Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões
Capítulo 20
SUPER MUSSA CONTRA o BAIXO ASTRAL (1987)
"Casa, comidis e três milhões por mês, fora o bafo, topas?"
Dois dias depois da morte de Dona Malvina, Mussum tinha um
compromisso como sambista. Ao lado da amiga Alcione, participaria de um show gratuito em plena Praia de Ramos, no subúrbio carioca, para um projeto de levar música ao povão chamado "Pagode na Praia". O domingo de samba, areia e farofa apelidado jocosamente de o "Rock in Rio dos Pobres" teria atrações de excelente nível, como Dona Ivone Lara, Jovelina Pérola Negra, Leci Brandão e Dicró, espécie de embaixador extrao ϐicial do lugar. A ausência do mangueirense, portanto, seria, além de compreensível, pouco notada pelo público. Mesmo assim, ϐicar em casa, de luto, não parecia ser uma opção. Acostumado com a vida corrida desde os tempos de ritmista da companhia de Carlos Machado, Mussum não sabia ϐicar parado e decidiu que não deixaria o desânimo o segurar, especialmente em uma fase tão crítica. Não respeitaria o luto oϐicial, não por insensibilidade, mas por ter uma visão bem particular em relação ao sobrenatural. Quando perguntado a respeito de sua religião, falando sério, nunca a ϐirmou ser católico, espírita ou praticante de candomblé. Dizia ter fé na Santíssima Trindade de uma forma acima da razão, acreditando em Deus de sua maneira, pedindo e agradecendo sempre pelas conquistas. Como ϐicar sério não era sua especialidade, essas mesmas conversas terminavam geralmente com uma piada com bom fundo de verdade. Mussum falava que não acreditava em nada, mas não deixava de acender suas velinhas, afinal não era bobo.
Somando essa relação direta com a fé e sua incapacidade de ϐicar triste por muito tempo, decidiu encarar seu compromisso em Ramos. Sem dúvida, foi a escolha correta. O show reuniu mais de 15 mil pessoas em um clima de animação e carinho que emocionou o trapalhão. Ao subir no palco de surpresa, à frente dos músicos, recebeu um aplauso inesquecível. Não apenas porque estava sozinho, sem a escolta dos Trapalhões ou dos Originais, mas principalmente pela consagração em meio às pessoas que tinham a sua mesma origem. Via nas crianças e adolescentes negros do subúrbio o seu próprio reϐlexo e, entre um sucesso e outro, tocou muito reco-reco e tamborim e fez todo mundo sorrir com o debochado refrão de "A vizinha (Pega ela peru)". No meio da apresentação, com o público deliciado, disse com todo o orgulho:
— Sou moleque criado na Penha, na Mangueira, e queria sempre poder estar junto de vocês como agora. 36
O desϐile de carnaval de 1987 foi outra necessária volta às origens para Mussum. Em um ano em que as escolas estavam na penumbra em virtude do fracasso do Plano Cruzado, a garra dos integrantes precisaria falar mais alto do que o luxo das fantasias e dos carros alegóricos, até porque nenhuma agremiação conseguiria bancar um espetáculo grandioso num período de tamanha crise econômica. No ano anterior, em um cenário ligeiramente diferente, a Mangueira colocou seu nome mais uma vez na história, sendo campeã com o inesquecível enredo "Caymmi Mostra ao Mundo o que a Bahia e a Mangueira Têm", com o clássico refrão "Tem xinxim e acarajé / Tamborim e samba no pé". Foi a vitória inquestionável de um des ϐile que parecia destinado ao primeiro lugar desde o começo.
Em 1987 a coisa pintava de uma forma diferente. A escolha do sambaenredo foi polêmica, sendo decidida sem unanimidade na ala dos compositores, e a Mangueira foi escolhida para entrar por último na Marquês de Sapucaí, na manhã de segunda-feira. Se as fantasias simples e os poucos carros alegóricos já corriam o risco de parecer pobres com os holofotes, o que seria, então, de um desϐile murcho como aquele em plena luz do dia? O que fazer quando, minutos antes da entrada na avenida, o mestre de bateria passa mal e resolve ir embora? E se dezenas de penetras invadirem a pista para tentar des ϐilar de graça, atrapalhando a evolução? Para qualquer escola de samba, seria o ϐim. Mas tratava-se do Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira e, como a história da verde e rosa mostra, quanto mais diϐiculdades desse tipo aparecerem, mais o povo do morro buscará forças para se superar.
O enredo "No Reino das Palavras", uma homenagem a Carlos Drummond de Andrade, festejava a cidade natal do poeta, Itabira, em Minas Gerais, e fazia menção a alguns de seus trabalhos mais famosos, como "O Elefante". Assim, na voz de Jamelão, com um sol forte demais para aquele começo de março, ecoou o refrão "É Dom Quixote, ô! É Zé Pereira! É Charlie Chaplin no embalo da Mangueira". A escola pisou na avenida remendada e, mesmo assim, fez levantar a plateia no sambódromo. Quem estava ali, a ϐinal, havia aguardado toda a noite e a madrugada para ver a Estação Primeira. E valeu a pena. Com a estreia de Chico Buarque na avenida, em uma comissão de frente formada por outros poetas, Mocinha portando a bandeira no auge de seus 61 anos de idade, Grande Otelo como destaque e outros 4.500 integrantes empolgadíssimos, a escola conseguiu fazer um carnaval de anos 1960, com mais foco nas pessoas do que no luxo. Seguindo essa receita, à frente da ala das baianas, Mussum não dava sossego para as tias, vestidas apenas de branco e preto, para combinar com a parte do enredo que falava do poema dedicado à Carlitos, de Charles Chaplin. Se não foi um desfile vistoso tecnicamente, foi uma demonstração de amor ao carnaval.
No dia da apuração, reinava o sentimento de dever cumprido, mas a expectativa por um bicampeonato era tão pequena que a quadra da escola nem se preocupou em organizar uma possível festa para o título. Na visão dos jurados, os des ϐiles realmente tinham sido realizados com condições desfavoráveis demais, nem cabia comparação com os outros anos anteriores e, por isso, tirando certo favoritismo da Mocidade Independente de Padre Miguel, Vila Isabel, Salgueiro, Portela, Império Serrano, Estácio de Sá, Imperatriz Leopoldinense e Mangueira estavam no mesmo nível. A vitória não parecia possível até a divulgação das notas do quesito Evolução. Até então, a escola vinha empatada com Império Serrano, Portela, Salgueiro e Vila Isabel. Quando chegaram as notas 10 no quesito Fantasia, a Mangueira passou à frente da líder Mocidade Independente e o sonho do bicampeonato começou a parecer real. No ϐim, para surpresa geral, deu Mangueira na cabeça, com 224 pontos, seguida da Mocidade, com um ponto a menos, e a Império empatada com a Portela em terceiro lugar, com 221. O resultado foi muito questionado pelas rivais, que acusaram os jurados de beneϐiciarem a escola mais popular para acalmar um pouco o momento de crise política e econômica vivido no estado e no país. Choradeira que não deu em nada. Foi a primeira notícia boa que Mussum receberia em muito tempo, uma fresta para entrar luz após tantos e tantos dias escuros.
