Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões
Capítulo 18
SE ATÉ ZICO SAIU DO FLAMENGO... (1983)
"Você é simplesmente um ignóbis"
Uma semana depois da constrangedora entrevista coletiva para
anunciar a separação, uma reunião com a direção da Globo consolidou a decisão do quarteto. A emissora tinha contrato com todos os humoristas, mas não iria forçá-los a atuarem juntos. Embora estivesse satisfeita com os bons índices de audiência aos domingos, deixou para os artistas a decisão sobre o futuro de "Os Trapalhões". Como os companheiros seguiam irredutíveis, Renato Aragão optou por continuar tocando o programa e pediu reforços. Promoveu atores do elenco de apoio da atração e planejou uma reformulação mínima. Continuaria a fazer os mesmos quadros, no mesmo dia e horário, com a diferença de ter outros coadjuvantes. Para as vagas abertas foram convocados Roberto Guilherme, o eterno Sargento Pincel, Zilda Cardoso, famosa pela debochada mendiga Catifunda e os versáteis Rogério Cardoso, Augusto Olímpio e Arnaud Rodrigues. Em setembro de 1983, "Os Trapalhões" ia ao ar sem Dedé, Mussum e Zacarias. O clichê de que o show tinha que continuar seguia pétreo e imutável.
O público, por sua vez, não parecia disposto a ϐicar do lado da nova trupe de Didi. O programa com seu novo elenco não conseguia manter a mesma audiência da atração de quando tinha sua formação clássica. Isso servia como prova do carisma do trio demissionário, pois os novos atores eram capazes de fazer excelentes quadros, variando seus tipos e decorando textos bem mais elaborados. A Globo, atenta ao esvaziamento do humorístico, encomendou uma pesquisa. Queria saber a quantas andava o prestígio de Renato Aragão e dos seus ex-companheiros para tomar uma decisão mais bem pensada no calendário de 1984. Homero Icaza Sánchez, fundador do Instituto Técnico de Análises e Pesquisas e consultor da Globo, descobriu, então, que o povo preferia ϐicar ao lado de Dedé, Mussum e Zacarias na briga. Recomendou que, se fosse para escolher um lado, a emissora deveria ϐicar junto dos três trapalhões rebeldes. 32 Mesmo assim, perder Renato, o líder criativo e principal redator do programa, não era uma opção a ser considerada. A Globo estudou a alternativa de criar um novo elenco ϐixo para "Os Trapalhões", chegando a sondar outros artistas populares na época, como Sérgio Mallandro, estrela ascendente de programas de auditório como "O Povo na TV" e "Show de Calouros", da TVS, a comediante-revelação Regina Casé e até os veteranos Ronald Golias e Costinha.
Pelo lado do trio de ex-trapalhões, a coisa era bem mais simples. Além de continuarem com as portas abertas dentro da empresa de Roberto Marinho, onde poderiam tocar novos projetos, tinham em mãos uma vantajosa proposta da emissora de Silvio Santos. De acordo com as especulações veiculadas na imprensa, trocar de ares traria um aumento considerável nos vencimentos mensais de Dedé, Mussum e Zacarias. A mudança de canal renderia Cr$ 10 milhões por mês, no lugar dos Cr$ 2 milhões pagos pela Globo, valores não con ϐirmados pelo vice-presidente da TVS, Luciano Callegari, que, no entanto, a ϐirmou publicamente o interesse na contratação do trio.
Enquanto não sabia se teria um, três ou quatro trapalhões disponíveis no elenco, a Globo acomodou o trio rebelde dentro de "A Festa é Nossa", atração comandada por Agildo Ribeiro e Lúcio Mauro que reunia vários humoristas da casa em um programa com quadros diferentes a cada semana. Dedé, Mussum e Zacarias atuavam como mecânicos de uma o ϐicina de carros e aprontavam confusões no melhor estilo "Os Três Patetas", com cacetadas, caretas e gritos. Apesar de breve — o humorístico só durou entre março e dezembro de 1983 —, a incursão dos ex-trapalhões serviu para mostrar o quanto eles eram queridos entre os colegas. A direção da emissora, a equipe de produção e o elenco recheado de amigos como Castrinho, Roberto Guilherme e Tião Macalé os tratavam com muita deferência, sugerindo novas cenas e elementos cenográϐicos. Parecia que a briga estava encerrada, com cada grupo seguindo sua direção, levando algumas mágoas, sim, mas sem nenhuma questão pendente.
