Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões
Capítulo 13
AGORA VOCÊ É DA SWAT, NEGÃO (1977)
"São os forévis da vida. São coincidências. Tem que se cloroformar"
Rompidos com a Tupi, Didi, Dedé, Mussum e Zacarias estavam prontos
para mudarem de canal, desta vez sem deixar brechas como foi feito na saída da Record. O contrato com a nova empregadora teria cláusulas especíϐicas para evitar a famigerada geladeira. Havia o prazo máximo de um ano para a estreia de "Os Trapalhões" nas noites de domingo da Globo e, enquanto a emissora não colocasse o programa no ar, os altos salários de todo o elenco deveriam ser pagos normalmente. Na negociação também estaria previsto que Renato Aragão poderia lotear, como bem quisesse, o seu horário para a exibição de merchandising e de propaganda de seus ϐilmes, exigência essencial para que Beto Carrero continuasse a sua bem-sucedida parceria com os humoristas.
Interessada em um desfecho rápido do negócio, a Globo aceitou todos os pedidos da trupe e encomendou um programa já para janeiro de 1977.
Essa fase de transição, rolando de forma simultânea às gravações de O Trapalhão no Planalto dos Macacos, tornou Mussum um dos passageiros mais frequentes da ponte aérea Rio-SP. As ϐilmagens e os preparativos para a chegada à Globo eram no Rio, enquanto os compromissos dos Originais e todo o seu núcleo familiar estavam em São Paulo. Nem mesmo ele, um especialista em estar em dois lugares ao mesmo tempo, andava conseguindo dar conta. Precisava se desdobrar para não perder shows ou se atrasar para ensaios, chegando a ϐicar semanas seguidas sem dormir sequer uma noite em casa e vendo seus ϐilhos apenas em rápidas visitas, de madrugada. Uma suíte no Hotel Nacional, em São Conrado, virou seu endereço mais frequente. Mussum completava 36 anos de vida
e 18 de carreira, já começando a sentir-se cansado.
Por isso iniciou a busca por um local tranquilo para seu novo endereço no Rio de Janeiro, um refúgio para passar seus raros momentos de folga ao lado dos amigos e da família. Precisava rapidamente mudar seu centro de gravidade de volta para o Rio de Janeiro e, como passava praticamente todo o seu tempo trabalhando, encontrou a solução durante o expediente, por meio de um colega, ou melhor, de um cumpadi.
Dedé havia aproveitado uma pausa nas gravações de Planalto dos Macacos para conhecer o residencial Eldorado, um condomínio fechado em Jacarepaguá, onde encantou-se com uma casa espaçosa, com piscina, churrasqueira e uma fachada coberta de plantas. Sem pensar muito no preço, como fazia com tudo naquela fase de bonança, fechou negócio na hora com o corretor e deu um cheque como sinal da compra. Minutos depois, na mesma rua, viu outra casa, ainda maior e mais soϐisticada, e mudou de ideia. Disse ao corretor que ϐicaria com a segunda propriedade e daria a primeira de presente a um amigo. O amigo, claro, era Mussum, que tomou um susto com aquela história toda e, contrariado, foi conhecer o mimo feito por Dedé.
Por sorte, o rolo deu certo. O sambista gostou da casa com área construída de 360 metros quadrados e, principalmente, do clima bucólico da região. Nos anos 1970, aquele canto de Jacarepaguá ainda era frequentado por vacas de ordenha dos pequenos chacareiros da região e carroças de madeira passavam oferecendo legumes frescos de uma horta próxima, e o melhor: a tranquilidade, garantida por uma portaria com segurança 24 horas, não signiϐicava isolamento. O Eldorado ϐicava a dez minutos de carro da Barra da Tijuca e a 30 minutos do Centro. Valia a pena investir Cr$ 30 milhões ali e Mussum aceitou o sinal de presente, comprando aquela que seria a sua mais duradoura moradia, no número
660 da Rua Fritz Feigl, no ϐinal da rua, tão perto de uma cachoeira que a queda d'água podia ser vista e ouvida das janelas de alguns dos quartos. O local era perfeito pela beleza e pela localização afastada do burburinho. Tanto que não demorou muito para Renato Aragão comprar uma casa no mesmo condomínio e Mauro também mudar-se para o bairro da zona Norte carioca, fundando uma espécie de República dos Trapalhões. Seria a fase de maior entrosamento entre os integrantes do grupo. Dedé costumava tomar café da manhã na casa de Mussum quase diariamente e Renato promovia peladas e churrascos no campinho da propriedade que usava como casa de campo.
Antes de curtir as delícias da vida de estrela fora da tela, no entanto,
era chegada a hora de os trapalhões encararem as enormes responsabilidades assumidas com a Globo. Se por um lado, Boni deu tudo o que Renato pediu, em troca, a liderança e a expansão de audiência eram obrigações. Além disso, no novo canal, o grupo seria supervisionado por Augusto César Vanucci, importante diretor da Globo responsável por sucessos de público e crítica com "Chico City" e "Faça Humor, Não Faça Guerra".
