Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões
Capítulo 10
TODO MARTINHO DA VILA TEM SEU DIA DE JOHNNY
MATHIS (1973)
"Engraçadis, não! Eu sou homem!"
Nem sequer um passo de Antônio Renato Aragão foi fácil no caminho
percorrido entre o primeiro dia de testes como redator, na TV Ceará, em 1960, e a consagradora estreia de "Os Trapalhões", na Globo, em 1977. Apaixonado pelas chanchadas de Oscarito, o bacharel em Direito formado pela Universidade Federal do Ceará perseguia o sonho de repetir o sucesso do ídolo da Atlântida nos cinemas, mas, aos poucos, levado pelas enormes mudanças vividas no Brasil dos anos 1960, acabou dedicando boa parte de sua vida à televisão. Questão de sobrevivência. Antes de conseguir ver seu nome projetado em uma tela de cinema, o humorista passou por alegrias, calotes, aprendizados e decepções enquanto fazia suas palhaçadas na emissora de Fortaleza, depois na Tupi e mais tarde na Excelsior.
Chegou a ϐicar desempregado e endividado a ponto de vender os móveis de casa para comer, mas recebeu a ajuda providencial de Manoel de Nóbrega e foi atuar no programa "A Praça da Alegria", inicialmente fazendo participações como substituto de atores que faltavam e mais tarde transformando-se em uma das estrelas da companhia. Renato levou à atração um humor mais agitado, baseado em tombos, tapas e escorregões que imitava dos palhaços de picadeiro. Com muito trabalho e talento, após ocupar seu espaço no tradicional programa, ganhou uma chance de retomar sua trajetória de protagonista, mas até isso foi na base do susto. Na época dos bicos na TV Record, quando atuava por cachê ao lado do ϐiel parceiro Dedé Santana em humorísticos da casa, como "A Praça" e "O Quartel do Barulho", foi chamado para conversar com o todo poderoso Paulinho Machado de Carvalho. Entrou no escritório do executivo ao lado do colega esperando levar alguma bronca, mas a notícia que ouviria seria bem diferente.
— Não está certo os dois ali na "Praça"... Vocês precisam de um programa só para vocês!
Da oportunidade nascia, em janeiro de 1972, "Os Insociáveis", uma atração de tiro curto, com 10 minutos de duração, exibida nas noites de quinta-feira às 20h50. O nome sugerido pelo chefe não agradou em nada os humoristas, mas eles nem cogitaram reclamar. Não entenderam muito bem o trocadilho que o chefe havia bolado para satirizar o seriado de gângsteres "Os Intocáveis", mas, depois de muito perrengue, aquela seria a chance perfeita de voltar a brilhar na TV. A Record tinha uma estrutura muito mais pro ϐissional do que as rivais, e seu elenco estrelado por artistas como Hebe Camargo e Ronald Golias era líder de audiência em várias faixas de horário. O pouco tempo no ar e o nome esquisito seriam só detalhes, pois a receita do programa seria a mesma de sempre: comédia pastelão com tombos, brigas, muito improviso e piadas em linguagem popular.
O resultado? Bem, também foi o mesmo de sempre. A química de Didi e Dedé agradou ao público mais uma vez, a audiência crescia a cada semana e o gostinho de quero mais deixado no ar ao ϐinal de cada programa fez com que a Record dobrasse a aposta em "Os Insociáveis". O tempo no ar aumentou, o elenco de apoio cresceu, as histórias ϐicaram mais complexas e Renato Aragão, protagonista e principal redator do programa, quase teve uma estafa de tanto trabalhar. A correria valia a pena, no entanto, quando os relatórios com os índices do Ibope chegavam com os números mostrando o crescimento da atração, não importando o horário ou qual das emissoras da Rede de Emissoras Independentes exibia o programa. Às segundas, quintas ou sábados, de tarde ou de noite, em apresentações inéditas ou reprises, as palhaçadas de "Os Insociáveis" resolviam a parada. Foi inevitável, então, a chegada de um novo convite da Record. Paulinho Machado de Carvalho ofereceria um novo contrato a Renato, para a realização de um programa de uma hora de duração. O cearense disse ser impossível dar conta do trabalho com a mesma pegada sem receber reforços na produção e, principalmente, no elenco. O empolgado chefão topou na hora, dando carta branca para o humorista ampliar a atração da maneira que quisesse – algo raro vindo de um executivo conhecido por ter um histórico de negociações duras com seus contratados.
