Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões
Capítulo 2
SAMBA EM CÓDIGO MORSE (1960)
"Se feitiço ajudasse goleiris, campeonato baiano não tinha artilheiris".
Afase pacata, vivendo como mecânico durante o dia e como sambista
boêmio à noite, estava prestes a acabar. Mussum já estava perto de completar 18 anos e, in ϐluenciado pelo cumpadi Nilton, na época feliz da vida por servir na Base Aérea de Santa Cruz há três anos, decidiu se alistar na Aeronáutica. Fazer parte da Força Aérea Brasileira rendia status, um bom salário e a possibilidade de desenvolver uma carreira, além de comida, estudo e moradia gratuitos – presente e futuro muito melhores do que viver sujo de graxa numa o ϐicina. Mas esse pacote de bene ϐícios não era para qualquer um. A FAB era a mais exigente das forças armadas e selecionava para as suas ϐileiras apenas candidatos com bom porte ϐísico e estudos completos. Os analfabetos que fossem sujar o pé de lama no Exército. No final de sua puberdade, Antônio Carlos Bernardes Gomes não chegava a ser um modelo de força, mas tinha boa saúde e contava a seu favor com a formação pela Fundação Abrigo Cristo Redentor, praticamente uma escola preparatória para militares. Também ajudaram as dicas do melhor amigo, que ensinou os atalhos para passar pelo draft impressionando os militares. Assim, Mussum foi convocado como recruta do prestigioso Terceiro Comando Aéreo Regional, na Base Aérea de Santos Dumont, pertinho do aeroporto. Na ϐicha cadastral constava o seguinte: altura: 1,71 cm; cabelo: carapinha; barba e bigodes: raspados; cor: preto.
Logo de cara, o garoto magro e alto cativou seus colegas com a malandragem do morro e chamou a atenção dos superiores pela sua disciplina. Para quem havia passado três longos anos no colégio interno, os horários e rituais do quartel não eram novidade. Além disso, a cada reapresentação, a farda azul do recruta aparecia impecavelmente lavada, passada e engomada. Dona Malvina não cabia em si de tanto orgulho e caprichava no trato das roupas do ϐilho, que, por sua vez, lembrava-se dos tempos de engraxate na infância e deixava os coturnos sempre brilhando. Somado aos elogios no quartel pelo aprumo nas vestimentas, o cuidado com o uniforme rendia cumprimentos respeitosos dos homens e olhares diferentes da mulherada encontrada pelo caminho entre São Francisco Xavier e o III Comar. Mussum logo sacou que as vantagens de ser milico podiam ir além de receber um soldo no ϐinal do mês – a partir daí, era raro ver o recruta sem sua farda completa.
A adaptação rápida não foi apenas no visual. Aconteceu na Base Aérea o mesmo fenômeno ocorrido em Mangueira: com suas piadas e o jeito sempre humilde e malandro, Mussum rapidamente tornou-se popular. Levou para dentro da vida militar o costume de cumprimentar todo mundo que encontrava e depois, incrivelmente, lembrar de detalhes de conversas, mesmo breves, tidas com os colegas. Embora ϐicasse mais preso ao trabalho interno de almoxarife e aos treinamentos restritos aos recém-alistados, Antônio Carlos sempre dava um jeito de puxar conversa e aumentar sua rede de conhecidos nos intervalos dos jogos de futebol do campeonato interno, durante as aulas de defesa pessoal ou na hora do rancho no refeitório, os momentos em que militares de todas as patentes conviviam no mesmo espaço e horário independentemente do setor e da função. Como nessa fase inicial o recruta tinha folgas raríssimas, apenas a cada quinze ou vinte dias, sobrava tempo para contar piadas, colocar apelidos nos colegas e até tocar bateria no curso de teoria musical.
