In memoriam: urbanismo, literatura e morte

André Luiz Rosa Ribeiro · Capítulo 5 de 27

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In memoriam: urbanismo, literatura e morte

A participação estrangeira na economia cacaueira

Os colonos estrangeiros e outros lavradores, principalmente sergipanos, fixados às margens do Cachoeira, formavam a maioria dos proprietários de terras nessa zona. Grande parte dessas propriedades era de pequeno porte, variando entre dez a cem braças de frente, sendo o cacau a principal lavoura, plantada ao lado do café e da mandioca. Com o fim da disponibilidade de terras devolutas próximas ao litoral, a fronteira expandiu-se mais e mais em busca das melhores terras para o plantio do cacau, principalmente nas zonas de Tabocas, Água Preta e Sequeiro do Espinho, atuais municípios de Itabuna, Uruçuca e Itajuípe. Ao lado da expansão agrícola ocorreu o surgimento de novos povoados na zona rural, principalmente no final do século XIX.

A maior parte desses povoados nasceu nas proximidades das grandes fazendas, quase todos às margens de algum curso d’água. Aos poucos não somente aumentava o número de lavradores de cacau na fronteira oeste, como os agricultores das outras áreas haviam transformado as serrarias e engenhos em fazendas de cacau. A produção de açúcar, aguardente, madeira e farinha não se extinguiu, mas limitou-se à demanda local, enquanto o cacau era o produto para exportação por excelência.

 

A participação estrangeira na

 

economia cacaueira

 

A difusão da lavoura cacaueira no sul da Bahia deu-se, especialmente a partir de dois locais: as bacias dos rios Almada e Cachoeira, em Ilhéus, de onde se alastrou para o interior e o norte; e o vale do Jequitinhonha, de onde se estendeu para o extremo-

sul70. Como foi apontado anteriormente, o início do cultivo comercial no município ilheense ocorreu na primeira metade do século XIX, às margens do Almada, sendo os pioneiros principalmente suíços e alemães com capital, que investiram na construção de engenhos, onde plantaram cana-de-açúcar, café e cacau. Índios diaristas e negros escravizados formavam a base da mão de obra utilizada na derrubada de árvores, no plantio e colheita das lavouras.

Felisberto Brant foi um dos principais responsáveis pela vinda de estrangeiros interessados em investir em novas culturas no Brasil, assim como de vários intelectuais que pesquisaram os costumes indígenas, a fauna e a flora locais. Vários técnicos foram contratados para trabalhar em suas propriedades, como o maquinista escocês Mathew Falconer, o engenheiro naval Jean Level e seu cunhado François Lavigne, estes últimos acompanhados de suas famílias. Foi também responsável pela vinda do médico Jast Muller para tratar dos escravos e trabalhadores do Santana.

O primeiro grupo de europeus com algum capital chegou entre as décadas de 1810 e 1820, e contribuiu com significativas mudanças para a região, como a abertura de grandes estabelecimentos agrícolas policultores que se transformariam em importantes fazendas de cacau. A abertura das matas às margens do Almada e dos seus afluentes, e a sua progressiva substituição pela roças de cacau e café foi inicialmente levada a termo pelos Weyll, Schimidt, Borel e Saueracker, conhecidos pela população local como os “solitários do Almada”. Em poucos anos foram seguidos por outros estrangeiros de diversas procedências, como os Lavigne, Scola, Adami, Hohlenwerger, e por investidores nacionais, estando entre eles as famílias Sá Bittencourt, Homem D’el-Rey, Pereira Gallo, Moniz Barreto, Marques Valente e Cerqueira Lima, que formaram entre si em uma rede de relações sociais onde figuram a vizinhança, o casamento, o compadrio e as alianças políticas.

O plantio intensivo do cacau nas matas do rio Cachoeira deu-se a partir de uma colônia de estrangeiros, principalmente de origem alemã. Esses colonos foram trazidos por Weyll e Saueracker, entre os anos de 1823 e 1824, para substituir a mão de obra escrava em suas fazendas no Almada. O período da chegada dos colonos coincidiu com o período caótico da Guerra de Independência. Várias dificuldades impossibilitaram a instalação dos colonos no Almada. Por ordem de Pedro II, incentivador da imigração alemã, a câmara de Ilhéus pagou diárias aos colonos pelo espaço de dois anos e mandou derrubar matas e preparar roçados à margem esquerda do Cachoeira para os mesmos.

