In memoriam: urbanismo, literatura e morte
Capítulo IV – Memória e “civilização”: o exemplo dos mortos ilustres
Capítulo IV – Memória e
“civilização”: o exemplo dos
mortos ilustres
E deste “fingimento”, simultaneamente simulador da vida e dissimulador da prova ontológica da morte (o cadáver), se foi impondo um novo além: a memória dos indivíduos e dos grupos.
Fernando Catroga
A morte “pedagógica” e a
“civilização” do cacau
Os primeiros capítulos deste trabalho evidenciam como a região sul-baiana, no final do século XIX, estava transformada pelo crescimento da população e pelo desenvolvimento da lavoura do cacau, que acabaram por redesenhar os seus aspectos sociais e culturais. O investimento dos principais municípios do sul da Bahia, em uma imagem de região “civilizada”, nos moldes dos grandes centros culturais do país e do exterior, era cada vez mais evidente.
Os modelos sociais europeus e fluminense eram seguidos como exemplo de civilidade. O entusiasmo pela adoção de modelos culturais como as cidades de Paris e Rio de Janeiro se fazia presente tanto na gestão pública quanto na iniciativa privada desde a última década do século XIX. A década de 1920, porém, é uma baliza que demarca, em termos de intensidade, as transformações impostas pelo desejo de “civilizar” o sul baiano.
Nesse contexto, a importância social do culto aos mortos motivou os setores políticos a fazerem um forte investimento no campo tanatológico e nos suportes de recordação. A organização de funerais-espetáculo deve ser compreendida em relação a um empenho dos grupos a que pertenceu o morto, partido, família e/ou associação, em ostentar publicamente o exemplo do seu devotamento individual ao coletivo. Em face da possibilidade de outra eternidade, a memória apresentou-se como um atenuante para a dissolução dos vestígios da existência individual. Podemos afirmar que a perspectiva da morte física ser superada pela sobrevivência social na lembrança dos vivos motivou a prática de consagração dos mortos, enquadrando-a em uma finalidade de cunho pedagógico e laico.
Elementos culturais europeus do período serviram de paradigma para a construção do moderno conceito de cidadania no Ocidente. No período compreendido entre 1870 e 1914, estabelecido por Hobsbawn como a fase de consolidação do estado-nação no Ocidente, surgem os modelos de homens públicos apoiados em um discurso voltado para o sentido de coletividade e o da coisa
pública 274.
Evidentemente, esses modelos foram reelaborados de acordo com as especificidades locais, percebidas nas comemorações fúnebres, onde as camadas abastadas da população investiam maciçamente no aprimoramento do seu próprio ethos, expresso no poder material trazido pelo cacau e na adoção do ideário modernizante, o que incluía um controle maior do poder público sobre o comportamento social.
As ideias higienistas europeias, principalmente francesas, foram responsáveis pelas reformas funerárias que estavam no bojo das mudanças que pretendiam trazer a civilização à recente nação brasileira. Entre as principais medidas estava a transferência dos enterramentos no interior dos núcleos urbanos para os cemitérios públicos extramuros. Além do ambiente mais higiênico, o cemitério oitocentista deveria ter uma função de lugar de memória. Nele, os túmulos monumentais celebrariam os cidadãos exemplares e rememorariam suas virtudes perante a sociedade na qual estava inserido.
Leis municipais passaram a proibir determinados costumes, como o transporte e a inumação de cadáveres de adultos e de crianças em caixões abertos, providência determinada “a bem da saúde pública e de acordo com os preceitos da higiene”, como registra o Jornal de Ilhéus, órgão oficial do município. No entanto, ainda em fins da década de 1910, o costume permanecia quanto aos enterros de crianças, os “anjos”. Mesmo nos períodos de surtos epidêmicos, a lei era comumente ignorada pela população, “consentindo que fiquem destampados os caixões contendo os restos mortais de crianças, filhos ou não, que são transportados assim para o cemitério, percorrendo quase sempre diversas ruas da cidade.”
O contato com os mortos “vítimas de moléstias contagiosas,” ou com aqueles cujo corpo se encontrava em estado de “decomposição adiantada” era considerado anti-higiênico pelos poderes públicos e feria os preceitos legais. A gazeta alertava que, mesmo no período agudo da influenza, “temos visto se sepultarem crianças em caixões sem tampa”, e estimulava os fiscais do município a punirem
severamente os infratores da lei 275.