Os palhaços de cara limpa não poderiam fazer o mesmo programa da Tupi e, ao mesmo tempo, não poderiam abandonar a fórmula de sucesso que os levara até ali. A solução? Reforçar novamente o programa, mas desta vez nos bastidores. Renato formou um dream team de redatores, contratando seu antigo chefe, Mário Wilson, o promissor diretor de chanchadas Adriano Stuart e o ex-colega de "Praça da Alegria", Carlos Alberto de Nóbrega, então diretor da linha de shows da Tupi. Aos 41 anos, Carlos Alberto já tinha currículo para ser considerado um pilar do humor nacional. Havia começado a carreira escrevendo piadas no rádio junto de seu pai Manoel, aos 17 anos, e depois participado da era de ouro do humor na Record, ajudando a bolar os textos de atrações como "A Família Trapo", "Bronco Total" e a própria "Praça", onde atuou como comediante, escada, roteirista, produtor, diretor, contrarregra...
Com o timaço de redatores reunido e o quarteto de comediantes em estado de graça, a ordem era extrapolar os limites dos esquetes e pensar em uma atração com o tamanho que quisessem. Era preciso mostrar logo de cara como seria o novo "Os Trapalhões" e, como a estreia aconteceria como um programa especial dentro da faixa da "Sexta Super", não era necessário se preocupar com a produção da semana seguinte. Renato chegou a declarar que, se antes gastava um dia para gravar um programa inteiro, nos dois meses de trabalho de produção da estreia levava um dia para gravar cada cena de um minuto. 22 A expectativa era tamanha que até a Tupi entrou na jogada. Programaram, para o mesmo dia, dez minutos antes do horário de "Os Trapalhões – Especial", uma exibição de "Especial com Programas Antigos", nada menos que uma pirracenta reprise de Robin Hood, o Trapalhão da Floresta . Dessa forma, em sete de janeiro de 1977, os "novos trapalhões" iam ao ar às 21h pela Globo, e os "velhos trapalhões" apareciam na Tupi.
Obviamente, a nova atração chamou mais a atenção e gerou mais comentários. Era um misto das brincadeiras rasteiras do programa da TV com a mania de grandeza dos ϐilmes, mas agora com um acabamento que deixava tudo com cara de superprodução. A atração foi feita quase toda em locações externas e tinha tomadas espetaculares, como o personagem Zé, de Renato Aragão, fugindo de um grupo de mulheres na cobertura do Maracanã e, depois, no meio da pista do Jóquei Clube em dia de páreo.
Até Mussum foi às ruas para estrear no plim-plim em uma atuação memorável. Para satirizar o preço do álcool, combustível que o governo fazia de tudo para incentivar, o malandro aparecia andando na ponta dos pés para, sorrateiro, assaltar o tanque de um sedã com um procedimento bastante requintado. Levando consigo uma caixinha de isopor, o ladrãozis coloca duas colheres de açúcar, limão espremido e gelo dentro do tanque do carro, dá uma balançadinha nele e depois prova a biritis com um canudinho. Depois, nem faz careta. Só pisca o olho e mostra a língua em sinal de aprovação.
O "Especial" ainda teve as participações especiais do atacante da seleção brasileira Jairzinho e da cantora Wanderléa, passageiros de um táxi dirigido por Didi, e um bloco inteiro dedicado a uma sátira ao seriado americano "S.W.A.T.". Mostrando uma versão avacalhada da rotina de tiroteios e perseguições da unidade de elite da polícia americana, o quadro era o segmento com mais amostras do padrão Globo de qualidade. No inglês, a sigla vem de Special Weapons And Tactics, no português, ϐicou SUATE mesmo. O furgão azul dos gringos, todo equipado e blindado, foi substituído por uma bicicleta de sorveteiro e, no lugar de resolver sequestros e evitar atentados, os brasileiros empenhavam-se em missões como tirar gatos de cima de árvores ou descobrir os botecos mais baratos para tomar um mé (esta sob responsabilidade do personagem Bob Mussa, é claro). Paródia à parte, o quadro teve um alto investimento da emissora, com cenas de estúdio mescladas com várias externas, ϐigurinos, cenograϐia incluindo metralhadoras e granadas comestíveis, efeitos especiais e até um clipe de abertura, com trapalhadas ao som da música tema do seriado original.
O programa foi recebido com uma aprovação moderada do público adulto. Faltava o improviso, o caos, as tortas arremessadas na cara. A espontaneidade desaparecera. Para a criança, por outro lado, nunca foi tão legal ver "Os Trapalhões". Não fazia tanta falta a malícia, quando se podia ver explosões, cambalhotas e um Didi pequenininho que conforme caminhava crescia na tela ou que levitava sobre uma cama de pregos vestido de faquir. Apesar de todas essas inovações, a nova fórmula recebeu o mesmo tratamento da antiga atração, com uma saraivada de reclamações dos críticos e uma audiência altíssima em todo o Brasil. A molecada havia de fato sido ϐidelizada pelos ϐilmes dos trapalhões e, não importando o canal, seguiriam com os palhaços. Com isso, a Globo viu de perto o potencial dos novos contratados, encomendou mais um programa especial na "Sexta Super" para fevereiro e marcou a estreia da atração fixa para 13 de março, no comecinho de uma noite de domingo.