Seguindo ϐielmente a linha do "quanto mais popular, melhor", aliada com a formulação de novas tramas e personagens, juntos Renato e Dedé decidiram que o novo integrante da trupe deveria ser um ator negro. A inspiração veio das comédias americanas do começo dos anos 1970, quando nomes como Bill Cosby e Richard Pryor faziam sucesso com tipos engraçados, independentemente de usarem fantasias ou atuarem em papéis de afrodescendentes estereotipados. Para que isso funcionasse, concluiu a dupla, o artista deveria ser pouco conhecido. Não adiantaria contratar um humorista com uma bagagem pronta repleta de bordões e trejeitos. Renato queria alguém novo.
O primeiro nome a surgir foi o de Tião Macalé, uma ϐigurinha fácil nos quadros cômicos de espetáculos musicais da noite carioca, com algumas participações em programas de TV no currículo. Na época, Macalé atuava no humorístico "Balança mas não Cai", da TV Tupi, e, buscando referências sobre o artista, Renato e Dedé descobriram sua fama de ser péssimo em decorar textos e ótimo em inventar desculpas para chegar atrasado nas gravações. Daí suas participações reduzidas e falas curtas. Não servia para ser um "insociável".
O próximo nome a surgir foi o de Mussum. Embora fosse familiar ao público, principalmente por ser o líder dos Originais do Samba, suas atuações como cômico começavam a ϐicar conhecidas dos telespectadores paulistas por causa das pontas que acabava fazendo em atrações da Record que misturavam o elenco de músicos, atores e comediantes. Nessa fase, o mangueirense encarou nada menos do que "Romeu e Julieta", de William Shakespeare. Evidentemente, a montagem da peça era uma palhaçada só. Os protagonistas do teleteatro seriam Ronald Golias e Hebe Camargo, Mussum faria o papel de Baltazar, servo da família Capuleto e con ϐidente de Romeu. Outra experiência como ator aconteceu no humorístico "Aquela Feliz... Cidade", da TV Excelsior, onde às 20h30 das sextas-feiras, Mussum fazia algumas pontas em quadros de Berta Loran, Eloá Dias, Neide Monteiro, Jaime Filho, dirigido por Wilton Franco.
Mais ou menos nessa mesma época, o "Show do dia 7" colocaria o sambista-palhaço como sua atração principal. Exibida uma vez por mês, a atração era uma espécie de apoteose da emissora, com números de humor, musicais e entrevistas, e foi anunciada assim: "Atenção Ibope, Marplan e Gallup. Hoje é dia 7! E neste Dia 7 Especial, o crioulo Muçum, muito à vontade, vai ingressar deϐinitivamente no primeiro time de nossos artistas. Ele vai comandar o Dia 7 Especial, que vai focalizar os assuntos mais incríveis do mundo moderno. Muita gente boa vai estar
com Muçum. Hoje, às 20h45, na TV Record, Canal 7". 13
Essas aparições cada vez mais frequentes colocaram o "crioulo Muçum" novamente no radar de Renato, que ainda lembrava bem de Mussum participando do "Chico Anysio Show", quando seu rosto negro e os olhos brancos, arregalados, chamaram sua atenção pela semelhança dos seus trejeitos com um personagem de desenho animado. Mal sabia ele da trajetória do tocador de reco-reco como coadjuvante de seriado na TV Globo e estrela do cinema mexicano. Melhor assim, pois soava como boa ideia transformar músicos e artistas de outras áreas em atores e, desta forma, atrair uma audiência diferente à atração. A primeira formação dos Trapalhões, por exemplo, foi ao ar em 1966, pela TV Excelsior, tendo no elenco o cantor Wanderley Cardoso e o lutador de Telecatch Ted Boy Marino ao lado dos humoristas Ivon Curi e Renato Aragão. Isso sem falar nos ϐilmes de Roberto Carlos e nas seguidas tentativas de transformar Agnaldo Rayol, Jerry Adriani, Ronnie Von e outros em atores.
