Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões
Capítulo 14
A GUERRA DOS PLANETAS (1979)
"Vocês não têm a chance de ter esse bronzeadis que eu tenho"
As brincadeiras e a informalidade para justiϐicar os atrasos
funcionavam apenas até certo ponto. Quando as discussões encrespavam de vez, Mussum era obrigado a citar os números superlativos dos Trapalhões para os Originais ou então explicar aos Trapalhões a importância dos Originais para sua vida. Sempre dava um empate apertado, e os companheiros tanto da trupe quanto do conjunto acabavam cedendo. Dos dois lados, a presença do malandro mangueirense não era mais opcional. Mais do que um programa de TV, "Os Trapalhões" transformara-se em uma febre nacional, poderosa e lucrativa. O próprio Renato Aragão, criador do grupo e dono da marca, abriu mão de ser o nome maior nos letreiros dos cinemas para explorar melhor a sinergia com o fenômeno da televisão. Em 1978, pela primeira vez com Dedé, Mussum e Zacarias – ainda aparecendo nos créditos como Mauro Gonçalves –, no mesmo elenco, apareceria como título de um ϐilme o nome do grupo, na fita Os Trapalhões na Guerra dos Planetas.
Os Originais do Samba, por sua vez, lucravam com a fama do seu tocador de reco-reco e encontravam espaço cativo na grade da Globo graças ao prestígio e às amizades do integrante trapalhão. Algo ainda mais importante em um período duro para os músicos nacionais. A disco music tomava o lugar do samba e da MPB como ritmo preferido das casas noturnas e a riquíssima fauna da cena musical nacional penava para achar espaço na noite, agora tomada pelos Hi-Fis e disc jockeys. Não era só na novela Dancin' Days que o artista brasileiro perdia terreno para o enlatado. Cenário bem descrito pelos próprios Originais, no álbum de 1977, na reclamação da música "Toca Nicanor", do refrão "Toca Nicador / Toca Nicanor / Stop / Deixa o Rock para a Leonor / Toca Nicador / Toca Nicanor/ Toca samba, por favor". Apesar do protesto, a carreira de músico de Mussum seguia a mesma velocidade de cruzeiro, com grandes expectativas do público, das rádios e da gravadora para o lançamento de "O Aniversário do Tarzan", um disco capaz de traduzir perfeitamente a fase ϐinal de transformação do Mussum sambista para o Mussum humorista.
Ao contrário dos outros álbuns, em que todos os integrantes dos Originais apareciam com o mesmo destaque, sem uma ordem hierárquica de ϐinida nas fotos de capas e contracapas, o LP de 1978 dava claro destaque ao seu integrante mais midiático. Com uma temática infantil, o álbum trazia Mussum em posição central, fantasiado de Tarzan, de sunga com estampa de oncinha e uma bela barriga à mostra, e os outros músicos caricaturalmente fantasiados. Bigode vestido de Mandrake, Lelei de Fantasma, Branca de Neve de Lothar, Chiquinho de Zorro e Bidi de Sargento Garcia. Entre os músicos, desenhos de animais fazendo piadas, em balões coloridos, continuavam o clima de avacalhação. Um orangotango pensava, no cantinho da capa, entre onomatopeias de cartoon: "Eu disse pro Tarzan não ir muito à praia".
Eram referências a alguns dos personagens citados na faixa título, um pagodão misturado com discoteca em uma letra digna de "Samba do Crioulo Doido" costurada pelo experiente compositor de enredos Bidi. Para comemorar o tal do aniversário do Tarzan, apareciam no encontro personagens de histórias em quadrinhos gringos, como os citados na capa, e nacionais, como Mônica, Cascão, Anjinho e Cebolinha – com este último dando uma canja de "Palabéns pla você".
