Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões

Juliano Barreto · Capítulo 11 de 29

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Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões

Capítulo 9

 

PEGA NO GANZÊ, PEGA NO GANZÁ (1971)

 

"A minha árvore ginecológica é de cantoris"

 

Aϐinados no palco e fora dele, Jair Rodrigues e Os Originais do Samba

receberiam ainda uma boa notícia naquele já exitoso ano de 1970. O cantor foi escolhido por um pool de gravadoras para representar o Brasil no Marché International du Disque et de l'Édition Musicale, festival popularmente conhecido como Midem, em 20 de janeiro de 1971. O festival havia sido criado em 1967 com o objetivo de reunir caciques da indústria fonográϐica e os artistas de maior destaque do mundo, com o objetivo de fechar contratos internacionais para turnês e discos. Antes de Jair, passaram pelo evento realizado na cidade de Cannes, na França, outras atrações brasileiras pesos-pesados, como Roberto Carlos, em 1967, Elis Regina, em 1968, Chico Buarque, em 1969 e Jorge Ben, em

1970. Embora o Midem tivesse um formato mais parecido com o de um congresso ou de uma feira de negócios, o público e os músicos brasileiros, acostumados à competitividade dos festivais de música da TV, encaravam a participação no evento como uma convocação para jogar uma Copa do Mundo. Por isso Jair, feliz com o reconhecimento e ao mesmo tempo preocupado com a responsabilidade de representar seu país, de pronto chamou Os Originais para acompanhá-lo na turnê e garantir a qualidade do seu espetáculo. Pesou na escolha o pro ϐissionalismo dos sambistas, já acostumados a viajar para o exterior com Jair, sem nunca terem dado mancadas, além da amizade do grupo com o cantor.

Jair, Mussum e Os Originais, todos vindos de histórias de miséria e superação na infância, estariam juntos da nata da música internacional, no luxoso Palais des Festivals, na não menos luxuosa região do Boulevard de la Croisette na Côte d'Azur. Um cenário que impressionava e intimidava com seus hotéis cinco estrelas, cassinos, carrões e iates. Fechado ao público em geral, o Midem reunia diretores de 603 gravadoras de todo o mundo, donos de casas de espetáculos, empresários e até uma equipe de juristas especializados em direitos autorais de plantão. Essa multidão de líderes da indústria fonográ ϐica passeava pelos 345 boxes montados no salão principal do Palais, ouvindo ϐitas, trocando ideias e procurando novos talentos. Se algum dos 4.500 executivos presentes no evento ouvisse um cantor ou banda que o agradasse, podia ali mesmo fechar um contrato e apostar no próximo grande sucesso internacional.

Os artistas não eram exibidos apenas por meio de seus discos e ϐitas. Representantes de maior destaque nos mercados mais importantes subiam ao palco do Midem para mostrar ao vivo a sua categoria e, assim, convencer mais executivos a fecharem mais contratos. Em 1971, a disputada vitrine teria shows de artistas do naipe de Elton John, Cat Stevens, Ike & Tina Turner, Mungo Jerry, Julien Clerc, The Marmelades, Richie Havens e da exótica cantora iraniana Googoosh. Por tudo isso, tocar no Midem não era como fazer um show qualquer. Não importava o tamanho do público ou o valor da bilheteria, impressionar os engravatados significava subir de patamar na carreira.

Por tudo isso, Jair e Os Originais prepararam-se para subir ao palco com uma performance incendiária. Para começar, Bigode foi incumbido de escolher um figurino que fosse ao mesmo tempo chamativo e elegante. Escolheu uma combinação de sapatos, calças e camisas impecavelmente brancos, coletes cinza imitando couro de cobra e lencinhos azuis para amarrar no pescoço, uma tendência bem internacional. Jair Rodrigues seguia a ideia do figurino clean, vestindo um paletó branco e uma gravata azul, no mesmo tom do lenço dos músicos.

Para o repertório do show, nada de inventar moda. Mussum, Bidi e Chiquinho escolheram os sambas mais agitados e pegados, pois sabiam que os gringos não pescariam nada das letras e que, para ganhar o público, o importante era mesmo usar o máximo possível de refrões com lelelê, laiá-laiá e uma marcação fácil de acompanhar batendo palmas. Desfilariam hits infalíveis de Jair Rodrigues, começando por "Deixa isso pra lá" e depois atacando "Tristeza", " Bereketê", "Versos para Tereza", "Alô madrugada", "Isabel", "Mundo velho" e "I want to go back to Bahia". Havia ainda uma arma secreta poderosa, o novíssimo samba-enredo "Festa para um rei negro", que o Salgueiro fez para o desϐile de 1971 e acabou entrando para a lista dos maiores clássicos de todos os carnavais com o seu hipnótico refrão: "Olelê! Olalá / Pega no ganzê / Pega no ganzá".

