Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões
Capítulo 22
DIA DE MUITO É VÉSPERA DE POUCO (1991)
"Não quero saber do preço da manteiguis, eu quero é comer com gordura"
Acumular as funções de diretor de harmonia da ala das baianas,
professor do projeto Mangueira do Amanhã, presidente do Bloco das Piranhas, palhaço de circo, ator de televisão e estrela de cinema era, para os padrões de Mussum, uma fase de tranquilidade inédita. Pela primeira vez, não precisava se dedicar a dois empregos para pagar suas contas, como nos tempos que dividia seu dia entre o quartel e os shows de Carlos Machado ou na fase em que tocava nos Originais do Samba e gravava "Os Trapalhões" em praticamente todos os dias da semana. Bem pago pela Globo e com uma agenda intensa, mas sem loucuras, Mussum podia dedicar-se à música de uma forma diferente, simplesmente como fã e entusiasta, sem pressões de vendas e turnês.
Na vitrola, além de muitos discos de samba trazidos pelos amigos, a preferência de Mussum era por ritmos com percussão bem marcada e criativa, como o jazz, o soul e a música latino-americana. Entre os mais tocados estavam Tito Puente, Pérez Prado e conjuntos de música tradicional cubana e porto-riquenha. Durante suas viagens como integrante dos Originais e dos Trapalhões, Mussum criou uma invejável coleção de discos importados, todos bem organizados e tratados com o máximo de carinho. Em sua sessão de artistas negros americanos, os maiores xodós eram os álbuns instrumentais de George Benson, do hit "I give you the night", e discograϐias completas de Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald e Ray Charles. Entre um charuto e outro, também gostava de intercalar entre os álbuns de seus dois cantores preferidos, Frank Sinatra e Tony Bennett, dando leve preferência para o segundo.
Não faltava música brasileira entre as bolachas. Embora gostasse das
cantoras da MPB e seguisse sendo grande fã da cantora Márcia, com quem fez seu primeiro disco e participou de festivais e de diversas gravações ao longo das décadas, as vozes masculinas ecoavam com mais frequência pela casa de Jacarepaguá. Rolava desde os tradicionais sambas-canção de Ataulfo Alves até os maliciosos forrós do barrigudo Genival Lacerda, passando por Luiz Gonzaga, Vinicius de Moraes, Chico Buarque e muitos outros. Vale ainda mencionar que a maioria dos LPs vinha com autógrafos e dedicatórias dos artistas, pois era comum, semana após semana, a gravação de participações especiais dos cantores mais populares do Brasil em "Os Trapalhões".
Toda essa soϐisticação e variedade no gosto musical de Mussum não passavam nem perto de serem reϐletidas nos discos gravados pelos trapalhões. Sempre destinados ao público infantil e feitos às pressas, os álbuns serviam como peças de promoção dos ϐilmes e vice-versa. Geralmente eram incluídas faixas com pequena participação dos integrantes do grupo e sobras de trilhas sonoras cobertas por um uso excessivo de sentimentalismo e corais infantis. Mesmo assim, os LPs e K7s vendiam bem – porque quase tudo que viesse com a marca do grupo venderia bem mesmo. Uma surpreendente exceção a essa rotina, iniciada ainda na fase da TV Tupi, é "Amigos do Peito", de 1991. Feito para comemorar os 25 anos do grupo, o disco trouxe grande parte dos defeitos encontrados em seus antecessores, mas, propositalmente ou não, serviu como registro histórico do momento de transição vivido pelos três trapalhões.
Novamente Michael Sullivan e Paulo Massadas assinaram a maioria das faixas, dessa vez com nove das 12 músicas gravadas. Uma predominância que não se deve apenas à fase iluminada da dupla, autora de uma longa lista de sucessos populares tanto na MPB quanto nos discos infantis, mas sim a uma tentativa de os trapalhões pularem no barco de um tipo de humor mais ácido, mais crítico, mais escrachado e mais adulto, o humor que consagrava Fausto Silva como o maior fenômeno da televisão do começo dos anos 1990. Para entender a ponte entre uma coisa e outra, basta dizer que a canção-tema do "Domingão do Faustão" saiu da fábrica de hits de Sullivan e Massadas. Com versos como "Eu sou do tempo que sapato grande era sapatão / E que galinha era comida só de domingão / Do tempo que a vaca era a mulher do boi / Um dia foi!" e "Sou do tempo que sentar numa boneca era só quebrar um brinquedo", a música ajudou a empurrar Faustão, em menos de um ano, ao posto de estrela da Rede Globo. Após estrear em 1989, Fausto Silva derrotou Silvio Santos na audiência e transformou seus bordões em ϐilme, disco e até revista. Em 1991, era comum considerá-lo como sucessor de Chacrinha e sinônimo de modernidade na TV, por causa de seu desembaraço para falar de sexo no meio das tardes de domingo, da espontaneidade para fazer piada com a própria emissora e da boa relação com os anunciantes. Seria essa a receita para a renovação de "Os Trapalhões"?
Na dúvida, Sullivan foi contratado como produtor e "Amigos do Peito" foi recheado com piadas que ϐicavam no meio de uma encruzilhada entre o ousado, o hilariante, o nonsense e a baixaria pura e simples. Apesar de músicas com temática infantil aptas a serem tocadas sem problemas em qualquer festinha de aniversário, há um tom de deboche nada recomendado para os baixinhos nas faixas "A pulga pata pata (pulga na cueca)", clássico da cantora sul-africana Miriam Makeba cantada de forma afetada por Mussum e Jorge Lafond, e "Kibe kru", com uma letra surreal sobre uma moça que estava triste e desiludida até comer o prato árabe. Mussum, que faz os vocais, a certo ponto fala "Pessoal presta atenção, o kibe cru é a solução". Nessa linha, havia ainda "Pula veadinho", a primeira música de trabalho que chegou até a ser tocada no Xou da Xuxa, falando sobre uma visita ao zoológico que dispensa quaisquer explicações sobre a origem e a intenção do trocadilho.
