Erário mineral

Luís Gomes Ferreira · Capítulo 22 de 31 · parte 2/3

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Erário mineral

14. Tratado VII – Dos formigueiros e outras doenças comuns nestas Minas

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

2. Fervam um pouco de mel de pau do melhor, que é o de jetaí ou de mandassaia, ou de urucu, ou outros bons que há, e não de alguma má casta de alguns que também há que, quem os come, lhe causam várias queixas, como são tremores de mãos, pés e de todo o corpo, encolhimento de nervos, ânsias do coração, suores frios, desmaios e lepra, cursos e outras queixas notáveis, de que muitos se têm visto às portas da morte, principalmente comendo muito, como muitas vezes tem acontecido por estes sertões, o que os serranistas sabem muito bem; escolhendo, pois, um dos melhores, se porá um pouco em um tacho pequeno ou tigela vidrada, e se lhe misturará um pouco de sal do Reino torrado e moído, com o qual ferverá até derreter o sal, mexendo-o, e neste medicamento se molhará um pano dobrado e se porá em cima do tumor com a quentura que puder sofrer, sem fazer dano e, por cima do tal pano, um couro de luva, e se ate com atadura, renovando-o todos os dias uma vez e sempre quente, continuando deste modo até de todo se resolver o tal tumor.

queixas notáveis que faz o mel que é venenoso

3. Este remédio é um resolutivo tão eficaz que nunca me faltou em desfazer estes tumores que nestas Minas há bastantes, assim em pretos, como em brancos, sendo continuado, e por nenhum caso se abram, porque não hão de achar neles senão humor seroso como água.

4. Mas, se virmos que, passados vinte e cinco ou trinta dias, o tumor ou tumores não obedecem a este tão maravilhoso remédio, se purgará o doente, se houver enchimento de estômago, com um vomitório e depois com resina de batata, ou com jalapa em pó, que são próprias para humores frios de que se formam estes tumores, continuando o emplasto na parte, sempre; e nesta forma tenho curado a muitos escravos que já não trabalhavam por causa das grandes dores que lhes faziam os tais tumores, e livrado a seus senhores, a uns de os perderem, a outros de lhes ficarem para sempre incapazes de todo o gênero de serviços; e deste gênero de cura não usou cá professor algum, por ser invento meu.

5. O remédio que os autores mandam aplicar a estes tais tumores são pastas de chumbo azougadas, e era o de que eu usava, mas como vi que não fazia nada, inventei o tal remédio e com ele fiz excelentes curas, uma das quais foi a um escravo do coronel Guilherme Mainarde da Silva, na forma seguinte:

6. O dito coronel me falou para lhe ver um escravo, o qual tinha um tumor nas costas de uma mão, perto da junta do pulso, quase do tamanho de um ovo, e mole, ao qual aconselhei o remédio que fica referido, e, fazendo-lho, continuou com ele por algum tempo, e, sem se purgar, nem mais coisa alguma, se lhe desfez de todo; mas, daí a perto de um ano, lhe tornou a repetir o mesmo inchaço, e fazendo o mesmo remédio de todo se desfez sem lhe tornar a repetir; e, sendo passados doze anos, ainda hoje se lembra da tal cura, por possuir ainda o escravo e ser bom.

7. Quem tiver óleo de ouro e quiser usar dele nestes tumores das mãos, dando-lhes uns riscos ou penadas, e cercando-os em roda, experimentará o sararem, ou sejam, os tumores brandos ou duros, observando na cura deles o que fica declarado no tratado do óleo de ouro.

observação

óleo de ouro para curar tumores duros das costas das mãos

Observação única de um tumor que um cirurgião abriu nas

costas de uma mão, cuidando que estava cheio de matéria, e

achou humor tão delgado como água, e o que sucedeu

8. Vindo eu da Cidade da Bahia pelo Sertão para estas Minas e chegando ao rio de São Francisco a uma fazenda de Januário Cardoso, me mostrou um homem um seu escravo com um tumor nas costas de uma mão do tamanho de um ovo, que estava muito mole, pedindo-me lhe aplicasse algum remédio, mas como ainda não sabia de que o mel, e o sal, era bom, lho não apliquei, nem outro algum, por não ter, nem haver para que apelar; mas sempre lhe recomendei que o não furasse, nem desse crédito a quem lhe dissesse que estava cheio de matéria, como parecia, por estar mole; que, quando chegasse aonde lhe pudesse fazer uma pasta de chumbo azougada, lha faria e poria, por ir a minha botica adiante; como ele também ia para a mesma parte, cada um fez a sua jornada quando pôde. Chegou este homem à parte aonde achou um cirurgião, o qual lhe disse que estava cheio aquele tumor de matéria e persuadiu ao homem que, não se abrindo, se corrompiam os nervos e morria, ou ficava o preto aleijado; e, sem embargo que o homem, lembrado do que eu lhe tinha advertido, repugnou, contudo abriu o cirurgião o tumor e achou o que eu tinha vaticinado.

9. Passadas duas semanas, pouco mais ou menos, cheguei àquele sítio onde estava o homem com o tal preto e logo me foi buscar, e deu conta do sucedido, mostrando-me o doente com uma chaga muito aberta e grande, cheia de pó de Joannes, com nervos podres, e o doente em puros gritos, o que não pude ver sem grande compaixão de ver um bom preto perdido, ou em termos de ficar aleijado daquela mão, e o homem parado sem poder fazer jornada, em cujos termos, pedindo-me lhe aplicasse algum remédio, lhe disse não curasse aquela chaga senão com aguardente do Reino; fiz jornada e ele ficou.

10. Passados alguns meses, o vi nestas Minas, aonde me disse que o cirurgião fora continuando com os pós de Joannes, e ele não tivera remédio senão deixar naquela fazenda o preto, e depois tivera novas que ficara com a mão lesa.

