Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões
Capítulo 6
COISAS DO MUNDO, MINHA NEGA (1968)
"Como é que eu vou conjugar o verbis? Não tenho capacidade de julgar ninguém. Sou um simplis seris humanis!"
Em 1967, a TV Record de São Paulo havia entrado deϐinitivamente
para a história do país ao promover o III Festival da Música Popular Brasileira, aquele mesmo em que Chico Buarque impressionou a todos com "Roda viva", Gilberto Gil e os Mutantes inovaram tocando "Domingo no parque" e Caetano Veloso iniciava o que viria a ser o movimento da Tropicália, com "Alegria, alegria". A competição que teve performances históricas de estrelas como Elis Regina, Roberto Carlos, Edu Lobo e o MPB-4, também foi marcada pela inesquecível revolta de Sérgio Ricardo. Vaiado à exaustão pelo público do Teatro Paramount, que se comportava como se estivesse em uma torcida de futebol adulando seus artistas preferidos e avacalhando qualquer outra pessoa que subisse ao palco, o cantor destruiu seu violão, golpeando furiosamente o instrumento contra o chão e depois o arremessando em direção à plateia. "Beto bom de bola", a homenagem musical a Garrincha defendida por Sérgio, de fato, não era páreo para os clássicos instantâneos ali apresentados, mas as vaias con ϐirmaram algo que a direção da TV Record já suspeitava: apesar do enorme sucesso, a fórmula dos festivais de música popular estava desgastada, politizada e polarizada demais.
A competitividade começava a turvar o talento. Os artistas escolhiam músicas com melodias fáceis de assimilar, os compositores valorizavam temas politizados sem critério e escreviam refrões grudentos já pensando em cativar a plateia e fazê-la cantar junto. Do contrário, era arriscado demais apresentar um trabalho inovador e autoral, sob risco de ser vaiado até o ponto de não ser ouvido. A plateia, por sua vez, ia até o teatro para torcer pelo seu artista preferido e não para assistir às apresentações. Naquela época era normal ver faixas e coros ensaiados em favor de intérpretes populares como Elis Regina, Roberto Carlos e Jair Rodrigues e, ao mesmo tempo, injustas vaias destinadas tanto a nomes mitológicos da música quanto a iniciantes que buscavam seu lugar ao sol. A direção da Record não foi a única a perceber isso. Na imprensa especializada, cronistas começaram a notar certas apresentações como números feitos exclusivamente para ganhar festivais, com interpretações forçadas, arranjos óbvios e pouca originalidade. In ϐluentes jornalistas cariocas, como Sérgio Porto, Lúcio Rangel e Sérgio Cabral, acusavam ainda os festivais de música popular brasileira de terem excluído o samba, a mais popular das músicas brasileiras.
Atento às críticas e preocupado com a politização exagerada de alguns artistas, o mandachuva da emissora, e ϐilho do proprietário da rede de comunicações que englobava rádios e TVs pelo Brasil, Paulinho Machado de Carvalho, convocou seus melhores diretores para bolar um jeito de arejar os festivais. Surgiu daí a ideia de criar a I Bienal do Samba, um evento desenhado para homenagear o talento dos compositores consagrados e, ao mesmo tempo, dar espaço aos novos artistas. Solano Ribeiro, com as credenciais de quem tinha transformado os festivais na maior febre dos anos 1960, foi o responsável por criar um regulamento e organizar o evento a ser realizado em maio de 1968, escolhendo o júri, os artistas e as composições. De forma inteligente e diplomática, Solano convidou um grupo formado majoritariamente por cariocas para ajudar na criação do regulamento e fazer parte do júri, formado então por Lúcio Rangel, Sérgio Cabral, Alberto Helena Jr., Sérgio Porto, Mário Cabral, Ilmar Carvalho, Ari Vasconcelos, Mauro lvan, Dirceu Soares, Franco Paulino, Adones de Oliveira, Raul Duarte e Chico de Assis. Completavam o quadro o musicólogo Ricardo Cravo Albin e o respeitado maestro GuerraPeixe.
