Paulo: Edusp,

2000. p. 471.

Segundo Luís Gomes Ferreira, o clima diferente e único da Capitania, frio e úmido, era a causa de quase todos os males, associado à alimentação, à moradia e à natureza da atividade mineradora, que obrigavam os escravos a passar muitas horas dentro da água ou no subsolo. Na ilustração, observa-se um serviço de mineração próximo ao pico do Itacolomi, perto de onde ficava a fazenda do cirurgião-barbeiro nas Minas. Nela, podem-se observar várias atividades típicas da mineração realizadas pelos escravos nos rios e córregos da região no século XVIII.

 

Fonte: SCHMID, Philipp. Planta e seção de um navio escravo em

1808. In: MOURA, Carlos Eugênio Marcondes de. A travessia da

Calunga Grande, 2000. p.371.

Fonte: Mameluca na Província de São Paulo. In: MOURA, Carlos

Eugênio Marcondes de. A travessia da Calunga Grande, 2000. p.

313.

Doença muito comum, particularmente entre os escravos, era o escorbuto, ou mal-de-Luanda. No Erário Mineral, Luís Gomes Ferreira divulgou pela primeira vez as descobertas do licenciado João Cardoso de Miranda sobre um novo medicamento para curar a doença que, geralmente, se manifestava nas longas viagens marítimas. Isso ocorria em decorrência do tipo de alimento e das péssimas condições do transporte de escravos a bordo, como se pode observar na ilustração de uma seção de um navio negreiro. Todos os médicos que visitaram São Paulo e Minas Gerais no século XVIII também apontaram o bócio como uma doença recorrente na região.

Luís Gomes Ferreira descreveu as diversas etnias dos escravos nas Minas e as doenças que os acometiam. Segundo ele, os de nação mina eram os mais robustos e resistentes.

 

Fonte: DEBRET, Jean-Baptiste. Rio de Janeiro: cidade mestiça,

2001. Organização de Patrick Straumann. p. 114-115.

 

Fonte: MARTIUS, Carl P. von. Mariana e Vila Rica (atribuição). In:

BFLUSSO, Ana Maria de Morais (Org.) O Brasil dos viajantes, 1999.

p. 115.

Fonte: Planta de São Caetano. In: ARQUIVO HISTÓRICO

ULTRAMARINO, Lisboa [1732].

Mariana. Vila Rica e São Caetano foram algumas das cidades mineiras da Comarca de Ouro Preto onde Luís Gomes Ferreira viveu e atendeu seus doentes por um período. Na parte esquerda inferior da planta do arraial de São Caetano, aparece uma área de mineração onde o curso do rio foi desviado, a exemplo do que fizera Luís Gomes Ferreira na sua fazenda do Bom Retiro do Itacolomi, que ficava nas proximidades.

“Milagre que fez o senhor de Matozinhos a Cipriano Ribeiro Dias, morador no Rio de Janeiro, pois botando treze horas sangue pela venta do nariz direito e todo esgotado de sangue sem esperanças de vida, com assistência de médicos e cirurgiões, se lembrou o doente enfermo ter em seu poder uma medalha do dito senhor a lançou ao pescoço com muita fé e a segunda volta da medalha estancou o sangue e milagrosamente escapou da morte. De que louvou o seu soberano senhor de lhe dar vida para o servir hoje. 1745”. Fonte:Estórias de dor, esperança e festa: o Brasil em ex-votos portugueses (séculos XVIII-XIX). Lisboa: Comissão Nacional para a comemoração dos descobrimentos portugueses, 1998. p. 53. fig. 9.

Os ex-votos são inestimáveis fontes sobre o século XVIII. Retratam cenas do dia-a-dia de onde se pode apreender, por exemplo, as crenças, o vestuário, o mobiliário, as hierarquias sociais, as profissões, as doenças e os tratamentos. No exemplar acima, pode-se observar o médico (paramentado de negro) e o cirurgião que se revezavam à cabeceira do paciente.

“Milagre que fez o Senhor de Matozinhos a Maria Angélica da Conceição que estando com um frouxo (sic) de sangue sem ter mais esperança de vida e apegando-se com o dito Sr. logo cobrou melhoras em 23 de junho de 1787”. Fonte: Ex-voto pertencente ao acervo do Museu do Diamante - Diamantina.

 

“Milagre que fez Nossa Senhora da Oliveira a Manoel da Sla. Ir°. de Jerônimo […] que achando-se no Brasil indo de jornada para as Minas lhe deu uma grande febre malina que lhe aromou (sic) para o braço, de sorte que se fez junta de sete mestres em que assentou no dia seguinte pela manhã de lhe cortar o braço e vendo o irmão logo que estava presente se pôs de joelhos com umas contas na mão pedindo à Senhora da Oliveira que acudisse a seu irmão, que não ficasse aleijado naquela terra, que lhe poria o dinheiro no que ganhasse naquele primeiro ano para lhe por no altar em uma pesa (sic) e fez a senhora tão grande milagre, que de noite suou sete camisas, vieram os mestres pela manhã para lhe cortar o braço e acharam-no são”. Fonte:Estórias de dor, esperança e festa: o Brasil em ex-votos portugueses (séculos XVIII-XIX), 1998. p. 63. fig. 18.

 

“Milagre que fez o Senhor de Matozinhos a Antônio de Freitas Matos, assistente nas Minas, padecendo uma obstrução que lhe deu em barriga d’água que chegou a ser furado 5 vezes e de cada uma tiravam 20 e tantos coartilhos (sic) d’água, com demora de 8 a 10 dias de um furo a outro e estando já mortal se apegou ao Sr., amarrando uma medida do Senhor pela cinta com muita fé logo teve saúde como também satisfez promessas que ao mesmo Sr. prometeu”. Fonte:Estórias de dor, esperança e festa: o Brasil em ex-votos portugueses (séculos XVIII-XIX), 1998. p. 67. fig. 21.