Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões
Capítulo 17
MAIS OURO DO QUE AREIA (1982)
"Inflaçãozis é, em tradução, vaselina no forévis do povis"
Aaudiência de "Os Trapalhões" em território nacional alcançava uma
média de 27 milhões de pessoas a cada noite de domingo. No Rio de Janeiro, principal praça da época, o humorístico chegava aos 8 milhões de espectadores e superava com folga até o Jornal Nacional. Com O Incrível Monstro Trapalhão, O Mundo Mágico dos Trapalhões e Os Saltimbancos Trapalhões, a trupe respondia sozinha por mais de 10% do total de espectadores do cinema brasileiro em 1981, lucrando mais de Cr$ 550 milhões. E ainda havia uma agenda de shows lotada para o ano inteiro e as vendas expressivas de discos, brinquedos, roupas e gibis – sendo que só as revistinhas chegavam a uma tiragem anual de 3,1 milhões de exemplares. Nem Pernalonga e Patolino nem Mickey e Pato Donald, o quarteto Didi, Dedé, Mussum e Zacarias representava a marca mais adorada e consumida pelas crianças do Brasil.
Mérito do capitão do barco, Renato Aragão, e de seu ritmo alucinante de trabalho para a expansão contínua desse sucesso. Se havia começado a vida artística querendo ser um humilde discípulo de Oscarito, as comparações naquele momento eram com Walt Disney. De forma pioneira fora dos Estados Unidos, chegou a licenciar sua imagem para ser usada pela Phillips e pela Magnavox para um cartucho do videogame Odyssey (o rival do Atari), chamado "Didi na Mina Encantada", e ainda planejava a distribuição global dos ϐilmes dos trapalhões, a compra de uma fábrica de brinquedos e até a construção de um parque temático, só não percebia o que se passava na vida pessoal dos companheiros. A receita desse êxito comercial incluía um controle pouco saudável sobre tudo que girava em torno do quarteto.
Nos ϐilmes, Renato cuidava pessoalmente desde a etapa de rascunho e redação da primeira sinopse até a entrega das fotos das ϐilmagens nos estúdios do ilustrador José Luiz Benício, o mais competente criador de pôsteres da história do cinema nacional. No programa de TV, a coisa era parecida, e, por isso, a opção de um novo diretor para "Os Trapalhões" era sempre uma questão delicada. A saída conturbada de Adriano Stuart mostrou que um diretor com personalidade demais implicaria em disputa de liderança e, consequentemente, em demissão. Era preciso alguém mais proϐissional, mais técnico e menos emotivo. Renato buscou a ajuda de Chico Anysio.
O conterrâneo gozava de extrema in ϐluência na TV Globo e, formal ou informalmente, palpitava sobre todos os programas da emissora. Na maioria das vezes, era ouvido pela direção e conseguia tudo o que queria. Um exemplo claro dessa in ϐluência foi uma ligação para o próprio Renato, para criticar a aparência do colega. De acordo com Chico, um comediante grisalho passava uma imagem velha e cansada, incompatível com a vitalidade e o dinamismo necessário para cativar as crianças. Foi assim que Renato começou a pintar seus cabelos com uma tinta de tons avermelhados – fato extremamente satirizado por Mussum, que começou a chamar o chefe de mico-leão-dourado e de cardeal, o pássaro de penas vermelhas na cabeça e brancas no peito.
É claro que as conversas com Chico não ϐicaram só no tema capilar. Aconselhado pelo veterano, o líder dos trapalhões desenvolveu um novo formato para seu programa dominical. Para dar uma chacoalhada na audiência e aproveitar o carisma do quarteto, a temporada de 1982 seria gravada no Teatro Fênix, com a presença da plateia no auditório e, junto com os esquetes, traria novidades como entrevistas com personalidades, brincadeiras de picadeiro e, claro, os números musicais com as intervenções cômicas de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. Para comandar a atração com um pulso ϐirme e, ao mesmo tempo, não perder o sabor de "ao vivo", foi escalado o diretor Oswaldo Loureiro. Ator de teatro consagrado em montagens de Nelson Rodrigues e Shakespeare, e mais conhecido do grande público por viver vilões arrogantes em telenovelas da Globo, Loureiro era o diretor preferido de Chico em suas temporadas de shows, ganhando muitos elogios por seu pro ϐissionalismo e apuro técnico em detalhes como a cenograϐia, a iluminação e a atenção ao timing dos textos. Seria o homem certo para dar o novo e mais ágil tom pretendido para "Os Trapalhões" sem dar muitos pitacos na redação dos quadros.