Coube a esse timaço de críticos musicais a tarefa de listar os maiores compositores de samba e, depois de uma peneira prévia, convidá-los a inscrever canções inéditas na I Bienal. Terminada a seleção, foram escolhidos 36 nomes, formando uma completa enciclopédia do samba nacional, indo de jovens como Paulinho da Viola, Edu Lobo e Chico Buarque até chegar a pilares fundamentais do gênero, como Donga, João da Baiana, Pixinguinha, Tom Jobim, João de Barro e Ataulfo Alves. Na lista ainda constavam canções de autores na época poucos conhecidos nacionalmente, porém muito geniais, como Cartola, Zé Kéti e Adoniran Barbosa. Com músicas de tal pedigree, a escolha dos intérpretes precisaria ser igualmente caprichada. Isso não era um grande problema para a TV Record, uma vez que a emissora tinha prestígio su ϐiciente para ser atendida pelos principais cantores, instrumentistas e bandas da época. Dessa forma, foram convidados para cantar na I Bienal do Samba nomes como Elis Regina, Jair Rodrigues, Chico Buarque, Noite Ilustrada, Ciro Monteiro, Clementina de Jesus, Edu Lobo e os Demônios da Garoa.
Outra garantia de qualidade para o festival era a categoria dos músicos contratados pela Record. Para composições grandiloquentes, o artista concorrente dispunha da completa orquestra do maestro Erlon Chaves. Quem optasse por ritmos mais brasileiros, tinha a seu dispor o impecável conjunto Regional do Caçulinha. Se a ideia era atacar de bossa nova, estavam a postos o piano, o pistom, o saxofone, o contrabaixo e a bateria do Luís Loy Quinteto. Todos proϐissionais experimentados, com vasto currículo na noite e talento de sobra. Os Originais do Samba, recémchegados do Rio e contratados de última hora, apareciam como a opção menos conhecida.
A organização do festival precisava ainda con ϐirmar os nomes dos artistas e as composições competidoras, bem como montar o quebracabeça de unir as duas listas, decidindo quem cantaria cada música. Em casos como o de Chico Buarque, intérprete e compositor de "Bom tempo", a decisão era fácil. O acerto para as outras combinações era mais complicado, até porque os artistas apenas recebiam a composição, sem poder opinar se gostariam de defender esta ou aquela música. Talvez por haver tantos nomes de peso, porém, não houve relatos de ninguém descontente com a decisão da organização. Elis Regina, desde sempre favorita a vencer qualquer disputa, cantaria "Lapinha", uma composição de Baden Powell e Paulo César Pinheiro. Jair Rodrigues, outro favorito por causa de sua grande popularidade, defenderia "Coisas do mundo, minha nega", do novato Paulinho da Viola, "Festival de amor", de João de Barro, e também "Canto chorado", de Billy Blanco – amigo pessoal de Sérgio Porto e cacifado por este como grande favorito. Edu Lobo, o grande vencedor do III Festival da Música Brasileira, subiria ao palco do Teatro Record Centro ao lado da cantora Márcia com "Rainha, portabandeira". Se a decisão do repertório era exclusiva dos produtores, a escolha dos arranjos para as músicas era de responsabilidade dos artistas. Era possível fazer desde uma performance minimalista, no estilo banquinho e violão, até explorar as in ϐinitas possibilidades do naipe de ϐlautas e violinos da orquestra de Erlon Chaves, mas Elis não quis saber de uma coisa nem outra. Assim que viu a animada batucada dos Originais no primeiro dia de ensaio para a Bienal do Samba, decidiu que os ritmistas tocariam ao seu lado.
