In memoriam: urbanismo, literatura e morte

André Luiz Rosa Ribeiro · Capítulo 11 de 27

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In memoriam: urbanismo, literatura e morte

Capítulo III – Morte e narrativa

 

Nessas terras fui buscar homens de uma rude humanidade, para traçar o nascimento de uma saga […], de uma civilização na boca dos rifles.

Jorge Amado

 

História, memória e literatura no Sul

 

da Bahia

 

O presente capítulo tem como objetivo central discutir as representações da morte nas obras de Jorge Amado (1912-2001) e

Adonias Filho (1915-1990) abordadas na temática do cacau169. Não tem a pretensão de examiná-las do ponto de vista estético ou de desenvolver uma crítica literária, mas de discutir, no terreno das representações culturais, os elementos comuns e as descontinuidades na produção literária no que diz respeito à morte, no espaço a que se refere este estudo. A ficção ambientada na região produtora de cacau do Nordeste brasileiro é um importante índice para a compreensão do processo de elaboração de identidade nas primeiras décadas do século passado. Expressa o esforço dos literatos na construção de uma unidade cultural para a região cacaueira, onde as representações da morte têm um importante papel.

As representações presentes na literatura dos principais autores que exploraram o tema do cacau não são meros reflexos do acontecido ou, por outro lado, estão simplesmente em oposição ao mesmo, contrapondo o imaginário às práticas sociais. A narrativa desses autores captou aspectos do vivido e, apesar de não ter compromisso com o que de fato teria ocorrido, não prescindiu deste. Como propõe Chalhoub, “a literatura busca a realidade, interpreta e enuncia verdades sobre a sociedade, sem que para isso deva ser a transparência ou espelho da matéria social que representa e sobre a

qual interfere”170.

As obras ambientadas na fase da conquista das matas do sul da Bahia tornaram-se parte constitutiva da memória construída em torno de uma dita civilização cacaueira e de uma identidade a partir

da “saga grapiúna”171. Os autores retratam a saga dos “pioneiros do cacau”, que constroem uma civilização forjada no processo de ocupação da terra. A morte é um elemento que permeia as tramas e os destinos das principais personagens, dando às mesmas características sociais e culturais que terminam por identificar o homem grapiúna e construir ficcionalmente uma memória para uma região definida culturalmente.

O estudo da literatura enquanto participante da construção de uma memória coletiva ajuda a compreender temas recorrentes em uma determinada sociedade. Uma memória grapiúna, cujo conteúdo compõese de textos e imagens — olhares compartilhados sobre “o que foi” — que pautam as vivências nas relações sociais. Entendemos “grapiunidade” como um conceito articulado a partir dos discursos literários, principalmente na obra de Amado e Adonias, em que características da sociedade regional são encontradas em várias das personagens mais conhecidas. As obras literárias sobre a temática do cacau ocupam um lugar relevante na literatura brasileira, não somente pela qualidade dos escritores como também por terem emergido num período histórico de “redescoberta” do Brasil.

A literatura regional está inserida no bojo do Movimento Nordestino, iniciado na ficção por José Américo de Almeida, com A bagaceira (1928). Os escritores ligados ao movimento ajudaram a redefinir as fronteiras culturais do país, com base na denúncia das suas contradições sociais. A ficção passou a explorar indivíduos ou grupos socialmente marginalizados. As diferenças e tensões sociais servem de material para os literatos, principalmente os de cânone realista que pretendem tecer uma análise crítica da realidade

brasileira 172.

O próprio Amado foi alçado à condição de intérprete da sociedade, praticamente inventando o povo baiano e por ele sendo

inventado173. Isto ocorre, ao menos em parte, pela postura de memorialista assumida por Amado, pelo papel fundamental das suas lembranças na concepção dos seus livros. Em suas próprias

palavras, “escrevo sobre o que vivi e aquilo que conheço” 174. A ampla circulação das obras estudadas fez com que se tornassem referência com relação à área produtora de cacau nordestina. Essas obras, mais do que retratar ficcionalmente um passado histórico, forneceram a base discursiva para a construção de representações que configuraram uma pretensa unidade cultural da região.

Amado ganhou projeção no cenário literário nacional por sua atuação no movimento regionalista de 30 e no modernismo brasileiro com o chamado “ciclo do cacau”, inaugurado com Cacau (1933), o seu segundo romance. Este foi seguido por Terras do sem fim (1943), narrativa sobre a saga da conquista da terra e a origem social dos coronéis, e São Jorge dos Ilhéus (1944), continuação do enredo anterior e que, como Gabriela Cravo e Canela (1958), aborda as mudanças no contexto social e econômico da região cacaueira, na passagem do poder dos produtores nacionais para os exportadores de cacau, representantes do capital externo.

Nestas duas últimas obras, observa-se a recusa das mortes violentas como símbolo de um passado heroico, agora superado pelo progresso material e pelo processo civilizacional. De qualquer forma, todos os romances citados estão impregnados de memória, formando um conjunto de depoimentos ficcionais que representam as diferentes fases históricas por que passou a região produtora de

cacau e as mudanças de comportamento cultural175.

Apesar de ter sido ligado ao integralismo, campo político diametralmente oposto ao marxismo ao qual Jorge Amado estava associado, o escritor Adonias Filho apresenta, em sua literatura sobre as origens da civilização do cacau, muitos pontos em comum com Amado no que respeita à construção do ideário a ela relacionado e à predominância do tema da morte no processo de formação identitária regional. Em seus romances, como Os Servos da Morte (1946), Memórias de Lázaro (1961), Corpo Vivo (1962) e As Velhas (1975), as narrativas formam fios da mesma trama, visões que ora se entrelaçam, ora se distanciam na construção do imaginário sobre a morte na região cacaueira.

