Erário mineral
14. Tratado VII – Dos formigueiros e outras doenças comuns nestas Minas
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
remédio para matar bichos de mosca, invento do autor
9. Este remédio não só é capaz de matar os bichos, senão também de curar as chagas que eles fazem e muito contra as podridões e maus cheiros que sempre há aonde há os tais bichos; terão muito sentido quando apontar algum para se tirar, que, obrigados do remédio, buscam desviarem-se dele, para o que estará uma pessoa sempre junto do enfermo, porque costumam aparecer e voltar logo com toda a pressa; haverá também cautela na boca para ver se passam a ela, como já vi, vendo-a, se aparece alguma dor ou inchação no céu dela, e, aparecendo algum tumorzinho, se abra com lanceta antes que os bichos o furem, porque ficará com o buraco para sempre e com a voz rouca e falta na pronúncia das palavras, o que não sucederá abrindo-o com lanceta; e se continuarão os remédios por uma e outra parte com seringa, tirando sempre os que forem aparecendo, obrigados do seu contrário.
10. Mas, se com este remédio aplicado por dois dias virmos que não faz o efeito desejado, faremos outro mais forte da maneira seguinte: sumo de folhas de fumo verde, coado ou limpo, uma onça; água em que se lave meio palmo de fumo curado, de que se faz o tabaco, este, desfeito e esfregado na dita água, duas onças dela, vinagre forte duas onças, sal do Reino duas oitavas, pisado e desfeito no mesmo medicamento, espírito de vitríolo umas pingas; este remédio se lançará com uma colher ou com seringa, por uma e outra parte, ordenando ao doente que busque o melhor jeito para o remédio correr e ir buscar a parte, ou partes, onde estão os bichos.
remédio forte
11. E, no caso que a necessidade seja grande, de modo que ameace perigo, neste caso se ajuntará ao sobredito remédio um bocado de sarro de cachimbo, o qual se acha dentro dos canudos, e também alguma cinza do mesmo fumo ou tabaco que se queimou, que tudo se desfará o melhor que puder ser e, ainda que muito mal se liquida, sempre larga grande virtude no remédio por se fortíssimo, o que se fará estando o remédio quente, desfazendo-o com uma colher; nem seria muito conveniente desfazer-se de todo, por ser venenoso e por ser capaz de matar segundo a quantidade, mas como vai correto, não tem perigo. E, para que se saiba o que ele é, repito a observação seguinte:
remédio ainda mais forte
12. Na Vila Real do Sabará, Manuel Soares, tendo piolhos ladros nas partes baixas, lhe aconselharam untasse as tais partes com o dito sarro, e, porque se descuidou, levou os dedos ao nariz, e pela respiração que tomou se lhe comunicou o terrível, asqueroso e venenoso cheiro ao cérebro, e, de repente, caiu em um acidente mortal, em que esteve por discurso de mais de cinco horas sem acordo algum, nem mais que uma fraca e tênue respiração e um pulso tão delgado como um cabelo da cabeça; e, passado o dito tempo, foi a natureza vencendo aquela aura venenosa e tornou em si, mas muito devagar, o que eu presenciei por ser chamado e ele confessou o que fica referido, ao qual sem saber a causa do acidente, nem pessoa alguma da casa, lhe deitei pela boca, com muito trabalho, triaga magna desfeita em vinho.
observação
13. Por esta causa, e por eu ter outra experiências do que ele é, sou de parecer que, havendo bichos no nariz, se não metam mechas de sarro de cachimbo, como alguns curiosos fazem havendo bichos em outras partes, pois todos sabem que, onde ele chega, os destrói, e só se usará do sarro nesta parte, sendo correto, com outro medicamento ou com os que ficam referidos, e será quando os bichos estejam longe ou sejam grandes pela necessidade e perigo que corre a vida do enfermo, como sucedeu ao padre, por antonomásia chamado o Canjica, morador em Ribeirão Abaixo, que de bichos de mosca que lhe entraram pelo nariz perdeu a vida, e outros; pelo que é muito preciso que se apliquem os remédios a miúdo e com grande cuidado, e para melhor clareza refiro a seguinte observação:
Um clérigo, por alcunha o padre Canjica, morreu por causa de bichos de mosca no nariz, e por não fazer disso caso
Observação única de bichos no nariz em um escravo meu
14. No ano de 1730, sucedeu entrarem bichos de mosca pelo nariz de um escravo meu e, queixando-se de que lhe doía a cabeça e a testa, mandei-o tomar banhos e ajudas de erva-do-bicho, cuidando seria corrupção; mas, como as queixas cresceram e eu duvidoso no remédio que faria, me disseram outros seus parceiros que o tal preto lançava pelo nariz uma aguadilha vermelha; perguntei-lho, respondendo que assim era; nestes termos, por estes sinais, vim em conhecimento de que eram bichos de mosca, maiormente porque as queixas cresciam e não havia corrupção-do-bicho; fiz-lhe o primeiro remédio, parecendo-me seriam ainda pequenos, e bastaria, mas, como não aparecesse nenhum e as queixas em aumento com peso grande na cabeça e febre pelo fervedouro, que eles faziam fugindo do remédio, comendo e furando para diante com mais força, passei ao outro remédio mais forte que fica referido, e com ele começaram a sair alguns já mui grandes e de cor amarela feridos do remédio, caindo na cama uns, outros tornando para dentro.
15. Nestes termos, vendo que este remédio obrava devagar e que os bichos eram grandes e mui fortes, as queixas iam crescendo, o membro era tão principal como é a cabeça, o escravo era de valor de quatrocentas oitavas de ouro e a sua vida corria perigo grande, me vi aflito na contingência do remédio, à vista do que, ainda que por uma parte considerava que o sarro de canudos de cachimbos era venenoso, pela outra considerava o perigo iminente, já com a cara e olhos mui inchados, os pulsos com intercadências, me resolvi a fazer o remédio com o sarro que ultimamente fica referido, o qual, aplicado a miúdo com as condições que ficam apontadas, foi o seu efeito maravilhoso, porque, ao mesmo compasso que o ia aplicando, iam morrendo, saindo e outros, ainda fortes, fugindo para fora, aplicando o remédio estando o doente de costas com barba bem levantada; passado um dia da aplicação deste remédio, se começou a queixar da boca e, estando eu bem longe de que seriam bichos, lha mandei abrir e lhe vi, no céu dela, um buraco com um fervedouro de bichos, tantos e tão juntos que me pôs em admiração, com um véu ou película por cima, que bem os deixava divisar; rompi a tal película e vi mais claramente aquela multidão, e tanta babugem, fiapos ou teagens tão asquerosas e com tão mau cheiro que, a todos os que viram, causou horror. Tratei com toda a brevidade de ir tirando neles com a pinça e tirei cinqüenta e tantos.
