Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões

Juliano Barreto · Capítulo 25 de 29

Páginas do PDF

Mussum Forévis: samba, mé e trapalhões

Capítulo 23

 

TESTAMENTO DE PARTIDEIRO (1994)

 

"É assim mesmis. A gente vem para a Terra para viver, crescer e depois se empirulitar"

 

Não era segredo dentro nem fora da Globo: a experiência de colocar o

diretor do "Casseta & Planeta, Urgente" como salvador de "Os Trapalhões" não havia dado certo. O próprio José Lavigne reconheceu ter errado mais do que acertado e expôs seu descontentamento de forma direta em uma reportagem de O Globo sobre a frustração sentida após o término da temporada do humorístico, dizendo que "nem na hora de gravar a gente achava as piadas engraçadas". Segundo ele, a produção dos roteiros tinha textos muito irregulares, feitos por muita gente iniciante e desentrosada. Para corrigir esse problema, Lavigne anunciava que Mauro Wilson, veterano roteirista de diversas temporadas e ϐilmes de "Os Trapalhões", passaria a fazer a costura ϐinal dos quadros e, assim, dar mais unidade e qualidade ao programa. 44 O que faltava era combinar essa mudança com suas estrelas.

De forma unilateral, Renato fez uma reunião com a direção da Globo e pediu férias de um ano. Queria descansar e repensar sua carreira independentemente do que fosse ser feito em 1994 e chegou até a dizer que Dedé e Mussum, se assim quisessem, poderiam tocar o programa sozinhos. Cansado pelos anos de correria, avaliava um desgaste da fórmula, da audiência e da relação com a produção. Preferia um período sabático, para recuperar as energias e dedicar-se ao cargo de embaixador da Unicef, a continuar remando sem direção. Boni aceitou o pedido do líder dos trapalhões e até gostou da alternativa, porém, desta mesma conversa surgiu a ideia de usar reprises com os melhores momentos do programa antigo para cobrir a faixa do ϐinal de tarde dos dias da semana, ocupada até então sem sucesso algum pelo game show "Jogo da Radical", com apresentação de Maria Paula e participações de Andréa Beltrão e Ewerton de Castro encarnando os personagens das tirinhas da Radical Chic, de Miguel Paiva.

Informados da decisão de Renato, Dedé e Mussum não ϐizeram qualquer oposição. Sentiam-se decepcionados com a última temporada de "Os Trapalhões", sem poupar críticas abertas às escolhas feitas pela direção. "Topamos a ideia de reformular, mas não foi bom, não se ajustou. Foi uma metamorfose grande, uma so ϐisticação que acabou afastando o público", avaliou Mussum em entrevista ao 45 Jornal do Brasil. "Estávamos como bola em focinho de foca." As propostas do SBT, claro, chegaram mais uma vez, mas a ideia de dar um tempo foi mais atraente. Na Globo, o contrato do trio seria encerrado apenas no ϐinal de 1995 e, até lá, continuariam a receber seus bons salários enquanto reavaliavam seu vínculo com a emissora. Até lá, as reprises seriam a saída ideal para não ϐicar fora do ar e sentir se o público ainda nutria algum interesse por cambalhotas e arremessos de tortas nos shows de humor. Mais que isso, o intervalo representava uma folga de verdade pela primeira vez em décadas. Nos outros anos, as pausas nas gravações entre uma temporada e outra acabavam ocupadas pelas ϐilmagens para o cinema, gravações de discos e viagens de turnês dos shows. Em 1994, impedidos de ϐilmar por causa do coma do cinema nacional e com a agenda de apresentações praticamente trancada, poderiam, de fato, descansar e cuidar de projetos pessoais.

No caso de Renato, isso signiϐicava dizer reforçar a marca dos Trapalhões fora do Brasil por meio do relançamento dos ϐilmes em VHS e até a construção de um parque temático. Já tinha deϐinido o local na Barra da Tijuca e até algumas maquetes e esboços. Enquanto isso, Dedé estava imerso em uma jornada que nada tinha a ver com dinheiro. Seu maior interesse era espalhar a palavra de Jesus Cristo e mostrar como a fé o ajudou a superar suas diϐiculdades. Estava prestes a se casar novamente, planejava viajar pelas igrejas de todo o Brasil contando seu testemunho e até tinha criado um novo nome artístico, Dedé de Deus.

