In memoriam: urbanismo, literatura e morte

André Luiz Rosa Ribeiro · Capítulo 25 de 27

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In memoriam: urbanismo, literatura e morte

Considerações finais

 

O desenvolvimento da produção do cacau e a ampliação do território utilizado para o seu plantio fizeram emergir uma nova lógica nos comportamentos e nas atitudes da população da região sul da Bahia. A região cacaueira teve a sua identidade cultural constituída mediante a formação, patrocinada por membros de suas elites, de uma memória que remete às suas origens como área de fronteira agrícola, aberta na mata atlântica por elementos das mais diversas procedências, agrupados em núcleos familiares e políticos. As motivações e os mecanismos da constituição de tal memória podem ser observados em fontes como os jornais, mas também na literatura, nos edifícios e equipamentos urbanos, e nos ritos e arquitetura associados à morte.

Nas primeiras décadas do século XX, os mais importantes plantadores passaram a investir parte do seu capital em empreendimentos urbanos, especialmente em edifícios residenciais e em melhorias da infraestrutura dos principais logradouros, proporcionando uma nova feição às paisagens citadinas. As cidades serviram como local por excelência do modelo civilizacional que se aplicou, de preferência, nos locais de maior visibilidade social.

Em Ilhéus e Itabuna, os espaços centrais foram ocupados pelas elites econômicas mediante construções residenciais e comerciais de sua propriedade. Nestas áreas privilegiadas instalaram-se os principais edifícios públicos e religiosos, os melhores hotéis e os principais estabelecimentos de crédito. As diferenças estabelecidas entre os palacetes situados nas ruas centrais e as casas populares dos bairros periféricos eram análogas às que existiam entre os jazigos perpétuos e as sepulturas rasas localizadas nos espaços menos valorizados dos cemitérios.

O empenho na demonstração de status verificava-se, sobretudo, entre os novos-ricos do cacau, os quais investiram intensamente no campo simbólico para alcançar o prestígio social das famílias mais antigas. O esforço na construção de uma imagem positiva para si, desencadeado durante o período de luta violenta pela posse das melhores terras para a lavoura cacaueira, serviu como enredo para os principais autores regionais. Jorge Amado e Adonias Filho representaram, em sua ficção, uma sociedade na qual o poder foi estabelecido pelo uso indiscriminado da força, instituindo um passado fundador marcado pelo signo da morte violenta ou “selvagem”. A sua obra literária apresenta a morte como elemento legitimador do poder social trazido pela posse de fazendas de cacau. A morte permeia a identidade dos construtores da chamada “civilização grapiúna”.

Há, neste sentido, uma concordância entre o discurso da imprensa e o da literatura quanto ao período abordado. Ambas as narrativas enfatizam as mortes violentas como elemento fundamental para o acúmulo de terras e de capitais. As informações contidas nos jornais denotam as filiações de cada veículo e a organização dos acontecimentos e informações segundo seus próprios filtros políticos. A confrontação no plano jornalístico deu-se entre o “eu” civilizado e o “outro” bárbaro, confrontação na qual a morte e a violência eram prerrogativas dos adversários políticos. Desta forma, a imprensa colaborou decisivamente com a visão ficcional da região cacaueira da Bahia como uma terra adubada com o sangue dos que tombaram assassinados nas tocaias e encontros armados.

Esta visão foi posteriormente rejeitada pelas novas gerações, não tão afeitas às armas e à violência. O processo de transformação da imagem regional passou pela “civilização” da morte e pela consagração dos mortos ilustres. O culto dos mortos formou um panteão formado por grandes homens e mulheres. O investimento nas cerimônias de recordação era coerente com o desejo de reduzir os efeitos da morte física e, consequentemente, o desaparecimento dos vestígios sociais do indivíduo.

Os cortejos, o luto, os anúncios fúnebres e os necrológios constituíram formas de perpetuar a memória individual ou familiar e ajudaram a construir uma imagem ideal da existência do morto. Os rituais fúnebres, como o velório, possuíam uma importante função no desenvolvimento das relações sociais. Realizados no interior das residências ou nas igrejas, com o caixão em destaque, congregavam os parentes e, a depender do prestígio individual ou familiar, um grande número de pessoas. Os rituais fúnebres incluíam uma rede de gestos e práticas que acompanhavam o morto em todo o processo de despedida e separação dos vivos.

As práticas religiosas e cívicas, desde o velório até o acompanhamento do enterro, revelam não somente padrões de comportamento e suas mudanças, como estratificações sociais típicas de uma sociedade altamente hierarquizada. As transformações no padrão arquitetônico e urbanístico dos cemitérios são mais evidentes nos acervos urbanos, onde percebeu-se uma maior ruptura com os padrões tumulares típicos do século XIX, e um significativo investimento no aumento da área ocupada e na aquisição de materiais custosos para os túmulos. Neles, ocorreu a diminuição dos traços arquitetônicos similares aos dos templos católicos e o aumento das dimensões das áreas ocupadas e do aparato simbólico de caráter individualista. Os cemitérios urbanos, diferentemente dos cemitérios rurais, tornaram-se ícones da expressão do poder econômico regional.

O novo culto aos mortos transformou os cemitérios em familistérios, e o seu aparato arquitetônico em altares erguidos à memória dos antepassados. A importância que os grupos de cunho familiar e político atribuíram à consagração dos seus membros nos funerais contribuiu para a consolidação das linhagens regionais, fazendo de cada jazigo perpétuo um capital simbólico relevante para o exercício do poder local.