In memoriam: urbanismo, literatura e morte

André Luiz Rosa Ribeiro · Capítulo 17 de 27

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In memoriam: urbanismo, literatura e morte

Os ritos de separação entre os vivos e os mortos

Assim, em torno dos andores ou dos caixões, trajando fraque, cartola e bengala no melhor estilo europeu, as aparições públicas dos coronéis, exportadores e bacharéis do cacau eram verdadeiros espetáculos. As próprias cidades foram se revestindo de novas significações tanatológicas. Os espaços cemiteriais, antes relegados ao esquecimento por parte do poder público, passaram por um intenso processo de valorização. Tanto como os palacetes neoclássicos, os túmulos monumentais e as patentes superiores demonstravam o prestígio individual e o do grupo, e as comemorações cívicas, religiosas e fúnebres também marcavam diferenças.

 

Os ritos de separação entre os vivos e

 

os mortos

 

O processo de separação entre os vivos e os mortos envolvia a preparação do corpo, o velório, a missa de corpo presente, o cortejo, a inumação e o luto, que compõem um quadro de referências quanto a comportamentos e atitudes frente ao fenômeno físico da morte. Os rituais fúnebres tinham duas dimensões distintas e complementares. A primeira consistia nos procedimentos religiosos comuns à maioria dos funerais, excetuando-se os de indivíduos pertencentes à outra religião que não a católica apostólica romana, como no caso de cristãos maronitas, judeus e protestantes. A segunda possuía um caráter mais laico, predominantemente voltado para a ostentação de status social e a exaltação da personalidade do morto. Nesta última, o investimento material traduzia a importância do momento da morte para o estabelecimento de imagens positivas para o indivíduo e para o grupo familiar, político ou profissional dentro de um quadro de expectativas sociais.

Para atender a essa nova demanda, alguns negociantes começaram a organizar a infraestrutura visando a dar suporte aos funerais da população. Em 1913 ocorreu a inauguração da casa mortuária de João Carlos Oliveira, “fornecedora de caixões fúnebres para adultos e anjos.” Oliveira “encarregava-se de armações fúnebres e festivas, dispondo de oficiais habilitados, garantindo perfeição nos seus trabalhos, podendo ser procurado a qualquer

hora do dia e da noite em sua residência”302.

A preparação do morto para os funerais geralmente estava a cargo da família ou de pessoas próximas com alguma experiência no assunto, pois não havia disponibilidade de profissionais como os disponíveis nas funerárias contemporâneas. O corpo era lavado, os cabelos e as unhas cortados, as melhores roupas eram vestidas com presteza para que o enrijecimento natural do cadáver não dificultasse a ação. Tomadas as medidas necessárias quanto à higienização do corpo e à escolha do vestuário, tratava-se de adequar a residência para a cerimônia do velório, providenciar a sepultura para o enterramento e encomendar o caixão que receberia o corpo.

Antes do aparecimento das mortuárias, os caixões eram feitos sob encomenda por carpinteiros locais, que os fabricavam de acordo com as posses do morto. Assim como as vestes, a qualidade e o custo final do caixão serviam como definidores da condição financeira do morto. Aos abastados cabiam invólucros suntuosos ricamente adornados, num contraste gritante com a singeleza dos que serviam aos menos favorecidos, simples tabuados compactados sem nenhum requinte.

O sexo e a idade do morto influíam no uso da roupa fúnebre. As mortalhas representavam um claro simbolismo religioso que concedia ao morto uma espécie de sacralidade. Havia o costume de trajar as mulheres com mortalhas, que eram costuradas em casa. As mulheres adultas comumente vestiam mortalhas brancas, enquanto as meninas usavam o branco e o rosa. Os meninos usavam mortalhas azuis. Os homens eram invariavelmente

enterrados vestidos de paletó de cor escura e gravata303.

A qualidade das roupas definia o padrão econômico do indivíduo e da sua família, em uma clara referência ao seu lugar social. As roupas e objetos do morto tinham diferentes destinações. As roupas íntimas, as de cama e o colchão eram muitas vezes jogadas fora ou queimadas, quando por morte devido às doenças contagiosas, como a tuberculose e as febres, responsáveis por um grande número de mortes na região nas primeiras décadas do século.

Tomando como amostragem os anúncios fúnebres e os registros de óbitos relativos ao município de Ilhéus entre as décadas de 1900 e 1930, pode-se ter uma ideia aproximada das principais causas de morte no período delimitado. O primeiro intervalo de tempo (1900-1910) corresponde à fase final da ocupação da área do antigo município de Ilhéus, enquanto o segundo (1920-1930) corresponde à fase “áurea” da produção de cacau nas primeiras décadas do século XX.