Conquanto, nestas primeiras obras, tenha elaborado enredos em que a morte unifica tragicamente as personagens em uma teia de vínculos estabelecidos pela violência do ambiente ficcional, mais adiante, em ensaio intitulado Sul da Bahia: Chão de Cacau (1976), Adonias redimensionou o quadro de construção da civilização do cacau que havia constituído em sua obra literária. O ensaio traz uma imagem atenuada da morte no processo de acumulação de terras. Em Sul da Bahia: Chão de Cacau, o grande proprietário está desvinculado da violência e aparece como responsável pela intensa urbanização e desenvolvimento econômico no início do século XX, quando se forma a ideia de civilização do cacau.

A construção literária da identidade regional contribuiu na formação da imagem que a sociedade cacaueira fez e faz de si mesma. A literatura passou a legitimar, no terreno do imaginário, a existência de uma “civilização do cacau”, forneceu referências para a identidade regional em relação ao conjunto de identidades brasileiras e baianas, a partir das experiências vivenciadas e criadas pelos autores. Ao articular ficção e contexto histórico, a literatura desempenhou um importante papel na configuração de uma memória social para uma área delimitada do Nordeste cacaueiro.

Para melhor compreensão desse fenômeno, faz-se necessário analisar o conteúdo literário com atenção para a “lógica social do texto”, levando em consideração as contingências que cercam a sua produção e a proposta que cerca a ficção quando da construção de um passado. A utilização da ficção como fonte histórica também passa pela análise do escritor enquanto sujeito histórico, suas origens sociais, posições políticas ou literárias, para melhor perceber o alcance dos discursos que circulam socialmente e que

têm na ficção um instrumento de propagação176. Os autores inventam o passado, mas a partir das próprias experiências acrescentadas, no processo de criação, à sua imaginação. Dessa forma, os textos ganham o estatuto de fonte histórica, indicando as

ideias vigentes na sociedade177.

A literatura estudada tem como base a ideia de uma coesão cultural que tende à homogeneização dos modos de pensar e viver. A narrativa ficcional de cânone realista pressupõe um ordenamento da realidade na busca de coerência, mediante a correlação de determinados elementos presentes tanto no texto quanto no vivido. O mundo criado nas obras literárias guarda verossimilhança com “o que foi”. O texto ficcional é formador de memória; “o que poderia ter sido” passa a ter a mesma força referencial “do que realmente

foi” 178.

Os autores reivindicam terem se utilizado recorrentemente de fatos e personagens reais para compor o enredo ficcional. A ficção serve-se de referências concretas, recriando-as livremente em enredos trabalhados pela imaginação. Em Amado, por exemplo, é possível perceber inúmeras referências a episódios e pessoas reais que marcaram as lembranças do autor no que se refere a sua

infância e adolescência, entre Pirangi, Ferradas e Ilhéus179. Nomes reais foram dados a personagens fictícias, como Sinhô e Juca Badaró. Nomes fictícios remetem a indivíduos reais, a exemplo de Manoel Misael Teles (Manoel Misael Tavares), Horácio da Silveira (Basílio de Oliveira), ou Ramiro Bastos (Antônio Pessoa).

A memória é um fenômeno social influenciado pelas relações entre o indivíduo que lembra e os fatos lembrados. A memória, enquanto faculdade de preservar informações, é constituída por um conjunto de funções pelas quais o indivíduo atualiza imagens passadas, “ou que ele representa como passadas”. Vários episódios serão seletivamente descartados por um processo de esquecimento em manipulações conscientes ou inconscientes da memória individual. A memória é um elemento fundamental na construção da identidade individual ou coletiva, uma das preocupações essenciais

das sociedades contemporâneas 180.

A memória pessoal depende das relações mais recentes do sujeito com os grupos que lhe servem de referência. Lembrar é uma reelaboração das experiências vividas, e, desta forma, associa-se a mudanças na percepção e aos juízos de realidade e valor que fazem das lembranças uma rede de representações da posição atual do indivíduo. De acordo com Bosi, as lembranças reconstroem um quadro dos acontecimentos dos mais recentes aos primeiros anos de vida. Com respeito a este último período, as lembranças são, muitas vezes, complementadas pelas falas de pessoas mais velhas, geralmente ligadas ao grupo familiar. Essas lembranças compartilhadas e construídas pela filiação institucional concedem à

memória pessoal um caráter social181.

Tanto na ficção quanto em ensaios como Sul da Bahia: chão de cacau, ou em livros de caráter memorialístico, como O menino grapiúna, Adonias e Amado trabalham qualitativamente com o passado, em um processo chamado por Halbwachs de “desfiguração”. Neste ocorre o remanejamento de acontecimentos passados por ideias atualizadas na composição da biografia individual ou grupal, com base em padrões condicionados pelo

interesse social 182. As falas construídas dentro do grupo de convívio buscam fixar um determinado ponto de vista “histórico”, onde também existe a ausência deliberada de certas passagens que não são significativas para o grupo, em um processo seletivo do que deve ser preservado e do que deve ser esquecido.