"Lapinha" usava como base os versos populares sobre o mítico Besouro do Cordão de Ouro, um herói do folclore baiano. De acordo com a lenda, Besouro viveu em Santo Amaro da Puriϐicação e resolvia seus problemas na base da capoeira, algo proibido nos anos 1930. Quando a coisa engrossava, ele sumia no mar com seu saveiro. Nada de mal lhe acontecia, pois tinha o corpo fechado. Mesmo assim, por causa da traição de uma mulher, Besouro fora assassinado. "Lapinha" resgatava a história, com o refrão "Quando eu morrer, me enterrem na Lapinha / Calça culote, paletó almofadinha" seguido pelos versos folclóricos de "Adeus Bahia / Zum-zum-zum / Cordão de ouro / Eu vou partir porque mataram meu besouro".
O modo como Baden Powell começou a tocar violão após uma temporada morando na Bahia é parte importante para explicar a composição de "Lapinha" e a consequente evolução de Mussum como músico. Frequentando terreiros de candomblé e rodas de capoeira, Baden colocou mais negritude no seu samba com in ϐluências fortes do jazz e da Bossa Nova, dando uma pegada de percussão na sua linha melódica e tirando notas do violão como se este fosse um berimbau. Um estilo único, moderno e ao mesmo tempo autêntico. Por isso, tanto o autor quanto a intérprete concordaram rapidamente em usar a percussão dos Originais do Samba nos arranjos da canção que defenderiam na Bienal do Samba. Elis sabia que para ganhar um festival era preciso potência. O público cantava junto, e músicas sem pegada corriam o risco de ser cobertas pelo alarido do auditório. Nada melhor então do que contar com uma compacta escola de samba na retaguarda.
Durante os ensaios, rapidamente Mussum tornou-se conhecido e querido por todo o elenco de músicos contratados pela TV Record. O carioca usou toda sua simpatia para se aproximar dos cobras e arrumar contatos para tocar na noite e beliscar alguma participação nos programas da emissora. Uma amizade que serviu de chave para abrir essas portas foi Caçulinha. O sanfoneiro Rubens Antônio da Silva liderava o Regional do Caçulinha, grupo que acompanhava grandes nomes da MPB em seus shows, era contratado da Record e identiϐicou um talento acima da média nos Originais. Se durante a competição Mussum ϐicava quietinho, apenas tocando e sambando um pouco, nos bastidores ele se soltava, colocando apelidos nos colegas e fazendo piadas o tempo todo, assim conquistando os novos cumpadis. A admiração proϐissional logo foi transformada em uma grande amizade e a partir daí os cariocas começariam a sair para comer pizza e beber um mé com os contratados da Record. O combinado entre artistas e diretores era não tomar bebidas alcóolicas durante os shows e ensaios. Mas, depois, a farra estava liberada. Saindo do Teatro Record, um numeroso grupo de sambistas ia desbravando os caminhos até o centro velho de São Paulo, fechando bar atrás de bar em uma romaria que só terminava de manhã, no Hotel Normandie, na Avenida Ipiranga, onde a Record pagava a hospedagem de seus artistas. No meio desses passeios noturnos, a cantina Gigetto, instalada no número 63 da Rua Avanhandava, conquistou o posto de restaurante preferido de Mussum. Frequentado por gente do teatro, músicos, políticos e esportistas, o restaurante era a primeira escolha antes ou depois dos shows dos Originais quando a ideia era afundar até os narizes em deliciosas massas, sopas e pratos famosos como o coquetel de camarão, o cabrito à ϐiorentina e o steak à Diana — ϐilé mignon ϐlambado no conhaque com um molho à base de mostarda e salsinha, caldo de carne, molho inglês e tomates frescos. No prato de Mussum, o mais comum era ver pedaços enormes de lasanha bolonhesa, mas ele não dispensava nenhuma das dezenas de iguarias do cardápio da casa. Não raro colegas e garçons ϐicavam espantados com o apetite do tocador de reco-reco. Já nesta época todos riam com as respostas que Mussum dava quando era chamado de crioulo ou de negão.