A segunda aparição especial de "Os Trapalhões" trouxe as mesmas qualidades e os mesmos problemas da estreia. O programa não poupou cenários, locações externas, várias trucagens e mostrou uma partida de futebol entre o time dos trapalhões e uma seleção de atores da Globo. O problema é que, embora aquilo fosse tecnicamente muito superior a tudo que já haviam feito graças às novíssimas mesas de corte da nova emissora, os trapalhões continuavam engessados em cena. Havia até quadros em que Didi, Dedé, Mussum e Zacarias apareciam vestidos de smoking, fazendo um arremedo de stand up comedy, mas nada de xingamentos, cacos e brincadeiras entre os atores.
Com uma nova cacetada dos críticos, o próprio Renato Aragão percebeu que, continuando daquele jeito mais pro ϐissional, o programa perderia sua essência rapidamente. A sensação do líder transbordou ao elenco e à produção do programa. Todo o poderio ϐinanceiro e técnico da Globo gerava a obrigação de vencer. Perder seria vexaminoso.
Para piorar o clima tenso das gravações, Mussum sofreu uma perda trágica o su ϐiciente para fazê-lo pensar em abandonar a correria intensa à qual se submetia desde o início de sua jornada dupla de sambista e comediante. Após preencher a exigente agenda de carnaval dos Originais, numa maratona com desϐiles nos carnavais do Rio de Janeiro e de São Paulo, participações em blocos de rua e um show no Hotel Casa Grande, na cidade litorânea do Guarujá, em São Paulo, Rubão sentiu-se mal e foi levado às pressas ao hospital. O coração do surdista de 44 anos parou de funcionar no caminho e Os Originais do Samba perderam o seu primeiro integrante. Muito querido por todos, por causa de sua personalidade dócil, Rubens Fernandes foi o primeiro músico do conjunto a usar o jazigo do Cemitério de Congonhas, em São Paulo, comprado coletivamente como um investimento para um futuro distante. A perda do colega foi sentida, mas não virou trauma. O conjunto contratou Branca de Neve, reputado tocador de surdo da escola de samba paulista Vai-Vai com um tom de pele escuro o su ϐiciente para tornar seu apelido engraçado.
Na Globo, também era preciso continuar a luta apesar das diϐiculdades. A estreia da versão semanal do programa estava próxima e as apostas continuavam altas. Para se ter uma ideia, a direção da emissora convocou catorze diferentes maestros para compor uma música tema para a abertura de "Os Trapalhões" e, incrivelmente, as criações de todos eles foram reprovadas. A canção destinada a entrar para a história acabaria sendo composta por um azarão, o guitarrista da orquestra da emissora, Zé Menezes. A lição de que nem sempre o mais so ϐisticado é o melhor acabou sendo transportada para a direção do programa. Renato Aragão simplesmente desencanou do "padrão Globo de qualidade" e começou a fazer aquilo que melhor sabia fazer: usar o cotidiano como inspiração e improvisar. Desde o primeiro programa semanal, é possível ver quadros com mais malícia e cacos, como na externa em que Didi e Dedé invadem um clube e cobiçam a mulherada de biquíni. Após a estreia, a cada semana, o clima ϐicava mais leve e o programa ironizava mais e mais os cenários elaborados e o jeito certinho de fazer TV do padrão Globo. Didi começou a escancarar o mundo de mentirinha dos cenários. Ria dos carpetes verdes que simulavam grama, chutava sem esforço as pedras cenográ ϐicas, levantava postes que não estavam pregados ao chão, atravessava paredes falsas e fugia dos textos, chamando Dedé de machão e Mussum de grande pássaro.
Em um esquete em que os trapalhões tiravam sarro dos personagens do descobrimento do Brasil, com Dedé interpretando Pedro Álvares Cabral e Didi fazendo o papel de Pero Vaz de Caminha, o cearense levanta com apenas uma mão um dos elementos do cenário, uma pedra de isopor com folhas de palmeira grudadas, e diz, escapando do roteiro:
— Só podemos estar no Brasil mesmo! Olha só como essa pedra é leve!
Outra solução para unir a so ϐisticação da Globo ao humor anárquico dos trapalhões foram as sátiras musicais. A estreia na nova emissora marcou a primeira safra de videoclipes com paródias hilariantes, tanto dos clássicos da MPB quanto dos sucessos passageiros de cada semana, como "Piranha", de Al ípio Martins, e "O rapé", da banda Joelho de Porco. O quadro tinha o mínimo de roteirização. Didi, já com o smoking do começo do programa de botões abertos, mais à vontade, fazia algumas poucas perguntas para o músico e, logo em seguida, mandava rodar o trapaclipe. A partir daí a música sofria uma releitura visual, às vezes tendendo para um pastelão puro e simples, com os humoristas vestidos de mulher ou vestindo as mesmas roupas dos artistas originais, e, em outros casos, interpretando literalmente as situações descritas nas canções.