A popularidade quase instantânea não impediria que o novato fosse alvo de gozações. O jeito cheio de ginga do mangueirense andar inspirou o jocoso apelido de Pé de Rodo. Por ter os pés grandes, de número 44 de bico largo, e a pisada supinada, ou apenas por ter desenvolvido uma espécie de tique, Mussum sempre andou fazendo um movimento de chute de chapa com seu pé direito, girando levemente o calcanhar para a frente. Os soldados mais antigos perceberam a mania e começaram a tirar sarro. Para desespero do recruta, o ato era involuntário e nem os calçados de solado duro e cano alto da Aeronáutica conseguiam esconder os passos abertos. Foi talvez o primeiro apelido indesejado que Antônio Carlos ganhara na vida, mas não seria o último.
Dedicado aos estudos e treinamentos da Aeronáutica, Mussum completou seu primeiro ano de carreira militar, em fevereiro de 1960, com a notícia de ter sido considerado apto a uma promoção. Foi inscrito na Companhia de Polícia do Quartel General da Terceira Zona Aérea como Soldado de Segunda Classe (S2), e decidiu gastar seu futuro salário com uma boa farra no puteiro. Não foi apenas pela ocasião especial. Com os hormônios da adolescência percorrendo suas veias, Mussum aguardava ansiosamente as folgas para visitar a Praça Tiradentes, no centro do Rio, e se perder na vida noturna de suas boates, bares e zonas.
Quando o passeio era aos sábados, vestia-se com seu único paletó para poder entrar nos tradicionais bailes de gaϐieira do Elite e da Estudantina. Bebia um drink chamado de Traçado, mistura de pinga com alguma outra bebida amarga como Jurubeba, Cynar ou Vermute, batidas de limão e de maracujá, conhaque, cachaças Pitú e Prainha, e depois dançava a noite toda até arrumar uma parceira que quisesse um pouco mais do que deslizar para lá e para cá no salão. Quando conseguia escapar logo na sexta-feira, o destino imediato era a zona do meretrício no centrão, e o traje era sua farda de soldado. Além de evitar problemas, como assaltos ou brigas, o brasão da FAB ajudava a conseguir descontos no preço dos serviços e alguns mimos das moças – embora não usassem preservativo normalmente, as prostitutas da época cobravam mais caro para tirar toda a roupa ou para mostrar os seios no ato do coito. Ser militar garantia um bom argumento na hora da negociação desses benefícios extras.
Nessa mesma época, também nas cercanias da Praça Tiradentes, Mussum passou a ir seguidamente ao Clube dos Baianos, um bar simples, frequentado por prostitutas e boêmios da classe trabalhadora. A diferença é que por lá ele era atração e não apenas cliente. Fã de samba, o dono do estabelecimento abria espaço para que músicos de diversos morros e escolas usassem o bar como ponto de encontro, para ensaios e rodas de samba improvisadas nos ϐinais de semana – sem cobrar nenhum cachê para tocar. Nessas reuniões, cresceu a proximidade entre Mussum e Jonas Silva, exímio pandeirista, cantor e passista de destaque nos desϐiles da Mangueira. E, por meio de Jonas, foram sendo criadas outras dezenas de amizades essenciais para a formação musical de Carlinhos do Reco-Reco. A turma mais numerosa vinha do Salgueiro, mas não faltava gente de outros cantos dos subúrbios cariocas, tocando, conversando e bebendo no Clube dos Baianos. A ϐigura mais importante para os rumos desta história, por exemplo, tinha no coração as cores de uma escola bem menos conhecida, a União da Piedade.
A agremiação que levava o nome de seu bairro de criação, entre Madureira e o Méier, frequentava o segundo escalão do carnaval carioca, o grupo 2. Algo que iria mudar em breve se dependesse apenas da força de vontade de Zé Luís. O tocador de tamborim não media esforços para ajudar na sobrevivência de sua escola preferida e descobriu uma veia de empreendedorismo quando, para salvar um des ϐile no ϐinal dos anos 1950, conseguiu ϐinanciamento para fantasias e instrumentos, fazendo uma permuta com o departamento de propaganda de uma re ϐinaria. Em troca do dinheiro, reuniu os amigos ritmistas e as cabrochas da área para gravar um jingle comercial. A partir daí, a vocação para transformar a batida do samba em cruzeiros no bolso virou pro ϐissão, e a presença de Zé Luís nos pagodes dos bares e das favelas já não tinha só a ver com diversão e música. O radar do tamborinista sempre estava ligado para cavar convites para fazer shows em boates, tocar em blocos ou participar de gravações como músico de aluguel. E foi assim, nessa constante busca por oportunidades de trabalho, que Zé Luís ϐicou sabendo que o produtor Carlos Machado estava contratando sambistas para formar uma Caravana Cultural.
