Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões

Juliano Barreto · Capítulo 14 de 29

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Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões

Capítulo 12

 

FLY ME TO THE MOON (1976)

 

"Não quero saber se Maomé vai à montanhis ou se a montanhis vai até Maomé. Eu quero mé!"

 

Enquanto as trapalhadas de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias

arrancavam risadas do público, aconteciam mudanças de dimensão tectônica na TV brasileira. A endividada Excelsior fecharia suas portas, a Record vivia um esvaziamento após o auge dos festivais, e a Tupi fazia de tudo para segurar o crescimento acelerado da Rede Globo. No meio disso tudo, Silvio Santos ganhava popularidade, dinheiro e habilidade política para transformar em realidade o sonho de ter sua própria emissora. O que os palhaços tinham a ver com isso? Muita coisa. Embora Renato Aragão encarasse a televisão como um trampolim para fazer cinema, o fenômeno Trapalhões ganhava cada vez mais força. Sucesso absoluto aos sábados, a Tupi até aumentou o investimento no programa e reforçou ainda mais o elenco da atração contratando o humorista José Vasconcelos, criador do inesquecível gaguinho Sá Silva, e o cantor Wanderley Cardoso, mais um remanescente dos tempos de "Os Adoráveis Trapalhões".

A intenção não era apenas consolidar a liderança aos sábados. Os palhaços de cara limpa estavam sendo fortalecidos para entrar na briga pela audiência do domingo, desde sempre o dia mais disputado da televisão brasileira. A aposta era arriscada, mas a Tupi contaria com um trunfo enorme. De olho nas negociações para montar a TVS, em 1976, Silvio Santos deixava a Globo e procurava um canal para exibir o seu programa dominical, que ia do meio-dia até as 20 horas. As ambições de empresário superavam as necessidades da carreira de apresentador. Enquanto ϐicasse na emissora de Roberto Marinho, seria proibido por contrato de negociar concessões e fazer acordos com outros canais para transmitir seus shows. Na Tupi, por outro lado, Silvio teria liberdade total de criação e participação nas decisões estratégicas da empresa, como exibir as mesmas atrações na Rede Tupi e onde mais quisesse. Foi assim que os trapalhões viraram colegas de trabalho do homem do baú, fazendo uma das dobradinhas mais populares da história.

A chegada do apresentador preferido do Brasil, porém, não garantiria vida fácil para a Tupi. A Globo, principal rival, conseguia com frequência ϐicar à frente nas medições de Ibope domingueiras com atrações populares, como o seriado "O Planeta dos Macacos", o jornalístico "Esporte Espetacular", o musical "Globo de Ouro", o programa de auditório "Moacyr TV", de Moacyr Franco, e a revista de variedades "Fantástico". Maior investimento da emissora até então, o programa somava as forças de todos os caciques do canal. Participavam da feitura do "Show da Vida", a Central Globo de Produção, de Mauro Borja Lopes, o Borjalo, a Central Globo de Jornalismo, de Armando Nogueira, e a Central Globo de Comunicação, de João Carlos Magaldi. Eram simplesmente três dos nomes mais importantes da história da televisão brasileira, auxiliados por editores convidados do naipe de Daniel Filho, Augusto César Vanucci, Manoel Carlos, Nilton Travesso, Maurício Sherman, Ronaldo Bôscoli, Miele, Guto Graça Melo e outras figuras legendárias.

