Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões
Capítulo 8
¿DÓNDE ESTÁ PELÉ? (1970)
"Quem corre atrás de empreguis, cansa. Quem cansa, não trabalha"
Com dois discos bem vendidos nas lojas, músicas tocadas com frequência nas rádios, agenda
lotada de shows e um nome respeitado no disputado universo da música popular brasileira, Os Originais do Samba deixaram os dias de arroz com ovo para trás. Já dava para comer uma carninha. Diϐícil era arrumar tempo para mastigar por causa do grande apetite do empresário Corumba para arrumar shows para seus contratados. Como acompanhantes de Jair Rodrigues ou já como atrações principais, Mussum e seu conjunto passariam por extensas maratonas de apresentações para os mais variados públicos. Muitas vezes, no mesmo dia, tocavam em eventos corporativos ou exposições durante o dia, gravavam programas de TV à noite e, durante a madrugada, faziam shows em boates. Nessa época, Mussum estava magro a ponto de não ser reconhecido pelos amigos de Mangueira.
O conjunto tocou, ao lado de um dream team formado por Wanderley Cardoso, Claudete Soares, Wanderléa e Vanusa, no evento de inauguração de uma fábrica da Pepsi em São Paulo com a presença da atriz Joan Crawford, viúva herdeira e presidente da empresa. Depois batucou no grito de carnaval do Salgueiro, na "Ala Rei de Ouro", na Praça Tiradentes e participou como banda de apoio aos concorrentes do IV Concurso de Músicas para o Carnaval, em um Maracanãzinho lotado. E, mais tarde, no mesmo ano, eles foram uma das atrações da festa do sexto aniversário da revolução, promovida pela Assessoria Especial de Relações Públicas do governo militar no Maracanã, com portões abertos e grande divulgação na imprensa.
Para completar a correria, os convites de fora do país começavam a
chegar, e Jair Rodrigues, de olho na carreira internacional, não costumava recusar uma boa oportunidade de ganhar dólares. "Eu gosto de cantar no estrangeiro, é um sarro diferente. A gente sabe que nego não entende nada, mas vai em frente. E eles têm gostado", disse o cantor em entrevista ao Jornal do Brasil.9 Naquele ano, além de convites para voltar a se apresentar em Buenos Aires, veio uma proposta polpuda para uma turnê latina, passando pelas principais cidades do Chile e do Uruguai. A turnê para exportar samba partiu, tendo como destaques Jair Rodrigues e sua namorada, a então pouco conhecida cantora mineira Clara Nunes, e Os Originais do Samba.
Durante essa excursão, o alvo preferido das brincadeiras era Lelei, baixinho tocador de tamborim, tinha a pele mais escura entre os "bronzeados" sambistas e chamava a atenção dos latino-americanos, pouco acostumados a conviver com negros. Em um desses contatos imediatos, em Santiago, nasceu uma brincadeira que mais tarde viraria marca registrada dos Originais: a voz forçadamente gutural de Lelei no início das músicas. Tudo começou quando um vendedor de rua, que circulava próximo ao hotel onde os músicos estavam hospedados, com uma voz muito rouca e profunda, passava oferecendo coquito, um doce típico feito de coco e açúcar. Por Lelei ter rido da voz do ambulante, também negro, começaram as brincadeiras entre os dois. O vendedor passou a chamar o sambista de Pelé, e aparecia sorrateiro na porta do hotel, colocando a cabeça na porta do ediϐício e perguntando ironicamente: — ¿Dónde está Pelé? 10
O caso virou piada e Lelei aprendeu a imitar a tal voz do vendedor. Todo mundo caía na gargalhada assim que o baixinho soltava qualquer frase com aquela entonação, mas foi o produtor Armando Pittigliani quem sugeriu o uso daquela imitação nos shows e gravações, como ferramenta de alívio cômico entre uma música e outra. Já na primeira oportunidade a imitação foi usada no disco "Samba é de Lei", na faixa "Todo o morro acordou" e, mais tarde, apareceria na introdução do maior sucesso dos Originais, "Tragédia no fundo do mar", com Lelei ϐingindo vender um jornal com uma chocante notícia: "Ostra! Ostra! Saiu uma briga no fundo do mar. O camarão se mandou-se. O camarão ó..."
