In memoriam: urbanismo, literatura e morte

André Luiz Rosa Ribeiro · Capítulo 16 de 27

Páginas do PDF

In memoriam: urbanismo, literatura e morte

O declínio do sagrado e a ascensão do individualismo

O declínio do sagrado e a ascensão

 

do individualismo

 

Como já foi observado, no período compreendido entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX ocorreu uma mudança significativa no comportamento diante da morte. O imaginário cristão continuava a fornecer padrões de expectativas e atitudes na organização dos funerais, porém a sociedade contemporânea estava voltada para as questões imanentes e tinha uma visão mais secularizada dos rituais fúnebres. As transformações culturais da época provocaram mudanças no campo tanatológico. Gradativamente, os investimentos materiais dos funerais ganharam outra dimensão social. Os funerais e jazigos foram transformados em suntuosos suportes para a memória individual e familiar. Em poucas décadas, os cemitérios públicos dos principais núcleos urbanos e os cortejos fúnebres passaram a figurar entre os mais importantes espaços simbólicos do poder

político e econômico 289.

O processo de “civilização” da região impunha novos hábitos, que terminaram por estabelecer distinções entre a elite do cacau e o restante da população, em sua maioria miserável e iletrada. Efetivamente, perpetuou-se com nova roupagem o uso da morte no reforço das relações de poder existentes no contexto social. A dimensão ritualística dos funerais se manifestava de forma teatralizada em diversos espaços cênicos privados e públicos: o velório, nas residências particulares; o cortejo, nas artérias urbanas; a inumação, nos cemitérios públicos; as missas e encomendações, nas igrejas; e o luto, nas vestes e no comportamento.

Essa “encenação” implicava não somente a presença de oficiantes e adeptos, mas de um conjunto de comportamentos organizado para produzir maior eficácia no reforço a consensos e sociabilidades. Nos rituais fúnebres, os laços de solidariedade eram renovados e reforçados em volta da presença do morto. Parentes mais próximos e afastados se reencontravam e se reconheciam como oriundos de um mesmo descendente; amigos e correligionários presentes indicavam os círculos sociais e políticos a que pertencia o morto, assim como reforçavam a rede de interesses que os unia.

O processo pelo qual o culto dos mortos passou a centrar-se na consagração do indivíduo e na gestão afetiva e familiar da memória, mediante a ostentação dos funerais e as visitas ao cemitério, dando um caráter mais laico aos funerais, pode ser percebido no declínio do prestígio das procissões religiosas organizadas pelas antigas irmandades locais, tradicionais gestoras dos rituais fúnebres. Em meados da década de 1920, o Correio de Ilhéus registrou o seu pesar pelo fato de que “de alguns anos a essa parte” as festas religiosas, “outrora imponentes e que refletiam os sentimentos de fé católica da população,” estavam, dia a dia, “declinando o seu brilho passado”. A tradicional procissão do Senhor Bom Jesus dos Santos Passos, apesar de contar com a presença do próprio bispo diocesano, passou a ter uma “concorrência de fiéis muito inferior à dos anos anteriores”, notandose que a “elite da cidade”, com raras

exceções, não compareceu 290.

Ao que parece, a população urbana ia abandonando velhos costumes, sendo a “gente do interior” a que mais concorria à procissão. O jornal observa que, em tempos passados, eram “raríssimas” as pessoas que não compareciam à missa e à procissão dos Passos: “A Matriz, mesmo há trinta ou quarenta anos passados, no tempo em que a população regulava a quadragésima parte da de hoje, ficava completamente cheia, sendo preciso chegar cedo para adquirir um lugar no vasto templo.” Segundo o Correio, o declínio da festa e da sua patrocinadora eram particularmente visíveis no momento em que foi escrita a matéria: “Ontem a catedral tinha grandes claros”.

A capela-mor e a parte da nave onde se achava colocada a imagem veneranda do Senhor Bom Jesus dos Passos estavam vazias. A irmandade do Senhor dos Passos, “pode-se dizer que não compareceu, porque alguns dos que estavam enfiados em capas roxas, não são irmãos”. Sequer compareceu o provedor, cargo que “já há alguns anos não existe nessa irmandade, que está precisando de uma reforma geral, até nas capas que estão se tornando

imprestáveis”291.

