In memoriam: urbanismo, literatura e morte

André Luiz Rosa Ribeiro · Capítulo 10 de 27

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In memoriam: urbanismo, literatura e morte

Itabuna, a cidade dos grapiúnas

 

A narrativa memorialista deixou vários registros sobre a fundação do município itabunense e sobre a influência da imigração de sergipanos e sertanejos na sua constituição. Essas memórias nos dão conta não somente dos aspectos urbanos, mas também das práticas sociais em um ambiente voltado para a lavoura do cacau. A expansão agrícola e comercial do cacau foi impulsionada, em grande parte, por duas correntes migratórias. Uma primeira, externa, era formada por europeus e árabes. Entre esses últimos, o mais importante fluxo migratório foi de libaneses cristãos maronitas e de sírios.

A segunda corrente, interna, constituiu-se principalmente de nordestinos, em sua maioria sergipanos e baianos do norte do estado. A seca e o declínio das lavouras no Nordeste brasileiro, assim como a fama de riquezas trazida pelo cacau, motivaram a transferência de massas populacionais para a fronteira agrícola sul-baiana. Ilhéus era um dos portos mais procurados. O governo estadual procurou amenizar os efeitos da seca sobre os pequenos lavradores e trabalhadores rurais do norte baiano, concedendo passagens grátis e rações de carne e farinha para os que migrassem para as terras devolutas do sul do estado. Muitos migraram por conta própria ou financiados por parentes e conhecidos já estabelecidos com plantações, em sua maioria

sergipanos154.

Antes do fluxo migratório de sergipanos para a área do atual município de Itabuna, as matas próximas estavam sendo abertas por sertanejos baianos considerados hábeis machadeiros, e por ilheenses que se instalaram entre Ferradas e o atual Salobrinho. Diferentemente dos fazendeiros estabelecidos no Almada e nas margens do Cachoeira próximas ao litoral, os desbravadores daquela zona eram homens humildes, sem grandes recursos e não possuíam sobrenomes tradicionais. Os memorialistas guardam nomes como Damião do Beijú, Velho Marreco, Antônio Coco Buxo, D. Salú, Rufino Xodó e Joaquim Donga, homens e mulheres cujos descendentes se autodenominaram

grapiúnas155.

Os sertanejos e sergipanos eram identificados pelos trajes e pertences que traziam ao chegar a Tabocas. O sertanejo “sempre vinha trajado de algodão, calça de tecido conhecido como cruvelo, trazia chapéu de couro, calçava alpercatas e cacaios às costas”, tendo na cabeça um pequeno “caldeirão esmaltado, um facão de lado e um porrete na mão”. O tecido da roupa “era de cor marrom sempre encardido pela poeira das longas caminhadas que palmilhavam em grupos de dois a seis, o seu pouso era na rua dos Sertanejos (atual

Paulino Vieira) e na Jaqueira”156.

Os sergipanos apresentavam características um pouco semelhantes, trajando calça e camisa listradas e alguns vestiam paletós, chapéu de palha de ouricurí e um baú de flandres às costas. Viajavam em grupos de quatro a dez pessoas, às vezes maiores quando traziam a família inteira. O ponto de referência era o Banco da Vitória de onde buscavam a direção de Tabocas, onde geralmente repousavam em telheiros construídos para tal fim.

A migração de sergipanos para o sul da Bahia foi intensificada na administração do governador José Marcelino de Sousa, período em que uma crise se abateu no estado vizinho. Um acordo entre os governadores da Bahia e de Sergipe buscou solucionar o problema, facilitando a transferência de moradores da zona rural desse último estado para o sul da Bahia. O governador cedeu os vapores da Navegação Baiana para o transporte dos sergipanos para o porto de Ilhéus, e alguns coronéis, como Firmino Alves, deram suporte aos recém-chegados, cedendo alimento e ferramentas.

De acordo com a Tabela 9, sobre a origem dos sergipanos e sertanejos em Itabuna, o fluxo migratório era abastecido pelos moradores de regiões ligadas à lavoura do açúcar e à pecuária, todas sujeitas às alterações climáticas causadoras de longos períodos de estiagem. A maior parte da elite econômica itabunense provinha destas famílias de migrantes chegados desde o final do século XIX.