Mussum, por sua vez, não queria saber de empreender nem muito menos de igreja, seu plano consistia em mudar-se para sua casa em Angra dos Reis durante todo o verão, passear de lancha e s ó sair da praia para participar dos eventos obrigatórios da Estação Primeira ou para visitar seus velhos cumpadis em rodas de samba pelos subúrbios cariocas. Nessa fase dos anos 1990, uma das maiores diversões de Mussum como sambista era reunir-se na Rua Padre Manoel da Nóbrega, no bairro de Piedade, na frente da casa do sambista Roberto Serrão. Por ali, todo sábado rolava um pagode à moda antiga, com gente cantando partido alto na rua, sentada no chão ou em cadeirinhas de lata, enquanto degustava o mocotó servido no bar do Seu Avelino. Da brincadeira surgiu um conjunto informal, chamado Mocotó do Padre, que tinha em Mussum seu principal padrinho e também um integrante em potencial. Do jeito que a coisa ia, não demoraria muito para sair dali mais um disco recheado com pagodes candidatos a hits. O que ninguém esperava é que, logo depois do primeiro mês de férias, os trapalhões restabelecessem sua moral na Globo.

Logo de cara, ainda em dezembro, as reprises ϐizeram uma média de

26 pontos no Ibope – contra os 15 pontos do "Jogo da Radical" nos meses anteriores. A seleção de quadros, feita por Dedé e Maurício Sherman, pinçou pérolas dos anos 1970 e 1980 até então inéditas para toda uma geração de espectadores e, de quebra, despertou uma nostalgia absurda nos adultos que viram aqueles esquetes quando eram crianças, apenas uma vez, e guardavam apenas na memória as trapalhadas da Suate, as imitações de Didi ao lado de Ney Matogrosso, Zacarias tomando a ϐlechada como ϐilho de Guilherme Tell e todas as beiçadas de Mussum pelos botecos. E como não poderia deixar de ser, nas férias, com a criançada ociosa pelo Brasil, as reprises ganharam ainda mais audiência e chegaram a incríveis picos de 41 pontos, na chocha faixa das 17 horas.

No ϐinal de janeiro, além da conquista de uma média superior aos 32 pontos, "Os Trapalhões" saíam de cena com um sentimento de redenção. Seu humor não era velho. Ninguém havia parado de achar graça em Didi, Dedé, Mussum e Zacarias. A responsável por sufocar a atração foi a própria pressa da Globo em inovar. Os palhaços podiam tirar férias tranquilos. Em setembro já teriam uma conversa marcada com a direção da emissora para planejar o retorno do programa dominical, com grandes chances de serem ouvidos e colocados no comando da atração. Um final feliz que duraria apenas até maio.

Durante as férias do programa, dois segredos até então bem guardados por Mussum emergiriam de forma irreversível. O primeiro deles era uma paraibana loira, de 27 anos, trazendo no colo um garotinho de dez meses chamado Antônio Carlos Júnior. O outro era a condição de saúde frágil do comediante para suportar a pressão causada pela revelação pública de ter um ϐilho fruto de um caso extraconjugal. Ver sua vida pessoal, tão bem protegida ao longo dos anos, ser transformada em manchete nos jornais e revistas foi um duríssimo golpe. Sempre discreto em suas idas e vindas pela noite, a aparição de Maria Santana de Moura não surpreendeu apenas Neila, a esposa, e seus quatro ϐilhos. Até os amigos mais próximos foram pegos de surpresa e não sabiam como reagir ao problema. O sambista mantinha a fama de boêmio preservada desde os tempos de Buraco Quente, mas seu descuido, aos 52 anos de idade, não combinava com toda a experiência obtida em anos de turnês, farras e garçonnières. Ainda mais porque, meses antes, Mussum recebia a notícia de que iria ser avô pela primeira vez, pois Paula Aparecida esperava uma menininha. Apelando para os conselhos de Elza Soares, uma sobrevivente das especulações e julgamentos da opinião pública, Mussum decidiu que não se esconderia mais do problema. Pediria um teste de DNA e, em caso de confirmação da paternidade, entraria na Justiça para obter a guarda da criança. Se Augusto, Paula, Antônio Carlos e Alexandro conviviam em harmonia tendo mães diferentes, com o pequeno Antônio Carlos Júnior, o futuro Mussumzinho, o tratamento não seria diferente.