Quando os sambistas estavam mais do que preparados para começar, já nos camarins, começou a bater um nervosismo diferente. Acostumados a serem as estrelas, Mussum, Jair e Os Originais viram -se no papel de fãs. Enquanto esperavam pela sua vez de tocar, viam um des ϐile de gigantes da música internacional passando de um lado para o outro. Não tinha como evitar que o medo de fazer feio aparecesse e sufocasse. O encontro de Mussum com Ike Turner também não ajudou a deixar o clima mais leve. Gênio da guitarra, o americano já era consagrado nos anos 1970 como pioneiro do rock'n'roll, inventor do rhythm'n'blues e monstro do soul. Para completar, tinha descoberto e lapidado o talento incrível de Tina Turner, sua esposa, musa e saco de pancadas. Ike se aproximou de Mussum já com toda a marra de astro internacional e , após jogar um pouco de conversa fora, começou um baita sermão. No auge de seu penteado black power, Ike disse que era uma vergonha que uma banda formada por negros tivesse todos os seus integrantes usando cabelos curtos. Eles não eram mais escravos e não deveriam ter vergonha do seu visual. Mussum olhou bem para o crioulo magrelo, que parecia um microfone com aquela cabeleira, ouviu, concordou com aquilo tudo dizendo que o gringo estava coberto de razão. Terminou a conversa como se fosse o melhor amigo do guitarrista do Mississippi. E, como se sabe, nunca usou black power.

Outro encontro nos bastidores que aumentou o nervosismo dos sambistas cariocas foi com o vocalista da banda britânica Mungo Jerry, Ray Dorset. O inglês chamava muita atenção por usar uma vasta juba black power e uma barba cerrada e longa, que era raspada apenas na parte do queixo. Em resumo, o branquelo alto e magro parecia uma ovelha negra antes da tosa e estava no auge da fama por causa do hit "In the summer time", música mundialmente assobiada até hoje por conta da letra fácil e do ritmo leve que se enrosca no refrão "In the summertime / When the weather's high / You can stretch right up and touch the sky / When the weather's ϐine / You got women, you got women on your mind". Ao contrário de Ike, Ray Dorset foi simpático com os brasileiros e não faria sua "intimidação" com palavras. A marcação de território foi feita quando o britânico terminou de se vestir com a roupa de show e passou pelos sambistas com um espetacular conjunto de calça e paletó de veludo bordô que ofuscou o figurino dos Originais.

Assim, antes mesmo de entrar no palco e serem avaliados pela plateia mais importante de suas carreiras, os sambistas quase foram acometidos pelo famoso complexo de vira-lata, a patologia detectada por Nelson Rodrigues que descreve o sentimento de inferioridade dos brasileiros ao se compararem com os estrangeiros. Em um minuto, estava tudo bem. No outro, eles eram negros alienados e malvestidos do terceiro mundo? Em um minuto tudo era chic. No outro, eram cafonas? Por sorte, não deu tempo de pensar muito mais. O relógio marcou 22 horas e chegava o momento de colocar os gringos do Midem para sambar.

Acostumado a competir – e a vencer – festivais de música da TV brasileira e com várias apresentações fora do Brasil no currículo, Jair Rodrigues caprichou na simpatia, na entonação e no samba no pé. Pisou no palco com segurança e abriu o show com aquele que seria o seu maior clássico da carreia: "Deixa isso pra lá". A canção começou com a percussão tímida e uma metralhada de versos que seguia ϐluindo como se Jair estivesse batendo um papo, assim gostoso, com a plateia. Antes de terminar, dava para perceber as cabeças dos executivos balançando e alguns sorrisos escapando, rompendo o proϐissionalismo daqueles que, pelo menos a princípio, estavam ali para avaliar os artistas no palco. No refrão, quando soltou a voz, Jair mostrou que não estava ali para brincadeira. Resultado: muitas palmas e confiança restabelecida.

Na sequência, outro clássico para continuar a demolição da frieza estrangeira, o sambão "Tristeza", que começa e termina como se fosse um único refrão, com muito laiá-laiá e o belo verso "Tristeza, por favor vá embora / Minha alma que chora, está vendo seu ϐim". Nesse momento, começa a brilhar também a estrela dos Originais, abrindo a canção com um aϐinadíssimo coro em uníssono e despejando potência aos poucos nos seus instrumentos. Na segunda repetição da letra, a tristeza já estava longe e a plateia do Midem presenciava o começo de um carnaval tipicamente brasileiro.

