In memoriam: urbanismo, literatura e morte
Cortejos, missas e luto: a passagem para a “eternidade”
Cortejos, missas e luto: a passagem
para a “eternidade”
O cortejo fúnebre pode ser compreendido como um ritual por meio do qual os vivos tentam superar a desagregação do universo social e o fenômeno físico da putrefação do corpo para manter os laços existentes entre os que compõem o grupo familiar ou político em um mútuo sentimento de pertença. A análise da morte como acontecimento-espetáculo pode fornecer um importante testemunho acerca do contexto cultural e das expectativas dos grupos sociais.
Os critérios que presidiam a ordenação interna dos velórios e cortejos fúnebres deixam muito pouco ao acaso. Os improvisos ocorrem mais frequentemente durante os discursos à beira do túmulo, quando um presente pede a palavra para homenagear o morto em seu próprio nome ou no da entidade que representa. Adornos, vestimentas, sinais de pesar estavam todos de acordo com a solenidade dos funerais. A todos era exigido o acompanhamento de uma etiqueta que regulava o gestual, o tom da fala e as atitudes públicas e privadas desde o velório até o período de luto.
Devem ser levados em conta os aspectos subjetivos que envolvem os efeitos de um cortejo conscientemente ordenado e hierarquizado sobre a população. A par de outras formas de divulgação, como necrológios, anúncios fúnebres ou discursos à beira do túmulo, os velórios e os cortejos -- ou seja, o componente mais corpóreo, movimentado e público do ritual -- representavam o ápice dos rituais fúnebres. E, como o objetivo maior consistia em mobilizar as camadas populares, e criar identificação e fortalecer a consciência grupal, a fim de se atingir um espírito de coletividade,
pode-se compará-los com as procissões religiosas 315.
O itinerário era previamente traçado para que fosse feito o trajeto mais curto, ou mesmo o mais simbólico, contemplando determinados lugares frequentados pelo morto, em vida, numa espécie de última visita do corpo aos locais de referência familiar e profissional. Geralmente eram escolhidas as principais ruas que davam acesso ao campo-santo. Nelas seria possível que a população local apreciasse a passagem do esquife, murmurasse uma oração, admirasse a riqueza ou pobreza do cortejo, contabilizasse o número de pessoas que o acompanhavam, comentasse os fatos mais representativos da trajetória do morto.
Na cabeça do cortejo iam o caixão e as coroas de flores, carregados por membros da família, amigos e correligionários mais íntimos. Não raro as alças do caixão eram acirradamente disputadas. Logo atrás vinham as pessoas do círculo social do morto: colegas de ofício, correligionários, membros de associações religiosas e, muitas vezes, uma filarmônica. Os cortejos da elite econômica eram fechados pelos membros das camadas populares, que engrossavam o desfile fúnebre. Essa coreografia reproduzia, hierarquicamente, o ordenamento de outros cortejos cívicos e religiosos, nos quais a proximidade e o distanciamento quanto aos símbolos de referência denotam a condição social.
O cortejo fúnebre de membros das camadas mais abastadas podia servir como uma vitrine social, onde as demonstrações de proximidade com o morto eram especialmente relevantes. Essas verdadeiras procissões teatralizavam as redes de relações de poder expressas no cenário dominado pela morte. Neste sentido, o funeral cumpria uma série de preceitos com múltiplas funções, entre as quais demonstrar o sentimento pela perda do “ente querido” e expressar distinção. Também a variedade e qualidade das roupas utilizadas durante a fase do luto davam uma medida da condição social dos usuários.
Nos cortejos fúnebres os caixões substituíam os andores das procissões, como ponto central da cerimônia, no percurso pelas principais ruas das cidades. De forma homóloga às missas aos santos católicos, as missas em memória dos mortos também eram ministradas em datas que periodicamente recordavam seu falecimento: o sétimo e trigésimo dias e os aniversários anuais. Assim como os santos, cada morto terá o dia de culto dedicado à sua memória, mesmo que a homenagem esteja mais restrita aos membros de sua família, se comparada aos rituais de enterramento.
Tradicionalmente a igreja católica estabeleceu o seu ritual em torno da eucaristia e da missa, incluídos os sufrágios: os pedidos e orações dos vivos pelas almas dos mortos. A tradição popular, aliada à doutrina católica, fez da missa o recurso mais eficiente de intercessão pela ascensão das almas ao paraíso. O tempo de purgação das almas poderia ser abreviado por meio de orações e missas dirigidas ao Santíssimo Sacramento, a Nossa Senhora e aos santos de devoção. A celebração do sétimo dia de morte é associada ao dia do descanso divino após os seis de criação do mundo. As comemorações do trigésimo dia e dos aniversários anuais de morte marcam a passagem do tempo e rememoram a existência individual e são renovados os sentimentos de pesar à família.