Mas isso durou apenas até mais uma das leituras matinais de Mussum. Após ter sido informado, por uma notinha no jornal do dia, de que Renato Aragão estava começando a rodar seu novo ϐilme, O Trapalhão na Arca de Noé, sem os ex-companheiros, o mangueirense ligou para Dedé já bem
pautado para a tradicional conversa telefônica das 7 horas da manhã.
— Você viu que ele vai fazer um filme sozinho?
— Pois é, rapaz…
— Você não é diretor? Não diz que entende tudo de cinema… Então vamos fazer um filme nosso também!
— Mas não vai dar tempo, cumpadi.
— Eu cuido da música, você cuida da direção... Vamo'simbora!
Assim, de um arroubo de indignação, nascia o primeiro ϐilme de Dedé, Mussum e Zacarias sem o comando de Renato Aragão, um projeto marcado pelo improviso, pela pressa na realização e por um recémdescoberto amadorismo administrativo da DeMuZa Produções Artísticas e Cinematográficas.
Para começar, o argumento e o roteiro da produção precisaram ser feitos em tempo recorde mesmo para as desencanadas produções trapalhônicas: 15 dias. Após a conversa inicial entre os cumpadis, Dedé bolou uma história reaproveitando o quadro da Suate, um dos grandes sucessos do grupo na televisão, em um roteiro que mostraria a expulsão dos três trapalhões da tropa de elite da polícia, fazendo, assim, uma matreira referência ao momento vivido pelo trio. Seria, para as crianças, uma comédia inocente, e, para os bons entendedores, uma resposta cifrada ao antigo chefe. E o ϐilme nem precisou começar a ser ϐilmado para o recado de vingança ser dado.
Dedé convidou Victor Lustosa para ser seu braço direito na produção do longa, mesmo com o amigo trabalhando na equipe de O Trapalhão na Arca de Noé. Lustosa, amigo muito próximo do trio rebelde, mudou de lado e fez Renato acusar os ex-colegas de roubarem pro ϐissionais de sua equipe. O talentoso roteirista e diretor declararia apenas que fez uma escolha pro ϐissional, baseada em uma melhor oferta ϐinanceira e na maior liberdade criativa oferecida pelos novos contratantes. Quando o chamavam de traidor, se sa ía com a seguinte tirada: "Se até Zico saiu do Flamengo…"
Bastante empolgado e envolvido no projeto, Mussum ϐicou responsável por musicar as cenas imaginadas por Dedé. Chamou a rapaziada do Cacique de Ramos para um churrasco em Jacarepaguá e, em menos de uma semana, já tinha composto letras e melodias para toda a trilha sonora do projeto ao lado de Neoci, Jorge Aragão e companhia. Faltava ainda um nome para o projeto, uma vez que a marca trapalhões era de propriedade da R.A. Produções. Depois de muito quebrar a cabeça usando trocadilhos terríveis, como paspalhões, trespalhões e trapalhaços, surgiu a ideia de pegar emprestado o nome famoso, sem usá-lo completamente, e batizar o ϐilme como Atrapalhando a Suate. A partir daí, era colocar o escritório da DeMuZa para trabalhar, a ϐim de contratar uma equipe completa de ϐilmagem, alugar equipamentos, conquistar patrocinadores, desenhar o melhor circuito de exibição para o longa e negociar as autorizações para as locações. Esta última tarefa foi destinada a Mauro, aϐinal, negociar pessoalmente com um artista de televisão impressionava muito qualquer empresário.
