Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões

Juliano Barreto · Capítulo 26 de 29

Páginas do PDF

Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões

Capítulo 24

 

QUERO MORRER PRETIS (2014)

 

"RT: @MussumAlive Quando eu bebo, eu só sinto saudades, por que de resto não sinto mais nadis!"

 

Eternizado pelas suas participações em trabalhos em grupo, tanto

como sambista quanto como palhaço, Mussum teve sua carreira, seus maneirismos e seu legado lembrados ao longo dos anos de uma forma que poucos protagonistas conseguiram. Homenagens de todos os tipos e tamanhos foram aparecendo, mostrando que a importância do trapalhão ultrapassava as brincadeiras do programa de domingo ou os hits dos Originais do Samba. Em um caso raro, o carinho do público só aumentou com o tempo, demonstrado a cada dia o quanto o humor malandro do mangueirense foi apreciado não apenas por crianças, mas sim por adultos e adolescentes de várias gerações. É nesse ponto da história que o fórevis começa a mudar de signiϐicado, passando de um disfarce para não falar a palavra bunda na televisão para uma versão bem aproximada de seu verdadeiro sentido: para sempre.

Um dia após a partida de Mussum, Didi e Dedé precisaram subir ao enorme palco montado no centro do Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, para apresentar o show do Criança Esperança de 1994. Ainda muito comovido com a perda do amigo e sem condições de tocar o espetáculo inteiro como estava acostumado, Renato abriu as festividades com a voz embargada, segurou as lágrimas, e disse não ter condições de continuar. A plateia de mais de 10 mil pessoas, igualmente sensibilizadas, começou a cantar e a bater palmas em homenagem a Mussum – algo que se repetiu quase do começo até o encerramento do programa a cada nova menção ao nome do comediante falecido na véspera. O clima de saudade continuou com uma homenagem ao piloto Ayrton Senna, falecido há cerca de dois meses, e também ídolo dos domingos. No ato ϐinal da festa, com Roberto Carlos cantando "Amigo", o derradeiro discurso de Renato pediu mais uma salva de palmas para Mussum. "Não vamos fazer um minuto de silêncio, pois em vida você nunca foi silêncio. Você sempre foi alegria." O Criança Esperança acabou com imagens do mangueirense em ação na televisão e a canção-tema, "Amigos do peito", como fundo. Depois disso, quase semanalmente surgia algum tributo ao comediante.

César Maia, então prefeito do Rio de Janeiro, assinou um decreto para mudar o nome da Estrada do Quitite, em Jacarepaguá, para Estrada Antônio Carlos Bernardes Gomes – Mussum. Meses depois, a câmara municipal aprovou outro projeto, dessa vez para batizar de Alameda Mussum uma via que liga a Rua Santa Fé à Avenida Amaro Cavalcanti, no Jardim do Méier. Ainda em 1994, o Largo do Moutella, também em Jacarepaguá, foi rebatizado como Largo Antônio Carlos Bernardes Gomes e foi inaugurada a Creche Municipal "Mussum, o Trapalhão", na Rua Viçosa, na Penha Circular. As lembranças não ϐicaram restritas ao Rio de Janeiro. Em Goiânia, foi fundado o Centro de Atenção Integral à Criança Mussum, mais conhecido como CAIC Mussum, e em São Paulo, uma via no bairro do Morumbi ganhou o nome de Rua Comediante Mussum, ϐicando bem perto da Rua Comediante Zacarias. Em 1995, a Mangueira prestou homenagem a Mussum e Tom Jobim, também mangueirense e falecido em 1994, no último carro alegórico do seu desfile na Sapucaí.

Outro tributo famoso a Mussum ocorreu em maio de 1999, quando a banda brasiliense Raimundos lançou "Só no Forévis". Além do título, uma faixa com a referência ao termo criado pelo trapalhão servia de introdução, em meio de pandeiros e arrotos, para aquele que seria o trabalho mais bem-sucedido comercialmente do grupo. Último álbum a contar com Rodolfo Abrantes nos vocais, o CD vendeu 1,8 milhão de unidades, mais do que a soma dos quatro discos anteriores dos Raimundos, e recebeu o raro disco de Platina Quádruplo. Fãs declarados do cômico, os músicos ironizavam o sucesso dos grupos de pagode dos anos 1990 e criticavam a falta de liberdade de expressão para falar sobre sexo e maconha em suas letras e, assim, apelaram para o forévis como forma de protesto bem-humorado.