A leva de imigrantes alemães formava um grupo de vinte e oito famílias com cento e sessenta e uma pessoas, entre crianças e adultos. Alguns possuíam ofícios urbanos, como ferreiros, padeiros e relojoeiros, e trouxeram meios para se estabelecer. Apesar da falta de infraestrutura, das febres e do abandono de parte dos alemães que se transferiram para o sul do Brasil, os que ficaram foram auxiliados pelo governo imperial e municipal com dinheiro e terras às margens do Cachoeira entre o atual Salobrinho e a atual cidade de Itabuna, entre as quais as famílias Berbert, Ninck, Scher, Schuepach, Stefans, Koch, Cordier, Dahl, Wense, Khaene, Witta, Monstans, Lawinscky, Kruschewsky, Bonin, entre outras, que vieram a formar um núcleo construído com base nas relações de família, vizinhança e política.

O grupo de alemães era formado por indivíduos das mais variadas faixas etárias e ocupações. Muitos colonos vieram acompanhados de filhos e netos, como o casal Felipe Ninck e Maria Margarida Dahl. Eles vieram de várias regiões da Alemanha, mas especialmente dos centros urbanos da Prússia, da Suábia e do Vale

do Ruhr: Berlim, Potsdam, Frankfurt e Meissenheim71. Os colonos, em sua maioria, exerciam ofícios manuais, como ferreiro, padeiro, alfaiate, carpinteiro, relojoeiro e maquinista, todos com pouca

aptidão para o trabalho de camponês72.

Em poucos meses os colonos abandonaram as terras de Weyll e retornaram à vila de Ilhéus. Há uma gravura de Wied-Neuwied que retrata as casas da “colônia de estrangeiros” nas proximidades da pequena vila. Em Ilhéus, os alemães passaram a exigir do governo brasileiro o financiamento do seu retorno à Europa. Weyll e o sócio Saueracker não haviam conseguido alojamentos adequados e ferramentas para os colonos devido às dificuldades de abastecimento pelo bloqueio naval português à Cidade do Salvador. Além da falta de infraestrutura, o clima tropical e o isolamento da propriedade de Weyll concorreram para o fracasso da colônia do Almada.

O governo imperial, interessado na permanência dos colonos em Ilhéus, cedeu áreas de terra para cada família às margens do Cachoeira, entre as proximidades do atual campus da Universidade Estadual de Santa Cruz e o limite entre os municípios de Ilhéus e Itabuna, núcleos de futuras sesmarias. Foram alocados mais de quatro contos de réis para o auxílio financeiro às famílias de imigrantes pelo período de dois anos, repassados pela câmara municipal de Ilhéus. Muitos desses colonos se deslocaram para o sul do país, outros permaneceram e iniciaram o cultivo comercial do cacau nas margens do Cachoeira com sementes vindas da aldeia

de Ferradas 73. A colônia estabeleceu-se definitivamente no terreno que, “extremando a fazenda Vitória, segue até o lugar denominado

Cais, na extensão de uma légua pouco mais”74. Esses colonos alemães, junto a outros que chegaram no decorrer do século XIX, estavam cientes do crescimento da indústria chocolateira na Europa e investiram antes no cacau do que nas lavouras tradicionais da Bahia.

Em sua visita a Ilhéus, o príncipe naturalista Maximiliano de Habsburgo relata suas impressões sobre a colônia alemã do Cachoeira. Elabora uma imagem desfavorável dos colonos, cujos filhos haviam esquecido a língua pátria e abandonado os costumes

“civilizados” e haviam se tornado “totalmente brasileiros”75. Provavelmente os meninos alemães encontrados por Maximiliano no seu desembarque em Ilhéus fossem os filhos de Jonhann Heinrich Berbert, um dos colonos do Cachoeira, que havia enviado seus filhos para a residência da família Bezerra com o intuito de frequentarem as aulas na escola da vila. De Ilhéus o príncipe e sua comitiva se dirigiram, de canoa, ao porto da sesmaria Vitória, do barão Ferdinand von Steiger-Müssigen, filho de um suíço proprietário de terras na Áustria e casado com a filha do tenente-coronel Egydio de Sá Bittencourt e Câmara, presidente da câmara municipal de Ilhéus e proprietário da vizinha sesmaria da

Esperança, ambas produtoras de café e cacau76.

A fazenda de Steiger possuía cento e quarenta trabalhadores escravizados que trabalhavam em suas plantações e na derrubada da mata. As mulheres eram estimuladas a procriar o mais cedo possível. As que tivessem mais de seis filhos eram agraciadas com prêmios para cada nova criança que nascia. O contato mais direto com os escravizados dava a Steiger a sensação de poder tecer algumas considerações sobre o seu comportamento sob a ótica do “senhor”.