Pior para "Os Trapalhões", que estrearia nos domingos exatamente para bater de frente com o Fantástico, após o ϐim do Programa Silvio Santos, às 20 horas. Mais que um grande desaϐio, o embate signiϐicava colocar em rota de colisão a crença da Globo em seu "padrão de qualidade" contra duas atrações de inegável vocação popularesca. Durante seu show, Silvio Santos colocava médiuns para entortar colheres, sorteava panelas para os clientes do Baú da Felicidade, entrevistava crianças foϐinhas e fazia gincanas com o pessoal das caravanas vindas das mais humildes periferias. Enquanto a Globo mostrava os artistas mais badalados da MPB no Globo de Ouro, a Tupi exibia o "Show de Calouros" com pobres diabos desaϐinando e sendo aloprados pelos jurados. Na faixa seguinte, o mesmo acontecia. O "Fantástico" entrevistava personalidades internacionais, exibia reportagens investigativas e estreava videoclipes caríssimos e exclusivos, enquanto no canal rival, Didi atirava tortas na cara de Dedé e Mussum, que de batom vermelho, colar de pérolas e peruca loira, imitava as personagens mais populares das novelas da Tupi.

Em vez de encolher, "Os Trapalhões" cresceram. A popularidade da atração incentivou Renato Aragão a gravar discos com piadas e até a lançar uma revista em quadrinhos pela editora Bloch. Todo mundo parecia estar disposto a rir mais um pouco com as trapalhadas do quarteto, fosse em uma revista, em um disco ou em propagandas. O gibi parecia mais com uma fotonovela, uma vez que os personagens e histórias desenhados nas páginas eram reproduções quase fotográϐicas das situações do programa – o que não rendia o su ϐiciente para preencher todo o espaço. Para dar mais sustância à publicação, eram incluídas histórias do cowboy Buck Zé e dos sobrinhos do Gato Félix, Leco e Beto.

No mercado fonográ ϐico, a dupla Didi e Dedé estreou com um compacto de piadas, contadas com direito à claque gravada, e chegou a gravar um álbum completo. O teor rasteiro da televisão era reproduzido nos discos. Uma amostra do que se ouvia no compacto: Didi fala que seu tio é cientista e cruza animais diferentes. Dedé pede exemplos. "Já cruzou uma tartaruga com um cearense". O que nasceu? "Um baiano de capacete". No long playing, com onze faixas intercalando músicas e piadas, a coisa não era muito diferente. Os destaques eram a "Dança do psite", "A Jurema" e "Trapa-Trapa".

Outra oportunidade aberta pela grande popularidade do programa foi a exibição de merchandising no meio da atração. Marcas como Hering, Biotônico Fontoura e Marisol foram trazidas pelo amigo e empresário João Batista Sérgio Murad, mais tarde famoso pelo personagem Beto Carrero. Na segunda metade da década de 1970, Murad tinha uma sólida carreira como publicitário. Tendo trabalhado na venda de anúncios para os classiϐicados da Folha de S.Paulo e, mais tarde, negociando páginas de publicidade para revistas da Editora Abril, como a Cláudia, o menino criado numa fazenda nas cercanias de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo, virou dono de uma agência que transformava empresas de grande faturamento e pouca noção de marketing em líderes de mercado.

Foi assim com a fabricante catarinense de toalhas Buettner e com a indústria de cosméticos Davene, de Diadema, na Grande São Paulo. O empresário sabia trilhar como poucos os caminhos entre as fábricas e a televisão, com raro oportunismo usava a celebridade dos artistas do momento para alavancar vendas.

No caso dos Trapalhões, a associação foi fácil e imediata. Por coincidência, o circo da família de Dedé havia armado acampamento em Rio Preto e a família de artistas, sem ter grana para prosseguir viagem, chegou a ϐicar hospedada na casa dos pais de Beto. Depois de algumas semanas, a vizinhança fez uma vaquinha para que o humilde cirquinho prosseguisse sua turnê, mas a amizade entre os dois garotos perseverou e foi transmitida, décadas depois, para Renato Aragão. Por intermédio do amigo Dedé, Renato e Murad chegaram a morar juntos, dividindo um apartamento nos primeiros anos de batalha em São Paulo. Por tudo isso, as propagandas e o merchandising feitos em "Os Trapalhões" seriam tão importantes dali em diante. Além de serem cuidados por um parceiro interessado no bem comum, seriam essenciais para garantir recursos para investir no cinema, sua verdadeira paixão.