A essa altura, Machado não ocupava mais o espalhafatoso posto de maestro do Cassino da Urca. Sem rivais comparáveis, ele era, sem qualquer dúvida, o nome mais importante da noite carioca. Descrevia a si mesmo com uma lista de funções e adjetivos mais ou menos assim: galanteador, descobridor de mulheres bonitas e talentosas, desportista, bailarino, maestro, jornalista, dono de restaurantes e boates, militar, notívago, jogador inveterado, mulherengo incorrigível, produtor e diretor de musicais e pai amantíssimo.
Essa escalada começou em 1946, quando o general Eurico Gaspar Dutra, então presidente da República, decretou o fechamento dos cassinos sob o argumento de que "a tradição moral, jurídica e religiosa do povo brasileiro é contrária à exploração dos jogos de azar". Machado então reinventou a diversão noturna, montando luxuosas casas de shows inspiradas em seus anos de farra nos cabarés franceses e nos grandes musicais americanos. Sempre contando com Grande Otelo como estrela e um elenco de vedetes espetaculares, o produtor conquistou a alta sociedade, os políticos e os gringos de passagem pelo Rio de Janeiro. Em 1953, montou o espetáculo "Esta vida é um carnaval", colocando de forma pioneira no palco da boate Night and Day os integrantes da Império Serrano e, assim, inaugurando o primeiro show de mulatas "para exportação", ideia que se tornaria uma mina transbordando ouro.
Por tudo isso, trabalhar com Machado seria um sonho para Zé Luís. O sambista de Piedade então tratou de juntar os melhores músicos que conhecia para participar de uma audição que selecionaria o elenco para a próxima temporada de shows. Seria uma oportunidade e tanto, uma vez que o produtor tinha uma agenda repleta de compromissos e precisava de artistas para tocar no luxuoso Golden Room, do Copacabana Palace, em apresentações na TV e no rádio e ainda fazer turnês nacionais e internacionais. Seria também uma prova diϐicílima, pois praticamente todos os sambistas da Guanabara tentariam uma vaga na trupe.
Para impressionar Machado, Zé Luís bolou um conjunto completo, com doze integrantes. Seriam cinco cabrochas e sete ritmistas, todos capazes de tocar, cantar e dançar ao mesmo tempo. A base do grupo seria formada pelo pessoal do Clube dos Baianos e as cabrochas viriam de Piedade. O tamborim principal ficaria sob responsabilidade do próprio Zé Luís e o segundo tamborim, dobrando o som, estaria na mão de Clóvis, do Salgueiro. Também da escola da Tijuca seria convocado Chiquinho para tocar agogô. Francisco de Souza Serra, o Chiquinho, tinha apenas 16 anos na época, mas descendia da mais nobre linhagem salgueirense. Era o ϐilho mais velho de Nair de Souza Serra e Iracy Serra, popularmente conhecidos como Dona Fia e Seu Ioiô, dois dos fundadores da Acadêmicos do Salgueiro, em 3 de março de 1953.
Para fazer a cuíca chorar, o escolhido foi Murilo da Penha Aparecida e Silva, de 27 anos. Chamado desde a infância de Bidi, por causa de sua baixa estatura, o sambista pertencia à ala dos compositores da Imperatriz Leopoldinense e sabia tocar todos os instrumentos. Também sabia cantar empostado e com a aϐinação tradicional das vozes masculinas do rádio, mas este talento não seria necessário, pois, na época, os músicos ϐicavam um passo atrás dos cantores durante os shows.
