In memoriam: urbanismo, literatura e morte
Construções e reformas cemiteriais no sul da Bahia
Construções e reformas cemiteriais
no sul da Bahia
Se considerarmos a cidade como um território e resultado de vasta trama de relações, e a sua arquitetura como expressão da experiência e da memória, temos no cemitério um espaço privilegiado, pleno de significados e carregado de símbolos de sociabilidades. Talvez uma das formas mais transparentes das representações idealizadas do urbano esteja expressa nas alegorias escultóricas, nos monumentos que, no pensamento do período em questão, contribuíam decisivamente para o embelezamento dos equipamentos urbanos em geral, e dos cemitérios em particular.
Como foi discutido nos capítulos anteriores, as cidades sul baianas no período estudado constituem um exemplo típico de adequação da feição urbana a uma profunda mudança histórica. As inovações urbanas ocorreram em consonância com as transformações trazidas pela lavoura cacaueira, de modo que as construções e o traçado antigos eram interpretados como pertencentes a um ciclo histórico encerrado. A valorização do cacau baiano no mercado internacional, na passagem do império para a república, trouxe um aumento substancial nas arrecadações municipais, através dos impostos sobre a comercialização do produto, possibilitando um maior investimento por parte do poder público, nos equipamentos urbanos.
As novas edificações públicas e particulares erguidas em Ilhéus, Itabuna ou Canavieiras -prédios, residências ou túmulos- deveriam traduzir a imponência e o prestígio que os seus habitantes se arrogavam. Mediante os seus reordenamentos, expressos pelas formas arquitetônicas introduzidas pelos projetos urbanísticos postos em prática, esses núcleos vão se configurando, aos poucos, como espaços de projeção de uma organização social desejada, especialmente pela elite econômica.
Há registro de uma capela e cemitério na povoação de Ferradas, no início da década de 1880, indicando um investimento na urbanização da antiga aldeia indígena dos padres capuchinhos. O cemitério possui uma pequena alameda que segue do portão de entrada em direção à capela, trecho em cujas margens foram erguidos os principais túmulos. Ao fundo, em um declive próximo às margens do Cachoeira, estão situados os túmulos mais simples e rasos. A valorização dos locais mais visíveis no território dos cemitérios pode ser observada, além de no Campo Santo de Ferradas, nos demais cemitérios estudados.
Outros espaços cemiteriais aqui enfocados datam das últimas décadas do século XIX. Nesse período foi construído o cemitério da Cordilheira, no distrito de Cachoeira, entre Ilhéus e a então Tabocas, a julgar pela datação do seu túmulo mais antigo, o do alemão
Jonhann Heinrich Berbert, do ano de 1898 (Figura 14). O cemitério da fazenda Cordilheira foi originalmente construído no cume de uma pequena elevação às margens da estrada que liga as cidades de Ilhéus e Itabuna, em um período em que o distrito de Cachoeira era um dos principais produtores de cacau do município ilheense.
Figura 14 – ACOR: Túmulos em forma de torre – década de 1920, ao centro e à esquerda, o túmulo de Jonhann Heinrich
Berbert datado de 1898 à direita [Foto do Autor]
Fonte: Foto do Autor.
O cume da elevação abriga os túmulos mais antigos pertencentes a famílias de cacauicultores de ascendência europeia, aparentadas entre si. Mais recentemente, as encostas da elevação passaram a abrigar túmulos mais simples, pertencentes à população local. Essa disposição dos túmulos ao longo da encosta e a própria silhueta da elevação onde está situado o cemitério da Cordilheira remetem à ideia de uma formação piramidal dividida em planos hierarquizados
correspondentes ao lugar social dos mortos (Figura 15).
Figura 15 – ACOR: Cemitério da fazenda Cordilheira
inaugurado da década de 1890 [Foto do Autor]
Fonte: Foto do Autor.
Data também do final do século XIX a construção do cemitério municipal de Canavieiras, que veio a substituir o da Irmandade do Santíssimo Sacramento, por decisão da antiga câmara local. Entre os anos de 1886 e 1887 foi requerido pelos vereadores da vila o fim dos enterramentos no cemitério do Santíssimo e a construção de carneiros nos terrenos concedidos pelo município, “por achar-se o atual muito próximo ao recinto da vila”, conforme parecer do delegado da higiene pública. Em uma visita ao antigo cemitério, os vereadores “reconheceram que o espaço mal poderia comportar o número de irmãos falecidos”. Com a proibição dos enterramentos no cemitério da irmandade, a câmara passou a discutir a construção de
um outro, afastado dos terrenos urbanos 377.