Steiger, que cuidava pessoalmente dos partos, afirmou ao príncipe que o africano e seus descendentes, apesar da aparência, podiam ser considerados seres humanos, pois eram capazes de procriar, mesmo cruzando com um ser da raça branca, e os frutos desse cruzamento, por sua vez, também eram capazes de procriar, o que não ocorria com os animais híbridos como, por exemplo, as mulas. O negro, segundo seu ponto de vista impregnado da lógica europeia do período, era um ser humano, mas em um grau bastante

inferior ao da raça branca 77. Essa mentalidade acompanhou a trajetória histórica da região cacaueira e a formação dos grupos familiares e políticos, divididos em torno das ideias que faziam sobre as suas origens sociais.

Outros europeus continuaram a chegar ao longo do século. Diferentemente dos colonos proletários trazidos por Weyll, eles vieram com algum capital de sua posse ou eram relacionados com quem dispunha de recursos. A maioria veio da Europa Ocidental: portugueses, espanhóis, franceses, britânicos, suíços e italianos compraram terras em Ilhéus, abriram armazéns ou administraram grandes propriedades locais. Uma pequena e influente colônia estrangeira formada por suíços participou ativamente no desenvolvimento do cultivo e na comercialização do cacau para o exterior.

Os primeiros chegaram a Ilhéus no início do século XIX quando o cacau dava os primeiros passos na sua trajetória econômica. Henri Bordel, David Besuchet, Léo Dupasquier, Gabriel von May e Ferdinand von Steiger tinham como característica comum o ofício de militar na Suíça e a posse de grandes extensões de terras no sul da Bahia, o que sugere que as possibilidades econômicas da região estimulavam o investimento de recursos por parte daqueles cuja fabricação de chocolate seria fundamental para a indústria nacional.

Em Ilhéus os suíços adquiriram grandes propriedades às margens do rio Almada, o engenho Castelo Novo, e do rio Cachoeira, a sesmaria Vitória. Do litoral até os seus limites dominava secularmente a policultura e a extração de madeira baseada na mão de obra escrava; daí em diante estava a floresta prestes a ser incorporada à economia local por levas de sergipanos, árabes, europeus e baianos. A sesmaria Vitória havia pertencido, inicialmente, ao negociante britânico Houston Rigg Brown, que a comprou de Felisberto Brant por volta de 1823, com o intuito de explorar a extração de madeiras. Pouco depois a propriedade foi vendida ao suíço Gabriel von May, que investiu na produção tradicional de açúcar e farinha e em novos produtos como cacau e café.

Entre os anos de 1821 e 1836, a fazenda foi administrada pelo suíço Jean Schuepach, carpinteiro de ofício, que terminou por abrir sua própria oficina na vila de Ilhéus. Suas três filhas se casaram com filhos de colonos alemães. Schuepach foi substituído por Jean Ritschard, também suíço, que se casou com uma das alemãs do Cachoeira e adquiriu suas próprias terras. Em 1840 a fazenda passou a ser administrada pelo suíço Jean Hohlenwerger, o qual seguiu os passos de Ritschard e contraiu matrimônio com uma das alemãs da colônia do Cachoeira. Em 1846, Hohlenwerger transferiu a sua residência para a vila, onde abriu uma casa de comércio de gêneros de primeira necessidade e de compra e venda de cacau,

sendo o primeiro suíço a comercializar o produto para o exterior78. Seus filhos Carlos e João Carlos Hohlenwerger se casaram com mulheres das famílias Sá e Lavigne e se tornaram grandes fazendeiros de cacau na zona do Almada.

A propriedade ficou em mãos de von May até 1852, quando este regressou à Europa e a transferiu para a firma Jezler & Cia. Em 1855, a Vitória foi adquirida pelo barão Ferdinand von Steiger, último administrador da fazenda enquanto propriedade de von May, com quem era aparentado. Steiger havia chegado a Ilhéus em 1846, com 21 anos de idade, influenciado pelos relatos de Humboldt sobre o “novo mundo” e decidido a se estabelecer como fazendeiro. Steiger se casou anos antes de adquirir a propriedade, com Amélia, filha do tenente-coronel Egídio de Sá Bittencourt, cavalheiro e fidalgo do

império79.

O povoado formado nas terras da sesmaria Vitória representou durante boa parte do século XIX, o papel de principal porto e centro comercial do município. Várias firmas de compra de cacau se estabeleceram com escritórios e armazéns para o estoque do cacau. Era o ponto inicial da viagem por terra entre Ilhéus e o distrito de Tabocas, considerada, nessa época, uma das zonas mais férteis para o cultivo do cacau. O povoado do Banco da Vitória perdeu sua importância com a construção da estrada de ferro. Praticamente todo o movimento comercial foi transferido para os povoados de Castelo Novo e Rio do Braço, na zona do Almada.