Assim, a nova temporada do programa começou renovada na frente e atrás das câmeras. Junto com a mudança, Renato retomou o controle maior dos roteiros, ϐiltrando melhor o trabalho da equipe de redatores para privilegiar o conteúdo mais adequado ao público infantil e vetar eventuais quadros mais pesados. O improviso, no entanto, continuaria reinando. No bloco de talk shows dos trapalhões, as maiores personalidades da música e da televisão na época participavam de conversas descontraídas, sem um direcionamento claro por parte da produção. Em uma dessas oportunidades, inclusive, o quarteto passou de entrevistador para entrevistado. Em uma bancada formada por Zico, Roberto Dinamite, Chico Anysio, pela jogadora de vôlei Isabel e pelo diretor Walter Lacet, todos acompanhados de seus ϐilhos, os palhaços foram sabatinados com perguntas indiscretas sobre suas vidas pessoais. Didi teve que dar explicações sobre sua nova coloração capilar, Dedé revelou que até achava engraçado ser chamado de rapaz alegre, e Zacarias, em um momento fora do tom geral de brincadeira, revelou a dor de ter perdido seu pai recentemente.
Coube a Mussum fazer um agradecimento sincero – e sem multiplicação de palavras – aos companheiros pela fase de tranquilidade vivida e elogiar o mestre e "padrinho" Chico Anysio. Sem segurar um sorriso largo no rosto, disse que sua história de amor com o mé era verdadeira, porém, só bebia socialmente. Nisso, Renato fez uma pertinente observação: "E que vida social intensa!". Aconteceu até uma revelação pública sobre seu odiado apelido na Aeronáutica. Mostrando seu sapato 44 bico largo, explicou como marchava de pés abertos quando estava cansado e mandou um recado aos antigos colegas de quartel:
— Aqui vai minha resposta para aqueles que muito me chamaram de Pé de Rodo: Pé de Rodo é a sua véia!
O clima descontraído das conversas no palco mostrava quatro velhos amigos, muitas vezes sentados no chão do cenário, batendo papo à vontade com ídolos nacionais como se estivessem recebendo-os na sala de casa – uma intimidade que o grupo só tinha mesmo na telinha. Cada vez mais absorvido pelos seus projetos e viagens, Renato pouco passava tempo na casa de Jacarepaguá. Enquanto os colegas estavam desfrutando a vida ao lado de suas famílias, o trapalhão líder fazia viagens para participar de festivais de cinema na Rússia ou feiras de fabricantes de brinquedos na Alemanha. Praticamente não havia ócio para o cearense, sempre carregando um bloco de notas para escrever ideias de novos quadros, roteiros e produtos. Renato era Didi apenas aos domingos, mas tocava os negócios da R.A. Produções "48 horas por dia", como gostava de
dizer.
Maurinho, o integrante mais velho do grupo, com 47 anos, vivia uma fase diametralmente oposta. Separado da primeira mulher, isolava-se na sua casa cercado de plantas e passarinhos. Embora a residência ϐicasse em Jacarepaguá, quase nunca aparecia no Condomínio Eldorado para visitar Dedé e Mussum. A vontade de desaparecer era tão grande, que o mineiro chegou a pintar o telhado e as paredes de um verde escuro, para integrar melhor sua morada ao meio ambiente. Até a decoração de sua casa reϐletia uma preocupação exagerada com o além. Atrás da porta havia um enfeite com ϐitinhas do Senhor do Bon ϐim e nas prateleiras das estantes era possível encontrar imagens de Buda, carrancas e elefantes sagrados. Enquanto Renato pensava em dominar o mundo, o homem por trás de Zacarias cuidava de distribuir bebedouros para beija-ϐlores, estudar os mistérios do espiritismo e plantar verduras, ervas e legumes em sua horta.
Em contraste com o distanciamento de Renato e Mauro, a essa altura não muito mais do que colegas de trabalho, Dedé e Mussum mantinham sua proximidade inabalada. Isso não acontecia apenas por serem vizinhos de rua ou por ϐicarem conϐinados no mesmo teatro por mais de
12 horas duas vezes por semana. Ainda preservando um hábito obtido nos tempos de militar, Mussum costumava acordar cedo e ler a edição de O Globo do começo ao ϐim. Depois do ritual, passava a mão no telefone e ligava para o velho cumpadi para comentar sobre os assuntos do dia. Muitas vezes combinavam caronas de Jacarepaguá até o Teatro Fênix ou até Laranjeiras, na sede da DeMuZa, ou simplesmente discutiam sobre política, cinema, música ou comentavam as últimas críticas feitas aos seus ϐilmes e programas. Só os relatórios do Ibope é que não viravam assunto, aϐinal, "Os Trapalhões" não tinham nenhum rival à vista. A Record vivia grandes diϐiculdades ϐinanceiras, a TV Tupi fechara suas portas em 1980 e a recém-criada TVS de Silvio Santos não chegava a ser uma ameaça.