A turnê latina não teve apenas histórias engraçadas. Quando faziam o circuito dos teatros e cassinos uruguaios, os músicos dos Originais foram impedidos de se hospedar em um hotel em Punta del Este. A direção do estabelecimento permitia apenas a entrada de Jair Rodrigues, a estrela da companhia, e queria barrar o resto da delegação por serem negros. A atitude racista do gerente ia frontalmente contra o modo como Jair lidava com os seus colegas de música. O entrosamento do intérprete com os Originais era tanto que os sambistas eram presenças constantes na mesa de Dona Conceição, mãe de Jair Rodrigues, que adorava ver sua casa cheia e servia comida caseira simples, farta e saborosa, como o "feijão com tranqueira", com carne seca, moela e mais um monte de ingredientes que davam mais sustância ao tradicional arroz com feijão. Assim, é claro que o cantor não concordou e, mais, quis voar no pescoço do gerente racista, mas quem resolveu mesmo a questão foi Corumba, fazendo um show antes do show:
— Compro essa porcaria aqui. Quanto custa esse cassino aqui? Quanto custa esse hotel aqui? Eu compro isso aqui e mando todo mundo embora!
No ϐinal, entre episódios de preconceito e longas semanas longe do Brasil, o sucesso das apresentações superava qualquer percalço e a amizade entre Jair e Mussum ϐicava cada vez mais forte. Tanto que, na volta ao Brasil, o cantor contava com a participação dos Originais em seu retorno em grande estilo aos palcos cariocas. Os contatos feitos durante a turnê latina renderam a Corumba convites para temporadas em Caracas, com direito a contrato com as TVs venezuelanas, e em Cali, onde o governo colombiano preparava as festividades para os Jogos Panamericanos do ano seguinte. Jair e Mussum preferiam, no entanto, voltar ao Rio de Janeiro. Não só para matar as saudades como também para dar uma satisfação aos cariocas que acusavam o cantor de ser "paulista demais" e estar "fora de moda".
A resposta veio na forma do show Bereketê, nome de uma das melhores músicas do disco "O Talento e a Bossa de Jair Rodrigues". Com clima de terreiro de candomblé, a batucada e os versos em dialeto da canção ressaltavam a ligação da nova fase do cantor com o samba de raiz – algo que o público do Rio não estava esperando de um artista tão ligado à MPB e à Bossa Nova. Dirigido por Luiz Haroldo e com textos bemhumorados de Meira Guimarães, Jair subia ao palco junto com as cantoras Márcia e Elizabeth Viana e contava, é claro, com a percussão e as palhaçadas dos Originais. Não tinha como dar errado. E não deu. Os ingressos do Teatro Casa Grande, na Avenida Afrânio de Melo Franco, 300, Leblon, esgotavam-se com rapidez e mostraram que Jair Rodrigues não devia nada em matéria de samba e carisma para Wilson Simonal, o artista favorito dos cariocas.
O sucesso foi tanto que a temporada inicial foi esticada para o Sambão, espaço maior, na sobreloja da Churrascaria Galeto em Copacabana, que dizia-se "o maior embalo da paróquia". No novo endereço, o show foi ainda reforçado por Jamelão, Blecaute e Raul de Barros. Mas quem roubou a cena mesmo foi Mussum com o cover sambístico da música tema do ϐilme Aeroporto. O longa romântico, estrelado por Burt Lancaster, Dean Martin e Jacqueline Bisset era a febre do momento e ninguém esperava a surpresa de ouvir Os Originais batucando a trilha sonora, com Mussum imitando diálogos em inglês no seu estilo característico, com forévis, becózis e I love youzis.