Imitando a parábola do ϐilho pródigo à sua forma, o comediante reencontrava forças em suas raízes, envolvendo-se cada vez mais na vida da verde e rosa. Após o título, novamente por um convite da amiga Alcione, Mussum aceitou trabalhar como incentivador e professor do Grêmio Recreativo e Cultural Mangueira do Amanhã, um projeto social bolado pelo então presidente Carlos Alberto Dória, para usar o poder de mobilização da escola de samba para estruturar um centro de formação para os jovens entre 5 e 16 anos, com cursos profissionalizantes, aulas de samba e prática de futebol, vôlei e atletismo. O programa incluiu a construção de uma Vila Olímpica, com quadra poliesportiva, e a criação de um curso completo de samba, com aulas ministradas pelos mais ilustres membros das alas dos compositores, mestres de bateria, passistas e diretores de alas. Mais do que formar uma réplica em miniatura da Mangueira, o projeto tinha como meta incentivar os estudos. Só entrava no curso quem passasse por uma avaliação trimestral, provando assiduidade e boas notas na escola. A formatura do curso, claro, seria na avenida, com um des ϐile mirim completo, colocando na Marquês de Sapucaí um samba-enredo inédito, fantasias originais, casais de mestre-sala e porta-bandeira, passistas e carros alegóricos. Durante as aulas de percussão e harmonia, Mussum reencontrava seu passado de menino pobre do morro e enxergava seu presente, como ídolo máximo da molecada. Sem dúvida, uma sensação que o ajudou a superar as perdas recentes e o energizou para seguir na luta. Até porque, não haveria de faltar trabalho para o trapalhão.
Por causa do sucesso da temporada de shows pelo Brasil, a decisão de gravar mais episódios de "Os Trapalhões" para evitar a apresentação de reprises no período das férias escolares e também pelas diϐiculdades ϐinanceiras de fazer cinema no Brasil, Renato Aragão decidiu passar o ϐinal daquele ano sem lançar um ϐilme dos trapalhões nas férias. Havia ainda outro motivo para mudar a agenda em 1986. O próximo projeto a ser realizado pela R.A. Produções era o mais ousado voo da ϐilmograϐia trapalhônica desde Os Saltimbancos Trapalhões. Didi, Dedé, Mussum e Zacarias encarnariam nas telas os personagens da peça O Auto da Compadecida, uma elogiadíssima adaptação do livro homônimo de Ariano Suassuna que fazia a cabeça da classe intelectual desde seu lançamento, quase 30 anos antes. Tal projeto não poderia ser feito a toque de caixa, como era costume, e traria desaϐios novos para a trupe, especialmente para Mussum.
O primeiro obstáculo foi convencer o autor paraibano a deixar sua obra ser transformada em filme, algo que nada tinha a ver com a fama de chanchadeiros dos trapalhões. Há 28 anos, o então iniciante diretor Roberto Farias telefonou para Suassuna propondo uma versão cinematográϐica do livro e ouviu um não. Tentou sem sucesso em mais duas oportunidades ao longo das décadas seguintes e, insistente, conseguiu sua autorização apenas na terceira. Quando teve o sinal verde do autor pela primeira vez, em 1979, Farias procurou Renato Aragão para executar o projeto e também para viver o protagonista João Grilo, a ϐinal, quem seria melhor para interpretar um malandro nordestino no cinema senão o próprio Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgina Mufumbo? Mas Renato não quis saber de conversa.
Embora fosse amigo de Farias, na época diretor da Embra ϐilme, seria arriscado demais envolver ídolos infantis, como os trapalhões, em uma história que critica tanto os ritos e símbolos da igreja católica quanto a lógica de mercado e os bons costumes da tradicional família brasileira. Além disso, O Auto da Compadecida não seria um ϐilme dos trapalhões, uma vez que a trama girava apenas em torno de uma dupla e o autor original provavelmente se recusaria a fazer concessões para incluir ou alterar seus personagens. Farias conquistou Suassuna, mas bateu na trave com Aragão. A espera havia sido em vão. Primeiro porque a história já havia sido ϐilmada antes, em 1968, e depois porque o cineasta, irmão do ator Reginaldo Faria, andava desanimado por continuar ϐilmando histórias ordinárias, como fez nos longas Roberto Carlos em Ritmo de Aventura, Roberto Carlos e o Diamante Cor-de-Rosa e Roberto Carlos a 300 Quilômetros por Hora.
Só em 1986, sete anos após o convite de Farias, Renato Aragão acabou dando uma segunda olhada no livro e foi convencido de que ϐilmar o conto nordestino seria a oportunidade perfeita de calar de vez a boca de quem reclamava da mesmice dos ϐilmes dos trapalhões. Sob essa ótica, percebeu que a oportunidade de interpretar um personagem diferente faria com que o quarteto ganhasse respeito do público adulto sem perder a idolatria das crianças e, mais do que isso, poderia, en ϐim, experimentar um pouco da liberdade criativa oferecida pelo primeiro governo civil em tantos anos. Pelo menos para isso, o incompetente governo Sarney haveria de servir. Ligou para o cineasta indo direto ao assunto:
— Roberto, e aquele filme lá? Vamos fazer?
Entusiasmado com o sim do trapalhão, o diretor teve um encontro pessoal com Ariano Suassuna para dar as boas-novas e preparar o roteiro. Para surpresa de Roberto Farias, o escritor era admirador dos trapalhões e aceitou envolver-se na adaptação da obra para o cinema, com a condição de que a estrutura de sua narrativa e seus personagens não fossem alterados. E aí surgiu o segundo obstáculo importante para a criação de Os Trapalhões no Auto da Compadecida . Estava claro que João Grilo seria interpretado por Renato Aragão e que Dedé daria vida a Chicó, o parceiro inseparável do protagonista. Mas o que fazer com Mussum e Zacarias? O elétrico mineirinho, com sua peruca e dentinhos pretos não poderia aparecer do nada, gargalhando no meio do sertão, seria preciso usar a experiência de ator de Mauro Gonçalves para interpretar um dos personagens da peça ou, então, tirá-lo do elenco.
Com Mussum a decisão era ainda mais complicada, a ϐinal, O Auto da Compadecida tinha um personagem negro, mas o papel exigia um nível alto de interpretação. No ato ϐinal da peça, acontecia um julgamento para decidir se os personagens passariam a eternidade do pós-vida no céu, no inferno ou no purgatório, e Jesus Cristo deveria ser, segundo as instruções de montagem da peça, "um preto retinto, com uma bondade simples e digna nos gestos e nos modos". Como colocar a malandragem do Kid Mumu da Mangueira, falando seus cacildis e forévis, numa cena como essa? Quando João Grilo o chamasse de negão, ele responderia "negão é sua mãe"?