Outro ponto favorável à escolha de Mussum era a excelente relação pessoal do sambista com Dedé Santana. O trapalhão era fã de longa data dos Originais e havia conhecido o grupo ainda nos anos 1960, quando produzia shows nos dancings paulistanos para dar uma força no seu esquálido orçamento mensal. A descoberta foi feita por intermédio de Jair Rodrigues, então atração da boate Azteca, onde Dedé fazia bico de diretor artístico. O jeito engraçado e espaçoso de Mussum conquistou Dedé logo de cara e, pouco tempo depois de serem apresentados, já se consideravam cumpadis. O mangueirense virou ϐigura fácil nas festas promovidas na casa do humorista e tinha intimidade para ser o primeiro a chegar e o último a sair das reuniões –muitas vezes levando potes de plástico com feijoada e outros quitutes que sobravam nos convescotes. Dedé, só para provocar, gostava de chamar o amigo de Negão. Sabia que sempre ia ouvir como resposta um palavrão cabeludo ou uma ofensa, na base da brincadeira, é claro. A partir daí começavam as trocas de ironias envolvendo as progenitoras de ambos:
— Negão, enquanto tu está tocando reco-reco aqui em São Paulo, tua mãe está lá no morro correndo atrás dos malandros, cobrando o programa com uma navalha na mão!
— Pior é a tua mãe, contorcionista, né? Famosa Dona Ondina! Alegria do dono do circo! É ela quem consegue o terreninho para o pessoal armar a barraca!
Em virtude de tanta intimidade, naturalmente coube a Dedé a missão de fazer o convite ao cumpadi. Apesar das experiências bem-sucedidas no "Bairro Feliz" e no "Chico Anysio Show", Mussum relutava bastante em aceitar convites mais sérios para trabalhar na TV. Não seria fácil. Os Originais estavam no auge e sua vida já era atribulada o bastante com os compromissos da agenda de músico. Tanto que a casa no condomínio em São Bernardo do Campo tinha sido deixada para trás, trocada por outra residência na Avenida Interlagos, na zona Sul da capital. Não dava mais tempo para se deslocar de SP para o ABC nas madrugadas entre um show e outro. A troca signiϐicou também a vinda de Dona Malvina para São Paulo. Não faltava espaço na nova residência e o sambista, como bom filho, decidiu dar mais conforto para a velha guerreira.
Dedé então resolveu ir logo cedo até a casa de Mussum para tratar de sua contratação. Era uma manhã chuvosa em São Paulo e, antes de bater à porta do amigo, Dedé acabou sujando suas botas com lama no caminho entre o carro e a porta. Como foi recebido por Dona Malvina, Dedé ϐicou constrangido em entrar na casa sem tirar os sapatos e também por chegar tão cedo à casa do colega. Eram cerca de sete e meia da manhã, não era de bom-tom incomodar alguém tão cedo. Causou estranheza também quando Dona Malvina disse que Carlinhos estava dormindo. Era no mínimo irônico chamar um cara daquele tamanho por qualquer diminutivo. Mas, assim foi feito.
A casa, como era costume de Malvina, estava extremamente limpa e tinha uma mesa farta. Dedé foi recebido com um cafezinho passado na hora e conversava sobre amenidades com a mãe do amigo. Na noite anterior, assim como em praticamente todas as noites antecedentes, Mussum havia se apresentado com os Originais e chegado em casa depois das quatro horas da manhã. Foi preciso chamá-lo duas, três vezes, para acordá-lo até que ele surgisse aos berros, descendo do quarto no segundo andar do sobrado, vestindo um roupão e pisando ϐirme e apressado. Demonstrando uma raiva que de antemão assustou tanto Dedé quanto Dona Malvina, saiu dizendo:
— Mãe, o que este safado está fazendo aqui? Ele vive falando mal da senhora! Fala que a senhora corre atrás dos crioulos no morro! Que eles trepam, saem sem pagar e a senhora sai correndo atrás deles com a navalha para cobrar!
A gritaria seguiu, com Mussum listando as várias brincadeiras obscenas ditas pelo amigo e inventando ainda outras tantas. Não restou a Dedé outra opção a não ser levantar-se da mesa e ir embora o mais rápido possível. Saiu rápido a ponto de esquecer-se de colocar suas botas e encenar uma típica cena de pastelão, sujando-se todo ao caminhar apressado até o carro sobre as poças de barro, calçando apenas meias. Antes de abrir a porta do automóvel, Dedé ouviu uma estrondosa risada. Era apenas uma brincadeira de Mussum, que enquanto recuperava o ar entre uma gargalhada e outra falava:
— Entra logo aqui, seu safado!