Apesar da forte associação com Jair Rodrigues, a carreira dos Originais sambava com a própria batida. O grupo consolidava sua imagem trabalhando bem as músicas de seus discos em shows e, principalmente, nos programas de televisão. Depois de tocar e sambar, Mussum sempre fazia o papel de humorista, respondendo às perguntas dos apresentadores com piadas e convidando o público para participar de uma campanha beneϐicente cujo slogan era "Faça um crioulo sorrir, compre o disco dos Originais". Embora longe de estar na maioria dos lares, as TVs com imagens em cores começavam a se popularizar no Brasil e transformavam-se em um trunfo e tanto para os ϐigurinos dos sambistas. Não havia diretor de TV que não quisesse aquele espetáculo em seu programa. Além das músicas de sucesso, o pacote dos Originais vinha com cores, coreograϐias e até com piadas. Era boa audiência na certa.
Por isso, quando não estavam tocando com Jair Rodrigues, era quase certo que Mussum e seu grupo estivessem no programa de Flávio Cavalcanti, na Tupi; no "Dia D", na TV Rio; no "Show Livre", da TV Globo ou em qualquer uma das diversas atrações musicais da Record. A segunda casa dos músicos, no entanto, eram as caóticas quintas-feiras da Discoteca do Chacrinha, na Globo. Abelardo Barbosa conseguia, na mesma noite, colocar Elis Regina, Erasmo Carlos e Paulinho da Viola, bem como fazer um "concurso do cachorro mais pulguento" ou eleger "o ϐísico masculino mais bonito da Guanabara", tudo com a audiência lá em cima. Para os Originais, a festa era completa. O apresentador pagava os cachês em dinheiro logo após as apresentações e tratava os músicos como se fossem ϐilhos. Carinho essencial na divulgação de "Samba é de Lei", o novo disco dos Originais do Samba, lançado em agosto de 1970.
Mais trabalhado, o terceiro LP traduzia toda a pluralidade de cores e estilos experimentada pelos sambistas desde o álbum "Os Originais do Samba Vol.2". A começar pela capa, feita com a montagem de várias fotos coloridas no estilo de uma história em quadrinhos, com Mussum, Lelei, Bidi, Bigode, Chiquinho e Rubão vestidos impecavelmente, fazendo pose de dândis ou brincando como crianças em um parquinho, mas sempre trajando blazers, golas altas, ternos coloridos, gravatas de ponta quadrada, lenços, cardigãs e calças brancas. Outro sinal dos tempos de bonança perceptível na arte do disco é a aparição da viatura oϐicial dos Originais, uma caminhonete Chevrolet Veraneio C14 azul-clara com vidros fumê e o decalque do recém-criado logotipo da banda, um polvo preto com chapéu de malandro, segurando os instrumentos da percussão de cada um dos integrantes com seus tentáculos.
Na parte musical transparece o aumento e o aprofundamento do círculo de amizades de Mussum com ϐiguras importantes da música brasileira. A faixa título, "É de lei", é uma composição de Paulo César Pinheiro e Baden Powell e mostra que o vínculo dos sambistas com os criadores de "Lapinha" continuava forte. A música destoa do clima romântico e brincalhão do repertório do grupo, trazendo um papo reto lotado de gírias vindas do morro. Na gravação com sabor de apresentação ao vivo, Mussum saúda Baden como "o professor Aquino e seu cavaquinho tamanho família". O violonista retribui apresentando todos os membros dos Originais e começa então um diálogo musical entre a percussão agitada do conjunto, as harmonias únicas das cordas de Baden e frases de Paulo César Pinheiro declamando um manual de malandragem sobre o que é ser 'de lei': "Gato com fome não come pimenta / Quem vacila tem que dançar / Vai que eu já voltei / O malandro não pode vacilar / Caiu no lago sem ler aviso, jacaré engole / Pau que boia é jangada / Dia de muito é véspera de nada / Malandro caiu, tem que levantar sozinho".