A soma dos esforços do diretor Dedé, do músico Mussum e do embaixador Zacarias não seria o su ϐiciente para lançar o ϐilme até o período das férias escolares de ϐinal de ano. Foi preciso fazer escolhas e tornar a produção o mais enxuta e prática possível. As cenas foram gravadas de primeira e só havia uma câmera disponível. No lugar de efeitos especiais, trucagens e dublês, foram usados artistas de circo capazes de fazer malabarismos com motos ou imitar macacos. Ao contrário do que rolava na R.A. Produções, o orçamento para o elenco era reduzido. Lucinha Lins topou o convite para ser a mocinha de Atrapalhando a Suate , muito mais pela amizade do que pelos valores oferecidos, e nessa toada seguiram as gravações, contando com o "apoio cultural" de empresas como a Cia. Santo Amaro de Automóveis Ford, a Transbrasil, a Itapemirim e a Parmalat. O que não foi ϐinanciado pelo merchandising, virou dívida para a DeMuZa pagar depois. Era um resgate dos tempos das chanchadas de J.B Tanko nos anos 1970 e, até por isso, um retorno ao território mais confortável para o trio. Até o ϐinal da história, como não poderia deixar de ser, foi feliz. Na base da correria, o primeiro ϐilme do trio conseguiu ser lançado a tempo em 12 de dezembro, três dias antes da nova aventura solo de Didi.
A versão cinematográϐica da paródia à S.W.A.T., apesar das diϐiculdades na produção, mostrava sem disfarce o tamanho das aspirações de gigantismo dos seus produtores. Antes de o ϐilme começar, surgia na tela uma caricatura animada de Dedé rugindo como o leão da Metro-Goldwyn-Mayer. Após ser provocado, ele sai da moldura e acabava brigando com Zacarias, travestido de musa da Columbia Pictures, com um vestido longo, salto alto e segurando uma tocha. No entrevero entre os dois personagens, a pira de Zacarias voa e acaba queimando a cauda de Mussum, desenhado como se fosse um urubu empoleirado sobre a famosa montanha do logotipo da Paramount Pictures. Ao sair voando com as penas em chamas, o grande pássaro mostra no quadro ϐinal uma paródia do logo da 20th Century Fox, que troca o vinte por três zeros. Só depois disso tudo o desenho esmaece e dá lugar, ϐinalmente, ao logo da DeMuZa Produções.
O ϐilme em si traz momentos de ação e pastelão aos montes, com uma atuação homogênea dos três ex-trapalhões, sempre aparecendo juntos e com o mesmo número de falas para cada cena. No lugar das lições de moral pregadas nos últimos ϐilmes do grupo, surge apenas o humor fácil e direto. Intenção exposta logo na abertura, quando os protagonistas dão uma volta de viatura pela avenida Atlântica fazendo caretas ao verem mulheres bonitas. Até a trilha sonora, composta e interpretada por Mussum, ajuda no clima de palhaçada sem compromisso. Em um misto de samba com discoteca, os policiais cantam para alertar os vabagundis: "Sobe a pirambeira que a Suate chegou! / Cai da folha, larga as trouxas / Se não vai pintar horror".
As cenas musicais são o único respiro entre uma sequência de ação e outra. Talvez ansioso para mostrar seus dotes de diretor, Dedé ϐilmou perseguições, brigas, balés e pequenos esquetes emendados uns nos outros, deixando o ϐilme agitado a ponto de esconder qualquer limitação técnica ou ϐinanceira da produção. Até o roteiro, meio bobinho, é encoberto pela rapidez dos acontecimentos. Dedé, Mussum e Zacarias falham ao impedir os terroristas internacionais da organização BRM (Barba Rubra da Morte), e suas patentes na tropa de elite são questionadas. O vilão, vivido pelo irmão de Dedé, Dino Santana, com uma barba postiça, nem é tão importante. Fica mesmo na memória a cena do computador da central de inteligência, sabotado pelos bandidos, mostrando uma versão avacalhada da ϐicha dos heróis. O perϐil de Mussum é então descrito assim: "Q.I – baixíssimo; Grau de Instrução: tocador de reco-reco; Academia Militar: Academia de Samba do Mé Unidos do Copo". Rapidamente os palhaços estão com um pé fora da corporação, mas aparece uma última missão: transportar uma caixa que contém um "componente atômico dez mil vezes mais poderoso que a bomba de Hiroshima". É desnecessário descrever em detalhes o caminho acidentado percorrido pela tal caixa – trajetória que, inclusive, tem uma piada comparando Mussum a um alienígena vindo do Planeta dos Macacos – mas vale destacar que até a metade do roteiro de Atrapalhando a Suate o espectador tem a impressão de que não se passaram nem dez minutos de ϐilme. Exatamente o inverso da sensação obtida ao assistir O Trapalhão na Arca de Noé.