Dependendo do dia, a ligação nem precisava ser feita, pois sem aviso prévio Dedé chegava à casa do amigo e tomava café da manhã ao lado da família, como se fosse um deles. Não se tratava de ser espaçoso. Os ϐilhos mais velhos dos dois trapalhões tinham idades parecidas e estudavam no mesmo colégio. Mussum também entrava e saía da casa do amigo quando bem entendia. Em um ϐinal de semana comum, quando planejava mais uma reforma na sua casa, o mangueirense bateu na porta de Dedé sem aviso, junto de sua esposa e ϐilhos, propondo que trocassem de casa por um ϐinal de semana inteiro. Queria experimentar a divisão dos cômodos do vizinho na prática antes de quebrar paredes e construir novas dependências. Outro ponto de fortalecimento da amizade entre Mussum e Dedé acontecia durante as longas horas dirigindo pelas estradas do interior do Brasil. Revezando no volante, conversavam sobre todos os assuntos possíveis. Dedé contava suas muitas histórias dos tempos de circo, quando ao lado do irmão Dino Santana fazia números em picadeiros miseráveis pelo Brasil. Mussum dava dicas para o amigo de como se vestir melhor e o aconselhava sobre os perigos da fama. Se no inconsciente coletivo Didi & Dedé eram o maior exemplo de parceria, na vida real, Manfried e Antônio Carlos podiam ser considerados como irmãos – apesar de as piadas de um com o apetite sexual da mãe do outro jamais terem deixado de ser feitas.
Enquanto o programa da TV mantinha as aparências de união do grupo, que quase sempre aparecia junto para os esquetes do tipo "aposto que você não descobre tal coisa" ou "vamos enganar o próximo trapalhão a entrar no palco", o cinema escancarava a distância entre as aspirações expansionistas de Renato e o conformismo do restante do quarteto. De súbito, o cearense decidiu que, além de fazer rir, os ϐilmes do grupo deveriam trazer uma boa camada de crítica social. A inspiração pode ter vindo dos trabalhos beneϐicentes realizados ao lado do elenco da Globo no especial de 15 anos de Trapalhões, como pode ter vindo dos prêmios e elogios obtidos por Pixote, a Lei do Mais Fraco, o ϐilme-denúncia de Hector Babenco.
O fato era que depois de pegar argumentos emprestados de clássicos literários como Os três mosqueteiros , As mil e uma noites, e Os músicos de Bremen chegava a hora de colocar um pouco de realidade na fantasia dos trapalhões – ou um pouco de fantasia na realidade dos brasileiros. Com a volta de J.B Tanko à direção da fábrica de cinema da R.A. Produções, retornava também o controle absoluto de Renato sobre os rumos dos filmes. A partir de Os Vagabundos Trapalhões, a película programada para as férias escolares de julho, Renato trabalhava da seguinte forma: escrevia uma sinopse de como seria o longa, repassava o material a três redatores e, após ler o resultado do trabalho do trio, costurava as melhores ideias em apenas um roteiro. Como de costume, o processo acabava em um resultado extremamente parecido.
Em Os Vagabundos Trapalhões, Renato interpreta novamente Bonga – o vagabundo, maltrapilho, valente, generoso, esperto e engraçado –, que abriga crianças de rua em uma caverna para depois arrumar pais adotivos para elas. São 90 minutos altamente previsíveis, quase sonolentos, com Dedé, Mussum e Zacarias fazendo o papel de ϐigurantes de luxo. Mussum faz o ϐilme todo vestindo uma camisa rasgada do Flamengo e resgata seus primeiros bordões da época de "Escolinha do Professor Raimundo", repetindo meio a esmo a expressão "como de fatis", mas é difícil rir com alguma das suas palhaçadas.
O mocinho da trama, interpretado por Edson Celulari, é um rico industrial que não tem tempo para cuidar de seu ϐilho. O garoto acaba fugindo de casa e se unindo ao bando de Bonga. Moral da história? Ricos deveriam dar mais atenção aos seus ϐilhos ou então adotar crianças pobres. Como a imprensa reagiu à mensagem? "Como o ϐilme gira em torno de Aragão e Aragão gira em torno da piada mais acessível, o resultado é simples: a questão do menor abandonado tem a mesma importância para o ϐilme que o enredo de 'Os Saltimbancos', ou seja, nenhuma." A bilheteria? É preciso escrever? Mais de 4,6 milhões de espectadores. 29
Nesse último ponto é preciso bater palmas para Renato Aragão. O filme foi lançado em 110 cinemas das 22 capitais e dos outros 40 maiores municípios no mesmo período da Copa do Mundo da Espanha, quando a até então imbatível seleção de Telê Santana jogaria seu belo futebol em busca do tetracampeonato. Enquanto todos os estúdios preferiram esperar o ϐim do Mundial para lançarem seus principais produtos, a R.A. Produções apostou na força da marca trapalhões e se deu bem com a derrota traumática do time de Zico, Sócrates, Falcão, Éder e Serginho Chulapa. Era praticamente o único ϐilme inédito em cartaz e correram livres na liderança.