A Tabela 12 mostra as causas de morte, retiradas de 205 anúncios fúnebres veiculados nos jornais locais do período,

enquanto a Tabela 13 refere-se às causas de morte retiradas de 1012 registros de óbitos do cartório de pessoas naturais de Ilhéus. Os livros de registros de óbitos do cartório de pessoas naturais apresentam ausência de registros por anos seguidos, especialmente na década de 1900 a 1910. Infelizmente, entre os anos não registrados está o de 1918, quando ocorreram a epidemia da gripe espanhola e o conflito armado do Sequeiro do Espinho. Ambos os acontecimentos deveriam representar um pico nas mortes causadas por armas e doenças contagiosas.

 

Tabela 12 – Causas de morte em anúncios fúnebres por década.

Município de Ilhéus (1900-1910 / 1920-1930)

Causa 1900-1910 1920-1930 Total %

Assassinato 61 (51,3%) 05 (5,8%) 66 32,2

Febres 11 (9,2%) 08 (9,3%) 19 9,3

Influenza 14 (11,8%) - 14 6,8

Tuberculose 06 (5,0%) 05 (5,8%) 11 5,4

Coração 02 (1,7%) 08 (9,3%) 10 4,9

Congestão 03 (2,5%) 05 (5,8%) 08 3,9

Parto 05 (4,2%) 01 (1,2%) 06 2,9

Suicídio 02 (1,7%) 03 (3,5%) 05 2,4

 

Fonte: Centro de Documentação e Memória Regional da Universidade Estadual de Santa Cruz – CEDOC/UESC.

Causa 1900-1910 1920-1930 Total %

Outras 15 (12,6%) 51 (59,3%) 66 32,2

Total 119 86 205 100

Fonte: Centro de Documentação e Memória Regional da Universidade Estadual de Santa Cruz – CEDOC/UESC.

 

Tabela 13 – Causas de morte em registros de óbitos por década.

Município de Ilhéus (1900-1910 / 1920-1930)

Causa 1900-1910 1920-1930 Total %

Febres 186 (28,7%) 94 (25,8%) 280 27,7

Tuberculose 130 (20,1%) 66 (18,2%) 196 19,4

Coração 45 (6,9%) 78 (21,4%) 123 12,2

Assassinato 60 (9,3%) 32 (8,8%) 92 9,2

Congestão 45 (6,9%) 14 (3,8%) 59 5,7

Parto 17 (2,6%) 06 (1,7%) 23 2,3

Suicídio 01 (0,2%) - 01 0,1

Outras 164 (25,3%) 74 (20,3%) 238 23,4

Total 648 364 1012 100

Fonte: AFEBC. Cartório de Registro de Pessoas Naturais do Município de Ilhéus – Registros de óbitos (1910-1930).

 

As doenças contagiosas, como as febres e a tuberculose, são as principais causas de morte no município, alcançando 47,1 % do total encontrado. Há, porém, um declínio na incidência dessas doenças nas décadas de 1920 e 1930 devido, provavelmente, à melhoria da infraestrutura sanitária urbana e os avanços da ciência médica. Os assassinatos, que são a principal causa registrada nos jornais na primeira datação, também sofrem um declínio nas décadas posteriores, quando há uma presença mais efetiva do aparelho estatal e redução das disputas armadas pela posse de terra. Poucos são os registros de mortes ocorridas no Hospital da Santa Casa. A maioria da população ainda vinha a falecer em suas residências rurais ou urbanas. Permanecia o hábito do atendimento médico domiciliar e as visitas de parentes e amigos, a chamada “boa morte”.

Com a proximidade da morte, o enfermo deveria receber, em seu leito, a extrema-unção, e o perdão pelos pecados cometidos. De acordo com as normas religiosas, a comunhão deveria ser ministrada aos enfermos caso a sua condição física assim o permitisse. O mesmo deveria acontecer em relação à extrema-unção, último sacramento que o indivíduo receberia em vida. Esse ritual ocorria determinado pela proximidade presumível da morte. Em volta do leito de morte, localizado nas residências ou nos hospitais, um religioso ungia o moribundo com óleo sagrado e

perdoava os pecados por ele cometidos304.

Os sacramentos, porém, eram terminantemente negados aos que atentavam contra a própria vida cometendo suicídio. A igreja católica oficializou a condenação durante o concílio de Arles, em 1452. O entendimento de que a vida seria o dom maior de Deus concedido aos homens transformou o suicídio num dos mais graves pecados que podiam ser cometidos por um cristão. Apesar da recusa do amparo religioso aos suicidas, estes não deixavam de receber as devidas homenagens laicas.