Desde que havia se restabelecido na Record no início da década de 1970, Renato, como um Oscarito de Sobral, havia feito ao menos um ϐilme por ano, ampliando sua ϐilmograϐia composta por cinco chanchadas dos anos 1960. Bonga, o Vagabundo, de 1971, era quase uma reϐilmagem de Charles Chaplin e foi sua primeira incursão no mundo dos personagens pobres, atrapalhados e de coração melancolicamente partido pela mocinha. Depois vieram as boas bilheterias de Ali Babá e os Quarenta Ladrões, em 1972, Aladim e a Lâmpada Maravilhosa, em 1973, Robin Hood, o Trapalhão da Floresta , de 1974, O Trapalhão na Ilha do Tesouro , em 1975, e Simbad, o Marujo Trapalhão, em 1976. Embora a crítica emitisse opiniões como "jamais o popular Ali Babá entrou por uma caverna tão pobre de ideias e de cinema como a que [o diretor] Victor Lima cavou com a ferramenta habitual da chanchada", 21 os números das bilheterias mostravam uma evolução constante. Ali Babá e os Quarenta Ladrões levou 1,6 milhões de pessoas ao cinema; Aladim teve 2,5 milhões de espectadores; Robin Hood, 2,9 milhões; Ilha do Tesouro , 3,3 milhões; Simbad, 4,4 milhões.

Todos esses ϐilmes foram lançados em datas de férias escolares, o que garantia a presença maciça do público-alvo, as crianças, em um período em que tinham muito tempo livre e praticamente nenhuma opção nacional nos cinemas. As salas eram inundadas com as lucrativas pornochanchadas, e o público infantojuvenil, proibido de assistir às cenas calientes de nudez e sexo, gerava uma demanda reprimida. Era um veio de ouro pouco explorado e com potencial in ϐinito. Com a fase boa de "Os Trapalhões" na TV, Renato decidiu dobrar a aposta em 1976 e lançar o seu segundo ϐilme no ano. Seria a estreia de Mussum nas telonas do Brasil.

A produção dessa nova obra para 1976 surgiu da cabeça de Renato, mas a ideia do que seria ϐilmado veio do incorrigível cinéϐilo Dedé Santana. Também com uma porção de chanchadas no currículo, o trapalhão de Niterói cismou com a ideia de esculhambar O Planeta dos Macacos, uma vontade que ϐicaria anos esperando por uma chance. Se nos dias de hoje um ϐilme é lançado em escala mundial e vira uma febre – ou um fracasso – em questão de semanas, nos anos 1960 e 1970 o ciclo era bem diferente. O Planet of the Apes original baseou-se no romance francês de 1963, de mesmo nome, e chegou às salas de cinema americanas em 1968. O sucesso foi tão grande que outros cinco ϐilmes seriam feitos, o último deles, Batalha do Planeta dos Macacos, em 1973. E só um par de anos depois a TV Globo começou a exibir o seriado "O Planeta dos Macacos".

Com a necessidade de mais um roteiro para aquela temporada, Dedé surgiu com o projeto batizado de O Trapalhão no Planalto dos Macacos. A história, sem nenhum compromisso com a seriedade ou com a série original, mostraria dois "birutas" transportados para outra dimensão governada por macacos. Até aí, apenas uma cópia, mas o pulo do gato seriam as referências com a situação do Brasil de então. Os tiranos do outro planeta planejavam um golpe de Estado, castigavam seu povo impedindo o uso de eletrodomésticos e bens de consumo importados e não conseguiam controlar a alta no preço da banana por conta de uma cruel in ϐlação. Mais ou menos como outros primatas faziam em Brasília. A partir daí, o resto da história seguiria o mesmo roteiro de sempre. Renato Aragão interpretaria um tipo pobre, esperto e debochado, um misto de surϐista e inventor maluco chamado Conde. Dedé seria Alex, um ϐiel escudeiro, bom de briga e com pouca paciência. Os papéis do casal romântico padrão ϐicariam com Alan Fontaine e Vera Capua, tão belos quanto desconhecidos.