A brincadeira em nada lembrava a qualidade dos primeiros trabalhos ao lado de Elis Regina, Baden Powell e Jorge Ben, mas isso não impediu a pompa de lançamento. Como já havia acontecido com enorme sucesso com "Nego véio quando morre", a nova música do conjunto de Mussum foi lançada com clipe no "Fantástico" e grande investimento do departamento de marketing da RCA. O vídeo, aliás, merece destaque pelo clima de superprodução (para os padrões da época, claro). Os integrantes do conjunto participam de uma festança no meio de uma ϐloresta cenográϐica ao lado de ϐigurantes fantasiados de Shazam, Capitão América, Popeye e outros heróis dos gibis. Mussum, com um chimpanzé a tiracolo, aparece bebendo uma branquinha em vários momentos... até que vai assoprar as velinhas e acaba queimando o bolo ao soprar uma labareda enorme. Afinal, espirrar álcool no fogo...
Não era só na faixa principal que o disco mostrava a distância entre os Originais do ϐinal dos anos 1970 e aquele humilde conjunto de ritmistas queridinhos dos monstros da MPB. Completam a bolacha, "Sambatheque (Tá tudo aí)", uma tentativa de aproximação com o ritmo da moda , com Mussum falando uma frase qualquer em francês, "Blusa amarela", pagode que cita uma nêga tanajura e faz um trocadilho sacana (Olha a blusa dela / Olha a blusa dela / Chegou a nega tanajura com a blusa amarela), e ainda um medley com um pot-pourri que vai de "Carinhoso" de Pixinguinha-João de Barro até "A jardineira", de Benedito Lacerda e Humberto Porto.
Tanta novidade não foi bem-recebida pelos fãs tradicionais dos Originais, mas os novos fãs, as crianças acostumadas a curtir o trapalhão Mussum, garantiram boas vendas. A idolatria do público infantil chegava a incomodar nas turnês. Quando se espalhava a notícia de que Mussum estava hospedado em certo hotel, a molecada saía batendo de porta em porta ou ligando em todos os ramais dos quartos até descobrir onde estava o trapalhão. Quando descobriam, o assédio não cessava mais.
Se bem que dinheiro e espaço nas paradas de sucesso já não eram mais prioridade, a condição de estrela dos Originais e dos Trapalhões consumia quase todo o tempo de Mussum, e ele, casado e pai de quatro ϐilhos, tinha a obrigação e o desejo de passar mais tempo com seus entes queridos. Ainda mais depois de a casa de Jacarepaguá ϐicar pronta, com seus jardins, quartos e salões feitos sob medida para o gosto do novo proprietário. Lembrando-se da sua breve e frustrada carreira de empreiteiro, o sambista fez uma reforma que incluiu a construção de um novo andar na casa, com o quarto do casal com sete por nove metros quadrados, uma belíssima varanda e uma biblioteca. O acabamento dos móveis era em madeira rústica e tijolos à vista, e os objetos de maior destaque na decoração eram duas bandeiras emolduradas, uma do Flamengo, assinada por Zico, e uma da Mangueira, com dedicatória de Dona Mocinha. Tudo para agradar em cheio Neila, a esposa, que deixara seu emprego na Prefeitura de São Paulo para mudar-se para o Rio de Janeiro junto com Sandro, então com 2 anos e Augusto, de 13.
Fora de casa, havia ainda a urgência de aproveitar o retorno ao Rio de Janeiro e a proximidade com a Mangueira e todos os cumpadis das antigas. O jeito foi, então, se multiplicar por quatro. O palhaço da TV, o músico dos palcos, o chefe de família e o sambista boêmio. Com duas longas sessões de gravação para a TV, geralmente no meio da semana, a rotina de humorista proϐissional era dividida com rápidas escapadas pelos botecos. Sempre que podia, encontrava um lugar perto do estúdio ou da locação para tomar um mé. E, no retorno do trabalho, reunia-se com alguns amigos dispostos a matar o bicho na Lapa ou mesmo no Largo do Anil, próximo de sua nova moradia. A adaptação a Jacarepaguá foi tão rápida que Mussum sabia até os horários que os donos dos bares serviam certas iguarias. Muitas vezes saia mais cedo de casa só para começar o dia comendo ovos coloridos fresquinhos e bebendo uma dose de Xixi da Xuxa, como apelidou sua cachacinha envelhecida preferida.
