In memoriam: urbanismo, literatura e morte
As descontinuidades da memória grapiúna
adversários”247.
A imprensa destaca a selvageria dos grupos de jagunços que, em dezenas, invadiam os povoados na zona do conflito. Em uma das investidas ao Sequeiro, “assassinaram mais de vinte pessoas, inclusive alguns meninos que uns jogavam nos ares e outros aparavam na ponta do facão”. Um dos principais elementos envolvidos na luta, Berilo Deiró, “antes de ser morto à faca, sofreu a tortura e o suplício de terem-lhe arrancado os olhos, obrigando-o a andar depois dentro de casa, caindo e se levantando, debaixo das
vaias dos bandidos” 248.
Em Terras do Sem Fim, os episódios sangrentos sucedem-se ininterruptamente até o desfecho do romance, com a invasão da fazenda dos Badaró e o incêndio da propriedade pelos jagunços de Horácio. A invasão da fazenda de Juca Badaró, a Pedra Redonda, marca, tanto na ficção quanto na história documentada nos jornais, o fim do conflito, com o declínio dos Badaró. A invasão retrata as incorporações de terra, em uma época em que a lei estava subordinada aos interesses privados. Os jagunços que atravessam o portal da sede da fazenda dos Badaró simbolizam o ato de posse de um novo senhor, Horácio da Silveira, sobre as matas do Sequeiro. Amado a descreve como “a última grande luta da conquista da terra, a mais feroz de todas, também”. A conquista da mata, por sua vez, sinaliza a finalização de um ciclo: “depois a gente daquela zona, de Palestina a Ilhéus, mesmo a gente de Itapira, ia
contar o tempo em função dessa luta”249.
Relatos da saga foram incorporados por violeiros, que cantavam nas feiras quadrinhas dos acontecimentos do Sequeiro: “Fazia pena, dava dó, / tanta gente que morria. / Cabra de Horácio caía / E caía
dos Badaró”250 (Terras, p. 211).
As descontinuidades da memória
grapiúna
É importante observar que não há apenas elementos comuns entre as narrativas literária e jornalística, com respeito ao sul baiano. Na obra de Jorge Amado, em consonância com sua formação política, destaca-se uma preocupação acentuada com as questões sociais. Nos jornais, estes aspectos aparecem de formas mais sutis ou impregnados de preconceitos em relação às camadas urbanas populares.
Ao descrever o tecido urbano de Ilhéus, em Gabriela, cravo e canela, Amado traça um retrato das desigualdades sociais vigentes na sociedade cacaueira que pouco apareciam nas páginas dos jornais locais. Um exemplo é o trecho do romance em que, ao correr a cidade em busca de uma cozinheira para o bar Vesúvio, o árabe Nacib é obrigado a percorrer os bairros proletários situados fora da zona central burguesa. A única forma de alcançar as “casinholas miseráveis” no alto do morro da Conquista eram as íngremes subidas, as ladeiras enlameadas e escorregadias que ligavam-na à área comercial da cidade. O largo onde reuniam-se os retirantes nordestinos recém-chegados era significativamente chamado pelos moradores de “mercado dos escravos”. Situado por detrás da estação ferroviária, ali os coronéis “iam contratar trabalhadores e
jagunços e as famílias procuravam empregadas” 251.
O autor posiciona-se ao compor uma imagem positiva do comunismo e da sua atuação política junto às massas de trabalhadores urbanos, evidenciando uma clara diferença entre este discurso e o jornalístico, representante dos ideais das chamadas “classes conservadoras”. Em São Jorge dos Ilhéus, o contexto político pós-revolução de 1930 é abordado mediante o choque ideológico existente entre os burgueses integralistas e os proletários comunistas. Os primeiros habitam a área nobre de Ilhéus, enquanto os segundos moram nas zonas mais carentes da cidade. À medida que a cidade se deslocava para os morros, desaparecia o modelo ideal de urbanismo que os jornais tanto se esforçavam em propagar como o cartão postal do sul da Bahia:
Do morro desciam regatos de água suja, que empapavam as ladeiras que levavam ao cimo do morro da Conquista, onde se equilibravam as casas dos operários. Regatos idênticos desciam do morro do Unhão, morro de lavadeiras e marítimos. E, mais ao longe, como um bairro escondido na
sua miséria, ficava a Ilha das Cobras, onde os mais pobres moravam, aqueles que não podiam pagar sequer uma cabana. Mocambos de palha, as paredes de barro batido, lugar aonde os ilheenses nunca levavam os
turistas que saltavam dos aviões252.