O poder público desejava modificar o antigo costume de expor cadáveres em espaços abertos aos olhos da população. A visão de pessoas mortas deveria estar restrita ao espaço privado. Tornavam-se inaceitáveis as cenas de caixões descobertos em procissão pelas ruas de uma cidade “civilizada”. O Jornal aludiu ao desconforto causado pela visão de um cadáver nas vias públicas, pois “ninguém gosta de olhar para pessoas mortas, há nisso um natural e um grande constrangimento, senão repugnância invencível”.
Ainda segundo o periódico, o desejo de estar junto ao cadáver “só é inato aos parentes, às pessoas que têm laços de afinidade ou mesmo de amizade íntima.” A sociedade, em geral, “respeita a memória dos que passam; presta as devidas homenagens aos cadáveres, acompanhando-os à sua última morada, ouvindo missas em repouso de suas almas, descobrindo-se à sua passagem” mas, em regra, “foge de ver defuntos, evita o seu contato e censura o costume de transportarem para o cemitério os cadáveres dos anjos em caixões abertos.” Era preciso acabar de uma vez com esse “mau
costume” tão prejudicial “à saúde e à civilização.” 276
Os surtos constantes de febres e outras doenças contagiosas tiveram influência decisiva no desaparecimento do costume de expor os mortos. Em 1918, o contágio da gripe espanhola, que “vai penetrando em todos os lares, quer do pobre, quer do rico”, deu ensejo ao endurecimento da fiscalização sanitária e ao aumento da influência da “classe médica da terra” que, “sacrificando suas comodidades, não se tem poupado à luta.” Para dimensionar os efeitos da tragédia, a imprensa afirmava que, nas cidades e no interior, “não há uma única habitação que já não tenha recebido a angustiosa visita.” Em muitas casas “o terrível morbus tem prostrado todos os habitantes, não deixando um só de pé para acudir os derrubados, que são socorridos pela amizade de algum vizinho ou
pela caridade do próximo” 277. A dramaticidade da notícia parece tentar convencer os leitores da necessidade imediata de superação de determinados costumes nocivos à saúde pública
Desde agosto de 1918, os casos de influenza haviam se alastrado pela Europa. No mês seguinte, um navio, o Demerara, aportou no Rio de Janeiro depois de passar por Lisboa, Recife e Salvador, espalhando rapidamente a doença. O número de enfermos e mortos cresceu vertiginosamente em poucos dias e em várias cidades,
primeiro as portuárias, em seguida no país inteiro278. No sul da Bahia o flagelo teve uma maior intensidade entre os meses de outubro e dezembro e “em breve se aplacaria o mal que tendo entrado em todas as casas, já deveria estar farto de tanta derrubada
que fez” 279.
Assim como nos centros urbanos, a doença grassou no interior dos municípios, atingindo centenas de pessoas em Ilhéus e Itabuna. A maior incidência de casos fatais ocorreu nos bairros populares carentes de infraestrutura sanitária. A morte ou a doença da maior parte dos empregados paralisou as atividades do comércio. O embarque e desembarque dos vapores e lanchas “fazia-se com vagar e com demora.” Os pescadores deixaram de sair para o mar para pescar, desaparecendo o peixe do mercado. A carne de boi também escasseou. Por preço algum “se encontra [vam] galinhas para os doentes” e o leite “só tem chegado para os abastados e arranjados.” Inúmeras fazendas ficaram sem trabalhadores suficientes para colher o cacau, acarretando grandes prejuízos à
lavoura. 280
Os jornais da época consideram, além da falta de infraestrutura sanitária, a violência como causa principal de um grande número de óbitos no sul da Bahia. Como vimos anteriormente, a morte “selvagem” caracterizou o período das lutas armadas motivadas pela posse de terras e disputas eleitorais das duas primeiras décadas do século XX, época das invasões de centenas de jagunços “vindos de Conquista, de Condeúba, de Areia, de Jequié e
de Belmonte”281. Eram comuns as chacinas, como a da vila de Olivença ou a da fazenda pertencente a Manoel Andrade, onde em poucos dias tombaram vinte e duas pessoas, entre as quais o “inditoso” Berilo Deiró, fazendeiro e político, cujo assassinato “revestiu-se de um requinte de perversidade nunca vista na história
dos grandes crimes de Ilhéus” 282.
