Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões
Capítulo 19
TEM LEITE DE GANSO MANSO? (1984)
"Ser rico não é nadis. Ser rico e bonitis, dá para compreender. Agora ser rico, bonitis, gostoso e chupetis, aí é fogo!"
No dia seguinte ao encontro tramado por Sérgio Murad, os quatro
comediantes decidiram marcar uma reunião para falar de negócios. Seria um almoço, de novo no Leme, em uma mesa da histórica cantina La Fiorentina. Os trapalhões chegaram desarmados de qualquer sentimento de revanche, sem vencedores ou vencidos, e expuseram todos os problemas e reclamações guardados por anos. O trio rebelde havia descoberto o quanto o trabalho de Renato Aragão era complicado. Ao produzir Atrapalhando a Suate, contraíram dívidas e trabalharam como nunca haviam feito em suas vidas. Mesmo assim, o ϐilme foi relegado a um circuito de salas que desperdiçou boa parte do seu potencial de bilheteria. Por isso, foi decidido em conjunto que a distribuição das produções para o cinema, principais pontos da discórdia que motivaram a separação, ϐicariam sob a supervisão de Renato, mas, ao mesmo tempo, teriam participação da DeMuZa. Em troca do controle do negócio, haveria uma separação de lucros mais favorável aos trespalhões. Além disso, Dedé receberia a oportunidade de formalizar seu papel nos bastidores e, en ϐim, realizar o seu sonho de ser diretor. O ϐilme solo dos trapalhaços serviu como prova de que o niteroiense era capaz de tocar um longa de ação e comédia com bastante talento. Mussum e Zacarias também participariam com voz mais ativa nos processos criativos das obras. Aprovariam as decisões e passariam a ter voto na escolha de roteiros, personagens, elenco e trilha sonora.
Mágoas sobre declarações na imprensa foram dirimidas, colocando-se toda a culpa nos fuxicos dos "mentirosos" colunistas. Essa foi a segunda decisão do encontro. A partir da retomada, nenhum dos integrantes falaria com qualquer veículo de comunicação isoladamente. Todos os pronunciamentos sobre o programa de TV ou sobre os próximos lançamentos para o cinema seriam feitos com os quatro comediantes juntos. Mais um ponto discutido foi a participação de Renato nos shows dos Trapalhões nos circos e ginásios do interior do Brasil. Quase sempre ausente das turnês para cuidar de negócios pessoais, o cearense comprometeu-se a analisar com mais carinho as próximas propostas de apresentações, inclusive se envolvendo nas negociações do grupo, que a partir de então seriam vendidas com o grupo completo.
A conversa demorou cerca de três horas, e entre pratos de espaguete com molho de camarões, lulas e mexilhões refogados, Renato, Dedé, Mussum e Mauro decidiram ir até a Globo para espalhar a notícia. Chegaram à sede da emissora às 17h e foram diretamente para a sala de Borjalo comunicar a decisão. O diretor ϐicou entusiasmado, já falando sobre datas e projetos novos que poderiam ser realizados a partir dali. Mesma reação do diretor da linha de shows, Walter Lacet, um antigo amigo da trupe que torcia pela retomada da formação clássica do grupo. Até o presidente das Organizações Globo, Roberto Marinho, arrumou um espacinho em sua agenda para ouvir as boas-novas diretamente de seus portadores. Para alívio de todos, o time das noites de domingo voltaria a ser escalado com força total e, assim, garantiria a soberania da emissora sem sustos. Do dia para a noite, um problemão foi resolvido para a direção, pois 1984 começava ainda sem uma deϐinição satisfatória do que fazer com os humoristas separados. A princípio, o plano era manter Renato liderando "Os Trapalhões" com um elenco rotativo, e acomodar Dedé, Mussum e Zacarias como participantes do "Humor Livre", um novo programa de comédia que estrearia nas noites de sábado a partir de março. Estrearia, porque depois da notícia da reconciliação acabou engavetado. Não valeria a pena dividir forças. Como ϐicara provado durante o período de separação, a força de "Os Trapalhões" era a química entre os seus quatro componentes, ou as quatros pernas de uma mesa, como gostavam de metaforizar.
Para o dia seguinte, foi convocada uma coletiva de imprensa nos recém-inaugurados estúdios da Renato Aragão Produções, na Barra da Tijuca. A infraestrutura do local era superior a qualquer coisa do gênero no Brasil e ϐicava "pau a pau" com os estúdios americanos visitados pelos comediantes durante as gravações de Os Saltimbancos Trapalhões. Provava o quanto Renato Aragão trabalhava duro para promover seus ϐilmes, fazendo a "parte chata" com tanto ou mais talento do que dava cambalhotas e fazia piadas rasteiras. Começada a conversa com os repórteres, notava-se exatamente o contrário do clima do último anúncio coletivo pouco menos de seis meses antes, no Teatro Fênix. Entre sorrisos e brincadeiras, o grupo respondeu às perguntas de repórteres incrédulos. Como era possível uma briga ensopada de rancores e trocas públicas de farpas ter terminado assim, sem mais nem menos, com tanta leveza?
Foi especulada até a possibilidade de aquilo tudo ter sido apenas um grande golpe de marketing para dar uma chacoalhada no tradicional programa dominical, mas Renato apressou-se em comparar o grupo com um casal. Depois de dez anos de convívio intenso, a relação do quarteto estava desgastada e eles resolveram tirar "férias conjugais". Viviam agora uma espécie de renovação de votos, dispostos a superar problemas e fazer tudo que era bom ϐicar ainda melhor. Após uma rodada de respostas desmontando a teoria do golpe de marketing e frases evasivas a respeito de como seria a nova divisão dos lucros, Mussum pediu a palavra para falar que a história toda nada tinha a ver com números. "É curioso observar que, mesmo no auge dos disse me disses da separação, nós nunca sentamos para discutir a causa do rompimento. E muito menos agora, na reconciliação. Olhando para trás acho que tomamos a decisão inteligente que tínhamos de tomar, porque toda a revolta de seis meses atrás era somente um mal-entendido organizacional. Um problema interno das nossas ϐirmas, que não estavam se entrosando. No final das contas, a separação serviu de férias." 34
Mussum usou o intervalo provocado pela ruptura repentina para aproveitar um pouco mais a vida. O que, no caso de um veterano de boemia como ele, signiϐicava curtir a companhia dos ϐilhos, dos sobrinhos e do ócio. Trabalhou muito na produção apressada de Atrapalhando a Suate, mas o longa acabou sendo bem mais simples do que qualquer outro trabalho recente do grupo completo. Sem o mesmo apuro técnico ou roteiros mirabolantes, o longa foi ϐilmado quase sempre em tomadas únicas. Ficou bom no primeiro take? Ótimo. Ficou mais ou menos? Depois dá-se um jeito. Para Mussum, foi uma oportunidade de curtir a infância do seu ϐilho Alessandro, a quem chamava de Sandruco, e de marcar de perto o ϐinal da adolescência de Augusto, seu ϐilho mais velho, então com
19 anos. O pai coruja havia combinado dar liberdade total para o primogênito curtir a noite assim que ele alcançasse a maioridade. Gugu completou seus 18 anos, mas nada feito. Enquanto o ϐilho não chegasse, Mussum mantinha-se acordado, fumando cachimbo e esperando ver o
rebento chegar são e salvo à hora que fosse. O pai coruja andava preocupado com a escalada da violência no Rio de Janeiro e ϐicava aϐlito com as baladas de Augusto. Meses antes, havia passado por uma tentativa de assalto no caminho de volta da Globo, quando uma dupla de bandidos armados só não levou seu Volkswagen Santana porque reconheceu o comediante famoso e desistiu do roubo. A partir do episódio, Mussum passou a andar sempre acompanhado de Edson Farias, espécie de segurança, motorista e secretário dos trapalhões. Edson trabalhou primeiro com Renato e depois com Dedé e Mussum. Além de zelar pela segurança dos patrões, participou como ϐigurante de uma dúzia de filmes do quarteto. É só olhar nos créditos!
A fase mais tranquila em casa também serviu para o velho Mussa aperfeiçoar seus conhecimentos culinários, recebendo seus convidados em Jacarepaguá com memoráveis churrascos, feijoadas, cassoulets, mocotós, rabadas, angus à baiana, dobradinhas e até mesmo um prato próprio, o Filé à Mumu – um medalhão de ϐilé-mignon com molho de champignon, shoyu e mostarda, acompanhado de arroz maluco, também conhecido como arroz Biro-Biro. O mé não era o único culpado pela barriga alta e redonda exibida pelo trapalhão em cena. No comecinho dos seus 40 anos, não lembrava em nada o passista magrelo campeão na avenida com a Estação Primeira. Tanto pela silhueta quanto pela disposição de sair revirando as vendinhas dos morros à pé pela madrugada.