Mussum ainda seria lembrado como compositor em 2000, no disco "Con ϐissões", de Chico Salles. Forrozeiro e poeta de cordel, Chico estreou tardiamente no mundo artístico, pois, na verdade, ganhava a vida como engenheiro. Sua veia para o samba e para o xote foi despertada por causa de Mussum, seu vizinho de condomínio em Jacarepaguá. Juntos, em uma amizade que ϐicou mais forte ao passo que a rotina do trapalhão ϐicava mais caseira, no começo dos anos 1990, os dois foram frequentadores assíduos das rodas de samba de Roberto Serrão. Dessa fase, acabaram saindo pelo menos quatro canções assinadas pela dupla: "Balançou, caiu", "Sopa de piranhas", o hino do bloco carnavalesco Elas e Elas e a bem-humorada "Pinto no Xerém", que traz versos como "De rabo de olho / E de olho no rabo / Eu ϐico aqui igual a um pinto no Xerém / Rabo de foguete / Rabo de arraia/ Êta rabo de saia / Belo vai e vem". Embora não tenham feito grande sucesso, as canções mostram que nos seus últimos anos de vida Mussum continuava a produzir como músico e, finalmente, estava disposto a compor.

Seja por meio de ruas, escolas ou músicas de duplo sentido, poucos artistas foram tão alegremente lembrados após sua morte, mas, nem todas as homenagens deram conta de fazer sua ausência menos dolorida. Em 1994, pela primeira vez, Renato e Dedé cogitaram descontinuar o programa "Os Trapalhões". Eles já tinham combinado um período de férias para boa parte daquele ano, mas, muito abalados, não tinham certeza de como reuniriam forças para continuar. Tiveram tempo de sobra para juntar os cacos, mas nem isso adiantou. As exibições de "Os Trapalhões – Melhores Momentos de Todos os Tempos" continuavam a dar bons resultados no Ibope, chegando a mudar para a faixa do meiodia e ampliando a liderança da Globo no horário, por outro lado, não havia pressa para que o programa dominical voltasse. A falta de interesse da Globo era motivada pelo "Domingão do Faustão", que continuava a dar conta do recado nas tardes e nos começos das noites de domingo.

Apenas em abril de 1995, um programa inédito de "Os Trapalhões" voltaria ao ar. Comandado apenas por Didi e Dedé, em um cenário pequeno, com uma parede de monitores ao fundo, a atração chegaria mais cedo do que o horário tradicional, sendo exibida entre as 13h30 e as 14h30. A dupla de trapalhões trabalhava mais no papel de mestres de cerimônia do que de palhaços, entrevistavam artistas da Globo e mostravam cenas antigas do grupo ainda como quarteto misturadas a novos esquetes. Nesse formato, "Os Trapalhões" durou pouco e saiu de ϐininho da grade de programação, já no ϐinal de agosto, sem deixar muita saudade. O grupo, no entanto, encontrou uma sobrevida ao gravar uma série de programas "à moda antiga" para o canal português SIC (Sociedade Independente de Comunicação). Com o elenco reforçado por atores lusitanos, Didi, Dedé e, mais tarde, Roberto Guilherme, reeditaram quadros como o quartel do Sargento Pincel e os esquetes tradicionais. Agradaram tanto em Portugal que assinaram contrato para três temporadas. No Brasil, por outro lado, ϐicariam até 1998 sem aparecer com frequência deϐinida na programação. Ainda assim, a estreia de "A Turma do Didi" foi feita sem Dedé, na época contratado pelo SBT para estrelar "O Comando Maluco" e rompido com Renato Aragão.