Para o pandeiro, Zé Luís convidou Jonas, que já tinha uma reputação como passista e sabia fazer acrobacias impressionantes, jogando o instrumento para cima e equilibrando-o com as pontas dos dedos enquanto sambava freneticamente. O mangueirense aceitou o convite com a condição de que o Carlinhos do Reco-Reco também tivesse uma chance. Além de ser bom passista e ter um jeito próprio para tocar, o moleque de 18 anos estava louco para fazer um dinheirinho extra. A situação de sua família estava longe de ser confortável, e o salário da Aeronáutica, apesar de não ser ruim, não era o su ϐiciente para livr á-lo de morar junto de Dona Malvina, Nancy e seus dois sobrinhos no diminuto cômodo da cabeça de porco. E isso era o su ϐiciente para Carlinhos da Mangueira pedir uma chance de renda extra. No ϐinal das contas, como seu instrumento não era o mais disputado entre os músicos, foi aceito no grupo que faria a audição por conta de seu talento como passista.
O dia do teste com Carlos Machado estava chegando e ainda faltava um integrante para o grupo. Foi assim, na base da pressa, que foi escolhido o surdista Rubens Fernandes. Rubão, como era conhecido o negro alto e forte do Engenho de Dentro, era goleiro pro ϐissional e ϐlertava seriamente com a aposentadoria – apesar de ter apenas 26 anos. Começou a carreira no Bonsucesso Futebol Clube, onde chegou a ser reserva de Barbosa, aquele mesmo do Maracanazo da Copa de 1950, no time pro ϐissional. Sem chances como titular no Rio de Janeiro, transferiuse para o Fluminense de Feira de Santana, na Bahia, time do qual seria dispensado menos de um ano depois. Mais tarde, o ritmista lembraria dessa fase como a época em que "nada dava certo porque nada dava certo mesmo". Como estava desempregado e sem vontade de insistir na carreira de jogador, o convite de última hora de alguns amigos para fazer o teste como surdista chegava em uma hora bastante oportuna. A ϐinal, além de boleiro, Rubão tinha uma vida de sambista, quando desϐilava no bloco carnavalesco Mocidade do Arranco.
Com a formação completa, faltava o nome. Zé Luís então usou como inspiração a juventude da turma, todos mais ou menos iniciantes, para batizar o conjunto de Os Modernos do Samba. Até que foi uma escolha criativa, uma vez que os grupos de passistas começavam a ϐicar na moda, pipocando em várias comunidades, em conjuntos como Elegantes do Samba, Garotos de Ouro, Fidalgos do Samba, Bacharéis do Ritmo e Intocáveis do Samba. Com o nome de ϐinido, era preciso correr. Faltavam menos de duas semanas para a audição com Carlos Machado e, embora ninguém ali fosse completamente estranho aos colegas, haveria pouco tempo para ensaiar coreografias e harmonias.
Mussum nem fazia ideia de quem era Carlos Machado, mas foi descobrir do jeito mais arriscado possível. Antes mesmo de chegar a vez dos Modernos do Samba mostrarem seu batuque e seus passos, o genioso Machado estava com o saco mais cheio do que o normal. O veterano intérprete e compositor Monsueto havia levado vários grupos para mostrar ao produtor. Como não era militante de nenhuma escola de samba, o artista circulava por todos os morros e era extremamente popular em virtude de seus shows com Herivelto Martins e, mais tarde, com o grupo Monsueto e suas Pastoras. Anos depois, Mussum brincaria dizendo que "todos os crioulos do Rio de Janeiro" tocaram para Machado naquele dia. Talvez por isso, quando chegou a hora da turma de Zé Luís, Jonas e Carlinhos tocarem, o produtor fez apenas um meneio, e quase não se ouviu sua voz quando pigarreou um "podem começar". Estava enfastiado e achou que veria mais do mesmo, sua única reação antes de os Modernos começarem foi seu típico gesto de tragar o cigarro segurando-o entre os dedos da mão direita, com o braço dobrado e o cotovelo alto, na altura do ombro.