— Negão é teu passadis!
— Negão é tua véia!
— Negão é a puta que te pariu, cumpadi!
Esse relacionamento franco e engraçado faria toda a diferença em um futuro próximo, uma vez que Xixa, também do Regional do Caçulinha, topou incrementar o número de Elis e dos Originais tocando cavaquinho. A proximidade com o time da Record também colocou o conjunto de ritmistas em outros números do festival, acompanhando os ensaios e as apresentações de artistas consagrados. Mussum e seu grupo tentavam ali dar um passo decisivo em suas carreiras. O sucesso na TV Record era garantia de uma exposição enorme e, mais que isso, uma chance de entrar no seleto clube da MPB, deixando para trás o rótulo de "samba para gringo ver". A apresentação do grupo seria já na primeira noite de eliminatórias da I Bienal do Samba, em 11 de maio de 1968, às 22 horas. Naquela noite, o público do Teatro Record assistiria a 12 concorrentes do festival. A transmissão do evento seria estendida aos cariocas, pela TV Tupi da Guanabara, aos mineiros pela TV Itacolomi, de Belo Horizonte, e para o restante do Brasil pela cadeia de estações de rádio da Jovem Pan. O palco enfeitado com pandeiros gigantes recebeu os apresentadores Blota Jr. e Sônia Ribeiro, ambos com trajes de gala, que deram início ao evento. Logo de cara, Elis, Baden e Os Originais do Samba subiram ao palco para defender "Lapinha".
A introdução da música trazia uma versão contida da batucada dos Originais, com a cuíca de Bidi em destaque e Baden Powell dedilhando freneticamente o violão. Aí entrava Elis segurando a voz em um tom mais baixo, cantando os versos que ao mesmo tempo eram o começo e o refrão da música de forma quase professoral. Aos poucos, a música crescia, Elis balançava os braços regendo o público e pedindo o acompanhamento de palmas. Quando soltava a voz na parte mais alta da canção, a Pimentinha já havia conquistado o auditório. Logo na primeira exibição do primeiro dia, ouvia-se o grito de "já ganhou" na plateia. Mas mesmo com a recepção fantástica, ainda era preciso esperar. Muitos nomes de peso iriam se apresentar naquela noite e apenas quatro sairiam classificados.
Após Elis e Os Originais, subiram ao palco artistas de diferentes épocas, mas todos com talento inegável: Isaura Garcia cantando "Ingratidão" (Ismael Silva), Germano Mathias com "Sandália da mulata" (Donga/Walfrido Silva), Milton Nascimento interpretando "Tião, braço forte" (Marcos Valle/Paulo Sergio Valle), Zé Kéti com sua "Foi ela", Demônios da Garoa tocando "Mulher, patrão e cachaça" (Adoniran Barbosa), Helena de Lima e Miltinho defendendo "Escola de samba" (Luis Antônio), Jorge Goulart cantando "A feiticeira do Araxá" (Noel Rosa/Anescar/Ivan Salvador), Chico Buarque com a sua "Bom tempo", Noite Ilustrada cantando "Marina" (Sinval Silva), Djalma Dias defendendo "Pra frente" (Pedro Caetano/Claudionor Cruz) e, ϐinalmente, Jair Rodrigues cantando "Coisas do mundo, minha nega" (Paulinho da Viola), este último com acompanhamento dos Originais.
Terminadas as apresentações, ϐicava claro que Elis, Jair e Chico eram os favoritos não apenas à classiϐicação na eliminatória como também ao título da I Bienal do Samba. O problema era escolher a quarta vaga, entre tantas performances arrebatadoras. Segundo o regulamento, cada membro do júri deveria escolher quatro concorrentes. No ϐinal, aqueles que tivessem mais votos, estariam qualificados para a grande noite.