Quando conquistava uma folga, de um dia ou de algumas semanas, dava espaço para passeios com os ϐilhos, brincadeiras com os sobrinhos, viagens com a patroa e rodas de samba em Mangueira. Em uma situação ou em outra, o comportamento de Mussum era sempre o mesmo. Cumprimentava todos aonde chegava e fazia amizades breves, sinceras e fortes com seus parceiros de copo. Já não era mais o moleque magrelo de São Francisco Xavier, mas pedia licença e a benção para Dona Malvina para entrar e sair de casa. Seu rosto era conhecido em todo o território nacional, mas quando estava nas feijoadas na casa de Dona Neuma ou nos botecos do Méier, era apenas mais um mangueirense tomando cachaça, sem camisa e com uma toalhinha pendurada no ombro, para enxugar o "petróleo" que escorria de sua testa enquanto tocava partidoalto junto dos outros colegas de sindicatis.
Os longos anos rodando pelos palcos do Brasil e do mundo, no entanto, ϐizeram com que a resistência de Mussum ao mé aumentasse até atingir proporções lendárias. Poucos eram capazes de acompanhar um dia de bebedeira ao lado do trapalhão. Intercalando cerveja gelada e batidas de limão com doses de uísque, conhaque e o que mais pintasse, ele varava o dia com um copo na mão. Mais raros ainda, eram os relatos de quem via o boêmio trançar as pernas, vomitar ou falar aquilo que não devia. Ao longo dos anos de relacionamento íntimo com as biritis, Mussa desenvolveu alguns gatilhos para evitar vexames. O primeiro e mais usado era a comilança. Junto das grandes quantidades de bebida, encarava quantidades maiores ainda de feijoada, rabada, peixadas, mocotós e churrascos. Fazia pratos enormes e conseguia, assim, segurar a onda para recomeçar os trabalhos novamente.
Quando o segundo turno de beiçadas começava a pesar, Mussum tinha por regra encostar e dormir no primeiro canto disponível. Muitas vezes roncando alto, o mangueirense capotava e dava trabalho para ser acordado ou removido. Se ninguém notasse a escapada e a festa durasse o su ϐiciente, porém, era capaz de emendar um terceiro turno, com mais rodadas de bebedeira e desenfreada comilança. Mesmo com toda a grana, continuava a ter modos simples. No retorno ao Rio, matando a saudade das peregrinações alcóolicas com o cumpadi Nilton, parava nas mesmas biroscas e comia as iguarias dos tempos de soldado de segunda classe. Passavam pelo seu prato hot dogs "com tudo dentro", carne assada no estilo churrasco grego, bolinhos de aipim, ovos coloridos e pedaços meio peludos de pururuca. Um desses points de baixíssima gastronomia ϐicava no bairro da Candelária, onde uma vendinha fazia um mocotó que era uma delícia – apesar de ser preparado em um local sem pia ou torneira, com os pratos sujos lavados em uma bacia.
O divertimento simples contrastava com as responsabilidades cada vez maiores na carreira. No cinema, programado para ser lançado em dezembro, Os Trapalhões na Guerra dos Planetas tinha aspirações ainda maiores que seu antecessor, o campeão de bilheteria O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão. Com Mussum totalmente à vontade e Zacarias dando maior suporte às falas e encenações, partiu-se para a produção mais ousada da carreira do grupo de humoristas até então. No lugar do veterano J.B. Tanko, de 73 anos, que havia dirigido sete ϐilmes trapalhônicos nos últimos dez anos, a produção ϐicou a cargo de Adriano Stuart, de 35 anos, redator preferido do grupo na televisão. Embora escrevesse quadros para o programa na Globo, a verdadeira vocação de Stuart era fazer cinema. Ele havia estreado como ator na TV Tupi em 1951, aos 8 anos, e quatro anos mais tarde já teria seu primeiro papel no cinema, no filme O Sobrado. A partir daí, além de compor músicas, montar peças e atuar no teatro, mergulhou com gosto no escracho das chanchadas da Boca do Lixo.
