Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões
Capítulo 3
SAMBA, CARNAVAL Y MUJER (1964)
"A coisa tá braba. Já estou colocando sutiã em cobris".
Em 1963, Carlos Machado assinou contrato com o Copacabana Palace
para apresentar o espetáculo "O teu cabelo não nega", uma homenagem ao lendário compositor Lamartine Babo, então com 59 anos. Entre agosto daquele ano e fevereiro de 1964, o Golden Room se transformaria em uma máquina do tempo para relembrar marchinhas carnavalescas dos tempos mais românticos do Rio de Janeiro, como "Linda morena", "Rasguei minha fantasia", "No rancho fundo", "Minha cabrocha", "A tua vida é um segredo" e, claro, a música que emprestava seu nome ao show, "O teu cabelo não nega". Os hinos do América, do Flamengo, do Fluminense, do Botafogo e do Vasco da Gama, todos compostos no mesmo dia por Lamartine para a produção de um LP comemorativo em 1949, também fariam parte de um bloco do espetáculo. Para a empreitada, Machado contou com a ajuda de sua esposa Gisela na criação dos ϐigurinos, com as coreograϐias de Juan Carlos e a produção de Miguel Hochmann, Accioly Neto, Jean-Louis d'Arco e do caricaturista Lan. Embaixo dos holofotes, estariam lindas vedetes, cantores, cômicos, ritmistas e passistas. Isso signiϐicava que Os Modernos de Zé Luís, já testados e aprovados na Fred's, estavam escalados, e Mussum tinha emprego ϐixo para quase o ano todo. A ϐinal, além da temporada em si, seria preciso meses de ensaio. Contrastando com a miséria da vida cotidiana, o tocador de reco-reco passaria a frequentar as noites do luxuoso Copacabana Palace, em meio a diplomatas, políticos, empresários e a mais so ϐisticada elite carioca. Começaria ali a experimentar, pela primeira vez, o sabor do malte dos bons uísques escoceses, as borbulhas do champanhe francês e o toque aveludado dos conhaques.
Ainda na fase de produção do show, Lamartine, que não quis cobrar
pelo uso de suas obras nem dar palpites na direção do espetáculo, fez alguns pedidos em relação a como cada canção deveria ser executada. Amigo de Machado, Lalá sentia-se feliz pela homenagem e, semanas antes da estreia, fez uma visita ao Copacabana Palace para dar uma olhada nos preparativos ϐinais. Por uma dessas coincidências cinematográϐicas da vida, o compositor adentrou o Golden Room exatamente quando a orquestra tocava a todo vapor o hino do América, "Hei de torcer, torcer, torcer / Hei de torcer até morrer, morrer, morrer / Pois a torcida americana é toda assim / A começar por mim / A cor do pavilhão é a cor do nosso coração". Fanático, passou mal de tanta emoção. Pálido, Lamartine sentou-se e preocupou todos da produção. Após retomar o fôlego, elogiou o elenco, bateu papo com o maestro e foi embora todo contente, sem saber que aquele era o seu último encontro com Machado. Dali a dois dias, o compositor sofreria um infarto fatal.
A morte de Lamartine Babo gerou grande comoção em todo o Brasil, em especial no Rio de Janeiro. Por isso, a estreia de "O teu cabelo não nega" estava carregada com uma expectativa acima do normal. Seria, além de uma homenagem, o último trabalho do gênio das marchinhas. Sabendo disso, a companhia de Machado redobrou os esforços nos ensaios e a produção ϐicou deslumbrante. Os anúncios nos jornais destacavam "as mais lindas estrelas da TV Carioca", com os nomes de Lady Hilda, Diva Elena, Regina Célia, Zélia Martins e Esmeralda Barros em letras grandes, e os de Carlos Leite, Os Modernos e Os Rouxinóis, em fontes menores. As apresentações lotaram o Golden Room todas as noites e arrancaram elogios exagerados da imprensa. "A noite tem um espetáculo que bastaria para nós, os que escrevem sobre a noite, dizermos apenas que é um espetáculo espetacular", escreveu Fernando Lobo na revista A Cigarra. Todo esse sucesso chegou aos ouvidos das Organizaciones Carlos Amador, uma potência do showbiz mexicano que produzia programas de TV, ϐilmes para o cinema, shows em casinos e o que mais fosse possível no ramo do entretenimento. E, depois disso, não demorou para Carlos Machado receber um proposta quase impossível de recusar.