Em 23 de maio, após exame realizado na Clínica de Genealogia e Diagnósticos Moleculares, ϐicou comprovado que Mussum era pai do garoto e, por meio de nota oϐicial entregue à imprensa, o comediante falou sério, a ϐirmando que daria apoio moral e ϐinanceiro para a criança dali em diante, registrando seu nome como pai e provendo tudo o que fosse necessário. Antes de completar seu primeiro aninho, o bebê ganhava nome e sobrenome: Antônio Carlos de Santana Bernardes Gomes Júnior. Mas a história não se encerraria aí. Sem um acordo entre os advogados das partes sobre o valor da pensão alimentícia a ser paga, Maria decidiu ir à Justiça. Menos de um mês depois de assumir seu novo ϐilho, em 6 de junho, Mussum precisava expor a si mesmo e à sua família em frente aos fotógrafos – e ao julgamento dos fãs do Brasil todo – na 16ª Vara da Família do Rio de Janeiro.

A ex-namorada pedia uma pensão no valor de oito salários mínimos, pois seu ϐilho tinha "graves problemas de saúde ainda não diagnosticados de ϐinitivamente" e reclamava ter sofrido danos materiais e morais por ter sido destratada publicamente por Mussum e ainda ser impedida de exercer suas funções de relações-públicas. O pedido, considerando apenas a pensão, custaria ao humorista o equivalente a

560 reais, 518 URVs (Unidades Reais de Valor) ou 342 mil cruzeiros, aϐinal, o Brasil estava mudando a moeda novamente. Qualquer que fosse a cotação, Mussum não passaria da proposta de pagar no máximo 4 salários e cobrir as despesas médicas que viessem a ser necessárias. O

advogado do humorista, Álvaro Martinho Paes da Silva, justiϐicou a contraproposta dizendo que Maria havia feito um pedido alto demais e que a intenção de seu cliente era ganhar o direito de guarda da criança. No ϐinal da tentativa de acordo judicial, as partes saíram sem solução do tribunal e ϐicou decidido que uma nova audiência aconteceria ainda em

1994. Mal sabia o juiz que o réu teria uma luta muito mais diϐícil a ser combatida nos próximos dias.

Abalado pela sua situação delicada como marido, pai e ϐigura pública, Mussum passou dias de tristeza e revolta, mas não de isolamento. Prevendo os gastos elevados com as custas da batalha judicial que estava começando, lançou-se a procurar oportunidades de ganhar algum dinheiro extra. Nessa cruzada, acabou ironicamente assinando um de seus últimos contratos como garoto-propaganda para endossar um produto que não poderia mais provar na vida real: a cachaça Sapupara. Para os ϐilmes da aguardente cearense, o humorista aparecia em seu habitat natural, os botecos, e fazia piada com o temerário slogan da marca: "Quem bebe Sapupara não pede tira-gosto". Nos comerciais, exibidos em meados de 1994, era impossível não notar as diferenças no corpo e no semblante de Mussum. Visivelmente mais magro, suas roupas folgadas e coloridas não conseguiam disfarçar o olhar cansado e certa fragilidade nos gestos. Quem se lembrava da última aparição do trapalhão na TV tomaria um susto. Até porque o motivo da severa perda de peso era mais um segredo bem guardado.

Pouco menos de um ano antes, em agosto, no meio de todo o estresse e do cansaço causados pelas gravações da nova fase de "Os Trapalhões", Mussum passou a sentir-se exausto, e mesmo após relaxar entre os amigos tomando sua cachacinha, sentia diϐiculdades para dormir e para respirar. Passou a maneirar na alimentação e no mé, mas nem isso fez a sensação ruim, como um aperto contínuo no peito, ir embora. Preocupado com a duração do mal-estar, teve certeza de que estava sofrendo de estafa. Se Renato e Dedé já tinham ido parar no hospital por causa do excesso de nervosismo no trabalho, por que com ele seria diferente? Mussum decidiu, então, ir ao Hospital São Vicente de Paula consultar-se com um médico de con ϐiança. Após uma longa conversa e uma bateria de exames, foi descoberto que o comediante, aos 52 anos, tinha problemas mais graves do que uma simples fadiga. Bem acima do peso, tinha níveis elevados de colesterol e um coração batendo fora do ritmo.