Para mencionar apenas as obras que melhor traduzem o tipo de humor praticado por Stuart, dois exemplos: Bacalhau (Bacs), a história de um tosco peixe assassino de beldades satirizando Tubarão (Jaws), de Steven Spielberg, e Kung Fu Contra as Bonecas , a saga de um mestre de artes marciais vagando pelo sertão nordestino em busca de vingança contra um bando de cangaceiros efeminados que mataram seus pais. Tanto em uma ϐita quanto na outra, cenas de lutas engraçadíssimas, efeitos especiais feitos na base do improviso e diálogos surreais, misturando humor e malícia. Para completar, Stuart adorava tomar um mé com Mussum e ϐicou muito amigo de todos do elenco por causa de seu jeito caipira e simples de ser. Assim deixava o clima leve no estúdio e todos rendiam bem. Em suma, a receita facilmente reconhecida nos melhores quadros de "Os Trapalhões" na TV seria transportada para o cinema.
A diferença era a grana à disposição do diretor. Se nos tempos de cinema marginal era preciso aproveitar cada tomada pensando em economizar o rolo de ϐilme, na nova empreitada contaria com um orçamento de Cr$ 10 milhões. O montante era maior do que o dobro da arrecadação de bilheteria dos dois filmes anteriores. A verba era fruto do trabalho da recém-inaugurada Renato Aragão Produções Artísticas Ltda., empresa responsável pela captação de recursos, ϐilmagem, edição e produção do ϐilme. Em parceria com a Globo e outros patrocinadores, a R.A. Produções conseguiu bancar tomadas aéreas, locações externas e internas variadas, efeitos especiais, sequências com mais de quarenta ϐigurantes em cena e perseguições envolvendo vários carros e motos ao mesmo tempo. A ϐinal, até para satirizar o blockbuster mundial "Guerra nas Estrelas", de George Lucas, era preciso caprichar. Obviamente, o apuro na produção ia até certo ponto. Nem com muito dinheiro, uma obra de cinema nacional conseguiria equiparar-se a uma superprodução americana. Embora em Os Trapalhões na Guerra dos Planetas haja uma cena dos trapalhões dançando, e depois brigando, em uma boate interplanetária ao som de "People of the world, rise!", do The Trammps, a trilha sonora do longa, quase exclusivamente composta por música instrumental, desaϐiava os tímpanos da audiência com insistentes e repetitivos solos de teclado distorcido. Salva-se apenas a frenética canção-tema, claramente in ϐluenciada pela disco music no ϐinal dos anos 1970.
Nas cenas de luta, apesar do uso de câmera lenta e do grande número de atores envolvidos, há um abuso dos infames replays das cacetadas, mais tarde usados em quase todos os episódios do programa de TV. O Luke Skywalker brasileiro, o príncipe Flick, foi interpretado pelo playboy Pedrinho Aguinaga, famoso como "o homem mais bonito do Brasil" e popular garoto-propaganda do cigarro Chanceller 100, "o ϐino que satisfaz". O vilão, um arremedo de Darth Vader chamado Zuco, é mais uma vez encarnado por Carlos Kurt. Ainda vale destaque no elenco o ajudante do mocinho, um clone de Chewbacca… que fuma! A criatura assustadora foi vivida por uma ϐigurinha fácil de reconhecer em vários episódios de "Os Trapalhões". Figurinha é jeito de falar, claro, pois Emil Assad Rached tinha 2,23 m de altura. Vindo do interior paulista, era exjogador da seleção brasileira de basquete, e fazia sempre o mesmo papel de gigante invocado, que batia em Didi.