A apresentação do grupo de sambistas recém-formado, porém, possuía algo de especial, sim. O grupo, sempre sorrindo apesar do nervosismo, tinha uma química diferente e somava a qualidade rítmica aprendida nas baterias de suas escolas de samba com números ousados só feitos pelos passistas mais renomados. Até Rubão, o mais pesado, sabia sambar como mestre-sala, colocando o surdo de lado e falando no pé, brincando com as cabrochas com malícia. Jonas e Zé Luís também faziam bonito, aumentando e diminuindo a velocidade da batida do conjunto como bem queriam. Geralmente, os passistas se apresentavam na avenida em trios ou em dois casais. Era assim que faziam sucesso o Trio Magníϐico, o Trio Fluminense, o Trio Infernal e outros conjuntos de passistas. Zé Luís multiplicou a aposta e acabou dando certo.
No ϐinal da apresentação, Machado já cochichava com seu coreógrafo, perguntando-se onde aqueles moleques tinham aprendido a tocar e dançar daquele jeito. Aprovou na hora os sete Modernos e colocou os nomes de Zé Luís, Jonas, Clóvis, Bidi, Carlinhos, Chiquinho e Rubão na lista de seus próximos contratados. Não seria de imediato, no entanto, que o pessoal do Clube dos Baianos brilharia nos palcos internacionais ao lado das estrelas da companhia de Carlos Machado. Para conseguir manter vários shows e turnês rodando ao mesmo tempo, o produtor tinha times de músicos titulares e reservas. E as estrelas daquele momento pareciam insubstituíveis. Com Jonas Moura "O Rei do Frevo", o pandeirista Eliseu Felix, Ministro da Cuíca e o passista Bom Cabelo, Machado fazia enorme sucesso onde quer que fosse. Os novatos ainda teriam que sambar muito para chegar naquele nível.
Os primeiros trabalhos da trupe sob o comando do produtor, portanto, re ϐletiram esse status de iniciantes. Começaram se apresentando nos dias menos nobres da boate Night and Day, na Cinelândia, onde Machado era contratado como diretor artístico, e nos réveillons e gritos de carnaval de clubes como o Real Sociedade Clube Ginástico Português, o Clube Monte Líbano e o Sírio Libanês. Mais tarde, passaram a servir como embaixadores do samba em eventos diversos, como recepções e coquetéis em homenagem a ϐigurões da alta sociedade e celebridades, como a Miss Brasil Maria Olivia Rebouças Cavalcanti ou a cantora israelense Yaffa Yarkoni. Em visita ao Rio, Yaffa se encantou com os sambistas, imitou os movimentos dos passistas e empolgou-se com o som. Como homenagem, autografou os instrumentos dos sambistas, um mimo aceito por educação, afinal, ninguém sabia direito quem era ela.
Para Mussum, tocar com Os Modernos do Samba era apenas um bico divertido. Conseguia receber um dinheiro extra para fazer algo que, não fosse Zé Luís e Carlos Machado, estaria mesmo fazendo de graça pelas rodas de samba da Praça Tiradentes e ainda dava conta de evoluir na carreira militar. Em fevereiro de 1961, matriculou-se no Curso de Formação de Cabos e, mais tarde, no curso da subespecialidade de Datilógrafo Auxiliar. Foi aprovado em 13 de junho na nova patente e recebeu o diploma de datilógrafo pela Escola Remington. É provável que a facilidade de batucar tenha o ajudado a dominar as máquinas de escrever com mais rapidez que os colegas.
Enquanto evoluía na carreira formal, seu carisma no quartel só crescia e, mesmo tendo subido de posto, continuou brincando com os outros e, claro, sendo alvo das piadas alheias. Nem bem assumiu o novo cargo, ganhou outro apelido: Cabo Fumaça. Jocoso, mas melhor do que Pé de Rodo. Mal sabia que, décadas mais tarde, faria novamente um curso de formação de cabos, mas o professor seria o Sargento Pincel e seus colegas de classe seriam Didi, Dedé, Zacarias, Divino e o Cabo 07, um nojento.