Os casos de suicídio de parentes de religiosos deixam transparecer um conflito de sentimentos, como ocorreu ao cônego Evaristo Bittencourt, “assaz consternado pelo doloroso acontecimento que veio pungir o seu coração”. Um seu irmão, de nome Manoel, “moço, trabalhador, bem quisto, cercado de todo o conforto que lhe podia proporcionar aquele parente nobilíssimo”, pôs termo à própria existência. Mesmo sem a presença de religiosos, um grande número de pessoas acompanhou o morto ao cemitério, e “nos semblantes de muitos a dor imprimia o seu eloquente cunho,

traduzindo a comoção lutuenta (sic) que aquele quadro produzia” 305. Ao religioso era vetado acompanhar e ministrar os últimos sacramentos ao parente morto.

A totalidade dos anúncios fúnebres e necrológios relativos a suicídios diz respeito a membros das camadas mais privilegiadas da população, as importantes famílias de fazendeiros e políticos da região. Isto leva a supor que o suicídio ocorria motivado mais por razões de fundo psicológico do que por questões financeiras. Por um amor não correspondido matouse Milton Pessoa de Amorim, neto do coronel Antônio Pessoa, que assim perdeu “uma das mais jovens e legítimas esperanças”.

Noticiou o Correio de Ilhéus que a cidade “pranteia a morte súbita” de Milton Pessoa de Amorim, “filho amantíssimo desta terra”, onde já aos vinte e um anos de idade “gozava de inconfundível prestígio, pela sua radiosa inteligência, pelas qualidades morais que lhe constituíam o caráter e pelos excelsos dotes de seu boníssimo coração”. Mocidade “em plena florescência, existência em flor”, Milton “vibrava com as mesmas vibrações da alma grandiosa de

Ilhéus”306. Há um claro intento de retirar qualquer tipo de mácula da imagem do descendente do principal chefe político regional. A gravidade do ato extremo foi relativizada pelo enaltecimento das virtudes pessoais e familiares do morto.

A “estupenda romaria” feita à casa do “jovem desventurado” valeulhe por “justa sagração”. Milton era “estimado por todos, grandes e pequenos, políticos ou não”. Divulgado o “doloroso” acontecimento, “para mais de mil pessoas correram a vê-lo, pela última vez, na expressão martirizada, porém sublime” na câmara ardente armada no salão nobre do palacete Pessoa, onde o corpo foi velado. O sentimento de pesar “que a todos dominava” foi o “mais expressivo que já se verificou, em transe dessa natureza”.

A quantidade de pessoas presentes ao funeral e a profusão de flores naturais depositadas sobre o túmulo eram “a mais eloquente prova do quanto eram apreciadas as excelentes qualidades e quanto profundamente abalou o espírito público o seu prematuro desaparecimento.” O órgão de imprensa registra outro especial deferimento do Diário da Tarde, órgão da corrente política contrária que faz uma ampla cobertura dos funerais “vasada em termos distintos e eloquentes”. A “memória do jovem desventurado saberá

ser grata a quem, com sinceridade, traçou aquele artigo lapidar” 307. Ao sepultamento compareceram representações de associações diversas e amigos, havendo, à porta do cemitério “uma salva de três tiros em funeral por atiradores do Tiro de Guerra 500” ao qual Milton

era associado. 308

Os textos da época expressam uma visão do suicídio como um ato desprovido de racionalidade, provocado pela perda da razão. Fatalidade que atenuava o atentado contra os preceitos católicos. A loucura levaria ao ato suicida, como ocorreu ao jovem poeta sul baiano Guttemberg Berbert de Castro. O “talentoso conterrâneo” contava apenas 22 anos de idade quando pôs fim à própria vida “tragicamente, obedecendo aos impulsos do seu estado mental abatido por incurável doença, que há muito lhe roubara o perfeito juízo”, uma cegueira progressiva que o acompanhava desde

criança309.

Os jornais de Salvador, cidade referida como “Bahia”, traziam “sentidos necrológios” de Guttemberg Castro, entre os quais o Diário de Notícias e o Diário da Bahia. O jornalista Henrique Cancio argumenta que o desequilíbrio mental foi o responsável pelo suicídio de Castro, relativizando a culpa do poeta pelo grave atentado às leis de Deus e à razão humana: “Eu não compreendo, não aceito, não perdoo o suicídio. Há, porém, um suicídio que se perdoa, o dos feridos no cérebro. A luz apagou-se e a treva os arrasta ao túmulo. Foi por isso que morreu o pobre Guttemberg.”