 

Capítulo VIII

 

Dos papos e dos seus remédios mais eficazes

1. Esta doença de papos é uma das mais dificultosas de curar e não faltam em algumas partes destas Minas; tem-se observado que, pela maior parte, procede das aguas que se bebem em alguns sitios e não se lhe dá outra causa, sem embargo que pode proceder de outras; também por pessoas de verdade me consta que, na vila de Oitu, e nas mais sujeitas à capitania de São Paulo, é a gente destas partes muito sujeita a esta doença, e há alguns nestas Minas que de lá vêm que têm papos que metem medo, caindo-lhe pelo peito abaixo, dos quais tenho visto alguns; destes grandes, alguns há que padecem grave moléstia, porque se sufocam da respiração e outros lhe roncam quando andam, e é doença mais comum em paulistas, carijós, mamelucos e mais em mulheres que em homens; também em pretos e alguns, suposto poucos, em filhos de Portugal, mas nenhuns vi, nem me consta, que fossem grandes.

na vila de Oitu, e em toda a Capitania de São Paulo, há muita gente com papos

Como se devem curar

2. A cura desta doença, sendo no princípio, se deve intentar, porque alguns têm sarado, mas os antigos e grandes dificultam muito a sua cura, sem embargo de que sempre devemos aplicar os remédios e Deus obra sobre eles, como temos visto em algumas enfermidades de que não havia esperança e sararam; isto assim suposto, passo a dizer com que remédios se lhes deve acudir, e são os seguintes:

3. Seja o primeiro o mesmo que fica apontado para os tumores das mãos, molhando nele um pano que cubra o papo e atado com sua atadura, que comprima e aperte o que baste, renovando-o todos os dias, ou de dois em dois, porque, como o mel se não seca com facilidade, pode-se meter um dia de permeio, e, quando em quinze dias não obre, sempre se deve continuar mais outros quinze, porque, como é tumor de causa fria, sempre estes hão mister tempo largo para se resolverem; mas, quando este não faça o efeito que desejamos, se mande por uma mulher que estiver com a sua conjunção mensal que morda com os dentes todo o tumor, apertando-o bem muitas vezes e, depois de mordido, se lhe atem cordas de viola por cima dele, que alguma coisa apertem; e a mulher irá mordendo todos os dias em jejum enquanto lhe durar o sangue e continuará com outra do mesmo modo, porque estes dois remédios têm curado alguns. Aqueles que não tinham papos antes de irem morar para algum sítio, roça ou fazenda e depois de morarem no tal sítio foram crescendo papos a algumas pessoas daquela casa, como algumas vezes tem acontecido e eu tenho visto, o remédio verdadeiro deste papos é não beberem mais daquela água de que estão bebendo, e se, em discurso de algum tempo, não diminuírem e sararem, sempre é necessário pôr-se-lhe algum remédio, que estes obedecerão melhor e não se encherão todos os da casa de papos, como se encheriam bebendo da água de que bebiam.

mulher que esteja com a conjunção e cordas de viola para os papos

largar aquela água de que bebem e beberem de outra

4. Alguns têm sarado tomando as ondas do mar e depois lavando e pondo panos de água salgada em cima dos papos, ou morando perto do mar, onde bebam daquela água que nasce perto dele; também alguns têm sarado bebendo em jejum, por muito tempo, urina de menino ou, não a havendo, da sua própria; esfregar os papos com um pano molhado em sangue mensal e, depois de esfregado, pôr-lho em cima, isto feito por muitas vezes, mas com tal condição que não seja do primeiro sangue ou do primeiro dia, porque este lhe tirará a pele fora; beber a água que passa por milho que está de molho é remédio que curou a um branco que eu conheço; como é encher um coco de milho quebrado e cair-lhe água limpa, cheio ele sai aquela água para fora, beber o doente desta água sem beber de outra, e tirado aquele milho quando já está mole, é capaz de fazer farinha, lançar outro, e assim as mais vezes; pôr em cima dos papos saquinho de sal torrado, estendido e feito a modo de colchão cozido é remédio muito bom; pisar alecrim, arruda, losna, alfavaca, murta ou murtinhos, ou sejam estas ervas verdes ou secas, e, depois de bem pisadas, pisar uma boa mão cheia de sal do Reino e misturar tudo, e metido em saquinho cosido pelo meio, de modo que fiquem as ervas bem estendidas, e trazer o tal saco atado, aquentando-o todos os dias, borrifando-o com a aguardente e continuando por tempo de vinte ou trinta dias, é bom remédio.

sangue mensal

sangue mensal, sendo do primeiro dia, tira a pele fora

5. Mas, quando os remédios apontados não bastem para curar os papos, bastará o óleo de ouro, para quem quiser ver-se livre deles, pondo-lhe penadas por cima do tumor e cercando-o em roda, o que se fará de dois em dois dias, observando as condições de o aplicar que ficam referidas no seu tratado.

óleo de ouro cura os papos

 

Capítulo IX

 

Das chagas do membro viril ou genital, a que

vulgarmente chamam cavalos 1. Ainda que algumas vezes acontece haverem chagas no membro sem serem gálicas, como estas se remedeiam facilmente com água de tanchagem, rosada, com alvaiade e uma pedrinha-lipes, coisa pouca, pisada, que logo se desfaz, escuso gastar tempo inutilmente, quando o posso empregar em outras coisas que sirvam de algum melhor proveito aos enfermos; isto suposto, tratarei das gálicas, a que chamam cavalos; estas, sendo no princípio, muitas vezes tenho visto sararem com o seguinte: cortem um limão-galego e esfreguem com ele as chagas muito bem até lançarem sangue, e depois se lhe lance em cima delas pós de cato, o que se fará algumas vezes.

2. Mas, se não houver este remédio ou não quiserem usar dele, usem do seguinte, de que tenho muita experiência e de que sempre usei depois que o excogitei para semelhante doença, e é o seguinte: assim que se conhecem que são cavalos, se toquem com um pincel de pano molhado em espírito de vitríolo, enxugando as chagas primeiro, e, depois de bem tocadas e de passar algum intervalo de tempo, se lhe porá em cima um parche de qualquer ungüento fresco e dessecante, como o branco, ou o de fezes de ouro, ou pano seco; isto se fará, uma vez cada dia somente, até de todo se consumirem, encarnarem e cicatrizarem.

espírito de vitríolo para curar cavalos é supremo remédio

3. Este é o melhor remédio que tem toda a Cirurgia para estas chagas, o que digo pela grande experiência que dele tenho; e se as chagas, com a primeira cura, ficarem limpas, se tocarão da segunda com o pincel superficialmente, que é o mesmo que tocá-las escassamente; mas, se a segunda vez não aparecerem limpas, se tocarão muito bem uma e muitas vezes, ainda que façam sangue nos lábios, alimpando-o e tocando-as, para o remédio penetrar ao interior ou fundo delas, porque sucede haver alguns cavalos que têm covas tão fundas e cheias de matéria que toda esta diligência é necessária; e é preciso que o tal espírito seja bem ativo, tendo toda a sua força e vigor, que algum há muito fraco por ter exalado a sua força estando mal tapado, e este obra muito pouco, e por isso é necessário que seja forte e que esteja bem tapado o vidro, para que não evapore coisa alguma, e, no caso que as chagas sejam antigas, como tenho visto, e estejam cheias de matérias grossas, sordícies brancas a modo de atoucinhadas, estas não só é preciso tocá-las bem e por algumas vezes, senão que é necessário pôr-lhe em cima uns fios, ou o mesmo paninho do pincel com que se tocou, e então se lhe porá apenas pano seco para destruir aquela podridão e ficar a chaga limpa, e, limpa, se toca escassamente como fica dito, pondo-lhe em cima um dos ungüentos sobreditos ou de cinábrio, que é mais próprio para chagas gálicas, tocando com o espírito de dois em dois dias, etc.

