In memoriam: urbanismo, literatura e morte

André Luiz Rosa Ribeiro · Capítulo 12 de 27

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In memoriam: urbanismo, literatura e morte

O imaginário da morte na região cacaueira

As obras de Adonias e Amado contribuem para a construção do imaginário sobre o sul baiano, locus de uma civilização forjada na luta do homem para estabelecer a lavoura do cacau nas matas do interior da região. Muitos morreram vítimas de animais selvagens e das febres, porém incontáveis foram os que tombaram nas tocaias e nos confrontos armados. A terra recolhia o sangue derramado e adubava os cacaueiros. As cruzes sem nome demarcavam o local das sepulturas e o aumento das plantações.

 

O imaginário da morte na região

 

cacaueira

 

O uso da força dos grandes fazendeiros sobre os pequenos produtores, que ainda não possuíam os títulos de posse, é relatado recorrentemente nas obras. A conquista da mata inicia o processo de introdução do elemento humano, construtor de uma sociedade histórica cuja formação está intrinsecamente ligada às lutas pelo domínio da terra.

Conforme apontado anteriormente, literatura e história se mesclam, produzindo discursos que passam a formar uma imagem específica para a região cacaueira em relação à capital e ao seu Recôncavo, área vinculada à antiga aristocracia canavieira e aos engenhos escravocratas. A Cidade do Salvador e o Recôncavo, assim como o agreste, representam a Bahia tradicional, presa ao passado e em declínio, enquanto o sul cacaueiro se configura como a terra da promissão e do progresso material. O sul do estado se constituiu em relação ao outro, uma identidade que se contrapõe às demais.

Os desbravadores, uma vez transformados em coronéis, entendem o exercício do poder como intimamente ligado à posse da terra “adubada” com o sangue dos que tombaram nas lutas pelas roças de cacau. Esse aspecto é enfatizado em toda a sua dimensão na maldição do feiticeiro Jeremias sobre os conquistadores da secular mata do Sequeiro:

 

Agora eles ‘vai’ entrar na mata, mas antes vai morrer homem e mulher […]. Vai morrer até não ter mais buraco onde enterrar, até a terra tá vermelha de sangue que vire rio nas estrada e nele se afogue os parente, os vizinho e as amizades sem faltar nenhum. Vão entrar na mata mas é pisando carne de gente, pisando defunto. Cada pé de pau que eles derrube vai ser um homem derrubado […]. Cada filho vai plantar seu

cacaueiro em riba do sangue do pai 211.

 

Nesse processo, caracterizado pela ação violenta de plantadores e jagunços, a valentia pessoal era um elemento crucial para a sobrevivência. Era reconhecida como um dos valores mais característicos do grapiúna:

 

O coronel gordo espantava o caixeiro-viajante narrando um barulho que tivera numa pensão de mulheres na Bahia [Salvador]. Uns malandros fizeram-se de besta, tinham querido correr em cima dele por causa de uma mulatinha. Ele puxou o parabélum e bastou gritar: _Vem com coragem que eu sou é de Ilhéus… – para que os malandros recuassem

acovardados212.

 

A ocupação das terras mediante o emprego da violência será marcadamente representada pelas chacinas de indivíduos e de famílias inteiras, ou seja, a eliminação de obstáculos à conquista do poder material configurado pelo acúmulo de roças de cacau. Amado estabelece uma relação entre a violência física, praticada pelo jagunço, e a violência jurídica, imposta por tabeliães, advogados e juízes corruptos na ação contra os interesses dos pequenos proprietários:

 

Tão vendo essa modinha? Nessas terras vou morrer? Tá ai uma coisa verdadeira […]. O coronel Horácio fez um caxixe mais Dr. Rui, tomaram a roça que nós havia plantado […]. Que a terra era dele, Joaquim não era

dono. Veio com os jagunços mais uma certidão do cartório […], ficaram até com o cacau que já estava secando, prontinho pra vender. Joaquim era bom no trabalho […], disse que ia se vingar. Mandaram tocaiar Joaquim,

mataram ele na outra noite, quando vinha pra Ferradas 213.