inter cadências nos pulsos, cara e olhos mui inchados
caso novo 16. Por uma e outra parte fui seringando com o dito remédio, e por uma e outra foram saindo mortos e vivos, tirando alguns e cortando com a ponta da tesoura os fiapos ou teagens do buraco, aplicando a miúdo o remédio, uns caindo do nariz na cama, outros caindo na boca; assim foram saindo obrigados do remédio, que, acabado um, fazia outro, com que se foram extinguindo, a cara desinchando, os pulsos se foram endireitando e o buraco da boca se foi alimpando e sarou, mas ficou com o buraco aberto e redondo no meio do céu da boca, por cuja causa ficou o preto com alguma rouquidão na voz; o mais essencial que procurava era pôr-se o enfermo em modo que o remédio corresse para onde estavam os bichos e estar assim por algum espaço de tempo para o remédio aproveitar.
a cara foi desinchando, mas ficou com o buraco no céu da boca
17. Nota. Este preto não sentiu os bichos na boca por ser preto robusto que coisas poucas lhe não davam abalo, e também porque esta casta de gente sempre é agreste e, ainda que alguns sejam bem ladinos e práticos, sempre em algumas coisas têm parte de brutos; teve febre com intercadências nos pulsos, teve a cara e os olhos muito inchados e teve alguns delírios. As dores, e o peso da cabeça foi grande e o entrarem os bichos foi estando ele dormindo de dia fora de casa; puseram-se-lhe moscas em alguma umidade que lhe saía do nariz, em pouco espaço de tempo ficaram animados bichos dos ovos que elas lançam pela boca, como dizia no princípio deste capítulo.
Capítulo XIII
Das chagas da boca, garganta e nariz
1. As chagas da boca e da garganta, ainda que pela maior parte se julguem por gálicas, nem sempre o são, por serem partes a que acodem vários defluxos, o que não tem as do nariz, que, pela maior parte, sempre são procedidas da má qualidade gálica. Sendo umas ou outras procedidas da dita má qualidade sem dúvida, a primeira coisa que se deve fazer é preparar, purgar e repurgar e dar os alexifármacos contra o gálico, que tudo se achará no tratado 6, cap. 3, porque assim estas, como todas as que procederem de causas gálicas, como tenham propriedade oculta, não saram sem esta se extirpar com os seus contrários, ou, afnda que sarem à força de remédios bons, tornam a arrebentar de novo; assim que tenho por melhor fazer-se logo a cura verdadeira por se não gastar tempo baldado.
propriedade ocult
2. Tanto que o doente tiver tomado a primeira purga, sendo as chagas gálicas, se poderão tocar com espírito de vitríolo em pincel molhado, pois nesta qualidade de chagas é excelentíssimo remédio, o que se fará uma vez cada dia, ou um e outro não, conforme o estado dela, porque, se estiver suja, se tocará todos os dias e, estando limpa, bastará de dois em dois, ou de três em três, e não sendo na boca, garganta ou nariz, se cobrirá a tal chaga com qualquer parche de ungüento de encourar, e sendo em alguma das ditas partes, quando seja necessário mais alguma coisa, será algum gargarejo dessecante para tomar na boca ou na mão para sorver pelos narizes, o que se fará muitas vezes cada dia, e de noite, o qual se poderá fazer desta maneira. Água de tanchagem, se for de cozimento melhor, quatro onças, espírito de vitríolo, tantas gotas quantas forem bastantes para ficar azedo picante, a que se chama água vitriolada; sendo as chagas mais sujas, será a água mais forte com mais espírito e, sendo mais limpas, será mais branda com menos espírito, a qual se guardará em vidro bem tapado, porque, como fica sendo espirituosa, bom será que se feche para obrar melhor.
espírito de vitríolo
água vitriotada
3. Porém, se, pelo contrário, não virmos indícios de que as chagas sejam gálicas e não obedecerem a algumas curas do espírito, ou não o houver, faremos o remédio seguinte: folhas de tanchagem uma mão cheia, cevada um pugilo, maçãs de cipreste duas oitavas, mirra uma oitava; coza-se tudo em água da fonte, que fique em libras duas e, na coadura, se dissolva bálsamo proprietatis três oitavas, misture-se. Este remédio é abstergente e dulcificante, com o qual se gargarejará a miúdo e, sendo necessário, se tocarão as chagas com o dito espírito interpoladamente.
gargarejo abstergente e dulcificante
Capítulo XIV
De chagas em qualquer parte do corpo
1. Sendo as chagas nas pernas dos pretos, que nestas Minas costumam pela maior parte andarem com elas escaneladas ou escalavradas pelos serviços em que atualmente andam, estas se remedeiam muitas vezes com um pano molhado em aguardente do Reino quente as vezes necessárias, ou sejam, chagas ou feridas frescas, e também os pós das cascas dos ovos, que ficam ditos na miscelânea; outras vezes, tendo já chagas, se remedeiam com um parche de emplasto de diapalmo baixo de ponto com óleo rosado ou manteiga crua, que fique brando, sendo continuado com fios por baixo, alimpando-as uma vez cada dia; outras se remedeiam com parche de ceroto magistral continuado do mesmo modo; outras se remedeiam com pós de caroba, sendo do campo melhor, estando a chaga limpa, que estes costumam fazer um casco seco e se não tira, antes se lhe lançam mais pelas bandas onde tiverem alguma umidade, alimpando-a; e, estando sujas, se misturam pós de pedra-lipes com os de caroba, mas sejam mui poucos para não escandalizarem, de modo que, se as chagas estiverem pouco sujas, se misturarão poucos pós de pedra-lipes, que serão, quanto mais sutis uns e outros, melhor; e se estiverem mais sujas, se misturarão mais pós lipes para comerem e alimparem, perdendo antes por menos que por mais; com estes pós, ou sejam simples ou compostos, tenho curado infinitas chagas, os quais fazem regenerar carne por baixo do casco, que fazem boa e firme, de modo que, caindo esta escara, ficam as chagas sãs, ou, quando alguma vez o não ficam, tornam-se-lhe a lançar outros pós e depois saram. Este modo de cura é muito conveniente, porque, assim, estão livres do ar que prejudica muito a elas e, por esta razão, mandam os modernos curar feridas e chagas de vinte em vinte e quatro horas, e eu sou do mesmo parecer pelo ter assim usado com bom sucesso, isto é, não havendo necessidade de curar mais cedo; e muitas feridas tenho curado que lhe não bulo senão passados dois dias, também com bom sucesso, pois, deste modo, estando livres do ar ambiente, a mesma natureza, como melhor mestra, costuma fazer melhores obras que a mesma arte.
