Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões
Capítulo 11
SUCESSO DE SETE LAGOAS AO FUNDO DO MARZIS
(1974)
"Teimoso e estabelecidis, eu estou tranquilis"
Os problemas com a censura, nem de longe exclusividade de "Os
Insociáveis", tinham efeito nulo sobre a popularidade da atração. Exibido pela Rede de Emissoras Independentes, e assim chegando a São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e outras capitais com emissoras parceiras da TV Record, o humorístico rendia boas audiências em diversos horários, notadamente nas noites de sábado. Nem o sotaque paulistano das piadas, fazendo referência aos jogos no Pacaembu e às ruas do centro da cidade, como a Brigadeiro Luiz Antônio, que Didi chamava de Luizandeiro Brigantônio, atrapalhava a identiϐicação dos brasileiros de norte a sul com os comediantes. Isso chamou a atenção da concorrência e, em especial, da rival Tupi, que enxergava ali uma excelente oportunidade de consolidar a audiência da recém-criada Rede Tupi. Produzindo o pastelão de Didi, Dedé e Mussum, a emissora poderia preencher a grade de programação de várias a ϐiliadas com sucesso garantido e baixo investimento. Decidiu-se, então, enviar uma boa proposta para seduzir Renato Aragão e sua trupe.
O convite ofereceria vantagens ϐinanceiras em relação ao acordo do humorista com a Record e a oportunidade de estar na emissora líder de audiência no Brasil. Prometia também uma boa verba para aumentar o elenco, criar cenários e ϐigurinos diferentes para cada tipo de esquete, a liberdade para bolar formatos mais dinâmicos para o programa e o espaço para atrações musicais. Um negócio fácil de aceitar, mas, antes do sim, Renato impôs uma condição imutável. Só mudaria para a Tupi se pudesse usar novamente o nome com o qual ele e Dedé jamais deixaram de ser chamados pelo público brasileiro: Os Trapalhões.
Nada mais natural, a ϐinal, o apelido vindo do antigo programa "Os Adoráveis Trapalhões", de 1966, desde então, era usado para rotular qualquer coisa feita pela dupla. O comando da Tupi, com a liderança do diretor de programação Mário Wilson, topou a exigência e concedeu ao humorista poderes amplos para ir muito além do formato de seriado de "Os Insociáveis". Para começar, o trapalhão cearense foi em busca de nomes para reforçar o elenco. Sylvia Massari, multitalentosa e namorada de Wilson, foi a primeira contratação. Loira e com expressivos olhos azuis, a atriz contava com uma inegável veia para o humor e ainda sabia cantar e interpretar – como continuaria a mostrar com o sucesso da personagem Maria Santa e sua desbocada bonequinha Santinha, nos anos 1990, em "A Praça É Nossa". A "trapalhona" encaixava-se com perfeição nas ideias para os novos quadros, com participações especiais de músicos famosos da época e o acompanhamento das belas dançarinas da companhia de balé de Aládia Centenaro. Ao contrário de "Os Insociáveis", mais paradão e em preto e branco, "Os Trapalhões" nascia para aproveitar as transmissões em cores com muito som e movimento. Daí veio a ideia para a adição de Ted Boy Marino. O lutador já com carreira como adorável trapalhão e todos os seus socos, chutes e saltos seria a segunda novidade do novo programa.
Mais uma aposta para o novo show seriam as sátiras das atrações da Divisão de Novelas da Rede Tupi. As paródias serviriam como uma boa oportunidade, tanto para o humorístico quanto para os folhetins do Canal 4, que sofriam para superar as já bem-sucedidas telenovelas da Globo. Renato Aragão, portanto, de ϐiniu como requisito essencial para a seleção do novo trapalhão a experiência como ator. Mesmo que involuntariamente, a vaga de palhaço instintivo já era ocupada por Mussum. Apesar de todo o seu carisma, o sambista seguia com diϐiculdades em decorar textos mais longos e, com seu jeito naturalmente engraçado, não conseguia incorporar tipos muito diferentes. Quando tentava, nem ele nem os companheiros conseguiam ficar sérios em cena.