 

Cacau e morte eram praticamente os únicos assuntos comentados pela população, fazendo com que os recém-chegados ficassem assombrados com a ferocidade da região:

 

Tou com mais de cinquenta anos no costado, já andei muita terra, tenho dez anos dentro dessas matas. Já fui soldado do exército, já vi muita desgraça. Mas não tem nada no mundo que chegue perto das desgraceiras daqui […]. Tem homem de alma tão danada que se posta na tocaia e aposta dez mil-réis mais o amigo pra ver de que lado o finado vai cair. Tou aqui, já corri muito mundo. Como por essas bandas nunca vi nada. É terra de homem macho, mas também dinheiro é cama de gato. Se

o cujo é bom no gatilho, passa vida regalada214.

 

Daí a ênfase jorgeamadiana na figura do jagunço, especialista em armas brancas e de fogo, cujo principal ofício era proteger a vida do coronel e participar, a seu mando, de tocaias, invasões de fazendas e povoados, ou incêndios de cartórios. O recém-chegado, geralmente vindo do sertão, quando bom de pontaria era incorporado às fileiras das milícias particulares dos fazendeiros mais importantes:

 

–Eu vou é pra Ferradas […] – anunciou um jovem. –Tenho um irmão por lá, tá bem. Tá com o coronel Horácio, um homem de dinheiro. Vou ficar com ele. Depois eu volto pra buscar a Zilda […].

–Tu não volta é nunca […] – falou um velho envolto numa capa. –Tu não volta é nunca, que Ferradas é o cu do mundo. Tu sabe mesmo o que é que tu vai ser nas roças do coronel Horácio? Tu vai ser trabalhador ou tu

vai ser jagunço? Homem que não mata não tem valia para o coronel215 (Terras, p. 25).

 

Uma personagem marcante no imaginário jorgeamadiano é o jagunço Honório, temido por toda a zona de Ferradas pela sua pontaria infalível. Apesar do ofício, Honório é retratado ficcionalmente em Cacau como um revolucionário social embrionário, que pensava em um dia matar todos os coronéis exploradores da classe camponesa oprimida. Homem de confiança do seu coronel, o jagunço desempenhava, sem constrangimento moral, o seu papel na construção da fortuna do patrão: “Honório era técnico em tocaia e o coronel Misael tinha inúmeros inimigos […] Não sei se o coronel sentia remorsos, Honório, não. Tinha a

consciência limpa e clara como a água” 216

A figura-símbolo da morte na região do cacau, o jagunço, é tratada por Amado com certa admiração, como uma espécie de herói popular: “a quem mais admirava senão a Argemiro, de temerária fama”, ou a Honório, “um gigante negro que se repete nos meus livros, a partir de Cacau? Diante de Honório todos tremiam, constava que já liquidara não sei quantos, posso garantir que era de

uma bondade sem limites, de uma delicadeza sem igual”217. O punhal e o rifle de repetição são os instrumentos que o identificam. A aura que cerca o seu ofício entre os grapiúnas o faz temido, muitas vezes admirado, e aceito como parte da paisagem social regional:

 

Herói da tocaia e do cangaço. Estava explicado porque, apesar de Honório dever novecentos mil-réis à despensa, o coronel não o botava para fora e ainda lhe fornecia dinheiro para as cachaçadas em Pirangi. Filho da terra, nascera nos bons tempos das fortunas rápidas e dos assassinatos por qualquer coisa. Educara-se entre tiroteios e mortes. Aos doze anos Honório já matara gente com a mais certeira pontaria de dez léguas em redor. Quantos matara não sabia. As mortes diminuíram, mas […] ainda hoje as estradas vivem pejadas de cruzes sem nomes. É a tocaia. Pela noite sem lua o viajante vem do povoado. A goiabeira solitária no caminho esconde o homem e a repetição. É um tiro só […]. No outro dia o corpo é

encontrado e enterrado ali mesmo 218.