O argumento do ϐilme escrito por Renato Aragão em parceria com Aguinaldo Silva e Doc Comparato traz como mensagem principal as lições sobre ecologia, colocando os coureiros do Pantanal como vilões e abusando da repetição de imagens de tuiuiús, jacarés e paisagens alagadas. O mocinho da história é vivido por Gracindo Júnior e, no lugar dos seus parceiros habituais, o trapalhão é acompanhado por Fábio Villa Verde, então um garoto de 12 anos, e por Sérgio Mallandro, escolha que alimentou ainda mais os boatos da contratação do fazedor de glu-glu para a Globo. O ϐilme ainda conta com a participação do sempre vilão Carlos Kurt, um organizador de rinhas de galo, e da modelo Xuxa Meneghel, de 20 anos. Foi um dos primeiros trabalhos destinados ao público infantil feito pela loira. Naquele começo dos anos 1980, sua notoriedade ainda era ligada ao trabalho de manequim e ao namoro com Pelé – algo prestes a mudar com a estreia do "Clube da Criança", na TV Manchete. A participação da futura Rainha dos Baixinhos no longa, no entanto, é bem curta. Ela aparece no ϐinal do ϐilme, sem falas, para servir de par ao protagonista, escolhido pelo próprio Noé, como modelo de ser humano para o povoamento de uma nova sociedade.
Como era de se prever, com tantas lições de moral, o humor ϐicou em segundo plano. Apesar de efeitos especiais bem-feitos e de uma realização tecnicamente impecável, a saída de Dedé, Mussum e Zacarias significou uma drástica redução da graça espontânea que era natural dos trapalhões. Do outro lado da trincheira, o trio de palhaços sofreu menos com as agruras da falta de orçamento e de tempo, compensando o clima mambembe com carisma. Impressão reforçada pelas avalições nos cadernos de cultura dos jornais e nas seções de revistas de variedades. Poucas vezes dois ϐilmes foram tão comparados pelos críticos e, ainda assim, as opiniões foram tão consoantes. A crítica de Rubens Ewald Filho, na Folha de S.Paulo, resumia bem a opinião dos colegas: "É di ϐícil dizer qual é o menos ruim. Parece que a melhor maneira de avaliar o resultado é pela pretensão. Enquanto Dedé, Mussum e Zacarias não têm outra intenção além de serem Os Três Patetas, Aragão continua com sua ambição de emular Charles Chaplin".33
Nas bilheterias, o público infantil não foi tão resoluto em escolher um lado. Pela falta de outras opções, acabaram ϐicando com os dois. Nos anos anteriores era comum ver o ϐilme dos trapalhões mais de uma vez, por isso, ver dois ϐilmes diferentes era mais uma oportunidade de variar do que de escolher. O amor incondicional da molecada pelos palhaços pouco importou no final das contas. A diferença entre o sucesso e o fracasso dos ϐilmes foi deϐinida mesmo pela experiência nos bastidores, algo que sobrava aos funcionários da R.A. Produções e faltava gravemente pelos lados da DeMuZa. Atrapalhando a Suate foi lançado em 17 capitais e, em três semanas após sua estreia, havia conseguido levar 750 mil pessoas ao cinema, arrecadando mais de Cr$ 570 milhões, mais do que o dobro gasto com a produção do filme.
O Trapalhão na Arca de Noé, no mesmo período, superou a marca de 1 milhão de espectadores e
arrecadou Cr$ 800 milhões, e a película repleta de locações, efeitos especiais e artistas conhecidos no elenco havia consumido Cr$ 300 milhões com gastos de produção e outros Cr$ 200 milhões com promoção. A disparidade não foi uma questão apenas de gosto do público. O ϐilme de Renato foi exibido em 105 salas espalhadas pelo Brasil, contra 63 salas do rival. No Rio, o principal mercado de então, o ϐilme de Renato estava no dobro de salas. O bom relacionamento da R.A. Produções com os exibidores e a parceria da empresa com a Embra ϐilme empurrou Atrapalhando a Suate para o "segundo circuito", salas com menor capacidade e piores endereços. Enquanto tomava um baile no Brasil, a DeMuZa gastava energias com o lançamento de uma versão argentina da comédia, traduzida como Los Chiflados de Swat.