A busca era por um integrante capaz de encarnar personagens diversos, decorar diálogos mais elaborados e atuar tanto como palhaço quanto como escada. Tudo isso, é claro, seria ainda melhor se o contratado não fosse uma ϐigurinha manjada de outras atrações. Mais uma vez, Renato pôs a "cabecinha de bater bife" para funcionar e chegou ao nome de um ex-colega da TV Excelsior, o mineiro Mauro Faccio Gonçalves. Quando Didi e Dedé estrearam no canal carioca, em 1964, haviam participado de quadros com o ator baixinho e careca de Sete Lagos, capaz de mudar completamente de voz e de comportamento quando interpretava um garçom chamado Moranguinho. A facilidade em fazer um tipo oposto à sua personalidade na vida real, excessivamente austera e discreta, chamava a atenção. Moranguinho era quase como um personagem de desenho animado, com sua voz esganiçada e uma peruca teimosa, sempre estava a revirar os olhos e a fazer gestos tresloucados. Já Mauro, falava pausadamente com um tom de voz grave e aparentava ter mais do que os seus 40 anos de idade. A transformação era resultado de uma carreira de quase vinte anos em rádios e teatros mineiros e, mais tarde, em humorísticos como "A Praça da Alegria", da TV Record, e "Café sem Conserto", da própria Tupi.
O convite para integrar "Os Trapalhões" veio em excelente momento, uma vez que, apesar de todo o talento, o ator ainda precisava se virar com papéis esporádicos e vivia meio apertado em São Paulo. O único problema seria adaptar a personalidade tímida de Mauro ao formato de "Os Trapalhões", onde os humoristas fariam quadros de cara limpa, vestindo roupas comuns e, muitas vezes, usando seus próprios nomes para apresentar atrações e interagir com o público. Era preciso criar uma nova persona, meio Mauro, meio Moranguinho, vestida com roupas comuns, mas, mantendo a peruca, os dentes pretos e o jeitinho característico. Mauro sugeriu os nomes Pafúncio e Gerôncio, mas, para batizar a criatura, Renato Aragão preferiu pegar emprestado o nome do galo Zacarias, um dos personagens aleatórios usados para descrever as histórias da vida de Didi Mocó, como a namorada Jurema, o cão Lupércio, o bode Gumercindo, a cobra Catarina, a égua Jurubeba...
Para comandar o reforçado elenco, a Tupi escalou o veterano Tito de Maglio, um dos pioneiros das transmissões de televisão na Argentina, com passagens por cursos de dramaturgia nos Estados Unidos e pela criação e direção de programas na Excelsior. Ao lado de Renato, Maglio bolou um programa dinâmico, com quadros variados amarrados por esquetes e musicais. Estavam em 1973, mas o velho formato do teatro de revista continuava funcionando muito bem, servindo como base para a nova atração das noites de sábado da TV Tupi.
"Os Trapalhões" assumiu a faixa das 21 horas, antes ocupada pelo sisudo programa de Haroldo de Andrade, apresentador de rádio transportado para a TV sem alcançar os mesmos resultados. O horário, parecido com o ocupado no canal anterior, garantiria a audiência dos fãs acostumados com Didi, Dedé e Mussum. E eles, de fato, seriam convertidos logo de cara, mas a Tupi tinha um alcance e uma grade de programação ainda mais fortes que os da Record. Mais do que vencer a disputa por pontos do Ibope, "Os Trapalhões" virou um fenômeno popular.
Faziam muito sucesso, além das tradicionais palhaçadas com tortas, quebra-paus e piadas maliciosas, as paródias de novelas. "A Barba Azul", protagonizada por Eva Wilma e Carlos Zara, "Meu Rico Português", com Jonas Melo e Dina Lisboa, "O Sheik de Ipanema", de Luís Gustavo, "Ídolo de Pano", com Denis Carvalho e Tony Ramos e vários outros folhetins da Tupi eram escrachados com perfeição pelos Trapalhões. Os destaques eram Mussum e Zacarias vestindo-se com perucas, saias e decotes para imitar as mocinhas, e as participações especiais dos atores originais das tramas. A presença na Tupi também colaborou para reforçar a identiϐicação de "Os Trapalhões" com o público infantojuvenil. Renato Aragão fazia sucesso com essa faixa etária nos cinemas e aproveitou-se disso para organizar o programa, priorizando os quadros com maior apelo visual, como os saltos e brigas do quartel dos Legionários, exibindoos no começo da atração e deixando as piadas mais sacanas e sutis para o final.