Bosi propõe uma concepção flexível da memória, ao afirmar que as lembranças estão subordinadas à subjetividade do eu no transcorrer do tempo. A sua principal função é conservar o que é de interesse do sujeito ou do grupo ao qual pertence. Assim, a memória é socialmente construída desde a infância, quando as primeiras referências identitárias aparecem baseadas na visão social dos mais velhos, do grupo de convívio mais intenso, sobre questões ligadas ao cotidiano, “tal como chegam a eles deformadas pelo imaginário popular.” Na construção e reconstrução da memória individual, muito do que foi incorporado é a soma de depoimentos depois lembrados como vividos. A memória familiar, que ao mesmo tempo une e separa, formula-se pela narração de “episódios antigos que todos gostam de repetir”. Neles o comportamento dos parentes define a “natureza íntima” do grupo e configura uma “atitude-símbolo” que

deve inspirar os mais jovens183.

O grupo familiar elabora discursos que narram e interpretam episódios carregados de significação para os seus membros. As versões que consagram o passado familiar e o local são amplamente referidas. Por esta perspectiva, os textos aqui estudados são documentos que expressam simbolicamente um contexto social e uma época, a partir do olhar dos seus autores sobre o real. As obras jorgeamadianas e adonianas são representações construídas sobre um período histórico, cada uma delas representativa do momento em que os autores as conceberam. Constroem um imaginário permeado de violência e rusticidade, onde a morte ocupa um lugar privilegiado nos destinos dos homens, para adiante imprimirem uma nova postura do grapiúna frente às mudanças sociais.

A circulação das obras estudadas fez com que os relatos nelas contidos influenciassem decisivamente o olhar sobre o sul baiano na contemporaneidade. Conforme afirmado anteriormente, os autores propõem a existência de uma grapiunidade e de uma civilização do cacau na tentativa de construir, através da literatura, uma identidade regional. A construção dessa identidade fundou-se em elementos peculiares, tais como o coronel self-made man, a diversidade étnica na composição social e os elementos naturais característicos da região, como a mata atlântica, transformada em personagem nos

enredos 184.

Amado e Adonias elaboraram um discurso literário fundante de uma tradição para a nova elite do cacau. O desbravamento da mata por indivíduos oriundos de várias partes do Brasil e do mundo, para o plantio das roças de cacau, e a luta de morte pela terra são temas fundamentais para a ideia de nação grapiúna como uma área cultural do Nordeste brasileiro, em um ambiente dominado pela natureza ainda hostil que aos poucos “civiliza-se”.

Retratos ficcionais de lavradores, trabalhadores e jagunços são traçados, fazendo com que as personagens do universo literário deem conta dos comportamentos regionais, fixando-os em uma pretensa unidade identitária. Ganha ênfase a ideia de que, diferentemente de outras áreas nordestinas, a riqueza regional foi construída pelo braço livre, sem o uso do trabalho escravo na implantação de uma nova economia, símbolo do poder regional encarnado pelos coronéis. Na trama ficcional, o poder é imbricado com a violência e a morte. A luta pela posse da terra, o confronto com a natureza inóspita e as doenças tropicais fizeram da morte um elemento referencial para a saga da civilização do cacau.

Os autores estudados narram o processo de formação de valores e práticas inerentes a essa civilização. O pioneiro plantador de cacau inaugurou uma nova era, como portador de uma dinâmica histórica que substitui o espaço-tempo original, o da mata atlântica, por uma nova paisagem composta por fazendas, estradas e cidades. O coronel representa a transformação do desbravador em proprietário de terras e safras, legitimando o seu poder pela natureza conquistada, um espaço fundante dominado pelas árvores

de cacau 185.

Tanto Amado quanto Adonias pertenciam a essa camada privilegiada da sociedade regional, eram filhos dos “pioneiros” enriquecidos, a “segunda geração” do cacau. Muitos dessa geração tiveram acesso à educação formal devido ao capital acumulado pela geração imediatamente anterior. Muitos, ainda jovens, assistiram às transformações por que passou a região cacaueira. Era um novo tempo que chegava substituindo um outro ligado ao século XIX e à instituição da escravidão.

Conforme foi apontado, o trabalho intelectual de diversos autores dessa geração irá construir uma coesão para essa espacialidade heterogênea, onde conviviam estrangeiros de várias procedências, imigrantes nordestinos, baianos de outras regiões, negros e índios de inúmeras etnias e seus descendentes. Isso em uma época de transição, que separou o período de introdução da lavoura por todo o século XIX, da fase de consolidação econômica, nas primeiras décadas do século XX, definida como o ponto inicial de uma cultura específica.

A validação do discurso literário se intensificou à medida que aumentava o reconhecimento de Amado e Adonias como intérpretes da realidade regional. O estereótipo grapiúna funcionou como uma imagem onde os membros da sociedade cacaueira poderiam afirmar uma possível coesão no corpo social. O papel agregador e homogeneizador característico desses discursos gerou um efeito de aproximação entre períodos históricos, passado e presente, identificando costumes e comportamentos compartilhados e aceitos como próprios. Tais conteúdos culturais são perpetuados em função de processos históricos específicos, nos quais estão em jogo a conservação e a sustentação do poder. Os descendentes dos coronéis grapiúnas ressignificaram a imagem dos pioneiros do cacau, na tentativa de apagar a influência histórica de grupos rivais mais antigos no poder regional. Humildes desbravadores foram heroicizados como fundadores de uma civilização na violenta epopeia do cacau.