Amado chama o local de “bairro vermelho”, por abrigar um grande número de operários da fábrica de chocolate, do porto e das estradas de ferro e de rodagem ligados ao partido comunista local. Segundo o autor, eram células fortes, mas que não tinham ainda conseguido conquistar os trabalhadores rurais, “cuja ignorância era tamanha que muitos deles não sabiam sequer se estavam na
república ou na monarquia”253. Tamanha ignorância era fruto do predomínio econômico e político que os coronéis ainda exerciam sobre as massas rurais.
Os artigos dos jornais, por sua vez, recorrentemente apresentavam uma imagem desfavorável das áreas periféricas da cidade e do perfil social dos seus habitantes. Notícia publicada no Correio de Ilhéus, em 1929, ilustra esta atitude:
A rua Conselheiro Carneiro da Rocha, antigamente Ilha das Cobras, está considerada hoje, como importante via pública, tal o desenvolvimento que atingiu ultimamente. Reduto que era da escória social transformou-se em rua movimentada, cheia de habitações confortáveis, onde moram famílias em grande número. Não conseguiu, porém, libertar-se do meretrício barato. Dentre as horizontais (sic) que ainda infestam a Ilha das Cobras, forma na primeira linha a conhecida Garriça. A sua baiúca é o centro da cafagestagem da zona, o que constitui um sério perigo para a moral
pública (grifos nossos)254.
A narrativa literária de uma saga regional, de uma civilização única na sua multiplicidade, inserida em um ambiente geográfico inóspito que foi paulatinamente incorporando novos valores expressos nas palavras insistentemente referidas: modernidade e progresso. A consolidação cultural e econômica da “civilização do cacau” introduziu novos padrões de comportamento e novas referências. A maior facilidade de comunicação com grandes centros urbanos como Salvador e Rio de Janeiro levou à importação de modelos urbanísticos e de valores culturais, trazendo à região uma nova perspectiva no campo identitário. Com o progresso, o sul da Bahia incorporou novos tipos sociais que passaram a compor a paisagem humana regional, principalmente representados, na obra de Amado, pela figura do exportador de cacau, como Carlos Zude, de São Jorge dos Ilhéus, e Raimundo Falcão, o Mundinho de Gabriela, cravo e canela.
Os detentores do capital estrangeiro são simbolicamente interpretados, pelo olhar jorgeamadiano, como os principais responsáveis pela transição do poder econômico e político, tradicionalmente em mãos dos coronéis do cacau. Uma nova estirpe econômica, progressista, urbana, de tez branca e de muitos sobrenomes estrangeiros substituía, no mando local, o tradicional coronel, retratado em Sinhô Badaró, de longas barbas e ar senhorial, lídimo representante dos antigos donos da terra. Os exportadores, por sua vez, representam a nova estrutura econômica que regerá os destinos da região e formam um universo social em separado dos grapiúnas.
Há, em São Jorge dos Ilhéus, todo um esforço em identificar os exportadores como usurpadores dos direitos adquiridos pelos conquistadores das matas. Os representantes dos interesses do capitalismo internacional são constantemente colocados como adventícios que ainda não haviam conquistado o direito à cidadania grapiúna, o que somente viria com a posse das roças de cacau, rito de passagem do mando regional aos novos “donos da terra”.
Ao fechar-se o violento ciclo da conquista, iniciou-se o processo civilizatório de superação das práticas tradicionais. À medida que se cristalizam as mudanças no tecido social, ocorre o avanço da civilização sobre a morte. As doenças são sobrepujadas pela ciência médica e por novos remédios, os assassinatos, pela norma jurídica. Os costumes modernos implicam a rejeição da morte violenta, do hábito de andar armado e da presença dos jagunços nas cidades. Nas ruas alargadas passam a trafegar os automóveis que, aos poucos, vão substituindo os animais de carga; inauguram-se clubes e boites para o lazer da elite econômica.