Como resultado ϐinal, uma derrota dupla. O verdadeiro campeão de bilheterias daquele ano seria "O Retorno de Jedi", que em três semanas de exibição levou 1,2 milhão de pessoas aos cinemas, lucrando Cr$ 1 bilhão. Na comparação dos três ϐilmes até o ϐinal de suas exibições, no entanto, nem a soma dos dois ϐilmes dos trapalhões superariam a ópera espacial de Luke Skywalker e Darth Vader. Atrapalhando a Suate ultrapassou por pouco a marca de 1 milhão de espectadores – metade do esperado pelos seus produtores –, e O Trapalhão na Arca de Noé , a de 2,1 milhões. Nos dois casos, patamares menores do que os ϐilmes anteriores dos trapalhões alcançaram.
O desempenho fraco no cinema não era a única amostra de que a separação havia sido um passo na direção errada. Como os direitos do nome comercial do grupo pertenciam à R.A. Produções, o trio começou a usar o nome de "Os Trapalhaços" para fazer seus shows pelos circos e ginásios do interior do Brasil. As apresentações continuavam lotando, mas os cachês não eram o su ϐiciente para cobrir as dívidas contraídas durante a realização de Atrapalhando a Suate . A estreia de Dedé, Mussum e Zacarias como produtores revelava-se mais desastrosa a cada semana. Em vez de planejar um ϐilme para as férias de julho de 1984, estavam atolados na papelada e surpresos com cobranças vindas de todas as praças nas quais o longa havia sido exibido.
Enquanto isso, Renato ϐinalizava os preparativos para inaugurar seu complexo de estúdios na Barra da Tijuca, onde já negociava coproduções com artistas como Bud Spencer, Terence Hill, Jack Nicholson e Robert Duvall. Tinha ainda conversas adiantadas com Mauricio de Sousa para fazer o filme O Trapalhão e a Turma da Mônica e um projeto destinado ao mercado de cinema do Leste Europeu. Enquanto Dedé, Mussum e Zacarias suavam a camisa para ganhar alguns cruzeiros em circos de Osasco e Madureira, o cearense viajava para Moscou para negociar recursos para o projeto de O Cossaco Trapalhão. A fase era tão auspiciosa que ele brincava dizendo ter escolhido usar vidros espelhados no acabamento do prédio central da R.A. Produções para os olhares invejosos serem refletidos de volta.
Questões cinematográ ϐicas à parte, as coisas iam mal no programa de TV. O novo elenco de "Os Trapalhões" não havia agradado ao público e isso era re ϐletido em audiências cada vez mais baixas. A Globo precisou apelar para reprises dos melhores momentos do grupo e seus ϐilmes antigos, e até mudou o horário da atração, agora exibida mais cedo, às 18 horas. Cartas e mais cartas de fãs chegavam ao serviço de atendimento ao telespectador da Globo pedindo a volta do grupo. Houve até um pai desesperado com a tristeza de seus ϐilhos que prometia "quebrar a cara" dos comediantes se eles não voltassem.
A alta direção da Globo também fazia consultas regulares sobre um possível retorno. Muito próximo de Renato, o vice-presidente Boni conversava com o trapalhão sobre os rumos a serem tomados na temporada de 1984 de "Os Trapalhões", sem nunca deixar de colocar como opção uma reconciliação. Mauro Borja Lopes, o diretor artístico da TV Globo, ia mais longe. Ele enviava bilhetes semanais para os quatro integrantes, pedindo de forma emotiva o retorno do grupo. Em uma dessas mensagens, Borjalo chegou a colocar a impressão digital de seu netinho, de 3 anos, apelando para o sentimentalismo do quarteto. Nunca um divórcio teve tanta torcida para ser cancelado. Roberto Marinho, o proprietário das Organizações Globo, chegou a convocar uma reunião com Renato e Dedé e resumiu a situação da seguinte forma: "Vocês têm a galinha dos ovos de ouro, por que vão matá-la?"