A morte de Deiró foi marcada pelo seu “martírio”, explorado politicamente pelos correligionários. Os seus olhos foram arrancados a faca, e “depois de cego e banhado em sangue, o fizeram andar debaixo do facão, caindo aqui e acolá, entre vaias e gargalhadas dos bandidos que sem grande demora o castraram e o mataram a faca.” A imprensa temia a repercussão que esse tipo de morte teria para a imagem da região cacaueira, questionando: “quando os parentes souberem do modo porque foste assassinado, o que dirão?” Que a zona do cacau era “uma terra inabitável, um covil de assassinos e bandidos”, o que muito concorria “para a má fama de que goza esse torrão.” Contudo, a morte de Deiró não teria sido em vão. Por ter sido trucidado defendendo os ideais do partido, foi transformado em uma espécie de mártir do grupo político. “Berilo
não morreu, imortalizou-se” 283.
A morte “selvagem” produziu outros “mártires”, cujos assassinatos eram relembrados, mesmo décadas depois, como forma de rejeição aos antigos costumes e de manutenção da lembrança de um acontecimento particularmente significativo para o grupo familiar e político. Um artigo de A Luta, do ano de 1906, lembrava que “há vinte e um anos a negradada (sic) política, dirigida por vultos sinistros” mandou assassinar, na ponte do Itariri, “por truculentos facínoras,” o capitão João Carlos Hohlenwerger, um dos ilheenses “mais distintos e queridos, pela lealdade intransigente de seu caráter, de sua bravura, do prestígio crescente de sua popularidade e esforço acurado do seu labor.”
De acordo com a matéria, os assassinos “se puseram na espreita, aguardando-o nos disfarces das tocaias.” Com o capitão pereceram “seus bravos companheiros”; apenas um jovem escravizado foi poupado. Segundo o artigo do A Luta, o “morticínio hediondo ainda perdura na alma ilheense”, era a “expressão da dor” e por sobre os túmulos das vítimas “avivamos, na fronte nefanda do bárbaro
mandante, o estigma do crime que jamais se apagará” 284.
Assim como o de Berilo Deiró, o assassinato do capitão Hohlenwerger tem conotações simbólicas no que se refere aos requintes de crueldade do ato criminoso: Hohlenwerger teve a barba e os olhos arrancados e as mãos decepadas. A barba serviria aos executores como prova, do assassinato, para o mandante. Os corpos foram crivados por dezenas de descargas antes do esquartejamento dos seus membros. De forma semelhante foram assassinados sete indivíduos na chacina de Olivença, em 1905. Essa forma de desfiguração trazia uma mensagem de ódio explicitada nas características dos ferimentos. Crimes como estes eram explorados como retratos de uma fase passada que deveria ser superada pela introdução de novos costumes. Caberia aos administradores e autoridades públicas, assim como aos órgãos de imprensa, difundirem novos valores ao conjunto da sociedade, com base no exemplo dos seus mais “ilustres” e “civilizados” cidadãos.
As características marcantes da personalidade “ilustre” são alinhavadas em momento e locais estratégicos. Funerais, discursos à beira do túmulo e os necrológios são algumas das formas de preservar viva a memória individual e de transformar o “homem-pessoa”, com todos os seus erros e deslizes éticos, no “homem-instituição”, indivíduo sem máculas e exemplo idealizado de valores morais e cívicos. As homenagens póstumas reelaboravam a imagem pública do indivíduo no “templo da memória”, evidenciando a importância que a modernidade ocidental tem dado à imortalidade
dos indivíduos285.
Os textos fúnebres destacavam as virtudes e silenciavam os defeitos do morto, em um processo depurativo que o distinguia. Apagavam-se todas as imperfeições pessoais e realçavam-se todas as qualidades do caráter, prática essa que utiliza o “esquecimento” para poder construir a exemplaridade do que se deve recordar. Este trabalho idealizador associava-se às contribuições que o morto havia dado para a sociedade em que estava integrado. O conteúdo do texto relembrava e purificava, de modo a fixar na personalidade a imagem a ser incorporada para a posteridade.