No primeiro estilo, as paródias mais marcantes foram com Ney Matogrosso e Caetano Veloso. Ao lado do andrógino cantor ex-Secos & Molhados, Didi rebolou sem camisa, com direito a maquiagem pesada e um brincão de argolas ao som de "Bandido corazón" e "Trepa no coqueiro". Já "A ϐilha de Chiquita Bacana", sucesso de Caetano, foi apresentada com o baiano cercado pelas trapalhetes – Didi, Dedé, Mussum e Zacarias de perucas, blush, sombras, colares, sutiãs e saia de fenda. Para a elaboração dos quadros, bastava apenas que a produção combinasse com o artista qual seria o seu ϐigurino, a música a ser tocada e um rápido ensaio. Durante o teste de som e de luz, Renato, Dedé, Mussum e Mauro observavam o jeito de se comportar do convidado e, na sequência, dali a alguns minutos, surgiam fantasiados e prontos para fazer suas imitações de coreogra ϐias e brincadeiras. O que ia ao ar tinha grande parte de improviso e era quase sempre gravado de primeira, sem cortes ou edições. Não era preciso mais do que isso para fazer todo mundo cair na risada.
Já os clipes mais elaborados, que reproduziam de forma avacalhada as composições, tinham como alvos artistas mais tímidos ou com agenda diϐícil. "Café da manhã", que teve direito até a participação de Roberto Carlos, foi encenada por Didi e Zacarias como um assanhado casal dentro de um quarto de hotel. Didi, o marido, pede "um café para nós dois", dividindo a bebida da xícara com dois canudinhos, para depois a cena se desenvolver com closes maliciosos e brincadeiras de cunho sexual pouco sutis. "Cotidiano", de Chico Buarque, seguiu a mesma linha, trazendo Didi, novamente como o marido, e Mussum, como a esposa que todo dia faz tudo sempre igual, acordando-o aos sopapos. A cada verso sobre os beijos de café, de hortelã e de feijão, Mussum usava seus beiços enormes para segurar objetos relacionados à música, como um relógio de sorriso pontual, um maço de hortelã ou um pires com colherzinha e tudo. A rotina do casal vai ϐicando estressante e termina com uma guerra de panelas jogadas de um lado para o outro. Basta ver a cena para ver que aquilo foi apenas vagamente planejado. Os pulos, gritos e risadas são espontâneos.
Usando essa mesma receita de unir o improviso ao poderio da produção da Globo, surgiu um dos quadros mais inesquecíveis de "Os Trapalhões", o videoclipe para "Teresinha", composição de Chico Buarque interpretada com enorme sucesso por Maria Bethânia em 1977. Renato estava dirigindo a caminho de mais uma sessão de gravação do programa quando a música começou a tocar no rádio: "O primeiro me chegou / Como quem vem do ϐlorista / Trouxe um bicho de pelúcia / Trouxe um broche de ametista". Um início que não chamou a atenção do humorista. Mas a letra prosseguia: "O segundo me chegou / Como quem chega do bar / Trouxe um litro de aguardente / Tão amarga de tragar". Click! O cearense acelerou o carro e chegou aos estúdios com o quadro pronto na cabeça. A segunda parte da música era como se tivesse sido escrita para Mussum. No mesmo dia, pegando perucas e cenários emprestados de outros quadros e ensaiando as marcações de cena rapidamente, gravaram o esquete que ϐicou tão ou mais famoso do que a própria "Teresinha" de Chico Buarque.
Programas de TV, nacionais e importados, também entraram na máquina de avacalhação dos trapalhões. O infantil "Sítio do Pica-Pau Amarelo" virou "Sítio da Febre Amarela" com Zacarias fantasiado de Emília, Didi vestido de Visconde de Sabugosa, Dedé como Dona Benta, e Mussum revertendo a doçura servil de Tia Anastácia em suas réplicas pouco polidas quando era chamado de negão. Nem Jô Soares e Agildo Ribeiro escapavam das gozações. Os palhaços transformaram o humor inteligente de "O Planeta dos Homens", dos colegas de Globo, em um pastelão bem rasteiro, com piadas visuais e sátiras aos bordões famosos dos personagens da atração. O seriado "As Panteras" era outro alvo. No quadro que contou até com a participação de Hélio Gracie, o pioneiro do jiu-jítsu, os palhaços vestiam-se como assanhadas mulheres, com perucas, saias e colares, e esparramavam seu élan para qualquer bonitão no caminho. Renato era a ruiva Kelly, Zacarias era a espevitada Sabrina e Dedé era o chefão Bosley. Mas quem mais chamava a atenção mesmo era Mussum, como uma versão absurda de Jill, a personagem da loiraça Farrah Fawcett.