Concomitantemente, o vereador Onésimo Araújo solicitava a construção de uma cerca no antigo cemitério, que se achava em estado de ruína, “a fim de evitar-se a entrada de pessoas e animais, bem como fazer-se o asseio interno”, até que se deliberasse a construção de um outro. Em 1888 foi aceita a petição de Júlio José da Costa, oficial de pedreiro, na qual solicitava dois contos de réis para a edificação do cemitério público, cuja obra era a que “mais reclama atenção da câmara”. Uma junta composta pelos médicos Manoel Pires de Carvalho, delegado de higiene pública, Boaventura Gualter Bahia e Antônio Salustiano Viana, apresentou parecer favorável ao local do novo cemitério, “já em atenção a maior elevação do terreno, já em atenção à distância do povoado, que se calcula em quinhentos metros, já finalmente em atenção aos ventos reinantes”, cuja posição era a mais favorável que se poderia
encontrar 378.
Os custos da obra foram parcialmente financiados pelo governo da Bahia, posteriormente assumidos pelo conselho municipal de Canavieiras. Como a administração dos cemitérios havia passado para as mãos da municipalidade, o conselho contratou o mestre pedreiro Aristides Lopes para arrematação das obras. Lopes as deu por concluídas no ano de 1892, conforme ata do conselho datada de 20 de setembro daquele ano, quando foi solicitada pelo empreiteiro
vistoria das dependências e pagamento do serviço379.
O primitivo cemitério do arraial de Tabocas, datado do final do século XIX, estava situado na Rua Benjamin Constant, denominada originalmente de Rua do Cemitério, em Taboquinhas, na cabeceira da atual ponte Góes Calmon. Com a transformação da vila em cidade, em 1910, foi iniciada uma reforma no local, a área foi calçada e retirado um cruzeiro existente que demarcava o local de enterramentos. O cruzeiro foi transferido para o local do segundo cemitério, na atual Praça Olinto Leone.
Dois anos depois, os enterramentos foram transferidos para a atual rua Duque de Caxias, na época considerada mais afastada do centro antigo. Com o desenvolvimento urbano, o cemitério foi transferido para o local da atual catedral de São José e, finalmente,
para os fundos da Santa Casa de Misericórdia380. A trajetória geográfica do espaço cemiterial itabunense segue uma direção N-NO que acompanha a expansão do que viria a constituir a Avenida do Cinquentenário e da própria urbs, entre as décadas de 1890 a 1920.
A última transferência do local do cemitério de Itabuna ocorreu na década de 1920, quando foi inaugurada a necrópole pertencente à Santa Casa de Misericórdia, no bairro do Pontalzinho. O Campo Santo vinha atender às necessidades impostas pelo crescimento vertiginoso da população do município e o consequente aumento do número de mortos. O aumento do número de falecimentos era agravado pelas condições higiênicas precárias, que favoreciam o aparecimento de epidemias, como a febre tifoide e disenterias, causadoras de altas taxas de mortalidade no sul baiano.
Um grupo de fazendeiros e comerciantes, sob a direção religiosa do bispo de Ilhéus e de sacerdotes locais, fundou a Santa Casa de Misericórdia, com o objetivo de levar a termo a construção de um hospital e um cemitério, obras que atenderiam às questões higiênicas e dariam testemunho do prestígio e da riqueza material do recém fundado município cacaueiro. O terreno para a construção do hospital foi doado ao patrimônio da Santa Casa pelo fazendeiro Cherubim José de Oliveira e por sua mãe, Catarina Alves de Oliveira. Os terrenos contíguos, onde seria erguido o cemitério, foram vendidos pelos mesmos proprietários ao preço de dois contos
de réis, considerado bem abaixo do seu valor imobiliário381. Essa área, no período, demarcava os limites entre a cidade e os pastos que a rodeavam. Aos poucos a cidade cercou o Campo Santo, inserindo-o no mundo dos vivos, como ocorreu em relação aos demais cemitérios urbanos regionais.