Antes do retorno de Didi à telinha, as reprises dos velhos quadros saíram do ar em 1997. O motivo o ϐicial foi uma reformulação na grade de programação da Globo, mas dois problemas paralelos também ajudam a explicar o motivo de "Os Trapalhões" não ter tido a mesma trajetória de sucesso ad aeternum de "Chaves", "Chapolin", "Os Três Patetas" e outros clássicos do pastelão. O primeiro foi uma briga com os familiares de alguns dos membros já falecidos do elenco. Enquanto Renato, Dedé, Mussum e Zacarias tinham contratos cedendo seus direitos de imagem para uso e reúso exclusivo da Rede Globo, muitos atores do elenco de apoio e ϐigurantes trabalhavam por cachê e, por isso, achavam correto ir à Justiça pedir um novo pagamento para cada nova aparição que ϐizessem no vídeo. O gasto para pagar novamente um ϐigurante, ou vários deles, não parecia ser um obstáculo grande demais para a poderosa Globo, mas, seria melhor evitar uma jurisprudência que ϐizesse a emissora perder processos para cada um dos participantes dos mais de

800 episódios de "Os Trapalhões".

A segunda razão especulada para o ϐim das reprises de "Os Trapalhões – Melhores Momentos de Todos os Tempos" tem relação com um maior controle do setor de classiϐicação de títulos do Ministério da Justiça do Brasil provocado por uma fase de briga despudorada pela audiência na TV aberta. De acordo com artigo da Lei nº 8.069, de 1990, do Estatuto do Menor e do Adolescente, as emissoras deveriam submeter o conteúdo dos seus programas para a avaliação do Departamento de Classiϐicação Indicativa, da Secretaria Nacional da Justiça (Declas); este, por sua vez, de ϐiniria em que faixa de horário o programa deveria ser exibido. Até o ϐinal dos anos 1990, os próprios canais decidiam a classiϐicação etária das atrações de suas grades, restando ao governo receber e averiguar reclamações feitas em órgãos públicos. Com a escalada de pegadinhas apelativas, dançarinas seminuas, espetacularização da violência urbana e outras táticas sujas para atrair telespectadores, esse acordo foi rompido e a lei do começo da década passou a ser executada como previsto originalmente. De forma indireta, essa mudança teve poder de inviabilizar a exibição de boa parte dos esquetes de "Os Trapalhões". A ϐinal, não seria nada diϐícil encontrar "referências obscenas, linguagem depreciativa e consumo de álcool" nas aventuras do quarteto e, dessa forma, o programa receberia a classiϐicação de "recomendado para maiores de 12 anos", só podendo ir ao ar depois das 20h – horário nobre demais para qualquer reprise.

Se o verdadeiro motivo para o ϐim de "Melhores Momentos de Todos os Tempos" foi mesmo justiϐicativa oϐicial de reformulação, extraoϐicial ou uma soma das duas, o papel da emissora como divulgadora do grupo já fora bem cumprido. Se, por um lado, após vinte anos ininterruptos, ali acabava a história do quarteto de palhaços mais querido da televisão brasileira, por outro, Didi, Dedé, Mussum e Zacarias não estavam gravados apenas nas memórias de seus fãs. Com a abertura das importações e o controle da in ϐlação no Brasil da segunda metade dos anos 1990, ter um videocassete em casa não era mais um luxo para poucos. Os aparelhos, já prestes a serem substituídos pelos leitores de DVDs no exterior, invadiram o mercado nacional e possibilitaram que fãs de várias gerações aproveitassem as reprises diárias para registrar esquetes antigos dos trapalhões que não eram vistos há décadas.

Nesse cenário de consumo em alta e de novas possibilidades tecnológicas, também surgia para cada vez mais brasileiros a oportunidade de comprar um computador pessoal e acessar a rede mundial em casa. A combinação dessas duas tecnologias, uma quase defasada e outra bastante nova, ajudaram os fãs mais dedicados a suprirem quase que de imediato a ausência de "Os Trapalhões" na TV aberta. De forma pioneira e sem conhecimento de Renato Aragão, em 1998, foi criado o site

www.renatoaragao.com.br, que serviu como homenagem e, mais que isso, como ponto de encontro para gente de todo o Brasil interessada em trapalhões. O criador da página foi Lincoln Scanapieco, de Juiz de Fora, Minas Gerais, que reuniu fotos e informações sobre os ϐilmes do cinema e os programas exibidos pela Globo. Em tempos de conexão discada à internet, o melhor que dava para ser feito era publicar algumas fotos, textos e GIFs animados. Ainda assim, um simples endereço de e-mail publicado como forma de contato serviria para unir outros fanáticos pelo país e, assim, colocar na web um grande acervo de histórias, imagens e registros sobre o universo dos trapalhões.