Os trapalhões entravam na história de A Guerra dos Planetas após serem abduzidos pelo disco voador de Flick, ou, segundo Mussum, "uma tartaruga voadoris". A aposta na ϐicção cientíϐica e no excesso de trucagens confundiria um pouco a cabeça das crianças, mas, mesmo assim, o ϐilme chegou simultaneamente a 85 cidades brasileiras como a maior atração das férias. Do lançamento no Cinema Rian, na Avenida Atlântica, em 18 de dezembro, até a exibição na mais remota sala no interior do Amazonas meses depois, A Guerra dos Planetas foi a pedida preferida dos brasileirinhos. Embora não tivesse batido o recorde da película anterior, ninguém no país conseguia alcançar a marca dos 5 milhões e ainda assim achar que o resultado não foi lá grandes coisas. O alto investimento de Renato Aragão mais uma vez havia sido pago e o trapalhão líder ganhava fôlego para tirar da gaveta o projeto de fazer dois ϐilmes por ano, com lançamentos programados para estrear nas férias escolares no meio e no ϐinal de cada período letivo. Já havia feito essa mesma aposta em 1973 e conseguido bons resultados. Pensava, com razão, que a fase iluminada dos trapalhões permitiria a produção em dobro com lucros ainda maiores. E isso era o mesmo que dizer que a agenda apertada de Mussum estava prestes a ϐicar impossível de ser cumprida.
Sem a presença paternal de Corumba nem a disciplina dos tempos de pobreza em São Paulo, Os Originais do Samba passavam por um momento delicado. Convites para tocar em todo o Brasil não faltavam, mas o calendário de compromissos da maior estrela do grupo travava a vida do restante do conjunto. Geralmente, às terças e quintas-feiras "Os Trapalhões" passavam o dia todo gravando. Deviam chegar ao Teatro Fênix por volta das 13 horas para passar os textos e fazer o primeiro ensaio com o elenco de apoio e os ϐigurantes. Depois, precisavam ir para os camarins preparar maquiagens e ϐigurinos para começar, de fato, as gravações. Era um trabalho que durava toda a noite e muitas vezes invadia as primeiras horas da madrugada. Isso sem falar nas gravações externas, feitas em dias diferentes e sujeitas a todo tipo de imprevisto. Um quadro na praia não poderia ser ϐilmado em um dia de chuva, efeitos cenográϐicos como explosões e cenários podiam falhar ou atrasar, uma inϐinidade de coisas podia acontecer. O clima era sempre bastante descontraído, com os erros de falas e eventuais mancadas da equipe técnica transformando-se em brincadeiras que quase sempre iam ao ar – e muitos palavrões que começaram a preocupar a cúpula da emissora. Entrou para o folclore de Os Trapalhões uma suposta ordem da Globo para destruir as ϐitas com erros e restos de gravação, para não correr o risco de que um dia o público infantil visse Didi, Dedé e Mussum falando palavrões cabeludos. Ninguém da emissora con ϐirma essa história, mas as brincadeiras escrachadas de fato aconteciam fartamente. Tanto que, décadas depois, vazou na internet um vídeo em que Renato, como Formiga, pede a Zacarias, uma bem-sucedida Cigarra, para mandar La Fontaine, autor da famosa fábula, para a puta que o pariu.
Com ou sem uma esticada para dar uma beiçada depois das gravações, não era possível contar com Mussum logo no outro dia de manhã. Assim, os sambistas viam-se constantemente em um dilema: perder voos para esperar o tocador de reco-reco, viajar sem o integrante e torcer para ele chegar a tempo no destino depois, ou mesmo cancelar compromissos. Qualquer uma das opções era incômoda.