Seus points preferidos para matar o bicho ϐicavam mais perto de casa, na Barra da Tijuca, onde era membro do clube do uísque da Churrascaria Porcão e ϐigura fácil de ser encontrada no Bar do Oswaldo, famoso pelas suas tradicionais batidas. O retorno das gravações semanais do programa para a Globo, somado às ϐilmagens para o cinema e uma maior participação na parte administrativa dos negócios acabaria com essa moleza. Em 25 de março de 1984, dali a cinco semanas, seria preciso gravar um dos episódios mais emocionantes da sua carreira artística, o deϐinitivo retorno ao palco dos trapalhões. Situação que exigia algo especial, é claro. Não poderiam apenas retomar a atração exatamente como era antes sem dar qualquer explicação para as crianças, órfãs de sua principal diversão televisiva por meses. A primeira aparição da temporada seria especial, mas o resto do ano também deveria ser. Nas reuniões iniciais para deϐinir o roteiro e o elenco do programa, os quatro integrantes chegaram com um brilho nos olhos há muito não visto. Traziam sugestões anotadas em pedacinhos de papel, discutiam animadamente novas ideias para paródias e começavam as cenas de provocações e tapas antes mesmo de entrar em cena. Em uma dessas rodadas de ideias, surgiu o nome de um novo diretor para atração. No lugar de Gracindo Júnior, já com mais vontade de voltar a ser ator do que de comandar o humorístico, foi convidado Paulo Araújo, experiente ator e diretor de comédias, conhecido do grande público por encarnar o malandro Agostinho, na primeira versão do seriado "A Grande Família", nos anos 1970. Por tr ás das câmeras seu maior cartão de visitas era o inovador "Planeta dos Homens". Exibido pela Globo nas noites de segunda-feira entre 1976 e 1982, o programa girava em torno de vários personagens diferentes a cada episódio, mas possuía carismáticos macacos tentando entender as idiossincrasias dos seres humanos. Além da inteligência dos textos de craques como Jô Soares, Max Nunes, Hilton Marques, Haroldo Barbosa e Luís Fernando Veríssimo, o programa contava com uma cenogra ϐia minimalista e com esquetes de ritmo variado, mas sem nunca ultrapassar mais do que 10 minutos com uma só piada – coisa bastante comum em quadros de "Os Trapalhões".
Araújo topou o convite e foi iniciada uma correria geral na Globo, não apenas nos corredores do Teatro Fênix. Nos últimos meses, Hans Donner já havia até feito uma nova vinheta de abertura para "Os Trapalhões". Como a ideia era fazer algo mais genérico, sem referências a Dedé, Mussum e Zacarias, todo o trabalho precisou ser refeito. O resultado, mesmo com pouco tempo para ser gestado, foi um dos mais inovadores trabalhos da equipe do designer austríaco, com cenas colorizadas do quarteto interagindo com personagens de desenhos animados. Didi começava a abertura como um sertanejo na caatinga e chutava de letra o crânio de uma vaca. O esqueleto do animal ganhava vida e saía chifrando o trapalhão. A partir daí, Dedé era mostrado como bombeiro de posto de gasolina, Mussum como pescador e Zacarias como caçador. Todos se davam mal nas suas cenas e Didi aparecia novamente, desta vez como presidiário. O cearense fazia então uma embaixadinha com a bola de ferro presa ao seu tornozelo e, dando um chute de bicicleta, mostrado com direito a replay, escapava do presídio voando para cair nos braços dos companheiros. Quando a televisão da molecada mostrou isso na noite de domingo, muita gente sorriu de alívio como não sorria há muito tempo. Os trapalhões estavam de volta com força máxima.
Esse primeiro episódio começou com Chico Anysio no centro do palco, contando para três meninas, uma delas Simony, uma história sobre quatro caras fantásticos que faziam todo mundo rir. Junto com a narração do comediante, eram mostrados trechos de programas antigos e dos ϐilmes dos trapalhões. Ao ϐinal do texto, cada um dos integrantes foi chamado ao palco para receber o carinho do auditório do Teatro Fênix e, consequentemente, o calor do Brasil inteiro. Boas-vindas retribuídas com um programa mais ágil e engraçado. A base do novo cenário principal era toda branca, com elementos cenográ ϐicos meramente simbólicos. Um esquete passado em uma praça, por exemplo, seria montado apenas com um banco e um poste, sem fundo, árvores, cercas ou ϐigurantes. A criação dos detalhes do local ϐicava com a imaginação do telespectador, que mal tinha tempo para se incomodar com a simplicidade, pois, muitas vezes, as piadas eram representadas em pouco menos de um minuto. Esse esquema fez o trabalho de Mussum crescer bastante, uma vez que decorar textos e fazer personagens diferentes não era o seu forte. Um de seus quadros mais famosos foi feito justamente nesse arranjo. O personagem do sambista entra no boteco e vai direto ao galego do balcão fazer seu pedido:
— Me dá um copo de leite de capivara de Barra do Piraí.
— Não tem.
— Então dá um copo de leite de mula manca sem cabeça.
— Também não tem.
— E leite de perereca, tem?
— Não!
— Leite de ganso manso?
— Não tem nada disso!
— Deus é testemunha que eu queria tomar leite... Bota aí uma cachaça!
É claro que os esquetes mais longos, recheados de improvisos, e as paródias musicais, duas marcas registradas d e "Os Trapalhões", foram mantidas e aprimoradas. Naquela temporada, os cantores Fábio Júnior, Erasmo Carlos e Simone não apenas cantaram junto dos palhaços como também brincaram de atuar, interpretando eles mesmos. Os trapaclipes continuavam impagáveis e com cada vez mais cuidado na produção. Para a versão avacalhada de "Thriller", Renato Aragão pintou o rosto de tinta preta e encenou todas as principais cenas do videoclipe original, com direito a um cenário sombrio, um balé imitando a famosa coreograϐia e, claro, Mussum e Zacarias fazendo palhaçadas no meio de tudo isso. Para a participação do pioneiro conjunto de hip hop nacional, Black Juniors, foi montada uma grande festa de break, com B-boys e ϐigurantes vestidos a caráter. O foco do quadro só foi desviado para importunar Mussum, o único trapalhão que fez o quadro sem precisar usar maquiagem para escurecer o rosto. Brincadeira racista, mas prova segura de que o clima de saudável sacanagem entre os humoristas estava novamente estabelecido. Mais um reϐlexo de que felicidade havia voltado a dar expediente seria exibida mais tarde, no ϐinal do ano, por meio de um programa especial que mostrava uma longa seleção dos erros de gravação, com todos os integrantes da produção rachando de rir das criancices de Renato e Mussum em cena.
Mais uma marca dessa fase de retomada foi o aprofundamento nos programas sociais para bene ϐiciar crianças necessitadas. A partir da metade da década de 1980, os trapalhões aumentariam consideravelmente seu trabalho social. Não apenas com críticas superϐiciais nos seus ϐilmes ou convidando garotos de orfanatos para participarem das estreias no cinema, mas liderando iniciativas de grande vulto.
A primeira delas aconteceu graças à Renato Aragão, em setembro de 1983, quando a Rede Globo promoveu a Campanha Nordeste Urgente. Foi uma resposta solidária a uma fase de seca sem precedentes, que começou a se agravar em 1979, com mais de 1.427 municípios, de uma região com mais de 1,4 milhão de quilômetros quadrados, entrando em colapso pela falta de água para plantação e para consumo humano. Estimava-se que 30 milhões de pessoas sofriam os efeitos da seca em oito estados: Pernambuco, Rio Grande do Norte, Maranhão, Ceará, Piauí, Paraíba, Bahia e Minas Gerais. Com o apoio de Boni e a participação de grande parte do elenco da Globo, Renato Aragão foi ao ar domingo, do meio-dia às 20 horas, e conseguiu arrecadar 2,5 toneladas de alimentos e Cr$ 4 bilhões em doações.
Depois do sucesso desse projeto, dois anos mais tarde, seria criado o Criança Esperança, mas, antes disso, a denúncia das grandes mazelas dos brasileiros seria feita por meio do cinema mesmo. Programado para as férias de meio do ano, o primeiro ϐilme dos trapalhões após reatarem seria um raio X bastante crítico dos ϐlagelados da caatinga. Baseando-se no conto The Wonderful Wizard of Oz, do norte-americano Lyman Frank Baum, Renato Aragão bolou um argumento a ser encenado entre casebres de pau a pique, caveiras de gado e repentistas. A piadinha infame seria abrasileirar o nome do famoso feiticeiro da história original, mudando seu su ϐixo para o mágico de Oróz, uma homenagem à cidadezinha de Orós, a 341 quilômetros de Fortaleza.