Outra parte muito incomodada com a separação era Sérgio Murad, ainda muito mais empresário do que Beto Carrero, o cowboy brasileiro. Para ele, os intervalos comerciais e merchandisings das noites de domingo representavam a mola mestra do seu trabalho de marketing e promoção. Naquela altura, produtos como o Biotônico Fontoura, o leite de aveia Monange e as bicicletas Monark alcançavam o auge da popularidade e batiam recordes de vendas graças ao bem amarrado acordo entre Renato, Murad e Globo. Durantes os reclames ou mesmo dentro do programa, os trapalhões sorteavam prêmios em nome dos patrocinadores e colocavam as empresas trazidas pela ϐirma de Murad em enorme evidência. Líder isolada de audiência, a emissora do plim-plim chegava a 3.525 municípios, atingindo 75 milhões de telespectadores. Mas nem os atores ou apresentadores mais famosos dispunham da liberdade de negociar anúncios dentro de seu horário.
Sérgio Murad resolveu, então, ser herói e começou a tramar uma maneira de reaproximar o quarteto. Se pudesse, montaria em seu cavalo Faísca, laçaria e amarraria os amigos até convencê-los a parar de jogar dinheiro fora, mas isso não era possível. Para começar, Renato não precisava mais de dinheiro. Se quisesse, tinha condições tranquilas de largar a televisão para se dedicar exclusivamente ao cinema. Do outro lado, Os Trapalhaços, embora precisassem de dinheiro como nunca, mostravam suas mágoas com o antigo líder a cada entrevista ou declaração pública. Mussum, por exemplo, passou a se referir a Renato como "o professor". O apelido, antes usado de forma carinhosa por causa da maior experiência do colega, era dito com um tom diferente, com óbvios resquícios de ironia.
Murad então bolou um plano digno de ϐilme. Com a desculpa de apresentar um novo projeto de marketing, convidou separadamente cada um dos trapalhões para um jantar de negócios no restaurante Le SaintHonoré, dentro do Hotel Méridien, no Leme. Mentiu quando perguntado se teria chamado outros integrantes para a conversa. Após várias tentativas de reaproximação frustradas, essa era a única maneira de atrair Didi, Dedé, Mussum e Zacarias para baixo do mesmo teto. Dizia que aquela oportunidade seria apenas para um artista e pediu sigilo sobre o encontro. Os quatro acabaram topando e a cena estava armada. Sem que eles soubessem, Beto Carrero reuniria o grupo pela primeira vez em quase seis meses.
Na noite marcada para o encontro, uma segunda-feira 13, em fevereiro de 1984, o maître do Saint-Honoré foi avisado sobre o que rolaria ali, separou uma mesa bem no fundo do salão e instruiu todos os garçons a deixarem os quatro convidados isolados uns dos outros conforme fossem chegando. Deviam dizer que Sérgio Murad estava atrasado, a mesa reservada ainda estava ocupada e acomodar Renato, Dedé, Mussum e Maurinho na área de espera, no bar, ou em uma mesa separada. Valia qualquer coisa para não estragar a surpresa e fazer com
que o quarteto se encontrasse antes da hora.
Renato foi o primeiro a chegar, sendo levado para a mesa dos fundos para encontrar-se com o empresário e colocado habilmente em uma cadeira que ϐicava de costas para a entrada. Nos próximos 30 minutos, chegaram Mauro, Mussum e Dedé – e cada um foi isolado em um lado do restaurante. O maître cochichou no ouvido de Beto que os três convidados haviam chegado e recebeu a ordem de trazê-los ao mesmo tempo para a mesa. Quando virou-se e viu os três companheiros, Renato não segurou o choro e a cada abraço apertado nos colegas reparava que a emoção era recíproca. O empresário nem precisou tocar no assunto. A volta dos trapalhões foi selada sem que nenhuma palavra precisasse ser dita.
Após a choradeira provocada pelo reencontro, chegou uma garrafa de champanhe Dom Pérignon para celebrar a retomada da amizade. E viriam mais duas depois, além de incontáveis doses de uísque Ballantine's. Ninguém falou de como seria a divisão do dinheiro das bilheterias ou a participação de cada um nos negócios. Embora a decisão de voltar envolvesse diretamente bilhões de cruzeiros, naquela noite Renato, Manfried, Antônio Carlos e Mauro eram apenas amigos queridos que se viam após um longo período. Por total coincidência, Mussum vivia mais um momento importante da sua vida no mesmo pedaço de chão do Leme. O Hotel Méridien havia sido construído exatamente onde ϐicava a boate Fred's, o berço dos Originais do Samba.
32. Folha de S.Paulo, 18/09/1983.
33. Folha de S.Paulo, 28/12/1983.