Tradicionalmente os fazendeiros mais abastados financiavam as festas e procissões das irmandades, além de ofertarem custosos adornos às imagens mais veneradas. Ao anunciar o falecimento do doutor Fausto Fortunato Galo, antigo proprietário “de fazenda de cacaueiros, engenho de açúcar e escravatura”, o Correio recordou que, ainda no início da década de 1920, existiam as “ricas túnicas bordadas a ouro, oferecidas pelo ilustre extinto há mais de 30 anos ao Senhor dos Passos e a Nossa Senhora que apareciam sempre

na procissão de encontro nesta cidade”292.

A imprensa local publicava textos nostálgicos em relação ao prestígio social dessas entidades filantrópicas: “Quem não se lembrará da pompa, da imponência e do brilho com que eram comemorados os dias de Passos?” Os irmãos, “da outrora respeitada irmandade”, teriam sido substituídos por pessoas “sem representação, senão desclassificadas, que envergam agora a opa há anos passados disputada pelas pessoas mais representativas da terra.” Era muito forte o interesse que despertava “em todos os círculos sociais desde a cidade até o rincão mais distante deste município a notícia da vinda de um padre notável para pregar o sermão do encontro”. Os templos se enchiam literalmente, “a cidade em peso, acrescida da população do interior, acompanhava a comovente procissão.”

Igualmente festejado era o dia consagrado ao “glorioso” São Sebastião, “sob os auspícios de uma irmandade ereta há muitos anos nesta cidade”, cujo esplendor também desapareceu. Das festas dedicadas ao santo restavam apenas “os vestígios de uma capela em ruínas e de ano em ano, por amor à tradição, um tríduo e uma missa, quase pela madrugada.” Muitos desses rituais eram mantidos pelas mulheres, o setor da população mais assiduamente praticante dos rituais religiosos.

Um grupo de senhoras pertencente à elite econômica procurava “manter o fogo sagrado das grandes festas de Nossa Senhora da

Vitória, que esta é a única que o povo de Ilhéus acarinha”293. Essa atitude visava a prolongar e reproduzir o ideário religioso e cultural vigente, cabendo às mulheres o papel principal na conservação das tradições religiosas deixadas pelas gerações que as antecederam. Assim, os vivos não anulariam a herança cultural que identifica e filia.

As novas atitudes diante da morte, por seu turno, buscavam consolidar e perpetuar a memória individual e familiar como base para a construção da trajetória histórica “oficial” da sociedade cacaueira. Ao falecer, em 1929, o coronel Pedro Gaston Lavigne foi retratado como uma “respeitável figura de uma das mais tradicionais famílias de Ilhéus e destacado elemento da sociedade local”. Proprietário de terras e grande cacauicultor no interior do município, onde sempre residiu, o coronel Lavigne foi em vida um “cidadão benquisto e acatado” e, como “a figura mais velha da sua família”, mereceu a consideração e a estima de todos, “já pelo seu conceito pessoal, já porque representava para os seus inúmeros parentes todas as tradições da geração a que pertencera”. A notícia do falecimento do “velho conterrâneo” causou “doloroso pesar”, verificado pelo número “extraordinário de visitantes” à câmara

ardente e de pessoas que acompanharam o féretro ao cemitério294.

O major Félix Mariano Cardoso e Silva, “abastado fazendeiro e capitalista do mais elevado conceito,” foi um homem “prestimoso e muito acatado nas suas relações de amizade”, contando com verdadeira dedicação por parte dos seus “muitos compadres e amigos”, que compunham a base das suas relações sociais. O seu necrológio enfatizou a questão do poder social pelo exercício contínuo de diversos cargos de nomeação do governo e de eleição popular, desde o regime monárquico.

Para a gazeta que anunciou a sua morte, Cardoso e Silva “era um dos ilheenses de mais importância e distinção”. Havia, no texto fúnebre, a demonstração do interesse em elaborar uma imagem positiva do falecido. Anunciou-se que grande número de “dedicados amigos” do falecido, incluindo o redator-chefe da Gazeta de Ilhéus e outros próceres da sociedade local, acompanharam o cortejo até o cemitério, “apesar da chuva”, pois a quantidade de “pessoas gradas” presentes a um enterro era uma medida social do prestígio político

e/ou econômico do morto295.

