In memoriam: urbanismo, literatura e morte

André Luiz Rosa Ribeiro · Capítulo 6 de 27

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In memoriam: urbanismo, literatura e morte

Terra, violência e poder

Nas primeiras décadas do século XX, Wildberger se associaria a Hugo Kaufmann, suíço chegado em 1903 para trabalhar na filial de Ilhéus. O contrato da nova firma assegurava exclusividade de compra, para Wildberger, de todo o cacau negociado por Kaufmann, compromisso mantido até 1918, quando este último decidiu acabar a sociedade e se transformar em concorrente de Wildberger. Na primeira metade do século XX, Kaufmann e Wildberger destacaram-se nas finanças baianas pela posição de comando no comércio de cacau, posição ocupada até a fundação do Instituto de Cacau da

Bahia85.

 

Terra, violência e poder

 

O processo de incorporação dos férteis terrenos do Almada e do Cachoeira caracterizou-se por questões jurídicas envolvendo os limites das propriedades cacaueiras, disputas provocadas pela intensificação da demanda no mercado exterior e a consequente valorização do produto na pauta de exportação da província baiana. O aumento das safras de cacau e a introdução de novos tipos da planta modificaram o quadro agrícola do sul baiano, incorporando faixas de terras ainda inexploradas comercialmente.

Esse processo de expansão da lavoura foi descrito como a “epopeia do cacau”, a fase “selvagem” do desbravamento que antecede o período da “civilização” dos costumes. De acordo com Araújo Góes, as zonas de desbravamento davam a impressão “de um país recentemente descoberto, colonizado por levas de imigrantes.” A ocupação da terra era, como consta na epígrafe deste capítulo, “feita tumultuariamente”, com os fazendeiros se

apropriando de terras antes pertencentes aos índios86.

Em uma das suas conferências proferidas em Ilhéus nos anos 1930 e transcrita pelo historiador Silva Campos, J. Cardoso recordou o clima violento na passagem do século XIX para o XX, quando o município era “uma presa das mais violentas e cruéis paixões políticas”. Para Cardoso, a situação moral da cidade ou a “atmosfera do ambiente” era fruto das relações humanas desenvolvidas em um período “verdadeiramente tumultuário” típico

dos povos “de civilização de começo”87.

Ilhéus seria “vítima dos acontecimentos sociais determinados pelas leis que regem os destinos humanos”. As explosões de ódio entre os grupos políticos fariam parte de um estágio anterior à “definitiva organização social”. As heranças dessa “fase sombria” estariam refletidas no aspecto arquitetônico da cidade, como o seu “casario pesado e inestético, irregularíssimo e tristonho, assentado e mantido no mesmo plano de edificação”, com suas “linhas de arquitetura bisonha e inexpressiva dos seus primeiros povoadores ao tempo do Brasil colonial” que davam uma ideia da “tristeza e intranquilidade” de sua população.

Há uma crítica implícita aos administradores do período, “senhores, em cuja situação de mandonismo se revezavam, sem qualquer vantagem de ordem coletiva”, cuja “oligarquia” era dominada “pela obsessão do mando eterno”. Silva Campos elogia a “eloquência demostênica” do artigo ao retratar o contexto social ilheense do período, consequência das condições do “ambiente econômico, racial e cultural”. Observe-se que o historiador faz referência às tensões étnicas existentes na conformação social da

região, fruto de um passado escravocrata ainda recente88.

Não raro, nas eleições para preencher os cargos de oficiais da câmara da vila de São Jorge, todos os nomes eleitos para a substituição dos anteriores eram de parentes, o que levava a um predomínio de determinados sobrenomes na administração local. Esse fato repetia-se nas nomeações de diversos outros cargos, onde se repetiam sobrenomes como d’Eça, Castro, d’Araújo, Marques Brandão, Sá Bittencourt, entre outros. As grandes relações de parentesco impediam a formação de conselhos de sentenças imparciais e promoviam rivalidades muitas vezes expressas em atos

de violência89.