pós de pedra-lipes com pós de caroba curam muitas chagas
os modernos
2. Estando alguma chaga com lábios calosos ou beiços duros em roda, é preciso abrandá-los, que, sem isso, não farão o que se consegue com o dito emplasto de diapalmo baixo de ponto ou com o de ceroto, aquentando-os quando se põem e ir tirando-os pouco e pouco que se não faça sangue até ficar sem coisa dura em roda; ou também se abrandam e curam com emplasto Saturno, que é, para chagas de toda a qualidade, excelentíssimo remédio; ou só para tirar os lábios calosos, se use do ungüento feito de cera preta ou amarela com azeite doce que fica dito na Miscelânea para os calos; com qualquer destes se podem tirar os lábios calosos e curar a chaga até o fim, exceto o de cera; as virtudes do Saturno se podem ver na miscelânea, e a sua receita, e se verá o quão maravilhosas são.
chagas com lábios calosos
ceras com azeite doce
chagas redondas ou em cima de juntas 3. As chagas que são redondas ou em cima de juntas sempre são mais trabalhosas de curar, e, tanto que não obedecerem aos primeiros remédios, é preciso tirar a causa antecedente que as fomenta, que são os humores, purgando e tornando a purgar, estando o doente de cama toda a cura, principalmente sendo nas pernas, porque, como são partes baixas e inferiores, acodem mais humores a elas e só poderão estas serem boas na terra aonde os doentes andarem com as pernas para cima e a cabeça para baixo; isto é exagerar o que são, para com elas se ter grande cuidado.
chagas nas pernas só serão boas na terra aonde se andar com elas para cima
4. Sendo a chaga virulenta, que é quando dela corre matéria delgada e mui quente, é necessário temperá-la com remédios frescos; e, sendo corrosiva, do mesmo modo é necessário temperá-la; e, sendo sórdida, são necessários remédios mais fortes para alimpar a corrosão ou sordícies; e, estando limpas e temperadas e estando o doente de cama com bom regimento, se tocarão com xarope rosado, ou mel de pau, ou espírito de vitríolo, escassamente, pondo-lhe fios secos e qualquer ungüento fresco e dessecante por cima, como é o ungüento de fezes de ouro, ou branco, ou de tutia ou, o que é melhor, o Saturno.
5. Quem quiser ter em sua casa o emplasto de diapalmo baixo de ponto o comprará nas boticas, pedindo-o do mesmo modo que é um bom remédio para todas as chagas que se querem encourar.
6. Eu sempre folguei de trazer os pós de caroba comigo para quando me pediam que visse alguma chaga, os quais trazia em três papéis, um com os pós simples, outro com pós compostos brandos, outro com pós compostos mais fortes, como assim: duas oitavas de pós de caroba bem finos e meio escrópulo de pós de pedra-lipes, também bem finos, e o outro mais forte assim: pós de caroba duas oitavas, pós de pedra-lipes um escrópulo ou até escrópulo e meio; e, quando encontrava chaga limpa, lançava-lhe os pós simples e pano por cima e, quando chaga mais suja, lançava-lhe os pós menos fortes; e, quando estava com algumas sordícies brancas ou alguma podridão, lançava-lhe os pós mais fortes, e muitas vezes me diziam ao depois que as chagas tinham sarado com os pós que eu lhe tinha lançado uma só vez. E, para que se saiba o que são estes pós, veja-se a observação seguinte, que quero referir para doutrina dos principiantes e de quem mora pelos matos:
Observação de uma chaga podre curada com os ditos pós
7. No ano de 1712, na Vila Real do Sabará, curei a um homem de mais de sessenta anos, chamado o coronel Francisco Barreto, morador nos Currais do rio de S. Francisco, onde tinha suas fazendas, de uma chaga podre em uma perna já deplorada e deixada de cirurgiões, cujo sucesso foi desta maneira:
8. Indo o reverendo padre Cipriano Gomes Claro ver este enfermo por seu amigo, ao entrar na casa sentiu mau cheiro e, perguntando a causa, lhe disse o dito coronel que era procedido da sua perna; viu o dito padre que assim era e o fez chamar-me, ainda que o doente o não queria fazer por estar desconfiado de cirurgiões, dizendo que eles o tinham posto naquele estado, sem o poderem curar; com efeito, à força de muitas instâncias do dito padre, fui vê-lo e lhe achei uma chaga mui grande, podre e tão fétida que, à vista dela, se não podia tolerar o mau cheiro que tinha, e, como estava mui desconfiado de sarar, o animei, dizendo-lhe que, se fizesse da sua parte, havia de ficar são.
9. Lavei-lhe a chaga muito bem lavada com aguardente do Reino bem quente e, enxuta, lha cobri toda com pós de caroba do campo, que é melhor que a de mato virgem, misturados com pós de pedra-lipes em igual parte, bem moídos, cobrindo-os com um pano seco e atadura, os quais fizeram uma escara mui dura e seca, na qual não buli senão depois que pela circunferência começou a lançar matéria boa, que foi ao quarto dia, e, depois que a escara se foi abalando e que, por vontade, quis sair, ficou a chaga limpa e encarnada como uma romã; lancei-lhe outros pós mais brandos com poucos de pedra-lipes e nas mais curas ainda com menos, de sorte que fui diminuindo os de pedra-lipes, até que fiquei curando com os de caroba somente; e, desta sorte, acabou de sarar esta chaga em discurso de dezenove dias, da qual cura me deu cem oitavas de ouro. E têm grande propriedade estes pós para chagas que procedam de causa gálica. Refiro o prêmio para se saber o quanto estimou a cura.
pós de caroba do campo com pós de pedra-lipes em igual parte ambos
10. É para advertir que os mais cirurgiões que lhe tinham assistido lhe tinham dado xaropes, purgas e apózemos contra gálico com água de salsa, com o que o tinham posto um esqueleto, pois não tinha mais que a pele em cima dos ossos e uma febre lenta; estes lhe tiraram a sustância com as muitas purgas e regimento apertado, e eu lha meti fazendo-lhe comer duas galinhas cada dia sem purga alguma, e sem mais remédio algum ficou livre do perigo em que estava de morrer, ou de se lhe cortar a perna, e fez jornada para o Sertão, onde era morador, e tinha de idade mais de sessenta anos.
