In memoriam: urbanismo, literatura e morte
Introdução
Este livro propõe centralmente compreender práticas e representações relativas à morte no sul da Bahia, relacionando-as com o contexto histórico de emergência e florescimento do urbanismo regional. Enfoca em especial os mecanismos baseados nas práticas de construção de memória, utilizados na afirmação do poder de determinados grupos políticos. O interesse nesse objeto surgiu a partir de estudos anteriores sobre formas pelas quais as elites econômicas da região expressavam seus projetos e situação social nas intervenções urbanas e na arquitetura, inclusive a
cemiterial, focalizando o município de Ilhéus 1.
Na análise das formas arquitetônicas e dos materiais empregados nos túmulos do cemitério municipal de Nossa Senhora da Vitória, percebemos o vínculo entre os discursos construídos sobre a morte e a trajetória das relações sociais locais. O que havia sido pesquisado no município de Ilhéus apontava para a necessidade de ampliar o escopo da investigação para a região como um todo, observando homogeneidade e diferença, não somente entre os cemitérios dos diferentes municípios, mas também entre zonas urbanas e zonas rurais. Fazia-se necessária ainda a ampliação das séries de imagens, assim como a incorporação dos diferentes tipos de discurso produzidos sobre a morte nos epitáfios, anúncios fúnebres, necrológios e na literatura, dos comportamentos nos ritos fúnebres, seus significados e suas mudanças históricas.
As representações do morto, as práticas funerárias, de luto e de sepultura constituem mecanismos sociais estrategicamente utilizados para perpetuar a lembrança individual ou familiar e construir uma imagem ideal de sua existência. Segundo Halbwachs, a memória retém do passado apenas o que é “capaz de viver na
consciência do grupo que a mantém” 2. Assim, a chamada região cacaueira do sul da Bahia teve a sua identidade cultural constituída mediante a formação de uma memória que remete às suas origens como área de fronteira agrícola, aberta na mata atlântica por elementos das mais diversas procedências agrupados em núcleos familiares e políticos. Essa memória, que desempenhou um importante papel nas lutas entre grupos pelo poder local, desenvolveu-se a partir das representações produzidas como meio de legitimação social, presentes nas narrativas sobre a morte, e na iconografia cemiterial.
Os cemitérios urbanos e rurais localizados nos municípios de Ilhéus, Canavieiras e Itabuna expressam as mudanças históricas por que passou a sociedade regional no campo econômico e cultural entre o final do século XIX e a primeira metade do século passado, recorte temporal deste livro. O fenômeno da secularização dos cemitérios, surgido no bojo do processo civilizatório oitocentista, criou condições para que também o culto dos mortos fizesse parte da constituição de identidades e distinção dos indivíduos, famílias, e grupos sociais e políticos. Entre as principais medidas relacionadas com o projeto de reforma estava a transferência dos enterramentos do interior das igrejas para os cemitérios públicos extramuros.
A morte e os mortos passaram a ser um problema de saúde pública. Pela ótica higienista do período, os velórios e os cortejos fúnebres, entre outros usos funerários, seriam focos de doença, mantidos por uma mentalidade atrasada e supersticiosa que já não se adequava aos ideais civilizatórios da nação que se modernizava. Além do ambiente mais higiênico, o cemitério oitocentista deveria ter uma função educativa, tornando-se um modelo de comportamento cívico. Nele, os túmulos monumentais celebrariam os cidadãos exemplares e rememorariam suas virtudes perante a sociedade. Na formulação de João Reis, “no cemitério-modelo dos reformadores
funerários, a virtude cívica substituiria a devoção religiosa” 3.
As diferenças estabelecidas entre a monumentalidade dos jazigos perpétuos e as sepulturas comuns eram análogas à distância entre os palacetes construídos pelos grandes fazendeiros e comerciantes e as casas populares dos bairros periféricos. Nas elites econômicas, o empenho na demonstração de status se verificava, sobretudo, entre os recém-enriquecidos pelo cultivo do cacau no período da república velha, segmento formado por grupos de origens sociais que investiram intensamente no campo simbólico, buscando
alcançar o prestígio das famílias de proprietários mais antigos4.
No desenvolvimento da investigação foram pesquisados os espaços cemiteriais urbanos de Nossa Senhora da Vitória (Ilhéus), da Santa Casa de Misericórdia (Itabuna) e Municipal de Canavieiras; além dos cemitérios rurais de Cordilheira e Ferradas, respectivamente situados nos municípios de Ilhéus e Itabuna. O cemitério rural do distrito de Jacarandá, situado em Canavieiras, foi excluído devido ao estado de ruína em que se encontra e à escassez documental sobre a sua construção, o que dificultou sobremaneira o levantamento de dados.
O livro compõe-se de duas partes. A primeira constitui-se de dois capítulos iniciais, que tratam da trajetória econômica e urbana do sul da Bahia desde o fim do período colonial até o início do século XX. A segunda é constituída pelos três capítulos finais que versam sobre as representações da morte presentes especialmente na literatura jorgeamadiana e adoniana, nos necrológios e anúncios fúnebres, e nos acervos tumulares dos cemitérios acima citados.