A fase de expansão do plantio de cacau foi acompanhada pelo aumento das tensões políticas cada vez mais ligadas aos interesses privados dos grandes proprietários de terra. A luta entre liberais e conservadores acirrou-se no contexto final do sistema monárquico brasileiro. A transição para o sistema republicano ocorreu no período em que a lavoura cacaueira tornou-se cada vez mais importante para a província, fundamental para o financiamento de novos investimentos públicos. Em sua História da Bahia, Braz do Amaral indica uma relação entre o aumento da violência como prática política e os interesses econômicos cada vez mais acentuados pela a produção cacaueira. Entre 1885 e 1886 foi registrado, na região, um total de duzentos e vinte crimes. Segundo o governo da província, a maioria era de assassinatos e ferimentos,

graves e leves 90.

O poder político na região produtora de cacau entre a segunda metade do século XIX e as primeiras décadas do século passado tinha na família extensa Sá Bittencourt o seu mais importante representante. Os membros ilheenses do grupo familiar descendiam de José de Sá Bittencourt Câmara e Accioli, que, no início do século XIX, adquiriu em hasta pública a maioria das antigas propriedades jesuíticas e tornou-se o maior proprietário de terras da comarca de São Jorge dos Ilhéus, entre elas o engenho de Santana e a sesmaria das Doze Léguas.

Os vários ramos da família surgidos através das relações de casamentos contraídas pelos descendentes de Sá Bittencourt, e a posse de importantes propriedades agrícolas e comerciais consolidaram o seu prestígio político e econômico no sul baiano. No município de Ilhéus eles possuíam extensas plantações de café e cacau nas terras que corriam do sul ao norte do litoral do município, onde os antigos engenhos e as serrarias foram transformados em grandes fazendas de cacau, especialmente a partir da segunda

metade do século XIX 91.

O poder municipal, durante o período imperial, esteve nas mãos da família Sá, devido, principalmente, ao seu prestígio social em Salvador e no Rio de Janeiro. Relações de vários tipos ligavam a família às elites políticas baianas que, como ela própria, controlavam politicamente a província através do domínio dos municípios em um ambiente com profundas raízes escravocratas. Antes da abolição da escravidão no Brasil a riqueza das famílias era medida pela quantidade de “peças” que possuíam. Eram então os Sá Bittencourt e seus parentes os maiores proprietários de escravizados do município, cujos braços eram utilizados no plantio de cacau, mandioca, café e cana-de-açúcar.

Os liberais ilheenses, que eram opositores do grupo político dominante, contestavam a legitimidade ética dos líderes conservadores, acusados de construir o seu poder em função do trabalho escravo e das benesses do governo, confundindo os bens públicos e os privados, mantendo, dessa forma, o município em um profundo atraso material. Por outro lado, os principais chefes liberais eram taxados pelos conservadores de forasteiros, aventureiros sem tradição na região, que tinham como único desejo controlar o poder municipal em benefício próprio.

A disputa pelo domínio político e econômico do município dividiu os em grupos que se tornaram antagônicos, mas eram de cunho familiar: conservadores e liberais, no império; e depois federalistas e constitucionalistas, na república velha. Estes dois últimos eram conhecidos no município pelas alcunhas de adamistas e pessoístas, originadas dos nomes dos seus principais líderes, Domingos Adami de Sá e Antônio Pessoa da Costa e Silva, ambos coronéis da Guarda Nacional. A ascensão de Seabra ao governo da Bahia, em 1912, levou a família Sá e os seus aliados ao ostracismo político.

Desde então, a chefia do executivo municipal passou ao coronel Pessoa, tradicional aliado de Seabra no sul baiano. Buscando ampliar sua base política no município, Pessoa articulou-se com dissidentes adamistas, que inicialmente haviam formado um partido defensor da emancipação política de Tabocas, a maior parte deles fazendeiros do distrito de Cachoeira do Itabuna, ligados entre si através de uma intensa rede matrimonial, especialmente os descendentes dos colonos vindos para a região nos oitocentos.