Se não começasse a se cuidar, poderia ver esse quadro agravado e correr riscos de sofrer infartos e derrames, assim como ocorrera com sua mãe anos antes. E nessa situação surgiu mais um capricho do acaso. Doente como jamais esteve, Mussum receberia a proposta para ser garoto-propaganda do convênio médico Assim, da rede Assistência Médica Integrada. Enquanto lutava para recuperar sua saúde, apareceria nos jornais e revistas por meio de anúncios em que aparecia sorrindo ao lado do slogan: "Meu Plano de Saúde é Assim".

Após a bronca dos médicos, Mussum passou então a seguir uma dieta light, o que signi ϐicava deixar de lado cervejas, chopes, cachaças, conhaques, uísques, bourbons, vinhos e qualquer outra bebida alcóolica. Pratos moderados de salada, legumes, arroz branco e frango grelhado tomariam o lugar de seu Filé à Mumu e do cardápio de suas reuniões com amigos abastecidas por camarões na moranga, churrascos, feijoadas, rabadas, buchadas, angus à baiana, cassoulets, mocotós e outros quitutes de alto valor calórico. Embora necessária, seria uma mudança e tanto para um artista famoso, acostumado a viver as delícias da mesa com orgulho de dizer que era quem mais bebia e mais comia sem nunca dar vexame. Antônio Carlos Bernardes Gomes precisou sofrer um bocado e só um resgate da disciplina dos tempos de militar pode explicar sua força de vontade nessa recuperação.

A melhora resultante da dieta, porém, não apareceu. Pelo contrário, o quadro só piorava com a fase conturbada na vida familiar e Mussum precisou fazer furos a mais nos cintos. Suas camisas e calças ϐicavam largas demais. Sentia vontade de sair, trabalhar, aproveitar o mar de Angra dos Reis, mas não encontrava forças. Situação que se arrastava até a tarde de 29 de agosto de 1994. Fraco e com tonturas, Mussum decidiu que iria ao hospital assim que seu ϐilho mais velho, Augusto, chegasse à casa e vestiu-se de forma confortável, separando um pijama e sua nécessaire para levar, pois achava que existiam grandes possibilidades de ser internado. No começo da noite, com a chegada do ϐilho, não havia mais condições de esperar nem de levantar-se da cama. Desceu as escadas da sua casa em Jacarepaguá carregado por Augusto. Quando chegou à Clínica Pró-Cardíaco, em Botafogo, os médicos diagnosticaram um quadro de insu ϐiciência cardíaca. Após a chegada dos resultados dos primeiros exames, foi descoberto que o coração de Mussum estava quatro vezes maior do que deveria e funcionava com metade da capacidade de bombear sangue.

Após mais uma rodada de exames, foi constado que se tratava de uma miocardiopatia dilatada em estágio avançado, com deformação da parede muscular e do ventrículo esquerdo. Diϐícil de ser diagnosticada com antecedência, a doença foi avançando ao longo dos anos, roubando a capacidade de trabalho do coração de Mussum aos poucos, manifestando-se apenas por meio de sintomas genéricos, como retenção de líquido, inchaço nos membros inferiores e diϐiculdade de urinar. Se não foi possível saber quando o problema começou, também não é seguro de ϐinir com exatidão qual foi a sua origem. O consumo prolongado de álcool produz radicais livres no sangue cujos efeitos danosos aos vasos sanguíneos e músculos cardíacos podem causar dilatação, mas a miocardiopatia pode igualmente ser causada por infecções bacterianas, virais ou parasitárias, por quadros de obesidade, taquicardia ou mesmo ser hereditária, algo que ocorre em 40% dos casos. Isso sem falar da soma de uma ou mais predisposições sendo atacadas por fatores externos.