O primeiro capítulo analisa as transformações econômicas da antiga comarca de São Jorge dos Ilhéus. De simples exportadora de farinha e madeira, principalmente para Salvador e o Recôncavo, a comarca transformou-se em uma das áreas mais dinâmicas da economia brasileira com a lavoura cacaueira, direcionada para o mercado externo. Em uma área com grande dimensão territorial e subordinada a uma economia natural, a agricultura comercial foi a base do povoamento e da geração de renda. O cacau tornou-se o sustentáculo econômico da Bahia e um dos principais produtos da pauta de exportação nacional, o que acarretou uma mudança significativa nos valores sociais e culturais presentes na sociedade regional.
A modernidade, no Sul da Bahia, traduziu-se, entre outros aspectos, no processo de melhoria da infraestrutura material dos principais núcleos urbanos do cacau e na consolidação de determinados ícones do progresso regional. Entre estes, destacamos a estrada de ferro “Ilhéus-Conquista”, que ligava o interior da zona produtora ao principal porto exportador; e a catedral de São Sebastião, construída para sediar o bispado ilheense e simbolizar a importância econômica e social dos coronéis do cacau perante outros segmentos que encarnavam o poder no estado, como os plantadores de cana-de-açúcar e fumo do Recôncavo e os grandes comerciantes de Salvador.
O segundo capítulo discute as transformações urbanas nas principais cidades do sul da Bahia, Ilhéus e Itabuna. Toma os padrões arquitetônicos e urbanísticos que emergiram na época como elementos relevantes para o entendimento da trajetória social e política da região. As modificações no tecido urbano expressam os ideais civilizatórios. As cidades tornaram-se o espaço privilegiado para usufruir os benefícios introduzidos pela modernidade. Além deste fenômeno em geral, o capítulo explora como os projetos urbanísticos de higienização e do embelezamento das cidades foram apropriados pelas elites do cacau.
O terceiro capítulo examina as representações da morte na ficção de Jorge Amado e Adonias Filho sobre a temática do cacau. As obras analisadas estão marcadas pela presença fundamental da morte na composição dos seus enredos e das suas personagens. O discurso literário é analisado conjuntamente e confrontado com o discurso jornalístico sobre os conflitos armados do início do século XX na região. Nossa análise da obra ficcional enquanto representação considerou o lugar social do autor, seu posicionamento político e sua filiação literária. Os principais autores regionais serviram-se da ficção para representar o passado da zona produtora de cacau do Nordeste brasileiro como um processo de desbravamento da mata atlântica por homens destemidos, a maioria deles humildes imigrantes de várias partes do Nordeste, que enfrentaram doenças, índios e jagunços no plantio do “fruto de ouro” e construíram uma civilização com traços característicos.
O quarto capítulo do livro aborda outra visão da sociedade sul-baiana, a qual difere da imagem associada à violência e à morte “selvagem”. Nos discursos construídos nos epitáfios, necrológios e anúncios fúnebres é possível perceber aspectos que remetem à ideia de morte “civilizada”. Tais discursos apontam para o papel pedagógico e exortativo do momento da morte. São verdadeiras lições de vida que mostram o caminho a ser seguido, exemplificado pela figura do morto, cujas qualidades devem guardar uma estreita equivalência com a ética a ser adotada pela comunidade em que viveu. Nas pompas fúnebres apresentadas nas missas, velórios e enterros, estudados principalmente mediante a análise de fontes hemerográficas, dá-se a progressão das distinções sociais em uma sociedade cada vez mais pautada em valores típicos do individualismo, fenômeno este também presente nos símbolos tumulares.
Nos relatos sobre os ritos fúnebres, como os cortejos e as missas, são observados os comportamentos dos grupos familiares e políticos confrontados com a perda dos seus membros mais importantes. Tais comportamentos fundam-se nas regras de filiação e aliança que constituem identidades e a partir das quais se
desenvolvem laços de sociabilidade5. O “fluxo melífluo da consagração” de um membro da família ou do partido expressa o
lugar social que seus descendentes desejam usufruir 6.
O quinto e último capítulo investiga as fontes arquitetônicas cemiteriais para além da sua qualidade estética, procurando, a partir delas, compreender os projetos sociais e as visões de mundo dos seus construtores. A pompa e a singeleza traduzem as desigualdades e fornecem um mapa social do espaço da morte, de acordo com o tipo de sepultura (perpétua ou comum, vertical ou horizontal), a qualidade e diversidade do material empregado, o seu tamanho e localização espacial (zonas privilegiadas ou periféricas). O túmulo é constituído por uma sobreposição de elementos simbólicos, com o objetivo de imortalizar o indivíduo ou a família. Conforme foi afirmado anteriormente, há fortes laços entre o culto dos mortos e a memória, e entre esta e a identidade social.