A logística dos Originais era intrincada e exigia empenho dos músicos. Além dos ensaios, gravações para seus discos e a participação em programas de TV e de rádio, as turnês pelo interior do país consumiam semanas inteiras. Geralmente, os músicos hospedavam -se na capital de um estado e viajavam de carro, ida e volta, para as cidades do interior. Podiam, por exemplo, escolher Belo Horizonte como base e dirigir até Juiz de Fora, São João Del Rey ou qualquer outro município mineiro. Os atrasos ou desistências de Mussum complicavam a programação, e a repetição desta situação tornou a convivência do grupo inviável. Até que foi convocada uma reunião para definir qual seria o futuro do grupo.
Por falta de tempo e de local mais apropriado, o papo foi realizado no próprio ônibus do conjunto, durante uma viagem entre São Paulo e Campinas. Os cinco integrantes dos Originais enquadraram Mussum, pedindo uma mudança de comportamento completa ou, do contrário, sua saída. O ultimato estava feito e, com lágrimas nos olhos, a resposta veio com voz embargada:
— Se for preciso, largo tudo e fico com vocês.
Não foi só uma promessa. O conjunto, vinte anos depois da gênese na Praça Tiradentes, buscou suas raízes e voltou a privilegiar a igualdade entre seus integrantes e o samba vindo diretamente do morro – sem perder a tendência ao deboche, claro. O próximo álbum dos Originais, "Clima Total", foi uma síntese do novo compromisso dos integrantes. Na capa, todos de roupa branca voltam a aparecer no mesmo plano, sem hierarquia ou destaque especial para alguém. O repertório, inteiro formado por bons sambas e sem invencionices, trazia participações dos nomes primordiais para a história do grupo. A primeira faixa, "O amor nascerá depois", contava com a especialíssima participação do violão de Baden Powell, "Baile familiar" tinha letra de Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro e nas demais canções acontecia um des ϐile de diplomatas do pagode de favela, como Pelado da Mangueira, Hélio Turco, Neoci, Dedé da Portela, Beto Sem Braço e Bom Cabelo. O pé-quente Luís Carlos também dá as caras, com a excelente "Mané marcou, dançou", assinando a composição ao lado de Tião Pelado. A música, involuntariamente, trazia versos que justiϐicariam exatamente o que aconteceria nos próximos meses com Mussum: "Você marcou, Mané / Mané, marcou, dançou / Agora chora dizendo que a sorte não lhe ajudou".
Compor, ensaiar, gravar, dar uma bela beiçada e tocar samba pelo Brasil eram as atividades preferidas do sambista mangueirense, mas não havia mais tempo para fazer nem metade disso. Enquanto tentava reatar seus laços com o samba autêntico, os compromissos da carreira de humorista ϐicavam cada vez mais constantes e exigentes. Além de ter de gravar dois ϐilmes com os trapalhões em 1979, ϐicou desesperado ao saber que uma das fitas seria rodada fora do Brasil.
O Cinderelo Trapalhão, a ϐita destinada a divertir a molecada nas férias de meio de ano, foi
gravada em locações na estância climática de Miguel Pereira, a 120 quilômetros do Rio. O local era tão agradável e perto da capital, que Mussum acabou comprando uma casa por lá. Não seria um grande problema para a agenda de músico gravar de dia no centro-sul ϐluminense e voltar à noite para tocar com Os Originais. Aϐinal, a sátira da gata borralheira teria uma trama simples e uma produção mais simples ainda. Embora fosse ambientada em "uma pequena aldeia distante do nosso tempo e de nossa terra", como introduzia o narrador, os cenários continham elementos contemporâneos como motos, Fuscas e carros da Ford.