Enquanto a decisão era tomada, o palco do Teatro Record foi ocupado por Aracy de Almeida em uma apresentação em homenagem a Noel Rosa. A "Dama da Central" encantou o público cantando "X do problema", "Feitiço da vila" e "Com que roupa". Foi tão aplaudida que precisou fazer bis. Três vezes. Após a consagradora apresentação, Blota Jr. e Sônia Ribeiro voltaram para debaixo dos holofotes para anunciar os classiϐicados, que tocariam novamente suas músicas após o anúncio. Assim foram anunciadas as quatro vencedoras: "Lapinha", "Bom tempo", "Foi ela" e "Marina", ou seja, Elis, Chico, Zé Kéti e Noite Ilustrada.
Para Elis Regina e Baden Powell a decisão foi protocolar. Experiente em festivais, a cantora sabia do potencial da música que defendia. Para Os Originais, no entanto, a vitória foi um grande alívio e uma grande felicidade. Das três eliminatórias, a primeira era a mais diϐícil. Na segunda seletiva, a produção elencou sambistas mais tradicionais, como Moreira da Silva e Ataulfo Alves, mais como forma de homenagem do que pela competição. Estava claro que os classiϐicados seriam os modernos MPB-4 e Marília Medalha, e os populares Ciro Monteiro e Clementina de Jesus. Na terceira noite, a fórmula foi repetida, com os nomes mais antigos perdendo suas vagas para os artistas mais jovens, que contavam com maior apoio do auditório. Completaram o casting para a grande ϐinal: Maria Rosa com "Protesto, meu amor" (Pixinguinha/Hermínio Bello de Carvalho), Marília Medalha com "Pressentimento" (Elton Medeiros/Hermínio Bello de Carvalho), Jair Rodrigues com "Canto chorado" (Billy Blanco) e a favorita Márcia com "Rainha, porta-bandeira" (Edu Lobo/Ruy Guerra).
Contratado da Record e sempre muito assediado pelos fãs, Jair Rodrigues defendeu canções nos três dias da I Bienal do Samba. Sempre com muitos aplausos do público e até com uma torcida organizada, que levava faixas e cantava entusiasmada, fosse qual fosse a música interpretada pelo ídolo, Jair trazia toda a tarimba de quem participou e venceu importantes festivais e aproveitava as ocasiões também para garimpar bons músicos e compositores. Foi assim, impressionado com a aϐinação e a qualidade dos Originais, que o cantor foi dar um "alô" para Mussum, Bigode, Lelei e companhia. Elogiando muito os músicos, pela performance e até pelo visual, Jair prometeu ajudá-los a arrumar trabalho em São Paulo. Um convite promissor, que no turbilhão de acontecimentos daquele mês de maio teve que ficar para depois.
Embora todas as classiϐicadas tivessem sido consagradas pelo público, antes da ϐinal, a ser realizada no dia primeiro de julho, duas músicas foram acusadas de desrespeitar o regulamento do festival, "Foi ela", de Zé Kéti, e "Lapinha", de Baden Powell e Paulo César Pinheiro. A composição de Zé Kéti, segundo os detratores, não era inédita e precisava ser desclassiϐicada. A produção apurou e descobriu que realmente a canção estava na trilha sonora de um ϐilme de 1957, Rio, Zona Norte, do diretor Nelson Pereira dos Santos. Na vaga aberta, entrou Jair Rodrigues com "Coisas do mundo, minha nega", de Paulinho da Viola, um samba em forma de crônica, que era tão merecedor da classiϐicação quanto o concorrente eliminado.
A denúncia que recaía sobre "Lapinha" era mais grave: plágio. Diziam os misteriosos detratores que a canção havia roubado parte de sua letra de uma música cantada pelas baianas de Santo Amaro da Puriϐicação. Nos jornais, chegaram a entrevistar um representante da tradicional Academia de Capoeira Ilha da Maré, da Bahia, para con ϐirmar a origem da música. Baden teria reagido com raiva, dizendo que nunca havia escondido a referência à capoeira. Sua ideia era justamente divulgar e homenagear a cultura baiana.