Quase como uma superstição, a música escolhida para a abertura do Lado A foi de novo uma composição de Jorge Ben (desta vez assinada em parceria com João Mello), "Tá chegando fevereiro". Na introdução da faixa, inclusive, Mussum saúda o amigo e convidado especial como poeta Babulina, apelido dos tempos em que Jorge vivia nas lanchonetes da Tijuca com seu violão cantando o rock "Bop-a-Lena", do americano Ronnie Self. Vale destaque no disco, ainda, um raro samba composto pela dupla Roberto e Erasmo Carlos chamado "Eu queria era ϐicar sambando". O toque de Midas dos Reis da Jovem Guarda, no entanto, não funcionou em "Samba é de Lei". O maior sucesso do 78 rotações de preϐixo BBL
1536 foi mesmo a faixa de "Tá chegando fevereiro", as críticas da imprensa eram positivas e viriam ainda duas cerejas no bolo. Cerejas importadas. Em temporada no Brasil, duas lendas do jazz, o
americano Earl Grant e o italiano Gato Barbieri, viram, ouviram e adoraram a batida dos sambistas cariocas. Quando os jornalistas ϐizeram a clássica pergunta sobre "o que vocês mais gostaram na música brasileira", ambos falaram: Originais do Samba.
No meio do turbilhão de shows, gravações e viagens, Mussum conseguiu, meio sem querer, acertar sua vida fora do palco. Em uma rara folga, enquanto matava a saudade da quadra da Mangueira, foi apresentado a Neila, uma paulistana tímida de 23 anos, com roupas discretas, pele cor de chocolate e olhos expressivos. Ela era amiga de Sueli, a namorada de Chiquinho dos Originais, e passava férias no Rio de Janeiro. Embora sua família fosse toda de São Paulo, tinha um tio casado com uma carioca e uma vez por ano passava algumas semanas nas praias da Guanabara com seus pais e suas duas irmãs. O sambista ϐicou interessado na hora, mas não adiantou jogar todo o seu charme e suas piadinhas. A moça era de família e não seria mais uma chiquinha, ou seja, uma daquelas fãs facilmente atraídas pelos xavecos dos sambistas. Mas a corte não seria jogada fora. Neila tinha achado graça em Mussum e ϐicaram de se encontrar um dia, quando os dois voltassem para São Paulo.
Para surpresa do ritmista, o encontro aconteceu mesmo. E foi por iniciativa de Neila. Junto com Sueli e outras amigas, ela foi assistir a um show dos Originais no Esporte Clube Pinheiros, na área nobre da capital, e decidiu dar um 'olá' após a apresentação. Foi convidada para jantar com os músicos e aceitou marcar um encontro a dois mais para a frente, com uma condição: Mussum precisaria da autorização de seu pai, o respeitável diretor administrativo da Prefeitura de São Paulo, Anísio Ribeiro da Costa.
O malandro percebeu a seriedade da coisa, mas, mesmo assim, encarou o sogro e a descon ϐiança inicial. Sr. Anísio não gostava muito da ideia de ver a ϐilha saindo com um tocador de reco-reco e ϐicou de acompanhar a história bem de perto, como mandava a moda antiga. Antes de autorizar a ϐilha a passear sozinha com o tal Antônio Carlos, fez questão de acompanhá-los em alguns jantares, no cinema e também em restaurantes. Mussum, para estreitar laços e mostrar seu trabalho, até levou os sogros à Blow Up, escolhendo uma bela mesa e pedindo o máximo de carinho dos garçons da casa.
O lado educado e contido de Mussum – forjado nos anos de colégio interno e pouquíssimo visto na vida boêmia paulistana – dobrou os pais de Neila e, em pouco tempo, ele fazia parte da família. Grande parte da conquista deveu-se a dois pequenos aliados, os sobrinhos de Neila, Fausto e Mônica. Sempre brincando com os ϐilhos de Neide, a outra ϐilha do sr. Anísio, acabou por ganhar um outro apelido: Caco. Nada a ver com o nome de batismo ou com a alcunha de Carlinhos da Mangueira. De acordo com a sinceridade infantil de Mônica, o namorado da tia era a cara do simpático sapinho da Vila Sésamo. Olhando a boca grande e os olhos arregalados do boneco, dá mesmo para notar algumas semelhanças. O que ninguém descon ϐiava era que aquele doce de rapaz estava prestes a ser pai novamente, e o filho não seria de Neila.
9. Jornal do Brasil, 07/10/1970.
10. Programa MPB Especial – TV Cultura, 20/11/1972.