Ao lado do elogiado O Cangaceiro Trapalhão , o ϐilme Os Trapalhões e o Mágico de Oróz seria uma das mais brasileiras obras do quarteto, tanto pela estética quanto pelo tema principal, só havia uma pendência antes das ϐilmagens: bolado na época da separação, o roteiro não previa as participações de Dedé, Mussum e Zacarias.
Renato, ϐinalmente assumindo o apelido e o personagem Didi no cinema, seria acompanhado por José Dumont e Arnaud Rodrigues ao longo da história. Provavelmente, Dumont seria o homem sem coragem, Arnaud o espantalho sem cérebro e Roberto Guilherme encarnaria o homem de lata. Com o retorno dos titulares, foi preciso fazer uma reorganização completa no roteiro. Para o bem da molecada que foi ao cinema em junho de 1984, e para a história do cinema nacional, o recémefetivado diretor Dedé Santana, acompanhado do anistiado Victor Lustosa, resolveu a questão, colocando José Dumont como Tatu, e Arnaud Rodrigues como Soró, dois amigos sertanejos de Didi que decidem junto com ele deixar a terra esturricada em busca de água ou de qualquer oportunidade de melhorar de vida.
Aos três trapalhões foram estipulados os papéis dos amigos de Dorothy. Zacarias mostrando seus dotes de ator teatral viveu o molenga espantalho Vassoura, na sua busca por um cérebro; Dedé fez o papel do covarde delegado Leão, que pediria ao mágico de Oróz para deixar de ser frouxo; Mussum interpretou o homem de lata, no caso, um tonel de cachaça deprimido por sua falta de sentimentos. Sua cena de entrada, aliás, é um dos pontos altos do ϐilme. Didi e Vassoura entram em um paiol abandonado e acabam esbarrando em tonéis metálicos. Começam a ouvir um fantasmagórico lamento:
— Mé... Mé... Mé...
A dupla pensa que um cabrito estava preso entre os latões, mas acaba sacando que há algo dentro de um dos tonéis. Ao abrir a tampa de um dos recipientes, veem a cabeça de Mussum sair e seguir sua súplica:
— Mé... Preciso de Mé... Fosfatis... Fortificantis...
Após abastecerem o novo amigo com cachaça, descobrem que ele é triste por não ter um coração. "Encher a cara de cana não deixa ninguém feliz", observa Didi, e o tonel falante junta-se ao grupo. Nesse momento, a canção-tema toca novamente, com sua letra adaptada ao personagem que acabara de ser apresentado, assim como aconteceu nas cenas de entrada do espantalho, do leão e dos sertanejos. Essa coesão é vista em outros momentos do ϐilme, como durante um julgamento em que promotor e defesa expõem argumentos na forma de repente. Vale a pena, ainda, reparar na ironia trazida pela cena. Dez anos depois da brincadeira, Mussum de fato precisaria de um coração. E não era um problema a ser resolvido por nenhum mágico.
Voltando a 1984, Os Trapalhões e o Mágico de Oróz garante seu lugar na história por ser uma tentativa de trégua entre a R.A. Produções e a DeMuZa. Os investimentos de mais de Cr$ 500 milhões foram divididos entre as duas empresas e o complexo de estúdios de Renato Aragão foi usado durante vários momentos da ϐilmagem. Visualmente, o mais interessante foram as vinhetas das antigas rivais aparecendo em sequência, com a assinatura da DeMuZa em uma versão mais sóbria, trazendo apenas a sátira ao logotipo e à canção-tema do estúdio 20th Century Fox, sem outras animações. Também nos novos termos da parceria foi ϐilmado, no mesmo ano, A Filha dos Trapalhões, projeto menos ambicioso, porém com tanto ou mais viés político.
Renato Aragão espantou-se ao ver no "Fantástico" uma reportagem sobre uma sequestradora de bebês do Rio Grande do Sul. A mulher roubava crianças e as vendia para casais estrangeiros com a consciência tranquila, dizia que estava lucrando um pouco enquanto ajudava na solução de um problema social. A partir daí, nasceu um dos primeiros roteiros originais da ϐilmograϐia de "Os Trapalhões". A realidade pela primeira vez ganhava da literatura e do cinema. O vilão do ϐilme chegou a dizer uma versão da frase da sequestradora gaúcha: "Resolvemos um problema social. Pai rico, criança pobre. Uma criança abandonada a menos, um negócio a mais". Mas como tocar em um tema tão sensível e, ao mesmo tempo, arranjar uma desculpa para fazer o público rir?
O agora diretor Dedé Santana fez o que sabia fazer melhor, caprichou nas cenas de ação e colocou artistas de circo para participar da trama e, assim, adicionar tintas mais românticas e infantis. Renato também fez o que julgava melhor, ressuscitou Bonga, o vagabundo de bom coração, para ser o protagonista do ϐilme. Dessa vez, com a diferença de o personagem assumir o apelido de Didi em cena. O próprio Renato havia desistido de batizar à toa os tipos que vivia no cinema. Assim, já no segundo ϐilme pós-separação, Dedé, Mussum e Zacarias voltariam a interpretar pequenos papéis. Não faria falta se não aparecessem, mas, dessa vez era por uma boa causa. Além disso, o clima nas gravações era de festa. Com locações na Granja Comary, Mussum sentia-se em casa para tomar um vinho ou um conhaque da adega do patrão e, assim, espantar o frio e o tédio por esperar sua vez de ser gravado em cena.
No ϐilme A Filha dos Trapalhões, os quatro trapalhões viviam em uma
maloca ϐlutuante, ϐilmada na Lagoa de Marapendi, na Barra da Tijuca e, após uma sequência cheia de lances arriscados, como Didi pendurando a bebezinha apenas pelas pernas no alto de um ediϐício, acabaram adotando uma garotinha – a filha do título. Quem mais chamava a atenção no longa não era a menina Fernanda Brasil, de apenas 5 anos, mas sim a atriz que fazia o papel da mãe arrependida por vender a própria ϐilha. O papel era de Myrian Rios, a então esposa de Roberto Carlos, que estava em grande evidência por conta da personagem Gabi, da novela "Ti Ti Ti". Faziam parte do elenco, ainda, o cantor Ronnie Von, como o mocinho, e Eliezer Motta, cômico famoso por dar vida ao sacristão Batista, ao herói gay Carlos Suely e a outros personagens inesquecíveis dos programas de Jô Soares. O resultado ϐinal é um ϐilme agitado para os padrões trapalhônicos, com cenas muito bem dirigidas, mas um tom abaixo da comédia mais rasgada. As cenas mais divertidas pareciam ser de um filme, as sequências mais dramáticas, de outro.
No término das temporadas de exibições, os dois ϐilmes que uniram os trapalhões nas telas de cinema novamente não foram o estouro esperado. Os Trapalhões e o Mágico de Oróz e A Filha dos Trapalhões alcançaram a marca de 2,4 milhões de espectadores, cada um. Embora abaixo da média dos bons tempos, aqueles eram números sem rival para a fase do cinema nacional. A explicação para o sucesso relativo dos ϐilmes não estava em sua qualidade nem em um desgaste dos trapalhões com o público infantil, aϐinal, o grupo continuava a licenciar produtos dos mais diversos e ser uma das maiores audiências da Globo. O problema que mais afetou a bilheteria do grupo foi o mesmo que tornava tão diϐícil a vida de todos os brasileiros: a acentuada recessão econômica e a consequente hiperinϐlação. Enquanto o ϐilme recordista de público da franquia, O Rei e os Trapalhões, foi exibido em mais de 5 mil salas de cinema espalhadas pelo Brasil, em 1979, Os Trapalhões e o Mágico de Oróz foi exibido em pouco mais de 1.600. Desde sempre, foi caro manter imóveis grandes e lidar com o maquinário do cinema, mas, com a recessão corroendo o poder de compra a ponto de bifes terem virado artigo de luxo, a conta não fechava para os proprietários das salas, que acabavam falindo ou sendo obrigados a vender cinemas de rua para cadeias de supermercados, igrejas evangélicas ou donos de estacionamentos.
Não que o país fosse um exemplo de prosperidade sustentável e de igualdade social nas décadas controladas pelo governo militar, mas a abertura política escancarava ainda mais os velhos problemas brasileiros. A gradual liberdade de imprensa fazia com que as antigas mazelas fossem en ϐim expostas. Sem a cortina de ferro imposta pela censura, o país mostrava-se extremamente enrolado com o pagamento da dívida externa, possuía uma moeda fraca e um parque industrial jurássico. Sem falar no estágio de abandono dos sistemas de educação, saúde e falta de emprego. Restava a esperança, ao menos, de que o direito de escolher o presidente do país, por meio do voto direto, fosse restabelecido.