Na história levada aos cinemas sobraria pouco do conto de Charles Perrault. Renato Aragão seria mais uma vez o herói improvável, pobre e sujo, mas com coração de ouro e uma inteligência acima do comum. Dedé, Mussum e Zacarias, em compensação, passariam a interpretar papéis de coadjuvantes engraçados, mas sem grande relevância. Em Cinderelo, ϐicam sem aparecer na tela entre os minutos 17 e 40 da película. Mesmo assim, protagonizam cenas inesquecíveis. Usando um chapéu de pele de guaxinim no estilo Daniel Boone, Mussum aparece bebendo sem nenhum freio. Enquanto os trapalhões treinam levantando pesos e fazendo exercícios para encarar os capangas do vilão, o mangueirense aparece dando goles e mais goles em um copo enorme de cachaça. Mais tarde, numa cena em que todos os personagens se envolvem em uma interminável troca de tapas e pontapés, Mussum reserva-se o direito de sentar e assistir à peleja, enquanto enxuga uma garrafa de mé até cair embriagado.
O ϐilme também traz uma das melhores, senão a melhor, fala de Mussum no cinema. Ao treinar os camponeses para a luta ϐinal, o personagem distrai os aprendizes com um frenético samba de passista e depois aplica uma rasteira em três deles ao mesmo tempo. Espantado, um dos personagens provoca o diálogo:
— Nossa! Você é faixa preta?
— Eu sou preto inteiris, cumpadi! Inteiris!
Como era esperado: sucesso nas bilheterias. Embora muito mais despretensioso que Os Trapalhões na Guerra dos Planetas , Cinderelo também atraiu cerca de 5 milhões de espectadores aos cinemas brasileiros e lucrou Cr$ 12 milhões nas bilheterias. Era a conta necessária para a primeira empreitada internacional da Renato Aragão Produções, o ϐilme O Rei e Os Trapalhões, uma história das mil e uma noites a ser filmada em Marrocos.
Foi mais ou menos nessa época que Dedé começou a brincar, apelidando o colega de "judeu cearense". Como se estivesse em uma mesa de pôquer, sempre com quatro cartas perfeitas, Renato dobrava a aposta e sempre vencia. As cifras conquistadas nas salas brasileiras despertavam até sondagens de estúdios americanos, como a Warner e o Universal. Independentemente da qualidade dos efeitos e da simplicidade dos roteiros, os longas dos trapalhões seguiam como uma das poucas opções destinadas ao público infantil. Concorrendo apenas com desenhos da Disney, reprises de Jerry Lewis e com um punhado de esporádicos ϐilmes de Natal ou obras insossas com classiϐicação "para toda a família".
A intenção de caprichar em O Rei e Os Trapalhões começava nos bastidores. Estava acertada a exibição do ϐilme em Portugal e no México. No Brasil, a fita contaria com 91 cópias para serem espalhadas por todo o território nacional. E todo o dinheiro arrecadado com os títulos anteriores seria apostado novamente na produção. Por isso, no lugar de criar uma cidade cenográϐica e ϐingir que pedreiras cariocas eram desertos, a ideia foi levar toda a equipe para ϐilmar a história inspirada no tradicional conto O Ladrão de Bagdá em locações nas cidades de Marrakech e Rabat.
Com ajuda do Ministério das Relações Exteriores, a R.A. Produções Artísticas conseguiu liberar a entrada de 28 pessoas no Marrocos. A comitiva seria formada pelo elenco, a equipe técnica e três intérpretes. De acordo com os planos de Renato, quanto mais cenas fossem gravadas na África, melhor. Mas as coisas não seriam nada fáceis. Didi, Dedé, Mussum, Zacarias, Adriano Stuart, Carlos Kurt e companhia chegariam em um país em guerra, em meio ao pináculo de uma crise política. Em agosto de 1979, o Marrocos estava envolvido, junto com a Espanha e a Mauritânia, em uma disputa territorial chamada de Con ϐlito do Saara Ocidental. Por isso, todos os passos dos brasileiros seriam seguidos de perto por soldados armados e muito desconfiados dos visitantes.