A fase estava tão boa naquele começo dos anos 1960 que até a vida amorosa começou a se acertar. No casamento de um amigo, no bairro do Riachuelo, no Grande Méier, Mussum conheceria sua primeira mulher. O sambista, como de costume, foi para a cerimônia vestido com sua impecável farda da aeronáutica, passada e engomada por Dona Malvina. Na festa após a igreja, ϐicou de olho em uma negra bonita, que parecia conhecer todo mundo ali... menos ele. Tomou todas as bebidas que passavam nas bandejas dos garçons para ganhar coragem e apresentouse educadamente como Antônio Carlos. Logo nos primeiros minutos de conversa, espantou-se ao saber que aquela pequena tão bonita morava em Mangueira e ele nunca a tinha visto. Na mesma hora convidou-a para sair. A moça ϐicou encantada com o tipo atirado daquele moleque e aceitou o convite. Ele tinha 21, ela 26. Então, Leny de Castro Santos esperou para ver se aquela conversa de malandro seria apenas empolgação do momento ou se a coisa iria andar. E a coisa andou.
Na semana seguinte, Carlinhos apareceu em Mangueira e descobriu que Leny era nascida e criada na comunidade, defendendo o verde e o rosa na avenida desde criança junto das tias Raimunda, a primeira portabandeira da Estação Primeira, e Mocinha, ícone da escola de samba por carregar o estandarte mangueirense por 36 anos consecutivos. Melhor que isso, quando começaram a en ϐim sair para dar passeios e beijinhos, Mussum percebeu que Leny tinha o coração batucando na cadência do samba e o acompanharia bem, tanto no copo quanto no pé. A mãe de Leny tinha restrições ao namoro. Achava que a ϐilha, cinco anos mais velha que o namorado, não iria acompanhar o ritmo do molecão e pedia que Leny fosse com calma, não se envolvesse tanto. Não adiantou.
Os encontros começaram a ϐicar mais frequentes e o clima de romance crescia nas excursões para o litoral. Com muito partido-alto, cerveja, cana, espetinhos de camarão frito e o famoso frango com farofa, a turma de Mangueira alugava ônibus para passar dias maravilhosos à beira-mar. Foram inesquecíveis os piqueniques em Coroa Grande, Itaguaí, Itacuruçá, Muriqui e na Ilha de Paquetá. O romance entre Mussum e Leny só crescia, e a relação começou a ficar séria.
Nem o estilo boêmio de Carlinhos irritava a namorada. O sambista virou frequentador assíduo do lendário Zicartola, bar na Rua da Carioca aberto por Cartola e Dona Zica e instantaneamente escolhido como casa de boêmios e músicos com currículos lendários. O local servia a famosa feijoada da primeira-dama do samba e tinha um estoque in ϐinito de cerveja, atrativos mais do que suϐicientes para reunir a nata dos músicos do Rio de Janeiro. Quando não estava farreando ao lado dos bambas, Mussum ia muito ao Salgueiro, nas vendinhas de Seu Antônio Barateiro, Seu Lúcio e Dona Ana ou nas tradicionais rodas de jongo dos terreiros de macumba do Pedacinho de Céu. Passar um dia em casa era tão raro quanto ver alguém pagando a conta no Zicartola.
Quando chegava da esbórnia, em vez de ouvir broncas, Mussum encontrava a namorada disposta a ajudá-lo a preparar quantidades industriais de batida de limão para as visitas. Sim, porque além de chegar tarde à casa, ele geralmente trazia uma penca de amigos. Para aplacar a fome dos sambistas, Leny preparava um caprichado ovo mexido, incrementado com pimentões e tomates picados. Isso quando não deixava pronto um dos pratos preferidos dele na época, a carne seca des ϐiada com repolho. No outro dia, completava seu papel de mulher dos sonhos, ao ter paciência para fazer Carlinhos acordar na hora certa. Com a cabeça curtida no mé e o estômago forrado, era praticamente impossível fazê-lo acordar. A missão exigia insistência, paciência e coragem para ignorar resmungos e até alguns xingamentos.
Leny também incentivava a carreira artística do namorado. Na época, trabalhando em uma fábrica de bolsas femininas, a mangueirense pegava um pouquinho de material aqui e ali para fazer peças sob medida para proteger o reco-reco que animava os shows de Os Modernos do Samba. O apoio foi essencial para que Mussum continuasse a insistir com o grupo nos tempos em que as apresentações eram raras e pagavam pouco – algo que estava prestes a mudar de forma definitiva.