Mas nem isso foi possível. A emenda constitucional proposta pelo deputado federal Dante de Oliveira, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro, foi rejeitada por não conseguir alcançar dois terços dos votos da Câmara. Apesar de 298 votos a favor, pesaram os 65 deputados contrários e 113 ausências ao plenário. Derrota que não impediu o povo de voltar a se interessar mais por política e expressar suas posições de uma maneira aberta. As eleições presidenciais de 1985 seriam disputadas de forma indireta por antagônicos candidatos, mas ninguém ϐicou indiferente e lados precisaram ser escolhidos. De um lado, o governador de Minas Gerais, Tancredo de Almeida Neves, do PMDB, um dos principais articuladores do Movimento Diretas Já. Do outro, Paulo Salim Maluf, então o deputado federal mais votado do Brasil, eleito com
672.927 dos votos, com seu extenso currículo de obras viárias contrastando com o estreito relacionamento com o governo militar e as acusações de corrupção.
Nem os próprios correligionários do Partido Democrático Social apoiavam Maluf de forma unânime. Antônio Carlos Magalhães, no intervalo entre uma gestão e outra do governo da Bahia, estava sendo processado por injúria pelo paulista, e, para se defender, levou até a Terceira Vara Criminal de Salvador um calhamaço com 12 quilos de documentos sustentando suas acusações de corrupção e improbidade administrativa. Mesmo assim, Maluf venceu a convenção partidária e partiu para a campanha. Com o povo do lado de fora, a escolha do próximo presidente seria feita por meio de um colegiado formado por deputados estaduais e representantes das câmaras municipais. A corrida por votos seria muito mais na base da conquista dos formadores de opinião que do corpo a corpo com o povão. Por isso, o candidato paulista armou um esquema bastante midiático e, ao seu estilo característico, abusou das frases de efeito, cantando vitória bem antes da contagem dos votos. "Faço as minhas contas e não existe qualquer possibilidade de eu não sair vencedor em 15 de janeiro", dizia Maluf.35
Esse pedaço da história política nacional é especialmente importante para exempliϐicar as convicções de Mussum. Sempre discreto quando perguntado sobre suas preferências partidárias, o humorista pela primeira vez assumiu uma posição em favor de um candidato publicamente. O comitê de campanha de Maluf promoveu um almoço em Brasília, em sua residência na Península dos Ministros, às margens do Lago Paranoá, tendo 52 artistas como convidados. Com todas as despesas pagas, o ex-governador de São Paulo reuniu um time com apresentadores, músicos e atores de várias gerações e diferentes níveis de notoriedade. Estavam por lá Abelardo Barbosa, o Chacrinha, Jece Valadão e Hebe Camargo, os cantores Agnaldo Timóteo, Antônio Marcos, Barros de Alencar, Emilinha Borba, Gilliard, Jane, Herondy, Milionário, José Rico, Tonico, Tinoco e Edith Veiga. Entre os comediantes, marcaram presença Chocolate, Dercy Gonçalves, José Vasconcelos, Sérgio Mallandro, Zacarias e Mussum. Timóteo, na época deputado federal pelo PDT do Rio de Janeiro, foi um dos mentores do encontro e ajudou a pautar as propostas apresentadas durante o encontro.
A principal delas seria a criação do Ministério da Cultura, Esportes e Turismo, uma pasta destinada a tratar das três reinvindicações mais comuns entre os artistas brasileiros da época: maior autonomia sindical, limitação da reprodução de conteúdo estrangeiro no rádio e na TV, por meio de uma reserva de mercado para o produto cultural nacional, e uma reforma completa no Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) de direitos autorais. Habilmente, além de falar tudo o que sua audiência sonhava ouvir, Maluf ainda deixou no ar que pretendia ver a pasta sendo comandada por alguém da classe.
Enquanto o discurso rolava, a turma enxugou rapidamente sete garrafas de uísque escocês, e isso causou uma série de declarações estapafúrdias para a imprensa, que aguardava o ϐinal do almoço para cair matando, questionando os artistas pelo apoio ao polêmico candidato. A cantora Emilinha Borba se disse decidida a apoiar Maluf, pois o político lembrava de cabeça sua data de aniversário, Chacrinha lembrou que comia quibes com o candidato "há mais de vinte anos", Jece Valadão fez uma esquisita metáfora sobre o Brasil precisar ser engravidado de esperança e só Maluf ter a vontade de um noivo em noite de núpcias, e Hebe usou uma lógica de "Tostines" para responder aos questionamentos dos jornalistas: "Não vejo por que tanto susto. De repente, todo mundo está assustado com o meu apoio a Paulo Maluf, enquanto eu me pergunto: por que não apoiar Paulo Maluf?"
Mussum, um dos mais assediados tanto pelos colegas quanto pelos repórteres, explicou que aquele era o seu primeiro encontro com o candidato, mas que as propostas ϐinalmente tratavam de temas muito importantes para a classe artística brasileira. Quando ainda era integrante dos Originais do Samba, nunca perdia uma oportunidade de reclamar da preferência das rádios por músicas estrangeiras e da arcaica prestação de contas do Ecad. Por isso, após ouvir as promessas de Maluf, saiu empolgado. Perguntado se estava con ϐiante em uma vitória nas eleições indiretas, respondeu:
— Estou malufantis!
Apesar do apoio de tantos cabos eleitorais famosos, em janeiro de 1985, com uma diferença de 300 votos, Tancredo Neves foi o vencedor da corrida presidencial, e a ligação entre Maluf e Mussum seria encerrada tão subitamente quanto começou. Um ano depois, nas eleições gerais, Renato Aragão declarou apoio a Antônio Ermírio de Moraes, candidato ao governo do estado de São Paulo pelo Partido Trabalhista Brasileiro. Seu principal adversário? Paulo Maluf. A posição de Mussum? Cumpriu tranquilamente a agenda de shows nos comícios do novo candidato e voltou para o Rio de Janeiro para votar tranquilis. A zona eleitoral do seu título era do Méier, o bairro que morou durante a infância e boa parte da adolescência. Votar, mais do que uma festa democrática, era a chance de visitar velhos amigos e armar memoráveis rodas de samba. Nem a lei seca atrapalhava a empolgação do reencontro do ϐilho pródigo com a turma que ele carinhosamente apelidou de "a máϐia". Dava-se sempre um jeito de tomar o suco de cevadis de um jeito mais discreto, escondido embaixo da mesa ou colocando o mé em uma insuspeita garraϐinha de refrigerante. Essa falta de preocupação com os rumos da política no país era plenamente justiϐicada, aϐinal, dinheiro na conta já não era mais problema.
Com a presença e a ajuda de Renato, os shows dos trapalhões entraram em sua fase mais lucrativa. Por in ϐluência do empreendedor cearense, a trupe montou um espetáculo grandioso sob medida para a luxuosa casa de shows Scala, na avenida Afrânio de Melo, Leblon, e mais tarde para grandes palcos dos melhores circos. No lugar de improvisar antigas piadas de picadeiro no meio das quadras poliesportivas de pequenos municípios do interior, Dedé, Mussum e Zacarias dividiram os holofotes com Xuxa em uma temporada memorável nas maiores casas de espetáculo do Brasil. Aos sábados e domingos, às 17 horas, o grupo lotava o Scala com mais de 2 mil pagantes por sessão, cada um desembolsando entre Cr$ 10 mil e Cr$ 35 mil. A apresentação, chamada de "Os Trapalhões Ao Vivo", contava com um programa detalhando a trajetória das estrelas, um corpo de balé completo trajando plumas e paetês, trocas de ϐigurinos, cenograϐia com efeitos de luz e pirotecnias, além de música e roteiro próprios – o ingresso dava direito até a um kit com sanduíche e refrigerante para a garotada aguentar os 90 minutos de espetáculo.
Com quatro quadros principais, fora as canjas de Xuxa e algumas brincadeiras de improviso, "Os Trapalhões Ao Vivo" começava com a entrada triunfal dos quatro integrantes uniformizados de coletes azuis, camisetas brancas com um escudo com suas caricaturas, calças e sapatos brancos. Após fazer algumas piadas com rimas fáceis e conter a primeira onda de entusiasmo das crianças, era apresentada uma sucessão de brincadeiras e musicais. Logo de saída, o quarteto fazia suas tradicionais caretas e brigas enquanto tentava consertar o carro-sapato, anteriormente usado em O Mágico de Oróz como peça de merchandising para a Olympikus. Depois, seguia-se uma história da Suate, com Didi às voltas com um vilão que o prendia, mas, claro, sofria na sua mão. A temperatura voltava a subir quando, após um número do balé do Scala, surgia a atração musical "Os Belhudos", um avacalhado cover dos Menudos, com Didi, Dedé, Mussum, Zacarias e Xuxa cantando freneticamente "Não se reprima", o maior hit da boy band portoriquenha.