4. Mas, se virmos que as tais chagas não querem obedecer, entenderemos que a qualidade gálica é a causa, por ser em grande quantidade; nestes termos, daremos ao doentes quatro xaropes preparantes de humores gálicos e depois deles uma purga de resina de batata para purgar universalmente, e duas ou três de jalapa, e depois as pílulas do mercúrio sublimado, que tudo fica declarado no tratado dos segredos; tocando as chagas de três em três dias, ou de quatro em quatro, não poderão deixar de render-se a tão poderosos contrários, como até agora não houve algumas que resistissem.

preparar e purgar os humores gálicos

5. Sendo as tais pílulas tomadas interpoladas, não costumam fazer babar aos doentes, nem eu fui nunca afeiçoado a que babassem, contentandome que fossem fazendo três ou quatro cursos cada dia, que é o que sempre me bastou para os meus doentes sararem com as tais pílulas, e também por livrar os doentes de tais penalidades, pois as previ sempre escusadas; e quando via que algum doente que tomava estas pílulas sentia alguma ebulição na boca que indicasse a querer babar, mandava parar um dia ou dois, e depois continuava as pílulas sem babarem, e sempre com bom sucesso; e para crédito do grande remédio que é o espírito de vitríolo para destruir o fermento venéreo, incidir, absterger e alimpar todas as chagas, o farei manifesto pelas seguintes observações, entre infinitas que pudera referir:

parar com as pílus para não babar

Observação I

De uma chaga ou cavalo no membro viril

6. Junto à Vila Real do Sabará morava em sua roça Luís de Sousa, o qual, tendo uma chaga da banda de baixo da fava do membro viril, em cima da via da urina, chamou um médico, o qual lhe assistiu mês e meio; mas, vendo o doente que não tinha melhora, me chamou e, vendo-lhe a chaga, lhe achei muito sórdida e cheia de matéria branca, muito pegajosa, bastantemente grande, e o membro também inchado; informado do que tenho dito e de que era gálica, lhe prognostiquei que estava em risco de urinar por aquela chaga depois de limpa, maiormente se fosse funda, como parecia, por estar em cima da via da urina; e como já tinha boa experiência do espírito de vitríolo, a toquei muito bem tocada com um pincel molhado no dito espírito e lhe pus o mesmo paninho do pincel em cima da chaga; passadas vinte e quatro horas fui ver o doente e lhe achei a matéria grossa quase toda destruída e a chaga limpa em parte.

7. Tornei a tocá-la, não como da primeira vez e, à terceira cura, já lhe não pus o paninho molhado, por estar de todo limpa pelos lados, pondo-lhe fios secos e sem ungüento, pelos não haver, com que desta tal máquina de matéria grossa e viscosa, que ficou a chaga mui funda, já nesta ocasião apareceu alguma urina, mas pouca; toquei a chaga superficialmente com o pincel molhado e pus-lhe uns fios secos; ao outro dia achei a chaga mais limpa, mas com mais urina, e, finalmente, dentro de sete dias ficou a chaga encourada, e quando urinava por ali lançava alguma parte da urina, e, dizendo-lhe se queria curar-se, também ficaria são. Perguntou como; diz- lhe que, rasgando daquele buraco até a ponta, ficando a via à vista, e depois com um canudo metido para urinar por ele, se havia de curar a ferida em cima dele, escamando também o buraco para tudo unir a um tempo; ao que respondeu queria antes ficar assim; e assim ficou.

urina saía pelo buraco da chaga

abrir a via da urina

8. Este remédio costuma fazer dores grandes, principalmente quando as chagas estão limpas, mas são dores de tão pouca duração que não existem mais tempo que de um credo, e assim, por esta razão, como pela grande brevidade com que cura esta e outras várias enfermidades, livrando os doentes de padecerem tantas dores com pós de Joannes, pedra-lipes e outros remédios fortes de tão pouco proveito à vista deste, e além disto a moléstia que os doentes padecem com esta enfermidade, com todo o valor se podem oferecer a padecer de dores de tão pouco momento; e a razão de durarem tão pouco é por este remédio espirituoso que, imediatamente, comunica a sua virtude e do mesmo modo faz o seu efeito; além destas grandes virtudes, se junta outra de muita estimação, que é tirar a inflamação do membro, que pela maior parte sempre acompanha estas chagas, como tinha a que fica referida, sem que sejam necessários panos de água de tanchagem, rosada, vinagres, etc.

9. Não cause admiração vendo-se correr sangue quando as chagas se tocam com o espírito, principalmente quando estão limpas, porque assim sucede, de que se não faça caso, e só se alimpará o tal sangue chupando-o com um paninho e pondo-lhe o parche de ungüento, ou sem ele, que no outro dia se achará tão vermelha como uma romã, estando quando se lhe põe o espírito tão feia; o tal remédio se deve tratar com grande cuidado de não estar o vidro mal tapado, porque se exalará a sua virtude e ficará tão fraco que de pouco servirá, ou de nada; com que melhor se tapa é com cera da terra ou amarela de Portugal, porque pega e se une bem.