Musicalmente falando, é possível notar certo abuso das baterias eletrônicas e timbres usados pelos primeiros grupos de hip hop americano, um certo clima de Run DMC com alguns anos de atraso. A inspiração ϐica mais clara nas tentativas de rap "Trapalhadas" e "Natureza", ambas com letras fraquíssimas e constrangedoras participações de Renato, Dedé e Mussum. A coisa só não é pior porque, enquanto passam vergonha imitando rappers, saem piadas muito engraçadas e brincadeiras de um integrante com o outro. A certa altura, Didi chama Mussum de Nega do Tubo e ouve de volta os elogios como Paraibis, Ceará e Jangada.
O deslocamento espaço-temporal dos trapalhões continua em "Roxo de paixão", uma canção de absoluta avacalhação com o estilo de vida do então presidente Fernando Collor. Em abril de 1991, durante um discurso para 30 mil pessoas na Praça do Memorial Padre Cícero, em Juazeiro do Norte, no Ceará, o político estava irritado com os protestos de militantes de oposição no meio da plateia e esbravejou:
— Não tenho medo de assombração nem tenho medo de cara feia. Meu pai já me dizia, desde que eu era pequeno, que eu havia nascido com aquilo roxo! E tenho mesmo, para enfrentar todos aqueles que querem conspirar contra o processo democrático.
A menção ao saco roxo, sinal de masculinidade nos bebês de acordo com o folclore nordestino, foi o mote para a criação de mais uma in ϐinidade de piadas sobre o exótico presidente, praticante de cooper, lutador de caratê e piloto de jet ski, nos momentos em que não estava arruinando a economia do país. Na letra da música "Roxo de paixão", os trapalhões listam de forma irônica todas essas atividades extracurriculares, deixando no ar um deboche em relação à "fama de machão" do sujeito oculto ao qual é destinada a música. Embora a crítica aos problemas sociais fosse sempre uma preocupação presente na obra dos trapalhões, nunca havia sido feito um ataque tão frontal, ácido e desnecessário. A ϐinal, não faltava gente para enxovalhar Collor e, meses depois do lançamento do disco, os três trapalhões iriam a Brasília subir a rampa ao lado de Fernandinho na inauguração do primeiro Centro Integrado de Apoio à Criança (Ciac), um audacioso projeto para levar prédios com salas de aula, berçários, consultórios médicos, creches, ginásios e bibliotecas aos cantos mais carentes do Brasil.
Sorte de Renato, Dedé e Mussum que a crítica, seguida rapidamente de uma reaproximação, e a baixaria geral do álbum passaram batidas. A música mais marcante do disco acabou sendo a faixa título "Amigo do peito", escrita, é claro, por Michael Sullivan e cantada por Chitãozinho e Xororó. Um ano antes, a dupla sertaneja alcançava o auge de sua popularidade com o disco "Cowboy do Asfalto", que vendeu 1,5 milhão de cópias graças ao sucesso dos clássicos "Evidências" e "Nuvem de lágrimas". Dessa forma, o refrão "Ter um amigo / Na vida é tão bom ter amigos / A gente precisa de amigos do peito / Amigos de fé, amigos do peito, amigos-irmãos igual a eu e você" transformou-se não apenas no hino o ϐicial do programa beneϐicente Criança Esperança, da Globo, como também na tradução perfeita da amizade e do companheirismo que os três trapalhões precisariam ter nos difíceis anos que viriam pela frente.
Nos bastidores, as tentativas de reformulação de "Os Trapalhões" após a morte de Zacarias eram vistas com ressalvas. O público precisaria de tempo para se acostumar com o esquema de quadros ϐixos, como o "Trapa Hotel", e as variações de audiência seriam normais. Ao mesmo tempo, o sucesso de Faustão e dos novos humoristas contratados pela Globo colocava uma incômoda pressão nos veteranos. O "Programa Legal" e o "Doris para Maiores", nas noites de terça-feira, mostravam que o grande público estava interessado em atrações mais dinâmicas e ágeis, no contrapé do que faziam os trapalhões e seu padrinho, Chico Anysio. Essa pressão era restrita aos camarins e corredores da Globo. Para quem apenas assistia ao plim-plim em casa, o prestígio de Didi, Dedé e Mussum parecia maior do que nunca. Nas comemorações pelos 25 anos do grupo, em julho, a emissora preparou uma maratona com 25 horas de programação envolvendo os humoristas.
O espaço foi usado para arrecadar fundos para o Criança Esperança, então em sua sexta edição, e toda a grade de programação do ϐinal de semana global teve em suas atrações, de uma forma ou de outra, homenagens ao quarteto de comediantes – era como se Zacarias tivesse morrido há uma semana e não há mais de um ano. O início das festividades ocorreu durante a edição de sábado do Jornal Nacional, quando o jornalista William Bonner, na época aos 28 anos, noticiou a nomeação de Renato Aragão para o cargo de representante especial do Unicef em defesa da criança e dos adolescentes, "uma honraria inédita na América do Sul".
A partir daí, o velho teatro Fênix serviu mais uma vez para abrigar os trapalhões, mas, daquela vez, além do pastelão tradicional o palco foi frequentado pelas principais estrelas das novelas, da música e do esporte. Durante intermináveis horas foi realizada uma espécie de show de calouros que teve Glória Menezes tocando piano, uma cover de Madonna dançando "Papa don't preach", Beatriz Segall, no auge da popularidade trazida pela personagem Odete Roitman, cantando uma tradicional chanson française, e um encerramento grandioso com o Rei Roberto Carlos. No júri, Elymar Santos, Alcione, Léo Jaime, Vanusa e outros músicos. No palco, o toque de esculhambação ϐicava por conta de Tião Macalé ao lado de um gongo, como nos seus tempos no programa "Calouros em desfile", de Ary Barroso.