 

Utilizando-se das tocaias e dos “caxixes”, a elite econômica articulou o seu predomínio social. Para Amado, a violência consolida e perpetua a hierarquização vigente no sul baiano. O número de jagunços e de armamento distingue os fazendeiros e reflete a sua influência social e política. A maior parte da população rural dependia quase que exclusivamente dos interesses do grande cacauicultor, vivendo na mais extrema pobreza e carente de qualquer benefício social trazido pelas imensas safras anuais que abarrotavam os porões dos navios estrangeiros no porto de Ilhéus.

A miséria da população rural, fruto da sua expropriação, é denunciada nas páginas dos livros. São retratadas as angústias dos trabalhadores, vítimas das contradições sociais na sociedade produtora de cacau. O desamparo dos estratos subjugados pela elite econômica é um tema caro ao escritor. Aos trabalhadores cabe o papel de maior vítima do sistema social, são eles, que principalmente, morrem e matam para que os pés de cacau floresçam e possibilitem a geração de capitais.

Os que não serviam como jagunço, os trabalhadores comuns, viviam na esperança de amealhar o suficiente para a compra de um pequeno pedaço de mata ou poder reconstituir a vida na terra natal:

 

Homens escreviam, homens que haviam ido antes, e contavam que o dinheiro era fácil, que era fácil conseguir um pedaço grande de terra e plantá-la com uma árvore que se chamava cacaueiro e que dava frutos cor de ouro que valiam mais que o próprio ouro […]. De quando em vez também chegava a notícia de que um morrera de um tiro ou da mordida de uma cobra, apunhalado no povoado ou baleado na tocaia. Mas o que era

a vida diante de tanta fartura?219

 

Ao chegarem, eram arregimentados pelos fazendeiros para a derrubada e colheita, em troca de baixos salários. Áreas específicas, como os arrabaldes próximos ao porto de Ilhéus, serviam como local de recrutamento, o “mercado de escravos” onde eram selecionados os que seriam “alugados”. As despesas com alimentação e vestuário, feitas quase todas no armazém da fazenda, o “barracão”, superavam o parco salário, ficando assim atrelados ao proprietário pela dívida. Em Cacau, um sergipano recémchegado à fazenda Fraternidade, do coronel Misael, é informado da sua nova condição:

 

Você está alugado ao coronel.

Estranhei o termo:

A gente aluga máquina, burro, tudo, mas gente não.

Pois nessas terras do Sul, gente também se aluga.

O termo me humilhava. Alugado […]. Eu estava reduzido a muito menos

que homem220.

 

Terras do Sem Fim denuncia a prática de submissão do empregado recentemente incorporado ao grupo de trabalhadores das fazendas de cacau como mecanismo de exploração da mão de obra no sul da Bahia, composta pelos “novos escravos” a serviço da acumulação capitalista:

 

Amanhã cedo o empregado do armazém chama por tu para fazer o ‘saco’ da semana. Tu não tem instrumentos pro trabalho, tem que comprar […]. E isso tudo vai ficar por cem mil réis […]. Tu vai gastar uns dez mil pra comida […]. No fim de semana tu tem quinze mil réis ganho de trabalho […]. Teu saldo é de cinco mil réis, mas tu não recebe, fica lá pra ir descontando a dívida dos instrumentos […]. Antes de terminar de pagar tu já aumentou a dívida […]. Tu já comprou remédio que é um Deus nos acuda de caro, tu já comprou um revólver que é o único dinheiro bem empregado nessa terra […]. E tu nunca paga a dívida… Aqui – e o homem magro fez um gesto circular com a mão abarcando todos eles […], aqui

tudo deve, ninguém tem saldo221.