O jornalista Cancio havia conhecido o poeta alguns anos antes de sua morte. Ao descrever a personalidade do morto, com base nesse encontro, traçou o perfil de uma pessoa equilibrada, porém melancólica: “a palavra lógica, precisa. Os olhos tristes e pouco iluminados. Naquele infortúnio havia uma grande alma torturada de poeta.” Em alguns dos sonetos ele deixava transparecer “os sofrimentos de sua alma”, entre eles Supremo Anseio, escrito três anos antes, no qual a ideia do suicídio já se faz presente. Nele podemos perceber que a ideia da morte como alternativa à cegueira foi contemplada por um longo tempo, à medida que a doença se agravava:

 

Supremo Anseio

 

Estes livros que vedes, meus senhores

Úmidos, sujos, velhos, bolorentos, Sentem comigo os mesmos sofrimentos

Sofrem comigo as cruentas dores.

 

Vendo-os assim, entregues aos travores

De um desprezo sem fim, meus pensamentos Espelho que reflete meus tormentos

Tornam-se logo cheios de negrores.

 

É que em minh’alma eu sinto, tristemente, Que luzes não terei mais nos meus olhos

Para lê-los como os lia antigamente.

 

E assim pensando, deste modo, assim

Se a existência p´ra mim só tem abrolhos,

Só anseio chegar da vida ao fim (maio de 1919) 310 .

 

Em outro soneto Guttemberg retrata o seu estado de espírito diante da doença e do fim dos projetos que “a infância minha idealizou outrora./ Hoje tudo mudou. Apenas mora/ Na minha alma repleta de amargura/ A esperança brutal de à cova escura/ A morte amiga me tanger agora.” Anos mais tarde o poeta alcançaria o seu “supremo anseio”. Um artigo de Pedro Calmon, na Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro, traça o perfil do “vate baiano que fazia ilustre” na idade que em que o foram Castro Alves e Junqueira Freire.

Calmon reforça a ideia de irracionalidade do suicídio. “Desde tenros anos sofria cruel enfermidade da vista. E à proporção que se lhe agigantava o espírito, menor ia sendo o raio visual das coisas cá do mundo.” Aos vinte e dois anos, quase cego, “o poeta reveste-se por fim da mentalidade revoltada.” Quando “mais negra é a nuvem implacável” que lhe toma a vista, “a mão febril do moço tateia o revólver.” E, pedindo “perdão a Deus e a bênção aos pais”, sem que

“lhe tremesse o pulso”, descarregou no meio do peito311.

Aos que morriam de causas outras que não o suicídio, e que desta forma se qualificam para receber os sacramentos religiosos, o passo seguinte ao seu falecimento era a convocação da população em geral, por parte da família ou de associações, para acompanhar a sentinela e o enterro. As cerimônias públicas eram julgadas em sua importância pela quantidade e pela qualidade dos participantes. Para ter um efeito pedagógico sobre a população, os funerais eram organizados conscientemente para alcançar a maior dimensão coletiva e pública possível. São inúmeros os relatos dos grandes acompanhamentos, aos mortos ilustres nos quais funcionários públicos, estudantes, associações de classe e músicos, compunham a multidão que pelas ruas acompanhava o cortejo rumo ao cemitério em homenagem à memória do morto.

Os relatos da imprensa destacam a imponência dos cortejos da elite econômica em um contraste gritante com a simplicidade dos enterros mais humildes das camadas populares. O desejo de ter toda exibição possível é comumente o argumento decisivo pelo qual se pede a presença popular pelos convites impressos nos jornais, informados por cartas ou telegramas. A família, os amigos e/ou correligionários publicavam, nos jornais locais, os agradecimentos pelo comparecimento aos funerais e os convites para as missas mandadas rezar pela alma do morto.