Após o susto com a convincente atuação do sambista no trote, Dedé ouviu uma negativa resoluta ao convite que levara. Mussum dizia que era músico e que não havia gostado das outras experiências que tivera na televisão. Militar, mangueirense e pai de família não podia usar maquiagem, cacildis! O sambista até sugeriu que Dedé levasse a oferta a Bidi, colega dos Originais chegado a fazer piadas tanto quanto ele próprio. Dedé insistiu mais e disse que o amigo precisaria apenas decorar alguns textos curtos, que era muito mais fácil trabalhar em "Os Insociáveis" em algumas cenas do que fazer um papel em uma novela ou atuar no meio das feras da "Escolinha".
Mussum ϐicou de pensar, mas não respondeu positivamente. Na manhã seguinte, Dedé voltou para pedir uma resposta. Mussum não estava. O humorista repetiu o convite por mais alguns dias, fez diversas ligações e nada. Mussum havia sumido do mapa. Era mais uma brincadeira do sambista que amadurecia a ideia de en ϐim levar a carreira a sério? Para tirar a dúvida, Dedé foi ao escritório dos Originais do Samba, na Galeria Cinerama, na Avenida Ipiranga, próxima da famosa esquina com a Avenida São João. Pegou Mussum ainda em dúvida. Insistiu um pouco mais. Prometeu falas curtas, horários ϐlexíveis, bom salário, lembrou da facilidade em trabalhar na TV Record, onde Mussum já ia quase toda semana se apresentar com os Originais, pediu pelo amor de Deus... e conseguiu dobrar o amigo. Em junho de 1972, às 20h45, no Canal 7, "Os Insociáveis" apareceriam com seu novo integrante em um formato remodelado.
Para ocupar uma faixa de horário mais ampla, o programa havia sido reformulado. No lugar dos esquetes rápidos com Didi e Dedé, ocasionalmente acompanhadas por Roberto Guilherme e outros artistas do elenco da Record, o humorístico teria uma cara de sitcom. O palco do Teatro Record da Rua Augusta foi transformado em uma vila de casas grudadas uma na outra, com a quitandinha do Joaquim no canto e uma faixa onde lia-se: "Vila Popular – ϐinanciamento em 150 anos, com correção mortuária". As histórias quase sempre aconteciam em torno do inquieto e malicioso Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgina Mufumbo. Vestindo sempre seu terno largo, com uma gravata enorme e a etiqueta de preço pendurada como se tivesse acabado de comprar as peças de um brechó, o personagem vivia inventando formas de ganhar dinheiro sem trabalhar, atazanar os vizinhos e conquistar uma namorada. Sendo que a última tarefa, claro, nunca era concluída. Dedé e Beto Baiano (Roberto Guilherme), ambos com cabelo comprido e costeletas generosas, sofriam na mão do cearense. O bigodudo português da vendinha, decorada com escudo da Portuguesa de Desportos, então, nem se fala. Dependendo do roteiro, a atração contava com convidados especiais, como o cantor Djalma Lúcio do sucesso "O que passou, passou", fazendo o tipo galã, e outros artistas da Record. A Mussum sobrava o papel de parceiro de traquinagens de Didi. Sempre vestindo seu chapeuzinho característico, o sambista, conforme prometido, tinha poucas falas e ϐicava inicialmente com a punch line das piadas, isto é, a parte mais engraçada do texto. Funcionava muito bem. O novo integrante compôs bem a fórmula responsável mais tarde por consagrar "Os Trapalhões", com Dedé e Roberto interpretando homens de bem – e invariavelmente nervosos – servindo como escada para as brincadeiras.
Outra marca do humor trapalhão presente em "Os Insociáveis" era o improviso, com muitas referências engraçadas a elementos que não estavam no texto. Renato chamava com ironia o novo colega de Doutor Antônio Carlos em cena, duvidava da masculinidade de Dedé e desrespeitava as marcações do texto, fazendo piadas com as calças boca de sino e botinhas carrapeta dos parceiros. Mussum entrava solto na brincadeira, mandando recados para os amigos da Mangueira durante os episódios e misturando a ϐicção com a sua vida real. Ao faturar um broto disputado com Didi, no ϐinal de um episódio, Mussum pisca para a câmera e sai caminhando todo feliz dizendo:
— Todo Martinho da Vila tem seu dia de Johnny Mathis.