Durante essas 25 horas de programação comemorativa é que foi exibida a cena de Renato Aragão beijando a mão do Cristo Redentor – tudo acompanhado de perto por um helicóptero e pela esvoaçante cabeleira de Glória Maria. Quando o comediante chegou engatinhando na mão do símbolo religioso, aliás, a repórter não aguentou de emoção e fez a pergunta mais óbvia de todos os tempos: "Renato, como você está se sentindo neste momento?". Para Mussum, o momento mais emocionante das homenagens foi menos espetacular, mas ainda assim muito signiϐicativo. Entre os programas que foram modiϐicados para homenagear os trapalhões estava a "Escolinha do Professor Raimundo", o programa que fez com que o sambista desse seu principal e decisivo
passo em direção à carreira como humorista.
Novamente, a Globo caprichou no especial e colocou o elenco para trabalhar, substituindo os atores originais da atração pelos nomes de maior destaque das novelas e da música nacional. As escolhas do casting especial, como dá para perceber apenas lendo os nomes, foi muito feliz. A aula, ministrada por Dedé em vez do Professor Raimundo, tinha Tarcísio Meira como Sr. Ptolomeu, Fábio Júnior como Juscelino Barbacena, Cláudia Raia como Dona Cacilda, Regina Casé como Dona Bela, Evandro Mesquita como Armando Volta, Clóvis Bornay como Sr. Peru, Ney Latorraca como Paulo Cintura, Marco Nanini como Rolando Lero, Cecil Thiré como Sr. Bertoldo Brecha, e Eri Johnson como Sr. Mazarito, o personagem em que Costinha fazia papel de Costinha. Outros parceiros dos primeiros tempos de Mussum na TV, os atores Milton Gonçalves e Emiliano Queiroz e o primeiro diretor dos trapalhões na Globo, Augusto C ésar Vanucci, também participaram do quadro. Interpretando o índio Suppapau Uaçu, Milton troca provocações com o antigo colega de "Bairro Feliz". O comediante brinca dizendo que o ator é a cara do folclórico Madame Satã e ouve como réplica a pergunta "Você já passou zarcão hoje?".
Antes da aula começar, no início do programa, Chico Anysio vestido como Professor Raimundo reconhece Mussum e troca palavras pouco elogiosas com o ex-aluno, que ao seu estilo responde na mesma língua. Espantado com os alunos diferentes, o professor pensa que errou de classe, mas, antes, assegura que se lembra de Mussum.
— Esse aqui eu conheço! Você é inesquecível...
— Obrigado, professorzis.
— Pé de rodo! O Aluno mais burro que já tive!
Mussum gargalha e prepara-se para revidar, mas toma duas cortadas.
— Grande Vascaíno! É o famoso Higuita...
— Higuita é a sua mãe..
— Vocês sabem que lá no Norte…
— Pode parar! Nada de "lá no Norte". Vai falar isso no seu programa. Aqui não!
Se a intimidade com Chico Anysio era grande, a relação com a ala mais moderna do humor na Globo não era menos amistosa, com uma proximidade saudável entre os veteranos trapalhões e os novatos. Um exemplo foi quando os ex-redatores do jornal "Casseta Popular" convidaram Mussum e Didi para fazer participações especiais no "Doris para Maiores". Didi apareceu como um vírus de computador, em uma ótima sátira à mulher virtual interpretada pela modelo Doris Giesse. Já Mussa foi an ϐitrião de Regina Casé, em uma edição do "Programa Legal" que mostrou o cotidiano em Mangueira e, mais tarde, apareceu no "Doris", sendo entrevistado por Marcelo Madureira. Meio ele mesmo, meio personagem, Mussum estava sentado em um boteco, com a mesa lotada de garrafas de cerveja, vestindo a camisa da seleção brasileira e era apresentado como "o camisa 10 do esporte nacional: a birita. Em matéria de goró, o Mussum é o número um". Depois dos elogios, o sambista con ϐirma a intimidade com o mé. "Tenho a gargantinha de ouris. Bateu aqui, a criança escorrega e cai". Depois Mussum diz que parou de beber por recomendação médica e desde então só pode comer doces. A cena acaba com o garçom trazendo um enorme "pudim de cachaça".
Renato reconhecia nos cassetas a vontade de mudar padrões que ele mesmo tinha quando começou na TV e topou na ortodoxia dos proϐissionais de rádio e de teatro. Os cassetas foram a primeira geração que teve o humor da TV como base. Cláudio Manoel, mais tarde consagrado com os personagens Seu Creysson e Massaranduba, diz que foi inesquecível o domingo em que assistiu a uma gravação de "Os Adoráveis Trapalhões", na TV Excelsior no antigo Cinema Pirajá, em Ipanema. Essa admiração mútua convenceu Renato a usar a criatividade dos novatos para remodelar "Os Trapalhões", mas os meninos estavam em franca ascendência e, mesmo vendo a oportunidade como a chance de realizar um sonho de infância, acabaram não aceitando o convite – mas também não o recusaram. Sem tempo, pois além de escreverem e atuarem no próprio programa, Claudio Manoel, Hubert, Bussunda, Hélio de la Peña, Reinaldo, Beto Silva e Marcelo Madureira prestaram uma espécie de consultoria ao veterano cearense. Dessa colaboração surgiriam várias ideias de quadros e bordões, como "Sabe tudo" e "...os Pirata!".
A situação ϐinalmente parecia se ajeitar, com o esforço de modernização dos trapalhões rendendo bons frutos e mostrando que, de uma forma mais gradual, as tradicionais piadas do pastelão poderiam ser reϐinadas para o humor dito inteligente. Mas, junto com o ϐinal de 1991, vieram as datas de vencimento dos contratos de Dedé e Mussum com a Globo – Renato trabalhava seguindo um acordo em separado, válido por mais dois anos, e não precisava se preocupar com nada por enquanto. A dupla, ao contrário do que aconteceu nos outros 15 anos em que trabalhou para a família Marinho, encontrou um clima bastante hostil na negociação das suas renovações. Durante dois meses, sempre por meio de seu empresário, ouviram que a Globo não aceitaria aumentar seus salários em 50%, conforme pediam. Na época, cada um ganhava Cz$ 4 milhões mensais, valor que os colocava entre os maiores salários da emissora, ϐicando em pé de igualdade com atores como Tarcísio Meira, Antônio Fagundes e Regina Duarte, e abaixo apenas de poucos nomes, como Faustão e Renato Aragão, que faturavam Cz$ 10 milhões por mês, somando salário e merchandisings.