De palhaçada em palhaçada, os smokings foram esquecidos e o improviso voltou a reinar. Logo no primeiro ano de casa nova, o caminho para o maior sucesso das carreiras dos trapalhões estava pavimentado. Com índices de audiência subindo ϐinal de semana após ϐinal de semana, a liderança nas noites de domingo de "Os Trapalhões" se consolidou a ponto de chegar a ajudar o poderoso "Fantástico". Era o programa ideal para a época de maior expansão da Globo. Enquanto as emissoras rivais patinavam com dívidas, o canal de Roberto Marinho ampliava sua rede de aϐiliadas pelo Brasil e transformava-se na potência dominante da telinha. Momento bastante bem aproveitado por Mussum como sambista, diga-se. A morte de Rubão foi lembrada e saudada na forma de uma bonita homenagem no disco "Os Bons Sambistas Vão Voltar", mas o LP ϐicaria marcado pela força da parceria entre os Originais do Samba e a azeitada máquina de promoção da Globo.
Na contracapa do álbum de 1977 foi colocada a frase "Rubão: foi lindo você ter vindo", fazendo referência à faixa "Eu agradeço", uma composição de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, com versos singelos feitos como que sob medida para o falecido tocador de surdo: "Muito obrigado por toda a beleza que você nos deu / Sua presença, eu reconheço, foi a melhor recompensa que a vida nos ofereceu / Foi muito lindo você ter vindo". Uma homenagem que passaria quase desapercebida, tamanho o sucesso de "Nego véio quando morre", esta sim uma encomenda com endereço certo.
Por meio dos novos contatos de Mussum na Globo, o grupo acabou sendo escolhido para gravar a principal música da trilha sonora do folhetim "Nina", substituta do fenômeno de popularidade "Saramandaia".
Estrelada por Regina Duarte e Antônio Fagundes, a nova trama seria ambientada nos anos 1920 e, por isso, Os Originais mostraram toda a sua versatilidade com arranjos rebuscados, instrumentos de sopro e um tom nostálgico de banda de coreto. Tirar a poeira de ritmos de raiz e lev á-los aos ouvidos do grande público não era uma novidade para o conjunto. Em todos os seus álbuns anteriores, o pagode brincalhão e o batuque de escola de samba foi acompanhado por batidas inspiradas em ritmos genuinamente negros, como o jongo, o lundu, a capoeira e o maxixe. O próprio partido-alto, gênero bem dominado por Mussum e companhia, deriva dessas tradicionais manifestações musicais africanas, surgidas em tribos que se reuniam dispostas em círculos e entoavam repetidamente refrões entrecortados por frases rimadas. A diversão era completada por muita dança e muito mé. Séculos antes de os europeus chegarem à África, rolava solto pelo continente o malavo, bebida alcóolica resultante da seiva fermentada das palmeiras.
O compromisso com a herança negra pouco tem a ver com o sucesso de "Nego véio quando morre". A bem da correção histórica, o nome da música nem era esse. A canção folclórica, oriunda da segunda metade do século XIX, chamava-se "Quando eu morrer", mas foi creditada erroneamente no disco "Cem Anos de Samba" e com esse título chegou até o maestro Pachequinho, arranjador do disco dos Originais. A música estourou mesmo por causa da televisão. Além do refrão fácil, "Quando eu morrer quero ir em fralda de camisa / Defunto pobre de luxo não precisa", da celebridade dos Originais e da força de ter sido escolhida como trilha de uma novela no horário nobre, "Nego véio" foi lançada no encerramento do "Fantástico", honra reservada aos maiores artistas brasileiros de então.
O tom do videoclipe, como não poderia deixar de ser, era de pura palhaçada, reproduzindo quase literalmente as cenas descritas nos versos. Mussum aparecia de roupa de viúva, de peruca loira e batom vermelho, liderando um cortejo de personagens bizarros em que o caixão custava a ser carregado no meio de dunas de areia. Ser contratado da Globo trazia esse tipo de vantagem. Além de participar da lucrativa máquina das novelas e de contar com a enorme ajuda promocional do Fantástico, os Originais passaram a participar com frequência dos programas musicais do canal, como o "Brasil Pandeiro", o "Globo de Ouro" e até da primeira grande campanha beneϐicente da emissora, no show em beneϐício do Ano Internacional da Criança. Em "Os Trapalhões", o grupo também fez diversas aparições, como no quadro em que Didi quer escolher uma nova atração para a sua boate e faz uma audição com os músicos. Apesar da maratona para manter-se no conjunto e na TV, valia muito a pena ser trapalhão na Globo. Fora da Globo, também.