 

Em torno do velório improvisado de um trabalhador da fazenda Baraúnas, os diálogos resumem a situação social dos trabalhadores. Um cearense recém-chegado afirmava ter ouvido falar das desgraças que aconteciam nas terras do cacau, “mas eu não dei crença […] até parecia coisa de milagre […], que era uma fartura de dinheiro […], que tinha febre, os jagunços, as cobras […]. De ruim, muita coisa”. Um velho reforçava, em sua fala, o drama do “alugado” nas roças de cacau:

 

Tão vendo o finado? Pois bem: fazia pra mais de dez anos que trabalhava nas Baraúnas pro coronel Teodoro. Não tinha nada […]. Passou dez anos devendo pro coronel […]. Agora a febre levou ele, o coronel não quis dar nem um vintém pra ajudar a fazer o enterro […]. Nunca vi destino mais ruim que o de trabalhador de roça de cacau […]. Os capangas ainda passam melhor […]. Se tu tem boa pontaria, tu tá feito na vida. Aqui só

tem valia quem sabe matar, os assassinos222.

Nos romances, a atividade de jagunço aparecia como uma das raras possibilidades para que o trabalhador das fazendas de cacau pudesse acumular algum capital. Quando mostravam algum tipo de habilidade com as armas de fogo passavam a acompanhar o coronel, nas suas investidas contra inimigos políticos e pequenos proprietários. Pelo êxito nas tocaias e invasões de terras, os jagunços recebiam somas muito acima dos salários pagos aos demais trabalhadores.

O negro Fagundes, jagunço do coronel Melk Tavares, esperava ansioso os conflitos armados que se anunciavam com a proximidade das eleições em Ilhéus: “se os falados barulhos não recomeçassem, seria difícil, muito difícil, chegar a comprar um

pedaço de terra, mesmo ruim” 223. Os “barulhos” ocorriam com frequência nos períodos eleitorais, quando os ânimos dos chefes políticos locais estavam mais exaltados. A disputa pelos cargos políticos era fundamental para os partidos, em sua relação de reciprocidade com o poder público estadual e federal, imprescindível para a manutenção e preservação do poder local.

Os encontros armados rendiam uma razoável soma de dinheiro aos jagunços, para os sonhados pedaços de terra para o plantio do cacau. No diálogo entre Fagundes e Gabriela, companheira de viagem do sertão para o litoral ilheense, o jagunço confessa nutrir a esperança de comprar uma “burara”, pequena área de terra, onde ele e Clemente pudessem plantar árvores de cacau. Para tanto, havia atirado em um importante chefe político itabunense que havia ameaçado passar para a oposição ao partido do seu patrão:

 

Por que tu atirou? Que necessidade tinha? Que mal te fez?Para mim não fez nada. Foi pro coronel. Loirinho mandou, que podia fazer? Cada um tem um ofício, esse é o meu. Também para comprar um pedaço de terra,

eu e Clemente. Já tava apalavrado224.

 

Fagundes tinha uma clara consciência do seu ofício de matador e da sua submissão às determinações do coronel. A sua fidelidade ao coronel tornava a recusa a uma ordem quase impossível, mas ele, além disso, entendia que matar era um meio que lhe permitiria comprar o seu quinhão, possibilidade única de ascensão social para homens como ele, cujo único ofício era a morte. Por sua vez, Damião, homem de confiança do coronel Sinhô Badaró, cuja fama “há muito que está além de Palestina, de Ferradas, de Tabocas”, não possui consciência da maldade do ato de matar. Esta personagem representa simbolicamente o oprimido, alienado da sua condição de explorado, um indivíduo em completa ignorância das consequências dos seus atos. Damião não visa recompensa material, mata por gratidão a Sinhô, que o livrou da prisão. Mata sem questionar, mata porque o coronel manda. Não sente remorso das mortes que causa, até o momento em que, aguardando ordens, ouve Sinhô chamar o irmão Juca de assassino, acusá-lo de gostar de mandar matar.

Ouvira Sinhô Badaró perguntar ao irmão — “tu acha bom matar gente? Tu não sente nada? Nada por dentro?”. Na tocaia, à espera de Firmo, pequeno proprietário vizinho da família Badaró, Damião sente pesar em sua cabeça as palavras do coronel. Talvez, se quem houvesse falado fosse Juca, ele não se importasse, mas Damião venerava Sinhô. No relato do romance, “se antes alguém lhe dissesse que era terrível esperar homens na tocaia para matá-los, ele não acreditaria, pois seu coração era inocente e livre de toda a

maldade”225. As crianças da fazenda o adoravam, contavam com sua presença nas brincadeiras. Mas ao ouvir Sinhô chamar com desprezo o irmão de assassino, Damião se deu conta de que a sua profissão era matar; ele não era um simples empregado, sua serventia era proteger a vida do coronel e tirar a dos inimigos da família Badaró.