 

Tabela 9 – Procedência e nomes de famílias que migraram para o

município de Itabuna (1870-1920)

Local de Procedência Famílias Migrantes Local de Procedência Famílias Migrantes

Buquim (SE) Araújo – Franco Capela (SE) Andrade Chapada dos Índios /Vila Alves- Aquino – Oliveira – Santos Cristina (SE)

Estância (SE) Amado – Borges – Fontes Itabaianinha (SE) Falcão – Leal – Leão – Soares do

Nascimento – Souza Freire

Simão Dias (SE) Dantas – Modesto Tobias Barreto (SE) Menezes – Padilha – Sodré Abadia (BA) Fontes Lima Feira de Santana (BA) Brandão – Setenta Jandaíra (BA) Fontes de Faria Rio Real (BA) Garcia – Lins – Rosa – Mattos Tucano (BA) Cordeiro de Miranda Vila Nova da Rainha (BA) Pereira da Costa Fonte: ANDRADE, M. P. e ROCHA, L. B. De Tabocas a Itabuna: um estudo histórico-geográfico. Ilhéus: EDITUS, 2005; ANDRADE, 1968; SANTOS, F. B. dos. Memória de Chico Benício. Rio de Janeiro: Gráfica Portinho Cavalcanti Ltda., 1985.

 

A mão de obra utilizada na derrubada da mata e no plantio de cacau e de pequenas roças de mantimentos era basicamente a familiar. Entre os sertanejos e sergipanos havia o costume de trabalhos voluntários coletivos, entre vizinhos que se ajudavam mutuamente nos chamados batalhões, mutirões se formavam para desempenhar determinada atividade nas “buraras”. O proprietário era geralmente pego de surpresa quando, logo após o amanhecer, o grupo se apresentava para o serviço fazendo o maior barulho possível. O trabalho era retribuído com a distribuição de cachaça durante o trabalho e feijoada para o almoço.

A partir do litoral e seguindo o curso dos rios, o fluxo migratório foi incorporando o território. Simples pousos de tropas logo se transformavam em pequenos núcleos chamados de “arruados”. Estes “arruados” geralmente se situavam próximos a um curso d´água ou ao entroncamento de estradas ou trilhas e haviam surgido como ponto de troca de produtos e animais. O mais importante desses povoados era Tabocas, fundado por volta de 1870 nas proximidades da antiga aldeia de Ferradas, às margens da estrada do Sertão da Ressaca.

Conforme indicado anteriormente, Tabocas surgiu como um pouso de tropas que circulavam entre o porto de Ilhéus e a vila de Vitória da Conquista, trazendo mercadorias do sertão e negociando gado, especialmente burros e bois, fundamentais para o transporte das cargas de cacau até os portos fluviais como o do Banco da Vitória e o de Castelo Novo, posteriormente superados pela introdução da linha férrea. A tradição estabelece que os primeiros moradores de Tabocas foram sergipanos pertencentes às famílias Oliveira e Alves, oriundas da Chapada dos Índios, cujos descendentes se tornaram importantes figuras da economia e política itabunense, como os coronéis José Firmino Alves e Basílio de Oliveira. Aos poucos foi se estabelecendo um pequeno comércio que atraiu um fluxo cada vez maior de indivíduos, especialmente parentes e conhecidos que vinham atraídos

pelas notícias da fartura da safra cacaueira157.

Aos sertanejos e sergipanos juntaram-se sírio-libaneses atraídos pela riqueza gerada pelo cacau. As primeiras casas construídas formaram a chamada rua da Areia, atualmente dividida entre a rua Miguel Calmon, sua parte mais antiga, e a avenida Fernando Cordier ou Beira Rio. A rua iniciava no pontilhão 2 de Julho, que liga a Miguel Calmon à Barão do Rio Branco, antiga Taboquinhas, e nela estavam localizados os principais estabelecimentos do comércio de tecidos e secos e molhados, em um espaço cercado de pastos e pelo rio

Cachoeira158.

O intercâmbio de mercadorias entre Tabocas e o sudoeste baiano era feito pelos sertanejos, como eram conhecidos os comerciantes vindos de Conquista, Jequié, Poções e Caetité, que chegavam por Itapira e desciam até Ferradas, em uma viagem que durava mais de duas semanas. Os tropeiros traziam feijão de corda, linguiça, toucinho, carne de jabá, carneiro e porco, frutas do sertão e café. Em Tabocas, se hospedavam nas rancharias situadas nos fundos de estabelecimentos comerciais. Essas instalações estavam concentradas na atual rua Paulino Vieira, que dividia-se, naquela época, em três - as

ruas dos Sertanejos, dos Tropeiros e da Rancharia 159.