O show prosseguiu com os músicos cada vez mais à vontade e, como de costume, com o volume e a empolgação dos aplausos aumentando. Após mais duas canções, Jair e Os Originais ϐizeram uma pausa de duas horas. O intervalo, é claro, servia para que os executivos tratassem de negócios e circulassem pela feira. Mas serviu também para que os brasileiros restaurassem suas energias e voltassem ainda mais empolgados para o restante da apresentação. No segundo ato, logo de saída, os sambistas ϐizeram todo mundo arregalar os olhos com a rodada de solos de recoreco, pandeiro, tamborim, cuíca e agogô. Além de ouvir pela primeira vez aquele som tão estranho e contagiante, os gringos não conseguiam acompanhar a velocidade dos movimentos dos passistas, que se exibiam um por um dançando e tocando freneticamente ao mesmo tempo. Quando Mussum deu sua derrapadinha, movimento em que jogava o corpo para trás enquanto os pés deslizavam para a frente, teve francês suspirando assustado, pensando que o mangueirense tinha escorregado. Ele percebia isso, e abria ainda mais o sorriso.

Para terminar o show com chave de ouro, o samba do "Reisado", como também era chamado o enredo do Salgueiro que ainda nem tinha estreado na avenida, incendiou de vez o Palais des Festivals. Os gringos não cansavam de cantar o "Olelê! Olalá!". Jair e os Originais saíram do palco embaixo de palmas e gritos entusiasmados. Quem visse a empolgação daquele público jamais suspeitaria de que ali estava boa parte dos diretores musicais e empresários da indústria fonográ ϐica. Com mais palmas, mais assobios e mais gritos, surgiu o pedido de bis. Extenuados mas também radiantes de alegria pela apresentação arrebatadora, os brasileiros voltaram ao palco e sapecaram mais algumas vezes a "Festa de um rei negro".

Em 22 de janeiro, o dia seguinte ao show, um jornal local chamado L'Espoir descreveu a apresentação dos sambistas de forma apaixonada, dizendo que "Jair tomou conta do auditório que cantou com ele e que não o queria deixar mais partir". Ainda na reportagem do diário de Nice, havia o relato do bis: "o público se resignou com grandes diϐiculdades a se separar de Jair Rodrigues e seus sambas endiabrados". 11

O repórter do L'Espoir não estava exagerando. Logo que o show terminou, um empolgadíssimo francês convidou os brasileiros para fazerem mais uma apresentação, ainda naquela noite. Eletrizados pelo carinho do público e acostumados a tocar a noite toda nas rodas de samba, os músicos toparam o convite e foram se apresentar no restaurante Chez Felix, ponto de encontro dos artistas convidados para o Midem e de milionários que estavam entre uma sessão e outra de jogatina no cassino de Cannes.

Sem tempo para trocar de roupa ou ligar para casa, para avisar que tudo tinha ido bem, Jair e Os Originais entraram no ϐino salão sem tempo de apreciar a cuisine française. Entre goles de champanhe dos melhores rótulos e taças e mais taças de conhaque Courvoisier, os Originais repetiram o sucesso no Chez Felix. Distintos senhores de smoking e suas digníssimas acompanhantes de estolas e visons não escaparam do "olelê! olalá!" e, sem muita etiqueta, usaram garfos e facas para batucar nos pratos. Para incredulidade dos maîtres e serveurs, vários ricaços subiram na mesa para sambar, num baile de carnaval improvisado que durou até as seis da manhã.

Com o belo cartão de visitas, não tardou para que os convites começassem a surgir, um atrás do outro. O mais lucrativo e importante veio da produtora New Brummel, de Paris, que contratou Jair e Os Originais para gravar apresentações para emissoras de TV da França, da Bélgica e da Holanda, além de assinar um contrato para uma turnê francesa que passaria por Mônaco, Nice e região. A proposta mais honrosa veio da própria organização do Midem, que chamou os brasileiros para tocarem em um show de encerramento do festival em pleno Cassino de Cannes, na sexta-feira daquela semana.

Bons contratos, muita moral, mas a consagração veio mesmo com os elogios de Bruno Coquatrix, ninguém menos que o dono da mítica casa de shows Olympia, de Paris.