11. Sendo que alguma chaga se intempere com alguma inflamação e dores grandes, é necessário que se lhe apliquem remédios frescos, anódinos e temperados, para que se tempere a mordacidade de humor que causa a inflamação e as dores, o que se consegue muitas vezes com panos molhados em todo o ovo bem batido com algumas gotas de aguardente do Reino, também batidas com o dito ovo, que este remédio é bom para a chaga e tira a inflamação por ser temperado entre frio e quente; e os frios ou frescos, se tirarem as dores, farão mal à chaga, e, se feito isto três ou quatro vezes no dia, passando-os pelo ar do fogo se não remediar, usa-se do ovo com leite de peito e com bom regimento, e estando o doente quieto; e, se a inflamação for grande que não obedeça, antes tenha grandes dores, se sangre o doente da parte contrária algumas vezes, e, sendo necessário, se purgará com um vomitório de tártaro, se houver enchimento de estômago, e, não o havendo, com maná, e, temperada a inflamação, se curará a chaga como fica dito. Se houver alguma chaga que faça muita matéria e não obedeça, será preciso purgar o tal enfermo, que, sendo pretos, se purgarão com resina de batata, que é muito própria para eles, e depois com jalapa, que é própria para humores gálicos de que abundam, que, sendo fomentadas destes humores, não saram sem se tirarem; e muitas vezes é preciso passar a remédios alexifármacos contra o tal gálico, como me tem sucedido algumas vezes.
conjectur
12. Com aguardente, sendo boa, tenho curado muitas chagas, e a parte onde se puser este soberano remédio, se pode ter confiança certa que não há de apodrecer, e se estiver alguma já podre, curando-se com este remédio, não tendo mistura de cachaça ou outras patifarias que lhe lançam os negociantes deste gênero, ou não estando fraca, e quando se aquentar for a fogo brando, ou em vidro dobrado metido em água quente para que não exale a sua força, por ser espirituosa, sendo bem quente e cobrindo bem a chaga com fios molhados, panos dobrados, será um remédio soberaníssimo; e sendo a chaga sórdida, lavar com ela e botar-lhe pós de Joannes também é boa cura, pondo-lhe por cima dos pós fios secos para fazerem escara, que, caída esta, será fácil de cicatrizar com qualquer ungüento ou pós dessecantes, tudo já referido.
13. Também para as chagas podres, sujas, sórdidas ou com gangrena é específico remédio o ungüento Egipcíaco, misturado com aguardente do Reino, fazendo linimento brando, em que se molharão fios ou panos miúdos, estando bem quente, e por cima pano dobrado, molhado em aguardente, lavando primeiro a chaga muito bem com a mesma bem quente. É este remédio tão singularíssimo como se pode ver na observação seguinte:
remédio específico para chagas podres ou com gangrena
Observação de uma mordedura venenosa, por cuja causa
estava uma mão quase perdida sem sentimento; boa doutrina
para os modernos e remédio inventado pelo autor, com que
sarou o doente 14. No ano de 1719 me chamou João Gonçalves Ribeiro, morador em Itacolomi, freguesia da Vila Real de Nossa Senhora do Carmo, aonde estava com um seu escravo, trazendo-o para a dita vila por eu estar nela para lho curar, o qual achei com uma mão e braço muito inchado, por causa de uma mordedura de cobra chamada jararaca, bicho venenosíssimo, a qual o tinha mordido nas costas de uma mão junto à junta do pulso, e me disse o dito senhor que havia nove dias e o tinha sangrado e curado com panos molhados em aguardente de cana ou, por outro nome, cachaça, que bem cachaça é para tudo, como mostrarei no décimo tratado e fica também demonstrado nas obstruções do fígado, conselho que lhe dera um curioso, que estes têm enterrado a muitos, como a este ia sucedendo; e, examinando o doente, me disse que a mão a sentia fria, pesada e esquecida, e, nesta informação que me deu, não foi sem diferença das palavras naturais, mostrando ter algum ameaço da podridão ao cérebro, se não era o medo ou receio da morte, por considerar a mão perdida e ser preto ladino e brioso; e, vendo-lhe a mão, lhe achei uma pequena ferida dos dentes da cobra e já esfacelada e podre em toda a circunferência, a mão e braço com frialdade ao tato; os dedos sem movimento e frios, e, mordicando com as unhas na pele, me disse que nada sentia; meti-lhe uma lanceta por todo o restante das costas da mão e dedos e nada sentiu; meti-lha pela parte de dentro e só na cova da palma da mão mostrou sentimento, com algum sangue descorado, e também o mostrou melhor na junta do pulso e no braço.
curiosos têm enterrado a muitos
medo ou receio a morte
dentes da cobra, a mão e dedos sem sentimento
15. Nestes termos, como aquela parte estava resfriada dos panos da cachaça, que é fria e constipatória, e desanimada com as sangrias que lhe deram (erro gravíssimo em mordeduras venenosas e em venenos) e tinha sentimento no interno, dispus o medicamento seguinte: Mandei a uma botica buscar duas onças de ungüento Egipcíaco e lhe misturei aguardente do Reino boa, com que fiz um linimento brando; tendo isto feito, dei umas sarjaduras pequenas e superficiais, não para exalar o calor ou espíritos, que nada disto havia aonde elas chegaram, mas sim para o remédio penetrar melhor; e, tendo isto assim disposto, mandei aquentar meio frasco de aguardente em um tacho quão quente se pudesse tolerar e, pondo-lhe a mão e todo o braço em cima do tacho, tendo este por baixo fogo para sustentar o calor, lhe fui dando banhos em todo o braço e mão por dilatado tempo e depois lhe cobri a chaga podre dos dentes da cobra e as sarjas com fios molhados no linimento do ungüento Egipcíaco bem quente e por cima panos molhados dobrados em aguardente bem quente, e em todo o braço até o ombro, para corroborar, aquentar e fortificar aquele membro e chamar espíritos a ele, cobrindo tudo com meio côvado de baeta nova, e, depois de atada, bem coberto o braço debaixo de roupa, ordenando-lhe que comesse bem e fossem mantimentos de boa sustância, e que, passadas duas horas, lhe tirasse a baeta e molhasse os panos por cima com aguardente bem quente e tornasse a cobrir com a mesma baeta e a atar; isto fiz um dia à noite, recomendando estivesse bem coberto, para que tudo ajudasse a regenerar espíritos que animassem aquela parte, pois tão falta estava deles.