Como se tornou costume após a separação, uma reunião para discutir o problema foi feita com os quatro integrantes do grupo, todos leriam os textos da peça e opinariam depois se dariam ou não conta do recado. Após a leitura, eles concordaram que seria um desa ϐio e tanto sair da pele dos seus tipos habituais e decorar longos textos, criar maneirismos e ainda assim manter os novos personagens por uma história toda. Mas toparam a empreitada. Mauro percebeu semelhanças no comportamento covarde do padeiro da história com seu jeitinho de Zacarias. A mulher do comerciante seria interpretada por Cláudia Jimenez, que já roubava a cena com suas atuações no elenco de apoio de "Os Trapalhões" e, assim, o casal teria uma comicidade instantânea por unir um baixinho medroso e uma mulherona voluptuosa. Já Mussum, após relutar um pouco e receber o incentivo dos colegas, prometeu se empenhar como nunca, estudando suas falas à exaustão para viver não apenas um, mas dois personagens da trama. Primeiro, o frade, um bondoso subalterno que é constantemente humilhado pelos membros da igreja. Depois, entraria em cena como Manuel, "Nosso Senhor Jesus Cristo", e faria o julgamento ϐinal. Uma responsabilidade imensa, mas também a chance única de passar uma poderosa mensagem contra o racismo, no tom certo e na hora certa.
Com os trapalhões acomodados no roteiro, partiu-se para a montagem de um elenco de apoio experiente, sem apelar para nomes conhecidos do público sem milhagem de atuação, como foram os casos de Xuxa, Luiza Brunet, Sérgio Mallandro e tantos outros. O temido coronel Antônio Morais e o Diabo seriam vividos por Raul Cortez; José Dumont voltaria a ϐilmar com os trapalhões, desta vez no papel do cangaceiro Severino do Aracaju; Betty Goffman, revelação de novelas da Globo, com formação pelo Teatro Tablado, seria Nossa Senhora Aparecida; Renato Consorte, também com carreira originada no teatro, viveria o corrupto Bispo.
Para as locações, a preocupação com qualidade foi a mesma. A R.A. Produções se encarregou de usar um terreno em Jacarepaguá para reproduzir com exatidão uma foto dos anos 1920 mostrando o centro de Taperoá, a cidade do interior da Paraíba onde Ariano Suassuna passou parte de sua infância. Para a reprodução do cenário do julgamento ϐinal, no céu, foram usados enormes galpões do RioCentro, onde foram armados uma lona de circo, um palanque para os tronos de Jesus e Nossa Senhora e uma reprodução das portas do inferno. Cenograϐia que impediu a venda das cotas para merchandising de produtos e marcas, avaliadas na época em Cz$ 300 mil cada, e consumiu boa parte do orçamento de Cz$ 14 milhões, mas o resultado ϐinal justiϐicou o investimento. Nunca uma obra dos Trapalhões foi tão bem-feita.
Sem dobrar plurais ou fazer graça, Mussum abre o ϐilme declamando a epígrafe como Jesus ao lado de Betty Goffman, a Compadecida, e Raul Cortez, o Demônio. A passagem é feita apenas com áudio e com a tela completamente escura. Quem estiver desatento não vai perceber qual é a voz de Mussum. A partir daí, segue-se uma reprodução bastante ϐiel da obra original, com um esforço coletivo de toda a equipe para representar a história sem apelar para as piadas e movimentos típicos dos trapalhões – nem sempre com sucesso. Didi faz um João Grilo a seu modo, mostrando-se pouco à vontade com o texto, mas, mesmo assim, saindo-se bem. Dedé começa falando com sotaque de nordestino e logo retorna ao tom de voz normal, tirando o brilho de Chicó, mas também sem comprometer. O destaque mesmo ϐica por parte dos coadjuvantes. Fazendo um tipo bem diferente de Zacarias, sem perder a ternura, Mauro compõe uma dupla perfeita com Cláudia Jimenez. Mussum, por sua vez, rouba a cena para si como o frade Benedito, protagonizando cenas de cinema mudo, calcadas muito mais em sua expressão facial do que no texto. Ele, aos poucos, mostra que seu personagem não é apenas um humilde monge e vai demonstrando seus poderes celestes.
Conforme combinado entre Suassuna, Farias e Aragão, o longa não alterou nenhuma das críticas ácidas que o texto original fazia à ganância da Igreja Católica e à mesquinhez burguesa nem removeu momentos que poderiam expor o público infantil a questões como o adultério, a corrupção, o racismo e a morte. Até as piadas mais adultas, como o gato que "descome dinheiro" após ter moedas en ϐiadas em seu ânus, são mostradas com o mínimo de retoque possível. E assim, com uma medida de ingenuidade, e outra menor, de malícia, foi feita a cena mais perigosa do auto. Mussum ϐinalmente surge como Manoel, o Leão de Judá, o Filho de Davi, montado em um cavalo branco, de coroa na cabeça e capa vermelha sobre os ombros. E dá-se o diálogo entre o incrédulo João Grilo, que não acredita ver Jesus personiϐicado como negro, e o ϐilho de Deus, explicando que poderia ter a forma que quisesse, pois não há diferença entre as pessoas. Nesse momento, o texto da peça é reproduzido sem alteração: "Não é lhe faltando com o respeito não, mas eu pensava que o senhor era muito menos queimado". Com domínio total da cena, Mussum consegue intercalar falas iradas, repreendendo o bispo, e sorrisos fraternais, mudando seu tom de voz e sua expressão conforme pedia a ocasião do texto. No seu grande momento, dá uma lição contra o racismo:
— Muito obrigado, João, mas agora é sua vez. Você é cheio de preconceitos de raça. Vim hoje assim de propósito, porque sabia que isso ia despertar comentários. Que vergonha! Eu, Jesus, nasci branco e quis nascer judeu, como podia ter nascido negro. Para mim, tanto faz um branco como um negro. Você pensa que eu sou americano para ter preconceito de raça?
Pode até não ser uma atuação digna de Oscar, mas está anos-luz à frente de qualquer outro trabalho da carreira do sambista como ator. "Mussum interpreta Cristo muito bem e às vezes parece excessivamente severo", disse ninguém menos que Ariano Suassuna, e o poeta não foi o único a elogiar. 37 Com 2,6 milhões de pessoas na plateia, a versão trapalhônica de O Auto da Compadecida conseguiu o feito raro de unir boas críticas e uma bilheteria expressiva. Algo que não voltaria mais a acontecer nos cinemas. Embora buscasse a aprovação dos colunistas especializados, Renato Aragão sabia que o principal público-alvo do seu trabalho eram crianças cada vez mais jovens. Na segunda metade dos anos 1980, ver o humorístico e os ϐilmes já não era mais programa para adolescentes. Aϐinal, naquela década começava a ϐicar mais evidente a diferenciação entre o consumidor jovem e o infantil. E a escolha dos trapalhões foi pelo segundo segmento. Nas noites de domingo, os quadros traziam cada vez menos piadas adultas e cada vez mais brincadeiras com extintores de incêndio, tortas, baldes d'água e bombas de farinha voando de um lado para o outro. A malícia ainda estava presente em um detalhe ou outro, mas era preciso um olhar treinado para achá-la.