O fazer-se da identidade grapiúna se dá em um movimento de aceitação social das práticas violentas, estabelecidas e forjadas “na boca dos rifles”. Nesse sentido, a literatura tem no jagunço um dos seus tipos mais expressivos. O seu papel como agente da morte violenta foi normatizado pelo costume. A sua atividade de assassino não se opõe à ordem no período heroico de formação econômica e cultural da civilização cacaueira. As “tocaias”, apesar de moralmente reprováveis, estão no âmbito da normalidade em um ambiente ficcional em que somente se conquista o poder pelo derramamento do sangue.

Amado e Adonias deixam transparecer, em seus textos, relações com as experiências por eles vivenciadas, aproximando a ficção do referente da memória. Os autores narram a trajetória de um povo inserido em um ambiente peculiar. Diferentemente de outros escritores nordestinos, não tratam da decadência de uma economia tradicional, mas descrevem uma economia recente e em plena expansão, fundada pelo braço livre de imigrantes de inúmeros matizes culturais e étnicos.

Amado esteve, por longos anos, diretamente ligado ao Partido Comunista Brasileiro, numa fase que vai da década de 1930 à de 1950. Nesse período, a imagem do sul baiano, que o próprio escritor contribuiu para construir, era de uma região rica e progressista, cuja configuração espacial possuía contornos bastante nítidos que a diferenciavam física e culturalmente das demais regiões do Nordeste brasileiro. Essa área cultural inclui os municípios de Ilhéus, Itabuna, Belmonte e Canavieiras, povoados como Ferradas, Itapira, Guaraci, Pirangi e Água Preta, além do conjunto de propriedades situadas nas matas dos rios Pardo, Cachoeira, Almada e de

Contas 186.

Em 1933, recentemente filiado ao partido, lançou Cacau, sua primeira obra traduzida, romance impregnado de lembranças da infância. A obra possui um cunho quase panfletário, na sua tentativa de ser o mais próxima possível da realidade dos trabalhadores das fazendas de cacau no sul da Bahia. Como o autor afirma na epígrafe: um romance com um “mínimo de literatura” e com bastante crítica social. A partir de Cacau, Amado seguiu um caminho regionalista que produziu um romance de grande aceitação popular. A sua trajetória política e intelectual, influenciada pelo ideário socialista, passa nos anos 50 a expressar as contradições da sociedade em uma abordagem do terreno cultural.

Em 1954, Amado desligou-se das atividades políticas junto ao partido comunista, dando início a uma fase de influência da cultura afro-brasileira que acentuada após o encontro que teve, três anos depois, com Mãe Menininha do Gantois. Essas transformações estão simbolicamente materializadas em um dos seus mais famosos romances, Gabriela, Cravo e Canela, livro de ruptura com o paradigma da luta de classes para a representação dos antagonismos sociais e políticos e crítica aos costumes

burgueses 187. Sua trajetória acompanha a emergência de um outro tempo, dotado de novas referências econômicas, políticas e culturais.

Mesmo considerando as mudanças de contexto e enquadramento, no conjunto dos romances pertencentes ao chamado ciclo do cacau, as atitudes heroicas das personagens diante da morte compõem um cenário em que homens e mulheres adequam-se ao ambiente violento. Mesmo as mulheres dormiam com armas de fogo ao alcance das mãos, enquanto os homens avançavam sobre as matas arriscando diariamente a vida, “plantando suas marcas de posse, em geral cruzes sem nome,

covas de jagunços mortos nas tocaias ou encontros” 188.

Em O Menino Grapiúna, uma espécie de relato das suas memórias de infância, o autor traça um quadro de imagens de cenas e indivíduos familiares que o marcaram profundamente enquanto referência de um tempo. O testemunho abaixo poderia perfeitamente estar entre os eventos fictícios de seus livros:

 

Memória verdadeira e completa guardo de outra cena… de tê-la vivido em meio à noite cálida e assustadora da Tararanga [fazenda de cacau da família Amado]… Muito pequeno ainda, com certeza. Acordado pelos latidos dos cachorros… Recordo, sim, com absoluta nitidez, a visão exaltante: meu pai montado em sua mula preta, os cabras em burros. Nas selas, os trabucos. Chefe dos cabras, Argemiro, um sergipano, que servira ao meu pai nos tempos de Ferradas, afamado e temido, o revólver no cinto. Acima de Argemiro, marcado pela varíola, caboclo de olhos vivos, fazendeiro e político, Brasilino José dos Santos, o compadre Brás, a mais fascinante figura de minha infância… Impossível encontrar-se na região do

cacau valentia e desassombro iguais ao dele… Minha mãe magra e resignada, viu mais uma vez o marido tomar o rumo de Itabuna para garantir a eleição de um sobrinho […] Só então, quando a cavalgada sumiu, minha mãe reparou no menino a espiar… Animais e homens desapareceram na noite. Na varanda, com dona Eulália, ficavam o menino

e a morte. A morte, companheira de toda a minha infância 189.

 

O ambiente vivido na infância produziu uma rede de significações que permeia a obra de Amado e que se tornou comum a toda a região do cacau. O intenso convívio com a família, amigos e trabalhadores rurais forjou uma imagem do universo sul baiano. O contexto familiar do “menino grapiúna” vai construindo a sua visão de mundo sobre aquelas terras fartas de mortes e cruzes nos caminhos. “Entre Pontal (bairro da cidade de Ilhéus) e Pirangi (atual cidade de Itajuípe), antevi o amor e tratei com a morte”. O contato com o povo enriquece o olhar do menino sobre o mundo que o cercava: “de nada gostava tanto como dessas idas a Pirangi, em

companhia de trabalhadores e jagunços”190.