O comércio de gado trazido de Vitória da Conquista continuava para abastecer Ilhéus e seus distritos produtores de animais para o transporte de pessoas e mercadorias. Os comerciantes de gado de Tabocas levavam quase um mês na viagem de ida e volta a Conquista, quase sempre acompanhados de jagunços como garantia de vida na travessia de territórios ainda ocupados por grupos indígenas em Colônia, Catolé Grande e Cachimbo. O comércio de compra e venda de gado vacum em Tabocas foi iniciado nos primeiros anos da república com manadas trazidas por Joaquim Padre, Antoninho do Cachimbo e Joaquim da Felícia. O gado era negociado nas imediações das atuais avenida do Cinquentenário e praça Otaciana Pinto. O comércio de gado abriu a maior parte da área periférica de Itabuna, dividindo-a em pastos onde atualmente se localizam a praça Camacã,

rua Paulino Vieira, o Alto Maron e o Pontalzinho160.

O imaginário que cercava o sul da Bahia, especialmente Tabocas, era de uma típica região de fronteira, onde imperava a selvageria nas relações sociais, na disputa pelas melhores terras. A “civilização” ainda não havia alcançado o distante mundo do cacau perdido entre a floresta atlântica e o Sertão da Ressaca, de onde desciam gado, tropeiros e jagunços lendários na região, a exemplo dos irmãos Cauassú, protagonistas da chamada “guerra do Sequeiro”. A imagem dos povoados surgidos no contexto da expansão da lavoura está ligada à ideia de morte violenta.

As redes que passavam com os corpos a caminho dos cemitérios lembravam diariamente a presença dos jagunços, das febres e dos animais peçonhentos, todos representativos da hostilidade do ambiente. Poucos indivíduos encarnaram tão perfeitamente esse período como Henrique Alves dos Reis, protótipo do coronel de cacau, que impunha respeito aos amigos e desafetos pela valentia lendária. Sempre à frente de um grupo de jagunços armados, encarnava o poder conquistado através do sangue derramado. Apesar disso, o coronel descendente de escravos buscava transmitir socialmente uma imagem “civilizada”. Em Itabuna, sua residência, conhecida como a Casa Verde, apesar da simplicidade da construção em relação aos palacetes neoclássicos, era mobiliada com peças valiosas vindas do Rio de Janeiro e da Europa.

A Casa Verde (Figura 8) data do início do século XX. Sua construção representa o momento em que os principais fazendeiros de cacau se transferiram para as cidades, permanecendo pouco tempo nas sedes

das fazendas na zona rural (Figura 9). Ao assumir o comando político do partido adamista no distrito de Tabocas, em 1904, Henrique Alves decidiu ali se radicar para administrar com mais eficiência a máquina partidária local e os negócios de venda de cacau. Antes de estabelecer residência em Tabocas, o coronel ia duas vezes por mês ao arraial para visitar seus principais correligionários, como Basílio de Oliveira e Aureliano Ferreira. Segundo Gonçalves, “sempre chegava montado acompanhado, de quatro camaradas armados de repetição, sendo dois

na frente e dois atrás” 161. Em Tabocas visitava sempre os principais homens do comércio, especialmente a família Maron, com quem

mantinha relações pessoais162.

 

Figura 8 – Residência urbana do coronel Henrique Alves,

datada c. 1920

 

Fonte: ROCHA, 2003.

Figura 9 – Sede da Fazenda Sempre-Viva datada da década de

1910

 

Fonte: Foto do Autor.

 

Ao assumir a chefia do partido adamista de Tabocas, o coronel Henrique Alves iniciou o processo de expansão urbana do arraial, que teve como elemento central a construção da Praça Adami. No local, havia uma pequena lagoa que estrangulava o crescimento da área comercial do arraial, cada vez mais importante para a economia municipal. O coronel Henrique Alves pretendia transformar a área na maior praça pública do interior baiano. Por influência de Alves, a intendência de Ilhéus contratou o engenheiro Miguel Ribeiro para os trabalhos de aterro da lagoa e construção da praça, inaugurada em

1905 pelo próprio coronel Domingos Adami163.