Os valores antigos convivem cada vez mais com o ideário civilizatório e normatizador, em combate direto às leis não escritas do tempo heroico. As transformações impostas pela riqueza da região implicam uma recusa do passado de mortes sangrentas, onde o costume e o prestígio atropelavam as normas impostas pela justiça. Já em Cacau há um relato das mudanças ocorridas no fim da conquista, três décadas depois:
Eu vim faz trinta anos. Já fui trabalhador de mais de cinquenta fazendeiros […] Já fui fazendeiro também. Um dia Mané Frajelo me tomou o que eu tinha. Hoje sou trabalhador de novo. Quando eu vim p´ra aqui, Itabuna era Tabocas, Pirangi nem existia. Se matava gente que nem macaco. Foi um tar de matar gente […] Isso foi nos bons tempos. Hoje não se mata mais
ninguém. Tá tudo ‘carmo’ 255.
O declínio dos patriarcas rurais, em São Jorge dos Ilhéus, explicita essa mudança na sociedade cacaueira. Sinhô Badaró morre pobre e amargurado. Ao final da vida já não era mais apontado como o “dono da terra”, seus descendentes não mandariam como ele mandou, não herdariam terras e poder, possuiriam apenas o sobrenome lendário imortalizado na mais sangrenta luta do cacau.
A perda das colheitas e dos jagunços praticamente eliminou o poder social da família Badaró em Ilhéus e Itabuna. Sem esses requisitos básicos para o exercício do mando, restavam somente a humilhação e o desprezo dos inimigos. Antigos senhores de homens e de terras, Sinhô e Juca Badaró deixavam apenas a herança dos seus nomes como referência de um passado violento e heroico. O romance, conforme nota introdutória, apesar de pretender ser uma continuidade de Terras, remete a uma nova fase da história da luta pelo controle das safras anuais de cacau.
A transferência da propriedade da terra para os exportadores ocorre devido ao colapso da economia e ao endividamento dos fazendeiros, com a baixa do preço das sacas nas bolsas de valores estrangeiras. A terra muda de dono. Os exportadores modificam a forma de apropriação da terra, abdicando da violência das invasões e das tocaias e introduzindo novos mecanismos, como as execuções de hipotecas dos fazendeiros e a posterior aquisição de terras em hasta pública por preços bem abaixo do valor real. Os antigos donos reagem à sua maneira. Espancamentos e assassinatos ressurgem, mas sem o efeito que tinham em épocas passadas. O desespero frente a outra realidade faz com que os fazendeiros falidos retomem velhos costumes, para alguns já desaparecidos, signos ultrapassados de outro tempo.
Amado situa em meados da década de 1920 o momento das lentas, porém constantes transformações sociais. “Iam-se perdendo, no passar dos tempos, o eco dos últimos tiros trocados nas lutas pela conquista da terra”. Mas, apesar do propalado progresso material, “daqueles anos heroicos ficara um gosto de sangue
derramado” 256. Uma das questões centrais do romance é o conflito simbólico entre o “progresso”, representando o futuro da região, e a “tradição”, representando o passado que se negava a desaparecer completamente.
Os grandes fazendeiros, chefiados pelo coronel Ramiro Bastos, unem-se simbolicamente na defesa de um passado recente, a época da conquista, onde tiveram o monopólio da violência e forjaram laços de fidelidade em uma série de rituais como o casamento dos filhos e o batismo de vasto número de afilhados. Em Gabriela, no grupo que transita em torno do exportador Falcão, estão elementos tipicamente urbanos: funcionários públicos, comerciários, jornalistas e intelectuais que se opunham à continuação dos tiros e das tocaias, das falsas escrituras e medições inventadas.
Certos costumes arraigados entre a população ainda não haviam sido varridos de todo: demonstrações de valentia, posse de armas de fogo, predomínio social masculino e o derramamento de sangue como reparação moral, costume que, transformado em “lei”, vinha “dos tempos antigos, não estava escrita em nenhum código, estava apenas na consciência dos homens”. Amado alerta constantemente para as permanências culturais no bojo das mudanças, o ritmo mais lento das transformações dos costumes em relação aos padrões econômicos.
O ambiente ficcional está impregnado de um passado ainda vivo na memória coletiva, “quando os Badarós, os Oliveiras, os Braz Damásio, os Teodoros da Baraúnas, atravessavam os caminhos, abriam picadas, à frente dos jagunços, nos encontros mortais.