Os membros das famílias mais “ilustres” que morriam “fora” tinham seus corpos trasladados para o município de origem. Os seus funerais deveriam ser realizados na terra em que haviam ajudado a fundar ou a desenvolver. Dona Antônia Alves Pinheiro, cuja família era considerada pioneira do município de Itabuna, veio a falecer na residência de seu genro, em Ilhéus. A “respeitosa senhora” era irmã do coronel Firmino Alves, grande fazendeiro, tido como um dos pioneiros do plantio de cacau no antigo distrito de Tabocas.

Os “desolados parentes e amigos” da matriarca mandaram uma comissão para transportar o cadáver, “em trem especial”, para sepultá-lo em solo itabunense. O enterro realizou-se “com grande acompanhamento” e contou, como cabia a pessoa da sua “qualidade”, com a presença da filarmônica Lyra dos Artistas, que

executou diversas marchas fúnebres296. O enterro de Antônia Alves mobilizou grande parte da população itabunense, que homenageou não somente um indivíduo, mas o grupo familiar detentor do prestígio de fundador.

Ser enterrado entre os seus reforçava os laços identitários existentes entre os membros das grandes famílias, cujos funerais deveriam constituir expressões de prestígio e de afinidades consanguíneas e políticas. Falecido na capital do estado, o coronel Gabino Kruschewsky teve o seu corpo embalsamado e transportado para Ilhéus, pois era vontade dos seus filhos e parentes que fosse sepultado no cemitério local. Logo que o vapor atracou, acorreram inúmeras pessoas que acompanharam o corpo até a igreja de São Jorge, “estando aí suas dignas filhas, noras e outras parentes, que tiveram crises nervosas ao avistar o caixão que envolvia o corpo.”

Ao gênero feminino cabia o papel de exprimir mais enfaticamente a dor da perda. Depois da encomendação solene do corpo na catedral, este foi conduzido ao cemitério com grande acompanhamento de “representantes de todas as classes sociais”. Inúmeras capelas enviadas deixavam implícitas, nas mensagens que as acompanhavam, um tipo de relação de clientelismo, como a

gratidão por favores prestados aos parentes e amigos 297.

Os anúncios fúnebres também abriam espaço para os membros mais destacados das colônias de estrangeiros radicados nos municípios da região. O enterro de Jean Griessen, jovem natural de Berna, que trabalhava no escritório comercial de Hugo Kaufmann & Cia., realizou-se com o acompanhamento de seus conterrâneos e de pessoas ligadas ao comércio de cacau. À beira do túmulo, Robert Durand, identificado como gerente da firma exportadora Wildeberger & Comp., “orou em voz alta, ouvido religiosamente por todos os presentes, especialmente a colônia suíça, presente ao

ato”298.

A morte de Jorge Zaidan, negociante e proprietário em Água Preta e “o mais antigo membro da colônia síria daquela povoação”, foi alvo de manifestações desusadas. Esteve presente “ao tocante ato” a banda musical 1º- de Maio, que executou várias peças fúnebres “em homenagem à memória do seu antigo sócio”. O comércio de Água Preta, de que era “figura de destaque,” cerrou as portas à hora do cortejo fúnebre. Essa era uma das formas mais eloquentes de a população local expressar o reconhecimento da

importância do morto e do seu grupo social 299.

As minorias sociais e políticas pouco são referidas nas fontes hemerográficas. Quanto mais frágil o grupo, menores são os espaços ocupados nos necrológios e anúncios fúnebres. As notícias sobre a morte de trabalhadores, pequenos proprietários e indigentes, que evidentemente constituíam uma quantidade maior de mortos, ocupavam uma centimetragem bem reduzida em relação aos setores mais abastados. Também o falecimento de pessoas pertencentes a grupos rivais ao órgão de imprensa eram notificados em poucas linhas e, muitas vezes, sem a individualização da

notícia 300.

Mesmo aos principais líderes rivais era dado um espaço bastante inferior ao que cabia aos correligionários muito menos influentes. Quase sempre inexistem referências positivas à vida do adversário, como no caso do coronel Ernesto de Sá Bittencourt e Câmara, opositor do grupo político ao qual pertencia a Gazeta de Ilhéus, onde se declarou apenas local de nascimento e filiação e evidenciou-se a sua condição de ex-proprietário de “grande número de escravos”, aspecto pouco valorizado em uma sociedade que se

pretendia democrática, pela origem humilde dos seus pioneiros301.