O fato era que Mussum não tinha condições de fazer um tratamento a longo ou médio prazo. Seu corpo não aguentaria funcionar muito tempo com um coração próximo da falência e os médicos da Clínica PróCardíaco solicitaram uma transferência emergencial para a UTI da Beneϐicência Portuguesa, em São Paulo, com pedido de prioridade alta na Central de Transplantes da Secretaria Estadual de Saúde. Repetindo de forma trágica a história do homem-tonel de Os Trapalhões e o Mágico de Oróz, Mussum precisava de um coração, com a diferença de que desta vez não seria possível escapar com nenhuma solução mágica. Ao chegar já entubado à capital paulista, sua situação assustou a equipe médica. "Ele não pode esperar", resumiu Dante Serra, responsável pela unidade de terapia intensiva da Beneficência Portuguesa.

Se o quadro clínico de Mussum ocorresse alguns anos mais tarde, possivelmente seu diagnóstico teria sido feito mais cedo e o problema poderia ser tratado com uma combinação de remédios especíϐicos para combater de forma seletiva a origem da in ϐlamação, diuréticos e medicamentos cardiotônicos, com substâncias para aumentar a força do coração. Mesmo que o caso fosse descoberto com demora, ainda assim seria possível apelar para um coração mecânico e melhorar a condição de Mussum enquanto ele esperava por um transplante. Em 1994, porém, nem mesmo os hospitais brasileiros mais bem preparados podiam fazer qualquer coisa. A situação de emergência do trapalhão transformou-se em uma corrida contra o tempo, com direito a um país inteiro como plateia, acompanhando aϐlito os boletins diários que divulgavam a situação perigosa do comediante.

Naquela altura de julho, havia uma ϐila de espera com 150 pacientes esperando por um órgão compatível em São Paulo. O número elevado devia-se tanto ao despreparo dos hospitais brasileiros para manter e transportar os corações doados quanto a um grande preconceito do público em relação à prática da doação. A demora era ilustrada por uma funesta estatística: a cada quatro pacientes na ϐila, apenas um conseguia esperar vivo até o dia da operação. Por sorte, o tipo sanguíneo de Mussum era AB, o chamado receptor universal, e isso, junto com sua condição crítica, o ajudou a ir para uma posição melhor na ϐila. Ainda teriam mais dois pacientes em condições mais urgentes que a sua naquela semana, mas o primeiro acabou falecendo e o segundo teve uma infecção grave, que o impediu de fazer o transplante. Exigente e desgastante, a cirurgia só é feita em pacientes com uma condição minimamente estável. O caso do comediante era questionável, pois seu pulmão tinha acúmulo de sangue e seu sistema imunológico estava bastante fraco. A inesperada fraqueza no sistema respiratório estava, sem o conhecimento dos médicos, relacionada a uma sequela da tuberculose que acometeu o sambista ainda no começo dos anos 1970. Mas, além do transplante, não havia nenhuma outra alternativa para sua sobrevivência. Assim, foi dada a notícia de que Mussum estava à beira da morte, necessitando de uma doação com urgência para salvar-se. O Brasil todo continuou sensibilizado, torcendo para que a história tivesse um final feliz.

A repercussão foi tão grande que um doador apareceu na mesma semana, mas o ato de Gilmar Alves foi feito de um jeito trágico e inútil. O vigia de 36 anos cometeu suicídio em seu local de trabalho, a guarita de uma fábrica no bairro da Vila Leopoldina, em São Paulo, e deixou uma carta com o pedido de que seu coração fosse doado para o trapalhão. Embora tenha sensibilizado muita gente, a morte de Gilmar não conservou seu coração batendo e de nada serviu.46 Parecia que todo mundo estava desesperado para resolver o problema de Mussum, menos ele. Enquanto vivia a expectativa de realizar o transplante, ligou para o publicitário Paulo de Tarso, da agência Free Propaganda, e pediu para que eles continuassem a veicular os anúncios da campanha do plano de saúde Assim. O comediante disse ter absoluta certeza de que escaparia daquele problema. Para o público que acompanhava o noticiário sobre a saúde de Mussum restava o estranhamento. Nas mesmas páginas em que as reportagens falavam do delicado estado de saúde do mangueirense, ele aparecia no anúncio da rede Assim, dando um largo sorriso, como quem esbanja saúde.