A emancipação de Itabuna e a elevação à categoria de cidade, em 1910, representou a culminância do esforço da elite política e econômica local em desconstruir a imagem negativa associada ao antigo arraial de Tabocas e construir uma nova identidade de uma cidade moderna e progressista, e principal centro comercial da região. O projeto modernizante foi responsável pela substituição dos nomes tradicionais das ruas mais antigas, como a da Areia (Marechal Bittencourt e Miguel Calmon), do Bury (Henrique Alves e J. J. Seabra), do Cemitério (Benjamin Constant e Ruffo Galvão), Taboquinhas (Barão do Rio Branco), dos Anjos (Rui Barbosa), da Lasca (Boa Vista).

Os nomes dados pelos moradores do arraial eram inadequados à nova cidade, desejosa de reconhecimento. Como códigos socialmente construídos, as novas denominações procuravam homenagear personalidades e datas históricas ligadas ao desenvolvimento nacional e local. Procurava-se apagar da memória urbana o simples aglomerado de casas separadas pela lama das ruas estreitas e irregulares, onde seres humanos dividiam o espaço com animais de todas as espécies.

Os primeiros intendentes da cidade de Itabuna dedicaram-se ao apagamento dos primitivos aspectos urbanos do antigo arraial de Tabocas. O engenheiro Olinto Leone (1908-1911) alinhou e calçou a rua da Areia (atual Miguel Calmon), a praça Santo Antônio e a rua Moura Teixeira, delimitando a área “nobre” da cidade e seu centro mais antigo. O coronel Antônio Brandão (1911-1915) iniciou o processo de alinhamento das ruas da Lama e do Buri, que hoje constituem a avenida do Cinquentenário, com a demolição de dezenas de casebres no centro da cidade, onde residia a população pobre e funcionavam pequenas casas comerciais e a zona do meretrício.

Para os intendentes e primeiros prefeitos, a cidade sofria de uma deficiência funcional, com uma rede urbana com perfil antiquado, tida como antiestética e inculta. O modo de construção das casas, com paredes de adobe ou pau a pique, era considerado primitivo. Se em Ilhéus a introdução dos novos modelos urbanos visou a apagar os vestígios da paisagem barroca precedente, em Itabuna tais modelos foram fundantes, em relação à Ilhéus ou mesmo Canavieiras, devido ao contexto recente e precário das suas construções.

Observa-se, nesse processo, o fenômeno típico da modernidade, de substituir os registros do passado no sentido de construir um ambiente de renovação constante, ligado ao espírito da sociedade capitalista. Esse fenômeno teve um dos seus momentos mais expressivos na Belle Époque, quando foram materializadas as conquistas tecnológicas e econômicas do Ocidente, incorporadas a uma dinâmica internacional. As cidades foram eleitas como lócus privilegiado do processo civilizatório e, para tanto, foram transformadas de modo a representar a

imagem de cidades modernas e progressistas 164.

No sul da Bahia, as melhorias na infraestrutura urbana atraíram um número cada vez maior de proprietários rurais, com a transferência da moradia das sedes de fazenda de arquitetura rural para os palacetes neoclássicos na cidade. Os melhoramentos incluíam rede de água e esgoto, iluminação elétrica, praças, teatros, clubes sociais e hotéis. As principais cidades regionais passaram a servir como exemplo das virtudes da modernidade. Por sua localização estratégica para o comércio regional, Itabuna contou com muitas construções, financiadas com recursos municipais e da iniciativa privada de alguns grandes fazendeiros. Os pressupostos ideológicos norteadores do processo civilizatório foram apropriados pela classe dominante local.

Um dos exemplares arquitetônicos característicos da mentalidade dos grandes fazendeiros de cacau, o palacete construído pelo coronel Firmino Alves para residência de uma das suas filhas, conhecido como o Castelinho, teve sua planta baseada no estilo inglês do século XVII. O palacete, recentemente demolido, localizava-se na praça XV de Novembro ou Largo da Antiga Matriz, atualmente Olinto Leone. Sua construção foi iniciada em 1919 e veio a ser concluída em 1924, quando do aniversário de 72 anos do coronel Alves.