Bem impressionado por "O teu cabelo não nega", Carlos Amador e seus diretores viajaram até o Rio para convidar Machado para uma turnê de cinco meses. O gordo contrato incluía uma agenda de apresentações com datas em hotéis luxuosos e casas de show de primeira linha, além de prever uma farta divulgação dos shows a ser feita por rádio e televisão. A cereja no bolo seria a participação dos cariocas na produção de Buenas noches, Año Nuevo!, ϐilme com os astros Ricardo Montalbán e Silvia Pinal. O produtor brasileiro não teve dúvidas, rescindiu seu acordo com o Copacabana Palace e foi aventurar-se no México. Mas era preciso correr. Em 22 janeiro de 1964 era esperado um verdadeiro carnaval brasileiro na Boate Señorial, em Acapulco. Estava desde já agendado o primeiro show da "Colosal Compañia Brasileña de Carlos Machado e sus estrellas cariocas".
Montar o show não seria problema. "O teu cabelo não nega" era tão grandioso que, apenas recortando alg uns de seus números, Machado conseguiu criar o roteiro para dois espetáculos diferentes, "Samba, carnaval y mujer" e "Rio, ciudad maravillosa". A logística também estava resolvida. O produtor era amigo de longa data de Ruben Berta, o fundador da Varig, e seria fácil providenciar o transporte aéreo dos equipamentos, cenários e ϐigurinos. O desaϐio mesmo seria reunir o elenco com mais de cinquenta artistas, cada um com suas manhas, necessidades e particularidades, e convencê-los a embarcar por cinco meses em uma viagem.
Como argumentos, o empresário usou a possibilidade de uma carreira internacional para os músicos e, para as moças, a chance de conquistar um marido ricaço. A companhia teria hospedagem em bons hotéis, as paradisíacas praias de Acapulco e um pagamento semanal de 50 dólares. Para Zé Luís, o convite veio na melhor hora possível. O dono de Os Modernos arrumou uma briga que baniu temporariamente o conjunto da quadra do Salgueiro, após conceder uma entrevista polêmica ao colunista social Válter Neto, dizendo que não tinha nenhuma ligação oϐicial com a Escola, pois não era possível sustentar um grupo com os baixos cachês pagos pela diretoria da agremiação. O mal-estar ϐicou ainda maior quando ele aϐirmou que "o negócio mesmo era ganhar dinheiro em boate". Passar um tempo no México e deixar a poeira baixar seria uma excelente ideia. Assim, Zé Luís, Bidi, Jonas, Chiquinho, Clóvis e Rubão estavam prontos para embarcar. Faltava Carlinhos.1
Carlinho da São Francisco, que andava tranquilo trabalhando como cabo da Aeronáutica e ainda encarava os shows no Copacabana Palace como biscate, ϐicou em dúvida sobre a aventura até receber uma notícia inesperada. Embarcar na turnê signiϐicava perder o carnaval, ϐicar longe das farras em Mangueira e, pior que isso, pedir uma licença longa e difícil de justiϐicar na Aeronáutica. Nenhum desses motivos, porém, superaria a necessidade de prover sua família, que estava prestes a crescer. Leny estava grávida de uma menina. Mussum, aos 23 anos, seria pai pela
primeira vez.
Com o impulso dado pelas novas responsabilidades que surgiam no horizonte, em janeiro de 1964, Mussum desembarcava no México ao lado de um time completo de músicos, coreógrafos, técnicos, dançarinas e vedetes. A partir dali a trupe começaria uma rotina de shows incessante. Todas as noites havia apresentações no Teatro Blanquita, no Teatro Playa de Hornos, nos hotéis de Acapulco, nos programas de rádio e nos programas de TV. Durante o dia, viagens entre uma cidade e outra e também as gravações para o ϐilme Buenas noches, Año Nuevo!. Pelo cachê de um show, Carlos Machado fazia sua companhia trabalhar triplicado.