Quando cada grande árvore escondia um atirador na tocaia”257. Mas as pretensas permanências, “presente [s] em detalhes da vida da cidade e nos hábitos do povo [, iam ] desaparecendo aos poucos, cedendo lugar às inovações […] não sem resistência, sobretudo no
que referia a hábitos, transformadas pelo tempo quase em leis" 258. Passado e presente se contrapõem, antigos e novos valores colidem. A transformação social e material da região impõe uma nova configuração identitária e a morte, enquanto rito de passagem ao exercício do mando, é substituída pelos meandros da lei e das finanças.
O exportador Mundinho Falcão expressa esse momento de transição. Ao conquistar a liderança da oposição ao coronel Bastos, tradicional chefe político da região, Falcão introduz diversas modificações no universo grapiúna. Apoia a criação de clubes e jornais, abre novas ruas com casas de arquitetura moderna, financia empreendimentos, como uma companhia de ônibus, e luta pela exportação direta pelo porto de Ilhéus, em detrimento dos compromissos e interesses dos Bastos com políticos ligados ao porto da capital. Como representante maior dessas transformações, Mundinho é o alvo principal das críticas dos coronéis mais conservadores, é constantemente acusado de não ser um verdadeiro grapiúna, de ser um “forasteiro sem raízes na terra”, sem possuir sequer um pé de cacau plantado, sem nunca ter manchado as mãos de sangue.
Alguns coronéis de mentalidade progressista, como Altino Brandão, buscam uma conciliação entre os adversários e defendem a legitimidade política de Mundinho Falcão. Mas Ramiro Bastos não admite a hipótese de dividir o seu poder com um recém-chegado que ousava questionar os valores antigos. Levanta, perante Brandão, a questão da tradição do poder dos pioneiros que, como eles próprios, haviam desbravado a mata, que morreram e mandaram matar nas lutas pela posse de terra. A tensão entre as opiniões dos dois coronéis é expressa na passagem abaixo:
[Coronel Brandão]
Ilhéus é uma terra de forasteiro, seu coronel. A gente mesmo o que é? Nenhum nasceu aqui […]. A gente daqui o que é que vale? Tirante o Doutor, homem ilustrado, os outros são uns restos, só serve para o lixo. Por assim dizer, a gente é os primeiros grapiúnas.
[Coronel Bastos]
Quantas vezes a gente arriscou a vida, escapou de morrer? Pior do que isso, quantas vezes a gente não teve que mandar tirar a vida dos outros? Isso então não vale nada?[…] Que vida ele arriscou? Que vida ele tirou? Onde foi buscar o direito de mandar aqui? Nosso direito a gente
conquistou259.
Os principais líderes construíram uma liderança inquestionável perante seus correligionários e apadrinhados, com base em compromissos assumidos na fase violenta do desbravamento. Amâncio Leal, um dos principais aliados dos Bastos, afirma esse sentimento de fidelidade: “enquanto eu for vivo, meus votos são para meu compadre Ramiro Bastos e pra quem ele indicar. Foi ele quem me deu mão forte quando a gente estava jogando a vida
nessas brenhas” 260. Tal devoção, ampliada na teia social, dava aos principais coronéis o predomínio político regional, indicando e elegendo parentes e afilhados como subdelegados, conselheiros, intendentes e deputados, eleição após eleição.
Mesmo na velhice, o coronel Ramiro encarnava o típico coronel do cacau, líder que, à frente de seus homens, tocou fogo em fazendas e cartórios, invadiu povoados e liquidou inimigos. A recente introdução de novos hábitos era vista com maus olhos por ele, acostumado a mandar sem contestação. Ramiro Bastos, inimigo das mudanças, repudiava o progresso trazido pelos novos tempos. Para o velho coronel, o passado, assim como ele, ainda não havia morrido:
Ainda não morreu nem é um inútil. Querem luta? Pois vamos lutar, que outra coisa ele fez na vida? Como plantou suas roças, marcou os amplos limites de suas fazendas, construiu seu poder? […] Como liquidara os adversários políticos? Foi rompendo a mata, o parabélum na mão, os jagunços a segui-lo […] Ninguém esqueceu ainda essas histórias. Esse Mundinho Falcão está enganado, veio de fora, não conhece as histórias
de Ilhéus, era melhor se informar261.