Na missa de corpo presente, realizada no interior dos templos, o caixão era colocado próximo ao altar, sobre uma base, e coberto com tecidos negros. As exéquias tinham nas preces o seu ponto alto, as quais eram direcionadas aos santos e aos anjos para que recebessem a alma do(a) falecido (a) e “a apresentassem face ao Altíssimo.” A absolvição era realizada junto ao corpo e rogava-se o atendimento das súplicas dos fiéis presentes. No cemitério, as preces suplicavam aos anjos, condutores da alma que deveria ser acolhida pelos mártires no paraíso, e a Deus “que deveria abençoar
o túmulo e enviar um anjo para guardá-lo”316.
No cemitério, um ou mais oradores tratavam de fazer o elogio ao morto nos costumeiros discursos laudatórios. As qualidades mais apreciadas, via de regra, estavam exemplarmente ligadas aos valores burgueses: o amor à família, a honestidade na condução dos negócios, a fidelidade aos amigos ou ao partido, a generosidade com os pobres e a igreja. Os oradores eram, geralmente, pessoas que possuíam experiência no ofício de discursar para um grande número de pessoas. Após os discursos, a família e os amigos lançavam pequenas quantidades de terra sobre o caixão. O sepultamento finalizava as atividades do cortejo, uma espécie de última despedida ao corpo do ente querido.
No início do século passado, as mulheres não acompanhavam os corpos aos cemitérios, e só aos homens o uso investiu “de tão piedosa obrigação.” Segundo a Gazeta de Ilhéus, não “enraizou-se o costume” de acompanharem as mulheres o féretro, “o que era ainda mais natural se o morto fosse do seu sexo,” para evitar-se “cenas mais tocantes, como essas que presenciamos no momento em que o caixão era retirado de casa para seguir caminho para o
cemitério”317. A participação de mulheres parecia estar restrita aos enterros de crianças do sexo feminino.
Em 1903, Joaquim Eugênio de Carvalho manifestou o seu “inolvidável agradecimento” a todas as pessoas que se dignaram comparecer ao enterramento “da sua sempre lembrada filhinha,” bem assim “a gentileza que lhe dispensou (sic) as excelentíssimas famílias dos amigos mandarem as suas filhinhas carregar o corpo
da inocente até a sua última morada” 318. O enterro da “idolatrada filha” do juiz Júlio de Brito, com 13 anos de idade incompletos, foi acompanhado por “extraordinário número de crianças, senhorinhas e cavalheiros,” que deram uma prova “de quanto estimam os seus
desolados genitores.” 319
A perda materna suscitava “as lágrimas de um filho, que se vê privado para sempre dos carinhos e conselhos de uma boa e santa mãe.” O desaparecimento das matriarcas “lança na tristeza e na dor centenas de lares, nos quais a sua influência benéfica, os seus
conselhos sãos se faziam sentir” 320. Ao falecer, a senhora Lucrécia Sellman Alves, “digna esposa” do coronel José Firmino Alves, foi adjetivada como um esposa “rica de virtudes, mãe de família exemplar, que deixa quatro filhas, também esposas e mães distintas, e o carinhoso e dedicado companheiro de cerca de 50 anos”. E morreu “entre os seus, nos braços da unida e grande família”. A mulher, além de ser detentora de inúmeras virtudes, servia de referencial para a parentela que se reunia em torno do seu
leito para assistir a sua morte321.
Assim como os homens, as mulheres “ilustres” tinham uma ampla cobertura do seu falecimento ocupando as primeiras páginas dos jornais. O Correio de Ilhéus “tarja de luto a sua coluna principal” para registrar o falecimento da senhora Isaura Pessoa Olivieri, “esposa mui digna, do nosso amigo Durval Olivieri e dileta filha do nosso acatado diretor senador Antônio Pessoa.” Gravemente enferma já há algum tempo, “o anjo da morte adejava sobre o lar de d. Isaura, para dele quebrar, traiçoeiramente, um de seus esteios, um dos mais belos espécimes de esposa desvelada e de mãe carinhosa.”
Outra morta ilustre foi Josefa de Queiroz, “digna senhora que fôra um dos bons elementos” da sociedade ilheense, que “rendeu-lhe em um movimento tão espontâneo quão significativo as homenagens a que fizera jus pelas distintas qualidades que lhe exornava o espírito
eminentemente cristão e católico” 322. Durante a longa moléstia que a vitimou “não faltaram nunca as incessantes visitas.” Daí o grande número de pessoas que acompanharam o seu enterro e a disputa na condução do féretro: “mal uma pessoa pegava em uma das alças do caixão, outras e outras se apresentavam à substituição.”