A convite de um camarada, Carlos Machado comprou uma nova boate em 1961 e abriu espaço para novos nomes de seu elenco. O amigo, no caso, era Frederico Mello, um milionário dono de dezenas de postos de gasolina espalhados pelo Rio que havia, quatro anos antes, tido a ideia de criar uma casa noturna ao lado do endereço no qual ϐicava seu escritório central, o autoposto Esso na esquina da Avenida Princesa Isabel com a Avenida Atlântica, bem na linha imaginária que separa o Leme de Copacabana.
O empresário, porém, perdia dinheiro em quantidades preocupantes com o projeto. Insistia em trazer shows internacionais, como os de Sarah Vaughan e de Bill Halley and his Comets, e levava prejuízo em cima de prejuízo sem conseguir equilibrar os gastos de manutenção com os lucros da casa com 150 lugares. Machado foi então convidado a arrendar o empreendimento por um preço módico de cem mil cruzeiros. Com seu faro para descobrir boas oportunidades, mesmo quando o cenário prenunciava o contrário, o produtor topou o negócio e manteve só o nome e o endereço do Fred's.
Na apertada área interna reorganizou o espaço, montando uma nova cozinha, camarins, palco, sistema de som, jogo de luzes e até arcondicionado, um grande luxo na época. Do lado de fora, colocou um letreiro luminoso com um avião da Varig que podia ser visto de vários pontos da Avenida Atlântica como agrado para o amigo Ruben Berta, dono da companhia aérea. Para a reabertura da casa, foi bolado o espetáculo "Joãozinho Boa Pinta", escrito por Luiz Peixoto e Chianca de Garcia, cujos protagonistas foram Grande Otelo e a novata Elza Soares. Elza gravaria seu primeiro disco naquele ano e faria grande sucesso com "Se acaso você chegasse", um samba de Lupicínio Rodrigues, perfeito para o acompanhamento de Os Modernos do Samba. No show, o número de maior sucesso trazia Otelo imitando Pelé e Elza fazendo o papel de Garrincha. Uma ousadia deliciosa e engraçada, que deu muito o que falar.
Assim, Carlinhos, Jonas, Zé Luís e companhia ganharam a chance de dar um passo importante dentro do elenco de Carlos Machado e de suas carreiras. Seriam parte da atração ϐixa em uma casa badalada, dentro de um espetáculo elogiadíssimo pela imprensa e assistido pela elite carioca. A novidade foi recebida com relativo entusiasmo pelo tocador de recoreco. A partir daquele momento, precisaria dar um jeito de escapar do quartel toda semana para dar conta das apresentações. No começo, contou com a compreensão e o bom trânsito com os superiores para conseguir licenças não remuneradas e dispensas. Com o tempo, para não abusar da boa vontade dos comandantes, começou a apelar para a malandragem. Quando percebia que a situação era favorável, o cabo simplesmente pulava o muro, de farda e tudo, e pegava um táxi do Santos Dumont até o Leme. Quando percebia que sua deserção momentânea não seria fácil, tramava um número digno de um trapalhão.
Durante o ϐinal de semana arrumava alguma biboca que tivesse mocotó no cardápio e pedia, sem dar explicações, o osso inteiro para levar para casa. Depois, amarrava um laço de ϐita vermelho bem vistoso na pata de vaca e levava o esquisito item escondido para o quartel. Na noite em que precisava sair para tocar no Fred's, aparecia estrategicamente na frente de algum guarda e dizia que estava saindo rapidinho para fazer uma oferenda a Omulu, o temido orixá dos cemitérios, responsável pela triagem dos mortos. Os vigias, apavorados com a história, faziam vista grossa e deixavam Mussum sair sem caguetar a escapada para seus superiores.