Observação II

Em dois escravos meus com chagas na garganta curadas com

dito espírito 10. No ano de 1730 se me queixaram dois escravos meus da garganta que lhe doía e custava o engolir; fiz-lhe o gargarejo de carurus de espinho e de tanchagem, que já fica referido, e, sem embargo de ser um grande remédio, não tiveram com ele alívio algum; e, reparando eu que este remédio costumava curar a muitos, sem mais coisa alguma, lhes mandei abrir a boca, e, carregando-lhe com o cabo de uma colher em cima da língua para ver se na garganta tinham alguma chaga, com efeito me não enganei e lhe descobri algumas, as quais toquei com um pincel molhado no dito espírito, com que tiveram alguma melhora, mas como não experimentasse a que em semelhantes casos tinha visto muitas vezes deste remédio, e, por ser vagarosa a melhora, os purguei a ambos com purgas de jalapa por duas vezes, atendendo aos humores gálicos de que eles sempre abundam, tocando sempre as chagas, uma vez ao dia, com o dito espírito, e ambos sararam em poucos dias. Bem sei que alguns professores hão de fazer muito reparo e eu lhes não tiro a razão, mas eu, que assim o administrei, não foi sem fundamento; cada um curará como melhor lhe parecer, que eu neste clima sempre curei os meus doentes mais conforme a razão e a experiência que pelos autores.

Observação III

De uma fistula que curei em Silvestre de Sousa com o mesmo

espírito e outros remédios pela boca

11. No ano de 1716, morando eu na fazenda do mestre-de-campo José Rebelo Perdigão, em Ribeirão Abaixo, morava também Silvestre de Sousa, o qual tinha uma fístula em uma coxa acima do joelho, quase um palmo, havia perto de um ano, à qual já não fazia remédio algum por ter feito tantos que já estava desconfiado, a qual fístula atravessava a coxa de uma banda à outra, lançando matérias fétidas por uma e outra banda, e, pela sua antigüidade e putrefação das matérias, bem dava a entender havia de ter dado no osso; e como era seu amigo e o ver com uma queixa tão penosa, entrei a curá-lo na forma seguinte:

fistula que atravessava a perna de uma banda a outra 12. Primeiro que tudo lhe dei um vomitório para depor e evacuar as cruezas da primeiro região e os mais remédios obrarem melhor, e para os sustentos se converterem em melhor sustância; depois lhe dei quatro xaropes preparantes de humores gálicos, que ficam receitados, purgando-o e dando-lhe os meus xaropes contra morbum, que tudo fica receitado no tratado sexto; porque, como era moço e tinha padecido algumas queixas gálicas, lhe fiz as evacuações universais e dei os alexifármacos contra o tal gálico; e depois que deu princípio a tomar os ditos xaropes contra morbum, dei também princípio a seringar a fístula com cozimento de cevada com pragana e uma rachinha de pau de sassafrás, tudo bem cozido para seringar com este cozimento e lavar as matérias quatro vezes cada dia; e quando seringava por um buraco, saía o cozimento pelo outro, lançando matérias com muito ruim cheiro; no fim de dois dias, quando a maior parte das matérias estavam já limpas e a chaga, fui seringando com o dito espírito duas vezes cada dia, com o qual começou a lançar esquírolas miúdas do osso fêmur, ou cana de coxa, a modo de areias grossas, e as matérias com menos fétido e em menos quantidade; com isto continuei alguns dias, enquanto tomou o primeiro frasco dos ditos xaropes, que lhe durou seis; no fim deles, tornei a usar do lavatório dito acima, seringando primeiro com ele e depois com o espírito, e também interpolando um e outro, um para ir gastando a corrupção do osso e outro para ir alimpando e dessecando.

os sustentos se convertem em melhor sustância

seringar a fístula

quando seringava por um buraco, saía o cozimento por outro

esquírolas do osso que saíam como areias

seringar com espírito

13. Tornei a fazer outro frasco de xaropes contra morbum, que, como era segredo meu, o fazia por minhas mãos, os quais tornou a continuar bebendo já com os primeiros, e com estes água de salsa pouco cozida; assim foi continuando e com bom regimento com tão feliz sucesso que foram as matérias a menos e sem fétido, nem areias, com boa cor, de sorte que acabou com o frascos dos xaropes, continuou a água de salsa, continuei com os ditos remédios na parte, ora seringando com o espírito, ora com cozimento dessecante, com que não lançou por ambos como fazia a princípio, e foi encarnando e cicatrizou de todo.

14. Depois que acabou de tomar o segundo frasco de xaropes contra morbum (remédio que nunca me faltou nestas Minas, com a sua excelentíssima virtude) a vinte e cinco dias, pouco mais ou menos, tempo em que o dei por são, e assim o ficou para sempre, o qual ainda hoje assiste nas Minas do Rio das Mortes, sem nunca mais se queixar da tal fístula que tanto o tinha atormentado com gastos, dores e amofinação das matérias no discurso das curas, que tinha feito sem utilidade alguma.

15. Desta observação se pode inferir a grande virtude dos dois remédios, xaropes contra morbum e o espírito de vitríolo, e das mais que ficam referidas; e espero em Deus que este meu trabalho seja grato assim aos leitores comuns como aos professores, se não em tudo, em parte, e aos doentes, de utilidade, pois, vendo-me em uma terra tão falta de remédio e tão remota, sem ter boticas naquele tempo para onde apelar, era preciso vacilar e fazer juízo dos remédios que poderiam haver e serem proveitosos para as tais queixas, e por esta razão interpretei alguns, que ninguém até hoje usou.

razões de ponderação

 

Capítulo X

 

Das contusões grandes causadas por pancadas,

caída de alto ou aperto 1. Não havendo fratura, nem sendo a contusão em parte onde se tema perigo, pode servir o seguinte remédio, que é muito descoagulante: em uma pouca de urina, se for velha será melhor, se lance uma pouca de ferrugem de chaminé, e se mexa muito bem, sendo primeira peneirada, se molhem panos, estando bem quente, e se lhe ponham, chapejando com eles a parte, e por cima baeta e atadura, e se parecer necessário algumas sangrias, sejam poucas, antes tome pela boca mais remédios descoagulantes e vulnerários para promover a circulação do sangue e mais líquidos, pois nestas Minas são estes remédios muito necessários, os quais se podem fazer desta maneira. Cozam uma ou duas raízes de capeba e meio palmo de raiz de butua machucada, de modo que fique a água bem alambreada, e dela beba o doente sem usar de outra, ou seja com uns pós de açúcar ou sem ele, que, deste modo, estará livre de se lhe formar apostema interno e se promoverá a dita circulação, pois não posso explicar as excelentíssimas virtudes destas duas raízes; e na parte da contusão se vá sempre usando dos panos e lavagens acima ditas.