As fofocas de bastidores davam conta de que a direção da Globo estava fritando os dois trapalhões. Colunistas especializados em colocar nos jornais os comentários dos corredores diziam que a emissora queria renovar a grade de programação, e as avantajadas barrigas de Dedé e Mussum mostravam que eles pertenciam muito mais ao passado do que ao futuro.
Esses boatos chegaram aos ouvidos da direção do SBT e, novamente, o canal de Silvio Santos mostrou-se interessado em contar com os trapalhões dissidentes. De novo, ϐizeram uma proposta do tipo cheque em branco, para que os humoristas decidissem quanto queriam ganhar. Diferentemente do que aconteceu em 1983, durante a separação do grupo, e em 1988, com a guerra causada pelas idas e vindas de Gugu Liberato, Dedé e Mussum estavam dessa vez propensos a aceitar a proposta. Com três décadas de show business nas costas, o velho Mussa sabia sentir a mudança das marés. Notava certa má vontade da direção da Globo em atendê-los e percebia que o próprio Renato Aragão não parecia ter interesse na renovação. Pesava ainda a situação caótica do país no momento. O Plano Collor e suas emendas já não conseguiam segurar a in ϐlação, o desemprego estava em alta e as suspeitas de corrupção começavam a emergir.
Se não era hora de nenhum brasileiro sonhar em recusar dinheiro, a situação de Dedé era ainda mais desesperadora. Vivendo uma fase instável na vida pessoal, teve associado ao seu nome um escândalo imperdoável no Brasil dos anos 1990: ter um ϐilho fora do casamento. A história, na verdade, não era bem essa, mas o sensacionalismo transformou suspeitas em fatos. Em setembro de 1991, a faxineira Zurde Xavier de Oliveira, de Nova Lima, cidade de Minas Gerais, entrou na Justiça cobrando de Dedé a paternidade de seu ϐilho Antônio, então com
14 anos. Zurde dizia ter engravidado após uma relação fugaz com o humorista atrás das lonas de um circo e, mesmo após avisá-lo sobre a situação meses depois, não teve nenhum apoio na criação do garoto. A história foi um banquete para a imprensa sensacionalista, que explorou o caso atribuindo a Dedé o papel de vilão, como um rico insensível com relação à pobreza do ϐilho. O Notícias Populares, por exemplo, destacou a história com a manchete "Faxineira diz que Dedé é trepalhão" 41 e a história gerou uma enorme crise no casamento do humorista com a modelo e ex-capa da "Playboy", Suzana Mattos. O niteroiense exigiu seus direitos e foi submetido a um teste de DNA, que comprovou que o garoto não era seu ϐilho, mas a essa altura a exposição negativa na mídia era tanta que Suzana pediu o divórcio. Desesperado, Dedé entrou em depressão e tentou cometer suicídio. Disse ter rodado pelas ruas mais sinistras da Lapa, no Rio de Janeiro, de madrugada até encontrar um local escuro e deserto, estacionou seu carro aberto no local e ϐicou esperando que algum assaltante tentasse abordá-lo. Estava disposto a reagir ao roubo e tomar um tiro. Uma dupla de meliantes em potencial, de fato, apareceu, mas quando reconheceu o artista teria dito:
— Ô, Sr. Dedé, o que o senhor está fazendo aqui? Fica sossegado que a gente é muito fã do senhor e ninguém vai mexer no carro do senhor.
A situação do amigo sensibilizou Mussum e Renato. O mangueirense deu a ideia de que Dedé voltasse a morar em Jacarepaguá, onde, entre amigos e familiares, poderiam ϐicar mais próximos. Com a mudança, os dois poderiam ir e voltar para as gravações juntos no Monza de Mussum e falar sobre a vida, como costumavam fazer nos tempos em que saíam dirigindo pelo interior do Brasil para fazer shows. Renato, por sua vez, decidiu interceder pelos colegas e negociou as renovações de contrato diretamente com Boni. No ϐinal das conversas, o cearense conseguiu o que os amigos pediam, passariam a receber Cz$ 6 milhões mensais, mas este seria o valor para os próximos dois anos e eles deveriam colaborar com os novos formatos previstos para o programa em 1992. Assim, o negócio foi fechado, com grande alívio para Dedé e Mussum, e tristeza para o SBT por mais uma tentativa frustrada.
A única virada de casaca que o humorista faria mesmo naquele ano seria na Marquês de Sapucaí, desϐilando pela Beija-Flor do carnavalesco Joãosinho Trinta. O samba-enredo da escola, "Há um ponto de luz na imensidão", versava sobre a história da televisão, e os três trapalhões foram o destaque principal do carro alegórico Humor e Show, ao lado de outros comediantes como Paulo Cintura, Arnaud Rodrigues, Carlos Alberto de Nóbrega e Roberto Marquis, o popular Guarda Juju, da "Praça é Nossa". É claro que Mussum não deu exclusividade para a agremiação de Nilópolis, pois dirigiria a sua ala de baianas na Mangueira, mas o des ϐile duplo não representou uma página marcante em sua história. A campeã daquele carnaval foi a Estácio de Sá, com a verde e rosa ϐicando
apenas em sexto, e a azul e branco em sétimo.