Um marco dessa opção pelo infantil em detrimento do juvenil foi a assinatura de um contrato do grupo com uma empresa especializada em marketing chamada Tribo de Merchandising, che ϐiada pelo publicitário Celso Schvartzer. A iniciativa teve como objetivo remodelar e uniformizar a marca "Os Trapalhões" de uma forma que todos os produtos licenciados, ϐilmes ou discos com a participação do grupo tivessem uma mesma cara e, para tanto, contou com o apoio da produtora Sketch Filme, do desenhista especializado em character design César Sandoval, o responsável por animações famosas como a menina Bocona da margarina Claybom, o torcedor Pachecão da Gillette e o Dodói dos bandaids da Jonhson & Johnson.
Isso não se tratava de uma invenção, uma vez que o processo de branding já era usado com sucesso por conglomerados internacionais de mídia, como a Warner, a Disney, a Hanna Barbera e a Lucasϐilm. A diferença é que a industrialização da imagem venderia um produto de dentro do Brasil e não do exterior. Por meio de uma participação que ia de 5 a 8% do valor de venda, os fabricantes locais poderiam explorar a popularidade dos trapalhões em bolas, chicletes, calçados, camisetas, bonecos, bicicletas, lençóis, copos, cadernos, revistas, livros e discos. Isso sem citar o mercado das ϐitas VHS, que crescia rapidamente com a chegada dos videocassetes nas casas dos brasileiros com mais dinheiro – ou com conhecidos que viajavam para o Paraguai.
Tendo como alvos as crianças entre três e dez anos, as novas caricaturas seguiriam uma linha mais colorida e amistosa, com os bonecos representando crianças e não mais versões que destacavam os defeitos ϐísicos dos quatro humoristas. No gibi "Os Trapalhões", até então publicado pela Editora Bloch, Didi tinha cabelos pretos, costeletas longas, cabeça chata e rugas na testa, enquanto Dedé, Mussum e Zacarias eram retratados com as mesmas barrigas e pés-de-galinha que tinham na vida real. Na versão reformulada da revistinha, a ser publicada pela Editora Abril, os novos personagens seriam retratados como crianças, com as cabeças ligeiramente grandes, olhos arredondados e o corpo rechonchudo, teriam todos a mesma altura, vestiriam camisetas e calças coloridas e embarcariam em aventuras certinhas com os coleguinhas na escola e na rua, sem referências ao uso de bebidas alcóolicas, por exemplo.
Nos palcos e na TV, os trapalhões passariam a adotar um manual de características próprio, também com o intuito de dar mais unidade ao grupo e aumentar a semelhança entre as aparições presenciais e as representações desenhadas nas embalagens e estampas dos produtos. O uniforme de palco seria formado por jaquetas coloridas cobertas por lantejoulas, calças e sapatos brancos e uma camiseta mostrando em tamanho grande o novo logotipo, um escudo de bordas douradas com uma letra "tê" estilizada. Esse visual seria repetido, com variações mínimas, tanto nas aberturas dos programas da TV quanto nas turnês de shows, nas aparições em outros programas da Globo e até nos ϐilmes. Na capa do LP "Os Trapalhões", de 1987, é possível ver o quarteto com esse ϐigurino. Mussum aparece com a jaqueta e camiseta vermelhas; Renato, de preto; Zacarias, de verde; e Dedé, de lilás. Na contracapa e no encarte, é claro, os novos desenhos dos amistosos trapalhõezinhos.
O disco é outro exemplo do direcionamento exclusivo para um público de faixa etária menor. Cinco, das dez músicas gravadas, eram de autoria de Michael Sullivan e Paulo Massadas, músicos experientes e de relativo sucesso que se descobriram como talentosos compositores de aluguel. Nos anos 1980, ninguém conhecia melhor o caminho entre as produções rápidas e o coração das crianças. Foi deles a maioria das músicas dos álbuns campeões de vendas de artistas com apelo infantil como Xuxa, Trem da Alegria, Angélica, Bozo e Mara Maravilha. Para o álbum dos Trapalhões, a dupla fez muitas músicas com refrões fáceis de repetir, palmas e batidas contagiantes. A participação de Mussum é apenas como integrante dos Trapalhões, sem tocar nenhum instrumento ou cantar com algum destaque. Tudo muito bonitinho para tocar em uma festinha de aniversário, mas duro de encontrar alguma piada ou brincadeira digna de risada.
O sentimentalismo domina o álbum em faixas como "Criança esperança" e "Livre para voar", com a exceção de "O touro apaixonado", de Ed Wilson e Carlos Colla, que faz uma sequência ininterrupta de trocadilhos com as palavras teta, chifre, vaca e rabo. O que merece registro, e ainda assim apenas para os fãs mais dedicados, é a faixa "Super-heróis brasileiros", uma retrospectiva da carreira cinematográ ϐica dos trapalhões: "Te levamos para as mil e uma noites / Vem com a gente, somos quatro mosqueteiros / Saltimbancos, não há nada que nos mude / Nós já fomos Aladim e Robin Hood / Resistimos bem ao canto da sereia / Serra Pelada tem mais ouro que areia / Nós já prendemos os piratas dos sete mares / E junto com você passamos por mil lugares / Já entramos pra valer na guerra dos planetas / Seguramos ϐirme no rabo do cometa". A música seria usada a partir daí como uma espécie de hino nas apresentações dos trapalhões pelo Brasil. Havia até uma coreograϐia para o quarteto imitar momentos dos seus ϐilmes, como as lutas de espadas de Os Mosqueteiros Trapalhões.
No cinema, o novo look and feel do quarteto estreou em Os Fantasmas Trapalhões apenas na abertura. Os bonecos foϐinhos eram mostrados nos créditos iniciais e depois sumiam. A vontade de atender apenas ao público infantil e a preocupação comercial, por outro lado, permaneciam em cada segundo da película. Dirigido por J.B. Tanko no seu melhor estilo bom e barato, o ϐilme con ϐiou no uso de algumas soluções capengas para superar a falta de inspiração do seu argumento. Enquanto se assustam com as assombrações do título, os trapalhões protagonizam cenas com efeitos especiais pouco convincentes, apesar dos lasers e de algumas ousadas sobreposições de imagens.
No elenco, novamente foi usada a muleta de aproveitar celebridades do momento como chamarizes para o público. No caso, o apresentador Gugu Liberato faria o papel do mocinho, o delegado Augusto, Bia Seidl, da novela "Corpo a Corpo", seria a mocinha, e os garotos do grupo Dominó apareceriam como ϐigurantes de luxo. Augusto Liberato vivia o auge de sua popularidade no comando do programa "Viva a Noite" e estava prestes a assinar um contrato milionário para trocar o SBT pela Globo. Além do carisma no palco, o paulista, de 27 anos, tinha um impressionante faro empreendedor. Foi dele a ideia de criar uma banda brasileira nos moldes dos Menudos, e o conjunto Dominó, formado pelos galãs adolescentes Affonso Nigro, Lenilson dos Santos (o Nill), Marcos Quintela e Marcelo Henrique Rodrigues, fez um enorme sucesso com músicas como "Ela não gosta de mim", "Companheiro", "P' da Vida" e "Manequim". A presença de Gugu e do Dominó em Os Fantasmas Trapalhões, portanto, era uma boa jogada comercial para todas as partes envolvidas.