O povo abraçou "Os Trapalhões" facilmente. A recepção da crítica, por sua vez, veio com as usuais reclamações. O jornalista J.N. Pinto, do diário O Estado de S. Paulo, os comparou a herdeiros bastardos da era do rádio e de todos os seus defeitos, com uma ressalva avassaladora: "não se pode culpar o rádio pela miséria criativa dos textos, pelo amadorismo ridículo das interpretações ou muito menos pela crise coletiva de falta de originalidade da equipe de produção desse show cada dia pior". E a demolição continuou assim: "o humor [dos Trapalhões] é encarado da forma mais superϐicial, grotesca e popularesca. Os apelos e os temas provocam o riso mais pelo ridículo do que pelo hilariante e são tão rudes e vulgares que chegam mesmo a enojar e enjoar o telespectador".17 Na Folha de S.Paulo, a coluna "Videonário", de Helena Silveira, continuava o espancamento. Escreveu ela: "Ruim, de não se conseguir assistir, "Os Trapalhões" em sua parte humorística. Infelizmente a parte musical, muito pequena, não consegue contrabalancear tanta baboseira, e como sábado é dia sem bons programas, a opção é escurecer o vídeo e partir para uma boa leitura."18
Elogios nos jornais, só mesmo quando o programa completou um ano no ar pela nova emissora e a Tupi comprou espaço nos jornais e nas revistas especializadas para comemorar a data e anunciar uma edição especial do programa, com as presenças de Airton e Lolita Rodrigues, entre outras estrelas da casa. Naquele momento, a atração já era considerada o carro-chefe do canal no Ibope, superando não apenas o humorístico "Balança Mas não Cai", como também as caóticas variedades do "Buzina do Chacrinha" e outros shows populares como os sorteios do "Show da Girafa" e as variedades do "Estúdio A". Até as reprises do programa, às 14h30 de domingo, rendiam bons índices Brasil afora.
Tanto cartaz deixou a Record melindrada. Por um pouco de pirraça e uma boa dose de oportunismo, a ex-emissora de Didi, Dedé e Mussum começou a reexibir os episódios de "Os Insociáveis", no mesmo dia e no mesmo horário de "Os Trapalhões". A manobra revoltou Renato Aragão e o motivou a escrever uma carta aberta para demonstrar seu descontentamento com a antiga empregadora. "O que vou dizer deve servir de alerta aos meus companheiros para que nunca assinem contrato com a cláusula em que a emissora se reserva o direito de, em qualquer época, exibir os tapes gravados. Do contrário, vai acontecer o que está acontecendo comigo. 'Os Trapalhões' é levado ao ar todos os sábados. No mesmo dia e no mesmo horário a Record exibe a reprise dos Insociáveis, roubando dessa forma (porque divide) os meus pontinhos no Ibope. Eu sempre agi de maneira leal com a Record e isso não está certo. Mesmo porque é falta de ética profissional da Record para com a Tupi." 19
Para Mussum, a briga entre o canal da Rua da Consolação e o da Sumaré era motivo de risada.
Quanto mais aparecesse na TV, melhor seria a divulgação dos Originais do Samba. As coisas estavam indo bem, mas podiam sempre melhorar. Bem estabelecido como humorista, a vida de sambista estava na sua melhor fase até então. Os tempos de dureza em São Paulo eram apenas lembranças ruins. No lugar de cortiços e turnês a bordo da Veraneio dos Originais, morava em uma espaçosa casa nas imediações da Avenida Interlagos, pertinho dos seus sobrinhos, e dirigia um Ford Maverick preto "que bebia mais que ele". Junto com a casa nova, bonança para a família e para os negócios. Morando em um local mais espaçoso, veio a decisão de convidar Dona Malvina e seu ϐilho Augusto Cezar, do Rio de Janeiro, para morarem em de ϐinitivo junto de Neila em São Paulo, e, seguindo os conselhos do empresário Corumba, diversiϐicou seus investimentos para aplicar em algo sólido: uma empreiteira.