Era um otimismo injusti ϐicado. A cada dia que passava, seu corpo sofria mais com a fraqueza do coração. As visitas de amigos e familiares foram suspensas e apenas Neila, a esposa, podia ver Mussum em seu leito na UTI. Amigos mais próximos ϐicavam desesperados com o afastamento e não tinham alento nos boletins médicos divulgados pela imprensa. O quadro clínico seguia estável, sem muitos detalhes informados, mas todas as entrevistas da equipe médica alertavam sobre os riscos da espera. Uma agonia diária que fez a professora Maria Nazaré Miranda, ao ver as últimas notícias sobre o caso no Jornal Nacional, perguntar para os seus ϐilhos de onde viria a alma caridosa que doaria um coração para Mussum. Mal sabia ela que Darlinton Fonseca de Miranda, o mais novo dos seus seis ϐilhos, acabara de sofrer um acidente de moto, ali mesmo na cidade de Gurupi, distante 223 km de Palmas, batendo a cabeça na guia. O estudante de 23 anos, que andava sem capacete no momento da queda, foi levado para a capital do Tocantins em estado de morte cerebral. Quando soube que o quadro de Darlinton era irreversível, sua família autorizou a doação das córneas, ϐígado, coração e rins do rapaz. Dona Maria Nazaré lembrou que o ϐilho havia manifestado seu desejo de ser doador de órgãos caso sofresse um acidente. Lembrouse também que ele era um grande fã de "Os Trapalhões".

Para surpresa da mãe de Darlinton e da equipe médica de São Paulo, que recebeu a oferta da doação por telefone, o rapaz reunia todos os requisitos desejados para doar seu coração para Mussum. Rapidamente os cardiologistas da Beneϐicência Portuguesa viajaram para Palmas e transportaram o corpo do estudante ainda com vida para a capital paulista. O procedimento mais comum seria remover os órgãos do doador e trazê-los imediatamente ao transplantado, mas os médicos não quiseram se dar o luxo de arriscar. Em 13 de julho de 1994, às 13h30, o corpo do doador chegou a São Paulo. Às 19h00 começou o trabalho da equipe do renomado cirurgião cardíaco Sérgio Almeida de Oliveira, colega por 15 anos do pioneiro Euryclides Zerbini, autor do primeiro transplante cardíaco no Brasil. Às 23h20, batia no peito de Mussum um novo coração. A partir dali, o paciente poderia se preocupar com a rejeição do órgão e tomar cuidado com uma infecção hospitalar, mas o pior já havia passado. Controlando a adaptação do novo órgão com a ajuda de três medicamentos para a diminuição da imunidade de seu organismo, a expectativa era de uma alta em 15 dias e do sinal verde para voltar a trabalhar em dois meses.

A notícia do sucesso do transplante causou euforia entre a equipe médica, familiares, amigos e fãs, repercutindo até por meio de uma oportunista campanha da Prefeitura de Palmas que usou anúncios em jornais e revistas para dizer que "O Coração do Mussum é do Coração do Brasil". O sucesso da operação signiϐicou ainda uma enxurrada de telegramas com palavras de apoio de amigos, políticos e artistas. Eram mensagens vindas do presidente da república em exercício, Itamar Franco, dos governadores Nilo Batista e Ciro Gomes, de deputados como Amaral Netto, Luiz Antônio de Medeiros e Benedita da Silva, e de muitos artistas e atletas que conviveram com Mussum durante sua longa carreira como sambista e trapalhão. Entre esses remetentes, apareceram Antônio Pitanga, Miele, Marília Pêra, Reginaldo Faria, Eder Jofre e Roberto Dinamite. A mãe de Zacarias, dona Virginia Faccio Gonçalves, também mandou palavras de apoio. Os recados mais emocionados, no entanto, vinham de velhos amigos da Mangueira, como Antunes, Nininha, Mocinha, Cristolina, Walter Policarpo e Moisés Mandam, da Ala dos Boêmios, e da administração da escola, por meio de Roberto Firmino e Ivo Meireles. As cartas e bilhetes enviados por fãs são incontáveis e seria impossível reproduzir aqui o tamanho da emoção de crianças, pais e idosos que pediam pela recuperação do ídolo. Mas ninguém estava tão contente quanto o próprio transplantado. Mussum acordou às 5h30 da manhã, teve retirada de sua boca uma sonda ligada a um aparelho de respiração mecânica, e fez um pedido aos médicos: queria que fosse colocada uma televisão no quarto para poder assistir ao jogo entre Brasil x Suécia, pelas semiϐinais da Copa do Mundo dos Estados Unidos. Como era de se esperar, os médicos negaram o pedido e disseram que, apesar de ter um coração de 23 anos, ele deveria se poupar de emoções fortes, seguindo em repouso.