Em Gabriela, Amado aborda também as mudanças quanto à moral da sociedade regional. Tradicionalmente, a morte servia como um mecanismo de punição contra os “desvios” de conduta, de acordo com a moralidade característica do período. Entre tais “desvios”, um dos mais graves era a traição conjugal por parte da esposa, considerada como guardiã privilegiada da honra do esposo e da família. Tal crime podia somente ser reparado com o assassinato dos amantes. As cenas dos velórios de Sinhazinha, esposa do coronel Jesuíno Mendonça, e do jovem dentista Osmundo, retratam a força do costume na sociedade regional. As cenas da trasladação dos corpos das residências onde foram velados para o cemitério estão carregadas de simbolismo.
O espaço urbano ficcional reflete a moralidade vigente. As ruas por onde passam os caixões estão praticamente desertas. Em um momento em que se espera a solidariedade social com a dor da perda, apenas alguns poucos amigos e parentes acompanham a procissão dos mortos. O homicídio é um artifício aceito socialmente nas questões de honra e a vingança é legítima e esperada para o crime de traição conjugal. A abdicação do “direito de matar” os que haviam ofendido a honra familiar é inaceitável: “honra de marido enganado só com a morte dos culpados podia ser lavada”. Nem mesmo nos júris ou nas igrejas elevava-se uma voz a defender os mortos.
O autor do duplo assassinato, coronel Jesuíno, era um dos mais legítimos representantes do poder regional. Quase ninguém compareceu aos velórios e aos enterros de Sinhazinha e Osmundo. Prestigiá-los seria considerado socialmente reprovável. A atitude do coronel foi, inicialmente, unanimemente aprovada pela população: “não se elevava voz – nem mesmo de mulher em átrio de igreja –
para defender a pobre e formosa Sinhazinha” 262. Segundo o pensamento geral, o coronel havia demonstrado ser um homem “corajoso e íntegro, como o provara durante a conquista da terra […], muitas cruzes no cemitério e na beira das estradas deviam-se aos seus jagunços, cuja fama não fora esquecida […], suas
propriedades cresceram e seu nome fez-se respeitado”263. Um jantar patrocinado pelos correligionários de Jesuíno foi organizado como forma de desagravo ao coronel, um dos construtores da “civilização do cacau”.
Há, porém, uma clara dualidade moral em Gabriela, indício da ainda incompleta superação das formas de comportamento mais tradicionais. Apesar dessa atitude inicial da população, no decorrer da trama há uma ruptura com relação à atitude anterior diante da tragédia dos amantes. Dois momentos, em Gabriela, marcam essa transição nos costumes locais. O primeiro, a ida de Malvina, filha do coronel Melk Tavares, ao velório de Sinhazinha, verdadeiro rompimento com as convenções sociais que interditavam a presença de moça solteira em uma situação que remetia ao adultério. O segundo, a visita popular programada pelo pai de Osmundo, um próspero comerciante de Salvador, ao túmulo do filho no cemitério municipal. Diz o relato que “a romaria ao cemitério foi um sucesso, o oposto do enterro. Coroas mortuárias, as que haviam faltado no enterro; flores em profusão, as que haviam recusado ao
esquife. Mármore mortuário cobria agora a cova rasa”264. O apelo paterno havia comovido a maioria da população, algo recente, os novos tempos.
Ao final, a sociedade grapiúna condena a violência típica dos tempos da conquista, os costumes antigos e os privilégios inerentes à condição de grande proprietário rural. Depois de conturbado processo, a confirmação da culpa do coronel Jesuíno determina uma nova fase. Na sociedade que se moderniza rapidamente, a violência cede ao império do progresso e da lei. Ilhéus civiliza-se, opõe-se cada vez mais ao passado bárbaro. Os assassinatos a sangue-frio passam a ser hostilizados, a sua heroicização fenece. Em um diálogo, o coronel Melk Tavares explica a um dos seus trabalhadores as mudanças ocorridas em relação à época da conquista: “naquele tempo era bom […] Bastava ter peito, tocar para frente, liquidar quatro ou cinco que tinham a mesma tenção, e o cidadão tava rico. Aquele tempo acabou. Agora chegou o progresso,
as coisas são diferentes”265.
A morte do coronel Ramiro simboliza a superação do domínio dos homens em armas. Em vida resistira ao fluxo histórico do “progresso” e à decadência do poder dos antigos “donos da terra”. “Antes que eu morra”, dizia o coronel, “ninguém vai tomar conta de Ilhéus. Nem que tenha de morrer de arma na mão. Nem que tenha outra vez, Deus me perdoe, de mandar matar […], mesmo que
Ilhéus vire outra vez coito de bandidos, terra de cangaço”266. A sua morte encerrou a época dos “barulhos” tão ao gosto dos desbravadores e jagunços. Amado aponta, então, outro padrão comportamental surgido das transformações de cunho capitalista, a era dos exportadores.