Os recursos para a construção do Campo Santo foram financiados pelos irmãos da Santa Casa e demais membros da sociedade local, com auxílio de verbas públicas, enquanto a sua planta foi confeccionada gratuitamente por Oscar Silva Lima. A obra, inaugurada a 7 de setembro de 1925, teve seus espaços interiores divididos em uma parte superior, onde se encontram carneiros com gavetas que acompanham o muro exterior, quadras destinadas aos jazigos perpétuos, numa área que poderia ser chamada de “nobre”; e uma parte inferior, onde estão localizadas quadras que abrigam outra série de carneiros com gavetas e os túmulos mais recentes e de menor custo.
Em Ilhéus, um dos traços mais marcantes do processo de valorização dos espaços cemiteriais foi a reforma do cemitério público municipal, inaugurada no dia de finados de 1913. O que existia anteriormente era cercado de estacas, e seu espaço já estava bastante aumentado devido a uma grande quantidade de túmulos, muitos dos quais excediam o padrão relativo ao tamanho da área destinada às sepulturas individualizadas. A única parede existente, na sua entrada, encontrava-se arruinada, não sendo raro encontrar animais pastando sobre as sepulturas. Isto decorria da existência, na ladeira que lhe dava acesso, de um pasto denominado de “Zé das Neves”, onde ficavam as tropas que chegavam do interior, carregadas de sacos de cacau e outras mercadorias.
Em 1891, o cemitério público de Ilhéus deixou de estar sob a jurisdição do vigário local e passou para a da câmara municipal, conforme o parágrafo 10 do artigo 109 da recém-promulgada
constituição estadual 382. Até então, o espaço da morte era pouco valorizado na sociedade cacaueira, e raros foram os investimentos públicos na sua infraestrutura. O seu isolamento não se restringia apenas à distância física do núcleo urbano, mas se expressava também na ausência de um projeto institucional que o integrasse ao discurso e práticas modernizantes e às práticas burguesas do período.
O intendente Antônio Pessoa foi o primeiro administrador local a perceber a importância estratégica do cemitério como uma das principais referências para os novos padrões urbanos e como peça importante no jogo político. Logo ao assumir a intendência, cogitou a construção de um novo cemitério que substituísse o antigo, do qual foi aproveitado tão somente o terreno. A superintendência técnica de toda a construção, e o plano da mesma, ficou a cargo de Durval Olivieri, engenheiro municipal, genro de Pessoa e futuro intendente municipal, cargo que ocupou de 1928 a 1930, responsável pela direção da maior parte das obras públicas no período final da República Velha.
Conforme Borges de Barros, o novo cemitério “não deslustraria as mais adiantadas capitais e não tem similar no nosso estado”. O autor, que havia escrito um texto de caráter histórico sobre a “antiquíssima e opulenta cidade”, enfatiza o papel do novo equipamento urbano na consolidação da imagem de prosperidade da região do cacau e da força econômica da elite e seus “despojos veneráveis”. Ali repousavam “ilheenses distintíssimos, tudo o que a população atual tem perdido de parentes e amigos desaparecidos
na voragem do túmulo” 383.
A sua área foi ampliada para melhor aproveitar a localização, que
“a experiência já demonstrara não ser nociva à saúde pública”384. Mediu o novo cemitério 24,60 metros de frente, compreendendo a igreja de Nossa Senhora da Vitória, e 446,60 metros de perímetro total, com uma superfície de 9.812 metros quadrados, assim discriminados: 5.586 da área antiga, 3.710 da nova e 516 de dois espaços laterais à capela destinados a jardins. Entre as áreas antiga e nova foi localizado o ossuário, construído em alvenaria e cimento. Nesse espaço coletivo são depositados os ossos dos mortos inumados nas sepulturas comuns. Na frente da igreja da Vitória construiu-se um adro de 5 metros de largura, para o qual dava acesso uma escada de alvenaria com sete degraus, posteriormente substituída por uma rampa lateral.