Essa rede foi se formando lentamente, com outros sites e fóruns dedicados aos humoristas surgindo em diferentes regiões com mais ou menos sucesso, mas só ϐloresceu mesmo a partir de 2004, com a chegada e a rápida popularização do Orkut, primeira rede social a ter grande alcance no Brasil. Por meio de comunidades especíϐicas, algumas delas com mais de 100 mil membros inscritos, fãs dos trapalhões de todas as cidades e idades começaram a expor detalhes e fotos de suas coleções e relembrar momentos especiais que viveram graças ao programa. No meio das conversas e posts com recordações e piadas, acontecia um intercâmbio de conhecimento entre os mais novos e os mais velhos. Um desses veteranos, o capixaba Lozandres Braga, já com mais de 30 anos na época, usou a internet para mostrar sua coleção com gibis da época da Editora Bloch, LPs, compactos, K7s, brinquedos, itens promocionais, pôsteres e fotos dos trapalhões. Em troca, aprendeu a usar scanners e câmeras digitais para melhor registrar seus tesouros.

Mais tarde, com a conexão por banda larga já começando a alcançar mais cidades e sendo oferecida a preços acessíveis ao grande público, foi facilitada a vida de quem queria enviar e receber versões digitalizadas das antigas ϐitas VHS com gravações de "Os Trapalhões". Converter as imagens do analógico para o digital exigia a instalação de um placa especial no PC e muita paciência, aϐinal, para obter cada minuto de vídeo transformado era preciso esperar cerca de seis ou sete minutos, dependendo do computador, da placa e do software, claro. Mas isso não chegava a ser um problema para o paulistano Diego Munhoz, fã de Zacarias que desde o ϐinal da adolescência tinha como hobby transformar seu acervo de programas gravados em arquivos digitais. Sozinho, ele converteu mais de 400 ϐitas e compartilhou raridades como episódios de "Os Insociáveis", toda a filmografia do grupo e várias reportagens antigas. Diego, é claro, não era o único a fazer isso e, rapidamente, a internet foi abastecida com centenas de horas de gravações de cenas de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias.

Apesar das comunidades do Orkut e dos sites especializados, grande parte desse material, no entanto, ϐicava um pouco escondida, restrita a poucas pessoas – igualmente dedicadas e pacientes, para encontrar e baixar o conteúdo convertido por outros fãs ou até trocar CDs e DVDs gravados em casa por meio do correio. Isso porque, até maio de 2005, não havia uma forma realmente fácil de publicar vídeos na internet. Depois disso, veio o YouTube e revolucionou a brincadeira deϐinitivamente. O portal de vídeos on-line abastecido pelos próprios visitantes foi uma daquelas ideias que, de tão boas, faz muita gente se perguntar: "por que aqueles caras ϐizeram isso, e não nós?". No caso, os caras eram os programadores americanos Chad Hurley e Steve Chen, de

29 e 27 anos, respectivamente, e quem deve ter se perguntado "por que a gente não fez isso?" foram os executivos do Google. Até porque,

enquanto o Google Videos, com uma proposta parecida, não fazia grande sucesso, o YouTube bombava. A solução então foi uma proposta de 1,65 bilhão de dólares da empresa do buscador para comprar o serviço e transformá-lo em uma espécie de televisão mundial da internet. Como se sabe, deu bem certo.

No Brasil, em especial, assim como havia acontecido com o Orkut, o público abraçou a novidade com grande entusiasmo e passou a ser uma das comunidades mais atuantes no portal, tanto na visualização quanto na postagem de vídeos. Marcou esse período, por exemplo, a mancada do apresentador Luciano Vanucci, então na RedeTV!, balbuciando o nome de jogadores da seleção italiana que acabava de vencer a Copa do Mundo em 2006 por estar supostamente sob o efeito de remédios. O programa em sua exibição original não teve repercussão alguma, mas a reprodução da cena na internet alcançou o equivalente a quinze vezes a audiência da transmissão ao vivo. Para os fãs de trapalhões, carentes de um meio de compartilhar suas pérolas do VHS, o YouTube foi uma solução perfeita. Com algoritmos próprios, o serviço era capaz de diminuir o tempo de espera para o envio e para a visualização dos vídeos – algo essencial, uma vez que a banda larga por aqui nunca foi tão larga quanto deveria.