Damião nem sabe mesmo como começou, “coronel manda, ele mata. Não sabe quantos já matou […] Tampouco lhe interessa saber. Não tem ódio de ninguém, nunca fez mal a pessoa alguma.

Pelo menos assim pensou até hoje”226. A morte, para Damião, passa a ter outro sentido que lhe pesa na recente consciência da maldade dos seus atos. A “inocência” perdida trouxe a Damião a dúvida nunca sentida antes: deveria matar Firmo? Era certo deixar os seus filhos órfãos, a sua mulher viúva? Seria possível desobedecer ao coronel, dizer que errou a pontaria e assim não tirar a vida de Firmo? Para Damião, a morte que o aproximara da família Badaró agora o distanciava, justamente por recusá-la. Por fim, o dilema leva Damião à loucura.

A demência é a sua fuga, sua forma de escapar do conflito que o envolve. De um lado, a gratidão aos Badaró, a sua devoção a Sinhô e, de outro, a nova consciência do seu ofício de matador, da sua função primordial para o processo de acumulação na sociedade grapiúna. A recusa da morte retirou a grapiunidade de Damião, tornou-o um pária, afastando-o do convívio social. Passou a viver sozinho, na mata do Sequeiro, entre as árvores e os animais. Algumas vezes aparecia maltrapilho pelas estradas, assombrando os viajantes. Foi preciso Sinhô usar toda a sua autoridade para impedir que Juca o matasse, como punição pelo fracasso da tocaia. Talvez houvesse, em Sinhô, uns restos de gratidão pelos serviços que Damião prestara ao aumento da fortuna familiar.

O tema da fuga da condição de assassino repete-se em Corpo Vivo, de Adonias Filho. O romance narra a saga de Cajango, o menino transformado, pelo desejo de vingança, no mais temido jagunço do sul da Bahia. A obra mostra a tragédia por ele vivida após o assassinato da sua família pelos jagunços dos Bilá, família de fazendeiros de cacau que cobiçava as terras dos proprietários vizinhos. A tragédia muda completamente o destino do menino, sua vida passa a girar em torno do sentimento de vingança.

A personalidade de Cajango molda-se ao ambiente selvagem do Camacã, onde vai ser criado pelo tio Inuri, misto de índio e jagunço. Ao educá-lo para a vingança de seus pais, Inuri ligou o destino do menino ao ambiente natural:

 

Neto do meu pai, seu sangue era igual ao meu. Isso eu entendi no primeiro dia, quando avançando na trilha, percebi que se sentia como se estivesse em casa. Levando-o, sabendo que durante meses não veria outro homem senão a mim, temia que não sobrevivesse para vingar os nossos mortos. Não demoraria a mostrar-lhe o que seria a selva, um bicho matando o outro, apenas o mais forte ou o mais astuto tendo direito à

vida 227.

 

O jagunço aparece, no romance Corpo Vivo, como um tipo que age maquinalmente, assassino por natureza. Isto é expresso na personagem o Alto, “um assassino e assassino continua porque mata sem motivo e mata qualquer um: mulher, velho ou criança” (p. 31). A questão do aumento do poder pessoal incorpora, na obra de Adonias Filho, como na de Jorge Amado, a figura do jagunço à imagem da região, no período sangrento das lutas entre os grandes coronéis do cacau. Esse processo desencadeia a tragédia que envolve a invasão das terras de Januário, pai de Cajango:

 

O mundo é muito grande – Alonso disse – mas querem as terras de Januário. Os Bilá, após certas brigas com Januário, tinham jurado lhe tomar as terras. O cacau novo de Januário começava a dar frutos. Aquelas terras valiam ouro e os Bilá tinham um exército no rifle. Que Deus guardasse a compadre Januário (Corpo Vivo, p.5).