A frente do cemitério foi gradeada de ferro sobre uma base de alvenaria com 2 metros de altura no total. Esta parte frontal inclui nove pilares artisticamente trabalhados. Na entrada há um imponente portão, tendo ao alto um dístico e uma placa comemorativa em mármore, onde se lê a data de inauguração e o nome do intendente Pessoa. Todo o conjunto é fechado em obra de alvenaria, sobre a qual assenta uma balaustrada na extensão de 422 metros, com 83 colunas encimadas por vasos e pinhais, e na qual empregaram-se 1.394 balaústres. Para a área nova abriu-se, desde o portão, uma rua calçada de cimento, com 124 metros de comprimento e 3 metros de largura. Ao fim da rua encontra-se uma escada de alvenaria, pela qual se tem acesso à parte nova do cemitério, onde se achavam originalmente espaços para trezentas e quatro sepulturas rasas, formando seis grupos separados por sete corredores calçados e cimentados.
A reforma do cemitério municipal constituiu uma das maiores preocupações da Gazeta de Ilhéus, no início do século XX. Em 1902, comentava o jornal que “o cemitério desta cidade ao mesmo tempo em que infunde respeito e veneração, desperta também um sentimento de repulsão pelo estado de desasseio e quase abandono em que jaz.” Qualquer pessoa que a ele se dirigisse acompanhando um enterro ou em simples visita iria “sentir uma tristeza imensa ao contemplar a muralha que o cerca, já em parte esboroada, em alguns pontos completamente por terra”. O fatalismo do discurso higienista denuncia a inoperância administrativa dos adversários políticos. Quando a lei secularizou os cemitérios, entregando a sua administração às municipalidades, “fê-lo na presunção de serem melhor fiscalizados, afim de não continuar a ser focos de infecção”. Um cemitério aberto, segundo o periódico, “está exposto a que os animais escavem a terra” e o resultado não
se faria esperar 385.
A reforma do cemitério ocupou um lugar central no discurso "pessoísta". Em vários artigos seus nas gazetas locais, o coronel Pessoa discorreu sobre o assunto, chamando a atenção para a importância do culto aos mortos e para o esquecimento que o mesmo teve por parte da oposição, quando no poder:
A morada dos que se foram! Haverá por ahi quem a julgue uma obra de somenos, um esforço ocioso, um dispêndio indevido? Salvo se existem, sob a forma de homens civilisados, entes inferiores em sentimentos. Com effeito, a veneração aos mortos, o zelo respeitoso aos seus despojos é um sentimento commum a toda a humanidade, mesmo aos mais rudimentares estados da cultura. Se alguém acha desnecessária a construcção de um cemitério, se alguém reprova, insulta, leva a chacota os que curam da morada dos mortos, é que esse alguém é capaz de crimes contra a própria natureza, e só merece que delle se fuja e nunca se lhe cite o nome
abominável386.
O coronel Pessoa acreditava que a reverência aos mortos deveria ser traduzida na aparência das necrópoles. Segundo a sua concepção, era inaceitável que o município de São Jorge dos Ilhéus, de importância comparável à capital do estado, tivesse num dos seus pontos mais visíveis um cemitério cercado de estacas e coberto de mato. Para ele, este
Era o attestado mais desgraçado que esta terra dava de si; era colorário, a aggravante, a prova provada das designações infames que então davam a Ilhéos. Na verdade, não se poderia suppor nada de bom acerca de um lugar onde nem os mortos mereciam caridade. Os observadores superficiaes reputavam aquelle estacado plantado no alto da Victoria o signal evidente da fereza de ânimo, da selvageria sem nome dos
habitantes deste mal afamado torrão. Os bons ilheenses lastimavam aquelle sacrílego abandono, e vezes sem conta ouvimos queixumes e imprecações contra os responsáveis por tal impiedade. Todos que alli tinham um parente, um amigo, sepultado, todos sem distinção de cor política, reclamavam indignados contra os administradores desumanos,
culpados da miserabilidade do cemitério 387.
Os jornais sucedâneos, ligados ao grupo “pessoísta”, lembravam em seus artigos o espírito cívico dos membros do partido na defesa da reforma e rebatiam as críticas feitas à obra pelos adversários. Os textos enfatizavam a necessidade de transformar o novo cemitério em um lugar de memória para os membros da sociedade regional. “Nada mais desolador” do que uma visita ao antigo cemitério, onde “a alma se confrange ante a desumana e pecaminosa ação daqueles que atiram à vala do esquecimento, o lugar onde quase todos têm uma ossada de pai, os restos de um filho, o cadáver de um irmão”.