A divisão interna do palacete reflete o modo de vida das famílias burguesas do período. No andar superior foram construídos cinco quartos, mobiliados com camas e armários de madeiras nobres. No andar térreo havia quatro salões em piso de madeira baraúna e ipê amarelo, um dos quais era a sala de jantar, com cristaleiras onde eram guardadas a louça inglesa e taças de cristal, dois banheiros sociais, uma cozinha com um fogão a lenha de grandes dimensões, despensa, área para os cavalos e um quintal pequeno. As janelas do palacete eram de madeira com vitrais franceses. Todos os ambientes da residência foram finamente decorados. Os tetos das salas receberam afrescos do artista alagoano Olavo Baptista. Os lustres e as luminárias foram importados da Europa e os móveis eram todos esculpidos e

torneados165.

O local onde o imóvel estava localizado, a praça Olinto Leone, era o centro administrativo e cultural de Itabuna. Nesse espaço localizavam-se também o Paço Municipal, a igreja matriz, os Correios e Telégrafos, o campo de futebol, a agência bancária, o coreto da filarmônica Lira Popular, o fórum e a biblioteca municipal. Ali ocorriam os principais eventos da vida social da jovem cidade, “era o solo preferido de uma

geração…, tendo o rio Cachoeira como testemunha”166. Para Macedo, a praça Olinto Leone não teve tempo de se tornar antiga. As várias reformas transformaram o espaço de maior visibilidade cívica da cidade

recente, modernizando-o de tempos em tempos ( 167 Figura 10 ).

 

Figura 10 – Praça Olinto Leone com a antiga matriz de São

José (centro) e o palacete do coronel Firmino Alves, conhecido

como o “castelinho” – década de 1920, [Autor desconhecido]

 

Fonte: DANTAS, 1986.

 

O crescimento econômico era traduzido na melhoria dos seus edifícios. Um dos mais simbólicos, a matriz de São José, foi concluída em 1913, por iniciativa do coronel Firmino Alves, em uma área doada próxima à sua residência, no que seria o largo da Matriz e praça Olinto Leone. De tal maneira, a matriz estaria situada em um espaço privilegiado em termos de visibilidade social. Em 1937 a matriz passou por uma ampla reforma na sua fachada e no interior. Quatro anos depois veio a desabar. As antigas paredes de taipa, castigadas pelas chuvas intensas não suportaram o peso do novo telhado. Anos depois o local foi definitivamente abandonado e a matriz transferida para o local onde hoje está erguida a catedral de São José, na praça Laura Conceição.

A principal artéria urbana de Itabuna, a Avenida Cinquentenário, era, no início do século XX, um aglomerado de casas dividido em dois trechos. O mais antigo era conhecido como rua do Buri, que ia da atual igreja de Santo Antônio até a esquina da praça Adami. Em 1908 passou a se chamar Henrique Alves, e, depois J. J. Seabra, onde estavam localizadas pensões, depósitos de cacau, armazéns e casas de prostituição. O segundo trecho partia da praça Adami em direção ao Jardim do Ó e era conhecido como rua da Lama, por conta dos constantes alagamentos causados por dois riachos que a atravessavam.

Em 1912, o intendente Antônio Brandão promoveu a urbanização do logradouro retirando os barracos de madeira e aterrando os brejos existentes. Com os melhoramentos o logradouro passou a ser chamado de Rua Sete de Setembro. Nos anos 1950, a prefeitura elaborou um projeto de alargamento da rua Seabra e a sua ligação com a rua Sete de Setembro, com o objetivo de transformá-las em uma ampla avenida para abrigar os principais estabelecimentos comerciais da cidade. Por sua localização geográfica, Itabuna havia se tornado o principal centro de comércio da região cacaueira e necessitava ampliar a infraestrutura urbana. Foram executados recuos e demolições para conectar a nova avenida com a Juracy Magalhães, principal via de

acesso para a cidade de Ilhéus168.

Essas intervenções buscaram promover o apagamento da antiga Tabocas com a construção da moderna Itabuna. O ideário progressista, que substitui as formas “arcaicas” das cidades com seu rastro de violência e morte, passou a ser o elemento dominante das práticas sociais e representações vigentes no sul da Bahia Essa questão permeia os enredos ficcionais de Jorge Amado e Adonias Filho, importantes elementos discursivos no processo de construção da

identidade regional e, por esta razão, tema do próximo capítulo.