Para Mussum, a adaptação ao novo país não foi fácil. O idioma teve que ser descascado aos poucos, com ingênuas tentativas de falar espanhol virando piadas entre os integrantes da companhia. A nomenclatura presente nos menus causava espanto, diϐicultando até o simples ato de escolher o que seria comido no almoço. A mistura de ingredientes da paella, por exemplo, acabou tornando-se matéria-prima para uma das piadas que Mussum mais gostaria de contar durante os futuros shows dos Originais do Samba, na década seguinte. Dizia ele que a rapaziada sofria, passava fome e nem reclamava quando encarava um prato típico que vinha com uma mistura de "arroz, galinha, carne, cravo da chuteira do Pelé, raquete da Maria Esther Bueno...".
Até descobrirem o que era ensalada, pediam agrijones. Sem saber o que eram as tais papas, perguntavam aos garçons sobre "buatoatas e buatoatiñas fritas". Até a área do meretrício, chamada de Zona Roja, virou a Zona Rosa, em uma tradução mais sonora que precisa. É bastante provável que a invenção do termo forévis tenha vindo dessa época, quando Mussum precisava se comunicar de algum jeito com mexicanos, americanos e turistas vindos de todos os cantos do mundo, além de participar de atrações que incluíam números com canções internacionais, cantadas em inglês, espanhol e francês. Como não dominava nenhum desses idiomas, inventava palavras para brincar com os colegas de show. Diz a lenda que Mussum explicou errado, de propósito, o que queria dizer o tradicional cumprimento hispânico "¡Hola! ¿Qué tal?" para a mulata Vera Regina, uma das estrelas da companhia. Na noite de estreia de um espetáculo, ela teria encerrado seu show dizendo à plateia:
— Porra para nuestros amigos mexicanos! E, para tornar a coisa mais surreal, o público respondia em coro:
— Porra! Porra para los brasileños! Porra para el Brasil! Porra!
A distância de casa e a enorme carga de trabalho, ao menos, eram
compensadas pelo calor do público mexicano. As vedetes eram idolatradas pela elite local, recebendo mimos dos ricaços nos hotéis e cassinos, e o número de Os Modernos do Samba deixava a plateia boquiaberta. Vestindo um smoking coberto de lantejoulas prateadas, calças e camisas brancas e chapéu palheta, os passistas Jonas e Carlinhos estavam no auge da forma e abusavam das acrobacias. Além do samba no pé, saltavam, chutavam o ar com as duas pernas ao mesmo tempo e faziam engraçadas caretas, sorrindo, berrando e cantando. Tudo sem parar de tocar seus instrumentos nem deixar o samba desandar, sempre acelerando o ritmo. As apresentações frenéticas, já sem o acompanhamento das cabrochas, ϐizeram com que o nome do grupo fosse modiϐicado. Os Modernos passariam a ser chamados no México de Los Siete Diablos de la Batucada, e, na volta ao Brasil, começariam a usar o nome de Os Sete Modernos do Samba.
Outras atrações de destaque da Colosal Compañia Brasileña eram os impossíveis solos de bateria de Paulinho, el primer baterista de Brasil , e uma impressionante imitadora de Carmen Miranda chamada Marília Pêra. Carlos Machado precisava de uma substituta para Vilma Vernon, primeira bailarina da sua companhia que também fazia números como cantora e não topou a viagem para o México. Como era raro uma proϐissional que tivesse talento para as duas funções, Machado precisou procurar muito até que seu faro o levou até Marília, então destaque de uma montagem de "My fair lady". Apesar de jovem, a bailarina tinha um excepcional talento como cantora e também era uma atriz convincente. Era a peça que faltava para complementar a sensualidade das vedetes e o ritmo dos sambistas. Machado só não contava com o gênio forte de sua mais nova contratada.
Marília foi a primeira a revoltar-se com a carga de trabalho, que não havia sido combinada antes da viagem e com as diϐiculdades do elenco em garantir ao menos dinheiro para almoçar e jantar todo dia. Os 50 dólares semanais não davam para nada. O produtor garantia a hospedagem e o café da manhã dos artistas. Nada mais. Até seu número como Carmen Miranda era um abuso. Vera Regina, escalada para o papel, decidiu voltar ao Brasil, deixando o show com um buraco. De acordo a vedete cômica, o patrão mexicano Carlos Amador enchia a cara e assediava as dançarinas, e o coreógrafo Juan Carlos Bernardi privilegiava as artistas brancas. Dessa forma, sobrou para Marília acumular mais um número nos shows em que já dançava, cantava e atuava. Não era justo trabalhar triplicado e ganhar a mesma coisa, quadruplicado, então, nem pensar. Marília tentou organizar uma greve das bailarinas e exigir um pagamento mais justo. Não adiantou. As colegas não aderiram ao motim e a rebelde foi mandada sozinha de volta ao Brasil.