De qualquer forma, a força social dos coronéis ainda é representada, por exemplo, no velório de Ramiro Bastos. As páginas da imprensa local, “tarjadas de negro”, elogiavam o coronel como “grande homem de Ilhéus”, lembravam a dívida da cidade perante a sua administração. O seu partido, em aviso fúnebre, convocou a população para acompanhar, ao cemitério, o corpo do “inesquecível homem público, adversário leal e cidadão
exemplar” 267. As qualidades do morto, apontadas por Amado, servem como referência para uma imagem da elite econômica tradicional da região. A personalidade do “grande homem” perpetua-se no tempo. A lealdade é uma das mais importantes características na construção da identidade social. Ao final, a sua existência serviu de exemplo aos demais cidadãos, fornecendo um modelo de comportamento e de visão de mundo.
O velório foi realizado, como era costume na época, na principal sala da residência, invadida por uma multidão que desfilava em torno do caixão. Um dos coronéis comentou a respeito da transição do poder. O coronel Ramiro, segundo ele, “morreu antes de perder, morreu mandando como ele gostava. Era homem de opinião, dos antigos. O último que havia”. Uma das mais ostensivas provas do prestígio pessoal do morto eram as presenças do próprio bispo, acompanhado dos padres, da superiora do convento das freiras e das suas alunas perfiladas em frente à residência dos Bastos. Na saída do féretro, “os sinos de todas as igrejas dobravam finados”. As ruas estavam repletas, numerosos representantes das diversas classes sociais são citados como que em uma hierarquização: “exportadores, fazendeiros, comerciantes e gente do povo, descida dos morros, vinda do Pontal e da Ilha das Cobras”.
A morte do coronel alterou, naquele momento, a própria vida da cidade. O comércio cerrara suas portas, em sinal de luto, e, à noite, os cinemas, cabarés e bares ficaram vazios, as ruas desertas como
“se todos houvessem morrido”268. Era a derradeira homenagem prestada ao homem que simbolizou um tempo que havia ficado na lembrança dos grapiúnas, o tempo dos antigos coronéis, ficcionais, quando se consolidou a civilização do cacau.
A consolidação do processo civilizacional é também abordada por Adonias Filho, em seu ensaio intitulado Sul da Bahia: chão de cacau, onde discute o comportamento e os hábitos de tipos sociais regionais e as situações por eles vividas em ciclos históricos delimitados pelo autor. O ensaio propõe-se a caracterizar a especificidade do homem do cacau, elaborando uma interpretação ensaística que difere da literária, uma visão “científica” sobre as mudanças ocorridas desde a introdução da lavoura cacaueira até a consolidação de uma civilização.
O ensaio é apresentado como um estudo sociocultural que se pretende singular, na medida em que busca caracterizar uma civilização regional no sul baiano. À flora e à fauna aliam-se as estruturas social e econômica, organizadas em torno do cacau, como elementos que explicam a singularidade regional. As interpretações do ensaio reforçam a ideia jorgeamadiana de uma “nação grapiúna”, base da construção da identidade regional tão cara aos dois escritores. As formas próprias de existência são aspectos definidores das características regionais. Tais características são originadas pelas distinções históricas da formação social local diferenciada das demais do Nordeste pela origem étnica e social dos seus habitantes e pelo meio ambiente onde ocorre a relação homem-natureza.
A sociedade da região cacaueira da Bahia é retratada como fruto de um processo formador específico dentro do contexto nacional, que faz aparecer uma civilização culturalmente definida, “uma saga comum, na variação de processos e estilos individuais […], todo um reino humano, geográfico e social” (Sul da Bahia, p. 6). Diferentemente dos seus romances, nesta obra a utilização da morte violenta no processo de acumulação de terras é relativizada. Mais do que as chacinas, teria prevalecido a violência jurídica. Só excepcionalmente o coronel de cacau agia com violência. Adonias, que interpretou ficcionalmente um passado de mortes e violência, analisa agora a consolidação da nação grapiúna assimilando-a à ordem e ao progresso implementados pelos coronéis.