 

Cajango, ainda um menino de treze anos, testemunha o assassinato dos pais e irmãos:

 

E deitado estava quando, ouvindo tiros e gritos, se refugiara atrás dos sacos de cacau. Ouvira as súplicas da mãe, a gritaria dos irmãos, não escutara porém a voz do pai. Ele já devia estar morto quando acordara. Os gemidos a seguir. A voz alta de um homem que ordenava: -Não deixem ninguém vivo – e os tiros de misericórdia nos que gemiam. Depois ainda escutara os gritos de Maria Teresa que diminuindo, diminuindo, cessaram definitivamente. Percebera os homens abandonando a casa, os passos pesados, e o silêncio finalmente tudo dominou. Minutos depois, saindo do esconderijo, a casa em trevas, tropeçava no corpo do pai. Arrastara-se no sangue, em busca da cozinha, mas temera acender o candieiro. E, receando que retornassem, ganhara o campo para esconder-

se nos cacaueiros228.

 

A sua vida representa uma ameaça para os Bilá: “sabendo que está vivo, caçarão este menino nos infernos”. Encontrado pelo padrinho, Cajango é levado para ser criado por Inuri nas matas ainda inexploradas pelos fazendeiros de cacau. Ali iria aprender o ofício de jagunço e liderar a luta de extermínio contra os assassinos de sua família. Para Cajango, a invasão das terras de seu pai significava o início do seu contato com o fenômeno físico e cultural da morte. A chacina de sua família o colocou frente a frente com a necessidade da morte dos seus inimigos, único meio possível de compensar o extermínio dos seus parentes.

Aos Bilá, por outro lado, não restava outra atitude a não ser eliminar o último membro da família de Januário. O controle efetivo das terras invadidas estaria sempre em perigo diante da sobrevivência de Cajango. Acolhido por Inuri, Cajango aprende o ofício de matar e transforma-se em um dos mais temidos jagunços, cujo nome era conhecido em todo o sul da Bahia. Desde criança aprendeu que o assassinato da família só poderia ser vingado com a morte dos mandantes, única forma aceitável para os homens do cacau:

 

[Padrinho]:

Que fará ele – e apontei Cajango – quando crescer?

[Inuri]:

Quando crescer, se crescer, tem que matar os assassinos do pai, esta foi a resposta. Todos nós, sangue de Januário, temos que matar eles, acrescentou […] Levantou-se e com o braço na direção da selva, soltou as palavras com lentidão. Os mortos estavam no chão e, se a terra fora roubada, às mãos de Cajango voltaria. Tinham que ser mortos os que mataram. E, na idade, se Cajango não o quisesse fazer, ele o mataria porque não pode viver quem não vive para vingar o pai e a mãe. Arrastara-se no sangue dos irmãos, eu sabia, e esse sangue não trairia. Concluiu, a voz calma, sem precipitação: -É pena que demore a

crescer 229.

 

No romance adoniano não há alternativa além da lei taliônica do cacau: sangue por sangue, morte por morte. A ira causada pela morte de um indivíduo somente poderia ser aplacada através do sangue do inimigo. Não existe outra forma de reparação. Aos que ao final, como Cajango, terminam por abdicar da vingança, não resta outra condição além do isolamento social: a fuga com a mulher para a serra distante de outros humanos e à margem dos valores regionais. Ao desistir da morte dos Bilá não há mais lugar para Cajango na sociedade do cacau. Para libertar-se do jugo das mortes da família foi preciso matar o seu tio Inuri, matar uma última vez para apagar o seu vínculo com a herança do sangue derramado.

O amor de Cajango por Malva, irmã e filha de jagunços do bando, é uma ruptura com o padrão de comportamento socialmente esperado, não se coaduna com a ótica da morte violenta como reparadora dos males. O casal se refugia nas serras longínquas das matas do Camacã, espaço simbólico da negação da grapiunidade, isolado da ambição dos plantadores materializada na posse violenta da terra.