Na prática, a autorização obtida com a ajuda de Brasília não serviria de nada. A equipe ϐicou parada 13 dias sem poder ϐilmar e sem entender a razão da proibição, enquanto derretia sob um calor tão forte que obrigou Mussum a tirar sua inseparável corrente de ouro do pescoço. A agenda de ϐilmagens estava severamente atrasada, consumindo o orçamento destinado às despesas da viagem e deixando o mangueirense maluco, afinal, o mé é proibido por aquelas bandas.
Para contornar a situação, foi preciso boas doses de malandragem. Uma parte da equipe pediu autorização para sair sozinha e fazer um piquenique. Na verdade, escaparam rapidamente para ϐilmar ilegalmente. O equipamento foi escondido dentro de cestos de vime, com sanduíches por cima. Em outro chapéu aplicado na guarda marroquina, o diretor Adriano Stuart exigiu, por meio do intérprete, que o guarda fosse ligar novamente para seus superiores, insistindo no pedido de autorização. Enquanto o militar saía para fazer a chamada, a equipe ϐilmava tudo rapidinho. Quando o incauto voltava, negando a autorização, as cenas já estavam gravadas.
Até quando, ϐinalmente, a permissão oϐicial para levar suas câmeras às ruas chegou, as exigências das autoridades marroquinas beiravam o absurdo. Podia-se gravar de um lado de uma rua, mas não do outro. Alguns ϐigurantes locais eram proibidos de aparecer, outros eram incentivados. Planos com o famoso mercado de rua de Marrakech foram vetados, mostrar os cavaleiros berberes foi liberado. Para azar de Mussum, a cena com os encantadores de cobras foram permitidas. O sambista tinha pavor dos bichos e, após muita reclamação, pediu para ϐicar fora das sequências que mostravam os personagens Abel, Abil, Abol e Abul (as versões Sherazade de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias) perto das najas. Esse seria o menor dos problemas.
Ameaçados de terem o parco material gravado apreendido, a produção precisou contrabandear algumas das latas com ϐilmes, escondendo o material em meio a roupas sujas nas malas. No ϐinal das contas, menos de 40% das cenas da versão ϐinal do ϐilme traziam imagens capturadas no Marrocos. Foi preciso improvisar de novo, transformando o Rio de Janeiro em cidadela persa e incluindo no roteiro uma viagem no tempo com os malandros das mil e uma noites passando uma temporada em um típico xadrez carioca. Se a criançada engoliu um planeta dos macacos e uma guerra nas estrelas feitos com sérias restrições cenográ ϐicas, aquilo não seria problema. E, mais uma vez, a cara de pau do chanchadeiro diretor Adriano Stuart contou a favor da improvisação. Com o mínimo de atraso, O Rei e Os Trapalhões chegou a tempo de aproveitar as férias de verão da molecada e manter a sequência de vitórias de Renato Aragão nas bilheterias. Apesar de todas as diϐiculdades ϐinanceiras, a ϐita alcançou 4,2 milhões de espectadores. Se não era um recorde, pelo menos pagava os prejuízos e alimentava as esperanças de expansão internacional da marca "Os Trapalhões". Em menos de 12 meses conquistaram um público superior a 10 milhões de pessoas, e o sinal verde estava dado para os preparativos para o próximo filme a estrear nas férias de julho.
Assim, junto com a con ϐirmação da agenda para 1980, com mais dois ϐilmes, programas semanais na Globo, shows em circos pelo Brasil e ainda a gravação de discos de piadas e a participação na escolha de produtos licenciados como brinquedos e gibis, veio a decisão inevitável para Mussum. Após um show no interior de São Paulo, onde o contratante espalhou cartazes anunciando "O Trapalhão Mussum e Os Originais do Samba" e o público não aplaudia as músicas, pois queria apenas ouvir piadas, foi convocada mais uma reunião. Dessa vez, ϐicou decidido que o posto de tocador de reco-reco estava vago. Mussum começaria a nova década como um trapalhão em período integral – ou quase isso.