A escrita retrospectiva materializa o desejo de reafirmação identitária da personalidade. Os relatos autobiográficos pretendem fixar o “eu” mediante a seleção de uma série de episódios

“significativos” para o autor 191. Dessa forma, a narrativa das próprias lembranças pode ser entendida como uma elaboração consciente para estabelecer uma coerência com respeito à

experiência individual 192. Para Amado, os artistas não devem abandonar “a realidade onde se movem e onde se criam”. Neste sentido, tece elogios à obra de Adonias Filho, como “admirável exemplo de como é possível trabalhar a forma sem perder o contato com a realidade em torno, sem faltar à verdade de sua gente e de

seu tempo”193.

Romances jorgeamadianos como Terras do Sem fim e São Jorge dos Ilhéus possuem uma perspectiva histórica em sua abordagem sobre as transformações sociais e econômicas por que passava o sul baiano, tomando como referência o mundo da “vida vivida”. Ambos os textos se completam em uma única história passada entre as décadas de 1910, na qual tiveram lugar as grandes lutas pela terra, e 1940, quando os exportadores tornam-se senhores das terras, perfazendo a saga da ascensão, apogeu e declínio dos coronéis desbravadores. A partir de uma análise de cunho marxista, o autor delineia etapas da trajetória da economia e da sociedade regionais, relacionando-as à própria evolução histórica do Brasil, com exceção da escravidão, que não é relacionada ao cacau.

O processo evolutivo passa do “feudalismo” imposto pelos coronéis até o domínio do capitalismo internacional trazido pelos exportadores, assim como a sua contestação, promovida pela articulação da antiga elite econômica e o incipiente movimento camponês e operário, anúncio de uma futura época utópica em que o socialismo triunfaria como modelo social dominante.

Tais etapas “históricas” representam a dinâmica econômica da monocultura do cacau. Amado divide os textos em fases que se alternam rumo à civilização da terra semibárbara. “A terra adubada com sangue”, que dá início à saga, é a fase do desbravamento e da expansão violenta da fronteira agrícola, com a chegada dos nordestinos, a maior força migratória nas primeiras décadas do século XX. “A terra dá frutos de ouro” trata do período áureo da lavoura cacaueira e ápice do poder coronelístico, quando os fazendeiros transformaram acanhados núcleos urbanos em importantes cidades comerciais. A última fase, “A terra muda de dono”, fecha a saga dos coronéis. Ocorre, então, a decadência vertiginosa dos antigos fazendeiros frente ao poder dos exportadores, fruto de uma armadilha do capital internacional mediante a manipulação dos preços das sacas de cacau nas bolsas de valores estrangeiras, seguida da depreciação do valor das propriedades urbanas e rurais.

Os textos estão impregnados de um conteúdo realista, uma interpretação da trajetória histórica sul baiana, visível nas suas características de romance histórico. É o que Eduardo Duarte percebe ao falar da “verdade histórica” que aparece nos diálogos das personagens quando se referem às violências da terra, veiculando, nessas falas, discursos que fazem brotar um modo de ver uma área culturalmente importante do Nordeste brasileiro. Os discursos constroem uma imagem para a região mediante a verossimilhança entre a ficção jorgeamadiana e o contexto social no

qual estão inseridos o conjunto de personagens e os cenários194.

Amado redesenhou a geografia humana e cultural do sul da Bahia, ao relatar a implantação da lavoura às margens dos rios regionais, pelos imigrantes que “no rastro do cacau dando dinheiro, chegavam […]”. Eram “centenas e centenas de nacionais e estrangeiros oriundos de toda parte[…]. Chegavam e em pouco

eram verdadeiros grapiúnas”195. A narrativa de aspectos históricos locais busca imprimir uma verossimilhança aos seus romances. A memória familiar está profundamente inserida no seu processo de criação, intervindo diretamente na imagem que o autor elabora para a civilização do cacau: “Desbravador de terras, meu pai erguera sua casa mais além de Ferradas, povoado do jovem município de Itabuna, plantara cacau, a riqueza do mundo. Na época das grandes

lutas” 196.

Amado viveu quase toda a infância nas fazendas dos seus pais, em um ambiente rural onde as tocaias não eram raras, inclusive um atentado contra a vida de João Amado de Faria, seu pai. Ali, entre as roças de cacau, cresceu ouvindo as estórias que viriam a influenciar decisivamente o seu imaginário:

 

De tanto ouvir minha mãe contar, a cena se tornou viva e real como se eu houvesse guardado na memória o acontecido: a égua tombando morta, meu pai lavado em sangue, erguendo-me do chão[…]. Pagos numa tabela alta, os jagunços do tiro certeiro tinham regalias. As cruzes demarcavam os caminhos do alardeado progresso da região, os cadáveres estrumavam os cacauais… O animal recebeu a bala mortal, enquanto nos ombros e nas costas do coronel João Amado de Faria vieram incrustar-se caroços de chumbo que ele jamais retirou, visíveis sob a pele até o fim da vida. Exibidos com uma certa relutância e alguma vaidade para ilustrar a

repetida narrativa de minha mãe197.

 

Como podemos notar, o escritor se apresenta como testemunha das lutas ocorridas, do sangue derramado nas tocaias. As páginas dos seus livros relacionam os costumes e as atitudes apresentadas como familiares ao autor com a concepção ficcional dos trabalhadores e coronéis do cacau. A região foi interpretada como um espaço conquistado pelo esforço dos pioneiros, entre os quais estava João Amado de Faria, que ainda jovem se transferira de Estância, Sergipe, para a “aventura do desbravamento do sul da Bahia, para implantar, com tantos outros participantes da saga

desmedida, a civilização do cacau, forjar a nação grapiúna”198.