Com esse intuito de lucrar, foi escolhido um roteiro sem qualquer inovação ou aposta arriscada. A história seria previsível, tendo os quatro trapalhões interpretando personagens sem nenhuma diferenciação em relação aos quadros da TV e um fraco elenco de apoio. É um ϐilme bastante fácil de esquecer, servindo de exemplo de produção ruim. Qualitativamente, se comparado com Os Trapalhões no Auto da Compadecida, Os Fantasmas Trapalhões leva desvantagem. Nas bilheterias, no entanto, houve um empate técnico, com vantagem para o segundo. Enquanto a elaborada versão da peça de Ariano Suassuna levou exatos 2.610.371 espectadores ao cinema, a desmiolada aventura em que Zacarias muda a cor da peruca cada vez que leva um susto atraiu
2.689.380 pessoas.
Entre a massagem no ego e o lucro nas bilheterias, Mussum, Dedé e Mauro com certeza preferiam a segunda opção. Cinemas cheios signiϐicavam uma bem-vinda ajuda na retomada ϐinanceira do trio, que também era abastecido pelo sucesso inabalável na televisão. Mesmo após uma longa série de mudanças, o programa de domingo seguia como o preferido da faixa das 19 horas, sem concorrência ou maiores turbulências. Na média do Ibope, tinha audiência quase o dobro da do "Programa Silvio Santos" e, sozinho, superava com bastante folga a soma das atrações da Bandeirantes e Manchete. No ranking semanal, "Os Trapalhões" só perdia para as novelas (que ainda começavam às 20 horas) e para o "Jornal Nacional", ambos com mais de 60% de preferência dos telespectadores em seus respectivos horários. Nem as constantes trocas na direção e no elenco de apoio traziam qualquer problema. Entre abril de 1986 e março de 1988, o humorístico passou pelas mãos de Walter Lacet, Carlos Manga e Maurício Tavares. Cada um deles, ao seu estilo, alterou um pouco a fórmula vencedora, acertando e errando em algum grau, mas nunca mexendo o su ϐiciente para alterar o status do quarteto com sua audiência. As mudanças dessa época, a bem da verdade, não traziam nenhuma ruptura radical. Experiente cineasta, Manga tentou dar mais unidade ao programa, gravando mais externas e juntando um quadro no outro, para criar certa continuidade. Lacet, acostumado a produzir grandes musicais, aumentou a participação de artistas da Globo nas trapalhadas de cada domingo. Tavares repetiu a ideia de aumentar a espontaneidade do quarteto ao fazê-lo interagir ao vivo com a plateia do Teatro Fênix. No ϐinal das contas, as alterações foram irrelevantes, uma vez que a velha fórmula dos esquetes eram de fato o que marcava todas as fases do programa.
Na contagem de entradas e saídas da equipe, a maior baixa do período foi a discreta saída do redator Carlos Alberto de Nóbrega rumo à TVS, onde realizaria, em 1987, o sonho de tocar uma nova versão de "A Praça da Alegria", batizada de "A Praça É Nossa". Já a adição mais valiosa da trupe não foi nada discreta. Fazendo uma ponta no quadro da Escolinha do Quartel do Sargento Pincel como Divino, um primo mais novo "e muito macho" de Mussum, surgia a inigualável ϐigura de Jorge Lafond. Com 76 quilos distribuídos em 1,93m de altura, o ex-bailarino do "Fantástico" apareceu com destaque para o grande público com um papel na novela "Sassaricando", também da Globo, e, ainda iniciando sua carreira de ator, roubava a cena sempre que participava de qualquer quadro de "Os Trapalhões" ou do "Viva o Gordo", de Jô Soares. Sua entrada foi um raro exemplo de humor mais adulto dentro das histórias bastante infantilizadas de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. Logo em sua primeira aparição, por exemplo, acontece uma brincadeira imperceptível às crianças, mas bastante maliciosa. Quando o professor da escolinha pergunta sobre a temperatura em que a água ferve, Dedé, fazendo o tipo do aluno sabe-tudo, insiste em dizer que a resposta certa é 90 graus centígrados, dando a deixa para Mussum fazer a piada: "A 90 graus você só ferve o ângulo reto". O professor, então, transfere a pergunta para o personagem de Jorge Lafond, mas antes, Didi comenta com os colegas: "Olha só… falaram de reto e ele foi perguntar logo para quem".
Lafond à parte, o programa vivia das mesmas piadas de sempre e parecia atravessar uma fase de acomodação apesar das trocas de diretor. Algo fácil de ser explicado quando se analisa a vida dos quatro principais artistas do programa. Renato Aragão andava mais atarefado do que o comum com a implementação da nova identidade do grupo, enquanto Dedé, Mussum e Zacarias apertavam-se ao máximo para fazer o maior número de shows possível. Nessa época, aliás, o mangueirense descobriu e foi descoberto pelas agências de propaganda. Mesmo separado de seus colegas de palco, conseguia passar uma imagem bemhumorada perfeita para vender qualquer tipo de produto, para clientes pequenos ou grandes. Ironicamente, três dessas campanhas usavam Mussum sem saber que, na vida real, o comediante seria um péssimo garoto-propaganda para seus produtos. Em um anúncio da Caixa Econômica Federal, o mangueirense aparecia confortável, sentado com roupas comuns em uma sala de estar, assistindo ao videotape do último desfile da sua escola do coração e depois aconselhava:
— Tem duas coisas que eu trato com muito carinho: as minhas baianas e a aplicação do meu dinheiro. Esse tira daqui, corre para lá, só atrapalha. Eu quero segurança e um bom rendimento. Perder dinheiro não é engraçado. Com a Caixa, a minha poupança rende bem e eu ϐico inteiramente tran-qui-lo.
Para destacar a pron úncia certa da palavra que falou errado pela carreira toda, soava uma cuíca e Mussum dava sua piscada tradicional. Quem assistia aquilo, jamais imaginava a situação caótica das contas bancárias do cidadão Antônio Carlos Bernardes Gomes. Também seria impossível para o consumidor normal duvidar da palavra de Mussum nos anúncios do Construcenter Terraço, em que dizia que o mais importante nas obras e reformas era economizar ao máximo com material de construção. Enquanto aparecia de macacão de pedreiro e bonezinho com a marca do contratante, possivelmente sua casa em Jacarepaguá estava passando por mais uma reforma para instalação de uma banheira ou a ampliação de algum cômodo. Reforma era com ele mesmo, economia, não.