O êxito de Os Vagabundos Trapalhões escondia um falso sinal. A mais nova aparição de Bonga em um ϐilme com mais lições de moral do que tortas na cara fez sucesso entre a criançada, mas deixou os integrantes dos trapalhões ainda mais divididos. Não que Dedé, Mussum e Zacarias fossem insensíveis às questões sociais de um Brasil extremamente desigual. Nas turnês que faziam pelos ginásios de municípios pobres do Brasil, o trio podia medir uma temperatura exata da situação dos subúrbios do país.
O problema era que o sentimentalismo exagerado, com tons chaplinianos, pouco ou nada tinha a ver com a vocação artística do trio. Na mesma época do ϐilme, Mussum gravaria um compacto simples com as músicas "O amigo da criança (Melô do piniquinho)" e "Camisa um", cuja letra mostrava que as maiores preocupações do sambista eram rezar pelos milagres de "São Ziquis" e tirar onda dos goleiros adversários. A letra, entre outras paródias com clichês futebolísticos, trazia versos como "Eu não vou mais na bola / Eu tou debaixo do pau / Ninguém segura nada e eu aqui passando mal" e "Eu já dei soco no vento / Teve um cara aqui dentro, que só bota com a mão / Eu já tirei da gaveta, me aparece um cometa / Eu não sou Leão".
As duas canções eram uma espécie de ensaio geral para o novo disco solo, programado para estrear em 1983. Dessa vez mais con ϐiante com o seu próprio jeito de cantar, o sambista faria gravações com um tom tão despojado quanto uma reunião de amigos, com várias letras trazendo referências ao mé e um estilo devagar devagarinho bem acabado, nos moldes de Martinho da Vila. Novamente amparado pelos músicos do Fundo de Quintal, entraria nos estúdios ao lado de Alcione, a velha conhecida dos tempos de dureza na rua Augusta, e de seu ϐilho caçula, Alexandro, para cantar a "Água benta", uma canção sobre um miraculoso líquido capaz de curar desilusões amorosas, lavar a alma e refrescar o coração. O garoto, então com 6 anos, era companhia frequente de Mussum para seus passeios pelas rodas de samba e biroscas espalhadas pelo subúrbio do Rio de Janeiro. De certa forma, era a primeira vez que o sambista, já aos 41 anos, tinha a oportunidade de exercer seu papel de pai com alguma tranquilidade, pois não precisava se dividir entre Originais e Trapalhões.
Outro destaque musical e alcóolico do disco seria "Chiclete de hortelã", composição de um jovem compositor frequentador do Cacique de Ramos chamado nos documentos de Jessé Gomes da Silva Filho, mas desde aquele tempo, aos 22 anos, conhecido pela rapaziada do samba como Zeca Pagodinho. O moleque magrelo ia de ônibus até a quadra do bloco, levando seu cavaquinho em uma sacola de mercado, e Mussum, ao lado de Beth Carvalho e de Alcione, foi um dos primeiros intérpretes a gravar uma canção sua. A letra, composta de brincadeira entre amigos nas rodas de partido-alto, parecia ter sido feita sob encomenda para o momento vivido pelo trapalhão: "O meu time vai domingo / Vai jogar no Maracanã / Vou festejar a vitória, com a torcida campeã / Se quando eu chegar à casa, não estiver com a cuca sã / Para disfarçar vou mastigar um chiclete de hortelã / É só pro bafo melhorar, com chiclete de hortelã". Vale ainda registrar que o álbum traz uma curiosa parceria musical e humorística entre Chico Anysio e Mussum, na faixa "Rio antigo". A dupla faz imitações sobre um fundo meio bossa-nova, e canta a letra que relembra tempos idos do Rio de Janeiro, com a cidade sem aterro, crianças brincando na rua sem perigo, bondes e taiobas no lugar do metrô.