Havia ainda uma apresentação tipicamente circense com a participação de equilibristas, malabaristas e palhaços e um show de ritmistas. Esse segmento, é claro, foi ideia de Mussum, que aproveitou a deixa para trazer o conjunto Juventude Samba Show e compor um samba-enredo de exaltação à Estação Primeira de Mangueira. Xuxa também tinha um espaço só seu no show, reproduzindo as brincadeiras e cantando as músicas do seu popularíssimo "Clube da Criança". Por ϐim, num esquisito ato patriótico, o show era encerrado com o hino da independência, com a plateia exausta de tanto pular gastando suas últimas energias para cantar "Já raiou a liberdade no horizonte do Brasil".
"Os Trapalhões Ao Vivo" foi um sucesso tão grande que, após a temporada inicial durante as férias de junho, a programação foi estendida até setembro no Rio de Janeiro e depois começou a excursionar pelo Brasil, batendo recordes em Vitória, com 10 mil espectadores em um ϐinal de semana, e em Manaus, com 20 mil. O espetáculo chegaria a São Paulo, em novembro e dezembro, já com um par de semanas de ingressos esgotados, mas foi no Rio Grande do Sul a maior demonstração de carinho para o grupo. Em uma apresentação durante a feira agropecuária Expointer, em Esteio, na grande Porto Alegre, a presença dos trapalhões reuniu cerca de 300 mil pessoas. A lotação do espaço era tanta que os humoristas não conseguiram chegar ao palco na hora marcada e atrasaram o início do show em mais de uma hora. Eles não acreditavam que toda aquela gente estava ali apenas para vê-los, mas, após o show, com o local sendo completamente esvaziado, perceberam o tamanho real de sua popularidade. Sucesso que serviria como base para inspirar os roteiros das duas próximas aventuras dos trapalhões no cinema.
Em julho de 1985, estreou Os Trapalhões no Reino da Fantasia , um ϐilme de roteiro simplíssimo, em que a história central desenrolava-se em torno de um show dos Trapalhões para salvar o orfanato da irmã Maria, interpretada por Xuxa. Repleto de elementos de metalinguagem, a ϐinal, os artistas faziam os papéis deles mesmos, o longa mostrou duas parcerias importantes da época: Mauricio de Sousa e Beto Carrero. O desenhista, após bastante tempo discutindo uma parceria entre seus estúdios e a R.A. Produções, fez uma sequência de cerca de 15 minutos em que os trapalhões apareciam na forma de desenhos animados. Já Beto Carrero, apareceu ϐinalmente com sua jaqueta de franjas, lenço no pescoço e chapéu branco. Ele usou o ϐilme para mostrar seu mais novo empreendimento, o rodeio Oestelândia, em Camboriú, Santa Catarina. Vale registro, ainda, a impagável sátira dos Heavy Trapas, uma imitação de AC/DC, banda que havia feito uma destruidora apresentação no festival Rock in Rio de 1985, com Zacarias bancando o Brian Johnson, Mussum tocando bateria e Didi solando na guitarra como Angus Young.
Seis meses mais tarde, estrearia Os Trapalhões no Rabo do Cometa , de novo um ϐilme com Didi, Dedé, Mussum e Zacarias atuando no cinema como os próprios superstars da TV. Nessa película, porém, a equipe de Mauricio de Sousa trabalhou muito mais. A história começa com um show no Scala, mostrando as mesmas piadas e gags de "Os Trapalhões Ao Vivo", mas, após a aparição do criador da Turma da Mônica no palco, os comediantes são transportados para o mundo dos desenhos animados, ϐicando por lá pelos próximos 55 minutos de ϐita. No desenho, para fugir do mesmo bruxo do ϐilme anterior (dublado por José Vasconcelos), Didi viaja no tempo encontrando versões temáticas de seus colegas, como o general grego Mussum Aquilis da Silva e o imperador romano Zaca Nero, e personagens como dinossauros, pistoleiros do Velho Oeste e g ângsteres americanos. Um dos pontos altos da animação é sua trilha sonora, com participação do Ultraje a Rigor, trocando o refrão de "Eu me amo" por "Eu não rango", e as participações das bandas Ira! e Premeditando o Breque.
Além de atuar e dublar, Mussum participou da parte musical do ϐilme, tanto como compositor quanto como músico. Na reta decisiva da história, quando a perseguição do bruxo a Didi chega aos dias atuais, uma dupla de capangas tenta capturar o mangueirense por engano. Ele é retratado pelos traços de Mauricio de Sousa em uma típica favela carioca, sonhando com o desϐile do Grêmio Recreativo Unidos por uma Garrafa, uma escola de samba formada apenas por instrumentos vivos. Meio "Yellow Submarine" meio "Fantasia", a sequência mostrava alas formadas por tamborins, surdos e reco-recos tirando som de si mesmos, e um violão servindo de porta-bandeira para um serelepe cavaquinho. Tudo isso ao som do samba-enredo "Paz e Humor", composição inspirada do trio Mussum, Jorge Aragão e Neoci, que trazia em sua letra versos como "No horizonte formado pelas linhas da janela havia cores de um arco-íris ou de uma aquarela / Os instrumentos são a minha fonte de alegria paz / Já me seguiram em tantos carnavais / A contar num só compasso / Eu faço o samba atravessar fronteiras / Levando a raça e o som da Mangueira".
E a produção musical de Mussa na segunda metade dos anos 1980 não parou por aí. Finalmente acabava seu vínculo com a RCA Victor, iniciado
16 anos antes junto com os Originais do Samba, e o sambista recebeu propostas de diferentes gravadoras para lançar seu terceiro álbum solo. O convite que mais agradou foi da Continental Wheaton do Brasil, aϐinal, deram liberdade total para a produção e escolha de repertório dos trabalhos. Assim, além de ganhar uma boa renda extra, Mussum poderia reunir novamente seu dream team do samba para se divertir. E assim foi feito. Embora não tenha tido ideia melhor para batizar o álbum, chamado novamente apenas de "Mussum", o LP reuniu o lendário arranjador Rildo Hora e uma seleção de músicos e compositores de primeira linha, incluindo João Nogueira, Almir Guineto, Arlindo Cruz, Dicró, Jorge Aragão, Neoci, Noca da Portela, Bandeira Brasil e Beto Sem Braço. Todos em um clima de alegria contagiante, misturando o talento de ritmista ao carisma de humorista de Mussum. A faixa que abre o álbum, aliás, é muito mais do personagem do que do músico. "Because forever" é uma reportagem sobre a crescente liberalidade nos desϐiles da recém-inaugurada Marquês de Sapucaí. A letra fala que depois do topless, do jeito que a coisa ia, não demoraria para todo mundo sair mostrando o forévis e o becózi of you, neologismo usado tanto como sinônimo de bunda quanto para se referir à genitália. No refrão, já cantando bem mais à vontade que nos outros discos, o intérprete Mussum solta a pérola: "No carnaval do ano que vem / Do jeito que a coisa vai, meu bem / Vai sair todo mundo nu / Mexendo e balançando... o corpis / Eu disse o corpis". E a palhaçada continua escrachada na faixa "O grande Gerê", história de um rapaz ϐino, "ϐilho uniquis", que se muda para Paris para se "encher de silicone e colocar bustos e quadris". Entre piadas com o novo lance de Jeremias, lança um novo bordão, o "Ui, ui, ui!", com óbvia ironia. O Mussum, digamos, pessoa ϐísica, também aparece no disco, cantando homenagens ao Flamengo, em "O torcedor", e ao Cacique de Ramos, em "Filosofia de quintal" e "Madureira, Vaz Lobo, Irajá".
Tudo feito no capricho e com grande potencial comercial, mas, mais uma vez, a carreira de trapalhão impediu o disco de ser "trabalhado" e sair dos estúdios para ser testado nos palcos das casas de show e programas de auditório. Além de atuar como palhaço em dois ϐilmes por ano, Mussum nessa fase de retomada do grupo passou a acumular a função de consultor musical dos produtos lançados pela R.A. Produções e pela DeMuZa. Isso signiϐicava participar da produção, edição e gravação dos discos dos Trapalhões e dos álbuns de trilha sonora dos ϐilmes, um ϐilão lucrativo descoberto desde os tempos de "O Forró dos Trapalhões", disco de 1981, do qual Mussum não participou por ainda ser contratado exclusivo da RCA. Naquele ano, o LP dos Trapalhões vendeu bem pegando carona em dois quadros de sucesso do programa "A velha embaixo da cama" e "O casamento da ϐilha do velho Faceta". A partir da reconciliação, a direção musical, de forma oϐicial ou oϐiciosa, era responsabilidade de Mussum e, mais uma vez, a carreira de sambista precisou ϐicar de lado. Aϐinal, o público infantil era uma mina de ouro também no consumo de música. O álbum "Pirlimpimpim", da Turma do Balão Mágico, havia vendido 3 milhões de cópias e "Xou da Xuxa" bateu na casa dos 2,5 milhões de unidades vendidas.