A higienização do antigo cemitério era precária, assim como o cuidado com as sepulturas. Em 1908, o Jornal de Ilhéus denuncia que “alimentado pelo produto humífero da decomposição dos órgãos soterrados, o capinzal cresce ingurgitado de seiva”. Os corpos para ali levados, “entre lágrimas de saudade e de dor”, eram jogados “em um chão coberto de capim, nem uma muralha para impedir a profanação dos animais que ali pastam e se reproduzem, nem um guarda para zelar as sepulturas que se abatem, as lousas que se quebram”. Sem a proteção das lápides, a maioria das sepulturas expunha as ossadas que “os ignorantes que lá vão”
puxam, brincando, com a ponta da bengala388.
Em suma, o cemitério antigo “confrangia e acabrunhava” os ilheenses. O município não podia ter “logo no seu ponto mais ostensivo” um cemitério cercado de estacas. A culpa, porém, não era da totalidade da população. Os “bons ilheenses, homens de coração e patriotas”, lastimavam aquele “sacrílego abandono” e a “irreligião dos detentores do poder”. Eram aqueles homens os que mais se ressentiam “desse desamor pelos finados” e combatiam o
abandono da necrópole e dos seus mortos389.
A administração do cemitério foi posteriormente regulamentada pelo Código de Posturas, criado pela Lei Municipal n. 277, de 1 de outubro de 1924, na gestão do intendente Mário Pessoa da Costa e Silva, filho e herdeiro político do coronel Antônio Pessoa. Na Seção VII do capítulo referente à Polícia Sanitária, encontram-se as
disposições sobre os cemitérios e os enterramentos. 390 O controle da morte passou a ser oficialmente uma ocupação da administração laica, com pouca interferência da Igreja. O asseio e a fiscalização dos cemitérios municipais e dos enterros efetuados eram de imediata responsabilidade dos seus administradores, que deveriam não só observar as disposições do Código como as determinações da Diretoria de Higiene Pública.
As sepulturas do cemitério reformado foram divididas em duas categorias -- particulares e comuns. As primeiras eram as que, por aforamento perpétuo, eram concedidas pelo poder público a particulares. As que não possuíssem aforamento perpétuo pertenciam à segunda categoria. Nas áreas atribuídas às sepulturas comuns não poderiam ser construídos mausoléu, jazigo ou carneiro. Era apenas permitido encimar os túmulos de grade de ferro ou madeira e cruzes, que não tivessem mais de 1,10 m. de altura, “e lápides ou emblemas que se possam retirar com facilidade, quando
for tempo de abrir-se nova sepultura no local”391.
Aos corpos enterrados nessas sepulturas comuns era dado o direito a uma memória temporária, sendo esta uma das principais distinções simbólicas entre elas e as sepulturas de caráter perpétuo. As pedras, grades ou cruzes retiradas das sepulturas comuns, ao tempo de sua reabertura, eram conservadas no depósito do cemitério pelo espaço de seis meses, à disposição dos que as fossem reclamar. Findo esse prazo, procedia-se a sua venda em
hasta pública, revertendo o resultado em benefício do cemitério 392.
A emergência dos jazigos monumentais também estava submetida a uma lógica hierarquizadora. As famílias de grandes fazendeiros e comerciantes passaram a disputar entre si a primazia da ostentação, seguidas de perto pelas camadas menos favorecidas que tentavam imitá-las na medida de suas possibilidades. As famílias mais abastadas, ao adquirirem concessões perpétuas, principalmente a partir da década de 1920, priorizaram os terrenos próximos aos portões de entrada, situados ao longo da “ruas” principais, o que proporcionava uma maior visibilidade social.
De acordo com o Código de Posturas, as sepulturas particulares não poderiam ocupar superfície superior a seis metros quadrados, sendo de adulto, e quatro metros quadrados, sendo de criança. As sepulturas comuns teriam no máximo dois metros de comprimento por um de largura, guardando entre uma e outra o espaço de
sessenta e seis centímetros393. Isto implicava outra distinção básica entre as duas categorias, a superfície máxima a ser ocupada, que privilegiava os que podiam arcar com as despesas de aquisição da sepultura perpétua.