erro gravíssimo em feridas venenosas
sarjas nao para exalar os espíritos
linimento e panos de aguardente
16. No outro dia de manhã fui vê-lo e louvei a Deus, vendo a parte com mais calor; curei na mesma forma e, de tarde, quando o ia curar, me disse o senhor dele que dois cirurgiões o tinham ido ver por terem notícia, e de sua curiosidade, os quais lhe disseram que o verdadeiro remédio era cortar-lhe o braço antes que morresse, ao que respondera que, sem eu o determinar, se não havia de fazer tal obra, porque me conhecia havia muitos anos e a mim me disse, se quisesse fazer junta, o fizesse, ou curasse como entendesse.
votos de cortar o braço 17. Tirei a baeta, descobri a cura e, como ao tirar os panos saiu calor, tive isto por bom anúncio; alimpei as umidades e achei a parte da mordedura toda esfacelada com bastante carne podre e nervos, e as sarjaduras com sentimento, e curei na mesma forma e com o mesmo remédio; ordenei que se remolhassem os panos do braço e mão com aguardente bem quente; ao outro dia achei mais calor e mais sentimento em toda a mão; cortei alguns nervos que de todo estavam perdidos no lugar da mordedura, pondo-lhe fios e panos molhados no dito linimento bem quente, e o mais como fica dito, curando deste mesmo modo, até que as sarjaduras fizeram boa matéria e a chaga, lugar da mordedura, foi alimpando em redondo, cortando com a tesoura os nervos que a natureza ia separando, ficando a cabeça do osso da noz da junta todo negro, que ao depois saiu, como logo direi.
nervos podres se cortarão
18. Mas, como o lugar da mordedura ficou contaminado do veneno e, gangrenado, foi alimpando muito devagar, ajudado da tesoura, e o osso, ou noz da junta que todos temos à vista, como a mordedura foi junto dele, apodreceu, de sorte que saiu inteiro do comprimento de uma mão-travessa; e para o fazer destacar, e os nervos mais brevemente, os toquei com espírito de vitríolo; depois de saído, foi a natureza regenerando poro em lugar do osso, mas não pude chegar à junta e ficou afastado dela uma polegada; encarnou esta chaga e cicatrizou com o mesmo remédio, diminuindo no Egipcíaco, até que de todo o tirei e acabei de aperfeiçoar a cura com aguardente por si, tocando a carne em redondo do poro com espírito dito acima, para ir tendo mão nela, enquanto o poro foi crescendo, pondo-lhe fios secos para uma e outra coisa dessecá-la e não cobrir o poro; e depois que vi não crescia mais, curei só com aguardente, e logo fechou.
19. Por fim, para confortar assim aquela junta como os dedos para o seu movimento, ordenei que se fomentasse o braço e toda a mão por um bom espaço de tempo com a dita aguardente bem quente, estando em cima de fogo junto da mão do enfermo, e se cobrisse com panos dobrados molhados bem quentes, embrulhando também os dedos; e depois, logo antes que lhe desse o ar, se cobrisse com baeta atada, e assim se metesse a mão e braço em um saco de duas baetas e se atasse acima do cotovelo, a modo de sarralho de bolsa, fazendo-lhe a fomentação uma vez cada dia e se remolhassem os panos duas, mas não a baeta, nem o saco, ou manga; assim se continuou até que o preto teve calor natural, moveu a junta do pulso e os dedos; só ficou com diferença que os três dedos da parte de fora não fechavam bem, que só em coisa que enchesse a mão fazia presa, abrindo-os admiravelmente e a junta do pulso também com alguma falta no movimento, mas pouca.
confortar a junta e os dedos para o seu movimento
sarralho de bolsa
20. Nota que, na minha opinião, a pior coisa que se fez a este doente foi sangrarem-no logo assim que foi mordido, porque, com as sangrias, segundo a circulação do sangue, se comunica o veneno a todo o corpo, o que é erro da maior grandeza comunicá-lo ao todo em lugar de o atrair pela mesma parte para fora, como claramente mostrarei no tratado dos venenos e mordeduras venenosas; e também foi erro porem-se-lhe na mordedura panos molhados em cachaça para resfriar e constipar os poros da parte, por ser fria, que, por isso, pelas sangrias e pelo veneno, se mortificou a parte mais depressa; mas é de advertir que pela boca lhe deram contravenenos da experiência, que no tratado referido farei manifestos, com que livraram o doente das ânsias que no princípio teve, como todos têm os mordidos de tal casta de bicho, pois há alguns mordidos dele que lançam sangue pelos ouvidos, olhos, nariz e boca, fazendo-se-lhe as unhas pretas; e alguns me afirmaram que por elas lançam sangue alguns mordidos desta casta de cobra, mas os que o lançam pelas ditas partes, com certeza são mordidos da cobra de cascavel.
sangrias em mordeduras venenosas não convêm e foram a pior coisa
Capítulo XV
Das chagas dos dedos dos pés e unhas
1. Estas chagas costumam ser bem enfadonhas em sua cura e, por ter visto e observado que são trabalhosas e os autores não fazerem delas expressa menção, quero fazer este capítulo separado.
2. Quando houver ferida fresca nestas partes, é necessário não se desprezar, porque, passando a chaga, são algumas bem custosas de remediar por serem partes exangues, faltas de calor e aonde mais facilmente se agravam, topando tudo nelas, e também pela duração de tempos, causando muita moléstia, impedindo calçar sapatos e a cada um tratar de seus ofícios e negócios, além da despesa, pelo que, havendo chaga, se tratará dela do modo seguinte:
3. Água de tanchagem e de pés de rosas, de cada uma duas onças, pós de alvaiade muito sutis quatro oitavas, pós de pedra-lipes (ainda que sejam grossos, logo se desfazem) um escrópulo, pós de caroba, se a houver, uma oitava, ou, em sua falta, de pós de mirra, tudo se misture; e, estando morno, se molharão fios e panos que se porão na chaga, mexendo primeiro os pós; estando o doente de cama, se curará duas vezes cada dia, levando tenção de dessecar, continuando com este remédio até consumir e dessecar a chaga de todo; e quem quiser ter remédio para mais tempo poderá pedir as quantidades dobradas.