Se bem que, até se não encostasse um dedo na obra fonográϐica do grupo, Mussum diϐicilmente encontraria tempo para dedicar-se à divulgação de seu terceiro álbum. A agenda de cômico dos trapalhões era cada vez mais exigente, uma vez que planos de expansão internacional da R.A. Produções ϐinalmente entravam na fase de execução. Os estúdios na Barra da Tijuca passaram a receber de forma constante as visitas de equipes gringas para a gravação de ϐilmes e videoclipes. Entre os clientes mais famosos, estavam Mick Jagger, Michael Douglas, Jack Nicholson e a dupla Bud Spencer & Terence Hill. Na segunda metade dos anos 1980, experimentando as possibilidades de uma carreira solo, Jagger montou a Nitrate Films e veio ao Brasil rodar o ϐilme Running Out of Luck (Maré de Azar, em português). Na trama, o Rolling Stone interpreta a si mesmo numa história em que é assaltado por travestis, come um frango de macumba e acaba tornando-se escravo em uma plantação de banana, ao lado de Toni Tornado e Grande Otelo. O ϐilme não fez sucesso algum nem no Brasil nem na Inglaterra, mas serviu como bom cartão de visitas para a R.A. Produções.
Com Bud Spencer e Terence Hill o relacionamento foi mais intenso. A dupla de atores italianos, cujos nomes verdadeiros são Carlo Pedersoli e Mario Girotti, trilhou o caminho sonhado pelos trapalhões. Faziam, desde os anos 1960, o mesmo tipo despretensioso de ϐilme e, ainda assim, conseguiam vender os longas para os cinemas e canais de TV do mundo todo. Com muita porrada e doses generosas de humor, o grandalhão barbudo e o galã bronzeado de olhos azuis eram estrelas globais made in Italy. No Brasil, usando a estrutura da R.A. Produções, gravaram Non c'è Due Senza Quattro, lançado em português como Eu, você, ele e os outros e, em inglês, como Double Trouble. O entrosamento com Renato foi tão grande que a dupla de brigões até participou de um episódio de "Os Trapalhões". Bud Spencer já havia morado em Pernambuco, sabia falar português e respondeu maliciosamente às perguntas dos quatro trapalhões. Mussum perguntou se as bebidas que apareciam nos ϐilmes eram de verdade ou apenas cenográ ϐicas e, para sua tristeza, ouviu como resposta que os copos de uísque da série de spaghetti western Trinity sempre estavam cheios de chá. No ϐinal da conversa, rolou uma briga de mentirinha, com o quarteto brasileiro tomando socos e tendo cadeiras e garrafas quebradas em suas cabeças.
O intercâmbio internacional dos trapalhões não parou aí. Durante a temporada de reprises do programa dominical, o grupo passou uma temporada em Los Angeles, gravando o que seria sua primeira série de programas feitos para exportação. Foram 14 episódios com Didi, Dedé, Mussum e Zacarias fazendo suas palhaçadas nos cenários da Universal City. As ϐitas rodaram produtoras do mundo todo, mas acabaram mesmo sendo exibidas primeiro no próprio programa da Globo, como blocos especiais. A R.A. Produções ia tão bem que Renato anunciou seus planos de montar um escritório em Los Angeles, a ϐim de divulgar melhor os ϐilmes dos trapalhões no exterior. Chegou até a vender a polêmica propriedade da Granja Comary, em Teresópolis, por um valor estimado em 3 milhões de dólares, para capitalizar a nova empreitada.
Para quem achasse isso um devaneio, chegava aos cinemas Os Trapalhões e o Rei do Futebol, comédia em que os quatro palhaços dividiam os letreiros com Pelé, o brasileiro mais famoso do mundo. Ainda namorado de Xuxa, o craque era presença frequente nos bastidores dos espetáculos no Scala e acabou ϐicando amigo dos quatro palhaços. Como depois de encerrar a sua inigualável carreira de entortador de zagueiros e carrasco de goleiros Edson Arantes do Nascimento só havia colhido resultados medianos em suas aventuras pela música e pelo cinema, aceitou o convite de Renato para estrelar um ϐilme ao lado dos responsáveis pelas maiores bilheterias do cinema nacional. Era a chance de finalmente emplacar um sucesso fora de campo.
O ϐilme é um dos mais divertidos e ágeis da ϐilmograϐia do grupo. Sem lição de moral ou sentimentalismos, o roteiro mostra os trapalhões como funcionários da comissão técnica do ϐictício Independência Futebol Clube, e Renato, desta vez deixando Didi de lado para assumir outro apelido, o de Cardeal, acabava tornando-se técnico do time após uma disputa política entre dirigentes. Pelé não era um mero coadjuvante. Seu personagem, chamado apenas Nascimento, era um repórter que ajudava o quarteto a evitar as armadilhas dos vilões e ainda quebrava um belo galho como goleiro. Na ϐinal do campeonato de mentirinha, ele defende um pênalti e, na sequência, marca um gol batendo tiro de meta – lance que não seria validado no mundo real, mas, quem se importa? A participação de Mussum no longa é, novamente, mais como músico do que como ator. É de seu personagem, Fumê, a cena em que a vitória do time é comemorada com uma noite de pagode embalada pelo partido-alto "Você da cabeça tá legal / Cardeal! Cardeal / Você só faz o bem, não faz o mal / Cardeal! Cardeal / Seu nome só rima com coisa legal / Cardeal! Cardeal".
O ϐilme levou 3,6 milhões de pessoas ao cinema, sendo o maior sucesso da trupe desde o retorno da formação completa e alcançando o posto de ϐilme mais visto do Brasil no ano, com o dobro do público do segundo colocado, O Beijo da Mulher Aranha, com a musa do momento, Sônia Braga. Resultado de duas apostas arriscadas de Renato. A primeira foi resgatar o diretor Carlos Manga, veterano das chanchadas da Atlântida, que estava em aposentadoria voluntária dos cinemas. Manga trouxe um humor tão leve e descompromissado para Os Trapalhões e o Rei do Futebol que acabou sendo convidado para dirigir também o programa da Globo. A outra aposta arriscada, porém bem-sucedida, foi lançar o longa no período da Copa do Mundo de 1986. Os jogos poderiam monopolizar a atenção do público, mas, novamente, os trapalhões lucraram com a frustração que a Seleção proporcionou ao país. Após o time de Zico cair diante da França de Platini nas quartas de ϐinal, nos pênaltis, ver os gols de Pelé e Cardeal no cinema era um bálsamo para a alma da pátria de chuteiras. O ϐilme marcou uma era de ouro para a R.A. Produções. Seus quatro palhaços sem maquiagem eram tão queridos – e lucrativos – no Brasil quanto o próprio Rei do Futebol.
Nesse mesmo período, em terrível contraste, a DeMuZa dava seus últimos suspiros. Nada era capaz de cobrir os gastos da empresa. Nem a retomada da formação completa do grupo nem a lucrativa turnê de "Os Trapalhões Ao Vivo" nem as boas bilheterias de A Filha dos Trapalhões, Os Trapalhões no Reino da Fantasia e Os Trapalhões no Rabo do Cometa , que somados levaram quase 6 milhões de pessoas aos cinemas, deram jeito nas dívidas contraídas pela empresa nos tempos de trapalhaços. Provando uma enorme falta de aptidão para os negócios, Dedé, Mussum e Zacarias não percebiam os gastos excessivos dos administradores contratados. O escritório em Laranjeiras, ainda motivado por uma invejosa rivalidade com a R.A. Produções, vivia com uma mania de grandeza injustiϐicável. A folha de pagamentos era alta demais, com dezenas de funcionários supérϐluos recebendo salários acima da média do mercado para produzir pouco ou nada. Havia um desperdício crônico de dinheiro até na compra de materiais de escritório. Quem trabalhou por lá diz que a quantidade de papel timbrado comprado mensalmente pela empresa seria o su ϐiciente para abastecer uma repartição pública por décadas.