O tamanho da área ocupada e a altura dos monumentos funerários eram símbolos da posição social da família, tal como ocorria nas residências rurais e nos luxuosos palacetes urbanos. Assim como no domínio dos vivos, onde, “quem não tem haveres não tem dignidade”, no domínio dos mortos a propriedade é necessária para garantir uma individualidade respeitável. Esta é “a lei fundamental do novo cemitério, que inventa concessões ‘perpétuas’ de 60 ou 100 anos, para nutrir a esperança e a ilusão de
que o ter continuará a ser”394.
Os túmulos mais custosos foram preferencialmente construídos na área de expansão do antigo cemitério. Como o solo urbano em geral, o solo cemiterial tornou-se caro e sujeito à especulação imobiliária, burlando as disposições originais. O período situado entre a segunda metade do século XIX e a década de 1930 se converteu na “idade de ouro do cemitério”, época da construção em
larga escala dos jazigos perpétuos. Conforme os dados da Tabela
16, a análise da dimensão dos túmulos regionais indica um aumento significativo no tamanho da área ocupada pela maioria dos túmulos de padrão superior e grande, cujo número foi crescendo à medida que nos aproximamos do marco cronológico final deste estudo.
Tabela 16 – Área ocupada pelos túmulos por décadas
Área Ocupada 1880-1900 1910-1930 1940-1950 Total %
Superior (+ 6 m2) 01 (2,1%) 19 (10,1%) 29 (10,5%) 49 9,6
Fontes: ANSV, ASCM, ACOR, AFER e ACAN.
Área Ocupada 1880-1900 1910-1930 1940-1950 Total %
Grande (4 – 6m2) 05 (10,6%) 12 (6,4%) 48 (17,4%) 65 12,8
Média (2 – 4 m2) 26 (55,3%) 112 (59,6%) 181 (65,6%) 319 62,4
Pequena (- 2 m2) 15 (32%) 45 (23,9%) 18 (6,5%) 78 15,2
Total 47 188 276 511 100
Fontes: ANSV, ASCM, ACOR, AFER e ACAN.
Na Tabela 17 foram isolados os dados referentes aos padrões existentes em cada acervo cemiterial estudado, onde pode-se perceber o pequeno número de túmulos com dimensões superior e grande nos cemitérios rurais, características dos cemitérios urbanos. Para efeito comparativo do aumento da quantidade dos túmulos destas dimensões com o desenvolvimento econômico da lavoura
cacaueira a Tabela 18 apresenta dados relativos ao período estudado. O aumento gradual das dimensões tumulares acompanha o crescimento das safras, especialmente após a década de 1910.
Tabela 17 – Área ocupada pelos túmulos por cemitério isolado
Ocupada Área NSV SCM COR FER CAN Total
Superior 22 01 04 49 22 (4,8%) - (23,6%) (0,8%) (12,4%) (9,6%)
41 04 07 13 65
Grande -
(11,2%) (4,7%) (70%) (37,8%) (12,8%)
223 67 09 03 17 319
Média
(61,3%) (72,7%) (58,4%) (30%) (43,6) (62,4)
07 02 78
Pequena 69 (12,7) - -
(40,8%) (6,2%) (15,2%)
Total 335 93 17 10 36 511
Fontes: ANSV, ASCM, ACOR, AFER e ACAN.
Tabela 18 – Produção de cacau na Bahia por décadas
Décadas Quilos Valor (Contos de Participação na renda Réis) estadual (%)
Fonte: BONDAR, 1938.
Participação na renda
Décadas Quilos Valor (Contos de
Réis) estadual (%)
1865-
811 995 173 0,32
1874
1875- 931 628 248 0,65 1884
1885- 3 453 1 563 3,65 1894 853
1895- 6 732 4 388 7,50 1904 469
1905- 17 152 8 885 19,45 1914 476
1915- 41 545 37 144 28,56 1924 779
1925- 60 347
67 800 19,46
1934 810
Fonte: BONDAR, 1938.
A comparação entre túmulos de diferentes datações revela características significativas das diversas épocas. Os jazigos mais antigos, erguidos no final do século XIX e início do século XX, foram concebidos em forma de torreões e colunetas com nichos ou estátuas. Apesar do material custoso de alguns, esses túmulos possuem dimensões de padrão médio e uma simplicidade que vai aos poucos sendo abandonada para dar lugar à ostentação dos túmulos de padrão grande e superior, típica da nova burguesia cacaueira, a partir da década de 1920.