4. Este remédio é adstringente e dessecante, virtudes muito necessárias nas chagas destas partes, por serem úmidas, e não se tratará de mundificar e encarnar como nas mais chagas e só de cicatrizar; se não houver alguma das águas ditas, se poderá usar de água das pias dos ferreiros, quanto mais velha melhor, em sua falta, porque é muito dessecante; e no caso que, continuado este remédio por tempos, não quiser a chaga, ou chagas, obedecer, nestes termos purgaremos o doente, primeiro com um vomitório e depois com resina de batata e jalapa, continuando os mesmos remédios, pois deste modo não haverá chaga nestas partes que nao obedeça.
nestas chagas não se tratará de mundificar e encarnar como nas mais
5. Deste mesmo modo tenho curado muitas chagas, assim modernas, como envelhecidas, e sempre com bom sucesso, tendo regimento e estando de cama; e, para melhor clareza, quero referir uma grande observação entre muitas que puder escrever, a qual é a seguinte:
Observação única de uma chaga em um dedo de um pé muito
antiga
6. Um sarralheiro, que me não lembra o nome, morador na Cidade da Bahia junto às portas de São Bento, achando-me na dita cidade em casa de meu irmão Alexandre Gomes de Sousa, aonde o tal doente ia conversar muitas vezes no ano de 1709, uma das quais me mostrou um pé que trazia por cima do sapato sem poder trabalhar no seu ofício, nem calçar sapato para ir à missa, aonde lhe vi um dedo com a cabeça toda comida até a mesma unha, dizendo tinha feito mil remédios havia muitos meses sem alcançar saúde, e que um cirurgião lhe dissera que só saindo ou deixando crescer as raízes da unha para se lhe arrancar, sararia, que, se eu me atrevesse a curá-lo, me pagaria bem, porque era homem pobre e não trabalhava no seu ofício havia meses; ao que respondi que aquela doença não era incurável, que, se este estivesse de cama e observasse os preceitos que lhe pusesse, nenhuma dúvida tinha em o pôr são; sem embargo que estava muito inchado e tinha dores tão excessivas que o não deixavam dormir de noite e andava havia alguns meses que nada lhe fazia por ter padecido e gasto muito sem alcançar melhora; e o dizerem-lhe que deixasse crescer a unha para lhe pegar com uma tenaz para lha arrancar, que tais dores as não podia sofrer em cima das que padecia.
7. Neste termos, entrei a curá-lo com o medicamento sobredito, estando de cama, comendo mais assado que cozido, e como era chaga antiga e era fomentada de causa antecedente, que são os humores pituitosos de todo o corpo, e caminhavam para aquela parte, e também humor colérico pela corrosão que a tal chaga tinha, me pareceu conveniente evacuá-los e suspendê-los com um vomitório e depois evacuar os mais humores, principalmente os gálicos, com purgas de jalapa interpoladas até três, tendo resguardo de mulher.
8. Deste modo fui curando a chaga revolvendo os pós, para que os fios levassem consigo alguns e fossem dessecando aquelas umidades e as purgas descarregando o corpo, com o que foi obedecendo admiravelmente, e, dentro de trinta dias, ficou a chaga de todo seca e sã; e, para segurar esta cura, ordenei que aqueles oito dias se não levantasse da cama e, passados eles, o fizesse só pela casa, mas não com o pé metido em sapato, e que não comesse senão carne seca, e que as primeiras vezes que saísse fora fizesse pequena jornada; com este modo de cura e com estes documentos, ficou inteiramente são, sem nunca mais lhe repetir tal chaga.
9. Não há dúvida que me fez admirar o não achar quem o curasse, como haver quem lhe aconselhava que deixasse crescer a unha para se lhe arrancar, não tendo inconveniente a unha para sarar a chaga, o que me pareceu despropósito.
10. Nota que a verdadeira tenção que se deve ter nestas chagas é dessecá-las com remédios adstringentes e dessecantes, para adstringir e dessecar as umidades daquelas partes, para o que podem servir todos os que forem dessecantes, como são pós de alvaiade, pós de mirra, de incenso, de almécega, de bolo-armênio, de pedra-ume crua, de pedra-lipes, de murta, de murtinhos, de alecrim e folhas de caroba do campo, que são excelentes, havendo-os; destes, todos se escolherão os que houverem conforme a parte e a necessidade e se misturarão nas águas sobreditas, ou rosada, ou de tanchagem, cozendo as suas folhas muito bem, ou de pés de rosas, ou da pia dos ferreiros, de sorte que, havendo inflamação e dores, é mais conveniente a rosada e de tanchagem, e não havendo algum destes acidentes, se usará de qualquer das outras, ou misturadas.
11. Também o tocar estas chagas com espírito de vitríolo e lançar-lhe em cima pós de caroba ou de mirra, ou de alecrim, ou cato, ou outros semelhantes, é muito bom, porque o espírito gasta a carne supérflua que costuma nascer nestas chagas e desseca as umidades admiravelmente, de que também tenho usado muitas vezes; e também para quando a chaga estiver suja, a alimpa muito bem; ou, passado um credo, se pode curar com o remédio das águas e pós que fica referido.
Capítulo XVI
Das escoriações do escroto, ou bolsa dos
testículos, ou membro viril
1. Estas escoriações ou esfoladuras da pele procedem, muitas vezes, por demasiado calor ou por causa de algum pruído, coçando-se, e, acudindo a estas partes algum humor soroso ou colérico, causa as tais chagas superficiais; tendo, pois, esta causa, facilmente se remedeiam com o seguinte remédio: água de tanchagem e rosada, de cada uma uma onça, alvaiade em pó sutilíssimo duas oitavas, misture-se; ou água de cozimento de folhas de tanchagem muito bem cozida duas onças, alvaiade em pó sutil duas oitavas, misture-se e, tépido, se molha um paninho de linho fino ou pincel, e se molham as escoriações a miúdo, ou se lhe põem pano molhado, renovando-o em se secando, sendo os pós revolvidos, estando o doente sem fazer exercício; e, se for no membro viril, depois de feita a cura, se levantará para cima com sua atadura e, havendo grande dor por serem estas partes muito sensitivas, se use de leite de peito com alvaiade e umas pingas de sumo de tanchagem com bom regimento e quietação.
2. Mas, se com estes remédios não obedecerem, se examinará se são gálicas e, se o forem, se enxaropará o doente purgando-o e dando-lhe os alexifármacos como se diz no tratado sexto, usando, ao mesmo tempo, de algum dos remédios acima, para temperar as dores, e sarará.