Los Siete Diablos de la Batucada ϐizeram diferente. Para não passar fome, começaram a se virar, fazendo seus próprios shows em casas noturnas menores. Convites não faltavam, pois quando terminavam as apresentações junto da companhia de Carlos Machado, mexicanos embasbacados os procuravam com os elogios mais empolgados. Veio de um desses fãs, aliás, um convite que entraria para o folclore da viagem. Don Cardini, um ϐigurão local, dono de um luxuoso restaurante, ϐicou amigo dos músicos depois de assistir aos shows por inúmeras vezes e insistiu para que os Diablos fossem cear em seu estabelecimento. Cardini estava acostumado a servir à elite mexicana e visitantes internacionais em um salão forrado por um tapete grosso, decoração com inspiração francesa e mesas arrumadas com todos os talheres e copos que a ϐina etiqueta manda.
Ao sentarem-se para jantar, os cariocas se maravilhavam – e se confundiam – com os diferentes tamanhos e formatos de facas, garfos, colheres, taças e cálices. Mussum dizia que a mesa tinha mais pratos que uma bateria de jazz. O jantar começou com um consommé, o tradicional caldo francês que é preparado com legumes e carne. Na sequência, seria servida uma lagosta e, por isso, os garçons trouxeram pequenas tigelas com água quente e limão. A mistura estava lá para que os convidados lavassem suas mãos, mas Chiquinho não teve dúvida e tomou tudo de um gole só. Olhando para os parceiros, ainda com o gosto ruim na boca, reclamou falando baixinho: "esse aperitivo não está muito legal não". Não seria a única nem a mais engraçada gafe do jantar. Mais tarde, quando o garçom começou o preparo de uma carne ϐlambada, Mussum deu um pulo, levantou-se da mesa e saiu dizendo: "Tô fora, comigo não! Leva esse negócio daqui". Demorou para explicar ao sambista que aquilo era normal, acalmá-lo e fazê-lo terminar o jantar. O gozador virou piada e ajudou a aliviar o clima tenso daqueles tempos em terras estrangeiras.
O bom humor era essencial para superar a falta de dinheiro crítica que atingia o elenco de Carlos Machado. Os banhos de mar e as tardes calientes nas praias de Acapulco aliviavam a rotina pesada de shows e gravações. E já que as touradas eram entediantes, a tequila tinha um papel importante para o ânimo do pessoal. Farta, barata e sempre disponível, o destilado típico do México foi eleito como substituto oϐicial do mé e virou companhia obrigatória para as cervezas nas noitadas antes, durante e depois dos shows. Na terra dos astecas, Mussum também se rendeu a uma novidade etílica, o pulque. Bebida originária da América Central, ela é feita de seiva de agave fermentada, mas tem uma consistência bem diferente da tequila, feita da mesma planta. Leitoso, de cor branca e geralmente encontrado em versões de fabricação artesanal, o pulque tem um paladar mais leve e não parece ter seus 7% de teor alcoólico, deixando quem bebe meio grogue sem perceber. É também possível encontrar receitas de pulque misturado a outras frutas, como abacaxi, goiaba e cassis, ou com café, aveia e até aipo. Com a forma em dia, Mussum aguentava tomar quantidades industriais desse pulque curado usando copos enormes e jarras. A parada descia fácil e o sambista só percebia que tinha exagerado quando sentia os pés dormentes. Aí brincava dizendo que aquele leitinho deixava a sola do sapato mais grossa.
O intercâmbio não foi apenas etílico. Tocando na noite mexicana, Mussum fez contato com excelentes músicos caribenhos e conheceu de perto as so ϐisticadas linhas de percussão do jazz cubano e do mambo. Sua maior referência na época era a orquestra de Perez Prado. Com seus impressionantes "Mambo no 5" e "Mambo no 8", entre outros sucessos, o músico in ϐluenciou a batida de Os Sete Modernos profundamente, mas isso só seria percebido muitos anos depois.