Voltando ao trabalho, Mussum encontrou a nova temporada de "Os Trapalhões" trazendo como novidades a substituição do "Trapa Hotel" pela "Vila Vintém" e a aposentadoria dos esquetes variados para a entrada do quadro "Agência Trapatudo", uma empresa caçadora de talentos dirigida pelos três trapalhões. Embora tivesse sido roteirizada para mostrar histórias com começo, meio e ϐim, as cenas na Trapatudo perdiam-se em um esquema de total anarquia. O "escritório" recebia como convidados atores globais, músicos e humoristas em grande quantidade e, desta forma, abria espaço para o improviso e para as brincadeiras de palco tão ausentes nas últimas temporadas do programa. Nesse esquema, ocorreram participações especiais memoráveis, como as de Costinha, Castrinho, Chico Anysio, Tom Cavalcante, José Vasconcelos, Chitãozinho e Xororó, Monique Evans, e outras nem tão memoráveis assim, como as aparições do rei Momo Bola, da banda de reggae A Massa, apresentada como primos de Mussum, e dos então populares atores Hugo Gross, Patrícia França, Eri Johnson e Gerson Brenner, entre muitos outros.
A outra meia hora do programa, como temiam Dedé e Mussum antes da extensão dos seus vínculos com a Globo, seria completamente centrada no tipo preferido de Renato, o pobre vagabundo de bom coração, amigo das crianças e inimigo dos ricos e opressores. Mais de vinte anos após sua estreia nos cinemas, Bonga continuava ϐirme e forte, agora acompanhado da órfã Tininha (a atriz Alessandra Aguiar, de 4 anos) e do cachorrinho Pipoca, e estava pronto para usar suas lições de solidariedade para fazer rir, chorar – e matar muita gente de tédio. Sobraram a Dedé e Mussum os papéis secundários de mecânico faz-tudo e mordomo, vestido com uniforme verde e rosa. Era um esquema que só poderia ser considerado moderno ou novo se comparado à fonte de inspiração, o filme O Garoto, de Charles Chaplin, rodado há 71 anos.
No encerramento do programa, mais uma colherada de açúcar, com um bloco dedicado a mostrar as iniciativas de instituições beneϐicentes patrocinadas pelo Criança Esperança. Apesar de durar apenas poucos minutos, esse quadro fez a correspondência dos trapalhões disparar. Em média, chegavam mais de 300 cartas de fãs, pedindo ajuda para realizar os mais variados desejos, indo de tratamentos dentários e pagamento de mensalidades escolares até viagens para os Estados Unidos e presentes, como videocassetes, enxovais de casamento e antenas parabólicas.
Com esse pacote de mudanças, era esperado que "Os Trapalhões",
en ϐim, voltassem a apresentar seus antigos índices de audiência. Mas não foi o que aconteceu. A média de pontos da atração no Ibope oscilou cerca de 20% abaixo do esperado, fazendo com que o "Show de Calouros", do "Programa Silvio Santos", começasse a superar a Globo na faixa das 19 horas de domingo. Mais uma vez, o fantasma da obsolescência rondava o grupo, tanto em virtude da queda na audiência quanto pela própria percepção dos diretores mais influentes da emissora.
Em abril de 1992, estreava com grande sucesso o "Casseta & Planeta, Urgente", programa feito pela nova geração de humoristas com uma proposta de usar as notícias do cotidiano como base para as piadas, seguindo o lema do "jornalismo-mentira e humorismo-verdade". Para sorte dos cassetas, os acontecimentos de Brasília eram absurdos o su ϐiciente para serem confundidos com uma surreal comédia, com capítulos diários. Em maio, Pedro Collor, irmão de Fernandinho, concedeu uma entrevista revelando os detalhes de um engenhoso esquema de corrupção no governo que acabaria, após uma série de revelações vergonhosas, resultando no impeachment do presidente. O material era tão farto para a sátira que o "Casseta & Planeta", exibido uma vez por mês, nas noites de terça-feira, logo ganhou status de febre nacional. Parecia claro que o povo, embora continuasse rindo fácil das piadas bobinhas dos trapalhões e dos alunos da Escolinha do Professor Raimundo, queria algo mais próximo de sua realidade. Havia no ar um desejo de menos escapismo chapliniano e mais esculacho calcado no dia a dia, receita muito bem usada não só pelos cassetas e por Faustão como também pelas séries "Os Simpsons" e "A Família Dinossauro", outros grandes sucessos "modernos" da grade de programação dominical da Globo.
Para piorar a situação dos trapalhões, a desestatização executada por Collor no ano anterior dizimou o cinema brasileiro. Num país falido e sem o apoio das leis de incentivo, era impossível ϐilmar. Até mesmo a poderosa R.A. Produções viu-se obrigada a cancelar o projeto de Uma Escola Atrapalhada II e, pela primeira vez desde sua criação nos anos 1970, ϐicou sem colocar uma ϐita na rua. Para muitas crianças, aquelas seriam as primeiras férias sem um filme dos trapalhões para assistir.
O ano de 1993 chegou sem nenhuma perspectiva para a produção cultural brasileira. Não havia sequer um título nacional em cartaz no país. E só assim os trapalhões perceberam que seus longas não serviam apenas para trazer dinheiro, eles criavam uma relação de proximidade com o público que ajudava a sustentar o programa no ar durante todo o ano e, num ciclo vitorioso, a assiduidade da audiência da TV levava ao sucesso dos ϐilmes que apareciam nas telonas. Pode até ser que a não interrupção da série de lançamentos cinematográ ϐicos fosse insuϐiciente para salvar o Ibope dos trapalhões, mas é certo que a falta de ϐilmes em nada ajudou naquela fase.
Durante os shows nos teatros e circos, agora reforçados pelo novo elenco do programa de TV, isto é, Andr éia Sorvetão, Duda Little, Conrado e Tião Macalé, os trapalhões seguiam esgotando as bilheterias e recebendo o mesmo carinho de sempre. Faltava mesmo era o cinema para multiplicar aquela proximidade e alavancar a audiência.