Assim, de um mês para o outro, foi fácil colocar ao alcance de qualquer usuário de internet canais repletos de cenas memoráveis, apresentando Didi, Dedé, Mussum e Zacarias a uma geração que não tinha nem nascido quando aquele conteúdo foi ao ar pela primeira vez ou mesmo na forma de reapresentações. Até mesmo quem já tinha idade para ter visto a exibição original dos esquetes também se deliciava ao ver pela segunda vez, já com mais idade, as referências e piadas que passavam batidas pelas suas cabecinhas de criança. E dentro desse novo universo de descobertas e releituras, muita gente percebeu, entre outras boas lembranças, o quanto as aventuras de Mussum pelos botequins eram engraçadas.

Chegamos, então, à publicação de "Mussum armando uma pindureta", pelo usuário SpeedMerchants em 23 de novembro de 2006, momento deϐinidor do renascimento de Mussum como ídolo pop. O quadro de 4 minutos e 33 segundos, em que também participam Didi e Tião Macalé, foi ϐilmado nos tempos do diretor Adriano Stuart e só 25 anos depois foi desenterrado rumo a um sucesso enorme. Mas, para entender porque esse vídeo especí ϐico fez mais barulho na internet do que qualquer uma das outras dezenas de esquetes de Kid Mumu publicadas, primeiro é preciso levar em conta a ascensão dos memes na web.

Sequestrado do livro O gene egoísta, do biólogo britânico Richard Dawkins, e posteriormente adaptado por vários autores, o termo meme refere-se a uma porção mínima de informação capaz de ser codiϐicada por uma comunidade especíϐica, sendo transmitida, imitada e adaptada facilmente. Pode ser uma simples imagem, uma palavra, um barulho de alguns segundos ou mesmo um sinal feito de dois caracteres, como os smiles. Quem é da tribo certa, vai entender na hora o signiϐicado e replicar a mensagem para os seus pares, espalhando pela internet modismos, piadas e gírias que, ao menos no começo, não fazem sentido algum para a maioria das pessoas. A transformação de Mussum em meme começa pelo jeito de falar do personagem e seu léxico característico, que facilita seu reconhecimento como piada para quem sabe que a referência do plural errado é uma ligação ao humor do trapalhão.

Com o vídeo "Mussum armando uma pindureta" a coisa foi além da brincadeira com o português errado por causa do grande número de frases e palavras capazes de ganharem vida própria e independentemente da obra como um todo. Dividindo as brincadeiras de Mussum, Didi e Macalé, o conteúdo conseguiu se multiplicar e chegar bem mais longe. O termo pindureta mencionado brevemente no quadro, por exemplo, ganhou destaque ao aparecer no título da página do YouTube e entrou para o vocabulário de quem pensa em dar algum calote por aí. O jeito irônico de Didi cumprimentar seus clientes, chamando-os de bacharéis, diplomatas e engenheiros, entre outros elogios, também é facilmente imitável e replicável. Após ver o vídeo é quase impossível resistir à tentação de chegar a uma mesa de bar e cumprimentar os seus amigos fazendo a mesma brincadeira. E assim segue-se com outras frases e piadas do esquete. Cantar os versos iniciais de "Lá no morro", pedir para o garçom "completar o lance" ou chamar as garrafas de 600 ml de cerveja de "ampolis" é tão engraçado de ver quanto fácil de imitar. Resultado: a publicação de 2006 já teve mais de 3,3 milhões de visualizações e suas várias cópias têm números bastante expressivos. Em uma pesquisa na versão brasileira do YouTube, feita em março de 2014, o termo "pindureta" retorna 7.580 resultados, com reproduções da cena de Didi, Mussum e Macalé na maioria delas. 49