Pior que isso, pipocavam ações judiciais contra a empresa. Pela desorganização no pagamento dos distribuidores espalhados pelo Brasil, muitas das dívidas só eram conhecidas quando era tarde demais para negociar. Credores de todos os cantos apareciam com processos, multiplicando o gasto com dívidas e com honorários para advogados. A situação começou a ϐicar tão feia que até os desencanados Dedé, Mussum e Zacarias perceberam que as contas não batiam. Contrataram um auditor externo para dar uma olhada na papelada e descobriram coisas ainda mais graves do que uma má administração. O pente ϐino encontrou notas ϐiscais duplicadas, recibos forjados com uma máquina roubada de dentro do Banco do Brasil e até transferências dos direitos autorais de ϐilmes estrelados pelo trio feitas por procurações com assinaturas falsas. Aí, cumpadi, o tempo fechou para valer na DeMuZa.
Manfried, Antônio Carlos e Mauro decidiram demitir os funcionários por meio de anúncios no jornal e saíram espalhando a quem quisesse ouvir que haviam sido vítimas de um golpe. Longe das telas, os trapalhaços viviam cenas de drama e thriller policial. A vida não estava longe de ser um reino de fantasia.
Enquanto faziam o sucesso de sempre na TV e nos cinemas, Dedé, Mussum e Zacarias viviam um pesadelo sem ϐim por conta dos problemas administrativos da DeMuZa, mas quem ligava a televisão nas noites de domingo jamais poderia notar qualquer tom de melancolia no trio. Com a chegada do diretor Carlos Manga, o programa de domingo na Globo havia retomado sua vocação original de pastelão e resgatado, com enorme sucesso, o quadro do quartel do Sargento Pincel, originalmente chamado de "Os Legionários", em 1965 na TV Excelsior. O timing foi perfeito.
Roberto Guilherme, novamente efetivado no elenco ϐixo da atração, ainda ostentava uma cabeleira encaracolada – na verdade, uma peruca feita com ϐios de cabelo de sua irmã – e era o ator perfeito para sofrer na mão dos quatro recrutas trapalhões. Renato e Mussum, só de sacanagem, bolavam cenas ou situações em que o sargento fosse alvejado por tortas, banhos de tinta, ovadas ou qualquer outra coisa capaz de melar a peruca. A brincadeira ϐinal, no entanto, foi o quadro em que, ao perder uma aposta para os trapalhões, o personagem de Roberto Guilherme tem a cabeça raspada a máquina pelos quatro comediantes. A cena ϐicou marcada na história da TV e também na memória dos atores, aϐinal, aquilo foi tudo para valer, e a partir daquele episódio Roberto passaria a usar sempre o mesmo visual Kojak. Mais que isso, a transformação ϐinal de Roberto em Sargento Pincel marcou uma fase de reconhecimento e sucesso muito merecidos para o mato-grossense, que saiu da cidade de Ladário como Edward Guilherme Nunes, foi paraquedista da Aeronáutica nos anos 1950 e, tentando a vida de artista, passou a se chamar de Roberto para homenagear o rei do iê-iê-iê.
A intimidade entre Roberto, Renato, Dedé e Mussum em cena era enorme, vinda dos tempos de "Os Insociáveis", e levar ao ar esse tipo de brincadeiras de bastidores ajudava a manter a cumplicidade do público e os bons níveis no Ibope. Em 1986, "Os Trapalhões" era o programa sintonizado por 48% dos televisores ligados no Brasil, superando com folga os rivais "Programa Silvio Santos", com 26% do público, e as atrações da Bandeirantes e da Manchete, que quase nunca chegavam a mais de 10% de share. O mundo de fantasia acabava aí, assim que as gravações no Teatro Fênix eram encerradas. No tempo em que geralmente se dedicavam a projetos pessoais ou a descansar, os três palhaços precisavam fazer peregrinações pelos cartórios de São Paulo e do Rio de Janeiro para pagar faturas correspondentes à divulgação do filme Atrapalhando a Suate, de três anos atrás.
Chegaram a solicitar a falência da DeMuZa Produções Artísticas e Cinematográϐicas, mas em maio de 1986 o pedido foi indeferido, pois a empresa ainda tinha um montante considerável de dívidas ϐiscais e trabalhistas a acertar. A publicação do pedido nos jornais provocou uma nova onda de cobranças. Era o preço cobrado pelo descaso com que os três trapalhões cuidavam de seus negócios, assinando cheques e notas promissórias em branco para poupar visitas ao escritório. Em questão de meses, tinham gasto mais de Cr$ 7 milhões em acertos na Justiça, mas aquilo era apenas o começo.
Os antigos administradores da DeMuZa foram à Justiça do Trabalho reclamar o recebimento de seus direitos atrasados. Entre eles, três produtores haviam sido demitidos sumariamente por meio de edital publicado nos principais jornais do Rio de Janeiro, e não satisfeitos em cobrar férias, 13º salário, horas extras e dinheiro de rescisão, entraram também com uma ação por injúria, calúnia e difamação. Tanto nas conversas de bastidores quanto abertamente pela imprensa, Mussum e Dedé não poupavam palavras para dizer que haviam sido enganados e roubados, citando os nomes dos antigos funcionários sempre que podiam. Como não foram capazes de provar quem foi o autor dos trambiques na Justiça, Dedé, Mussum e Mauro perderam uma ação por danos morais, tiveram todas as suas propostas de acordo recusadas e complicaram ainda mais sua situação financeira. Em menos de um ano, os ricos trapalhões descobriram ser donos de um passivo de Cr$ 3 bilhões.
Cobrir a vultuosa quantia seria diϐícil em qualquer situação. No Brasil do recém-empossado presidente José Sarney, então, a tarefa ganharia contornos dramáticos. Eram tempos de calote no pagamento da dívida externa e uma hiperin ϐlação que batia marcas de três dígitos, com 235,11% de aumento nos preços dos itens básicos durante 1985. A situação ϐicou tão grave que, em fevereiro do ano seguinte, o Ministro da Fazenda Dilson Funaro lançou como medida desesperada o Plano Cruzado, aposentando os cruzeiros e criando uma bolha artiϐicial para brecar o aumento dos preços e segurar a taxa de câmbio em 13,84 cruzados para cada dólar. Estava criado um caos ainda maior, com desabastecimento de produtos como carne e leite nos supermercados, salários defasados e uma in ϐlação ainda mais incontrolável. Cenário que diϐicultaria ainda mais a recuperação ϐinanceira dos três trapalhões. Rapidamente, todo o dinheiro que tinham investido em aplicações foi gasto. Os anos de economias não resolveram nem metade da dívida. Era preciso mais sacrifício.
Para começar, a casa que abrigava o escritório em Laranjeiras foi vendida e todo o material armazenado lá foi liquidado pela primeira oferta que apareceu. Não era o su ϐiciente. Dedé vendeu três casas na Barra da Tijuca, compradas como investimento para o futuro, Zacarias se desfez de seu sítio, em Minas Gerais, e Mussum, com dor no coração, precisou vender sua nova lancha e a casa da Ilha da Gipóia. Batizada de Neila, em homenagem à esposa, a embarcação de 27 pés tinha uma cozinha usada para preparação de bebidas, um par de camas para tirar uma soneca depois dos almoços e uma cobertura para proteger os convidados durante as viagens. Tanto Mussum quanto Neila haviam feito o curso de arrais amador para poder pilotar a lancha e divertiam-se fazendo passeios até Paraty, Ilha Grande e visitavam outras ilhas do arquipélago de Angra dos Reis. Um luxo que não teriam mais. A casa na Ilha da Gipóia, bem mais valioso do patrimônio de Mussum, precisou ser vendida. A avaliação mínima do mercado para o imóvel era de Cr$ 1,5 bilhão, mas o desespero e a terrível situação ϐinanceira do Brasil fez com que o mangueirense fechasse negócio por Cr$ 700 milhões.
Ainda assim, para quitar as obrigações com o restante dos credores, foi preciso pedir ajuda à Globo. A direção da emissora liquidou a dívida e combinou fazer descontos mensais nos salários do trio durante dois anos. Ironicamente, enquanto viam todo o seu patrimônio ser comprometido pelos problemas da DeMuZa, a maior tarefa dos três trapalhões seria pedir dinheiro. Após o sucesso da campanha Nordeste Urgente e das iniciativas beneϐicentes da Globo lideradas por Renato Aragão, o programa especial de 20 anos de "Os Trapalhões" seria transformado em uma maratona de dez horas de assistencialismo televisivo batizada de "Criança Esperança". Em um formato anabolizado do que já havia feito no programa de 15 anos da atração, o Teatro Fênix foi transformado em uma central de espetáculos, pedindo doações com a ajuda de todo o elenco estrelar da emissora. Junto dos quatro trapalhões, apareceram de Roberto Carlos a Xuxa, de Chico Anysio a Dercy Gonçalves, de Eva Wilma a Zezé Macedo, e ainda rolaram edições especiais do "Cassino do Chacrinha" e do "Viva o Gordo". Os graves problemas da DeMuZa teriam que esperar. As criancinhas precisavam mais dos trapalhões – embora os três empreendedores falidos nunca tivessem precisado tanto do seu ϐiel público para se reerguerem.