Outra importante propriedade cacaueira, a antiga sesmaria Castelo Novo, foi adquirida por Henri Borel assim que chegou à Bahia, em 1817. Dez anos depois Borel ingressou na firma Meuron & Cia., da qual se tornou sócio em 1830, quando passou a residir na Cidade do Salvador. Borel faleceu no ano de 1833 em sua residência, no Solar do Unhão, solteiro e sem filhos. A fazenda foi adquirida pela firma Meuron, onde também trabalhava Gabriel von May. Este, oriundo de uma família aristocrática, se radicou na Bahia em 1819 acompanhado do compatriota Leo Dupasquier, que inicialmente iria administrar a extração de madeiras e o plantio de

café na fazenda Vitória80. Posteriormente, Dupasquier comprou suas próprias terras, entre as quais a fazenda Bom Gosto aberta pelos irmãos suíços David e Charles Besuchet, onde veio a falecer em 1862. A Bom Gosto possuía terrenos que iam do Itaípe ao Itariri, em extensa faixa de matas depois plantadas de cacau pelos membros da família Lavigne, sucessores do suíço na posse da

fazenda 81.

Observa-se um evidente interesse dos suíços radicados na Bahia em explorar economicamente as terras do sul da província com a utilização de mão de obra escravizada. Alguns deles foram financiados pelos conterrâneos que haviam se estabelecido como comerciantes, entre os quais François Meuron, com uma fábrica de rapé situada no Solar do Unhão, arrendada ao barão da Torre de Garcia d´Ávila. Tanto Borel quanto von May contaram com o apoio da firma Meuron & Cia. nos seus investimentos em propriedades agrícolas em Ilhéus, sendo por ela financiados até a colheita das primeiras safras.

Outra firma suíça, a Jezler & Trumpy, iria ter um importante papel na comercialização do cacau para o exterior. Sua trajetória histórica foi narrada por um dos seus sócios e futuro proprietário Arnold Wildberger que, após a sua aquisição, a transformaria na Wildberger & Cia. Em 1829 os irmãos Ferdinand e Lukas Jezler se associaram ao também suíço Jonhann Trumpy, ex-empregado da Meuron, para

a fundação da firma82. A Jezler e a Meuron, mais a Gex, Descorterd & Frères, em meados da década de 1830, passaram a convencer von May, considerado o maior fazendeiro do sul da Bahia a, com os demais colonos estrangeiros ali estabelecidos, plantar comercialmente cacau em suas propriedades.

De acordo com o botânico suíço Leo Zetntner, até a década de 1830 ainda não havia em Ilhéus plantações importantes de cacau, mas a partir desse período a área cultivada aumentou sensivelmente, especialmente com a vinda de pequenos lavradores

que se estabeleceram entre Ilhéus e a aldeia de Ferradas83. O aumento da produção fez com que firmas com capital suíço passassem a abrir filiais na região. Uma das primeiras foi a C. F. Keller & Cia., fundada em fins do século XIX. Em 1890 foram abertas as filiais de Ilhéus e Canavieiras para a ampliação do negócio de compra de cacau. A filial de Ilhéus ficou a cargo do suíço Hermann Braem e do brasileiro Ulisses de Sá Bittencourt, ambos casados com filhas de von Steiger.

A firma Keller & Cia. foi a primeira a tentar exportar diretamente o seu cacau para a Europa, sem a necessidade de pagar as taxas exorbitantes de armazenamento e embarque cobradas pelo porto de Salvador. Em 1892, a firma encomendou, na Europa, um grande veleiro para o transporte de cacau e piaçava dos portos do sul para o de Le Havre, na França. Os trapicheiros de Salvador contestaram judicialmente a legalidade da exportação direta e obtiveram ganho de causa, forçando a firma suíça a interromper as atividades de

transporte do produto para a Europa84.

Assim como os irmãos Keller, Hermann Braem e Emil Wildberger mantiveram a firma como exportadora de produtos nacionais (cacau, fumo e borracha), importadora de mercadorias europeias, agência de navegação e casa bancária. Com o falecimento de Braem, na Suíça, a firma passou à razão social Wildberger & Cia. Em 1901, a firma Keller & Cia. foi sucedida por Braem, Wildberger & Cia. Um dos seus antigos representantes em Ilhéus, C. Leibbrandt, havia se associado a Ulisses de Sá na firma Sá & Haag instalada no Banco da Vitória, cujos trapiches armazenavam todo o cacau vindo da zona do Cachoeira e o embarcava nas lanchas que o transportavam para o porto da capital. A Sá & Haag, conforme o padrão das relações entre as firmas de Salvador e suas congêneres em Ilhéus, foi financiada pela Braem & Wildberger com a obrigação de vender-lhe o montante do cacau comprado e a exclusividade na compra de charque e mantimentos.