Mais um comercial marcante dessa época foi para o complexo vitamínico Epatovis B12. Vendido em cápsulas e em xarope, o medicamento era oferecido como solução para quem quisesse beber muito e comer ainda mais – sem nunca detonar o ϐígado. Suas propagandas mostravam cenas de altas comilanças e bebedeiras seguidas da promessa de que "com Epatovis seu fígado será eternamente feliz". Para o lançamento da nova versão do medicamento, com alcachofra na fórmula, Mussum foi contratado para dar o recado interpretando, ao mesmo tempo, o sambista e o personagem. Enquanto comia acarajés feito um desesperado e bebia copos de cerveja seguidos, sem tirar a mão da garrafa, cantava o bem-humorado jingle em ritmo de pagode em meio a baianas e escadarias soteropolitanas: "Uma comadre muito esperta me ensinou uma descoberta, que me deixou feliz / Quando agora o meu fígado diz: 'Epa!' / Eu digo: 'Epa é o cacildis. É Epatovizis!".
Ao que consta, Mussum jamais precisou de remédios para encarar a maratona de comidas pesadas e longas horas de bebedeira nos botecos. Aos 46 anos, tinha uma saúde perfeita e sua única preocupação era mesmo com o aumento de peso. Nas férias, começava algumas dietas à base de chás e carnes magras, mas logo voltava à rotina de muito trabalho, muito samba e, consequentemente, muito rango e muito mé. Seu ritmo não diminuía, e o cidadão normal que tentasse acompanhá-lo não seria salvo nem por um litro de Epatovis.
Ainda falando de negócios, vale a pena destacar o processo de branding dos Trapalhões resultou em um sucesso maior do que as expectativas, atraindo parcerias milionárias para o grupo e fazendo a festa da molecada com mais de cem itens licenciados. Geralmente os produtos com a marca da trupe vinham acompanhados de brindes exclusivos, transformando objetos ordinários em cobiçados sonhos de consumo. O maior exemplo dessa estratégia foi a Conguinha dos Trapalhões, um calçado infantil fabricado pela Alpargatas e divulgado nos ϐilmes e programas do grupo. Vendida em uma embalagem de plástico que imitava uma caixa de ferramentas, a botinha trazia o desenho dos personagens na sua lateral, o formato de porcas no solado e dava como brinde uma miniatura de chave inglesa que servia como chaveiro. Foi uma febre, assim como os minigibis de 5 por 7 centímetros encartados nas embalagens do iogurte com polpa de fruta da Danone e as gomas de mascar que vinham com adesivos do tipo transfer e um porta-chicletes para aϐivelar na cintura. Mesmo quando o produto não apelava para um desses artiϐícios, suas vendas aumentavam consideravelmente apenas por ter a nova imagem dos humoristas estampada. Funcionou assim com produtos mais baratos, como as lancheiras e garraϐinhas térmicas da Aladdin, o estojo Leva Tudo feito em jeans da marca US Top, o salgadinho Skiny, os adesivos de superϐície Udigrudi e o minipiano da Tec Toy, assim como com itens mais elaborados, como o kit com pratos, guardanapos e chapeuzinhos para festas de aniversário e o conjunto de decoração com fronha, cortina, colcha e lençol. Os bonecos de borracha feitos pela Brinquedos Mimo, mesma fabricante das bonecas da Xuxa, foram outros campeões de vendas instantâneos.
Os novos desenhos dos trapalhões viraram até samba, ou melhor, foram transformados em enormes alegorias no desϐile da Unidos do Cabuçu, escola recém-admitida no grupo de elite do carnaval carioca que chamava a atenção por escolher personalidades atuais para homenagear em seus sambas-enredo. Em 1987, o homenageado foi Roberto Carlos e, segundo a direção da agremiação, o cantor sugeriu que os trapalhões fossem o tema do próximo desϐile. Seguindo a ordem do Rei, Renato, Dedé, Mussum e Zacarias aceitaram o convite e ajudaram a Cabuçu a transformar suas trajetórias de vida no enredo "O Mundo Mágico dos Trapalhões". Participando ativamente do dia a dia da escola do bairro do Lins, inclusive frequentando os ensaios na sede entre os morros do Amor, do Barro Preto e do Barro Vermelho, Mussum sentia-se em casa. Andar pelas ruas do Engenho Novo, onde fora criado, proporcionava reencontros com antigos amigos e mais uma oportunidade de contato com suas raízes. Os trapalhões ajudaram até na criação da letra do samba-enredo, composto pelo trio Adilson Gavião, Adalto Magalha e Sérgio Magnata, este último carteiro, além de compositor. A música falaria das origens de cada integrante do grupo, evocando momentos da carreira no cinema e exaltando trabalhos de caridade como o Criança Esperança: "Hoje a tristeza não vai mais atrapalhar / Quero festa em todos os corações / Pois a minha escola o povo vai contagiar / Com a alegria dos Trapalhões". O refrão destacava igualmente os quatro palhaços: "Didi, Dedé, Mussum e Zacarias / Seu mundo é de encanto e magia".
No desϐile de 1988, a Sociedade Esportiva Recreativa Escola de Samba Unidos do Cabuçu foi a quarta escola a pisar na avenida na noite da segunda-feira e apresentou seus 3.800 componentes divididos em 43 alas e 14 carros alegóricos. A comissão de frente da azul e branco trouxe um grupo de mágicos e depois en ϐileirou carros com os bonecos dos trapalhões entre as alas temáticas. Didi foi representado por uma imitação de super-homem, entre foliões que usavam fantasias com referências a Charles Chaplin e Oscarito; Dedé foi homenageado com alegorias que lembravam os picadeiros de um circo; e a parte da escola destinada a enaltecer Zacarias mostrava o boneco do trapalhão pescando em Sete Lagoas, com Luma de Oliveira como destaque do carro. Havia ainda referências a O Rei e os Trapalhões, Os Trapalhões e o Mágico de Oróz e Os Saltimbancos Trapalhões. No carro alegórico dedicado a Mussum, trazendo Dona Neuma como destaque, o personagem aparecia deitado em frente a um barraco, abraçado a um garrafão de mé, como se estivesse bêbado. As alas que o acompanhavam vestiam fantasias com as cores da Mangueira, mas, claro, apesar do verde e do rosa, não dava para comparar a batida da Unidos do Cabuçu com a da Estação Primeira.
Os homenageados foram colocados juntos do sexto carro, chamado Mestres do Sorriso, vestindo uma versão mais brilhosa do ϐigurino já usado nos shows, macacões brancos, camisetas e bonés com óculos de proteção por cima, mas des ϐilaram no chão. Eles estavam cercados de familiares e celebridades como Boni, Gugu, Guilherme Karan, Fafy Siqueira e Tião Macalé, e reagiram de forma diferente ao contato com o público na avenida. Renato não se aguentava de emoção e chorava o tempo todo, tendo que sentar na beirada do carro alegórico para se recompor. Dedé e Zacarias acenavam felizes, mas também estavam visivelmente emocionados. Já Mussum, experiente em desϐiles, parecia desesperado com os óbvios problemas de harmonia e evolução da Unidos do Cabuçu. Acostumado com a competitividade da Mangueira, aquilo era mais irritante do que emocionante. Até porque sua grande expectativa estava em cima do último desϐile daquela segunda-feira, quando a Estação Primeira tentaria o tricampeonato com o samba-enredo "100 Anos de Liberdade: realidade ou ilusão?", uma crítica comemoração ao centenário da abolição da escravidão no Brasil. Em tom de denúncia pela desigualdade social e racial, a verde e rosa fez todo mundo cantar "Será que já raiou a liberdade? / Ou se foi tudo ilusão / Será que a lei Áurea tão sonhada, há tanto tempo imaginada, não foi o ϐim da escravidão? / Hoje dentro da realidade, onde está a liberdade? / Onde está que ninguém viu?"