Além de empresário, o francês era músico e tinha grande adoração por números de acrobacias, dança e variedades. Por isso se derreteu tanto pelos sambistas, que uniam as três modalidades em um só pacote, e propôs na hora o contrato para uma temporada parisiense já em fevereiro. O convite não representava apenas um bom punhado de francos no bolso. Aberto em 1889 por Joseph Oller, o criador do Moulin Rouge, o Olympia tem história su ϐiciente para explicar toda a produção cultural do século XX e foi o palco de shows consagradores de nomes do porte de Edith Piaf, Jacques Brel, Georges Brassens, Léo Ferré, Beatles e Rolling Stones. A importância é tanta que a fachada do teatro é tombada como patrimônio nacional francês.

E lá foram os brasileiros aprontar mais uma , criando de surpresa um carnaval à L'Olympia. Tradicionalmente, o teatro montava seu programa de espetáculos com atrações variadas e, no programa daquela noite de 1971, o show de Jair Rodrigues com os Originais seria ensanduichado por outros artistas tocando antes e depois, apresentando números de danças típicas, declamando poesias em recitais e o diabo a quatro. Após as pesadas cortinas vermelhas abrirem-se para os brasileiros, porém, o programa iria virar de cabeça para baixo. Novamente, o plano de Jair era usar todo seu repertório de sucessos, sem espaço para covers, homenagens ou versões. Afinal, o time estava ganhando.

Tudo seguia bem na primeira noite dos brasileiros no Olympia e o público recebia com entusiasmo cada nova canção. Anos antes, em 1968, Elis Regina também tinha brilhado nos palcos da casa de show e os franceses mostraram-se entusiasmados com a Pimentinha a ponto de fazê-la voltar ao palco de três a quatro vezes em cada noite de show. Se Elis havia aberto a porta, Jair e Os Originais escancaram essa relação Brasil-França. Quando já tinham o público na mão, começaram as apresentações dos solos de cada instrumento, acompanhados dos malabarismos dos passistas. Dessa vez, no entanto, Mussum decidiu descer do palco e fazer seu show no meio da plateia. Para delírio de quem assistia, os outros integrantes dos Originais, além do próprio Jair, também desceram e continuaram a sambar no meio da galera.

A essa altura, para aumentar a apoteose, surgiu uma enorme bandeira do Brasil que era carregada e balançada de um lado para o outro do salão. E não bastasse o clima de carnaval, Jair deu a ordem e os Originais começaram a tocar "A festa de um rei negro". O Olympia perdeu a compostura de vez e os gringos, suados de tanto sambar, ou de tentar sambar, largaram seus lugares para fazer uma roda em volta dos ritmistas. Percebendo que a coisa já tinha passado um tanto dos limites, Jair notou o caos que instaurara e começou a guiar os músicos em direção à saída do teatro. Como não pararam de tocar, o movimento para encerrar o show foi confundido com um convite para invadir as ruas de Paris sambando. A plateia seguiu os músicos até a rua animadamente, cantando alguma coisa que se assemelhava com o "pega no ganzê! pega no ganzá". Foi preciso mais de 40 minutos para que os franceses fossem recompostos e colocados de volta em seus lugares para que o programa de shows do Olympia continuasse, mas, é claro, o maior show da noite já havia acontecido.

Após a apoteose francesa, começaram a surgir diversos convites e as temporadas nas casas de show brasileiras eram intercaladas com constantes giros europeus. Em poucos meses, Jair Rodrigues e Os Originais levariam o batuque para o Casino de Estoril, em Portugal, para o XII Festival de La Cancion, em Viña Del Mar, no Chile, e por alguns dos principais hotéis, cassinos e casas de shows da Holanda, Bélgica e Suécia. Com um ritmo puxado, somado ao frio e a constante boemia dos músicos, a turnê começou a afetar a saúde de Mussum. Na volta ao Brasil, estranhou que a gripe forte que tinha começado no Velho Continente ainda o incomodasse, mas nem pensou em passar em um médico. Já eram semanas de tosse seca, suores noturnos, febres e dores no peito e quando Therezinha notou a alta temperatura do corpo do namorado, ainda ouviu que "Crioulo é assim mesmo. Eu sou quente! Não está mais acostumada?".

Dias depois da bravata, a situação piorou de vez, e não apenas na

questão de saúde.

