In memoriam: urbanismo, literatura e morte

André Luiz Rosa Ribeiro · Capítulo 23 de 27

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In memoriam: urbanismo, literatura e morte

O cemitério como espaço de identidade familiar

As áreas de maior produção de sacas de cacau – a exemplo de Ilhéus, Itabuna ou Canavieiras -- puderam promover amplas reformas no espaço cemiterial e possuem um acervo tumular de aspecto monumental, tão ao gosto da elite econômica do período. Por outro lado, os cemitérios dos municípios situados em áreas de menor produção e capitalização de recursos, como Camamu, ou Barra do Rio de Contas, mantiveram o tamanho original e apresentam poucos sinais de melhorias na sua infraestrutura, apesar de possuírem alguns exemplares que se distinguem no material empregado e nos símbolos esculpidos nos túmulos das principais famílias.

 

O cemitério como espaço de

 

identidade familiar

 

Ao longo da História, diferentes sociedades construíram imagens materiais com o objetivo de reter e transmitir lembranças, mais particularmente os monumentos comemorativos. A partir do século XIX, os monumentos públicos exprimiram e ao mesmo tempo moldaram a memória nacional, na chamada era da invenção das tradições. Nessa perspectiva, o espaço exerceu um papel fundamental. As imagens que se deseja recordar deveriam ser

colocadas em locais particulares, os teatros da memória396.

É próprio dos monumentos comunicar um significado de valor e recordar um fato ou uma personalidade. Desse modo, monumentos de caráter privado se transformaram em comunicadores de valores reais ou atribuídos à condição social ou econômica dos proprietários, mediante o aparato simbólico e material que se tomam emprestado dos monumentosmodelos. O jazigo de mármore ou granito, a estátua, o epitáfio e as fotografias irão afirmar o novo culto dos mortos, consolidado pela gestão familiar e pelas visitas ao cemitério.

No Ocidente, em geral, as sepulturas individuais em espaços que podem ser qualificados como teatros da memória, como cemitérios e o interior de igrejas, expressam o desejo de uma sobrevivência na memória coletiva. A morte do indivíduo não é decretada somente pelo aspecto orgânico; as instituições sociais também desempenham um importante papel nesse processo. A morte física não é bastante para realizar a morte nas consciências. As lembranças do morto possibilitam a continuidade da sua presença no mundo dos vivos, de modo que a consciência não consegue

pensar o morto como tal e lhe atribui “uma certa vida”397.

Como foi referido anteriormente, nos anos oitocentos consolidou-se o esforço da conservação individualizada dos despojos mortais. Esta prática social será utilizada na tentativa de preservar a identidade e a memória individual. Momento especialmente importante para a confirmação de solidariedades familiares ou políticas, consideradas merecedoras de registro para a posteridade, o investimento material no túmulo faz parte do processo de diferenciação social, especialmente quando se busca prestígio para

um determinado sobrenome 398. Há uma ruptura com os aspectos mais tradicionais nas práticas relativas ao morrer, gradualmente substituídos pela pompa e verticalização dos túmulos.

O fim das inumações ad sanctos, no interior dos templos, foi encarado pelos setores mais tradicionalistas como uma ameaça à memória histórica das comunidades, aos grupos familiares, e à crença na ressurreição final dos corpos. Em Ilhéus membros de famílias mais abastadas continuaram, com a devida licença do bispado, a ter sepulturas no interior das capelas construídas em suas propriedades, como é o caso dos Sá Bittencourt na capela do engenho de Santana, ou do coronel José das Neves César Brasil na capela de sua fazenda no distrito ilheense de Aritaguá.

Este tipo de comportamento demonstra a vontade de preservação de um elo simbólico que ligava, espiritual e geograficamente, as gerações entre si. O local onde viviam também deveria receber os corpos dos membros das famílias ligadas por laços de sangue e vizinhança. Era uma forma de distinção no contexto de uma sociedade cada vez mais plural, onde negros, descendentes de índios, migrantes europeus e nordestinos, sírios e libaneses buscavam cada vez mais uma maior visibilidade social. Processo semelhante ocorreu no âmbito do sepultamento em cemitérios. Os túmulos passaram a constituir um bem imóvel, privado e transmissível por herança, forma simbólica de assegurar a preservação da memória do proprietário e da sua família. Esse processo, evidentemente, está associado à capacidade que os sobreviventes tinham para perpetuar o patrimônio herdado. Os custos de investimento na elevação de monumentos funerários não tinham retorno financeiro e, assim como o que era gasto em outras pompas, revelam a importância do supérfluo para a legitimação social no campo simbólico para a legitimação social.

As fotografias colocadas em jazigos acentuam a função da imagem de perpetuar a existência do indivíduo morto. São, em sua maioria, fotos em porcelana, cobertas por vidro e encaixadas em molduras de bronze com motivo floral. Segundo Koury, o retrato mortuário era uma forma social aceitável e fez parte do imagético familiar, cumprindo o papel de “manter viva a memória do falecido e,

ao mesmo tempo, relativizar a sua ausência”399. A fotografia mortuária integra um conjunto iconográfico que se convencionou chamar retratos de família, ligados aos rituais de passagem e que objetivam registrar momentos sacralizados. Este fato é ilustrado nos túmulos onde um grande número de parentes faz-se representar pelas fotografias dispostas em cachos, símbolo da família extensa

(Figura 18).