O vilão, embora não mostrasse o rosto durante todo o longa, estava mais uma vez a cargo de Carlos Kurt. O ator carioca de cabelos loiros e olhos azuis esbugalhados já era um veterano em se tratando de ϐilmes de Didi e de Dedé. A parceria nasceu por causa do thriller de ação Os Carrascos Estão Entre Nós , de 1968, quando Kurt contracenou com Átila Iório, então sogro de Dedé. A partir dessa amizade, surgiu o convite para

2000 Anos de Confusão, de 1969, uma chanchada estrelada por Dedé e Dino Santana em que os irmãos interpretavam a dupla Maloca e Bonitão. Mais tarde, após filmar comédias ao lado de Costinha, Agildo Ribeiro, Nair Belo e Mauro Faccio Gonçalves, o ator seria lembrado para a produção Simbad, o Marujo Trapalhão, de 1976, e, a partir daí, seus globos oculares proeminentes jamais deixariam de fazer parte da história dos trapalhões. Participando de quadros na TV, o ator mostrava todo o seu talento para encarnar os mais abjetos valentões. Contracenando com Renato Aragão, Dedé e Mussum, viveu assaltantes, bicheiros, policiais, pais ciumentos, cobradores enfurecidos ou malandros de boteco – sempre levando a pior no ϐinal. No cinema, junto com o posto de principal antagonista dos trapalhões, intercalou participações em ϐilmes com títulos autoexplicativos como Pra Ficar Nua, Cachê Dobrado , de 1977; Bonitas e Gostosas, de 1978; e Sexo e Sangue, de 1979. Mas nada marcaria tanto sua carreira como as tortas na cara, os banhos de baldes de água fria e outras humilhações sofridas durante as décadas de serviço ao humor pastelão.

Com a estrutura básica de palhaço, escada, mocinho, mocinha e vilão de ϐinida, sobrava a Mussum, o novato, fazer um papel diferente. Ele daria vida ao guarda Azevedo, ou, em suas palavras, Cabo Azevedis. Um policial que entra por acaso na história, ao tentar multar Conde e Alex. Embora fosse um estreante em um papel de verdade, o sambista mostra todo o seu carisma de comediante logo no começo do ϐilme, quando é perseguido, carregado e, ϐinalmente, atropelado pela moto cheia de engenhocas que Alex pilota com Conde no sidecar. A cena termina com Mussum ensopado, chorando dentro de uma fonte. É difícil não rir com os gritos, pulos e caretas dignas de Tom & Jerry. Ver o restante do ϐilme, no entanto, é um exercício de paciência.

Mesmo considerando o período da produção, é impossível não notar como o cinema nacional era defasado em relação a Hollywood. As máscaras dos macacos praticamente não se movem enquanto os personagens falam e é diϐícil entender o que eles dizem. A montagem do ϐilme, em muitos momentos, é primária e usa soluções fáceis para partes complicadas do roteiro. A viagem para o planeta dos macacos tupiniquim é feita de balão, Mussum continua falando com a delegacia por meio de seu rádio o ϐilme todo e, quando Dedé faz uma cirurgia para se transformar em macaco, as câmeras mostram apenas um corte seco, algumas mudanças de cor na tela e, pronto, metamorfose completa.