Além de suspeitar de algo mais grave com a saúde do sambista, Therezinha, a essa altura grávida de seis meses, passou a reunir indícios que o comportamento do namorado estava bastante diferente. Por mais de uma vez, Mussum foi pego mentindo, quando dizia que tinha viajado ao Rio para gravar uma participação no programa de Flávio Cavalcanti, quando, na verdade, estava fazendo o papel de bom-moço com Neila e seus familiares. Cansada da situação, Therezinha armou uma incerta e ϐlagrou o sambista em um momento família junto de sua namorada, na Rua Palacete das Águias, no bairro de Vila Alexandria, próximo do Aeroporto de Congonhas. Em uma noite escolhida a esmo, decidiu fazer uma visita ao endereço e ver se sua descon ϐiança era justiϐicada. Ao chegar ao local, por coincidência, viu o namorado todo educado, ajudando a sogra a sair do carro, como bom genro que era. Apesar de não ter feito uma cena ou chamado a atenção, sua presença foi notada e um desesperado Mussum tratou de sair dali rapidamente, arrancando com seu carro sem explicar nada a ninguém.

A fuga do ϐlagrante não resolveu em nada a situação. Quando o casal ϐicou frente a frente de novo, Therezinha já havia decidido pela separação e apenas queria comunicar que estava indo embora em deϐinitivo. Não queria nem mesmo que seu ϐilho fosse registrado. Estava farta de traições. Mussum pediu para que o ϐilho fosse criado por ele e usou como desculpa seu estado de saúde. Revelou à Therezinha que estava com tuberculose e pediu, dramaticamente, para não ser abandonado no momento em que estava perto da morte. Mas a malandragem não deu certo.

De fato, a viagem pela gelada Europa do começo do ano havia provocado uma grande queda da resistência imunológica do mangueirense e, as apresentações em ambientes fechados tinha mesmo o colocado em uma situação de risco para o contágio. Quando ϐinalmente visitou um médico, os danos na parte superior de seus pulmões foram detectadas na primeira radiograϐia. Mussum foi internado no Hospital São Luiz e passou por um tratamento que durou meses. O relacionamento com Therezinha, por outro lado, não tinha mais cura. Em

12 de dezembro de 1971, nasceria Antônio Carlos Oliveira Rocha, garoto que só chamaria Mussum de pai sete anos depois. Seu nome foi escolhido após uma promessa à Santo Antônio, pois sua gestação foi apenas até o oitavo mês. No mais, Therezinha não queria mais nada do antigo namorado —pai pela terceira vez aos 30 anos, após três relacionamentos

que não deram certo.

Para Mussum, o rompimento e o consequente afastamento de mais um ϐilho, aϐinal já não tinha mais contato com a ex Glorinha e sua ϐilha Paula Aparecida, foi um sinal de que seu comportamento deveria mudar radicalmente. A partir dali, daria um ϐim à sua carreira de galanteador e levaria à sério o namoro com Neila. Estava na hora de crescer e se concentrar no bom momento que atravessava com os Originais. Até porque, além do frio, dos francos faturados e das confusões amorosas, a turnê pela Europa seria muito importante musicalmente para Mussum. O tocador de reco-reco não ϐicou apenas de olho no estilo espalhafatoso dos músicos gringos. Assistindo ao show da banda Mungo Jerry, no Midem, notou a semelhança entre o banjo usado pela banda inglesa e uma aϐinação com som bastante familiar. Na volta a São Paulo, sem explicar muita coisa, Mussum pegou Almir Guineto pelo braço e foi até a Casa Del Vecchio, na Rua Aurora, comprar um banjo.

Junto do exímio tocador de cavaquinho, Mussum desmontou o instrumento recém-comprado e fez um Frankenstein, acoplando o braço e as cordas do cavaquinho no banjo. Nascia então uma técnica inédita que seria mais tarde muito usada por todos os conjuntos de samba e pagode: adaptar o cavaquinho para aumentar o volume do instrumento, facilmente superado pela percussão de surdos e pandeiros. A técnica seria apenas uma das várias novidades que o próximo disco dos viajados Originais, batizado convenientemente de "Samba Exportação", traria em seu repertório. Em vez de contaminar o samba com in ϐluências estrangeiras, a experiência nos palcos ao redor do mundo aproximou os músicos ainda mais das raízes do samba e suas linhagens autênticas, a umbanda, o frevo, o choro e as marchinhas.

Em "Linha de umbanda", Mussum abre a canção respeitosamente pedindo licença aos Orixás e o coro dos Originais segue o ritmo do canto dos terreiros "do tempo do cativeiro". Já na faixa "A subida do morro", que décadas depois virou até base para um rap, a letra e o ritmo passam um recado direto, na linguagem da malandragem, explicando que "valente morre mais cedo, valente antecipa o seu próprio fim" porque "na subida do morro é diferente".