Como o registro fotográfico tem por finalidade amenizar a dor dos “entes queridos” quando da evocação ao falecido, um dos seus principais atributos seria retratar a tranquilidade e a paz do fotografado. A fotografia deve não somente deter o processo de deterioração do cadáver, mas também fixar uma espécie de imagem ideal da personalidade retratada, “uma espécie de máscara de eterna presença pela paz que emanava[…], uma espécie de boa morte e de sua presença eterna junto ao Senhor e no olhar para os

seus ainda vivos”400. O direito de ser enterrado no túmulo da família exprime um sentimento de pertencimento. Da mesma forma, as práticas de filiação política e de outras ordens influenciaram decisivamente a territorialização do cemitério.

Figura 18 – ASCM: Túmulo com painel fotográfico – década

de 1950 [Foto do Autor]

 

Fonte: Foto do Autor.

 

O desejo de distinção e de demarcação da identidade familiar delimitou espaços específicos preferencialmente ocupados por alguns sobrenomes. As alianças de sangue e afinidade levaram à formação de grupos responsáveis, inclusive, pela construção de cemitérios em terrenos de propriedades particulares, como os cemitérios das fazendas Almada, de propriedade da família Cerqueira Lima, e Cordilheira, da família Lawinscky, construídos no final do século XIX, conforme datação dos túmulos mais antigos. Os sobrenomes dos ocupantes e as datas existentes nos túmulos indicam que, até o início do século XX, era costume, entre as famílias, enterrar seus mortos em local próximo às propriedades que lhes pertenciam, principalmente entre os que ainda não haviam transferido residência para a cidade.

No cemitério da fazenda Cordilheira observa-se o desejo, mencionado anteriormente, de uma maior visibilidade por parte das famílias da elite. Os túmulos maiores e mais antigos foram erguidos no alto de uma pequena elevação, o que os torna mais visíveis devido à sua localização estratégica em relação às sepulturas coletivas. Estas foram situadas na encosta anterior à elevação, como se houvesse a intenção de escondê-las do olhar dos visitantes. Nesse cemitério, os túmulos maiores e mais custosos estão agrupados em núcleos familiares, como os pertencentes à família Cordier, construídos sobre uma plataforma de grande dimensão, e da família Lawinscky, agrupados em uma área próxima.

Da mesma maneira que os povoados, ou mesmo algumas ruas, na cidade, eram habitados por certos grupos familiares, os espaços no interior do cemitério se definiam como um território de vizinhança que guardou padrões associados a laços de família. Os grupos familiares do período possuíam referenciais bastante definidos, tanto na zona rural quanto na urbana, que restringiam e regulavam os laços de afinidade. Determinados espaços cemiteriais são valorizados pela família como ponto de referência para o enterro dos seus membros.

Essas finalidades identitárias e filiadoras do culto dos mortos faziam das sepulturas, sobretudo as dos antepassados que serviam de referência aos membros do tronco familiar, uma expressão da descendência grupal. As famílias, através dos jazigos perpétuos e de suas inscrições, passaram a identificar-se e a fazer render o

investimento simbólico. Conforme a Tabela 20, os descendentes e ascendentes diretos do ocupante usaram profusamente o túmulo como forma de reforçar os elos internos e sua permanência entre as gerações. Em um universo de quinhentos e onze jazigos perpétuos analisados, quatrocentos e setenta e um deles, 92 % do total, apresentam, no epitáfio, referência a parentesco direto ou colateral e, em menor grau, outros tipos de afinidade em relação ao morto.

 

Tabela 20 – Relações de parentesco e afinidade registradas nos

epitáfios

1880- 1910- 1940-

Parentesco Total %

1900 1930 1950

 

Fontes: ANSV, ASCM, ACOR, AFER e ACAN.

1880- 1910- 1940-

Parentesco Total %

1900 1930 1950

Filhos / Pais / Esposos/ 29 116 201

346 73.2

Netos (72,5%) (67,4%) (77,6%)

 

Irmãos /Tios / Sobrinhos 08 (20%) 40 35 83 18.0 (23,3%) (13,5%)

 

Genros / Sogros / 02 (5%) 11 (6,4%) 19 (7,3%) 32 6.7 Cunhados

 

Padrinhos / Afilhados / 01 05 (2,9%) 04 (1,6%) 10 2.1 Amigos (2,5%)

Total 40 172 259 471 100

Fontes: ANSV, ASCM, ACOR, AFER e ACAN.

 

Se, em alguns casos, a sepultura era construída com o objetivo de materializar a imagem que o morto quis conservar de si, em outros projetava a ideia que os vivos faziam de si mesmos. A significação dada pelos vivos à consagração mnemônica dos seus mortos demonstra o desejo de se representarem como herdeiros de

um patrimônio familiar simbólico 401. A importância deste tipo de mecanismo se expressa no fato de que algumas famílias chegaram a possuir uma dezena ou mais de túmulos, espalhados em toda a área do cemitério ou, quando possível, agrupados em terrenos geralmente próximos ao de um antepassado tido como referência familiar.