A nova dimensão das práticas fúnebres levou a que os funerais terminassem se constituindo uma verdadeira consagração cívica. Aos tradicionais aspectos religiosos misturaram-se intenções laicas de ostentação das virtudes do homenageado. Nesse sentido, o necrológio e o anúncio fúnebre são essencialmente didáticos, pois exortavam os vivos a dar continuidade ao exemplo dos mortos e enfatizavam o dever das gerações futuras de conservar e perpetuar
a memória das figuras-referência 286.
Os anúncios possuem um caráter mais informativo dos dados relativos às datas e horários dos enterros e missas, e de agradecimentos pela participação nesses rituais. Eram pagos pela família ou pela associação a que o morto pertencia. Conforme Fuchs, a base da coesão familiar ou grupal é abalada sempre que a morte de um membro importante acontece. O anúncio público da morte é uma das formas de externar socialmente o sofrimento vivenciado pelo grupo social com a perda de um dos seus membros. Os anúncios fúnebres contribuem para que a propagação da morte do “ente querido” permita que ocorram manifestações privadas e públicas de solidariedade, que terminam por preservar laços de
coesão287.
Os necrológios, por sua vez, compreendem a construção da imagem ideal de sociedade, mediante a celebração da memória dos principais cidadãos, assegurando-lhes a imortalidade entre os vivos. Se, por um lado, enunciam um complexo jogo de composição e recomposição das elites, por outro permitem avaliar como a imprensa, na primeira metade do século passado, atuou como canal de construção de uma história específica para a região produtora de cacau da Bahia. Os necrológios dos mortos “ilustres” eram localizados na primeira página dos jornais, enquanto os anúncios fúnebres localizavam-se na “seção social”, ao lado dos nascimentos, casamentos, batizados e aniversários das famílias mais influentes.
Os textos procuravam difundir uma visão de mundo e nortear a vida individual mediante a construção de discursos integradores e coletivos, desta forma conferindo à morte uma nova significação social. Era o momento no qual, silenciados os defeitos, glorificavam-se as virtudes individuais de caráter laico. Os necrológios eram bastante seletivos quanto ao tamanho e quantidade de adjetivações positivas. Poucos alcançavam o privilégio da publicação de textos edificantes sobre si. A vitória sobre a morte física dependia, conforme foi observado, do peso social das obras e do status adquirido em vida. Enquanto a lealdade aos preceitos religiosos assegurava a salvação eterna da alma, o lugar social determinava quem legava à posteridade a lembrança da sua existência.
Para alguns poucos indivíduos, que representavam determinados setores sociais, a morte não era a finitude ou o aniquilamento, mas a consagração. Invariavelmente, os necrológios culminavam em autênticas defesas dos fundamentos sociais a que o morto havia se devotado. Os textos também consolidavam uma versão oficial sobre a trajetória pública e privada do morto ilustre, para melhor integrar a sua imagem à da sociedade a que pertenceu.
Os necrológios não pretendiam ser meros elogios. Eles buscavam exaltar as qualidades, do morto, que deviam servir como exemplo de conduta social. Isso faz com que os discursos fúnebres tornem-se textos parciais em essência, pois se propunham a contribuir para a transição dos “grandes homens” do terreno da vida para o da memória, formando um “panteão” de referência regional.
É possível avaliar a posição socioeconômica da família do morto considerando-se o custo da disposição espacial da informação nas páginas dos jornais. A morte entre as famílias mais importantes era anunciada em mais de uma edição. A centimetragem dos anúncios e necrológios conferia status ao grupo social do morto e atestava a sua influência. Ao mesmo tempo, o caráter impessoal e formular da sua apresentação quando se tratava de mortos comuns constitui evidência das formas de separar e distinguir. Estes últimos são anúncios nos quais mudam apenas os nomes dos familiares, das instituições e do morto, publicados nos espaços reservados às
comunicações gratuitas 288.