O tom de exaltação das coisas brasileiras esbarra até mesmo em um nacionalismo exagerado, arriscadamente parecido com um elogio ao governo militar do tenebroso Emílio Garrastazu Médici. Nas faixas "Brasileiro" e "Samba internacional" há frases com o mesmo sentido do infame slogan da ditadura "Brasil: ame-o ou deixe-o". Os letristas Luís Carlos e Lelei, no entanto, queriam apenas repetir o sucesso de Jorge Ben com seu despolitizado "País tropical". Babulina, aliás, marca presença mais uma vez, assinando a composição e tocando violão em "Tenha fé, pois amanhã um lindo dia vai nascer".

Apesar dos recados sérios dessas composições, o humor característico do grupo aparece nas faixas "Amarrei meu bode" e "Mas que menininha", que conta com intervenções engraçadíssimas de Rubão cantando ao estilo "16 toneladas", Mussum gargalhando como um fantasma e Lelei imitando um sujeito ignorante e apaixonado.

Vale registro também a inventividade do produtor Wilson Miranda na derradeira faixa de "Samba Exportação". Percebendo que a soma dos minutos de todas as músicas gravadas não ocuparia toda a capacidade do LP, ele liberou os Originais para mostrarem, em 1 minuto e 37 segundos, como eram as suas famosas sessões rítmicas. E o tempo foi o su ϐiciente para a faixa "Demonstração (ritmo)", gravada "no cantinho da coisa preta", mostrar solos de cuíca, agogô, surdo, tamborim, pandeiro e recoreco.

Com a adaptação completa a São Paulo e a carreira dos Originais, en ϐim, nos trilhos, Mussum conseguiu cortar o cordão umbilical que o ligava a Carlos Machado havia mais de dez anos. Os Originais receberam uma boa proposta do restaurante Di Monaco, na Rua Cubatão 69, no bairro do Paraíso, que além de pagar melhor e ser mais bem localizado, tinha uma programação mais alinhada com a nova fase do conjunto de samba que o Cassino Royale. Os passistas agora faziam parte do primeiro time da MPB e não dependiam mais exclusivamente de suas acrobacias e do repertório de outros artistas para chamar a atenção do público. E vale dizer que a casa contava com atrações de renome como Jô Soares e Ângela Maria e até dividiam o palco com artistas de fora do Brasil, como o cantor Johnny Mathis.

A subida de patamar veio no momento mais do que certo. Carlos Machado andava em franca decadência e, sem conseguir prolongar o êxito do Cassino Royale como desejado, voltou ao Rio de Janeiro mais endividado do que havia saído. Seu melancólico retorno foi feito com um espetáculo que apelava mais para o rebolado do que para o teatro, chamado "Ninguém Segura Esse Mocotó". Para horror da crítica e decepção do público, sua produção em conjunto com o comediante Colé não fazia nem mesmo sombra às antigas noites de luxo no Golden Room. O espetáculo resumia-se a um desfile de vedetes seminuas, vendido como uma "revista underground".

Fora dos palcos, a vida também parecia se assentar confortavelmente na capital paulista. Sem perder a pegada boêmia, o sambista trocou as aventuras nos hotéis baratos e as madrugadas incertas por uma dedicação inédita à sua carreira. Parte dessa mudança pode ter sido pela sua vontade própria mas, certamente, o medo de uma recaída da tuberculose e a agenda lotada de compromissos também ajudaram a preencher o tempo que antes era gasto com aventuras amorosas. O pouco tempo que sobrava, era gasto com o descanso em família. A relação com Neila ia bem e Mussum chegava até a abusar um pouco do afeto da família da namorada. Não era raro que ele chegasse faminto de madrugada, acompanhado dos outros cinco Originais, na casa da cunhada para ϐilar um jantar. Nada para se irritar. A aparição dos sambistas era sempre bem-vinda e, em vez de incomodar os donos da casa, sempre havia uma minifesta para receb ê-los. A intimidade foi tanta que, antes de alugar sua primeira casa em São Paulo, o Tio Caco morou por algum tempo na casa dos sobrinhos na zona Sul de São Paulo, em uma rua nas imediações do aeroporto de Congonhas, no bairro de Vila Alexandria. A justiϐicativa era boa: estava guardando economias e preparava-se para casar. Pouco tempo depois, em 3 de novembro de 1972, entraria como noivo na Paróquia Santo Ivo, uma discreta igreja próxima ao Parque do Ibirapuera, e consumaria sua união como mandam os ritos católicos — dias após assinar a papelada no cartório da avenida Brigadeiro Luis Antônio e também casar no civil. Foi o primeiro e único casamento "de papel passado" de Mussum, com direito a noiva de branco, bolo, sogros emocionados e tudo o mais.