En ϐim, com Alcione, Zeca Pagodinho ou Chico Anysio, Mussum tratava de uma temática bem diferente do clima de alerta social escolhido por Renato para funcionar como bandeira dos trapalhões. Essa falta de engajamento, porém, seria ignorada pelo líder do grupo. Mal Os Vagabundos Trapalhões entrou em cartaz e já começava a produção da próxima aventura politicamente engajada dos palhaços, Os Trapalhões na Serra Pelada. Desta vez, a inspiração não veio de livros ou de outros ϐilmes. As chocantes imagens de 30 mil garimpeiros tentando a sorte em uma enlameada cava de 50 quilômetros quadrados nas profundezas do estado do Pará eram motivo su ϐiciente para inspirar mais uma história de um sujeito humilde, porém incapaz de ser subjugado pela tirania dos poderosos. A ϐinal, deveria haver muitos Bongas penando no meio das áreas de exploração batizadas de Babilônia 1 e Babilônia 2, tétricos infernos de lama onde a corrida pela riqueza instantânea havia feito a extração de cerca de 7 toneladas de ouro, em 1980, ser reduzida a 2,5 toneladas um ano depois. Como cenário nenhum seria capaz de reproduzir Serra Pelada, os trapalhões precisaram fazer gravações in loco, algo perigoso e complicado por causa do mesmo motivo, ou melhor, por causa da mesma pessoa: Sebastião Rodrigues de Moura, o controverso major Curió.
Militar de carreira, Moura teve envolvimento na execução de 41 pessoas durante a Guerrilha do Araguaia e foi designado pelo governo federal para comandar uma intervenção oϐicial no garimpo, a ϐim de garantir o registro dos aventureiros na Receita Federal e o monopólio da compra de metais preciosos pela Caixa Econômica Federal.
Com muita truculência, Curió não apenas cumpriu a missão dada pelo governo como virou, na prática, o dono de Serra Pelada – chegando ao ponto de transformar e emancipar a região como um município chamado Curionópolis. Não seria possível, portanto, colocar os pés no garimpo sem um acordo com o cara e só o imenso prestígio dos trapalhões pode explicar o feito de levar uma equipe completa de ϐilmagem para as áreas de exploração. Por coincidência, negociata ou agradecimento, o personagem de Renato Aragão na trama é chamado de Curió, e a história que mostra as condições desumanas da época das ϐilmagens começa com a inscrição "Serra Pelada antes da intervenção federal". Esforços diplomáticos à parte, o ϐilme traz registros valiosos sobre o Brasil dos anos 1980, mostrando a miséria dos retirantes desesperados por um grama de ouro de maneira crua.
Nos minutos iniciais da ϐita, o quarteto transita pelo sufocante barro do garimpo, subindo inϐinitas escadas, misturado aos milhares de aventureiros como se não fossem grande estrelas da TV – a única diferença era que os trapalhões carregavam sacos cheios de jornal, enquanto os trabalhadores levavam quilos de cascalho nas costas. Méritos para o diretor J.B. Tanko que captou com precisão a essência do local antes de mergulhar novamente em mais uma chanchada moderna, com as mesmas limitações de enredo presentes nas demais obras da saga de "Os Trapalhões" no cinema. No roteiro, após descobrirem um veio de ouro, os quatro bocós são sequestrados por um cruel capataz (Eduardo Conde, de novo) e descobrem que os problemas do garimpo são culpa de um estrangeiro ganancioso. Lutam do seu modo característico contra o vilão e vencem a batalha ϐinal com a ajuda do intrépido Exército Brasileiro. No meio disso tudo, salvo a exceção de uma ou duas boas cenas, Dedé, Mussum e Zacarias, este vestindo uma camisa do Corinthians, aparecem pouco e têm importância diminuta no enredo. Mas a propaganda governista e o subaproveitamento do trio não incomodaram ninguém da plateia. Assim como ocorreu com Os Vagabundos Trapalhões , a aventura com momentos de documentário em Serra Pelada foi recebida com empolgação pela crítica e enorme receptividade pelo pessoal da poltrona.
Por mais ousada que fosse a ideia de ϐilmar na hostil Serra Pelada, o que mais importava na época era colocar as caras dos quatro heróispalhaços em uma tela de cinema no período das férias. Com 4,7 milhões de espectadores, Os Trapalhões na Serra Pelada só perdeu nas bilheterias para E.T. – O Extraterrestre , obra icônica de Steven Spielberg que foi vista por 7 milhões de brasileiros em 1982. Só dava Trapalhões, ano após ano, mas isso não era motivo para sossegar. Não para Renato Aragão.
Após muito reclamar da falta de estrutura do cinema nacional, o líder dos trapalhões deu início ao seu projeto mais ambicioso: a construção de um centro de audiovisual que ocupava 67 mil metros quadrados em um terreno da Barra da Tijuca, com direito a estúdio, ilha de edição, cidade cenográϐica e até lanchonete temática. Com custo estimado em 6 milhões de dólares, o equivalente a Cr$ 3,2 bilhões na época, a R.A. Produções estaria mais próxima de Hollywood do que qualquer outra produtora tupiniquim se atreveria a sonhar – incluindo nessa lista a coirmã DeMuZa Produções. A empresa responsável por administrar os negócios da carreira de Dedé, Mussum e Zacarias lucrava cerca de Cr$ 300 milhões ao ano, uma soma considerável para qualquer negócio em época de recessão econômica e, ao mesmo tempo, raquítica se comparada aos montantes movimentados pela ϐirma de Renato Aragão. Uma disparidade que se transformava em constante motivo de brigas.