Preocupada com a situação, a direção da Globo chegou a cogitar uma troca radical na vida de Didi, Dedé e Mussum. Por causa do sucesso internacional de Xuxa, a essa altura cantando seu "Ilariê" com sucesso por vários países da América Latina, a emissora havia decidido dar um tempo no "Xou da Xuxa" para tentar alçar voos mais altos, preparando uma versão internacional da atração, falada em inglês. Aí entrariam "Os Trapalhões", assumindo de vez a vocação de humor infantil, ocupando a programação matinal do plim-plim, em meio a desenhos animados, dançarinas e gincanas com a plateia. Existia até uma solução para o buraco que os trapalhões deixariam nas noites de domingo: esticar uma hora a mais o "Domingão do Faustão" e assim aproveitar os bons índices trazidos pelo show de variedades. Só faltava falar com os trapalhões, mas, antes de uma guinada de ϐinitiva rumo ao público infantil, as alas dos "antigos" e dos "modernos" na Globo teriam mais um embate. Parte da direção preferia efetivar Sérgio Mallandro no horário que seria abandonado por Xuxa. A ϐinal, o rei dos glu-glus e ié-iés havia assumido de forma interina o "Xou da Xuxa" nas férias da apresentadora e alcançava relativo sucesso com seu "Show do Mallandro", exibido na faixa das 8 horas da manhã. Seria, portanto, muito mais fácil apenas esticar o programa infantil do que fazer uma adaptação dos trapalhões para a faixa matutina.
Mas não era hora de fazer nada fácil ou tradicional. O pessoal novo queria inovar e, assim, surgiu o projeto da "TV Colosso". Mais do que uma espécie de Muppets, os personagens teriam a seu dispor um dream team de pro ϐissionais para a criação de personagens e roteiros. Participaram do embrião da atração nomes como Adão Iturrusgarai, Angeli, Fernando Gonsales, Glauco e Laerte. E a coisa ϐicou tão boa que acabou sendo colocada no ar, tirando espaço de Mallandro e, ao mesmo tempo, empurrando "Os Trapalhões" de volta para os domingos. Apesar da mudança frustrada, ficou decidido pela Central Globo de Produções que o humorístico precisaria de grandes mudanças para continuar ocupando o espaço mais nobre da tevê brasileira.
Sem consultar Renato Aragão nem muito menos Dedé e Mussum, a direção global decidiu que, a partir da temporada de 1993, o veterano Wilton Franco e sua equipe seriam substituídos por José Lavigne, diretor do "Casseta & Planeta", e pelo roteirista Carlos Lombardi, das novelas "Bebê a Bordo" e "Perigosas Peruas". Assim, dariam total liberdade para o núcleo de Guel Arraes, um dos principais idealizadores da "TV Pirata", reformar como quisesse "Os Trapalhões". Ainda assim, o tempo do programa seria reduzido, passando a ter 45 minutos em vez de uma hora. Primeiro por meio de boatos, e depois com a con ϐirmação, Renato, Dedé e Mussum viveram uma fase de enorme ansiedade. Se até Didi Mocó, o personagem, estava ameaçado de morte, o que pensar então de seus coadjuvantes? Dedé e Mussum voltavam juntos do Teatro Fênix, imaginando o pior. Temiam ser colocados de lado, demitidos ou, pior ainda, serem colocados na temível geladeira.
Quando o ϐinal do agitado 1992 chegou, os três trapalhões saíram de férias sabendo oϐicialmente que no seu retorno para a próxima temporada teriam chefes novos. Novos mesmo. Em idade, em ideias, em tempo de Globo, em tempo de palco e em tempo de humor. Renato foi com o então solteirão Dedé para o litoral do Ceará e Mussum viajou para Angra. Tentaram aproveitar o sossego trazido pela areia e pelo mar, mas eram interrompidos constantemente por jornalistas pedindo a con ϐirmação sobre o ϐim do programa. O volume dos boatos aumentava por causa do sucesso obtido pelo "Domingão do Faustão" como substituto temporário dos palhaços. Enquanto a média de audiência de "Os Trapalhões" nos domingos era de 20 pontos no Ibope, o apresentador desbocado conseguia ultrapassar facilmente os 35 pontos. Foi preciso, então, fazer um esforço de relações-públicas e adiantar à imprensa como seriam as mudanças no programa – antes mesmo que elas fossem devidamente gestadas pela nova equipe e aprovadas pelos três trapalhões.
Esse remendo saiu-se pior do que os estragos feitos pelos rumores das colunas de fofoca. Em entrevistas que deveriam servir para mostrar que "Os Trapalhões" seguiam ϐirmes e fortes, José Lavigne, o novo diretor, avisou suas intenções de separar Didi dos outros integrantes. Renato Aragão interpretaria dois personagens, nos primeiros blocos do programa, um milionário malvado chamado Faustino e seu irmão pobre, Severo Severino, que chegaria ao Rio para ser tutor de três crianças, Tati, Duda e Tininha. A história seria baseada em "Muito além do jardim", uma comédia dramática ou um drama cômico, dependendo do ponto de vista, mas ainda assim um bom ϐilme, inteligente e soϐisticado. Muito mais moderno do que qualquer coisa de Chaplin.