Enquanto os Sá buscavam legitimar a sua liderança na tradição do seu poder político e econômico, Pessoa construiu sua liderança com um discurso baseado no caráter moral de sua personalidade e dos seus principais correligionários. Antigo abolicionista e de origem relativamente modesta, Pessoa se mostrou como um homem feito por si, cujo capital foi construído pelo trabalho, sem auxílio de parentes ricos ou de recursos públicos. Nos seus discursos e em artigos publicados na imprensa local, representava a si e ao seu partido político como a antítese da família Sá, descendente de antigos aristocratas escravistas que dominavam o município através da posse de grandes extensões de terra e do controle de diversas instituições, entre as quais a Guarda Nacional.

O regime republicano dividiu o município de São Jorge dos Ilhéus em quatro distritos eleitorais: um urbano (a cidade) e três rurais (Itaípe, Cachoeira de Itabuna e Almada). Os distritos de Itaípe e Almada eram dominados politicamente pelo coronel Adami de Sá, enquanto o distrito de Cachoeira sofria a influência do coronel Antônio Pessoa. A família extensa Sá, cujo núcleo se formou a partir dos sobrenomes Sá Bittencourt e Homem D’el-Rey, de origem mineira, e Adami, Hohlenwerger e Lavigne, de origem europeia, possuía propriedades espalhadas por todo o município, mas concentrou-se principalmente nos distritos do Itaípe (antigo Taípe) e do Almada.

Por sua vez, o distrito de Cachoeira de Itabuna era a base territorial das famílias que se opunham, politicamente, ao primeiro núcleo, em sua maioria descendentes de alemães e sergipanos, cuja liderança girava em torno dos sobrenomes Berbert e Pessoa. Com a consolidação econômica da lavoura do cacau, o município adquiriu uma nova dinâmica, visível no gradativo abandono de outras lavouras e no intenso fluxo migratório: europeus ocidentais, nos oitocentos, e nordestinos, especialmente sergipanos, na República Velha.

O sobrenome comum identificava diversos proprietários individuais de terra, funcionando como um símbolo da família extensa e expressando historicamente uma linguagem de poder. A identidade política das oligarquias estava diretamente ligada a um governo baseado na estrutura familiar patriarcal. A representação histórica e a retórica política imbricaram-se na região cacaueira no século XX. A percepção que as facções políticas da elite do cacau tinham de si mesmas, e os argumentos desenvolvidos para sua fundamentação, vieram a dominar o discurso sobre o passado da região. Textos históricos, técnicos, jornalísticos e literários fizeram parte desse processo, que ocorreu durante todo o século XX e ajudou a construir e disseminar o paradigma dominante da história

regional 92.

Quando o cacau tornou-se o mais importante produto de exportação da Bahia, vários fazendeiros, de origem humilde, mas já proprietários de vastas plantações de cacau e de importantes casas comerciais, tornaram-se os novos ricos da sociedade baiana. Ao adquirir suficiente capital para novos investimentos, esse grupo social passou a utilizar o seu poder econômico para obter o controle do poder público. Nas eleições ocorridas entre os anos de 1894 e 1912, seus membros sucessivamente elegeram o coronel Pessoa como intendente, além de elegerem diversos conselheiros municipais. Porém, os seus candidatos não eram oficializados pelo senado estadual, que tinha a prerrogativa de diplomar os eleitos, ou seja, legitimar a posse dos cargos do executivo e legislativo estaduais e municipais. As eleições, em que invariavelmente ambos os partidos se declaravam vencedores, eram anuladas e os situacionistas empossados nos cargos.

O final do século XIX e as primeiras décadas do século XX compreende o período mais agudo da luta armada e simbólica entre as famílias aristocráticas e a elite de novos ricos, que procurava se legitimar socialmente. Gradualmente, a nova burguesia encontrou formas de expressar o seu poder social e político. A maioria deixou de residir nas fazendas e construiu palacetes na cidade que, assim como seus túmulos, foram os símbolos urbanos mais utilizados para dar visibilidade ao seu prestígio socioeconômico.