De um lado, a administração familiar da R.A Produções, tocada pelo próprio Renato junto com a esposa Martha e o ϐilho Paulo, visava à contínua expansão da marca Trapalhões, usando um pioneiro modelo de licenciamento de produtos como alavanca para ϐinanciar as produções cinematográϐicas. Tratava-se de um negócio bem organizado, que chegava a empregar 500 pessoas nas épocas das ϐilmagens e tinha no seu quadro ϐixo de administração cerca de 50 pessoas. Cada centavo ganho nas bilheterias era acompanhado de perto, e na produção das novas obras eram obrigatórias as tentativas de renegociar condições para o pagamento ou o aluguel de equipamentos e locações por meio de permutas e merchandisings.
Do outro lado, baseada em uma bela casa no bairro das Laranjeiras, a DeMuZa praticava uma ϐilosoϐia totalmente oposta. Manfried Sant'Anna, Antônio Carlos Bernardes Gomes e Mauro Faccio Gonçalves, as três pessoas ϐísicas fundadoras da companhia, não se interessavam pelos relatórios, planilhas e contratos assinados pelos diretores administrativos que contrataram. Os principais parceiros de empreitada do trio de trapalhões eram antigos produtores de ϐilmes da Herbert Richers e da J.B. Tanko Produções e conheciam bem o riscado do mundo artístico, com larga experiência na captação de recursos para ϐilmes, organização de turnês e negociação de cachês para propagandas e shows. Tinham carta branca para representar Dedé, Mussum e Zacarias em negociações e administrar o dinheiro que entrava e que saía da empresa. E aí começava o problema. Naquela altura dos anos 1980, Renato pouco participava das turnês em circos e ginásios do interior, assim desvalorizando as apresentações dos outros trapalhões e consolidando uma impressão de que estava ocupado demais com seus projetos pessoais para trabalhar junto dos outros.
O ponto mais crítico, no entanto, era a partilha dos lucros obtidos nas bilheterias dos ϐilmes com a marca "Os Trapalhões". Na visão dos administradores da DeMuZa, as negociações com a direção da R.A. Produções sempre eram muito desvantajosas, com uma divisão de lucros injusta e pouco transparente, privilegiando demasiadamente o lado de Renato. A cada novo longa, brigavam novamente por uma fatia de 50% dos lucros e não mais de 20%, alegando que sem Dedé, Mussum e Zacarias não haveria ϐilme. As reuniões entre os funcionários das duas companhias eram tensas e não raro terminavam em bate-bocas entre seus funcionários. O con ϐlito gerou até um apelido jocoso para ironizar a austeridade do pessoal da R.A. Produções, que sempre fazia um discurso sobre as diϐiculdades ϐinanceiras do momento apesar dos grandes lucros acumulados ano após ano. A partir de certo momento, no escritório da DeMuZa, a empresa de Renato era apenas chamada de "o primo rico", uma referência ao antigo quadro de humor da R ádio Nacional, em que um sujeito milionário reclamava da vida ao encontrar seu primo paupérrimo. Piadas à parte, a ameaça de tirar os três trapalhões do elenco dos ϐilmes não assustava ninguém do outro lado da mesa de negócio. Muito pelo contrário.
Para a realização de O Cangaceiro Trapalhão , ϐilme destinado a estrear nas férias de junho de 1983, Renato decidiu incrementar ainda mais sua ϐilmograϐia, usando a grana e o prestígio de campeão de bilheteria para arregimentar proϐissionais de primeira linha para a produção e para o elenco do longa-metragem. Como Tanko estava pensando seriamente em se aposentar e a base do ϐilme seria uma sátira ao universo da minissérie "Lampião e Maria Bonita", exibida com grande sucesso pela Rede Globo no ano anterior, o cearense decidiu contratar praticamente toda a equipe responsável pela produção. Trouxe o casal de protagonistas do seriado, formado por Nelson Xavier e Tânia Alves, o obrigatório sertanejo José Dumont, e até os roteiristas Aguinaldo Silva e Doc Comparato. E esses não seriam os únicos nomes famosos nos créditos. Chico Anysio foi o responsável pelos diálogos da história e Daniel Filho foi chamado para a direção, escalando Regina Duarte, Bruna Lombardi e Tarcísio Meira para fazerem participações especiais.