Uma desclassi ϐicação àquela altura poderia ser ruim para Elis e Baden, é claro, mas seria catastró ϐica para Os Originais. Mussum havia largado a Aeronáutica e contava apenas com o dinheiro dos shows em casas noturnas para bancar sua vida em São Paulo e ainda ajudar no sustento de sua mãe, sua esposa e seu ϐilho Augusto, então com três anos. Estava, assim, queimando suas reservas de outros tempos mais gordos, pois a vida na capital paulista era cara e os cachês não eram tão bons e frequentes ainda. O prêmio de 20 mil cruzeiros do festival, destinado ao compositor mas cordialmente dividido entre os músicos vencedores era, portanto, tão importante quanto o reconhecimento artístico que garantiria um bom rumo para a carreira. Por sorte, e por coerência, a organização da Bienal ϐicou do lado de Baden, mantendo sua participação na ϐinal. A aposta de trocar o Rio por São Paulo ainda tinha chances de se mostrar acertada.
Polêmicas superadas, o Teatro Record Centro estava pronto para mais uma noite memorável, adicionando mais um capítulo importante da música brasileira no já histórico auditório na Rua da Consolação. Des ϐilariam por ali composições de Cartola, Chico Buarque, Edu Lobo, Pixinguinha, João da Baiana, Paulinho da Viola... mas o público não queria nem saber. Lotaram todos os lugares disponíveis com ânimo de torcer para seus artistas preferidos: Jair Rodrigues e Elis Regina. Antes mesmo das primeiras apresentações, ouviam-se gritos de incentivo aos dois cantores que tanto cativaram o público paulista com o programa "O Fino da Bossa", ali mesmo na Record.
A cantora Márcia e Edu Lobo foram os primeiros a sentir que o clima competitivo de festival estava presente com tudo. Ao cantar a singela "Rainha, porta-bandeira" foram vaiados por grande parte do público. A música de levada minimalista encolheu – e acabou ϐicando em último lugar na ϐinal. Coisa parecida aconteceu com a novata Maria Rosa que cantou "Protesto, meu amor" e, injustamente, com Ciro Monteiro, que defendeu o belíssimo samba de Cartola, "Tive sim". Apenas o carisma de Clementina de Jesus e de Jair Rodrigues, cada um com sua beleza, amainaram a fúria do público, recebendo aplausos calorosos e gritos de incentivo. Nas demais apresentações, destacava-se uma faixa dizendo "Baden fez Lapinha. Lapinha fez Bienal. Elis brilha neste festival".
Parece óbvio, portanto, dizer que Elis Regina, Baden Powell e Os Originais do Samba pisaram consagrados no palco. Ainda mais depois de mais uma apresentação perfeita, com uma empolgação que começava nos músicos e reϐletia multiplicada na plateia, transformando o teatro em um enorme terreiro soteropolitano. A cantora nem precisava soltar a voz no refrão, pois o auditório faria isso com grande gosto por ela.
Mas ainda havia Chico Buarque, um grande conhecedor da mecânica dos festivais, talentoso cantor e compositor, com carisma su ϐiciente para conquistar o coração das fãs mais histéricas e, ao mesmo tempo, cativar uma crescente admiração dos jurados. Com "Bom tempo", Chico foi recebido por aplausos incessantes e comandou o Teatro Record. A apresentação impecável foi o que faltava para dividir o júri e a plateia.