Não raro os seus livros abordam o cotidiano das figuras tutelares como o compadre Brás e Argemiro. As personagens jorgeamadianas são apontadas como tendo sido inspiradas num conjunto de “figuras que se impuseram ao autor, que fazem parte de

sua experiência vital” 199, figuras muitas vezes pertencentes ao seu próprio círculo familiar. “Creio que em todos esses coronéis há um

pouco do meu tio Álvaro Amado”200 Outras lembranças da infância seriam definitivamente a matéria-prima dos seus romances sobre o cacau:

 

Guardei nos ouvidos os estampidos dos últimos tiroteios e nos olhos a visão dos homens em armas, das cavalgadas à noite para as emboscadas fatais, a visão da floresta penetrada e incendiada. Cresci ouvindo as narrações da epopeia que tentaria recriar depois. Cresci no espanto e na admiração pelos feitos daquela minha gente sem lei e sem medo. Aprendi os nomes dos chefes destemidos, os coronéis do cacau, os jagunços famosos, os bacharéis cuja voz nos júris e cujo saber nas tribunas dava a

primeira forma de civilização à conquista bárbara 201.

 

Tantas dessas estórias, como vimos, foram ouvidas da sua própria mãe, Lalú Leal Amado, “sem que se soubesse verdadeiramente quando a imaginação tomava as rédeas da

realidade” 202. Essas lembranças auditivas serão o pano de fundo para lembranças de um ambiente marcado pela oralidade, pelos acontecimentos transmitidos pelos parentes e frequentadores da sua casa na fazenda e na cidade.

Em vários dos seus discursos, Amado reivindica essa sua condição essencial de memorialista: “Eu vinha de uma infância nas terras bravias do cacau, assistira ao drama da conquista da selva, ouvira a voz dos advogados nos júris dos coronéis […] Trazia dentro

de mim os ecos de uma grande epopeia”203. Os aspectos históricos mais fundamentais do processo de conquista das matas para o cultivo do cacau estariam contemplados na saga ficcional dos grapiúnas: “Contei em um livro [Terras do Sem fim] essas lutas, esse matar e morrer, esse desesperado heroísmo de homens varando a selva, disputando palmo a palmo, vencendo os animais, outros homens e o mistério da floresta”. A sua infância havia coincidido com o período final das lutas, “quando os rudes sergipanos e sertanejos entraram pela selva adentro[…], quando a grande saga se vestiu de sangue e cada árvore escondia um homem na tocaia […], quando a vida humana não valia dez mil réis”.

Nas lembranças da infância, como na literatura produzida, está delineado um certo orgulho das origens sociais da família Amado. O pai é o herói que avança sobre a mata, vítima de tocaias, o corpo varado por fragmentos de balas enquanto protegia o filho entre os braços. A mãe, qual a personagem Don´Ana Badaró, de Terras do Sem Fim, era um exemplo da fibra da mulher naquele período, destemida e valente, uma verdadeira grapiúna, a dormir com a repetição sob o travesseiro. Pessoas reais e personagens fictícias mesclam-se na composição jorgeamadiana da civilização sul baiana. A experiência da sua família dava conta de todo um processo civilizatório, legado comum a todos os atores que formaram a civilização do cacau.

Com a transferência da família para Ilhéus, Amado entrou em contato mais direto com a realidade dos tipos urbanos oprimidos, estivadores, pescadores, operários, prostitutas das “ruas de canto”, malandros das “docas”, humildes empregados do comércio, que darão um novo colorido ao seu imaginário. Neste ponto abro uma espécie de parênteses, não há referências às religiões de matriz africanas e dos seus adeptos na temática do cacau, o que somente vai acontecer nas obras ambientadas por Amado na capital do estado.

Em seu discurso de recepção a Adonias Filho na Academia Brasileira de Letras, Amado retoma a questão da legitimidade histórica das obras por eles ambientadas na região, onde nasceram e viveram boa parte da infância e mocidade, uma região “de cidades que assistimos crescer, a algumas delas assistimos nascer como a cidade de Itajuípe, erguida Pirangi, nas proximidades do Sequeiro do Espinho, na época das grandes lutas, nascida na fumaça do clavinote”. Amado o saúda não somente como escritor reconhecido pelos seus dotes literários, mas principalmente como amigo de infância cujos livros eram uma fonte importante para conhecer-se o sul baiano profundo:

 

Meninos de Ilhéus, é nessa condição que antes de tudo te saúdo [….] em nome dessa gente grapiúna. Trazes sua marca e engrandecestes a civilização por eles criada, a cultura nascida da lavoura do cacau e da saga de sangue e morte na manhã da conquista. Eis que o menino de Ilhéus leva o gosto dessa terra pelo mundo a fora, e outras gentes saberão de vossa verdade. Meninos que sugaram ao nascer os seios da violência desatada e da vida vivida enfrentando a morte, em vez de bacharéis foram

escritores, criadores de vida (grifos nossos) 204.