Em outra cena, vestido de noiva, para ajudar em um golpe de Didi, Mussum acaba estranhando a intimidade dos abraços com que o colega começa a tratá-lo e protesta, arrancando o véu da fantasia:
— Sai pra lá! Nasci corinthis, vou morrer corinthis!
Assim, em pouco tempo, coisa de três ou quatro semanas, a química entre Didi, Dedé, Beto e Mussum mostrava-se perfeita. À vontade em cena com os colegas, o sambista ganhava mais falas e seu personagem aparecia com mais importância nas tramas. A carreira como ator ia tão bem que rendeu novos convites, o primeiro deles para participar de uma bem-humorada novela chamada "Meu adorável mendigo". Na trama, ao lado de nomes como Ankito, Jussara Freire, Ewerton de Castro e Zilda Cardoso, Mussum interpretava o mordomo Benedito, sempre às voltas com o inconveniente mendigo, vivido por Borges de Barros, um dos mais populares comediantes da "Praça da Alegria", graças ao seu papel de um morador de rua que se dizia amigo íntimo de celebridades e chefes de Estado.
O sucesso de Mussum e de "Os Insociáveis" com o público podia ser medido pelas risadas do auditório da Record e pelos bons números da atração no Ibope, mas a crítica especializada em cultura batia duro no humor direto e escrachado. Na 14 Folha de S.Paulo, o jornalista Caio Mario Britto comparava o programa de Renato Aragão com "Faça Humor, Não Faça Guerra", de Jô Soares e Renato Corte Real, aproveitando o espaço para esculachar a falta de modernidade do humor brasileiro. Segundo sua coluna, "Nenhum programa de humor sofre modiϐicação. Todos são meras cópias de outros ou deles mesmos". Para Britto, Dercy Gonçalves "poluía o horário nobre com rugas" e "A Praça da Alegria" era um "Vilarejo de Nostalgia". Para "Os Insociáveis", guardou linhas mais carregadas. "O programa é impróprio para maiores de 5 anos (de mentalidade, claro, pois de resto, são proibidos até para pessoas de baixo gosto)". Havia até um conselho ao "tal de Muçum ou qualquer coisa parecida", dizendo que ele "não deveria jamais ter abandonado a cuíca (ou reco-reco?) da alazinha da Escola de Samba Esquecidos do Deus Me Livre".
Além da simplicidade nas histórias e nas piadas que incomodavam os críticos, o programa também sofria com as reclamações dos setores mais tradicionais da sociedade por causa da eterna procura de Didi Mocó por mulheres e sua ojeriza pelo trabalho, características consideradas impróprias para os valores da tradicional família brasileira. Resultado: a censura sugeriu alterar o horário de "Os Insociáveis", passando a atração para a faixa das 21h30. Não adiantou nada. Didi e sua trupe continuaram a fazer seu humor irreverente inspirado nas chanchadas e a incomodar com piadas que faziam referências sexuais, brincadeiras grosseiras com peidos e arrotos, cenas de preconceito com nordestinos, negros e homossexuais. A cada episódio, uma saia justa.
Em fevereiro de 1973, por exemplo, o prefeito de Campinas, Lauro Péricles Gonçalves, enviou o ϐício à Polícia Federal com "o mais veemente protesto e mui desconcertada indignação contra as contumazes e afrontosas ofensas dirigidas à cidade de Campinas pela TV Record, notadamente através de pseudoartistas, como os senhores Ronald Golias e Renato Aragão". A secular brincadeira de chamar os campineiros de homossexuais rendeu uma bela dor de cabeça para a emissora, que precisou pedir desculpas públicas para a "cidade alegre, cordial e receptiva a todos". 15
Um mês depois, "Os Insociáveis" iam ao ar contando uma história em que Didi fazia Mussum se passar por um príncipe nigeriano em visita ao Brasil. O nobre africano era seguido por um séquito de escravos negros, e as brincadeiras com "o povo bronzeado" acabaram incomodando ninguém menos que o Ministro das Relações Exteriores, Mário Gibson Barbosa. O político, por uma infeliz coincidência, havia voltado recentemente de uma viagem para estreitar os lanços de amizade entre o Brasil e os países africanos e reclamou do programa diretamente com a direção da Record. Por pouco, a emissora não teve que tirar a atração do ar para evitar multas ou punições.