Ao mesmo tempo em que a tosqueira incomoda, é preciso entender as diϐiculdades técnicas e ϐinanceiras encontradas para realizar um ϐilme no Brasil nos anos 1970. Mesmo com a boa saúde ϐinanceira dos títulos anteriores e da franquia "Os Trapalhões" na TV, nas bancas e nas lojas de discos, para ϐinanciar a produção Renato Aragão precisou pedir empréstimos na Embraϐilme, a agência de cinema do governo federal, e fazer um merchandising nada discreto. O nome, o logotipo e os ônibus da Viação Itapemirim, apoiadora da ϐita, aparecem em diversas cenas, inclusive como patrocinadora do balão que faz a viagem interplanetária. E mesmo assim não sobrava dinheiro para inventar muito. As máscaras eram inteiriças, feitas com partes de fantasias comuns vendidas no comércio, fazendo com que o elenco de apoio sofresse um calor absurdo. O sacriϐício era obrigatório, uma vez que arcar com os custos de fazer diariamente a maquiagem de dezenas de atores inviabilizaria a produção. Nos bastidores, os integrantes da equipe de ϐilmagem trabalhavam de shorts, sem camisa, enquanto os atores cozinhavam com o ϐigurino composto sempre por calças e roupas de mangas longas, aϐinal, também não havia dinheiro nem tempo hábil para maquiar braços e pernas dos personagens. Até a alimentação era complicada. Para agilizar a retomada das ϐilmagens, os "macacos" precisavam almoçar copos de vitamina de frutas, de canudinho.

Usar dublês e fazer várias tomadas da mesma cena era outro luxo a ser evitado. Por isso, a cena de abertura, em que Mussum é perseguido por uma moto, foi feita com o próprio Dedé dirigindo. Nascido e criado no circo, ao lado de sete irmãos, Manfried Sant'Anna já havia atuado como trapezista, acrobata, montador de barracas e, claro, como palhaço. Guiar a moto deveria ser moleza. Mas não foi. Ele perdeu o controle e acabou batendo de frente em um poste, feriu a cabeça e o rosto, e precisou ser submetido a uma cirurgia antes de continuar as ϐilmagens. Até as locações reϐletiam a contenção de gastos. Na história, o tal Planalto dos Macacos ϐicava em Marte, mas as ϐilmagens tiveram que ser feitas quase em sua totalidade em uma pedreira no bairro de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.

Nada disso impediu o sucesso de O Trapalhão no Planalto dos Macacos. Estreando em dezembro de 1976, a ϐita bateu o recorde pessoal de Renato Aragão, sendo vista por 4.565.267 espectadores. O carisma de Didi, Dedé e Mussum, incrementado pela boa exposição na televisão, mostrava que o lançamento de dois ϐilmes por ano não seria apenas algo possível, como também muito lucrativo. Méritos do diretor Josip Bogoslaw Tanko, um iugoslavo capaz de fazer muito com pouco. Com 24 ϐilmes no currículo e mais de 30 anos de carreira no cinema, o gringo seria peça fundamental para a criação de uma escala industrial para a produção dos ϐilmes dos trapalhões. Aϐinal, ele reconhecia os problemas de roteiro e produção de seus ϐilmes e não os classiϐicava como obras-primas. Pelo contrário, Tanko costumava dizer:

— Não se pode fazer o que se quer, mas o que se faz tem que ser feito com dignidade.

O sucesso nos cinemas ajudava a consolidar "Os Trapalhões" como líder de audiência na TV nas noites de domingo ou o sucesso dominical nas telinhas ajudava os ϐilmes de Renato Aragão a baterem seus próprios recordes de bilheteria? Na dúvida, Boni, o grande responsável pela programação da TV Globo, cansou de ver o "Fantástico" no segundo lugar e apelou. Encomendou uma pesquisa nacional ao Ibope para saber quem era o cantor estrangeiro mais popular do Brasil e, fosse quem fosse, colocaria a estrela no programa dominical. O resultado da enquete colocou Elton John em terceiro lugar, com 15,2% das respostas; Elvis Presley em segundo, com 17,9%; e, disparado na liderança, com 24,4%, Frank Sinatra. No programa seguinte, após exibir o ranking, que por si só já era bastante interessante, o "Fantástico" mostrou um segmento inteiro do show de Sinatra no Madison Square Garden, hipnotizando a plateia enquanto cantava "Let me try again". Na segunda-feira, chegou o boletim com o registro da audiência das emissoras no ϐinal de semana, mostrando que nem toda a classe do Old Blue Eyes era capaz de fazer com que o público trocasse de canal na hora de ver Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. Boni, sem outra opção, reuniu seus homens de con ϐiança e deu uma ordem simples e direta:

— Contratem os Trapalhões!