O time dos casados aumentava nos Originais, além do titular do recoreco, Bidi, Lelei, Rubão e Bigode tinham suas esposas e apenas Chiquinho seguia solteiro. A fase mais família de Mussum foi completada também com a conquista da primeira casa própria, comprada em um condomínio fechado no bairro Demarchi, na cidade de São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. Para superar a distância entre o novo endereço e os shows, ensaios e gravações no centro de São Paulo, o sambista comprou também seu primeiro automóvel, um Volkswagen SP2 vermelho com faixas pretas, em homenagem ao Flamengo. O SP2, apelidado pela malandragem de "Sonho de Puta", era um esportivo de dois lugares montado sobre a base da Variant e, no caso de Mussum, contava com um kit de acessórios improvável. Sempre acomodados sobre o console central do carro, próximos do câmbio, estavam uma garrafa de Caninha 51, um copo, uma faca e alguns limões. O motor 1.6 podia ser a gasolina, mas o motorista era movido a álcool. Para tornar a coisa ainda mais temerária, Mussum havia acabado de aprender a dirigir. Não se sabe como nenhum acidente aconteceu.

Mussum até encontrou um jeito para amainar as saudades das suas duas maiores e mais antigas paixões, a Mangueira e o Flamengo. No quesito escola de samba, ele adotou a Camisa Verde e Branco como agremiação preferida na capital paulista. Uma escolha bastante coerente, uma vez que, seguindo a tradição de sacramentar os estandartes de uma nova escola em uma cerimônia solene, em 1953, a Camisa teve a Estação Primeira como sua madrinha. Inicialmente apenas frequentando as rodas de samba no São Paulo Chic e os ensaios na quadra na Barra Funda, Mussum foi chegando e fazendo amizade com todo mundo. Resultado: durante a década de 1970, o carioca desϐilou na Avenida São João com o mesmo empenho com que ia para a Presidente Vargas e ajudou, como passista ao lado dos Originais do Samba, na histórica conquista do tetracampeonato do carnaval paulista, com os títulos de 1974, 1975,

1976 e 1977.

Na hora de escolher um time paulista para torcer, por outro lado, o verde e o branco ϐicariam só na camisa do rival. Identiϐicando-se com a torcida de massa semelhante à do seu Flamengo, Mussum adotou o Corinthians como segundo time do coração. Na época era di ϐicílimo ouvir os jogos dos outros estados e a proximidade com jogadores do elenco alvinegro que frequentavam a Camisa Verde e Branco, um reduto de corinthianos apesar do nome, ajudou na conversão. A simpatia pelo alvinegro fez até com que o sambista ϐizesse a cabeça do sobrinho Fausto, ϐilho de um simpatizante do São Paulo, a torcer também pelo Timão. Anos depois, mesmo longe da capital paulista, o hábito de acompanhar a equipe de Parque São Jorge seria conservado e uma camisa autografada pelo elenco mosqueteiro seria guardada como relíquia.

Para completar a lua de mel com a Terra da Garoa, o novo disco, chamado "O Samba é a Corda... Os Originais a Caçamba", traria os dois maiores sucessos comerciais da carreira do grupo até então. Lançado inicialmente como um compacto duplo, com quatro músicas, em outubro de 1972, o disco estourou com a faixa "Esperanças perdidas", de Adeilton Alves e Délcio Carvalho. A letra da música vinha se des ϐiando repleta de poesia, em uma cadência gostosa de ouvir completada com um refrão diϐícil de esquecer: "Não posso ϐicar, eu juro que não / Não posso ϐicar, eu tenho razão / Já fui batizado na roda de bamba / O samba é a corda e

eu sou a caçamba".

A fórmula conquistou os ouvidos e corações paulistas, depois os cariocas e em pouco tempo virou sucesso nacional. Nas paradas de mais vendidos, "Esperanças perdidas" disputava os primeiros lugares semana a semana com a trilha internacional da novela "Selva de Pedra" e com os clássicos "Batuque na cozinha", de Martinho da Vila e "A dança da solidão", de Paulinho da Viola. Na média, o compacto dos Originais superava até "Ben", do ainda adolescente Michael Jackson, e "Os brutos também amam", do campeão de popularidade Agnaldo Timóteo. Dessa forma, em menos de seis meses, a banda ultrapassou pela primeira vez a marca dos 100 mil discos vendidos, e a RCA, em reconhecimento ao bom desempenho, concedeu o primeiro, suado e demorado disco de ouro da história dos Originais – o segundo, por outro lado, não demoraria nem um pouco para chegar.