2. Mas, se a contusão for muito grande ou não obedecer ao que fica dito, que tenha procedido de alguma caída de alto ou de terra que caia em cima de algum corpo, como está sucedendo a cada passo em casas e minas, se confortará a parte com toda a brevidade possível, por se não constiparem aqueles poros com o ar frio, lavando-a e chapejando-a com panos molhados em aguardente por tempo de meio quarto de hora, estando a vasilha dela em cima de brasas junto da parte queixosa, que é este modo admirável para aquentar, confortar e penetrar, abrindo os poros e pondo-lhe os mesmos panos molhados com baeta por cima, para lhe não dar o ar, que será de muito dano; e logo se ordenará a bebida seguinte:

aguardente abrem poros e os não deixa constipar com o ar frio

3. Cozam-se duas raízes de capeba, não sendo grandes, uma pouca de raiz de butua, uma onça de cardo-santo em quatro frascos de água, que fique em dois; deste cozimento se tirarão cinco ou seis onças e se lhe lançará de cinco até dez grãos de antimonio diaforético marcial, e, mexido, se dará morno a beber ao doente em jejum e de tarde por cada vez; e assim se continuará os dias que forem necessários, cobrindo-se o enfermo muito bem assim que beber este remédio, porque, muitas vezes provoca suor e é muito louvado neste caso, além dos mais efeitos que faz, tão singulares, pois é um remédio dos mais presentâneos que tem a Medicina para vulnerar e promover a circulação dos sangue e mais líquidos, para não suceder algum apostema interno, desfazer e tirar as dores das contusões; e, se parecerem precisas algumas sangrias, não sejam muitas, porque os mais remédios bastam e o sangue é valentão muito necessário para defender a nossa fortaleza dos mais inimigos; e, se misturarem tanta parte deste cozimento, como de aguardente, e com isso bem quente banharem a parte, experimentarão um efeito maravilhoso, ou, ainda que não seja, senão raiz de capeba e de butua bem cozidas; quem fizer esta mistura e curar com ela, terá um grande remédio; eu assim o tenho feito, depois que com outros não quis obedecer uma contusão e logo obedeceu, e daí por diante o fiquei fazendo com bom sucesso.

bebida vulneraria admirável para fazer circular o sangue e mais líquidos

4. Se a queda ou pancada suceder em parte onde não hajam todos os simples que ficam ditos para fazer o dito cozimento, ou se não possa tomar o remédio por algum acidente, se tomará espírito de ferrugem, lançando dele umas pingas em cozimento de raiz de capeba, ou de raiz de butua, ou em água de chá, quatro ou cinco onças por cada vez; e quando tudo isto falte, se lançarão as ditas pingas em urina de menino ou de homem sadio, com tal condição que a urina seja fresca.

5. É este remédio singular, por ser o espírito muito descoagulante, e o tenho dado e tomado em muitas quedas com bom sucesso, a qual bebida se tomará em jejum e a toda a hora algumas vezes no dia, e será continuada por alguns, tratando a contusão onde se deu a pancada, como se diz, são remédios seguros; e, suposto tal espírito ser amargoso, terá o doente paciência por seu proveito. A urina fresca tomada com ferrugem peneirada é gravíssimo remédio, sendo continuado.

6. Com estes auxílios tenho curado grande contusões e, ainda que a algumas pessoas pareçam estes remédios fracos, são admiráveis e muito valentes; mas, para melhor inteligência, no fim deste capítulo escreverei uma boa observação.

7. Porém, no caso que a contusão seja pequena ou aconteça em parte remota onde não haja os remédios que estão referidos, se fomentará com aguardente e, sem nem esta houver, se fomente com urina e cozimento de capeba, se a houver, ou urina por si somente, bem quente, cobrindo com os pós de almécega e de breu, ou um deles; de todos os remédios que tenho dito, tenho usado com bom sucesso, e nada de óleos comuns e só o em fronte, passado o primeiro, porque nunca vi deles bom sucesso em contusões; também tenho usado de água de chá, lançando o antimonio nela para beber em falta dos simples, para fazer o cozimento que fica dito, também misturando-a com aguardente para fomentar e também dando a mesma água de chá a beber aos doentes, quando estão resfriados, ao tempo que recebe as tais quedas ou pancadas; e as sangrias, quando se tomem, não sejam, senão no outro dia da queda ou pancada, ou depois algumas horas, quando já estejam os doentes com calor e livres de sustos.

óleos não convêm em contusões, excetuando o que ensino a fazer, particular de alecrim e arruda, na miscelânea

Observação em quatro escravos meus, grande contusões e

caso grande

8. Entre muitos casos de contusões que me têm passado pelas mãos, foi o de maior admiração o seguinte: No ano de 1824, trazendo os meus escravos cortando a ponta de um morro, ou espigão de terra, para meter por aquela brecha um rio caudaloso e dele extrair ouro em uma volta que havia de ficar em seco, andando quatro em uma cortadura da dita ponta, mui apertada e funda, que fazia para meter um golpe do dito rio e ajudar ao tal serviço, sucedeu correr a terra de uma banda com muitas pedras que os imprimiu na outra parede que estava cortado a prumo e os sepultou, ficando tão cobertos de terra e pedras que tinham em cima de si mais altura de uma pessoa, a que logo acudiram os mais cavando a terra e os tiraram, parecendo impossível o saírem vivos e, levados para casa, lhes fiz tomar o cozimento das raízes de capeba com butua e cardo-santo com antimonio diaforético marcial, como acima fica dito e na mesma forma aplicado, e com os panos e banhos de aguardente por espaço de bastante tempo por todas as contusões; e porque ficaram muito pisados das pedras e terra com tão grande susto, como quem esteve sepultado por algum tempo, os não quis mandar sangrar, e só dando-lhes a cada um seis onças da grande bebida vulnerária morna que atrás fica dita, duas vez cada dia, chapejando-lhes as contusões três e quatro vezes, tendo o tacho com aguardente em cima de fogo junto da parte e partes ofendidas, fazendo-lhes fomentações largas, pondo-lhes panos dobrados e molhados com baetas novas por cima, dando-lhes bem de comer, tendo-lhes as suas casas quentes com fogo e cuidado que estivessem bem cobertos; mas porque ficaram com algumas dores em algumas partes, sem quererem acabar de obedecer, fiz um cozimento forte de raiz de capeba com butua machucada, e dele misturei tanto como de aguardente, e com esta mistura muito bem quente fomentei as partes como fica dito, e todas acabaram de obedecer a este admirável segredo, ficando todos bem sãos dentro em dezenove dias, e foram para o trabalho; e o não se sufocarem foi porque a terra e pedras que correram ficaram com suas aberturas, por onde lhes entrava algum ar e também por serem pretos animosos.