Com tantos nomes consagrados, o espaço em cena para Dedé, Mussum e Zacarias, já reduzido nos últimos ϐilmes, ϐicaria ainda menor. Com referências a momentos de Os Caçadores da Arca Perdida , Deus e o Diabo na Terra do Sol e Casablanca, a história girava em torno de Severino Quixadá, um criador de cabras interpretado por Renato Aragão. O pobre coitado, meio sem querer, salvava o cangaceiro Capitão, vivido por Nelson Xavier, e a partir daí as histórias dos dois se entrecruzavam. Dedé fazia o papel de um dos lacaios de Capitão. Os outros dois trapalhões, nem isso. Eram dois presidiários fugitivos anexos à história do grupo principal sem muita explicação. Por isso, nos bastidores, participar do ϐilme foi especialmente chato para Mussa.
Gravando externas no meio do interior do Ceará, ele e boa parte do elenco precisavam esperar horas e horas para trabalhar. Como a maioria das cenas envolvia apenas Renato, havia uma espécie de rodízio de atores. Enquanto um núcleo gravava, o outro esperava por longas horas, dormindo nos motor homes ou jogando conversa fora. Ao contrário de J.B. Tanko e Adriano Stuart, mestres da improvisação cinematográ ϐica, Daniel Filho era perfeccionista e só dava o seu grito de "ação" quando tudo estava exatamente como ele queria. Para as gravações das tomadas iniciais, um tiroteio no meio de uma cidadezinha, o diretor pediu um cano para transportar a fumaça de uma parte para outra do cenário. Como o pedido não foi atendido, puto da vida, ameaçou abandonar a cidade de Juatama e trocar de locação. Até o imbróglio ser resolvido, foi perdido um dia inteiro de filmagem.
Nesses momentos de folga forçada, Mussum costumava devorar jornais e revistas, lendo cada exemplar da primeira até a última página para matar o tempo, Mauro caminhava fazendo registros dos bastidores com sua câmera Leica e Dedé transformava-se em uma espécie de diretor informal, ensaiando os dublês, resolvendo pequenos problemas de logística e sugerindo tomadas e enquadramentos aos técnicos. Mesmo quando os trapalhões precisavam entrar juntos em cena, a demora da produção causava novas sessões de espera. Nesses momentos, bastava procurar pelo som de gente dando risada para saber onde Mussum estava. Sem perdoar ninguém, ele reunia toda a equipe e elenco em rodas de piadas, contando histórias engraçadas e inventando apelidos para os colegas. Para ϐilmar uma tomada em que o personagem de Renato Aragão trepava por debaixo de uma carroça em movimento, Daniel Filho resolveu fazer uma vala, cobrir o buraco com espuma, e depois jogar terra por cima para proteger o protagonista de qualquer queda mais séria. Ao saber que o diretor preparou uma vala de dezenas de metros apenas para proteger o forévis de Renato, Mussum começou a dizer que aquilo era desnecessário, pois o colega era a "abóbora do Ceará", conhecido por todo o Norte como "abóbora capada, por causa do seu buraquinho exposto".
Se fazia todos rirem o tempo todo nos bastidores, no resultado ϐinal do filme são raras as falas e as cenas engraçadas de Mussum. Enquanto isso, convidados especiais como Bruna Lombardi tinham até canção-tema (composta por Rita Lee e Roberto de Carvalho), cenário especial e diferentes ϐigurinos para as suas cenas. O título no singular não era mera coincidência, O Cangaceiro Trapalhão era um ϐilme de Renato, não do quarteto. Diferença pouco notada pela criançada, claro.
Após a estreia, em 25 de junho, o ϐilme rendeu Cr$ 45 milhões por dia nas duas primeiras semanas, e mais tarde alcançou a marca de 3,8 milhões de espectadores. Enquanto isso, na imprensa, as críticas positivas foram quase unânimes. A escolha de Daniel Filho e os recentes sucessos de ϐilmes mais bem produzidos como Os Saltimbancos Trapalhões e Os Trapalhões na Serra Pelada havia aplacado a sede de sangue dos colunistas mais antipáticos ao pastelão do grupo. Até o tom pesado de crítica social, julgado inadequado para as comédias acéfalas do quarteto, havia sido suavizado, dando lugar a uma oportuna temática nordestina – também bastante contestadora, mas mais alinhada aos anseios políticos em voga na época.
A fase de paz e amor com a imprensa era tão sólida, que até o novo disco de Mussum, com a capa estampando uma montagem do trapalhão da televisão, todo humilde e pateta, cumprimentando o próprio sambista, desta vez vestido de terno branco e gravata verde e rosa, estreou recebendo uma série de elogios nas colunas de música. Tudo bem nos números das lojas e das bilheterias, como virou costume nos últimos anos, mas dessa vez os problemas não viriam de fora e sim do próprio núcleo dos trapalhões.