A malandragem seria essencial para a carreira de sambista do Cabo Fumaça. Tocar no Fred's signiϐicava evoluir como músico e, de quebra, conhecer os melhores artistas e as ϐiguras mais importantes da Guanabara, que estavam ali se apresentando ou mesmo curtindo os shows da casa. Para se ter uma ideia do prestígio do lugar, três ou quatro mesas ϐicavam sempre reservadas para políticos e militares de alta patente. O próprio presidente João Goulart costumava dar seus pulos na boate, a ϐim de escolher algumas vedetes para acompanhá-lo durante suas viagens para o exterior.
Outra presença ilustre na casa era Mané Garrincha. Já envolvido com Elza Soares, o craque geralmente levava a cantora até a casa de shows, cumprimentava os artistas e depois descia para ϐicar esperando a apresentação acabar, enquanto ϐicava bebericando quantidades industriais de pinga em algum bar ou tomando chopes na lanchonete Cervantes. Muito amigo de Elza, Mussum fazia o meio-campo entre os namorados, fazendo companhia para o ídolo do Botafogo e trocando as piadas mais recentes que aprendera na noite pelas anedotas que Mané trazia de suas viagens pelo Brasil e pelo mundo. A amizade ϐicou forte a ponto de o sambista ser convidado frequentemente para os famosos almoços e jantares na casa de Elza Soares.
Depois de devorar os peixes ensopados e o arroz milimetricamente queimadinho feitos pela cantora, Mussum começava a contar piadas para o pessoal e fazia todo mundo morrer de rir. Até por isso, Elza tentou incentivar o sambista a reproduzir um pouco das suas palhaçadas no palco – ideia que Mussum não aceitou de imediato, uma vez que, na hierarquia de Os Modernos do Samba, por mais destaque que tivesse, ele ainda estava atrás de Zé Luís, o dono do conjunto, e de Jonas, o amigo mais experiente e talentoso. Somado a isso, o conjunto não tinha muito protagonismo. Sempre como banda de apoio para os números das grandes estrelas, não havia espaço para o individualismo. Isso não era lá grande problema, uma vez que não era nada mal participar de grandes espetáculos como "Elas Atacam pelo Telefone", com Grande Otelo, e "Chica da Silva 63", estrelado por Wanda Moreno e pela estreante Betty Faria.
Àquela época, a prioridade era mesmo garantir um bom desenvolvimento da carreira na Aeronáutica. Após a promoção a cabo, Antônio Carlos seguiu participando de cursos de aperfeiçoamento e, em virtude de suas qualiϐicações, atuou em diferentes funções, como guarda do Palácio do Itamarati e auxiliar no Serviço de Rotas. A partir de junho de 1962, Mussum foi diplomado telegraϐista e, por sorte, não precisou trabalhar em nenhum momento tenso da Guerra Fria entre americanos e soviéticos. Imagine que, se rolasse um episódio parecido com a Crise da Baía dos Porcos no Brasil, a Força Aérea Brasileira teria Mussum como operador qualiϐicado para enviar e transmitir mensagens em código Morse, telégrafo, teletipo e telex.
A fase de telegraϐista, porém, não durou muito. Na primeira oportunidade, o cabo transferiu-se para o almoxarife, onde ocuparia uma função administrativa e convenientemente mais tranquila. Decisão essencial para seguir sua carreira de sambista. A partir do sucesso no Fred's, as convocações de Carlos Machado começariam a exigir mais e mais tempo do militar e ϐicaria ainda mais diϐícil fugir do quartel para brilhar nos palcos de Copacabana. Além dos compromissos com o espetáculo "Xica da Silva 63", inspirado no samba-enredo campeão do Salgueiro, os sambistas começariam a aparecer na TV. A estreia aconteceu ao tocarem no "Show é ODD", da TV Rio. O programa, apresentado por Paulo Gracindo, ia ao ar às 19h e trazia variedades como o "homem show" William Fourneaut, o dançarino de frevo Abelardo Santos e uma partida de futebol disputada por cachorros. Não era a estreia dos sonhos, mas pouca gente via televisão naquela época. No cortiço em que morava, por exemplo, só havia um aparelho, comprado em regime de vaquinha, colocado na área de entrada e compartilhado pelos vários moradores. Mas era melhor assim mesmo. Quanto menos gente soubesse da jornada artística do cabo, mais tranquilo ele ficava.