In memoriam: urbanismo, literatura e morte
Capítulo II – Urbanismo e modernização no sul da Bahia
Capítulo II – Urbanismo e
modernização no sul da Bahia
Poucos são os aleijões que se encontram agora no perímetro urbano e confiamos que muito em breve tenham eles desaparecido totalmente.
Correio de Ilhéus, 10 de outubro de 1925.
De vila à cidade: a Ilhéus do século XIX
O mais antigo registro documentado de uma intervenção do poder público na infraestrutura de Ilhéus data do início do século XIX. Tratase de uma discussão entre os vereadores a respeito da organização de novas posturas “para regimen desta villa”. Entre as obras priorizadas estavam a construção de uma fonte de água nos terrenos da fazenda Pimenta e a estagnação de pântanos nos terrenos da vila,
considerados como principais focos de doenças na região.95 Ao longo do século XIX, uma das principais preocupações dos administradores locais refere-se à questão sanitária, principalmente no período de surtos de febres que grassavam na região.
A falta de calçamento das ruas, a existência de pântanos e baixas nos terrenos urbanos e os enterros nas igrejas eram considerados como os principais responsáveis pelas constantes epidemias. É bem sabido que o século XIX foi um período de transformações, marcado pela explosão científico-tecnológica, pela consolidação de um estilo burguês de vida, pela emergência das camadas populares urbanas e pela internacionalização do capitalismo. Embora a maior parte do mundo ainda fosse predominantemente rural, a cidade tornou-se o
palco, por excelência dessas mudanças96.
Da França veio o grande exemplo europeu da renovação urbanística: a reconstrução de Paris, em meados do século XIX, levada a termo por Napoleão III e executada pelo barão Haussmann. O objetivo de Napoleão III era fazer de Paris a “capital das capitais.” Para tanto, Hausmann colocou em prática um urbanismo que se caracterizou pela criação de uma vasta rede de grandes artérias que cortavam o território da cidade. O principal objetivo era apagar a imagem da cidade antiga e insalubre Haussmann pretendeu dar uma ilusão de homogeneidade do espaço urbano, com as grandes vias impondo uma imagem de modernidade. O caráter uniformemente monumental das fachadas dissimulava a realidade social das zonas atravessadas. Tanto nos bairros aristocráticos como nos bairros populares é a mesma imagem
de cidade que se impõe97. As obras de reforma mudaram por completo o perfil de Paris, derrubando quarteirões inteiros de pequenas construções e ruelas estreitas, para construir bulevares e tornar a
cidade mais aberta98. Esse modelo de urbanismo consiste na possibilidade de reformar o território preexistente, remodelando-o sobre ele mesmo.
Sobre a antiga Paris foram construídos bulevares, parques e avenidas. Ao mesmo tempo, foram projetados o sistema de
abastecimento de água e esgotos e o desenho dos novos edifícios99. O modelo de transformação foi executado em torno de dois eixos: a remodelação do espaço, pondo em prática um projeto urbanístico, e a renovação arquitetônica. A reforma do traçado urbano, a arquitetura e as belas-artes seriam as responsáveis pela nova imagem da cidade. Ao redesenhar o espaço de forma planejada, o urbanismo faz emergir o desejo da reordenação ideal. A retitude das ruas e a regularidade das fachadas eram axiomas do urbanismo clássico ligados à perspectiva monumental. O urbanismo clássico enfatizou a decoração externa, pois “a cidade é como uma decoração de teatro. O essencial é a aparência,
a fachada”100. O prefeito Haussmann procurou enobrecer o novo ambiente urbano com instrumentos tais como a busca da regularidade, a obrigação de manter uniforme a arquitetura das fachadas nas praças e ruas principais.
A transformação de Paris, durante o Segundo Império, foi favorecida por uma série de fatores como a existência de leis avançadas – a lei sobre a expropriação de 1840 e a lei sanitária de 1850 – que permitiram realizar um programa urbanístico coerente em um período de tempo reduzido. A Paris moderna demonstrou o sucesso da gestão
pós-liberal, e se tornou modelo para as demais cidades101. As transformações urbanas implicaram, em todo o mundo capitalista, um novo modo de viver e pensar a cidade. A expansão das cidades no mundo ocidental é consequência da evolução da economia
capitalista102.
A primeira grande mudança no aspecto urbano do Brasil ocorreu na cidade do Rio de Janeiro, com a vinda da corte de João VI, em 1808. O soberano português procurou “civilizar” a sua capital americana, “expurgando-a das antigas construções, dos becos estreitos dos velhos tempos do isolamento da colônia em relação às novidades do
mundo”103. A cidade fluminense tornou-se o centro irradiador das alterações que levaram às principais cidades brasileiras uma nova estética urbana. Os antigos traçados urbanos passaram a ser progressivamente retificados e alargados à medida que se realizavam as reconstruções.
Ao se iniciarem as reformas urbanas, os modelos adotados foram os modernos padrões arquitetônicos e urbanísticos desenvolvidos na
Europa 104. No Brasil oitocentista, o processo de modernização surgiu da expansão comercial resultante da integração nacional no mercado exterior e fez com que as principais cidades das zonas monocultoras, em expansão, crescessem vertiginosamente, principalmente os portos
marítimos105.
As antigas estruturas urbanas se revelaram inadequadas às transformações que a sociedade experimentava. Ao longo do século XIX, o capitalismo subverteu as condições materiais de existência e apresentou aos núcleos coloniais novas atividades econômicas e novas exigências quanto aos serviços urbanos. O maior problema que o governo baiano enfrentou durante o desenrolar do século XIX, principalmente depois da década de 1870, relacionava-se ao desenvolvimento agrícola, com a importação de culturas diversificadas. As dificuldades de comunicação entre capital e o vasto interior, pela falta de estradas e as secas cíclicas do sertão, afastaram o colono dessa região, a não ser para a instalação de currais para as boiadas; ou para, entre as décadas de 1840/1860, ir em busca de ouro e
diamantes 106.