cozimento de raiz de capeba e de raiz de butua com aguardente para contusões

9. Dessa observação se pode inferir a prodigiosa virtude dessa bebida, porque, saindo os pretos com os corpos tão pisados que se não podiam mover, nem ter em pé, que com fundamento me persuadia haviam de ter algumas fraturas e algum dano interno, mas o que mais me animou foi o não lançarem sangue pela boca; bem sei que haverá quem faça reparo em não mandar sangrar estes pretos, mas, como eu tenho visto nestas Minas muito grandes danos das sangrias, nunca fui afeto a tal evacuação; não que deixe de mandar sangrar alguns, mas é rara vez, e com muita necessidade; e, demais, que estes, quando saíram de debaixo da terra, vinham quase defuntos e tão frios como neve, mas, como os mandava cobrir bem de roupa e lhes acudia à boca dando-lhes algumas pingas de aguardente em cima do comer, foram recuperando calor até que sararam perfeitamente; e, no caso que hajam contusões com fraturas, esta se curará como fica referido no seu tratado.

Outra observação em um escravo meu de uma grande

contusão nas costas

10. No ano de 1724, andando um escravo meu derrubando mato para fazer uma roça, lhe caiu um pau em cima das costas e o pisou, de tal modo que mais se não buliu daquele lugar sem que o fossem carregar em uma rede para casa, aonde chegou mais morto que vivo, lançando pela boca algum sangue, tão desmaiado e tão frio que não falava, nem bulia com membro algum, que justamente me pareceu não escapava da morte; logo mandei aquentar o seu aposento, fazendo-lhe fogo, e ordenei a bebida de água de raiz de capeba, butua e cardo-santo, dando-lha a beber com o antimonio diaforético marcial, tudo como atrás fica dito, a qual bebida lhe dava três vezes cada dia, longe dos comeres, fomentando-lhe logo assim que chegou a casa, todas as partes contusas com a aguardente, com espaço de bastante tempo, pondo-lhe panos molhados com baeta nova por cima e atados com uma toalha, o que logo mandei fazer para que lhe não entrasse algum frio naquelas partes ofendidas por ficarem fracas; e, não havendo esta cautela, se introduziria algum humor, e frio, no osso sacro e custaria muito a lançá-lo fora daquelas juntas das cadeiras, como já me sucedeu, além do tormento que haviam de dar ao doente; também, se não querem obedecer, cobrir as contusões (depois da fomentação com aguardente) com pós de breu e almécega é bom remédio.

aguardente

11. Ao terceiro dia, como o preto estava bem nutrido e já estava com calor, lhe mandei dar duas sangrias no braço, e como vi que o sangue da boca lhe parou e as queixas iam a menos, lhe não mandei dar mais sangrias, por não enfraquecer a natureza e levar mais tempo a cura, como tenho visto nestas queixas e em outras muitas; fui continuando com as ditas bebidas e com as fomentações na forma dita com tão admirável sucesso que pareceu obra de milagre, segundo a melhora que em poucos dias alcançou, até que de todo ficou são; e é para advertir que, para este preto sair debaixo do pau, foram outros cortá-lo com machados.

Observação de outro caso quase semelhante

12. João Carvalho, morador na freguesia do Ouro Branco, me veio informar de que lhe caíra um pau em cima de um escravo seu e foi necessário cortar o pau para tirar o tal escravo, ao qual ordenei, quando chegasse a casa, achando que o doente estava já com calor e não frio, ou tremendo, como quase sempre assim sucede, lhe mandasse dar duas sangrias no braço e duas no pé; ao mesmo tempo que abrisse e acabasse de atar a do braço, abrisse logo a do pé; e como me disse que lançava algum sangue pela boca, lhe receitei o seguinte engrossante: Recipe. Água de tanchagem e de beldroegas, de cada uma quatro onças, xarope de rosa secas e de murtinhos, de cada um uma onça, misture-se; e ordenei que deste engrossante assim frio desse ao doente quatro colheres por cada vez em cima das sangrias, e, entredia, longe dos comeres, e, depois que o sangue parasse, tornasse à bebida vulnerária que atrás fica dita, e que, logo que chegasse a casa, fomentasse todas as partes contusas com panos molhados em aguardente bem quente, pondo-lhe os mesmos panos por cima com baeta, e foi o efeito destes remédios tão admirável que o sangue que lançava pela boca parou, as dores foram a menos e, não se bulindo o doente no princípio, se foi meneando ao depois, e só lhe ficou uma dor na cruz das cadeiras, ou osso sacro, que se não quis acabar de extinguir, pelo que foi necessário usar de remédio mais forte e que existisse por mais tempo na parte com a sua virtude, o qual foi o seguinte:

foi necessáriocortar um pau para tirar debaixo dele um corpo

13. Ordenei que preparasse um pano dobrado que tomasse toda aquela parte da cruz das cadeiras e pusesse aguardente junto da parte queixosa, e com o mesmo pano molhado, estando bem quente, fomentasse aquela parte por bastante tempo para ter lugar de penetrar dentro a sua virtude, abrindo os poros, e, tendo isto assim feito, cobrisse toda a parte com pós de breu, incenso e almécega bem moídos e misturados, ou a maior parte deles, e logo cobrisse os pós com o mesmo pano molhado na tal aguardente, estando bem quente, cobrindo-o com sua baeta e bem atado com sua atadura larga; e, no outro dia, tirada a baeta, remolhasse o tal emplasto com aguardente bem quente, sem bulir nele, tornando a cobrir e atar, e assim todos os dias, o que se executou com tão bom sucesso que, em pouco tempo, se tirou a dor e ficou são.

pós de breu, incenso e almécega

14. Mas porque algumas vezes me tem sucedido que nem com aguardente, nem pulverizando com os ditos pós se querem tirar as dores, uso, em tal caso, de fomentação de óleo de arruda e de alecrim feito em casa, como ensino a fazer no tratado da miscelânea, invento meu, com que tenho tirado dores antigas e que não obedeciam a outros remédios.

óleo de arruda e de alecrim

15. Também tenho usado, em dores rebeldes, de saquinho de farelos de milho grosso e fervidos em aguardente, posto com a quentura sofrível, e também cheio de ervas quentes pisadas, e fervido na dita aguardente a fogo brando, como fica dito nas pontadas.