Em pouco tempo, chegaria às mãos de Renato Aragão uma proposta polpuda para trocar a Tupi pela emergente Globo. O convite previa a contratação dos parceiros Dedé, Mussum e Zacarias com bons salários e investimentos altíssimos para que seu programa subisse de patamar. Mesmo assim, o convite foi recusado. Circulavam pelos camarins e mesas de edição de todos os canais as histórias sobre o temível "padrão Globo de qualidade". De fato, a emissora embarcara em uma saga pela qualiϐicação de suas atrações, com altos investimentos e certa ojeriza aos nomes mais popularescos. O convite aos trapalhões cheirava como uma manobra para tirar as estrelas do canal rival e, logo depois, deixá-las fora do ar, ou, como dito no jargão dos proϐissionais de tevê, na geladeira. Aϐinal, a emissora tinha excelentes programas de humor, como o "Chico City" e o "Planeta dos Homens", e um elenco recheado de humoristas de talento como Jô Soares, Agildo Ribeiro e Paulo Silvino, para citar alguns.

Mais do que isso, a motivação ϐinanceira não era o foco principal dos comediantes no momento. O merchandising rendia uma boa grana, limpa e direta, e Renato Aragão lucrava bem com seus ϐilmes. Estava próximo de realizar o sonho de largar a TV para dedicar-se exclusivamente à produção cinematográ ϐica. Dedé, assim na tela como na vida, sonhava junto do parceiro e estava animado com a possibilidade de ter mais tempo para dedicar-se aos trabalhos de diretor, roteirista e produtor.

Já Mussum vivia a melhor fase da sua vida com os Originais do Samba. "Alegria de Sambar", de 1975, havia emplacado mais um enorme hit, "A dona do primeiro andar" e consolidado de vez o conjunto como principal nome do pagode popular no Brasil. Novamente composta por Luís Carlos, e seguindo a receita de sucesso de "Do lado direito da rua Direita", a música estourou nas rádios e colocou o conjunto mais uma vez na lista dos mais tocados no Brasil. Mais uma vez, a repetição de palavras e a malícia faziam o refrão da música ser irresistível e grudento. Bastava ouvir uma vez a rima para sair repetindo: "Estou apaixonado / Apaixonado estou / Pela dona do primeiro andar / Pela dona... do primeiro andar".

No ano seguinte, o álbum "Em Verso e Prosa", não trouxe nenhum hit do porte de "Tragédia no fundo do mar" ou de "A dona do primeiro andar", mas a situação dos Originais era confortável o su ϐiciente para garantir boas vendas e convites para tocar em todos os cantos do Brasil, sempre com cachês excelentes. Além do repertório recheado, o público fazia fila onde quer que Mussum fosse aparecer.

O valor dos cachês subiu para cifras nunca imaginadas. Os Originais estavam entre os artistas mais bem pagos do Brasil e a entrada de tanto dinheiro causou uma baixa surpreendente no time. Corumba, logo ele, o veterano e austero empresário e conselheiro do grupo, passou a cobrar o dobro pelas apresentações, mas continuou a repassar o mesmo valor de cachê para os músicos. Procedimento que teria repetido com seus outros contratados, incluindo o velho amigo Jair Rodrigues. Não se sabe por quantas vezes ou por quanto tempo a manobra foi feita, mas o modo como o desvio foi descoberto entrou para o folclore do conjunto. Rubão, surdista e tesoureiro oϐicial dos Originais engatou um romance com a secretária de Corumba e, por métodos pouco ortodoxos de auditoria, fez a moça revelar o esquema do chefe. O bicho pegou. Os sambistas foram para cima do empresário e quase a parceria, tão bem-sucedida, acabou em agressão. O velho sertanejo foi demitido e seria iniciada, a partir dali, uma fase de muito sucesso e pouco comando para Os Originais do Samba.