Os planos para Dedé e Mussum, porém, não eram muito claros. Lavigne pretendia repetir a fórmula da "TV Pirata" na segunda metade do novo programa dos trapalhões. Isso quer dizer que, no lugar de humoristas, a preferência seria por atores. Também queria dizer nas entrelinhas que artistas capazes de fazer um só tipo, e ainda assim sem decorar os textos, como Tião Macalé, Dedé e Mussum, teriam que rebolar muito para se adaptar às reformas. Ouvindo a versão de Renato sobre a história, os jornais publicaram todo o incômodo do trapalhão líder com os novos rumos que o programa estava tomando. Sem fazer uma oposição deϐinitiva, ele dizia que poderia fazer outro personagem e abandonar Didi se fosse preciso, mas não gostava da ideia. Atuar sem os dois companheiros do lado? "Eu me sentiria sem as pernas e os braços." Em outras palavras, estava aberta a fase de conflito com a direção.42
Na volta das férias, quando ϐinalmente Renato reuniu-se com a direção do programa, colocou-se à disposição para ajudar como quer que fosse possível na reestruturação dos quadros, mas, sob nenhuma hipótese, deixaria de gravar com Dedé e Mussum. Também reprovou os textos que viu e não gostou da história de interpretar um vilão, mesmo que fosse em poucas cenas. Não seria tão fácil assim mudar a estrutura de "Os Trapalhões", mas mantê-la como estava não era uma opção. Foi preciso muita negociação e barganha, de lado a lado, para encontrar uma solução intermediária entre as exigências de Renato e as ideias malucas vindas dos cassetas e dos piratas. Durante esse braço de ferro, Dedé andava nervoso e magoado – nem a sua recente conversão à igreja Assembleia de Deus conseguia diminuir a angústia. Só era informado sobre as novidades por meio da imprensa e, junto com Mussum, não tinha conhecimento, em pleno mês de março, de qual seria o seu destino em
1993. A ansiedade foi tanta que, numa noite de sábado, o niteroiense sentiu fortes dores no peito e foi levado às pressas para a Clínica Renault Lambert, a poucos quilômetros de sua casa, em Jacarepaguá.
Os médicos suspeitaram de um começo de infarto por causa dos altos níveis de colesterol no sangue e colocaram Dedé em observação na Central de Tratamento Intensivo. Como os remédios não faziam efeito, novos exames foram realizados e apareceu a suspeita de um câncer no pulmão. Felizmente, o problema não era tão grave assim. O incômodo todo era causado por uma in ϐlamação na pleura, a membrana que reveste os pulmões, e, depois de quatro dias de internação, Dedé foi liberado para continuar seu tratamento em casa. Seus familiares, no entanto, não pouparam críticas à situação do humorista na Globo. Em todas as declarações, faziam questão de ressaltar que Dedé andava desgostoso com a inde ϐinição em relação ao seu trabalho. Mussum, por sua vez, mostrava frieza ao falar sobre o assunto. Quando perguntado sobre a possibilidade de atuar separado de Renato Aragão, respondeu:
— Não tenho o menor interesse em criticar uma coisa da qual não faço parte. É menos trabalho para mim e o meu salário continua o mesmo. Mas não espalha, senão chama a atenção dos 43 homis!
Nos bastidores, a preocupação real de Renato e Mussum era a possibilidade de perder mais um amigo próximo e ϐizeram, cada um ao seu estilo, homenagens inesquecíveis a Dedé. Renato alugou um ônibus e levou todo o elenco de "Os Trapalhões" para visitar o colega, levando ϐlores, abraços e palavras de carinho para tentar colocar um sorriso no rosto do "rapaz alegre". Mussum, por sua vez, reservou sua demonstração de afeto para o retorno do amigo às gravações, no ϐinal do mesmo mês. Assim que entrou nos estúdios, todos os colegas chamavam Dedé de PC. "Oi, PC!", "Bem-vindo de volta, PC!", "Vamos testar o ϐigurino, PC?". Sem entender nada, o trapalhão ria para não passar o recibo e mostrar que estava irritado com aquilo, mas, chegou uma hora em que não aguentando mais levou Mussum para um canto e perguntou nervoso qual era o signiϐicado daquilo. Sem conseguir segurar sua gargalhada, o sacana mangueirense explicou:
— É seu novo apelido, cumpadi! Você é o nosso Pé na Cova!
Nesse retorno ao trabalho, Dedé encontrou entre suas tarefas uma mescla das ideias da nova equipe e das exigências de Renato Aragão. A nova fase de "Os Trapalhões" de fato teria um bloco com o cearense interpretando um novo personagem, sem ter os companheiros do lado. O voo solo, no entanto, foi reduzido e completamente modificado em relação às primeiras propostas de José Lavigne e Carlos Lombardi. Chamado de "Nos Cafundós do Brejo", o segmento em forma de novelinha teria apenas 12 minutos de duração. Os esquetes com os três trapalhões juntos continuariam a formar a base para o programa, com as participações de velhos conhecidos como Dino Santana, Ted Boy Marino, Roberto Guilherme, Andréia Sorvetão, Conrado e Baiaco, mas a forma de produção dos quadros mudaria bastante. Sem auditório ou claque, trocando o Teatro Fênix pelos estúdios da R.A. Produções, os trapalhões iriam interagir com uma equipe de maquiadores, figurinistas, técnicos em efeitos especiais e receber textos de um time de 13 redatores.
A maior aposta da equipe repousava sobre o personagem Zé do Brejo, de Renato. Tratava-se de um camponês nordestino dono de um pequeno terreno ao lado do latifúndio de Nanico Durão (Cláudio Mamberti). Enquanto o lote do coronel vivia sofrendo com a seca, as terras de Zé tinham plantações incríveis, com pés de batata frita e árvores produzindo hambúrgueres, cachorros-quentes e pizzas. O vilão criava armadilhas para enganar seu antagonista com a ajuda de Pelúcio (Roberto Bomtempo), um capanga que, por ser casado com uma vaca, tinha chifres na testa e dois ϐilhos com a pele malhada. Faziam parte do elenco ainda a ex-paquita Letícia Spiller, fazendo a filha de Durão, e o ator Chico Dias, no papel de porco de estimação.
Dedé e Mussum não faziam parte do quadro. Em compensação, nos esquetes e demais quadros, receberiam uma atenção rara em suas carreiras. Com roteiristas que foram criados assistindo "Os Trapalhões" aos domingos, Mussum virou uma espécie de xodó do time de texto. Para ele foi criado especialmente o quadro "Duvide-o-dó Show", uma sátira do programa vespertino de Miguel Falabella com o mangueirense fantasiado com camisas espalhafatosas e uma infame franja loira, as marcas registradas do apresentador. Havia também os quadros avulsos, com piadas variadas, mas a direção de José Lavigne estabeleceu um ritmo diferente para esse segmento. Embora fossem cenas de, no máximo, cinco minutos, havia uma grande preocupação com o acabamento de cenários, maquiagens e figurinos.