Capítulo XI

 

Da gota-serena que dá nos olhos

1. Esta enfermidade é uma falta na vista, maior ou menor, e é muito comum nos pretos destas Minas; é doença que se não conhece senão pela informação do doente, porque se lhe vêm os olhos sãos e claros sem sinal de doença. Uns experimentam mais falta na vista, outros menos, uns mais de dia que de noite, outros mais de noite que de dia, que estes são os mais, outros, finalmente, de dia vêem admiravelmente, e, tanto que se vai pondo o sol, se lhe vai escurecendo a vista cada vez mais, ao compasso que a noite cresce, até que ficam, de todo, cegos, as quais diferenças sucedem pela maior ou menor ação de humor frio que está embebido nos nervos ópticos ou visuais.

2. A cura desta enfermidade, suposto os autores a façam dificultosa, eu, pela mercê de Deus, tenho curado a muitos doentes dela com facilidade do modo seguinte:

3. Mando tomar quatro xaropes preparantes de humores frios, feito o cozimento de ervas capitais, como macela, coroa-de-rei, hissopo, rosmaninho ou outras semelhantes, de duas ou três destas, meia onça de cada uma; fervam em seis quartilhos de água, até diminuir a metade, então se lhe lancem duas oitavas de sene, com que dará uma leve fervura, no fim da qual se coará e adoçará com açúcar e se repetirá para quatro bebidas, que poderá tomar em dois dias, manhã e tarde, e, no terceiro ou quarto dia, tomará uma purga de resina de batata, e, descansando um ou dois dias, tomará outra e depois uma ou duas de jalapa, para respeitar alguns humores gálicos, se os houver; e depois tomará três ou quatro purgas capitais na forma seguinte:

4. Recipe. Massa de pílulas lucis, cochias e agregativas, de cada uma uma oitava, misture-se e façam-se pílulas pequenas segundo a arte e dividam-se em três doses para tomar por três vezes, uma oitava por cada uma, em jejum e de manhã cedo, ao romper do dia, sendo em tempo frio, e, sendo mais temperado, se tomarão pelas duas horas depois da meia-noite.

purgas capitais

horas de tomar as pílulas

5. Antes de tomar estas purgas capitais, estando já purgado, se porá em cima dos olhos um saquinho de tafetá carmesim ou, em falta, de pano de linho cheio de folhas de alecrim machucadas somente, e, tendo falta de vista em ambos os olhos, se fará um saquinho para cada um; estes saquinhos, depois das ervas dentro e cozidos, se infundam em aguardente dentro de tigela vidrada ou tachinho bem areado; ferva a fogo brando por tempo de meio quarto de hora e, tirados os saquinhos e mornos somente, se apliquem em cima dos olhos estando fechados, lançando primeiro alguma daquela aguardente dentro neles e se atem com sua atadura; no outro dia se tornarão a infundir os mesmos saquinhos ou a borrifar com a dita aguardente, e se apliquem como está dito; isto assim se fará todos os dias duas vezes, e o alecrim não servirá senão para dois dias, no fim dos quais se meterá alecrim novo; assim se continuará no tempo das purgas capitais e depois, até que o doente fique de todo são.

remédio particular, invento do autor

6. Mas, no caso que alguma gota-serena seja tão rebelde que não obedeça aos remédios apontados, ou por ser antiga ou porque os humores estejam tão infiltrados nos nervos ópticos e sua vizinhança que se não alcance vista perfeita, neste caso se fará o remédio seguinte:

7. Em um frasco limpo e seco de boca larga se meta um molho de ramos de alecrim com as pontas para baixo, do mais verde e viçoso que houver, atado com uma linha branca para melhor entrar pela boca do frasco, e se atará na boca de modo que não cheguem as pontas do alecrim ao fundo do frasco; este frasco, assim com a boca destapada, se porá ao sereno de fora de uma janela dois ou três dias e noites para destilar e, tanto que virmos que já não aparece nada de licor nas pontas do alecrim, se lançará o licor que houver em um vidro bem tapado, e, se houver aguardente fina e perfeitíssima, se lhe misturará a terça parte dela, mas, não a havendo, nesta forma se usará do tal licor por si somente, lançando dele umas gotas dentro nos olhos, estando o doente de costas, pondo-lhe os saquinhos em cima, como fica referido, o que se fará duas ou três vezes ao dia, tendo regimento; e com estes auxílios não haverá gota-serena que se não renda, pois eu não curei até o presente doente desta enfermidade que não sarasse e ficasse com a sua vista clara e perfeita, seja Deus sempre louvado.

remédio particular, invento do autor, para gota-serena

8. Muitos curei também com o remédio seguinte, sem purgas: tomem um pedaço de fígado de boi ou de vaca, meta-se em um espeto e salpique-se de cravo da Índia, metendo-o no tal fígado, e se ponha a assar; e o primeiro molho que lançar de si se deixe cair no chão, mas o outro que for lançando se apare em uma vasilha enquanto ele quiser lançar de si, e, ficando seco, se esprema, ajuntando tudo, e deste licor se lançará nos olhos três ou quatro vezes cada dia, e o tal fígado se dê a comer ao doente, e, acabado ou estando o licor corrupto, se fará outro na mesma forma. É este remédio admirável e tem curado inumeráveis enfermos, assim em minha casa como fora dela.

remédio de fígado de boi para gota-serena

9. O remédio dos saquinhos com o licor do alecrim é utilisíssimo para desfazer belidas, névoas, unhas dos olhos, que ficam das oftalmías, porque descoagula o humor, conforta a parte, impedindo as defluxões, e é certo, porque o tenho experimentado muitas vezes.

 

Capítulo XII

Dos bichos de mosca-varejeira no nariz ou

outras partes, e suas observações

1. Esta doença também é muito comum nestas Minas, assim em pretos como em brancos, da qual têm morrido brancos e pretos em grande número, porque há muitas moscas-varejeiras e também porque se lhe acode tarde.