A fama de programa de baixo nível estava consolidada de tal forma que, em dezembro daquele ano, quando a Record foi tirada do ar pela censura por dois dias, tendo seus transmissores desligados na marra pelo Departamento Nacional de Telecomunicações, os diretores da emissora pensavam ser a punição uma represália em relação à exibição de "Os Insociáveis". Na verdade, o Ministério das Comunicações suspendeu a programação da Record em virtude da exibição de uma entrevista com uma hippie drogada, detida em uma delegacia, material considerado "ofensivo à moral familiar e pública e aos bons costumes" pelo Ministro da Justiça, Alfredo Buzaid.16
Se na televisão Mussum vivia enfrentando polêmicas e interferências da ditadura, na carreira de sambista, por um capricho do destino, foi a vista grossa dos aparelhos de repressão cultural dos militares o maior motivo de alegrias para os Originais do Samba. Após estourar com "Do lado direito da rua Direita", tudo caminhava maravilhosamente bem para o conjunto. A agenda de shows estava lotada com compromissos por todo o Brasil, os discos anteriores tinham boas vendagens no exterior, e o empresário Corumba colocava o cachê dos Originais no mesmo patamar de Jair Rodrigues, sua maior estrela. Poucos contratantes tinham bala para fazer um show com as duas atrações, e colocar a dobradinha em cima do mesmo palco começou a ϐicar caro demais. Os aprendizes valiam tanto quanto o mestre.
O disco de 1973, "É Preciso Cantar", portanto, nascia pronto para o sucesso. Até a capa, bem trabalhada com uma ilustração do conjunto sobrepondo-se à famosa tela "Capoeira" do alemão Johann Moritz Rugendas, dava ares de clássico ao vinil. A faixa título, composta por Adeilton Alves e Délcio Carvalho, é um pagode de primeira linha, sem nenhuma invencionice, com o laiá-laiá e o cavaquinho reinando absolutos. O lado mais criativo do conjunto ϐicaria reservado aos 3 minutos e 29 segundos de "Os sucessos de Erasmo e Roberto Carlos", um surpreendente pot-pourri transformando em batucada os refrões dos sucessos "Debaixo dos caracóis dos seus cabelos", "Quando (Você se separou de mim)", "Amada amante", "Quando as crianças saírem de férias" e "Jesus Cristo". O número surgiu nos corredores da Record, quando o diretor Nilton Travesso bolou uma maneira diferente de apresentar os Originais, ϐiguras frequentes na emissora, no programa "Sambão", da divina madrinha Elizeth Cardoso. O LP ainda trazia letras compostas pelos colaboradores usuais: Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro, com "Ilusão maior"; Luís Carlos com "Você esqueceu" e "Mulher"; Bidi com "Casca do coco" e, claro, Jorge Ben, com o excelente recado "Falador passa mal, rapaz", do estribilho "Quem mandou você mentir? / Você vai se machucar! / Novamente aqui estou / Você vai ter de me aturar / Falador passa mal rapaz! / Falador passa mal!".
O que pouca gente esperava era a escolha de "Saudosa maloca", de Adoniran Barbosa, no repertório. Embora hoje pareça óbvia a associação do debochado poeta paulista aos trejeitos verbais de Mussum, foi a homenagem do carioca que ajudou a popularizar a versão original da música e não o contrário. Adoniran gravou "Saudosa maloca" num compacto de 78 rotações junto de "Samba do Arnesto" em 1955, mas as pérolas não ϐizeram lá muito sucesso na ocasião. Apenas uma década depois o valor da obra seria redescoberto pela nova geração de sambistas, e as canções voltariam a aparecer na mídia. Em 1965, o autor foi convidado a participar do programa "O Fino da Bossa", na TV Record de São Paulo, com Jair Rodrigues e Elis Regina, e assim saiu de um anonimato forçado. A partir daí, sua carreira foi retomada aos poucos e, em 1974, seria lançado o primeiro álbum completo do artista. "Adoniran" deveria chegar às lojas mais cedo, mas, impedido pela censura, foi ultrapassado pelo disco dos Originais.