Mussum teve três desϐiles de intervalo para descansar e sair do incômodo papel de homenageado para a sua confortável posição de diretor de harmonia da ala das baianas. Entrou feliz e animado ao lado dos outros 5.300 componentes da Mangueira e deu conta do recado como sempre. Mesmo com sua agenda lotada, costumava gravar os ensaios da escola em ϐitas cassete para ouvi-las no carro seguidas vezes, até decorar a letra e a marcação da bateria. Durante as viagens pelo interior do Brasil para fazer shows com Os Trapalhões, o toca-fitas do seu Opala Diplomata não tocava outra coisa. Dos dois lados, o cassete trazia a mesma gravação, era como um ensaio à distância. Só faltava o mé e a mulherada em volta.
Na avenida, a Mangueira fez bonito mais uma vez, apesar da ausência do puxador Jamelão; a escola evoluiu com graça e acertou em cheio com a letra de seu samba-enredo. As arquibancadas da Marqu ês de Sapucaí cantavam sem parar o refrão "O negro samba / Negro joga capoeira / Ele é o rei na verde e rosa da Mangueira". Mas, dessa vez, o bom desempenho não garantiu o título de campeã do carnaval. Se no ano anterior a glória tinha sido conquistada por 1 ponto de diferença, em
1988 foi por essa mesma diferença que o título escapou. A Unidos de Vila Isabel fez um surpreendente desϐile com o enredo "Kizomba, a festa da raça" e acabou vencendo a disputa com 224 pontos, contra 223 pontos da Mangueira, fato que causou correria e briga durante a apuração das notas. A Unidos do Cabuçu, por sua vez, não foi lá muito bem. Apesar de pegar a popularidade dos trapalhões emprestada, a escola ϐicou com o 13º lugar, com 188 pontos, o suϐiciente apenas para escapar do rebaixamento.
Embora tenha sido uma bela homenagem e os aplausos das mais de 60 mil pessoas presentes tenha sido consagrador, o maior show que os trapalhões fariam naquele ano ainda estava por vir. Depois de uma disputa ferrenha nos bastidores com a Coca-Cola, patrocinadora presente em vários dos ϐilmes do grupo, a Pepsi fechou um acordo milionário com a R.A Produções, incluindo uma grande parceria para produzir shows, produtos, brindes e comerciais, fazendo dos quatro palhaços os embaixadores da marca no Brasil.
Dentro do plano de marketing da multinacional, a peça mais vistosa foi a promoção dos copos colecionáveis. Com maciça divulgação na mídia impressa e eletrônica, a ação convidava a molecada a juntar quatro tampinhas de garrafas de 1 litro do refrigerante ou oito tampinhas de garrafas médias, mais Cz$ 10, para trocá-las por copos plásticos com as versões cartum dos trapalhões. Quem tivesse mais paciência juntava mais dinheiro e tampinhas para trocar por um dos pôsteres autografados pelos Trapalhões. O tema das quatro peças era música, com o quarteto aparecendo travestido de componentes de uma orquestra, de grupo de forró, de fanfarra militar e de conjunto de glam rock, bem ao estilo poser dos anos 1980 – com Mussum de peruca black power. Além disso, os consumidores de Pepsi com mais sorte poderiam ganhar, com uma só tampinha premiada, mochilas, barracas, walkmans ou bicicletas.
A divulgação da marca pelos trapalhões também passou a ser feita por meio de uma turnê de shows grandiosos. Repetindo a bem-sucedida fórmula de mesclar piadas, brincadeiras com o público e musicais, as apresentações tinham como momento máximo uma paródia da campanha "The Choose of the New Generation", no Brasil "A Escolha da Nova Geração". A série de propagandas fez história no mundo da publicidade por contratar todos os maiores astros da cultura pop oitentista de uma só vez, transformando estrelas do brilho de Michael Jackson, Michael J. Fox, Madonna, David Bowie, Tina Turner e Lionel Ritchie em garotos-propaganda. Nos shows dos Trapalhões, a versão tupiniquim da campanha era feita com cada um dos palhaços imitando um dos pop stars no palco. Didi era transmutado em Michael Jackson, Zacarias fazia Madonna, Dedé brincava de Lionel Ritchie. E, para fechar, Mussum quebrava tudo, de vestido curto e peruca loira, cantando e rebolando como Tina Turner. Nem os seguranças conseguiam ϐicar sérios com a performance.
O show da Pepsi estreou para um público de 125 mil pessoas no Maracanãzinho e depois partiu para uma temporada de lotação esgotada em um circo montado na Avenida Alvorada, na Barra da Tijuca (atual Avenida Ayrton Senna). A trupe fez três sessões por dia nos ϐinais de semana entre abril e junho de 1988, e depois partiu para uma excursão que passou por São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Goiânia, Brasília, Fortaleza e outras cidades próximas destas capitais. A estrutura do show, composta por três cenários, iluminação especial, pirotecnia, corpo de balé e vários ϐigurinos, viajava em um caminhão próprio, com a marca da Pepsi ao lado dos desenhos dos trapalhõezinhos. A reação das crianças ao ver as carretas chegando a cada destino era uma atração à parte. Dá
lhe shows lotados, de norte a sul, e até fora do país.
Com ajuda da patrocinadora, entre agosto e setembro, a turnê dos comediantes levantou voo e realizou shows nos Estados Unidos, no Canadá, em Portugal e em Angola. Não foi preciso traduzir os textos das apresentações ou dar um curso de inglês intensivo para Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. As apresentações na América do Norte eram destinadas às colônias brasileiras de Nova York, Massachusetts, Washington e Toronto, e foram mais importantes para o guarda-roupa dos artistas do que para as suas carreiras. Após essa excursão era comum ver os personagens na TV usando moletons coloridos e camisetas com estampas que faziam referências a cidades e times americanos. Na capa do LP "Os Trapalhões", de 1988, por exemplo, Mussum aparece com uma camisa verde do time de futebol americano New York Jets e Didi está vestindo uma camiseta do time de beisebol Angels, de Los Angeles.
Nos shows em Lisboa, obviamente, também não foi preciso tradução; e em Luanda, bem, em Luanda não seria preciso nem abrir a boca para fazer o público delirar com a presença dos ídolos. Independente como nação apenas em 1975, a ex-colônia portuguesa mantinha um intercâmbio cultural intenso com o Brasil e "Os Trapalhões" era um dos programas mais populares da TV angolana. O humor inocente e predominantemente ϐísico dos quatro palhaços falava uma linguagem universal, assim como "Os Três Patetas" e "O Gordo e o Magro", mas, no país da costa ocidental da África, o grande trunfo dos trapalhões era a presença de um negro no grupo. Mussum era disparado o personagem mais popular do quarteto e não fazia ideia disso quando desembarcou na capital africana. Sabendo da visita de seus ídolos, os fãs invadiram a pista de pouso do aeroporto para levar os trapalhões carregados nos ombros, como se fossem jogadores de futebol trazendo uma Copa do Mundo inédita para o país. A surpresa com o carinho não evitou brincadeiras de Renato com Mussum. Enquanto cada integrante do grupo caía nos braços da galera, o cearense gritava:
— Pinta o Mussum de branco senão vamos perder ele! Pinta nosso negão senão vamos perder ele no meio dos outros mussuns!