2. Estas moscas são de cor azul e se cevam em monturos, carnes podres e umidades imundas, e a maior abundância delas é em tempo de chuva. A criação destes bichos é do modo seguinte: Estas tais moscas, assim que se põem, ou seja em roupa ou nas feridas e chagas, havendo umidade, ou no nariz de quem está dormindo, ou ainda acordado, quando as pessoas são pouco limpas, como há alguns pretos e também alguns brancos, começam a lançar pela boca uns ovos brancos que, em pouco tempo ou horas, começam a bulir e ficam bichos animados que, enquanto são pequenos, facilmente morrem com qualquer remédio contra eles, mas, ao depois que tomam corpo (o que em poucos dias sucede), são mais duros e trabalhosos de matar, principalmente quando estão metidos por suas casas ou cavernas que fazem, aonde não é fácil chegarem os remédios, e, ainda que cheguem, não existindo por tempo, não morrem sem que se estejam aplicando a miúdo.

como se geram os bichos de mosca

Com que remédios se matam

3. Havendo bichos em alguma chaga ou ferida, se tratará de os matar antes que cresçam e façam cavernas com sumo de fumo verde, ou, por outro nome, de tabaco, misturado com outro tanto de vinagre que seja forte e umas pedras de sal, molhando fios e mechas tendo cavernas, lançando algum remédio deste com seringa ou pondo-se o doente em forma que o remédio corra para onde estiverem os bichos, e depois as mechas e fios; e, não obedecendo, se misture neste medicamento sarro de cachimbo, desfazendo-o muito bem, ainda que se liquida muito mal, sempre larga virtude, ou se unte a mecha ou os fios no mesmo sarro, que, aonde ele chegar, é remédio seguro; o pôr-se o doente em forma que o remédio corra para onde estiverem os bichos é tão necessário como o mesmo remédio, pois, por falta de se não aplicarem os remédios como convém, ficam estes inflamados e os doentes sem utilidade, ou perdem a vida.

sarro de cachimbo

4. Estes bichos aonde entram é pela maior parte nas chagas ou feridas que andam expostas ao ar, sem andarem cobertas, e o mais comum é nos pretos quando se açoitam nas nádegas ficando as carnes escarnadas e se desprezam não olhando mais para as tais feridas, antes alguns senhores os metem em ferros e os fazem trabalhar, não podendo dar um passo, que destes se têm perdido muitos, uns por causa dos bichos lhe comerem a came e corromperem-se os ossos de que dão acidentes mortais, outros por causa de se gangrenarem, apodrecerem e perderem aquelas partes, como de ambos os modos tenho visto muitos, uns que remediei outros, que não pude remediar, porque lhes dão herpes e morrem miseravelmente, que é lástima grande e pouco temor de Deus deixar morrer ao desamparo os pais, que devem ter estes em lugar de filhos; mas vamos aos mais perigosos, que são os que entram pelo nariz.

Com que remédios se deve acudir quando entram pelo nariz

5. Este gênero de enfermidade é bem terrível e bem dificultoso de curar, principalmente quando são passados alguns dias, tempo em que os bichos já são grandes e têm subido para cima ou para algum lado; sendo grandes, são mais duros de morrer, e tendo subido para cima, ou para algum dos lados, são mais dificultosos de matar, por lhes não poderem chegar os remédios senão com muita indústria de quem os aplicar, e também porque, quando chegam, não é senão aos primeiros e daí não passam, assim porque os remédios não assistem naquela parte, como porque os bichos, tanto que são grandes, estão tão unidos e acunhados uns com os outros que, ainda podendo os remédios fazer assistência, não seria fácil contaminar senão os primeiros, o que muitas vezes tenho observado por certo; e esta é a maior razão por que digo que esta enfermidade é terrível e dificultosa, e também porque, sendo grandes, têm mais fortaleza e não morrem com facilidade.

6. Tendo observado algumas vezes que, sendo os bichos grandes, não morrem com facilidade aplicando-lhe remédios experimentados por bons, e a razão é porque, tirando alguns vivos em algumas ocasiões e lançando-os no medicamento com que curava, não morriam em pouco tempo, e também, em outras ocasiões, quando curava alguma bicheira em feridas de açoites, depois de tirar os que podia, lançar o remédio em cima dos outros, e via na outra cura que os bichos que estavam primeiro estavam uns mortos, outros contaminados do remédio, por estarem amarelos, e os mais, aonde o remédio não tinha assistido ou penetrado, estavam com a sua cor natural, força e vigor por estarem acunhados, como dizia.

7. Quando os bichos tinham entrado pelos narizes, muitas vezes me enganei, cuidando que as dores, peso ou inchação da cabeça seriam procedidas de outras causa; e, por falta de conhecimento ia fazendo outros remédios e os bichos crescendo, e, depois que eles estavam fortes e tinham contaminado o interior, saíam umidades sanguinolentas pelo nariz, e vinha então no conhecimento de que o eram, que este é o melhor sinal e mais certo aonde há estas sevandijas; pelo que fiquei de acordo, quando via algum enfermo com peso na testa, dores nos olhos com peso neles e na cabeça, ou inchação para algum lado do nariz, examinava então o doente com mais miudeza e atenção, perguntando se sentia morder-lhe alguma coisa para cima do nariz ou bulir-lhe coisa que fizesse rumor, e lhe apalpava a cara e por junto dos olhos, carregando-lhe para ver se lhe doía ou sentia pejo; se era preto, perguntava se algum dia tivera bichos no nariz, que quem os tem uma vez é mais fácil tê-los mais; perguntava mais se lhe corria ou tinha corrido alguma umidade pelo nariz com mau cheiro ou sanguinolenta, que estes dois sinais de umidade com mau cheiro e sangue são mui ordinários e certos; o mau cheiro procede da corrupção e podridão que, aonde há bichos, é certa, e o sangue procede de algumas veias que os bichos rompem, maiores ou menores, que, por isso, vem mais ou menos sangue, o qual não vem puro, senão misturado com a tal umidade; nestes termos, não teremos dúvida em que são bichos, os quais se matarão com os seguintes remédios. Assim que viermos em conhecimento que são bichos e que entraram pelo nariz, faremos um remédio na forma seguinte:

sinais de haver bichos no nariz

umidade com sangue e mau cheiro é certo sinal de bichos

8. Pisem-se folhas de fumo ou de tabaco verde e de hortelã, tantas quantas bastem para fazer duas onças de sumo coado por um pano; este se ajunte com outras duas onças de vinagre fortíssimo e umas pingas de espírito de vitríolo, e umas pedras de sal moído, e deste remédio se lançará com uma colher, estando o doente de costas e com a barba bem levantada, e assim estará o mais tempo que puder para que este remédio vá buscando os caminhos ou cavernas que os bichos tiverem feito, chegue a eles e os destrua; e, havendo certeza de que estão para algum dos lados, depois que o doente estiver algum espaço de tempo de costas e com a barba levantada, se virará para aquela parte onde estiverem os tais bichos, para que, assim, se dê jeito ao remédio caminhar direito a eles, o qual se aplicará de duas em duas horas e será sempre quente.

Continuar: parte 3 de 3