Nesse aspecto, o autor não nega totalmente o passado de assassinatos e invasões de terra, mas o ameniza e o complementa, fazendo com que essa fase apareça diluída nos ciclos que ele estabelece para o contexto de formação da civilização regional. Essa construção é encabeçada pela elite do cacau, os grandes proprietários, legitimando o poder ou autoridade de um grupo. O domínio da terra corresponde ao domínio social e cultural. A visão de mundo dos pioneiros transformados em coronéis tornou-se homogênea. A trajetória desse grupo social terminou por abarcar as referências identitárias.
Apenas nos casos de desonra familiar seria acionado o jagunço, que não estaria incluído entre os trabalhadores rurais, mas seria um empregado eventual, com o coronel “não o tendo como um
agregado, nem possuindo uma milícia”269, o que o diferenciava do coronel do sertão. Mais adiante o autor afirma que o respeito à lei impediu o coronel de utilizar a violência nas questões de terra. Para tanto bastava a ação dos bacharéis em direito. Observa-se uma amenização do papel do uso da violência e da morte no processo da conquista da terra. A prática do “caxixe” fez do advogado, mais do que do jagunço, o principal responsável pela solução de questões de posse das roças de cacau.
Um dos tipos sociais característicos analisados em Sul da Bahia é o desbravador, figura que dará origem a outro tipo social característico regional, o coronel de cacau. O desbravador violento, elevado à condição de herói pela literatura, torna-se uma figura exemplar de atuação social, cujos atos servem para disciplinar, educar o leitor nos mecanismos de formação de uma comunidade imaginária. O desbravador é um elemento que retrata a heroicidade do pioneiro. As picadas por ele abertas na mata fechada em breve se tornaram estradas onde circulavam mercadorias, homens, costumes, o que facilitou o surgimento de povoados, as futuras cidades do cacau.
O desbravador adoniano tornou singular a cultura regional e se configurou como o seu mais importante agente formador. A ausência do escravo negro é apontada como “uma das causas da diferenciação entre o desbravador e o senhor de engenho, entre o
coronel nordestino criador de gado e o coronel do cacau” 270 (Sul da Bahia, p. 43). Ao construir sua fortuna através do trabalho livre, inicialmente de cunho familiar, o desbravador grapiúna tem o seu poder legitimado pelo esforço descomunal na abertura das matas, avançando suas plantações de forma pacífica e ordeira, muito raramente se utilizando de meios violentos.
Em Sul da Bahia: Chão do Cacau, o poder econômico e social do coronel advém do seu suor e não do sangue derramado na conquista da mata. A sua origem humilde, os parcos recursos disponíveis, as imensas dificuldades enfrentadas tanto na derrubada da mata quanto na defesa das terras dão ao coronel do cacau uma legitimidade no exercício do poder regional e dos mecanismos utilizados para a manutenção desse poder. Para Adonias, “surpreende é que esse coronel, um desbravador ele próprio ou dele filho […], se integrasse em normas morais que apenas
excepcionalmente o fariam reagir com violência”271. O ensaio admite que casos de morte violenta existiram, mas eram sobretudo relacionados com “o código de honra da família”, o que explicaria a
utilização dos jagunços pelos fazendeiros de cacau272.
Os ciclos adonianos dão conta de um homem, sua concepção e atitude perante o mundo, um homem em construção. Adonias aponta a década de 1930 como a do declínio da influência do coronel. A civilização do cacau abria espaço para novos costumes e visões de mundo. Era o sul baiano em fase de consolidação de um processo cultural, cuja “conscientização regional” é ratificada por uma literatura peculiar. A ideia de civilização do cacau surge no contexto histórico das mudanças sociais, econômicas e culturais advindas da ampliação das áreas cultivadas de cacau no sul da Bahia. Segundo o autor, as fases dessa nova configuração social e econômica são consequências do processo cultural que estava em andamento, pois “os contatos e as inter-relações” com novos valores “provocam o complexo regional e atendem o processo de
mudança” 273. A estrutura social e a organização econômica forneceram as normas que dariam coesão ao regional.
O processo de incorporação de terras, tal como é relatado nas obras jorgeamadianas e adonianas, ora violento, ora pacífico, reflete as mudanças de abordagem dos autores na construção da memória regional. Implantada a lavoura e concluída a fase sangrenta do desbravamento, iniciase a etapa de consolidação da refinada civilização do cacau, fechando-se, desta forma, os ciclos da identidade grapiúna.