Capítulo XVII
Dos remédios contra cursos
1. É muito ordinário nestas Minas darem cursos aos pretos e também aos brancos; tanto que assim suceder, se não façam remédios alguns mais que banhos por baixo para que aquela umidade não faça alguma corrupção, e, sendo mulher, os tomará em ambas as vias até passarem três ou quatro dias; e haverá tais cursos que se é necessário passarem-se mais, como aqueles que forem críticos, que são os por onde se aliviam muitas enfermidades.
cursos crítico
2. Conheceremos, pois, que os cursos são críticos porque haverá alívio em outras queixas, se as houver, ou o doente se não enfraquece muito, pois, neste caso, se não devem impedir, salvo for muito devagar, de modo que de todo se não suprimam de repente, porque será de grande dano para o enfermo; e, deixando-os continuar, se vai a natureza aliviando de alguma grave enfermidade, e o que só se deve fazer serão ajudas de caldo-de-galinha com gema-de-ovo e açúcar, tomando todos os dias os ditos banhos.
3. Mas, se, pelo contrário, virmos que os cursos vão em aumento e que o doente se vai pondo em muita fraqueza tendo já tomado as ditas ajudas, duas ou três cada dia, ainda que fiquem dentro, nenhum dano fazem, antes confortam e fortalecem a quem está fraco, e são muito temperantes das dores que sempre há pela barriga, nos intestinos e na via, para o que e para moderar os cursos, são excelentíssimas, como muitas vezes tenho experimentado em muitos doentes e em mim mesmo; e também é supremo remédio em todas as enfermidades onde houver fraqueza. 4. Se virmos que com as tais ajudas não passam os cursos nem se moderam, comerá o doente arroz cozido em água sem sal, nem mais tempero algum, com sua galinha assada; ou também poderá comer o arroz sem tomar as ajudas, porque com ele tenho curado inumeráveis enfermos, e à noite é o mais próprio, servindo-lhe de ceia; ao almoço e jantar, galinha com alguns grãos dele.
5. Mas, se virmos que com nenhum dos remédios ditos os cursos obedecem, mas, antes, vão em aumento, pondo os doentes em excessiva fraqueza, e que algumas queixas crescem, ou de novo lhe sobrevêm outras, estes cursos são os que se chamam sintomáticos, aos quais se deve acudir logo com remédios engrossantes brandos, como é tomar ajudas de caldo-de-galinha com a terça parte de sumo de tanchagem, gema-de-ovo e açúcar e, pela boca, água ferrada com um seixo do rio feito em brasa, depois fria a toda a hora, e galinha cozida com arroz; os ovos cozidos em vinagre e feitos em quartos, molhados em outro vinagre e comidos, muitos doentes têm sarado com eles; outros muitos remédios pudera apontar, mas, porque os livros estão cheios deles, passo a tratar dos que tenho experimentado.
cursos sintomáticos
6. Se os cursos permanecerem e o humor que o doente lançar for de ruim qualidade, como sejam frialdades aos pedaços de mistura com outros e sejam em quantidade, os tais doentes os tenho curado com purgas de resina de batata, duas e três, sendo pretos, porque estes sempre abundam de humores e nunca é erro purgá-los, e, sendo branco, o purgava com purga de maná em cozimento comum, ajuntando-lhe duas onças de xarope Pérsico, ou com purga de ruibarbo; e saravam uns cursos com mais cursos, o que por algumas vezes assim me sucedeu.
7. Mas porque, muitas vezes, sucede haver cursos tão rebeldes que não obedecem a coisa alguma, neste caso se dará ao doente aquele grande arcanum já descoberto, que se cria nesta América em tanta abundância, chamado poalha ou, por outro nome, pacacoanha, nome do gentio, que são umas raízes miúdas que têm muitos nós; estas, feitas em pó e dadas em quantidade de duas oitavas até duas e meia, lançadas em água quente ou em caldo-de galinha, e bebido este remédio em forma de purga pela manhã, em jejum, com que os doentes costumam fazer alguns cursos, por serem purgativos, e passado o dia que se toma este medicamento, costumam estancarem-se os cursos de milagre, como adiante mostrarei; também algumas vezes fazem vômitos, mas poucas.
arcanum ja descoberto na América
8. Também se podem dar estes pós sem que o doente chegue ao extremo, porque, tanto que virmos que os cursos, câmaras ou diarréias passam de dez ou de quinze dias, se pode dar este remédio, que é seguríssimo; e, quando aconteça (o que pode suceder) que, tomada a primeira porção, as câmaras continuem, se poderá dar segunda com toda a confiança, ainda que os cursos sejam de sangue.
9. Também se dão estes pós lançando-os à noite de infusão em seis onças de água morna, e pela manhã escoa-se a tal água morna e, morna, se dá a beber ao doente em forma de purga, como fica dito; e, passado o dia em que se toma e o outro, e os cursos continuam, se dão os pós que ficaram em água morna desfeitos, e, quando não passem os cursos com a primeira bebida, com a segunda sem dúvida passarão.
10. Eu de ambos os modos tenho usado, assim lançados os pós em água quente e tomados com a mesma água, como dar primeiro a infusão e depois os pós, sendo necessários; e de ambos estes modos me sucedeu sempre admiravelmente.
11. Nota que a obra deste grande remédio se não tem averiguado ao certo como a faz; sabe-se, sim, que faz alguns cursos e que daí por diante param os que o doente tinha de antes. Neste remédio, necessariamente, lhe havemos de dar duas qualidades, uma purgativa, outra adstringente, ou engrossante, ou apertiva, que tudo vale o mesmo; a purgativa é a com que faz os cursos que acima digo; a adstringente ou apertiva é a com que adstringe e aperta os vasos ou partes donde sai o tal humor, e também, muito conforme a razão, se lhe pode dar a virtude de confortar, pois vemos que, no tempo dos cursos, estavam as oficinas naturais tão enfraquecidas e laxas, e, depois de parados, ficam com mais fortaleza e os doentes mais animosos, e eu não duvido tenha virtude oculta para a tal enfermidade, como outros têm.