Nem toda a correria ocasionada pela mudança de canal fez Renato Aragão desistir do cinema e, em dezembro de 1977, estrearia O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão, o segundo longa-metragem de Mussum como integrante do grupo. Maurinho ainda ϐicaria de fora, pois estava envolvido com Deu a Louca nas Mulheres, ϐilme em que era protagonista como Zacarias Kotonete, um vendedor de tratores delicado demais para a função que acabava virando o sonho de consumo das clientes de uma loja de lingeries – ou mais ou menos isso. No novo ϐilme dos três trapalhões vários nomes conhecidos do público se repetiam. A direção era mais uma vez de J.B. Tanko, o mocinho era Alain Fontaine, o vilão era Carlos Kurt e o magrelo Baiaco continuava a ser o ϐigurante que tomava porradas e, nas cenas mais acrobáticas, substituía Didi.
Apesar da boa fase ϐinanceira proporcionada pelo sucesso na Globo, Renato não dispensou novamente o merchandising da viação Itapemirim, na época expandindo suas linhas para o Nordeste. Se o brasileiro médio tinha diϐiculdades para comprar carne para se alimentar, imagine o custo e as diϐiculdades de manter uma equipe de produção, alugar equipamentos e ainda pagar elenco, direção, locações... Os problemas trazidos pela falta de grana – e acentuados pela falta de tempo – são facilmente percebidos na realização de O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão. A começar pelo roteiro, uma busca frenética pelo mapa de um tesouro cobiçado por bruxos, ciganos, beduínos e canibais.
Na ϐita, para o bem e para o mal, os três trapalhões interpretam personagens que, tirando os nomes Pilo (Renato), Duka (Dedé) e Fumaça (Mussum), em nada diferem de seus papéis no programa da televisão. Para Mussa, isso quer dizer que, ao contrário do que aconteceu em seu ϐilme de estreia, seu comportamento natural de palhaço e de boêmio apareceria mais desta vez. Mesmo sem aparecer bebendo, há referências descaradas à paixão pela birita, como na fala na qual Fumaça diz ser seu sonho encontrar o tesouro do Rei Salomão para gastar tudo em mé, ou quando enterrado até o pescoço, ao lado dos parceiros, ele grita por socorro:
— Eu quero ajuda! — diz Duka.
— Eu quero água! — diz o mocinho Alberto.
— Eu quero mé! — arremata Fumaça.
O comediante ainda brilha em uma cena ambientada em uma tribo africana, quando seu personagem tenta iludir os inimigos passando-se por um temível ditador, com a farda lotada de medalhas e súditos carregando-o sobre os ombros com uma liteira de bambu – arranjo que deixou Mussum morrendo de medo durante as gravações. O déspota fajuto é desmascarado e, para tentar escapar da ira da tribo, faz várias piadas em relação aos seus antepassados. Enquanto os mocinhos estão amarrados, prestes a serem queimados vivos, Fumaça tenta ganhar a simpatia dos selvagens dizendo que era "o único a ter pedigrizis" e explica ser desperdício de combustível incendiá-lo, aϐinal, ele já estava todo queimadis.
Deixando de lado a graça dos próprios humoristas, a ϐita é de um amadorismo incômodo. A história começa em uma cidade do interior do Brasil, passa por cenas em um matagal, um deserto, uma ϐloresta e termina em uma tribo africana. Tudo isso, claro, se a sua imaginação viajar para longe das locações em Jacarepaguá. Há também erros grosseiros de continuidade. Fumaça dá um tiro de espingarda na touca de Pilo e nada acontece com o gorro. A mocinha cai na água em uma cena e na tomada seguinte aparece com o cabelo e as roupas secas. Fumaça tem os fundilhos rasgados durante uma das dezenas de brigas e ϐica com a cueca, vermelha, à mostra. Nas sequência seguinte, o forévis do personagem é coberto por uma de estampa xadrez. Ainda há efeitos especiais pouco caprichados, como quando a bruxa aparece voando com sua vassoura sobre um fundo preto e atira bombas nos trapalhões, em uma locação em plena luz do dia. Falhas grosseiras? Muitas. Críticas destruidoras nos jornais? Também. Sucesso absoluto entre as crianças? Como nunca! O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão superou novamente seu antecessor, com impressionantes 5.786.226 espectadores. Tal marca jamais seria atingida novamente, mesmo com produções melhores, distribuição mais bem feita e um número maior de salas exibindo as ϐitas trapalhônicas. Carentes de outras opções apropriadas para sua faixa etária, as crianças usavam o tempo livre das férias para ver várias vezes o mesmo ϐilme e, a partir da primeira vez, ver um ϐilme dos trapalhões virou uma rotina obrigatória nas férias escolares.