O mobiliário das casas e as vestimentas da família vinham do Rio de Janeiro ou eram importados diretamente do Rio de Janeiro e da Europa. A educação formal das novas gerações tornou-se objeto de preocupação dos coronéis emergentes. As filhas eram matriculadas no convento das ursulinas francesas em Ilhéus, Instituto Nossa Senhora da Piedade, e os filhos enviados para as melhores escolas e faculdades de Salvador e do Rio de Janeiro. Estes últimos, os futuros bacharéis, passarão a representar ou substituir os coronéis nos cargos públicos utilizando, contudo, os mesmos mecanismos de apropriação do poder político.

Antagônicos, os dois grupos da elite cacaueira não fizeram um pacto social. Cada grupo criou uma imagem própria de si mesmo. Desse processo emergiu a identidade coletiva dos novos ricos, que foi claramente expressa na campanha política de Antônio Pessoa.

Em seus discursos, os correligionários eram apresentados como responsáveis pelo progresso da região e geradores da riqueza explorada pela elite tradicional de Ilhéus e Salvador. Foi disseminado, entre os pequenos proprietários, através da propaganda política, o orgulho de não ser oriundo de família rica de berço, de ter vencido pelo próprio trabalho.

Este fenômeno está em harmonia com uma tendência geral no Brasil à época da proclamação da república. Segundo Chalhoub, a libertação dos escravizados e a política migratória foram os dois processos constitutivos fundamentais da formação do mercado de trabalho capitalista. E acrescenta o autor: “pode-se dizer que a República foi proclamada sobre a figura do homem livre pobre, porque tinha para ele um projeto amplo, que era transformá-lo em

trabalhador” 93.

A forte resistência, por parte de membros da elite tradicional ilheense, à ascensão dos novos-ricos na política municipal, associa-se à discriminação devido à sua condição social. Os novos-ricos, descendentes de proletários alemães e de afro-brasileiros, não seriam facilmente aceitos como iguais pelas famílias tradicionais. A “aristocracia” ilheense não criou uma relação de identidade com essa nova elite regional desprovida de sobrenomes de prestígio, os quais nitidamente demarcaram uma identidade própria através do discurso e do simbólico. A exclusão política dos novos-ricos fez com que Antônio Pessoa e seus correligionários iniciassem uma campanha sistemática de propaganda, com a criação de um órgão de imprensa próprio.

Em 1901, uma sociedade formada por fazendeiros e comerciantes pessoístas fundou o jornal Gazeta de Ilhéos, através do qual expressavam uma retórica de ferrenha oposição à família Sá, taxando-a como um “clã feudal”, formado por potentados e ditadores de raízes escravocratas e responsáveis pelo atraso material do

município.94 O órgão de propaganda do grupo adamista, o jornal A Lucta, foi fundado pouco depois. Como está explícito no próprio nome, o jornal tinha como objetivo combater o discurso pessoísta nos seus editoriais. Os artigos publicados pela imprensa propagavam os seus discursos entre a população do município. O coronel Pessoa, principal articulista da Gazeta de Ilhéos, e os bacharéis João Mangabeira e Rui Penalva, além de Celerino Dantas, redatores do jornal adamista A Lucta, foram os responsáveis pela propaganda ideológica dos partidos locais. Dessa forma, as páginas dos jornais foram utilizadas como um espaço privilegiado de expressão dos valores da sociedade cacaueira.

O discurso político e histórico construído pelos segmentos da elite econômica regional difundiu-se progressivamente no corpo social por sua capacidade de convencimento e mobilização. Foi necessário tornar esse discurso mais do que um projeto sobre a organização do poder, mas uma forma de expressão da visão de mundo. A elaboração de uma imagem, que influiu na própria concepção arquitetônica e urbanística regional, foi parte do processo de legitimação do poder.

É através da construção da memória que os grupos sociais definem suas identidades, delimitam seu território e organizam seu passado. O mito regional desenvolvido pelo grupo dos novos-ricos do cacau, teve origem no projeto republicano que, em Ilhéus, foi claramente direcionado aos lavradores recém-chegados, entre o final do século XIX e o início do século XX. Estes passaram a disputar a riqueza e o poder no território do cacau, assim que criaram as necessárias condições econômicas e uma identidade própria.