Observação única de uma diarréia desesperada em casa do
doutor ouvidor-geral da Vila do Ouro Preto, que, estando o
doente feito um esqueleto, sarou com os ditos pós por modo de
milagre
12. No ano de 1724, morando eu no arraial do Padre Faria, casualmente passei pela porta do dito ouvidor Antônio Bercó del-Rio e provedor da Fazenda Real, e sendo chamado por um criado seu para levantar a espinhela a um escravo do tal ministro, ao qual um médico assistia, e com efeito a fui levantar no outro dia de manhã; estando lavando as mãos, depois da obra feita, chegou o tal médico e, perguntando de que modo tinha levantado a espinhela, lhe disse que com ventosa, o que aprovou, e conversando comigo me disse que aquela obra de levantar a espinhela a mandara fazer para ver se, por acaso, paravam os cursos daquele enfermo tão antigos e tão rebeldes que todos os remédios tinham desprezado, pois se tinha cansado bastantemente e lhe tinha aplicado variedade deles; ouvindo isto, lhe perguntei se lhe tinha já aplicado aquele grande remédio, chamado por língua da terra, pacacoanha, ou, por outro nome, poalha, ao que respondeu que ainda não, "pois, advirta vossa mercê, senhor doutor (lhe disse eu), que é um grande remédio, porque o tenho experimentado várias vezes em câmaras, ou sejam antigas ou modernas, e sempre com bom sucesso;” ao que respondeu que era bom e que o receitasse eu, ao que repugnei, dizendo que o doente era seu e que o receitasse, parecendo-lhe; mas, tornando a repetir o mesmo, lhe disse que o tal remédio tinha tão pouco que receitar que muitos boticários já sabiam que quantidade se dava e como se tomava; a tudo isto assistiu presente o dito criado do tal ouvidor. Com estas palavras e sem nenhum de nós o receitar, nos despedimos.
13. Passaram-se três dias sem que o tal médico tornasse a visitar o enfermo, e eu menos, por não ter obrigação para isso; no fim deles perguntou o dito ministro ao tal criado pelo enfermo, o qual lhe respondeu que, depois que estivera com o cirurgião, quando levantou a espinhela, não tornara a ver o doente, e, examinando o que se passara, perguntou se se lembrava do nome do tal remédio e, dizendo que sim, lho mandou buscar a uma botica, que o boticário deu e ensinou o como se havia de tomar o tal remédio, e, dando-lhe no mesmo dia, lhe pararam os cursos, fazendo alguns com ele. Começou a comer com boa vontade e em poucos dias se nutriu e tomou carnes.
14. É muito para advertir que este doente tinha os tais cursos havia dois meses, e, como eram contínuos de dia e de noite, estava tão desfeito e falto de carnes que não tinha mais que a pele em cima dos ossos, ou feito um esqueleto, e foi coisa de admiração ver que, em poucos dias, depois de tomado o remédio, tomou carnes, nutriu-se e começou a andar de pé, como quem não saíra de tal doença.
15. Daí a vinte dias, pouco mais ou menos, indo eu despachar uma petição pelo dito ministro, como ele não sabia se eu era cirurgião ou não aprovado, pois me não conhecia, lhe dava a minha carta de aprovação e, não a aceitando, me disse que já sabia era um grande cirurgião, pelo moço estar presente e lhe dizer que eu era aquele que já lhe tinha dito aplicara o remédio com que o camarento tinha sarado e livrado da morte, e que não era necessário ver a carta; daí a alguns dias, passando pela rua, me chamou o criado e me contou o que havia precedido, dizendo fora buscar o remédio que eu tinha nomeado por mandado de seu amo e o dera ao doente, e que estava são com tanta diferença como difere a água do vinho, e, chamando-o, o vi de pé e tão nutrido que, se me não dissera que era o mesmo, não era possível conhecê-lo.
16. Nota. Daqui se pode inferir a rara virtude deste remédio, e não só tenho visto este maravilhoso sucesso, senão que a outros muitos enfermos o tenho aplicado com a mesma felicidade, de sorte que só a um o dei segunda vez; e, como isto assim seja, tenho por escusado escrever mais observações; só digo que, em todas as frotas que vão do Brasil para Portugal, levam muito grande cópia deste remédio, por ter lá chegado a notícia da sua rara virtude, e os mesmos boticários o mandam ir, e os curiosos ou experimentados que desta América têm ido para o terem pronto nas ocasiões desta tão penosa enfermidade.
Observação em um homem da freguesia de São Bartolomeu,
vizinha à Vila do Ouro Preto, com uma hérnia aquosa, a maior
que vi em meus dias
17. No ano de 1725, morando eu no arraial do Padre Faria, me chamaram para ver um homem da freguesia de São Bartolomeu que estava no mesmo arraial e vinha a procurar-me; fui ver este homem e lhe achei uma hérnia na bolsa dos testículos tão grande que a trazia em saco atado ao pescoço, e me disse havia sete anos que a tinha, fazendo-lhe multidão de remédios, sangrando-se e purgando-se sem alívio algum, e que, estando já desconfiado e resoluto a trazer aquele tão grande peso enquanto fosse vivo, lhe disseram que eu tinha muita experiência das doenças das Minas, que talvez acharia na minha mão a saúde, e que, por isso, vinha para que o visse; assim que vi tão grande monstruosidade, fiz diligência para conhecer se seria hérnia carnosa ou aquosa, e, não descobrindo sinais certos, nem pondo-lhe candeia da outra banda para ver se fazia transparência de água, por ter muita grossidão de humor, nem de maneira alguma a pude conhecer, por ter a antigüidade que digo, ordenei que se chamasse outro cirurgião e um médico, e, consultando todos em que mais parecia aquosa, se lhe meteu a agulha canulada e logo começou a correr água quase vermelha, que encheu uma bacia de urinar; não quisemos tirar mais naquele dia; no outro tiramos outra bacia cheia e no outro meia, que foi a última que tinha; e para resolver parte do humor que tinha, lhe aplicamos panos de aguardente quente com sal, e sarou em no discurso de oito dias ficou são, não o podendo alcançar em sete anos.
sendo hérnia de sete anos.
O cirurgião e o camponês. (Gravura de Lucas van Leyden)
1 Etna - Do topônimo Etna. O autor usa a metáfora do vulcão ardente para falar da ferida dolorosa.
2 Teagens - Provavelmente de teia, tecido; também membrana celular reticular. O autor, provavelmente, utiliza analogia. O certo é que desconhecia a grafia correta da expressão, já que usa também tiagens para se referir à mesma coisa.
3 Pescolubrinos - Plantas com folhas fendidas, como o pé dos pombos. Provável equívoco do autor, que usa a grafia pescolombinos.