Foram momentos de tensão para todos. A plateia não parava quieta enquanto a decisão não era anunciada. "Elis! Elis! Elis!" era o coro mais ouvido no Teatro Record, mas quem estava em casa, vendo o festival pela TV, podia ver os outros concorrentes entrevistados elogiando Chico Buarque e dando como certa sua vitória. Nos bastidores, o clima era igualmente tenso. Ao ϐinal da votação, "Bom tempo" e "Lapinha" empataram. Foi preciso fazer uma espécie de segundo turno, apenas com as duas composições. Nesse momento, o jornalista carioca Franco Paulino, amigo tanto de Chico quanto de Baden, saiu-se com a frase:
— Não tem nem o que pensar, vamos ϐicar com o crioulo. Entre um branco e um crioulo, temos que votar no crioulo!
A decisão saiu da salinha e foi direto ao palco, para ser anunciada pelos sempre elegantes e calmos Blota Jr. e Sônia Ribeiro. Aumentando um suspense que não precisava ser aumentado, anunciaram o sexto colocado: Jair Rodrigues, com "Coisas do mundo, minha nega". Após a apresentação de Jair, com uma recepção um pouco morna do público, foi anunciado o quinto lugar: Ciro Monteiro, com "Tive sim". O veterano e querido cantor foi vaiado implacavelmente no que ele consideraria mais tarde um dos piores momentos de sua carreira. Os apupos cessaram uma vez mais, pois Jair Rodrigues voltou ao palco também como quarto colocado e cantou "Canto chorado". A ansiedade do público deixou o ar pesado. Nos bastidores, passava um ϐilme na cabeça de Mussum. Como seria bom vencer aquele festival! Como seria terrível chegar tão perto e perder.
O anúncio de "Pressentimento" como terceira colocada, seguiu-se de uma manifestação ininterrupta que durou todo o tempo de execução da canção. Nem a própria Marília Medalha conseguiu ouvir sua voz. Os aplausos só vieram quando a cantora saiu do palco, a ϐinal, o público sentia-se aliviado por saber que, ϐinalmente, ouviria o resultado ϐinal daquela épica I Bienal do Samba. Antes de terminar de falar o nome de Chico Buarque de Holanda, segundo colocado com "Bom tempo", houve a grande explosão do público. O próprio Chico, ϐlagrado pelas câmeras da Record, batia palmas entusiasmado com o resultado. Perder para Elis Regina não era demérito. Era o mais longe possível que qualquer artista, por melhor que fosse, poderia chegar naquela noite. "Bom tempo" foi tocada com leveza e alegria, sob aplausos, e abriu alas com graciosidade para a consagração de "Lapinha".
Ao subir no palco, já tomado por serpentinas e por todos os participantes da ϐinal do festival, Elis fez um breve discurso, dedicando a vitória ao amigo Edu Lobo, com o som de fundo dos Originais e o cavaquinho de Xixa arranhando o começo de Lapinha. De vestido listrado, cabelos curtinhos e um olhar faiscante, Elis conseguiu atiçar ainda mais o público com uma introdução inspirada:
— Besouro, Cordão de Ouro, foi na capoeira o que Lampião foi no cangaço! Sozinho lutou contra todo um regimento de cavalaria e saiu ganhando. Besouro, homem de corpo fechado que morreu traído por uma mulher. Seu último pedido: morrer onde sempre viveu. Na Bahia! No bairro da Lapinha!
Em um delírio coletivo, Elis, Baden e Os Originais do Samba hipnotizaram o público, e até os artistas, momentos atrás rivais, renderam-se ao refrão e cantaram "Lapinha" em uma versão estendida, sambando, de braços para cima e sorriso no rosto. Para Mussum, foi uma pena não ter tido o prazer de ver Sérgio Porto presenciando aquele momento de glória. O ácido jornalista e membro do júri da Bienal começava a sentir os problemas cardíacos que tirariam sua vida em setembro daquele ano e, internado, não pôde acompanhar o festival. Se lá estivesse, veria o potencial que desperdiçou esnobando os Originais na gravação do seu "O samba do crioulo doido". Depois da vitória histórica na I Bienal do Samba, nem Sérgio Porto nem ninguém poderia dizer que Os Originais do Samba não tinham um nome.