Enquanto isso, as brincadeiras, as tequilas e o carinho do público mexicano ajudavam os ritmistas a segurarem a barra de morar em outro país e, fazendo shows por conta própria, já era possível começar a guardar um pouco de dinheiro e viver com um pouco mais de conforto. Mussum andava ansioso para saber de sua ϐilha, que seria batizada como Márcia e estava nos meses ϐinais de gestação, e acompanhava, preocupado, as notícias vindas do Brasil. Entre março e abril de 1964, as Forças Armadas tomaram o poder, arrancando Jo ão Goulart da presidência à força, com levantes que deixaram o país à beira de uma guerra civil. Enquanto seus colegas de Aeronáutica lutavam o que chamavam de revolução e de contrarrevolução, dependendo do ponto de vista, Mussum seguia a vida de artista no México. Queria voltar logo, mas foi convencido a continuar por mais algum tempo no México após o ϐinal da temporada da companhia de Carlos Machado.
Buenas noches, Año Nuevo! teve êxito nas bilheterias, e o cartaz do ϐilme mostrava, entre as fotos
dos protagonistas, os sorridentes brasileiros vestindo seus chapéus palheta, roupas brancas e um colete com círculos coloridos. Na película, Mussum estrearia como comediante no cinema. Em uma cena em que a cantora Monna Bell interpreta "Desaϐinado", de Tom Jobim, ele e Jonas fazem um papel duplo de músicos e de palhaços. Vestindo camisetas amarelas, calças e sapatos brancos, eles são enquadrados agachados, tocando o reco-reco e o pandeiro contidamente junto de Monna, em um cenário vazio. Quando a música avança e o set é invadido por dezenas de dançarinas, a câmera mostra o rosto de Mussum em close, virando os olhos e torcendo a boca ao ver as curvas da mulherada. A performance lembra muito aquele lobo dos desenhos animados que uiva quando vê uma mulher bonita, arregalando os olhos como se fossem saltar, e também pode ser comparada com os trejeitos que seriam vistos anos mais tarde em "Os Trapalhões".
Depois de uma adaptação complicada, Mussum começava a sentir-se em casa por onde passava em Ciudad de México e Acapulco. O cinema e a TV haviam ajudado a popularizar os artistas brasileiros e surgia no horizonte até a possibilidade de fechar um contrato nos Estados Unidos, para levar o show de "samba exportação" para as casas noturnas de Miami. No ϐim das contas, Mussum aceitou ϐicar sozinho com os Diablos de la Batucada e faturar mais um pouco em cima de todo o esforço inicial. Sobrava até um dinheiro para mandar para casa. Por meio de cartõespostais, Mussum avisava Lenny e Dona Malvina que as coisas iam bem, o conjunto agradando e que o dinheiro que ele mandaria nos próximos dias deveria ser usado na compra de uma televisão. Até então, a mãe do sambista precisava dividir a TV com os vizinhos, em uma sala comum no cortiço, sem qualquer privacidade. Além disso, também sonhava com a chegada da primeira ϐilha e sempre pedia novidades sobre a gravidez. Tudo parecia, aϐinal, entrar nos eixos, quando uma sequência assombrosa de infortúnios cruzou o caminho de Mussum. E o primeiro deles viria dolorosamente direto de Mangueira.
Aos oito meses de gestação, Leny seguia trabalhando na fábrica de bolsas. Aquilo parecia arriscado, mas como sempre foi independente, a mangueirense preferiu continuar no emprego. Ela passava boa parte do dia sentada e sua função era costurar as peças e usar cola para fazer o acabamento de alças e bolsos internos, ou seja, não precisava fazer muito esforço. O perigo, porém, estava mais próximo do que ela imaginava. Enquanto costurava, para ver melhor seus pontos, precisava do auxílio da luz de uma lamparina abastecida a querosene. Um dia, Leny se distraiu e deixou uma peça lambuzada de cola perigosamente perto da candeia. A proximidade dos dois elementos fez com que houvesse uma barulhenta explosão. Os estilhaços do vidro não a feriram gravemente, mas o susto foi enorme e, após se acalmar, ela percebeu que algo estava errado com sua bebê.