Os anúncios das mortes de fazendeiros, comerciantes e políticos representam maioria absoluta. As tabelas abaixo evidenciam esse fenômeno. Foram contabilizados os anúncios fúnebres da imprensa de Ilhéus e de Itabuna, em dois períodos distintos, situados entre as décadas de 1900 e 1910, e as décadas de 1920 e 1930, para
observação de possíveis variações. A Tabela 10 refere-se aos falecimentos de indivíduos do sexo masculino, em que categorias listadas como ocupação abrangem diversas profissões. A de operário aglutina os chamados “artistas”: carpinas, pedreiros e alfaiates. Os advogados, médicos e engenheiros estão concentrados na categoria profissional liberal. Os comerciários, tabeliães e empregados públicos estão aglutinados na categoria denominada funcionário. Entre os “jagunços”, foram classificados os assassinos profissionais que atuavam na região e cuja referência aparece somente na primeira datação.
Tabela 10 – Ocupação dos mortos do sexo masculino indicada em
anúncios fúnebres por décadas. Municípios de Ilhéus e Itabuna
(1900-1910 / 1920-1930)
Ocupação 1900-1910 1920-1930 Total %
Fazendeiro 28 (27,2%) 68 (45,9%) 96 38,2
Comerciante 17 (16,5%) 26 (17,6%) 43 17,1
Político 12 (11,7%) 19 (12,8%) 31 12,4
Operário 06 (5,8%) 15 (10,1%) 21 8,4
Funcionário 08 (7,8%) 10 (6,8%) 18 7,2
“Jagunço” 16 (15,5%) - 16 6,4
Profissional Liberal 03 (2,9%) 06 (6,8%) 09 3,6
Trabalhador Rural 09 (8,7%) - 09 3,6
Militar 04 (3,9%) 01 (0,7%) 05 2,0
Marítimos - 03 (2,0%) 03 1,1
Total 103 148 251 100
Fonte: Centro de Documentação e Memória Regional da Universidade estadual de Santa Cruz – CEDOC-UESC.
A Tabela 11 refere-se aos dados relativos aos falecimentos de pessoas do sexo feminino. As categorias “fazendeira” e “negociante” englobam mulheres que realmente exerciam estas atividades, assim como as que são unicamente referidas como parentes -- esposas, filhas, irmãs ou mães de fazendeiros e negociantes. A ocupação denominada “doméstica” engloba as mulheres cujo ofício relacionava-se com atividades “do lar”. Os dados sobre o sexo masculino perfazem um total de 251 referências à atividade exercida, enquanto os dados sobre o sexo feminino somam 85, um número bem inferior ao dos anúncios de morte de homens.
Os dados referentes ao município de Ilhéus apresentam um número muito maior de anúncios fúnebres coletados devido à quantidade superior de jornais e edições. Os dados relativos ao município de Itabuna somente foram coletados a partir de 1917, quando foi inaugurado o jornal A Época, cujo acervo é o mais antigo disponível para a pesquisa, assim como apresentaram grandes claros na sua periodização. Portanto, os dados de ambos os municípios serão apresentados em bloco com o objetivo de estabelecermos uma ideia aproximada de conjunto.
Tabela 11 – Ocupação dos mortos do sexo feminino em anúncios
fúnebres por décadas. Municípios de Ilhéus e Itabuna (1900-1910 /
1920-1930)
Ocupação 1900-1910 1920-1930 Total %
Fazendeira 20 (60,6%) 38 (73,2%) 58 68,2
Comerciante 08 (24,2%) 05 (9,6%) 13 15,4
“Doméstica” 05 (15,2%) 05 (9,6%) 10 11,8
Professora - 02 (3,8%) 02 2,3
Indigente - 02 (3,8%) 02 2,3
Total 33 52 85 100
Fonte: Centro de Documentação e Memória Regional da Universidade Estadual de Santa Cruz – CEDOC-UESC.
Os textos da imprensa regional eram espaços privilegiados para o enaltecimento de grupos familiares. Em seus necrológios, os “decanos” dessas famílias eram apresentados como representantes legítimos da sociedade regional e como elo da afetividade e consanguinidade entre a parentela. O elogio fúnebre articulava a história pessoal aos valores mais prezados pela sociedade. O objetivo maior era, como já foi dito, traçar os contornos do homem público, criar um indivíduo incomum que sintetizasse a coletividade. Os parâmetros que deveriam guiar o cidadão -- o espírito cívico, a valorização do trabalho e a visão progressista de sociedade, -- eram articulados em torno de figuras exemplares. Contraditoriamente, estes indivíduos diferenciados, a par de evocarem o espírito coletivo, expressam individualmente o poder oligárquico na sociedade brasileira.