As sepulturas perpétuas, no caso dos recentemente enriquecidos, funcionaram como um marco inaugural de poder. Existe uma memória genealógica profunda em sociedades de emigrados, onde as referências a antepassados de duas ou três gerações são altamente valorizadas, sobretudo para afirmar a ascendência de um “colateral prestigioso, cuja atuação confere brilho à família em

questão”402. Como já foi dito, uma das maiores correntes migratórias para o sul da Bahia, entre finais do século XIX e princípios do século XX, foi composta por famílias oriundas da Síria e do Líbano, muitas das quais constituíram importantes patrimônios financeiros.

A Tabela 21 evidencia que, entre os túmulos em que foi possível determinar a origem étnica dos ocupantes, existe uma predominância de euro-brasileiros nos grupos de descendência estrangeira. Tal fato deve-se à corrente migratória formada por europeus ao longo do século XIX, configurada pelos túmulos dos seus descendentes. É possível perceber que, enquanto cresce o fluxo sírio-libanês, a corrente migratória europeia perde força no século XX, limitando-se então a alguns poucos comerciantes dedicados à exportação de cacau, suíços em sua maioria, os ingleses da estrada de ferro e seus empregados.

 

Tabela 21 – Origem dos proprietários de túmulos por

décadas

Origem 1880-1900 1910-1930 1940-1950 Total %

Brasileira 12 (35,3%) 97 (76,4%) 192 (75,3%) 301 72,4

Euro-brasileira 19 (55,9%) 16 (12,6%) 26 (10,2%) 61 14,8

Sírio-libanesa - 07 (5,5%) 30 (11,8%) 37 8,8

Europeia 03 (8,8%) 07 (5,5%) 07 (2,7%) 17 4,0

Total 34 127 255 416 100

Fonte: ANSV, ASCM, ACOR, AFER e ACAN.

 

A maioria dos sírios e libaneses que migrou para a região cacaueira dedicou-se inicialmente ao comércio ambulante, pois a mercadoria neste tipo de comércio poderia ser obtida a crédito. Os primeiros imigrantes dessa procedência continuaram como mascates apenas o tempo suficiente para acumular capital e investi-lo em pequenas lojas de comércio a varejo. Na zona rural, abriram armazéns estabelecidos em pontos estratégicos, como o cruzamento de estradas, e, na cidade, pequenas lojas de armarinho e tecidos localizadas nas praças centrais e vias principais, tais como

as ruas Pedro II e Almirante Barroso, em Ilhéus403.

Logo que prosperaram, esses comerciantes mandaram buscar parentes e amigos nos seus países de origem. Os recém-chegados recebiam mercadorias e eram despachados a mascatear. Com o passar do tempo muitos abriram suas próprias lojas, em geral em local próximo ao da primeira, e assim iam estabelecendo uma maior influência no comércio e certa inserção na sociedade cacaueira. Ao adquirirem capital suficiente, alguns investiram na compra de roças de cacau, mas o comércio foi a atividade básica do sírio-libanês. Todas as suas atividades na sociedade local tiveram como ponto de partida o comércio, pois foi ali que eles “fizeram o seu nome”, inserindo-se na ou excluindo-se da vida social.

Como a maioria dessas famílias havia chegado com poucos recursos financeiros, a preferência de moradia recaía em locais situados fora do centro, mais adequados aos limites de suas posses. Parentes e amigos iam se alojando nas proximidades, o que era fundamental para o convívio e a manutenção de sua cultura, permitindo que conservassem hábitos comuns, incluindo o casamento entre os membros da comunidade. O desejo de fomentar uma identidade pela origem comum e demarcar o seu espaço na construção da “civilização do cacau” está expresso nos epitáfios dos jazigos, como o do libanês Baracat Habib que exprime em versos a saga da imigração,

 

Vieram jovens para as jovens terras do cacau, de velhos montes para o novo chão.

Olhos brilhando, brilhando de esperança e um velho cedro em cada coração.

Qual riqueza dessas montanhas, qual sua herança? Uma tradição. Mas tinham brilho nos olhos tranquilos

E um cedro em cada coração.

Vieram jovens dos montes antigos onde a neve eterna o sol desafia e

trabalham, desde cada aurora, até o cansaço em cada fim de dia. Deram seus filhos como gratidão, são brasileiros com brilhos nos olhos e um

velho cedro em cada coração404.

 

O jazigo perpétuo, transformado em local de culto pelas visitas periódicas, era um capital simbólico necessário à identidade grupal. A prática do culto aos mortos fez com que cada indivíduo funcionasse como elo na cadeia da memória que liga o presente ao passado, dando um sentido de continuidade às gerações através do tempo. O jazigo representou a expressão material da memória familiar no espaço do cemitério, dando a impressão de eternizá-la perante a sociedade.