Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões
Próloguis
Estava tomando uma cerveja, acho que era uma terça ou uma quinta.
Não havia data especial para comemorar, jogo na televisão ou algum desabafo urgente para afogar. Apenas conversava no boteco sobre os mesmos gols e amores perdidos que retornam à pauta em toda noite de bebedeira junto de um bom amigo. Enquanto as garrafas vazias de súbito ocupavam mais e mais espaço na mesa, já tornando diϐícil encontrar espaço para apoiar os cotovelos, entrou no bar um tiozinho que vende antigos discos de vinil, peregrinando entre os bares da Vila Madalena, em São Paulo.
Na frente da pilha de bolachões, equilibrada entre a barriga saliente e a barba branca dele, estava um LP do Mussum. Geralmente ignorado pela clientela, o vendedor virou o foco de todas as atenções. Passando entre as mesas para oferecer suas raridades musicais, ele, sem querer, provocava gargalhadas, ouvia bordões dos Trapalhões e inspirava brindes empolgados de todos. Foi como se um cara muito querido acabasse de chegar ao bar e, sem poder cumprimentar e abraçar todo mundo de uma só vez, usasse um sorriso sincero para retribuir a satisfação de estar ali. E tanto quem era velho demais para ver "Os Trapalhões" quanto quem nem tinha nascido quando o programa saiu do ar, sentia-se bem correspondido.
O disco em questão era o terceiro álbum solo de Mussum, lançado em 1986, e a cena fez com que eu me perguntasse sobre quantas daquelas pessoas sabiam, de fato, quem era aquele cara na foto da capa. Quantos sabiam que aquele long play reunia músicas de partideiros históricos como João Nogueira, Dicró, Almir Guineto, Jorge Aragão, Arlindo Cruz e Beto Sem Braço? O quanto eles ririam se ouvissem a primeira faixa, "Because Forever"? Será que eles conheciam o signiϐicado original do forévis? Se eles já adoram o personagem por conta de alguns poucos quadros publicados na internet, qual seria o tamanho da surpresa ao descobrir toda a malandragem e as piadas acumuladas em 35 anos de carreira? Como uma ϐigura tão lembrada podia, ao mesmo tempo, ter sua vida e sua obra tão desconhecidas?
Não falo dos 18 anos de sucesso arrebatador na Rede Globo, dos clássicos bem-humorados dos Originais do Samba nem da relação umbilical com a Estação Primeira de Mangueira. São todos fatos conhecidos. O mais incrível da história pouco contada desse artista é a sua trajetória como pessoa. Filho de uma empregada doméstica negra e analfabeta, Antônio Carlos Bernardes Gomes cresceu se alimentando de sobras, virou adolescente em um colégio interno linha dura e, depois, teve de se virar trabalhando como mecânico e morando em cortiços. Mesmo com essas diϐiculdades, descobriu em si um instinto único para fazer música e amigos.
Mais do que discos de ouro ou recordes de bilheteria nos cinemas, Mussum conquistou um prestígio entre os colegas de palco que o colocou no centro de momentos inspiradores da cultura popular brasileira. Se alguém ouve pela primeira vez que o tocador de reco-reco gravou Vinícius de Moraes, Jorge Ben, Chico Buarque, Erasmo e Roberto Carlos pode logo pensar em paródias ou nos videoclipes avacalhados dos trapalhões, mas, na verdade, as suas parcerias foram de Adoniran Barbosa a Zeca Pagodinho, de Baden Powell a Wando, de Elis Regina a Xuxa. O mesmo vale para a sua carreira como artista de palco. Junto de mitos como Grande Otelo, Chico Anysio, Jô Soares e Carlos Alberto de Nóbrega, Mussum brilhou por um período na noite carioca, e depois na TV, cuja importância definiu o humor tipicamente brasileiro.
Ainda assim, seus 28 ϐilmes e 15 discos não bastam para contar de forma integral o que o público viu em milhares shows. É diϐícil imaginar alguém que tenha conquistado plateias tão distintas ao longo de tanto tempo. De Cannes ao interior do Amazonas, como sambista ou como palhaço, batucando uma caixinha de fósforo em uma birosca do morro ou vencendo festivais em teatros lotados. Sempre sorrindo, sempre inovando e, mais importante, sempre sendo o mesmo. Boêmio, mulherengo e palhaço, sim. Proϐissional, disciplinado e persistente, também.
Nas próximas páginas, compartilho um trabalho de redescoberta dessa trajetória, baseado nos depoimentos de pessoas que conviveram com Mussum em estúdios, palcos, botecos e, principalmente, na sua intimidade. Por se tratar de uma biograϐia autorizada, é possível que alguém pense que momentos comprometedores possam ter sido omitidos ou alterados. Isso não aconteceu. Registrei histórias de bebedeiras inacreditáveis, ouvi relatos de suas ex-mulheres, conheci detalhes de disputas proϐissionais com colegas e funcionários, mas mesmo assim, ninguém conseguiu encontrar palavras amargas para descrever o cabo da Aeronáutica, o músico, o ator, o marido, o pai, o trapalhão ou o diretor da ala das baianas. Foi preciso, pelo contrário, desbastar o excesso de elogios para Carlinho do Reco-Reco, Carlinhos da Mangueira, Cabo Fumaça, Muçum, Mussum, Caco, Diabo, Malhado, Mussa, Kid Mumu. Em seus 53 anos, Mussum viveu muito. Ganhou e perdeu muitas lutas, mas como bom malandro, não vacilou.