No início do período republicano, a única região baiana que experimentou um surto de progresso material foi o litoral sul, mais especificamente o eixo Ilhéus-Itabuna, cuja economia, baseada no cacau, sobrepujou o Recôncavo açucareiro. Ao se transferir o polo dinâmico da economia baiana para a região do cacau, Salvador passou a ser entreposto e centro para comercialização e exportação do produto. Porém, essa atividade não produziu uma acumulação de capital nas cidades envolvidas.
A maior parte dos capitais excedentes foi reinvestida em outras cidades, principalmente o Rio de Janeiro. O sul baiano já não se reabastecia em Salvador, mas diretamente no Rio de Janeiro ou em Minas Gerais. Essa ampliação das relações comerciais com outros centros fora da Bahia influenciou diretamente as novas concepções urbanas propostas para Ilhéus a partir do final do século XIX. O urbanismo ensaiou os seus primeiros passos buscando o enquadramento das cidades na lógica higienista, a renovação urbana a partir dos seus princípios de melhoramento e embelezamento e, principalmente, a criação de uma imagem de civilidade.
A construção dessa imagem em Ilhéus se fez por meio de uma rede de narrativas, que enfatizava lugares e aspectos urbanos que melhor poderiam expressar a ideia de progresso e modernidade. Nos dias do primeiro e segundo império foi extraordinário o seu desenvolvimento devido à cultura do cacau. Entretanto, apesar do desenvolvimento, a cidade apresentava um aspecto antiquado, como as demais do Estado, de ruas estreitas e tortuosas, sem serviço de água, sem iluminação suficiente. A primitiva iluminação era de “azeite de peixe”, em grandes lampiões quadrangulares, colocados nas esquinas e distribuídos a uma distância de vinte metros. Posteriormente foi substituída pela de querosene, em lampiões menores, colocados em paredes e postes de madeira. As ruas eram, em geral, direitas e mais ou menos regulares em largura, e a nova edificação corrigia os “defeitos” da antiga vila
( 107 Figura 1 ).
Figura 1 – Planta da Vila de São Jorge dos Ilhéus de 1852
Fonte: APEBa.
No final do século XIX, a cidade começou a alterar o seu traçado colonial, mesmo sofrendo ainda com as enchentes dos rios, cujas águas alagavam por semanas parte da zona comercial próxima ao
porto108. Nesse período, as fortunas aumentaram rapidamente. Muitos dos imigrantes chegados há uma ou duas décadas tornaram-se grandes proprietários e o acúmulo de capital possibilitou um maior refinamento nos seus hábitos. A ostentação da sua nova posição social estava presente no vestuário, nas doações às igrejas e instituições, nos monumentos arquitetônicos, assim como nas residências: no palacete, na cidade; e no jazigo no cemitério. Apesar de ainda existirem casas de palha, principalmente na rua das Quintas (atual Dom Tepe), a cidade começou a ganhar cada vez mais construções de tipo moderno.
Com o desenvolvimento do comércio, os vapores passaram a atracar mensalmente no porto e fundeavam na enseada do Pontal por falta de cais, sendo o embarque e desembarque de passageiros feito por canoas e o de mercadorias em balsas. A viagem para Salvador fazia-se através de lanchas e barcos a vela, sem cômodos. Com os ventos contrários, a chegada ao destino podia levar de três a quatro dias “de
viagem penosa”109. A melhoria na comunicação entre as cidades litorâneas promoveu a disseminação de uma nova linguagem e de um novo estilo arquitetônico, tendência essa que dependia do acúmulo de capital. As cidades passaram a conhecer duas modalidades de residências: a ‘antiga’, ainda ligada às tradições regionais e a uma economia incipiente; e a ‘moderna’, de influência estrangeira, fruto da prosperidade material da lavoura do cacau. Um dos aspectos recorrentes das ideias e práticas no planejamento urbanístico é a importação de modelos formulados nos países centrais e o abandono
do barroco110.
A cidade deveria adaptar-se ao seu tempo e afirmar tudo aquilo considerado como progresso, sendo a estética modernista acompanhada pelo desprezo ao antigo. Quanto mais rica a sociedade, como a cacaueira dos fins do século XIX, mais rápida a alteração da paisagem urbana, enquanto as cidades que não possuíam uma economia forte tenderam a preservar os seus antigos padrões. Os principais coronéis concentraram suas atividades no município de Ilhéus, o mais importante da região, “sob a influência do progresso e da
civilização”111. Esse progresso desenfreado provocou mudanças
radicais no cotidiano “Ilhéus vivia a vertigem do desenvolvimento”112. A consolidação do sistema capitalista e o florescimento da sociedade burguesa, “cujo discurso louvava as excelências do sistema e a sua
capacidade de construção do bem-estar” 113, transformaram o progresso no mito do século XIX, referendado pelos princípios evolutivos, pelo cientificismo e pelo impacto causado pela reforma burguesa das cidades.
A cidade possui variadas funções, como centro administrativo e polo de relações e comunicação. Em todos estes casos, ela é sempre um elemento da organização do meio rural circundante e sede do poder político e social. Historicamente os coronéis buscaram desenvolver, na sua área de influência, um centro urbano que constituísse o fulcro de suas atividades políticas e comerciais. Esses agentes sociais agiram como fundadores, a exemplo dos coronéis José Firmino Alves e Henrique Alves dos Reis, em Itabuna, ou como protetores do progresso das cidades, como é o caso dos coronéis Antônio Pessoa e Misael Tavares em relação a Ilhéus.