A agenda de shows pelo interior teve que ser retomada. Junto de Renato Aragão, continuavam a fazer shows grandiosos, como uma apresentação para 180 mil pessoas em um evento agropecuário em Uberaba e um show da Globo no Maracanã para 220 mil pagantes, mas os convites para aniversários de municípios, inaugurações de hipermercados, rodeios, feiras e eventos em pequenos circos não podiam mais ser recusados. Muitas vezes, os contratantes não ofereciam o mínimo de infraestrutura para receber o trio de trapalhões, mas, mesmo assim, os acordos eram feitos. Em ginásios superlotados nas periferias, Dedé, Mussum e Zacarias faziam até quatro sessões no mesmo dia, trabalhando sem parar durante todo o ϐim de semana, parando apenas pelo tempo necessário de os locais serem esvaziados e enchidos pelo público novamente. Depois seguiam de carro até o próximo destino da turnê improvisada e repetiam o mesmo procedimento.
Tal situação deixava a audiência constantemente sob o risco de esmagamentos e acidentes. Contratantes amadores do interior não tinham escrúpulos de vender muito mais ingressos do que os teatros e picadeiros suportavam e uma tragédia poderia acontecer a qualquer momento. Sempre havia gente para ver e rever os astros nacionais de pertinho. Por sorte, o único incidente ocorrido nessa fase foi nos bastidores. Os trapalhões fariam o show de encerramento do Festviola, um festival de música regional realizado no Parque de Exposições de Maringá, na cidade a 425 quilômetros da capital Curitiba. Antes da apresentação, Manoel Cabral, jurado da competição e colunista do Diário do Norte do Paraná , entrou nos camarins e foi em direção a Mussum, a fim de marcar uma entrevista.
O mangueirense estava de costas e foi abordado com um tapinha na cabeça. Na versão do jornalista, o comediante virou-se violentamente em sua direção, agarrando-o pelo pescoço, para depois jogá-lo ao chão e desferir alguns pontapés e socos. Com olhos vermelhos e esbugalhados, Mussum teria gritado "nunca mais faça isso comigo", enquanto sua vítima era agredida. Na mesma noite, após o show, o comediante teria pedido desculpas pelo acesso de fúria, mas já era tarde. Cabral havia registrado uma queixa-crime, declarou que o comediante estava drogado e que levaria o caso até as últimas consequências na Justiça. A versão de Mussum para o caso foi bastante diferente. Con ϐirmava o fato de o jornalista ter dado um tapa em sua cabeça para abordá-lo e isso ter causado irritação. Era comum que estranhos dessem chutes e socos nos trapalhões, transferindo sem noção de gravidade as brincadeiras vistas na televisão para a vida real, e nestas situações Mussum nem sempre reagia com calma. Geralmente levantava o tom de voz e, de cara, assustava quem esperava o gritinho agudo do personagem. No caso de Cabral, no entanto, o comediante dizia apenas ter dado um empurrão. O jornalista era portador de uma malformação em uma das pernas e, frágil, teria se desequilibrado e caído após o chega pra lá.
Não houve uma resposta sobre a acusação de estar drogado. Sendo totalmente contra o consumo de maconha e cocaína, mesmo nos círculos onde o uso das drogas era socialmente aceito, Mussum era considerado careta e chato pelos colegas. Desde o tempo de Originais do Samba, dava longos sermões quando descobria que algum conhecido estava fumando o famoso cigarrinho de artista ou cafungando. Para ele, os negros deveriam manter o dobro de distância desse tipo de embalo, uma vez que, quando a coisa apertasse, a culpa sempre cairia nos mais fracos.
A explicação mais plausível para o destempero de Mussum no episódio de Maringá passa pelas longas viagens feitas de carro entre uma cidade e outra. Sem se dar ao luxo de contar com um ônibus de excursão ou com um motorista particular, os trapalhões dirigiam madrugada adentro pelas estradas, entre uma cidade e outra. Para cumprir uma agenda com shows de manhã, de tarde e de noite, muitas vezes era preciso virar a noite. A hipótese de Mussum estar bêbado na hora da agressão é viável, mas não provável. Para otimizar o tempo das turnês, nem sempre os artistas hospedavam-se na mesma cidade em que faziam o show e, por isso, não havia tempo para frequentar um botequim e encher a cara. É verdade que, nos bastidores dos eventos, o sambista sempre procurava algo quente para beber, mas o pedido não era um sinal de alcoolismo. O problema é que os contratantes, confundindo mais uma vez as pessoas ϐísicas com os personagens da televisão, recebiam os trapalhões com doces e refrigerantes, como em uma festinha de aniversário infantil. Nos melhores casos, ofereciam litros de cachaça típicas da região a Mussum como forma de presente. Carinho até bem recebido, mas, naquela fase da vida, o mangueirense estava mais interessado em doses de scotch whisky do que em beber pinga no gargalo, como fazia na televisão.
Conforme prometido, Manoel Cabral levou o caso para a Justiça e pediu uma indenização pesada. Não sabia da situação peremptória das contas do cidadão Antônio Carlos Bernardes Gomes, mas, mesmo assim, acabou aceitando um acordo para arquivar o caso. Não tinha provas da agressão e teria que perder tempo e dinheiro visitando o Rio de Janeiro por meses, até conseguir uma apelação. O comediante, na sua pior fase ϐinanceira, agradeceu aos céus e viu-se, en ϐim, livre para trabalhar e recomeçar a garantir o futuro da família.
Sensibilizado pela situação dos colegas, Renato Aragão convidou Dedé, Mussum e Zacarias para montarem seus escritórios dentro do prédio da R.A. Produções, na Barra da Tijuca. Cada um teria sua própria sala e poderia tocar os seus negócios a partir dali. A proximidade facilitaria os acordos feitos em nome de todos os trapalhões e diminuiria a distância pessoal entre o quarteto. Quando as coisas pareciam, en ϐim, entrar nos eixos novamente, com um ano de 1987 cheio de projetos importantes para os trapalhões, veio a pior notícia do mundo para Mussum. Vítima de um ataque cardíaco fulminante, morreu Dona Malvina.
Com 76 anos, mas aparentando mais idade por causa do longo histórico de trabalho duro, Malvina Bernardes Gomes convivia com uma série de problemas no coração que a impediam de fazer qualquer esforço maior e a trancaϐiavam em uma dieta sem gorduras, temperos ou carnes vermelhas. Em 1976, a mãe de Mussum havia sofrido um infarto do qual jamais se recuperaria completamente. Vivendo com a ϐilha Nancy, em São Paulo, ou com o seu Carlinhos, em Jacarepaguá, já não conseguia trabalhar e preferia ϐicar quieta, no seu canto, falando pouco e juntando-se aos outros apenas na hora de ver televisão. Seu maior prazer era cozinhar para os netos e cuidar das roupas do ϐilho famoso. Gostava de passar e engomar as camisas e calças sociais, deixando tudo impecável. Sempre atenta à limpeza da casa, não tirava por nada um lenço da cabeça, já escondendo seus cabelos brancos. Nos últimos cinco anos tinha sido levada às pressas ao hospital mais de uma vez por causa de derrames e, naquela sexta-feira, 06 fevereiro, não resistiu mais. Em seu enterro, no Jardim da Saudade, no bairro de Sulacap, na zona Oeste do Rio, Mussum esteve irreconhecível.
Amigos que o conheciam e que conviveram com ele por décadas nunca haviam visto seu semblante tão sem vida. Mesmo em momentos diϐíceis, o mangueirense sempre era capaz de dar um sorriso, dizer uma palavra de conforto ou fazer uma piada para quebrar o clima. Naquele dia, pouco falou e não aguentava de emoção, chorando muito a cada conhecido que abraçava. Estava inconsolável e comentou que não aguentaria passar por aquilo. Diz a lenda que de pronto apareceu uma garrafa de pinga Velho Barreiro, que o comediante tomou no gargalo inteira em poucos goles, e poucos minutos depois foi embora. Mas nem aquele nem muitos outros litros de aguardente curariam a dor sentida naquele momento. Nunca havia se declarado praticante de nenhuma religião, mas, até onde sua fé alcançava, não entendia por que tantas coisas ruins precisavam acontecer juntas.
34. O Globo, 16/02/1984.
35. Folha de S.Paulo, 06/11/1984