A essa altura, a identiϐicação com o público infantil era total. Tanto que os comediantes passaram a fazer as sessões de lançamento sempre tendo como convidados especiais os internos de orfanatos ou alunos de escolas da periferia. No lugar de espumante e vinho branco, as avantpremières contavam com algodão doce, palhaços e equilibristas em pernas de pau. Não importava o quão simplório foi Minas do Rei Salomão. Sem apelar para artistas conhecidos ou grandes estratégias de promoção, o título ocupou o posto de segundo mais visto na história do cinema brasileiro, perdendo o primeiro lugar apenas para A Dama do Lotação, que ϐicou quase seis anos seguidos em cartaz. Até o ϐinal da década de 2000, 30 anos depois de seu lançamento, O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão ainda ocupava a quinta colocação do 23 ranking geral. Parecia mesmo que ter os trapalhões na TV, nas bancas, nas lojas de discos e no cinema ainda não era o su ϐiciente para a molecada. Percebendo o tamanho do potencial a ser explorado, Dedé voltou às suas origens circenses e convenceu os outros integrantes a rodarem pelos picadeiros do Brasil com um show de humor. A ideia foi um enorme acerto. Chegaram convites vindos de cidades de todos os tamanhos e regiões, de circos espetaculares, como o Tivoli Park da Lagoa, no Rio, aos aniversários de cidadezinhas no interior do Mato Grosso. Muito ocupado com a produção do programa de TV e com a realização dos filmes, Renato Aragão nem sempre podia participar das apresentações, mas isso não era um grande problema. Dedé conseguia vender as turnês tranquilamente apenas com Mussum, Zacarias e algumas bailarinas. Aliás, até sem o balé era possível fazer show. Usando sua natural experiência de palhaço de circo, o niteroiense bolou números simples, baseados muito mais nos textos e nas caretas do que em qualquer cenografia ou efeito especial.
Geralmente, os trapalhões subiam ao palco e começavam a conversar, transformando histórias em piadas ou então fazendo apostas para ver quem era capaz de enganar o próximo a entrar no palco. Um número frequente era Dedé jogando água no rosto dos companheiros quando um deles dizia, "Eu quero mel, abelhinha". O primeiro palhaço a ser enganado tramava a sua vingança tendo o segundo comediante como alvo; este caía no truque também e armava a tramoia para um terceiro, que saía do texto e dava um nó nos companheiros. Mussum arrancava gargalhadas da plateia sem muito esforço, apenas brincando com as palavras, fingindo que ia brigar com Dedé, surgia o seguinte diálogo:
— Não me provoca, ô cara! Eu sei lutar todas as artes marciais!
— Tudo o que você lutar, eu luto pelo avessis!
— Eu luto boxe!
— Então eu luto xebozis!
— Eu luto karatê!
— Então eu luto tekarezis!
— Eu luto judô!
— Então eu luto dojuzis!
— Eu luto kung fu!
— Então eu luto fungui... não, isso eu não luto, não!
Havia muitos convites para shows em ginásios, uma vez que boa parte dos bairros de periferia e das cidades do interior não possuía teatros com estrutura para receber um grande público. Nesses casos, as quadras poliesportivas transformavam-se em palco para os shows dos Trapalhões. Geralmente, quando Renato Aragão estava apto a fazer parte do pacote, os humoristas faziam o número do jogo de futebol de salão. Zacarias era o goleiro e calçava "luvas atômicas". Logo de cara derrubava as traves sem querer, mostrando sua força. A criançada dava a primeira gargalhada. Primeira de muitas.
Durante a partida, sempre contra um time de convidados locais, Didi arrancava com a bola e seu calção caía no meio da corrida. Depois, na sequência da jogada, Mussum sofria uma falta do adversário, brigava com o juiz pedindo uma punição mais enérgica e dava um grito, que mesmo sem microfone ecoava pelo ginásio. Como o árbitro não dava bola, o humorista incendiava a plateia, incentivando-a a cantar "Ladrão! Ladrão! Ladrão!". Na cobrança da falta, Mussum derrubava todos os adversários da barreira e Didi acertava um chute no canto. Gol dos Trapalhões. Delírio da molecada.
O roteiro seguia com palhaçadas como frangos do goleiro Zacarias, uma cobrança de pênalti com Didi chutando o sapato de um lado e a bola de outro e até um gol de bicicleta marcado pelo líder dos trapalhões quase do meio da quadra. Após cada tento, Didi e Mussum faziam um cumprimento em que cada um dava tapinhas com as duas mãos na bunda do outro. Era jogo de festa, mas, para manter um tom de suspense, os adversários também tocavam a bola, driblavam e marcavam uns gols. O clima começava a ϐicar tenso, com faltas de lado a lado e muita catimba... até Didi dar uma rasteira no juiz e ser expulso, desencadeando um caos sem tamanho no jogo. Mussum e Dedé batiam no árbitro e uma tropa de choque formada por palhaços entrava em cena, soltando fumaça e serpentinas para todo lado. A partida virava circo e os trapalhões saíam de fininho para se preparar para o próximo número.