O atraso ocorreu por causa da enorme genialidade da censora Eugênia Costa Rodrigues, responsável por vetar cinco das doze músicas do tardio álbum de estreia, usando como justiϐicativa a "falta de gosto" na pronúncia de palavras como "tauba", "revorve" e "artomóve". Detalhe: nenhuma das cinco canções censuradas era inédita. Por sorte ou por descuido da ditadura, a gravação de "Saudosa maloca" dos Originais, por sua vez, não teve maiores problemas para ser aprovada pela censura. Uma hipótese é a de que a fama de Mussum, falando errado toda semana na TV, tenha ajudado a perceber a enorme obviedade das letras de Adoniran: os erros eram propositais e faziam parte da história tanto quanto os personagens e os locais cantados.
Trapalhadas dos censores à parte, a gravação dos Originais virou um baita sucesso e fez jus ao genial senso de humor do verdadeiro criador, também elogiadíssimo quando ϐinalmente conseguiu transpor a imbecilidade e, enfim, estrear. A letra e o estilo clássico do samba paulista encaixaram-se perfeitamente à cuíca de Bidi e ao coro aϐinado dos cariocas. Para completar, a reinterpretação ainda contava com uma engraçada introdução feita por Mussum e Lelei:
— Vamos ter que sair mesmo. É o pogresso!, é o pogresso! O metrô vai passar embaixo. O pão cai e cai com a manteiga virada para baixo! — dizia Mussum.
—...E na terra! — respondia Lelei, fazendo sua voz de vendedor de coquito.
Com a mistura certa de humor e boa música, "É Preciso Cantar" chegou às lojas em setembro e logo se instalou nas primeiras posições das listas de discos mais vendidos em São Paulo e no Rio de Janeiro. Chegou ao 5º lugar no ranking mensal de dezembro, superando os LPs de artistas consagrados pelo público como "Rainha da Lapa", de Nelson Gonçalves, "Índia", de Gal Costa, "In ϐinito", de Márcio Greick e "Meu pai Oxalá", de Toquinho e Vinicius de Moraes. Nas rádios, o sambão dos Originais só perdiam mesmo para as imbatíveis trilhas sonoras (nacionais e internacionais) das novelas "Carinhoso" e "Cavalo de Aço", e para o fenômeno romântico Odair José.
De tão acertada, a fórmula de regravar Adoniran seria repetida mais duas vezes. Os Originais do Samba gravariam de maneira primorosa "Samba do Arnesto", em 1974, e "As mariposa", em 1975. As canções dos anos 1950 pareciam ter sido feitas sob encomenda para a interpretação cômica de Mussum e Lelei. Tanto que esta última, inspirada nos rodopios aéreos dos insetos nos postes da Light, no antigo centro de São Paulo, faz o ouvinte obrigatoriamente imaginar o humorista vestido de mulher, com os lábios enormes pintados de vermelho, enquanto trava o seguinte diálogo:
— Boa noite, lâmpida.
— Boa noite, mariposis.
— Permita-me oscular a sua face?
— Pois nãozis, mas rapidis, porque daqui a pouquis, eles me apaguis!
O talento para o samba e o domínio da arte de falar especialmente errado não eram os únicos pontos em que Mussum e Adoniran se cruzavam. Uma das primeiras composições do autor a ser gravada com sucesso chamava-se "Malvina", fato bastante explorado nas sacanas homenagens feitas por Renato Aragão à mãe do colega – que às vezes até iam para o ar. Raramente o cearense chegava ao ϐinal do verso sem tomar um tapão na cabeça, mas a música era assim: "Malvina, você não vai me abandonar / Não pode, sem você como é que eu vou ϐicar". Mussum comentava a brincadeira dizendo que sua mãe detestava Adoniran. Como ele tinha conseguido fazer música com um nome tão difícil de rimar?
13. Folha de S.Paulo, 07/04/1972.
14. Folha de S.Paulo, 17/07/1972.
15. Jornal do Brasil, 03/02/1973.
16. Jornal do Brasil, 05/12/1973.