Essa crença na força intercessora das orações advém dos escritos bíblicos. A igreja católica romana admite a possibilidade de os vivos intercederem pelos mortos mediante orações, como descrito em Judas Macabeus (4:52-59), que manda realizar sacrifícios em honra dos que morreram. O processo de divulgação e organização dos funerais era feito, em grande, parte pela família e pelas associações profissionais e maçônicas, estas últimas bastante valorizadas no início do século, muitas das quais assumiam as despesas com os funerais do seu representante. Um exemplo de anúncio fúnebre maçônico veiculado no Correio de Ilhéus, e uma

cruz com símbolos maçônicos (Figura 11), fazem referência a uma homenagem póstuma inteiramente laica:

 

AUG .. RESP.. E SUBL.. LOJ.. CAP.. Regeneração Sul Baiana SESS.. FUNEB.. (CONVITE) – De ordem do Resp.. Mestr.. convido a todos o ilr.. do Quad.. e MMaç.. RReg.. para uma sess.. Funeb.. em homenagem ao saudoso Ortélio Lauro de Moura 3.. membro que foi da nossa Aug.. Off.. a qual terá lugar em lugar e hora do costume. Or.. de Ilhéus, 19 de maio de

1925 (E.. V..). Alcino Dórea, Sec.312.

Figura 11 – ASCM: Cruz de mármore sobre coluna – década

de 1920 [Foto do Autor]

 

Fonte: Foto André Luiz Rosa Ribeiro

 

Para os católicos, enquanto a extrema-unção era ministrada com a pessoa ainda viva, a encomendação dava-se com o corpo morto, cerimônia geralmente realizada nas residências ou nas igrejas, com ambos os espaços transformados em espaços de consagração individual. Havendo falecido fora da região, o corpo embalsamado do coronel Domingos Alexandre do Nascimento foi embarcado de navio até o porto de Ilhéus, “onde já se achavam representantes de várias classes sociais, parentes e amigos do extinto”, e dali transportado para a catedral diocesana, em cujo templo se realizaram “as exéquias oficiadas pelo padre Celso Monteiro, acolitado por dois sacerdotes da diocese”. No coro da igreja matriz, um grupo de cantoras “entoou hinos sacros e no átrio a Euterpe 3

de Maio executou diversas marchas fúnebres” 313 em homenagem ao falecido coronel.

Se a família assim o desejasse, mediante pagamento, a encomendação da alma também poderia ocorrer na residência em que se encontrava o corpo. O ritual de encomendação do corpo era a última despedida do ambiente familiar feita na saída do cortejo fúnebre rumo ao cemitério. Os adultos “ilustres” eram encomendados e acompanhados por mais de um religioso até a sua sepultura; em casos mais raros o próprio bispo encomendava a alma.

Cito como exemplo os funerais do coronel José das Neves Brasil, que na “antevéspera do seu falecimento havia se confessado e recebido todos os sacramentos ministrados pelo bispo diocesano.” Durante a sua moléstia o coronel “foi visitado constantemente por pessoas da vizinhança e amigos de posição social. O senhor bispo dom Manuel visitou-o mais de uma vez. Quando exalou seu último suspiro estava cercado de parentes, amigos e protegidos.”

O coronel Brasil registrou, em testamento, o desejo de que seu corpo fosse inumado na capela de Nossa Senhora da Conceição, na fazenda de sua residência, desejo que foi cumprido, tendo o bispo

ido celebrar a missa de corpo presente314. Outro momento de intervenção religiosa pelo encaminhamento da alma dava-se após a inumação do corpo, quando era aspergida água benta sobre o túmulo. Esse ritual era considerado desnecessário no caso da morte de crianças, os “anjinhos”, que ainda não tinham pecado.

Os velórios eram feitos, em sua maioria, na residência em que ocorria o falecimento. O corpo era depositado no cômodo mais amplo da casa. Geralmente as salas das famílias mais ricas eram transformadas em câmaras ardentes. Castiçais eram usados para iluminar o ambiente com um grande consumo de velas. O corpo era “velado” pelas pessoas que iam se revezando nas rezas e nas palavras de consolo aos parentes mais próximos. Após o desenlace, a vela de cera virgem destinava-se a iluminar o caminho da alma. A luz era tida como uma dádiva dos vivos aos mortos, a forma pela qual os vivos controlariam e orientariam aquela alma.

A dimensão social da morte fazia com que, durante o velório, o espaço privado da residência do morto fosse momentaneamente transformado em lugar público. Com a notícia da realização dos velórios, as pessoas, por amizade, caridade cristã ou mesmo simples curiosidade, afluíam livremente ao interior das casas para rezar ou observar o morto. Essa apropriação pública momentânea caracterizava-se pela liberação do acesso aos cômodos da habitação em um fluxo constante, restrito apenas pelos limites do espaço físico. O acesso do público ao interior da câmara ardente era livre e, dependendo do prestígio social do morto, longas filas se formavam em torno do caixão para uma última despedida. A seguir, as novas etapas do cerimonial, que eram conduzidas no sentido de promover a necessária ruptura entre os vivos e os mortos, preparando-os para uma nova existência no terreno simbólico da memória.