Não era diϐícil armar essa cena nem mudar o roteiro de acordo com a cidade que veria o show, as crianças já vibravam apenas por verem os personagens da televisão de perto. Em uma época de poucos ídolos nacionais e diϐícil acesso aos livros e peças de teatro, aquele quase sempre era o primeiro contato de crianças e adolescentes com um show. Bom para quem não tinha condições de consumir produtos culturais, melhor ainda para os trapalhões. Com clubes, ginásios e circos lotados, o dinheiro chegava rápido, fácil e sem intermediários. Em um ϐinal de semana, em trio ou em quarteto, os humoristas faziam até oito apresentações. Na mesma cidade, em horários diferentes, e em cidades vizinhas, dobrando a sessão.
Para Didi e Dedé, isso signiϐicava contar com uma nova e importante fonte de ϐinanciamento para os próximos ϐilmes. Zacarias começava a melhorar de vida, comprando seu apartamento próprio e seu carro. Já Mussum, arrumava mais uma baita dor de cabeça. Ainda reformando e decorando a casa de Jacarepaguá para trazer sua família em deϐinitivo, o novo superstar do cinema – e também da TV e dos picadeiros – continuava a viajar várias vezes por semana com as turnês dos Originais do Samba.
Se os dias durassem 28 horas, ainda assim seriam curtos para pegar tanta ponte aérea e dirigir tanto seu Galaxie. Eram os primeiros e mais fortes sinais de que chegaria um momento de escolher entre o samba e a comédia. Renato Aragão puxava Mussum para o seu lado sem disfarçar. Aconselhava-o a deixar o conjunto e pensar no futuro de sua família. Apesar das boas vendagens dos seus discos, era diϐícil alcançar o mesmo montante resultante da soma do cachê da Globo, dos merchandisings trazidos por Beto Carrero e das bilheterias do cinema e dos circos. De outro lado, um grupo formado por companheiros de toda uma trilha acidentada de trabalho, superação e êxito.
A cabeça de Mussum virou um trevo e, sem decidir o que faria, começou a redobrar o esforço para estar no Rio e em SP, nas gravações da TV e nos ensaios do conjunto, nos shows dos Trapalhões e nos shows dos Originais. Conseguia milagrosamente evitar faltas, mas os atrasos eram cada vez maiores e mais frequentes. O pau só não quebrava, de um lado ou de outro, porque o malandro já chegava contando uma piada qualquer e antes de levar bronca desarmava o espírito dos colegas.
Normalmente eram histórias ocorridas no aeroporto. Conforme ϐicava mais conhecido do público brasileiro, mais era interpelado por fãs de todos os tipos e idades. Os adultos costumavam tratá-lo como o personagem dos Trapalhões. Era normal ser xingado de Negão e tomar tapas na cabeça e nas costas. Duas das poucas coisas capazes de tirar Mussum do sério. E, como sempre, quanto mais ϐicava nervoso, mais seus "causos" ficavam inacreditáveis e engraçados.
Foi o que aconteceu durante uma consagradora entrevista dos quatro trapalhões ao jornal O Pasquim
faixa preta Jaguar, Jeferson, Nani, Ricky e Sylvio. O bate-papo foi realizado no apartamento de Renato Aragão, na Rua Delϐim Moreira,
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feita pelos intelectuais e humoristas
Leblon, e, como de costume, Mussum demorou o su ϐiciente para que as perguntas começassem a ser feitas sem ele, mas, quando ϐinalmente chegou, não deixou seu atraso virar assunto. Emendou seu bordão sobre estar "em pé sem cair, deitado sem dormir, sentado sem cochilar, só fazendo pose" com a seguinte história:
— Sabe o que aconteceu comigo hoje? Uma garota veio perguntar para mim se eu era o Mussum. Falei: "eu não". "É você sim. Você não é da Globo?" "Sou, mas não mexo com esse negócio de Trapalhões, não. Eu trabalho é [na novela] 'O Astro'!"
Os três colegas de programa e os jornalistas mal tentaram ϐicar sérios para saber qual era o desfecho do diálogo, que o trapalhão atrasado contava com cara de contrariado, imitando a voz da garota com quem encontrou no aeroporto:
— Não! Em "O Astro", não. Lá não tem preto!
Todos caíram na gargalhada, a entrevista continuou por longas horas e ϐicou tudo bem. Assim, mais um atraso era disfarçado com uma piada, uma história engraçada. Outros casos contados por Mussum para driblar as broncas pelos constantes atrasos falavam das incomuns demonstrações de carinho dos fãs. Como na história em que uma mulher coloca forçadamente um garoto nos braços do humorista e incentiva a criança dizendo: "Abraça ele, meu ϐilho, pode encostar que não solta tinta!" ou então uma quase agressão na fila para o embarque:
— Estava na ϐila para entrar no avião e tomei um empurrão no meio das costas. Pensei que era algum amigo, algum conhecido brincando, mas não era. Eu me virei e era um paulista, de terno, com aquelas pastas 007. Ele olhou bem sério para mim e disse: "Agora você é da S.W.A.T., negão! Tem que aprender a se defender!". E o miserável caiu na risada!
22. O Globo, 07/01/1977.
23. Agência Nacional de Cinema – Ancine.gov.br.
24. O Pasquim, Ano X – no 474.