Horas antes do enterro, o bispo rezou uma missa de corpo presente em sufrágio da sua alma. À entrada da catedral foi o caixão recebido por duas comissões das associações religiosas, o Apostolado do Sagrado Coração de Jesus e o Sodalício de São José, “que o conduziram à eça adrede preparada em torno da qual foi feita a encomendação solene” pelo padre Celso Monteiro, “acolitado por um coro de seminaristas sob a direção do cônego Clarindo Ribeiro, ilustre secretário da diocese.” Ao baixar o caixão à sepultura, o reverendo vigário fez a “encomendação do momento”, após a qual foi entoado o cântico fúnebre De profundis, fazendo-se em seguida a inumação. Por outro lado, os anúncios das mortes de mulheres “do povo” traduziam em poucas linhas a desigualdade de espaço concedido, como o de “Josefa de tal, viúva do africano Adão,” que em apenas duas linhas tinha o anúncio do seu
falecimento 323.
Quanto ao tempo dedicado ao luto, havia a norma de se vestir de preto por um tempo determinado. Aqueles que não podiam comprar um novo guarda-roupa tingiam de preto as vestes usadas por um período em torno de um ano. Usava-se o preto por seis meses, depois se aliviava o luto. Aí se usava o preto e o branco, depois azul-marinho, até voltar-se às roupas comuns. Havia o luto prolongado por toda a vida, no caso de viúvas mais tradicionais. Durante o luto havia restrições quanto à participação dos familiares em festas e comemorações, seguindo, assim como o uso da cor preta, uma flexibilidade progressiva. Havia também uma distinção no luto quanto à faixa etária do morto, sendo o luto pela morte de crianças (“anjos” sem pecado) mais curto que pela de adultos.
O período de luto variava de acordo com os costumes locais ou familiares, o grau de parentesco ou a proximidade com o morto. O luto deveria ser usado durante seis meses por cônjuges, ascendentes e descentes diretos; quatro meses para irmão, sogros, genro, nora e cunhados; dois meses em homenagem aos tios, irmãos por lado materno ou paterno, sobrinhos e primos; e quinze dias por parentes consanguineamente afastados. A legislação civil republicana não contemplava práticas relativas ao luto, diferentemente da colonial que dispunha sobre a matéria.
A família, portanto, constituía o núcleo central de gestão da crença na sobrevivência da memória, complementando a sobrevivência transcendente. Esse núcleo é o principal responsável pelas visitas ao cemitério, essencial ao culto dos mortos, visitas estas feitas não somente com a intenção de interceder por eles através das orações, como também reatualizar a sua presença na memória dos vivos. Essa comemoração, sem a presença de um mediador eclesiástico, ganhou importância a partir do século XIX, principalmente nas datas do aniversário de falecimento e no Dia de
Finados 324.
Os momentos mais expressivos ocorriam quando do deslocamento de membros da família, individualmente ou em pequenos grupos, às sepulturas dos parentes, para limpeza, colocação de flores e para orações e rememorações silenciosas. Esta comemoração se dava sem estardalhaço e ocorria mais no âmbito familiar. Apesar de seu caráter público, a visita ao cemitério era basicamente um ato levado a termo pela parentela para reforçar a sua coesão pelo culto às figuras de referência.
Menos comuns, mas não raras, eram as visitas programadas por amigos, correligionários, colegas de trabalho ou de associativismo e entidades públicas às sepulturas de pioneiros ou cidadãos-símbolos, algumas das quais por eles custeadas. Esse tipo de visita demonstra a função social e pedagógica que a sociedade atribuía à memória dos mortos. O ato coletivo de caráter mais abrangente buscava imitar a raiz familiar da liturgia, contudo introduzia modificações decorrentes de atitudes que não estavam no âmbito da consanguinidade.
As visitas revestiam-se de um caráter claramente comemorativo, com um maior número de participantes e muito mais ruído devido aos discursos e aos “vivas”, característica que não se encontra nas comemorações de cunho familiar. As visitas ao cemitério representavam exéquias consagradoras, um ritual posto a serviço da construção de uma hagiografia laica. Tais exéquias constituíam, dessa forma, ritos de repetição que buscavam a glorificação da memória do morto ou de seu grupo social. Tanto nos cortejos, quanto nas visitas, se concretiza a evocação de uma memória capaz de identificar e filiar, mediante a estratégia demarcadora, laços de coesão.
Em momentos de ruptura, quando ocorrem transformações suficientemente amplas em curto espaço de tempo, inventam-se novas tradições. Ocorre, então, o surgimento de uma nova simbologia que luta para impor a sua legitimidade. Os conflitos e as aproximações entre os diferentes grupos sociais fundamentam a elaboração da identidade. Uma identidade que se construiu com base em empréstimos ininterruptos, os quais, no entanto, se incorporaram ao contexto local. A produção de imagens para si e para os seus membros não se faz no vazio social, mas em um determinado contexto, por meio da oficialização e proliferação de
rituais, da criação de monumentos e de um passado legitimador 325. Funerais, política e sociedade