Contrastando com o momento tumultuado na carreira, a vida pessoal de Mussum passava por uma fase de tranquilidade inédita. O casamento com Neila estava prestes a ser presenteado com o nascimento do primeiro ϐilho do casal, Alexandro, e a mãe de sua segunda ϐilha, Paula Aparecida, havia feito as pazes com o antigo namorado. Após um acerto verbal, o sambista, até então bastante ausente na vida da menina, passou a dar assistência e visitá-la sempre que possível – mesmo que fosse de madrugada, depois de uma apresentação, ou rapidamente durante os ϐinais de semana. O mesmo aconteceu gradualmente com Antônio Carlos, o ϐilho de Mussum com Therezinha. Embora não precisasse de ajuda ϐinanceira e já estivesse casada novamente, a mãe do garoto ϐicou sensibilizada com o encanto que "Os Trapalhões" exerciam sobre seu filho.

Ir para a Globo, en ϐim, não era tão atraente assim para os trapalhões. Mas a emissora insistiu durante todo o ano de 1976, aumentando a oferta a cada nova tentativa. Boni convidou Renato Aragão para um almoço e explicou como seria o projeto para "Os Trapalhões" na Globo. Todas as vantagens da Tupi seriam exponencialmente multiplicadas. Dinheiro, merchans, cenários, ϐigurinos, trucagens, elenco. Tudo estaria à disposição do cearense, mas ele saiu do encontro deixando apenas um acordo verbal no ar. Nada de data ou de papéis assinados. Faltava ainda um empurrão definitivo. E ironicamente ele viria da própria Tupi.

Durante as negociações para renovação de contrato com a emissora paulista, a direção do canal jogou duro com Dedé Santana. Não enxergando o valor do artista como elo de união do grupo, propuseram a ele um reajuste de apenas Cr$ 2 mil, em uma época que a in ϐlação e a recessão abocanhavam boa parte dos salários dos trabalhadores brasileiros. Como era palhaço apenas no circo, Dedé decidiu pedir demissão do canal em outubro daquele ano e gerou um impasse entre o elenco e o comando da Tupi. À boca miúda, rolava o comentário de que uma briga entre os integrantes de "Os Trapalhões" iria encerrar o programa, mas, na verdade, ocorria o contrário. Mussum e Renato Aragão foram solidários ao colega e ameaçaram pedir demissão também, caso um aumento decente não fosse dado. A emissora ϐicou de bolar uma nova proposta e começou a enrolar os comediantes, gerando um ambiente de tensão tão insustentável que forçaria a saída dos trapalhões por uma relativa banalidade.

Como as lentes das câmeras eram caríssimas e diϐíceis de serem substituídas, nos estúdios da Tupi havia um trato entre os diretores das atrações para compartilharem os equipamentos em forma de rodízio. O acordo foi o único jeito encontrado para contornar a falta de recursos para as gravações – sempre reivindicados e nunca comprados. Um desses empréstimos foi feito sem aviso prévio, quando a equipe da produção de novelas da Tupi pegou a lente da câmera usada naquele momento para as gravações de "Os Trapalhões". Quando o elenco voltou dos camarins com o ϐigurino trocado para ϐilmar um novo esquete, foram avisados pela produção que seria impossível continuar. Renato Aragão, num acesso de fúria, decidiu naquele momento aceitar o convite da Globo e deixar a Tupi a partir daquele instante. A fase paulista da vida de Mussum estava prestes a acabar.

 

21. Jornal do Brasil, 03/03/1972.