É claro que diversas outras cenas dos trapalhões no auge da forma ganharam muitos fãs na internet, mas foi, sem dúvida, o quadro com a tentativa de pagamento ϐiado no boteco que ensinou a maioria dos usuários de internet a reproduzir cotidianamente o jeito típico do personagem mangueirense. A partir daí, como é comum acontecer com os memes, a coisa fugiu completamente do controle dos autores originais e mesmo dos reprodutores iniciais. A partir da entrada da " pindureta" no dicionário informal dos memes brasileiros, ϐicou cada vez mais frequente esbarrar em sites de humor, montagens fotográϐicas, piadas e projetos variados, como um tradutor on-line ou um gerador de textos aleatórios, apropriando-se do mussunguês, do mussunês ou de qualquer outro nome que queiram inventar para a linguagem do personagem dos trapalhões. A popularidade da brincadeira de imaginar Mussum nos dias atuais cresceu tanto que foi capaz até de engolir e ser misturada com outros memes da rede, criando novos códigos que nem sempre representam de forma ϐiel o jeito característico das falas de Mussum. Enquanto o comediante guardava as palavras erradas para dar graça ao ϐinal das frases, na internet as referências geralmente abusam dos plurais do começo ou ϐim das orações – o que não torna a brincadeira menos engraçada.

Um exemplo dessa criação de material novo, reciclado do antigo, pode ser visto com clareza durante o #MussumDay, evento virtual inventado na rede social Twitter para lembrar o aniversário da morte do comediante em 29 de julho e posteriormente espalhado por toda a internet. A celebração surgiu por causa da popularidade da conta @MussumAlive, criada em fevereiro de 2009 pelo técnico em mecânica Leandro Santos. Ele inspirou-se na ideia do usuário @VictorFasano, que postava textos engraçados na internet passando-se pelo ator da Globo e assim conquistava centenas de milhares de seguidores e incontáveis republicações. Como era de praxe na época, a ideia deu certo e muita gente que estava aprendendo a usar o Twitter acabou seguindo e replicando as piadas e frases do personagem fake criado por Leandro. Por causa dessa popularidade instantânea e arrebatadora, uma seguidora do perϐil chamada @BrunaBrumana sugeriu que fosse feita uma homenagem ao Mussum original na data exata em que sua ausência completava 15 anos.

A ideia deu tão certo que a hashtag #MussumDay passou o dia em primeiro lugar na lista de termos mais comentados do mundo no Twitter, com um número de aparições em postagens superior até aos termos ligados aos assuntos mais quentes do mundo no momento, como o surpreendente retorno de Michael Schumacher à Fórmula 1 dois anos após sua aposentadoria e os desdobramentos do acidente do piloto brasileiro Felipe Massa. Isso aconteceu, claro, porque novamente o fenômeno provocado pelo autor saiu do seu controle e espalhou-se de forma exponencial. Enquanto @Mussum Alive postava frases reproduzindo o jeito típico de Mussum falar, dezenas de montagens com fotos do comediante sobrepostas a artistas famosos começaram a pipocar. É impossível rastrear quem teve a ideia primeiro, mas uma agência de publicidade chamada Strat Comunicação, com base em Porto Alegre, foi quem melhor aproveitou a oportunidade. Seus designers colocaram o rosto de Mussum em, pelo menos, 14 fotos em um pacote que satirizava ϐilmes, com as peças Matrixiss, Titanicsss, Karate Kidiss, Harry Pottis, Crepusculis, Hulkis, Wolverinis, e músicos, com as peças Cazuzis, Restartis, Wandis, Nirvanis e Ramoniss. A brincadeira não parou mais e ultrapassou a ideia inicial, de homenagear o trapalhão no dia de seu falecimento. Nunca mais foi preciso qualquer motivo para usar frases, vídeos e imagens do comediante para criar ou reciclar piadas do próprio Mussum ou de outras fontes.

O remix de referências foi tanto que conseguiu sair da internet para invadir as ruas. Essa rara transposição de uma mania da web para algo palpável e visto fora das redes sociais aconteceu na esteira de dois acontecimentos históricos – e que pouco ou nada tinham a ver com o exintegrante dos Originais do Samba. O primeiro deles foi a eleição de Barack Obama como presidente dos Estados Unidos, após uma campanha que gastou mais de 200 milhões de dólares para transformar o candidato em um produto perfeito para ser divulgado e consumido pela internet. Durante a corrida presidencial, Obama não deixou de investir na propaganda de TV, nos adesivos e santinhos, mas fez um esforço enorme para ser onipresente com seus slogans e logotipos no Twitter, no Facebook, no YouTube e onde mais o eleitor jovem estivesse logado. Daí surgiram memes globais como o "Yes, We Can" e o pôster colorido com a ilustração do democrata em cima de palavras de ordem como esperança e mudança.