Levando as brincadeiras racistas sempre na esportiva, o próprio Mussum contava aos amigos que a chegada em Luanda havia sido impressionante. Segundo ele, o mar de gente parecia "uma sopa de berinjela". Depois da chegada, o assédio continuou intenso, com os trapalhões sendo seguidos por dezenas de pessoas onde quer que fossem, mas, mais do que o carinho, o que saltava aos olhos mesmo era miséria. Madureira parecia Mônaco se comparada às ruas maltratadas pelas guerras civis do país africano. Apesar de todo o carinho recebido, a parte mais gostosa da viagem foi voltar para casa, ou melhor, para o trabalho no Brasil.
No meio de todas essas viagens com a turnê da Pepsi e com uma agenda mais apertada do que o normal para adiantar as gravações do programa de TV, e assim manter a atração com episódios inéditos na telinha enquanto excursionavam, os trapalhões mantiveram o pé no acelerador e conseguiram colocar dois ϐilmes em cartaz em 1988. Em junho, estreou Os Heróis Trapalhões – Uma Aventura na Selva , uma trama bobinha, novamente apostando em celebridades do momento, como a apresentadora Angélica e a modelo Luma de Oliveira, e nos garotos do Dominó para alavancar a popularidade da ϐita entre o público juvenil. Filmada às pressas, em uma produção que durou cerca de cinco semanas e resultou em uma ϐita de 88 minutos, a história que se passava nas profundezas da Amazônia foi ambientada, na verdade, na Floresta da Tijuca e nos estúdios da R.A. Produções. Caprichados mesmo foram os efeitos especiais, com Renato Aragão voando feito Superman e movimentando pedras e outros objetos com a força da mente, ao estilo Jedi. Dedé, Mussum e Zacarias ϐizeram papéis pequenos, como em uma extensão do programa de TV, mas nem se importaram.
Mal nas bilheterias, com menos de 1 milhão de espectadores, o apressado Os Heróis Trapalhões só serviu mesmo para o grupo testar e aprovar um novo diretor, José Alvarenga Jr. Até então trabalhando em ϐilmes publicitários e atuando como assistente de J.B. Tanko, o rapaz de
27 anos era ϐilho de um antigo diretor de comédias da Atlântida que já havia trabalhado com Oscarito e, portanto, tinha as chanchadas no DNA. A partir do ϐilme, que assinou ao lado de Wilton Franco, ele seria o responsável pela direção de vários outros projetos cinematográϐicos dos trapalhões. O que signiϐica dizer que, ainda em 1988, ele voltaria a lançar um longa-metragem, O Casamento dos Trapalhões.
Lançado em dezembro, o ϐilme traz logo em sua abertura uma cena que reϐlete a nova pegada do marketing do grupo, trazendo a versão animada – e foϐinha – dos trapalhões em um product placement aos 18 segundos de ϐita. A propaganda merecedora de um troféu mundial de aparição mais rápida de comercial, se esse troféu existisse, mostra as caricaturas dos personagens usando a conguinha dos trapalhões em várias situações. Durante o ϐilme, é claro, também é possível notar sem muito esforço a aparição de outras marcas que ajudaram a bancar a produção. Logotipos da Pepsi, da Osram, da Viação Gato Preto e de Beto Carrero aparecem aqui ou ali durante a história. Mas nenhuma propaganda superou a da Royal no tempo de intromissão da história e na bizarrice. Numa cena feliz, em que os personagens estão passeando romanticamente com seus pares pela feira de uma festa de rodeio, a namorada do personagem de Marcelo, do Dominó, reclama do calor, e ele, então, propõe que eles comam uma taça de gelatina. Não bastasse a forçada de barra para a entrada do produto, o casal é interrompido enquanto escolhe entre os diversos sabores disponíveis. Sem nenhuma explicação, um boneco do Bocão passa a mão na bunda da namorada de Marcelo! E a cena termina com ela dando um beijo no nariz da mascote.
Além dos integrantes da boy band, o ϐilme contou mais uma vez com a participação de Gugu Liberato – a essa altura fazendo grande sucesso com o programa "Sabadão Sertanejo", onde pegava carona na gigantesca popularidade de duplas como Zezé di Camargo e Luciano e Leandro e Leonardo. O roteiro de O Casamento dos Trapalhões , como de costume, tem seus furos e incoerências. O mais aparente é que, na história, Didi, Dedé, Mussum e Zacarias são irmãos "do mesmo pai e da mesma mãe", mas em nenhum momento é explicado por que eles são tão diferentes. Expedito, o vilão da história interpretado por José de Abreu, também não tem muita razão de ser. Ele vive vagabundeando pela cidade, ouvindo seu walkman, e ϐica com raiva de Didi apenas por ele ser "caipira". Na cena ϐinal, Expedito junta capangas e quase mata os trapalhões com tiros na cabeça. Apesar de trazer boa parte dos defeitos de sempre, o ϐilme explora mais a ligação de Mussum com o mé, mostrando sem preocupação as beiçadas do personagem direto nos gargalos das garrafas de cachaça. Cada trapalhão tem uma função em uma fazenda, e o mangueirense cuida de uma "plantação de mé", com garrafas de pinga de vários formatos e tamanhos, cuidadas como se fossem animais de estimação. Em uma cena impagável, no ponto mais baixo do arco do roteiro, quando os trapalhões estão separados de suas namoradas, Mussa choraminga as dores de seu coração solitário dizendo:
— Eu não aguento essa solidãozis. Estou apaixonadis e estou solitaris. Meu Deus! Meu coração está em chamis! Meu coração está pegando foguis!
Com uma divulgação acertada, ao contrário de Os Heróis Trapalhões , O Casamento dos Trapalhões foi bem nas bilheterias, arrastando 4.779 espectadores aos cinemas – quase o dobro do ϐilme vice-campeão no Brasil, Super Xuxa Contra Baixo Astral . Foi um desfecho excelente para toda a correria de 1988, um dos anos mais prolixos e lucrativos do grupo, mas também um dos anos mais pesados de trabalho. Renato Aragão passou o período de festas sem poder chegar perto das bebidas alcoólicas e das guloseimas natalinas por causa de uma úlcera estomacal; Dedé andava com problemas em seu casamento; Zacarias havia ganhado muito peso e sentia-se esgotado, cogitando inclusive sua aposentadoria; e até o tranquilis Mussum tinha notado uma proliferação de cabelos brancos em sua cabeça. O sucesso cobrava seu preço.
36. Jornal do Brasil, 09/02/1987.
37. Jornal do Brasil, 25/06/1987.