 

A fala de Amado ressalta as personagens adonianas unidas pelas teias de um destino sempre trágico. Suas vidas eram marcadas pelo ódio e pela vingança, “todos vivem em angústia e desespero, em um mundo de espantos e ameaças, de sina cruel […] a natureza agressiva e hostil, chão desolado onde só os homens realmente fortes e brutos podem subsistir”. Em Os Servos da Morte e Corpo Vivo, os protagonistas são de comprovada rudeza e suas raízes mais esconsas estão naqueles coronéis conquistadores, naqueles trabalhadores que, ao lado da pá e da enxada, levavam o clavinote, o punhal, o parabélum. São obras que traduziriam metaforicamente o tempo, o chão e o homem do cacau, marcado pelo signo da violência, uma saga de brutos em histórias de espantos.

Também para Adonias Filho, há uma acentuada imbricação entre a literatura e a formação histórica. A força da literatura grapiúna estaria justamente no fato de se reportar ao contato direto dos autores com a realidade por eles vivida e posteriormente transformada em ficção:

 

Seria imperdoável não mover o tempo, retomando o passado como a demonstrar que a infância não morre. O menino está deitado na terra, sombras da roça de cacau. O agreste de Ilhéus, Itabuna e Itajuípe, em todas as aventuras do povo do sul da Bahia, chega pelas vozes que narram. O sangue escorre na fala, o menino escuta. A saga é violenta, guerra e ódio […]. O romancista se debruça para escrever sem reinventar a fábula regional, sem trair as vozes, sem esquecer as figuras – é o

menino quem na verdade escreve 205.

O autor enfatiza a importância de determinados tipos sociais característicos da região, eleitos como ícones da grapiunidade. Entre eles está o desbravador, um homem singular que tomou posse da terra e se fixou na região enfrentando todo tipo de adversidade, tanto pela ação dos homens como da natureza, hostis ao extremo. Os assassinatos, as invasões de propriedades e o isolamento da região, sem uma presença efetiva do aparelho estatal, compõem um quadro em que predomina a lei do mais forte, traço marcante que Adonias retrata a partir do trágico.

A narração dos fatos deixa de ser simplesmente uma elaboração ficcional e, baseada em um contexto histórico, se transforma na memória mesma do “que foi”. Na mesma trilha de Amado, ele não apenas narra um passado ficcional, mas o interpreta realisticamente. As suas personagens seriam ícones de uma região, símbolos identitários criados a partir da sua própria experiência e das suas visões enquanto membro da civilização do cacau. “Para um velho muito vivido como eu, existe a certeza de que não há paisagem igual à nossa, de que não há cenário igual ao nosso e, por isso mesmo, na distribuição psicológica do povo, não pode

haver personagens de romance como os nossos” 206.

O autor era o terceiro filho do coronel Adonias Aguiar, proprietário rural cuja trajetória de vida está inserida no momento da disputa pelo controle das novas áreas para o cultivo do cacau, entre o final do século XIX e primeiras décadas do século XX, quando a mata recua e cresce o número de municípios produtores de cacau desmembrados principalmente de Ilhéus, área na qual seus pais se fixaram e na qual ele e Amado nasceram e foram criados. A natureza adoniana atrai e esmaga o homem que a enfrenta, tornando-o bravio como ela mesma. Essa natureza ainda não domesticada, ainda não inteiramente dominada pelos pés de cacau, é o pano de fundo para a tensão existente entre a vida e a morte. O enredo adoniano fala dos dramas de uma sociedade semibárbara, na qual homens e mulheres cumprem a sua sina sob o peso inexorável do destino.

Adonias, mais do que as contradições sociais, enfatiza os dramas pessoais das personagens, relacionando-os com o ambiente natural selvagem que desumaniza as relações sociais, marcadas pela morte e pelo ódio. Nesse ambiente isolado e selvagem, o homem é subjugado pela natureza e pelos instintos. A descrição do ambiente ficcional traduz o isolamento das personagens que o habitam: “infinita é a estrada com suas curvas, suas colinas e suas árvores […] Onde começa, ninguém sabe. Onde termina, ninguém sabe também […] Existe como uma criatura humana. Insensível, acolhe-nos com desprezo, sem bondade” (Memórias de Lázaro, p. 3).

Intérprete de valores e costumes de gerações inteiras, Adonias transmitiu uma ideia toda própria do contexto histórico e cultural da lavoura cacaueira. No ambiente hostil sul baiano, existe um sentido de continuidade entre as diferentes gerações. De acordo com Paranhos, a principal função da personagem é a de cumprir, no presente, o destino herdado dos seus antepassados e, no futuro,

transmiti-lo aos descendentes207. Homens e mulheres estão presos a uma sina, estão amalgamados àquele chão: “É como se estivesse preso naquele pedaço de terra. E, se quisesse, podia caminhar livre,

com o rifle e a coragem”208 As personagens perpetuam em suas existências a sina do sangue derramado, atrelando a violência extremada ao destino dos seus.

Em Adonias a sociedade coloca-se como possibilidade, uma comunidade embrionária que aos poucos vai elaborando um “eu” reconhecível. A estrutura de poder na fase de desbravamento leva o homem a lutar por sua sobrevivência e a de sua família em meio a um ambiente de tragédias e selvagerias. A vingança e o ódio são os sentimentos que movem o homem nas linhas traçadas da sua sina. A morte torna-se uma das referências fundamentais dos enredos vivenciados por suas personagens e para a manutenção da memória de lutas passadas que caracterizam a história dos homens

que formaram a sociedade do cacau 209.

Adonias compôs uma obra em que as personagens são condenadas a sofrer a morte dos outros e a sua própria. Os grapiúnas adonianos são “servos da morte”, todos eles subjugados por um destino inexoravelmente ligado ao dos seus mortos. A morte aparece como elo comum no destino das personagens, conduzindo as suas vidas e aprisionando-os em uma teia imaginária de correlações entre o homem violento, a natureza inóspita e o destino trágico.