Se antes um dia de gravação terminava com 10 esquetes prontos, na nova fase o trio de trapalhões não conseguia terminar um dia de gravação com mais do que quatro quadros encaminhados. Isso porque depois da encenação ainda havia a ϐinalização da produção, com a aplicação de efeitos de cenário por meio da técnica de chroma key. Além dessas piadas, com começo, meio e ϐim, havia os clipes musicais e pequenas vinhetas de poucos segundos. Elas serviam de desculpa para que Didi surgisse de repente na tela, às vezes girando ou de cabeça para baixo, apenas para falar bordões, como "Sabe Tudo!", "É fria", "Rapaz Alegre" e "Ele camufla".
Tantas alterações no formato e na equipe ϐizeram com que o clima das gravações mudasse completamente. No lugar da criançada que ria de qualquer coisa que Didi, Dedé e Mussum ϐizessem ou falassem em cima do palco do Teatro Fênix, o trio encarava o silêncio e a frieza de uma equipe proϐissional dentro de um estúdio. Além disso, estranhavam a necessidade de atuar em cenários incompletos, apenas com o fundo verde necessário para a aplicação dos efeitos especiais. A preparação para os quadros também incomodava. Se antes bastava vestir a jaqueta branca e a camiseta com o símbolo do grupo, espécie de farda dos Trapalhões, agora era preciso passar horas encaixando próteses no corpo e no rosto na sala de maquiagem, testando ϐigurinos e fazendo testes de luz. O resultado ϐicava ótimo, fruto do competente trabalho da ϐigurinista Yurika Yamasaki, mas era uma canseira danada para três veteranos com mais de 50 anos de idade. Só em 25 de abril, data da estreia, seria possível descobrir se todo aquele esforço teria valido a pena.
Após farpas trocadas pela imprensa, quadros cancelados, uma suspeita de infarto e semanas de atraso para estrear, "Os Trapalhões" voltavam aos domingos da Globo. O programa seria exibido após o longo "O Domingão do Faustão", que começava às 14h50 e ia até as 19h. A partir daí os palhaços de cara limpa mostrariam seus novos truques, abrindo espaço para "A Família Dinossauro" e depois para o "Fantástico". Já na abertura do programa, era possível ver as novas referências da trupe. Os três trapalhões apareciam como coloridas marionetes e, no final da cena, com a câmera aberta, Didi, Dedé e Mussum mostravam-se, de roupas normais, controlando os ϐios de suas versões de brinquedo dentro da televisão. Um efeito desenvolvido pelo departamento de Video Graphics da Globo e supervisionado por Hans Donner.
Após um mês, no entanto, a atração ainda não havia decolado nas medições do Ibope. Comparada com as novas temporadas dos outros humorísticos da Globo, o novo programa dos trapalhões tinha o crescimento mais tímido. A "Terça Nobre", faixa de programação que intercalava o "Casseta & Planeta, Urgente" e o "Programa Legal", havia estreado em abril com uma audiência média 18% maior, marcando até
40 pontos, e Chico Anysio, com a "Escolinha do Professor Raimundo", marcava 48 pontos aos sábados, subindo 33% em relação aos índices de antes da reestreia. Enquanto isso, "Os Trapalhões" ganharam apenas 6%, chegando a 36 pontos – o su ϐiciente para brigar pela liderança contra o "Topa Tudo por Dinheiro", do SBT, mas muito pouco para o horário mais nobre da tevê brasileira. José Lavigne fez um pacto com Boni e foi decidido que o crescimento da audiência não deveria ser o primeiro objetivo do programa naquele momento. O público precisaria de tempo para absorver as mudanças, e a numerosa equipe de produção ainda precisava experimentar mais, acertando e errando, para chegar a um ponto ideal.
Na verdade, o que precisava ser feito era aϐinar a torrente de ideias novas dos roteiristas e manter o padrão "para toda a família" construído ao longo das décadas, sem se arriscar com piadas e referências que as crianças não entendessem. Muitos textos dedicados a explorar a história de amor entre Mussum e o mé foram suavizados demais ou mesmo arquivados. Enquanto o trabalho no "Casseta & Planeta, Urgente" surgia livre, como se feito sobre uma tela em branco, em "Os Trapalhões", a missão se assemelhava mais à restauração de uma pintura antiga. Qualquer traço mais ousado podia descaracterizar uma fórmula consagrada.
Assim, no segundo semestre de 1993 foram feitas novas experiências, com a estreia das séries "Trapacademia de Polícia" e "Trapalhadas nas Estrelas", uma sátira de Star Trek com cenário e ϐigurinos especiais seguindo a ϐilosoϐia de "fazer cinema na TV". Na sala de comando da nave, o capitão Didi interagia com tripulantes boazudas e distribuía ordens para Mr. Sploft, personagem em que Dedé imitava Mr. Spock com direito a sobrancelhas e orelhas pontudas, e para a Tenente Uhurosa, a barulhenta versão de Mussum para a personagem Uhura, vivida por Nichelle Nichols na versão original. Uhurosa era uma espécie de telefonista, tinha um cabelo com coques e franjas exagerados, vestia saia curta e fazia fofocas sobre o forévis das marcianas – quando aparecia, roubava a cena. Além disso, foi testada algumas vezes uma paródia de ϐilmes de terror chamada "Mansão dos Horrores" e a "M trapa TV", uma nova roupagem para as velhas paródias musicais, com um toquezinho moderno – para o clipe de "Mulher Pequena", de Roberto Carlos, Didi contracenou com uma jogadora da seleção brasileira de basquete. Nenhuma das novidades rendeu o esperado. Em 26 de dezembro de 1993, o último episódio da versão remodelada dos trapalhões, o programa de número 804, ia ao ar cercado de tantas incertezas quando a estreia. Pela primeira vez em quase 18 anos, Didi, Dedé e Mussum estavam realmente ameaçados de sair do ar.
41. Notícias Populares, 31/07/1991.
42. O Globo, 24/01/1993.
43. O Globo, 18/04/1993.