Leny correu ao hospital mais próximo, a Policlínica Geral do Rio de Janeiro, na Avenida Nilo Peçanha, e deixou os médicos muito preocupados após os primeiros exames essenciais. Temendo pelo pior, eles ϐizeram um parto de emergência, mas o procedimento foi inútil. Márcia, a primeira ϐilha de Mussum, nascera sem vida. Leny teria que lidar com a dor da perda e ainda dar a notícia ao marido, distante milhares de quilômetros. Desesperado por não ter como amparar sua mulher, Mussum pensou em largar tudo e voltar ao Brasil, mas foi demovido da ideia ao confrontar-se com a agenda lotada de compromissos. Uma desistência àquela altura representaria jogar fora todo o trabalho dos últimos meses e um furo enorme com seus colegas de conjunto. Para piorar a situação, no começo daquele péssimo mês de julho, um enorme susto atingiu a companhia de Carlos Machado e acabou por determinar o final da aventura de Mussum em terras mexicanas.
Convidados pelo gerente da Varig para a América Latina, os brasileños participaram de um épico churrasco e tomaram todas as cervejas, uísques, vodcas e tequilas possíveis. Empolgados pela fartura etílica, três dos músicos cismaram de fazer um passeio até a cidade de Cuernavaca. Mussum não quis participar do passeio, mas acabou, mesmo assim, tendo que ir para a cidade que distava 86 quilômetros da Cidade do México. Quando chegou ao hotel em que sua companhia estava hospedada, ouviu os comentários sobre um acidente automobilístico. Os três músicos estavam internados em estado grave após uma batida forte na estrada. Em vez de descansar após o churrasco, Mussum precisou correr até o hospital para saber o tamanho da encrenca e dar o apoio necessário aos amigos.
Por sorte, ninguém morreu. Depois de algumas horas de apreensão no hospital e de enfado na estrada, o grupo voltou todo costurado e remendado para a Cidade do México. Um dia péssimo, que estaria prestes a piorar. Quando Mussum ϐinalmente entrou em seu quarto e deitou-se para dormir, ouviu um barulho esquisito. Era um som grave, intenso, mas não parecia com nada que já tinha ouvido antes. Pensou consigo mesmo que seria crueldade demais acontecer mais alguma coisa naquele dia. Foi quando sentiu sua cama sair do lugar e, assustado, ajoelhou-se e começou a rezar. Na sua inocência de moleque do morro, pensou que o tremor fosse uma assombração zombando dele. Talvez um castigo por roubar a pinga dos Exus? Mas não deu tempo nem de terminar um desesperado pai-nosso de última hora. O guarda-roupa do quarto do hotel caiu sobre suas costas como se alguém o tivesse empurrado com força. A Cidade do México, como boa parte do país, era atingida por um terrível terremoto que chegou a atingir a magnitude 7 da escala Mercalli, que classiϐica terremotos com notas de 1 a 7, sendo a primeira usada para descrever eventos imperceptíveis para a população e a última denotando a total destruição do local. O epicentro do terremoto havia sido justamente na cidade de Cuernavaca, a única da região a não sofrer com o evento, e três sismos de crescente intensidade causaram estragos enormes em mais de 14 municípios, deixando 50 mortos e gerando ondas gigantes que varreram as cidades litorâneas com extrema violência. Só em Acapulco, foram 21 mortes.
Mussum demorou para perceber o que estava acontecendo naquela madrugada. Os tremores duraram alguns minutos, mas pareciam intermináveis. Atordoado embaixo do guarda-roupa, ouviu, sem poder responder, os apelos do seu colega de Diablos, Bidi, gritando desesperado:
— Compadre! Compadre! Vamos embora!
E depois do silêncio, resmungar:
— Ah, é assim? Fica aí então!
Mussum quis rir, pois o companheiro estava com os cabelos ensebados por um produto para alisamento, vestia apenas seu gorro do Botafogo e uma cueca samba-canção, e segurava com força seu passaporte enquanto pulava desesperado sem saber o que fazer nos corredores do hotel. Mas o momento exigia seriedade. Com algum esforço, o tocador de reco-reco conseguiu se livrar do armário e fez seu caminho até a rua. Passado o susto, na calçada, ao lado dos seus companheiros de espetáculo, olharam uns para os outros sem acreditar no que acontecia. Pessoas corriam desesperadas pelas ruas vestindo seus pijamas, havia carros abandonados e uma gritaria sem ϐim. Ficariam sem luz, sem telefone e lendo notícias sobre destruição e a aproximação de um ciclone nos próximos dias. Era o bastante. Estava na hora de voltar ao Brasil. A dúvida era sobre qual país Mussum encontraria.
1. O Globo, 22/01/1964.