A matéria de capa da edição de 13 de julho de 1983 da revista Veja, com a manchete "O Grande Palhaço – Por que Renato Aragão faz rir", fez com que a birra entre os funcionários da R.A. Produções e da DeMuZa ϐinalmente contaminasse a relação entre Renato, Dedé, Mussum e Mauro. Exaltando o espírito empreendedor do líder dos trapalhões, a reportagem empilhava os impressionantes recordes da ϐilmograϐia do cearense, contava detalhes sobre seu estilo de vida luxuoso e fazia o seguinte elogio: "Aragão ocupa, no cinema, o mesmo lugar de Roberto Carlos na canção ou de Janet Clair nas telenovelas". Sobre os três companheiros de palhaçadas, apenas uma brevíssima citação, descrevendo-os como companhias constantes na tela. E nada mais. 30
A publicação do perϐil gerou um mal-estar generalizado nos corredores do Teatro Fênix, incentivando discussões a portas fechadas entre as quatro estrelas de "Os Trapalhões". Nas gravações do programa, o clima voltava a desanuviar, pois a regra sempre foi deixar os problemas pessoais de lado durante o trabalho. Terminadas as sessões, as brigas continuavam, com mais intensidade, de onde tinham sido interrompidas. De lado a lado, as ameaças de dissolução do grupo apareciam, cada vez com mais força, e os pedidos de uma nova divisão dos lucros dos ϐilmes, a antiga reivindicação dos administradores da DeMuZa, virou um ponto de in ϐlexão. Sem um aumento na participação das bilheterias, o trio Dedé, Mussum e Zacarias estaria fora.
Anos mais tarde, Dedé revelaria que a estratégia foi um blefe. Queriam apenas mostrar ao líder o quanto andavam descontentes com a divisão do bolo, tanto em relação ao dinheiro quanto na criação dos roteiros e papéis, mas não queriam de forma alguma largar o grupo. Renato, por sua vez, tinha outra visão da questão toda, como demonstrou em 1981, comemorando o aniversário de 15 anos do grupo com base na data de estreia do programa "Os Adoráveis Trapalhões" e não usando a efeméride da formação clássica da TV Tupi, já com Dedé, Mussum e Zacarias. Teoricamente, não apenas seria possível continuar a vida sem os velhos companheiros como ainda seria uma chance de fazer mais uma renovação.
Por ϐim, nenhum dos lados cedeu e o clima descontraído dos bastidores acabou. Era inviável seguir daquele jeito e foi decidido, em comum acordo, que o grupo resolveria uma forma de separação amigável. Depois de 37 dias da publicação da reportagem sobre Renato Aragão na revista Veja, e de muita especulação, os trapalhões realmente pediam divórcio.
Não tardou para a notícia vazar, e o quarteto convocou uma coletiva de imprensa no Teatro Fênix para con ϐirmar, de uma forma menos dramática, o que muitos colunistas estavam ventilando: ninguém esmurrou ninguém, mas a dissolução do grupo era para valer. Tensos, escolhendo as palavras e sem convencer ninguém, eles disseram que não fariam mais ϐilmes juntos e avaliariam o futuro do programa de TV em breve, após uma reunião com a direção da Globo, dali a uma semana. O motivo principal da briga, segundo Dedé, fora "um mal-entendido gerado por várias notinhas na imprensa". Renato descartou tocar a atração sozinho, deixando no ar a formação de um novo grupo. Mussum, por sua vez, deu mostras de que a rivalidade entre a R.A. Produções e a DeMuZa não era mais segredo para ninguém: "Os funcionários das nossas empresas criaram muitos obstáculos. Se não fosse a maldita burocracia, muita gente já estaria demitida, mas queremos resolver tudo de forma civilizada, sem mágoas". Um jornalista fez uma pergunta tão necessária quanto óbvia e ouviu Dedé, sem querer, mostrar seu ressentimento em forma de piada:
— Se o problema são os funcionários das empresas, por que não trocálos? — indagou o repórter.
— Porque, nesse caso, teríamos que demitir toda a família do Renato. — disse Dedé.
Estranhamente, quando foram forçados a dar uma resposta deϐinitiva, todos os quatro trapalhões a ϐirmaram ter vontade de permanecer juntos. Especialistas no humor pastelão, ϐizeram involuntariamente uma cena de comédia surrealista digna de um ϐilme de Buñuel. Antes do que deveria ser a sua última aparição pública como quarteto, disseram:
— Se depender de mim, tudo continua como antes — disse Renato.
— Gostaria que continuássemos trabalhando juntos na TV — concordou Dedé.
— Eu não gostaria que a separação acontecesse — completou Mussum.31
29. Revista Veja, 23/06/1982.
30. Revista Veja, 13/07/1983.
31. O Estado de S.Paulo, 19/08/1983.