Quando o LP com 12 faixas foi lançado, "Esperanças perdidas" impulsionou vendas ainda maiores e colocou em evidência uma faixa que viraria marca registrada, não só do conjunto mas de toda uma geração de paulistanos. Inspirado no movimento intenso dos apressados trabalhadores do centro da cidade, Luís Carlos e Chiquinho compuseram "Do lado direito da rua Direita". A música foi escrita no começo da vinda dos sambistas a São Paulo e ϐicou na ϐila sabe-se lá quanto tempo até ser gravada. A decisão foi de Bidi, responsável pelo repertório dos álbuns, mas os próprios autores apostavam mais em outras composições, mais trabalhadas tanto na melodia quanto na letra.

A origem de "Rua Direita" veio quando os sambistas, sem grana e sem trabalho, muitas vezes saíam do pequeno apartamento na Rua Aurora e caminhavam cerca de 1.400 metros até a tal rua para vivenciar um clima de shopping center em uma época em que os shoppings praticamente não existiam. Nas imediações da Praça da Sé, a via recebeu esse nome porque era a única construída em linha reta, no meio de um trecho um tanto quanto labiríntico do Centrão. Ali en ϐileiravam-se lojas de roupas, tecidos, eletrodomésticos e os grandes magazines dos anos 1960 e 1970. Não era diϐícil, como diz o samba, encontrar alguma pequena fazendo compras por lá e, logo em seguida, perdê-la de vista por causa do mar de gente indo e vindo.

Pode ter sido pela facilidade de se identificar com a história contada na letra. Pode ter sido pela delicadeza dos arranjos da marimba latina aprendida nos tempos de México, entrando de ϐininho no batuque brasileiro ouvido desde o berço. Pode ter sido pelo trocadilho do refrão grudando na memória após ser ouvido pela primeira vez. Pode ter sido, simplesmente, porque Os Originais do Samba eram ϐigurinhas fáceis na televisão e contavam com uma boa divulgação da gravadora RCA. Pode, até mais provavelmente, ser uma mistura de todos esses fatores somados a um pouco de sorte. O fato é que "Do lado direito da rua direita" estourou nas paradas de sucesso e foi uma das músicas mais tocadas no Brasil entre 1972 e 1973.

Assinando apenas como J.A.B, Chacrinha escreveu em sua coluna "Roda, Roda, Roda e Avisa", no Diário da Noite, 12 o seguinte: "O que toca nas rádios de São Paulo a música 'Do lado direito da rua Direita' é uma loucura. Música envolvente, letra bacana, muita lenha é o que está queimando ϐirme os Originais do Samba". Outro sintoma do sucesso foi as seguidas participações no programa "Sua Majestade, o Ibope", da TV Tupi, uma atração de nome autoexplicativo.

O hit era tão onipresente que surgiram até oportunidades para além do ramo musical. Uma associação de lojistas da rua Direita fez uma proposta para usar a letra dos Originais como jingle em propagandas. Corumba pediu uma grana alta o su ϐiciente para eles desistirem da ideia, mas acabou tomando um chapéu dos publicitários responsáveis pelas propagandas das Lojas Riachuelo. Os anúncios da butique em jornais e revistas alardeavam a reforma de sua unidade no Centro explicando que o endereço, na rua Direita 176, ficava "do lado direito da rua direita".

As demais músicas de "O Samba é a Corda... Os originais a caçamba" formavam um dos mais sólidos repertórios já gravados pelo conjunto. Jorge Ben aparecia nas ótimas "Tereza" e "Lá vem Salgueiro", e o disco era repleto de referências aos batuques folclóricos, indo do boi-bumbá até o jongo e dos terreiros de umbanda às quadras de escola de samba, sempre mesclando ritmo e melodia de forma impecável. Havia até um samba escrito por Wando, quando ele ainda nem sonhava em ser o rei das calcinhas.

Em fevereiro de 1973, mais um disco de ouro estava garantido na parede (desta vez pelos mais de 100 mil LPs vendidos) e a lição estava aprendida: a identiϐicação com as raízes da música negra era apreciada e dava muito cartaz com a classe artística, as canções exaltando as belezas do Brasil podiam render convites para tocar em festas do governo, mas o povão queria mesmo era um bom verso romântico para cantarolar, batucando numa caixinha de fósforo ou no caminho para a lida diária.

Em junho, o compacto de "Esperanças perdidas" batia a casa das 170 mil cópias vendidas e a consagração ϐinal veio na exibição do "Globo de Ouro", programa mensal da TV Globo com os artistas que mais vendiam. Os Originais do Samba foram as atrações especiais da noite, tocando, simplesmente, entre Elis Regina e Roberto Carlos.

 

11. Correio da manhã, 28/01/1971.

12. Diário da Noite, 31/01/1973.