Os Servos da Morte narra uma história sobre maldição, ódio e violência. A dramaticidade do romance é desenvolvida em uma sequência de fatalidades onde se entrelaçam a pulsão erótica e a compulsão tanática. O ódio que Elisa sente pelo marido, Paulino Duarte, alimenta seu projeto de vingança. Paulino Duarte é um homem violento, típico daquelas terras, criado, desde a infância, isolado nas roças de cacau, vivendo entre os animais do pai, tornando-se, para Elisa, um deles. O destino a levara ao casamento, forçada pelas dívidas contraídas por seu pai. Criada no colégio das freiras em Ilhéus — e aqui se observa uma semelhança com Esther da Silveira (Terras) — Elisa é jogada repentinamente no ambiente hostil da Baluarte, fazenda amaldiçoada pela crendice popular dos trabalhadores rurais.

A vingança dá sentido à existência das personagens, é o destino que a elas se impunha. O ódio ao marido cresce à medida que Elisa constata nos seus filhos a reprodução da figura paterna. Embrutecida pelo ambiente e subjugada pela ideia de vingança mediante o adultério, Elisa morre em um parto. Ângelo, cujo nascimento causa a morte da mãe, é a encarnação do ódio materno, filho destinado a vingá-la. O menino cresceu como um estranho entre os irmãos, e o homem a quem chamava de pai. “Por que lembrava ele a presença da morta?” Insistentemente inquiria Duarte sobre a morte de Elisa: “O senhor sabe perfeitamente de que mamãe morreu. Não sabe?[…] eu quero ver o sangue dos seus vestidos” (p. 58). O papel que cabe ao filho de Elisa é vingar não somente a sua morte, mas a vida violenta que levara ao lado do marido que o destino lhe reservara.

Em As Velhas, Adonias explora o tema da morte na conquista da terra pela narração da estória de quatro mulheres cujos destinos se entrelaçam. O romance explora a questão das etnias envolvidas na conquista da terra, assim como a descrição do surgimento de núcleos urbanos erguidos nos limites da selva, “cenário quase constante das suas histórias […], rios e florestas de poder e profundidade quase amazônica, atraindo e esmagando o homem

que o enfrenta, tornando-o bravio e misterioso como ele mesmo.”210

Tari Januária é uma pataxó das matas de Inema que envia o filho mestiço, Tonho Beré, na busca dos ossos do seu pai, assassinado e enterrado há vinte anos no vale do Ouro pela família de Zefa Cinco, que “sem perder um tiro enviara cinco cabras para o inferno.” Zefa propõe a Tonho Beré a troca dos ossos pela filha tomada por um dos filhos de Lina de Todos, a pele branca de leite, os olhos azuis, que com os parentes abriam a selva que cerca Buerarema. Tonho Beré é auxiliado pela comunidade negra liderada por Zonga, descendente de escravos fugitivos que se internaram na mata e plantaram cacau.

As estórias das quatro mulheres dão conta dos conflitos entre os desbravadores e os pataxó pela ocupação das matas ainda inexploradas economicamente, “de ponta a ponta na selva de Ilhéus e Itabuna – que era tudo um só território -, guerra feia já se declarava entre os índios e os plantadores de cacau”. A visão adoniana do conflito tende a heroicizar a ação dos desbravadores em detrimento da resistência pataxó:

 

Pedro Cobra não abrira mão da terra que Paupemba ocupara e dez anos esperou para, tornando-se homem, retomar a derrubada. A indiada, então, já aumentara a matança. _ “Não vá, não se meta na mata que os pagãos estão bebendo sangue.” – todos aconselhavam. Era como na profundeza do inferno. Ninguém tinha sossego na derrubada ou na queimada. O índio, pisando em silêncio e sempre oculto na tocaia, matava sem piedade. Surgia de surpresa, em grupo, muito pior que a onça ou a cobra. E os plantadores logo compreenderam que, na defensiva, isolados uns dos outros, não tinham como vencer aquela guerra. Foi então que um deles, Boeco Preto, imaginou os assaltos […] Eles, plantadores, deviam se unir e, formando um bando, mostrar aos pagãos quanto valem os trabucos. Deviam caçar os índios para destruí-los, a bala e a faca, nas próprias malocas […] Os plantadores ainda eram tão poucos que se contavam nos dedos. Vinte brabos que negociavam as plantações, naquele fim de mundo, com as próprias vidas (As Velhas, p. 9).

 

Adonias ambienta o romance em um território formado por lugares e povoados que remetem ao desbravamento da zona do rio Almada, onde o autor nasceu e viveu grande parte de sua existência. Das selvas de Inema, “quatro dias mata adentro, seguindo as veredas”, chegava-se a Itajuípe, um “arruado de dez casas de barro batido”. Almadina, nas proximidades do Vale do Ouro, “era pouso certo para quem vinha do sertão do criatório em busca da selva do sul”. O local possuía um incipiente comércio, uma feira semanal, onde os sertanejos “trocavam animais por ferramentas e mudas de cacau. Mateiros e caçadores chegavam para a venda das peles e a compra de querosene, sal, aguardente e pólvora.” Era como se pelo povoado “passasse o povo inteiro que vinha povoar o sul da Bahia”, em um fluxo migratório onde não faltavam “jagunços, ladrões e assassinos” (As Velhas, pp. 14 e 40).