Os túmulos mais antigos e mais simples, entre as décadas de 1880 e 1900, eram construídos em alvenaria e recobertos preferencialmente de pedras de mármore. Diferentemente do aspecto relativamente simples das sepulturas do século XIX, o gradativo aumento do número de jazigos perpétuos e a acelerada urbanização dos cemitérios urbanos foram conferindo a estes um aspecto pétreo, associado ao uso do mármore e do granito. Estes eram tidos como materiais nobres por excelência e foram profusamente utilizados no revestimento dos túmulos, assim como o bronze o foi nas imagens decorativas. Havia túmulos que não eram revestidos totalmente de mármore, sendo apenas a lápide desse material.
Sobretudo as sepulturas que se encontram nos cemitérios rurais conservam a singeleza e a ligação com os padrões cristãos, próprios de uma sociedade de cunho tradicionalista e patriarcal. Os jazigos perpétuos, cujas formas reproduziam partes componentes da arquitetura das igrejas, como torres sineiras ou sacrários, foram construídos, a princípio, para funcionar como uma espécie de substituto do teto eclesiástico, deslocado para um espaço mais
secular395. Tanto nos cemitérios rurais quanto nos urbanos os túmulos mais antigos não buscam imitar igreja no seu todo, caso dos túmulos-capelas, mas parte delas imitam sacrários, nichos,
altares e torres sineiras (Figuras 16 e 17).
Figura 16 – AFER: Túmulo com torre sineira em alvenaria –
década de 1920 [Foto do Autor]
Fonte: Foto do Autor.
Figura 17 – ASCM: Túmulo em alvenaria - década de 1920
[Foto do Autor]
Fonte: Foto do Autor.
Conforme a Tabela 19, aos poucos o mármore foi sendo substituído pelo granito produzido industrialmente, enquanto as estátuas de mármore e as inscrições primitivamente esculpidas nas lápides dão lugar aos modelos estereotipados de bronze. As estátuas de mármore, localizadas nos túmulos mais antigos, foram encomendadas na Europa ou nas oficinas artísticas do Rio de Janeiro e de Salvador, enquanto que nos túmulos mais recentes o granito e o bronze eram adquiridos, em sua maioria, em oficinas paulistas e mineiras, havendo um deslocamento dos mercados abastecedores de imagens e materiais para a construção e reforma de túmulos no sul da Bahia.
Tabela 19 – Material dos túmulos por décadas
1880- 1910-
Material Associado 1940-1950 Total %
1900 1930
31 84
Mármore/Cimento 48 (18%) 163 34,1
(77,5%) (49,1%)
Granito/Bronze 105 01 (2,5%) 17 (9,9%) 123 25,8 (39,5%)
Granito 01 (2,5%) 16 (9,4%) 53 (19,8%) 70 14,7
Mármore 05 27 08 (3%) 40 8,4 (12,5%) (15,8%)
Cimento 18- 14 (5,3%) 32 6,8 (10,5%)
Granito/Cimento 01 (2,5%) 02 (1,2%) 16 (6%) 19 4,0
Mármore/Bronze - 04 (2,3%) 10 (3,8%) 14 3,0
Mármore/Granito - 02 (1,2%) 06 (2,3%) 08 1,6
Mármore/Granito/ 01 (2,5%) 01 (0,6%) 06 (2,3%) 08 1,6 Bronze
Total 40 171 266 477 100
Fontes: ANSV, ASCM, ACOR, AFER e ACAN.
Logo que os fazendeiros recém enriquecidos perceberam que as suas fortunas os promoviam à condição de membros da elite social regional, os seus esforços se dirigiram naturalmente para a construção de suntuosas sepulturas, que expressam a ideia que faziam de si mesmos. Desse modo, os cemitérios foram se urbanizando segundo uma lógica semelhante à da cidade dos vivos, com a predominância de túmulos verticais e, como complemento, uma intensa utilização de estatuária e objetos decorativos. Evidentemente, a intensidade dos investimentos diferia conforme a capacidade financeira dos municípios.