A ideia do sambista-humorista era tornar-se um sambista-humoristaempreendedor ao entrar na sociedade de uma empresa chamada Construtora Ébano, mas a fase de engenheiro durou menos de um ano. Após muitos cruzeiros perdidos, o negócio foi deixado de lado. Embora "Os Trapalhões" desse grande visibilidade para Mussum, sua vida de músico era o seu principal foco e isso signiϐica dizer que a agenda de shows e gravações nunca estivera tão lotada. Era impossível acompanhar o dia a dia dos negócios da Ébano. Até ver sua esposa, Neila, era um luxo. Geralmente Mussum chegava em casa de madrugada após uma apresentação e, poucas horas de sono depois, saía de novo para viajar para a cidade que receberia o próximo show dos Originais. A correria exigia até uma logística especial. Quando chegava em casa com uma mala cheia de roupas usadas, outra já estava à sua espera, pronta para mais uma viagem na eterna turnê dos Originais pelo Brasil. Essa rotina intensa, ainda mais acelerada pelas aparições na televisão, ajudavam o conjunto. As piadas de Mussum, antes consideradas uma surpresa para quem ia assistir um show de samba, começavam a ser aguardadas como um prato principal no jantar. Ele não podia nem pensar em faltar, era a estrela do grupo e boa parte do público estava ali para vê-lo.
Por isso, se em 1974, tivesse precisado escolher entre a vida de humorista popular da TV e a função de líder dos Originais do Samba, Mussum escolheria a segunda opção sem parar para pensar. E ninguém poderia criticar a escolha. O conjunto estava consolidado como grande nome da música brasileira, com seu próprio repertório de sucessos, e a característica combinação de música, dança e cores. Finalmente os televisores capazes de exibir imagens coloridas deixavam de ser raridade, e ver os chamativos smokings coloridos de Mussum, Lelei, Bigode, Bidi, Chiquinho e Rubão "em côres", como se escrevia na época, era uma experiência quase hipnótica. Nessa fase, a inspiração do visual era muito mais baseada em conjuntos de soul music, como The Dramatics, The Trammps e Earth Wind and Fire, do que nos passistas de escola de samba. Muito mais Motown do que Salgueiro. Muito mais Discoteca do Chacrinha do que Festival da Record.
Os sambistas, para melhorar a história, ainda contavam com aquela sorte rara que faz os momentos bons chamarem mais momentos bons em um ciclo vitorioso. Naquele ano, a RCA havia lançado com êxito "Samba dos Bons", um álbum contendo 10 faixas, cinco de Martinho da Vila e cinco dos Originais do Samba. Nenhuma era inédita, mas mesmo assim era sinal de prestígio ter seu nome ao lado de Martinho, a maior estrela do selo, tanto pelas vendagens quanto pelo cartaz com o público e a crítica. Um teste – bem-sucedido – para medir o moral elevado e a expectativa do público para o novo disco de Mussum e companhia a ser chamado de "Pra que Tristeza", assim mesmo, sem interrogação no final.
Inicialmente criticado pela falta de experiência, o produtor Wilson
Miranda chegava ao sétimo disco do conjunto tendo decorado a fórmula exata para extrair o melhor dos Originais, unindo faixas de forte apelo comercial a canções com raízes folclóricas, compositores consagrados a desconhecidos com potencial, percussão tradicional de partido-alto a instrumentos improváveis em um pagode. O LP repetia a dose de Adoniran, dessa vez com "Samba do Arnesto", trazia mais uma composição do novato Wando, "Não sei de nada", e apostava em Luís Carlos, o compositor dos maiores hits dos Originais até então, com "Buchicho". Também mereciam destaque "Mulata faceira", de Martinho da Vila, e "Complicação", primeira música da discograϐia dos Originais em que Mussum, ainda que ao lado de Bidi e Luís Carlos, assinaria uma composição. Até então, o tocador de reco-reco era ironizado pelos outros integrantes do grupo, que brincavam dizendo que os únicos versos escritos por Carlinhos eram os laiá-laiás das músicas. Sacanagem ou não, "Complicação", uma música sobre as dificuldades de manter um romance, tem laiá-laiá no começo, no meio e no ϐim. A pouca repercussão da composição de Mussum, porém, nada teve a ver com sua diϐiculdade ou desinteresse em escrever letras.
Todos os compositores presentes no álbum "Pra que Tristeza", para não falar de todos os outros compositores de todos os outros discos dos Originais, seriam eclipsados por Ibrain e Zeré. A desconhecida dupla foi responsável, simplesmente, por compor a música de maior sucesso da história do conjunto: "Tragédia no fundo do mar (Assassinato do camarão)". Perfeita para a fase mais bem-humorada do grupo, sua letra descreve as investigações para descobrir o autor do misterioso assassinato do crustáceo. Toda a fauna marinha é posta sob suspeita na fábula, até a entrada do guaiamum, uma espécie de caranguejo, trazer a solução definitiva para o caso:
— Vou dar um pau nas piranhas lá fora. Vocês vão ver, elas vão ter que entregar!