O segundo evento histórico que ajudou a recolocar a imagem de Mussum nas ruas foi a escolha do Rio de Janeiro como sede das Olímpiadas de 2016, em outubro de 2009. Fato comemorado pelo ilustrador brasileiro Rodrigo Hashimoto com uma montagem que substituiu o desenho de Obama no seu famoso pôster pela imagem do perfil do trapalhão sobre a frase "Yes, we créu".

Tanto pela qualidade da montagem quanto pelo oportunismo da mensagem, a foto foi espalhada pela internet com tamanho sucesso que inspirou as confecções amadoras a transformá-la em camiseta. A partir de então, foi difícil passar um dia sem ver a ilustração exposta em alguma barraquinha de camelô ou no corpo de algum moleque que provavelmente começou a ver "Os Trapalhões" em vídeos do YouTube e passou a gostar do programa tanto quanto ou mais do que alguém que esperava as noites de domingo para vê-los.

Mesmo quando a frase relacionada ao funk "Dança do Créu" e à campanha de Barack Obama perdeu força, as camisetas de Mussum continuaram a ser vendidas com boa saída, trocando o "Yes, We Créu" pelo nome Obamis ou por outras frases típicas atribuídas ao comediante. Depois do primeiro hit no vestuário, passaram a surgir diversas versões de estampas com fotos antigas ao lado de ditos novos, montagens colocando o rosto do trapalhão sobre pôsteres de ϐilmes famosos ou mesmo pondo apenas palavras sozinhas, como Mé e Forévis, no centro de camisetas pretas. A rápida adaptação da tendência da internet para as barraquinhas, além de mostrar que os camelôs estão cada vez mais ligados em tecnologia, fez também com que surgissem os primeiros produtos oficiais com o endosso ou a imagem de Mussum.

O mais impressionante deles foi o Novo Fusca, automóvel escolhido pela Volkswagen para ser o embaixador da marca no ano em que sua primeira fábrica no Brasil completava 60 anos. O comercial do carro, exibido em fevereiro de 2013, fez parte de uma campanha que custou mais de R$ 20 milhões e colocou propagandas em jornais, revistas, sites, cinemas e rádios. Na TV, o ϐilme criado pela agência AlmapBBDO usou ícones do Brasil dos anos 1970 para fazer uma viagem no tempo e mostrar como a nova versão do Fusca havia evoluído e se descolado da sua imagem antiga. Embalados pela música "País tropical", de Jorge Ben, transeuntes no Viaduto do Chá olhavam o automóvel moderno incrédulos, fazendo perguntas a um repórter vindo dos anos 2010. Entre a descrição de um acessório e outro, aparecia Mussum exclamando "Cacildis" como se estivesse também ali, impressionado com o carro. A imagem, na verdade, foi retirada do ϐilme Atrapalhando a Suate, de 1983, e tratada digitalmente, mas, a presença do comediante nem precisaria de efeitos especiais para ser sentida como real.

Por meio de novos vídeos desencavados das coleções pessoais de fãs antigos e colocados no YouTube, das fotomontagens que viraram febre nas redes sociais ou mesmo pelas cervejas da Brassaria Ampolis, montada pelo ϐilho de Mussum, Sandro Gomes, o Alexandro, o personagem transcendeu as conquistas obtidas em vida pelo sambista e comediante. Em uma época na qual os artistas têm equipes proϐissionais formadas apenas para cuidar de suas imagens dentro e fora da internet, Mussum transformou-se sozinho em sinônimo de alegria e malandragem, juntando nostalgia às últimas modinhas da web, para reproduzir duas décadas depois de sua morte exatamente o que melhor fazia em vida: ser fiel às suas origens e levar alegria para onde quer que fosse.

49. Youtube, 05/03/2014.