Diϐícil saber onde os dois malandros de Parada de Lucas, no subúrbio carioca, aprenderam tanto sobre a vida marinha, mas o caminho entre o infame trocadilho e o sucesso deϐinitivo dos Originais começou com uma espécie de pescaria. Bidi era o responsável pela escolha do repertório do grupo e, em busca de ideias frescas, percorria os morros e subúrbios ouvindo composições de sambistas das mais diversas cepas. Nada de novo até aí. Cartola, no começo de sua carreira, vendia suas composições em troca de doses de pinga nos botequins. Bezerra da Silva, décadas depois, garimparia todos os seus maiores sucessos dando oportunidades a eletricistas, mecânicos e outros trabalhadores e suas composições feitas de improviso, em torno das vendinhas e botecos. Experiente nesse garimpo e bom compositor, Bidi tinha até uma piada pronta para descontrair as audições. Sentava-se ao lado do aspirante a letrista, pedia uma dose de conhaque e mandava que ele começasse a mostrar suas músicas. O compositor mostrava uma música e ele ϐicava quieto, continuava a beber e a conversar com o pessoal da mesa como se nada estivesse acontecendo. O compositor cantava outra, o sambista pedia outro conhaque. E assim a coisa prosseguia, com várias músicas tocadas até que o repertório do novato fosse esgotado. Quando a demonstração en ϐim era encerrada por falta de repertório ou por um súbito momento de semancol, Bidi olhava e dizia em tom irônico:
— Tu queres que a gente grave o disco inteiro com as tuas músicas, filhinho?
Com a composição de Ibrain e Zeré, a história seguiu um roteiro parecido. Com a diferença de que "O assassinato do camarão" já era um hit antes mesmo de ser gravado. A música era um samba de quadra, cantado durante ensaios e rodas de samba do bairro e , quase como uma música folclórica, ia passando de boca em boca sempre agradando e sendo aperfeiçoada. Coube a Bidi procurar os autores da canção e propor a compra dos direitos de gravação, o que foi feito sem maiores complicações. Mas a história não terminaria aí. Ao ser mostrada aos outros integrantes dos Originais, a nova aquisição não agradou logo de cara. Assim como acontecera com "Do lado direito da rua Direita", os sambistas acharam a letra rasteira demais. Mussum, mostrando novamente um severo astigmatismo para o sucesso, foi veementemente contra a inclusão do "Assassinato do camarão" no repertório. Ele previa uma chuva de críticas negativas da imprensa e defendia que a palhaçada da composição passava do ponto, manchando a tradição do grupo de gravar canções de grandes nomes do samba. E essa resistência colocou a composição no banco de reservas do repertório do conjunto por mais de dois anos.
Quando Mussum ϐinalmente foi convencido de que a música tinha potencial, surgiu um problema até então inédito ao conjunto: o departamento de censura considerou o título da música ofensivo e não aceitou o uso da expressão de duplo sentido no refrão. A caneta dos censores não atacava apenas recados contra a ditadura. Falar em "dar um pau nas piranhas lá fora" era inaceitável, uma afronta à família brasileira. Existe a teoria de que o veto teria sido motivado pela associação da frase com uma denúncia à tortura, mas é muito maior a chance de a patrulha moral, fortíssima na época, ter ϐicado escandalizada com a simples menção da palavra piranha. De um jeito ou de outro, o samba sobre quem assassinou o camarão teve que esperar mais dois anos para ser prensado. A música só passaria pela censura, e sem mudanças, em 1974, quando seu título foi trocado para "Tragédia no fundo do mar". Daí para a frente, foi só alegria. Talvez a maior alegria da carreira dos Originais.
O sucesso da música colocou "Pra que Tristeza" no topo das paradas de sucesso, fazendo com que a morte do camarão fosse a sensação do ano de 1975, perdendo as primeiras posições do ranking anual de long playings mais vendidos apenas para as trilhas sonoras internacionais das novelas "O Espigão" e "Fogo sobre terra", para o clássico "A Tábua de Esmeralda", de Jorge Ben, e para Roberto Carlos, claro. Ainda assim, ao longo de vários meses, o disco dos Originais dominou as paradas de sucesso, superando artistas de altíssimo nível como Tim Maia, Odair José, Secos e Molhados e até os discos especiais "Elis e Tom", de Elis Regina e Tom Jobim, e "Temporada de Verão", com Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa.
Se estava errado em relação a segurar a gravação da canção, Mussum, ao menos, acertou como seria a reação da imprensa. Defensores do samba mais tradicional atacaram Os Originais por abandonarem as raízes do ritmo em troca de piadas popularescas. Até nos elogios, vinham reclamações, como fez Nelson Motta em sua coluna: "Os Originais do Samba – cada vez mais ricos – beliscaram mais um disco de ouro por milhares e milhares de cópias vendidas do LP "Pra que Tristeza" e do chocho e desengraçado "Tragédia no Fundo do Mar". Como diz Cartola, acontece..." 20
Não era novidade levar espetadas da imprensa, mas, naquele momento, as críticas poderiam ser digeridas com muito conforto, durante os notáveis churrascos e feijoadas promovidos pelos Originais no seu próprio sítio. Seguindo o mantra do empresário Corumba, sempre aconselhando seus contratados a diversiϐicarem o investimento do dinheiro conquistado na carreira, o grupo juntou forças e comprou uma propriedade na região de Parelheiros, afastado bairro da zona Sul de São Paulo, que, na época, era praticamente uma área rural. Por causa do cenário repleto de montanhas e árvores altas, o sítio logo ganhou o apelido de Suíça Negra.
A chácara tinha churrasqueira, piscina e pequenos chalés para abrigar os músicos e seus familiares. Também havia um campinho de futebol para disputar peladas entre os amigos e até desa ϐiar outros músicos. O mé, é claro, rolava solto. Como não havia mercados por perto, o sítio era abastecido com quantidades industriais de cerveja, cachaça, açúcar e limão. Mussum exercia ali seu talento para fazer litros e mais litros de batida. A bebedeira era liberada, mas a bagunça parava aí. Certa feita, quando o conjunto Os Novos Baianos foi até Parelheiros para disputar uma pelada, Mussum ϐicou enlouquecido ao perceber que o ônibus do time rival trazia maconha su ϐiciente para abastecer uma vila de rastafáris. Fez os músicos darem meia-volta.
Outro exemplo de investimento dos Originais foi a compra de uma camisaria por Bigode. Além de tocar pandeiro no conjunto, ele era responsável pelo ϐigurino dos músicos e estava sempre para cima e para baixo nas ruas do Centro de São Paulo com tecidos importados comprados em Manaus, calçados customizados feitos nas sapatarias La Pisanina e Spinelli, gravatas de seda Hèrmes cortadas sob encomenda na alfaiataria Horant e encomendas de roupas vindas de avião do Rio de Janeiro. Certa vez, quando procurava alguém para cortar um conjunto de ternos e gravatas para uma nova turnê, foi recomendado para ir a uma camisaria de um amigo do amigo de um amigo. Ao entrar na loja, achou tudo muito velho, e na hora teve a ideia de ser sócio do estabelecimento. No mesmo dia, combinou que faria uma bela reforma e, a partir daí, começou a usar o espaço como a alfaiataria o ϐicial do conjunto. As únicas peças feitas fora dali seriam os sapatos de Mussum. Como era diϐícil achar calçados de número 44, era preciso encomendar pares sob medida nas sapatarias da cidade de Franca, no interior de São Paulo.
Ainda nessa época de vacas gordas, Mussum mudou mais uma vez, de carro e de casa. Primeiro, saiu de São Bernardo, pois era longe, agora, trocaria o bairro de Interlagos por uma casa na arborizada Alameda Uapixana, tão próxima do Aeroporto de Congonhas que era diϐícil usar o telefone ou assistir à televisão por causa do barulho dos pousos e decolagens. Ali, Malvina teria uma edícula só para ela e viveria quietinha no seu canto. Foi nesse endereço que Mussum adquiriu o hábito de fumar cachimbos, com fumos importados, para relaxar. Também ϐicariam mais tranquilis as viagens para os shows no interior, feitas a bordo de um novíssimo Ford Galaxie, com direito a direção hidráulica e bancos de couro. Para completar o momento de alegria, entrou em acordo com a exmulher e trouxe Augusto Cezar para morar em São Paulo. Apresentou a casa ao filho dizendo:
— Ganhei tudo isso aqui com o samba!
17. O Estado de S.Paulo, 06/10/1974.
18. Folha de S.Paulo, 20/08/1974.
19. Revista Super Melodias, março de 1973.
20. O Globo, 02/07/1975.