De fato, foi melhor assim, no jogo com muitas chances perdidas pelos comandados de Parreira, a Seleção fez 1 a 0 com um improvável gol de cabeça do baixinho Romário, aos 35 minutos do segundo tempo, e classiϐicou-se depois de 24 anos para uma ϐinal. Mussum ainda não estava bem o suϐiciente para encarar o nervosismo de uma semiϐinal, muito menos de uma ϐinal. Suas forças bastavam para, no máximo, telefonar para algumas poucas pessoas. Além dos ϐilhos, ligou para o amigo Dedé e para o chefe Boni. O cumpadi Dedé andava desesperado para falar com o amigo, escrevia pequenos bilhetes e os enviava por meio de Neila e das enfermeiras. No auge de sua fé evangélica, rezava noite e dia pelo amigo e pedia a todos seus irmãos que ϐizessem o mesmo. Boni, por sua vez, recebeu a ligação com surpresa. Mussum havia ligado para agradecer a ajuda e dizer que em breve voltaria para Angra para tomarem batida de limão juntos, mas não aguentou a barra, e começou a chorar ao telefone. O comediante sabia que os gastos de sua cirurgia ultrapassavam os 300 mil dólares e que, sozinho, jamais teria dinheiro para realizar o procedimento com tamanha qualidade.

Outra emoção grande veio de uma reportagem da Folha de S.Paulo, desmentindo quem acusava o artista de ter furado ϐila por ter mais dinheiro que os demais pacientes. O texto mostrava a importância da situação de Mussum para acender uma discussão mais ampla em relação à doação de órgãos, um fenômeno chamado de "Efeito Mussum". Em apenas dois meses, hospitais de todo o Brasil constataram aumento na oferta de órgãos para transplante. Só em São Paulo, o número de doadores cresceu 700%.47

As boas notícias acabaram em 16 de julho. Após uma recuperação póscirúrgica com velocidade acima da média, Mussum deu um susto em todos. No mesmo dia em que estava brigando com a equipe médica porque estava louco de vontade de tomar um copo de coca-cola, e pelo tom de voz já se notava uma boa melhora, veio a primeira recaída. Em caráter de emergência, precisou ser submetido a uma nova cirurgia, tomando anestesia geral e ϐicando sedado entre as 23h e a 1h, quando teve seu tórax aberto com o objetivo de tratar uma hemorragia e remover o acúmulo de coágulos em torno do novo coração. A complicação, segundo a equipe médica, aparecia em no máximo 2% dos pacientes transplantados. O trapalhão acordaria no dia seguinte, consciente, para descobrir que o Brasil havia vencido a Itália nos pênaltis e conquistado o primeiro tetracampeonato das Copas do Mundo. Lamentou por não poder tomar sequer um chope ou mordiscar uma picanha. Precisava se alimentar por meio de uma sonda nasoenteral e respirar por meio de um tubo colocado na traqueia. A possibilidade de rejeição do novo coração, porém, estava afastada e a alteração na coagulação sanguínea, chamada de ϐibrinólise, corrigida. Para os médicos aquilo havia sido apenas um susto, mas, para o organismo de Mussum, o problema de coagulação fora um alerta importante de que mais problemas estavam a caminho.

No dia 22, foi detectada uma infecção pulmonar no paciente. O quadro piorou rapidamente e foram constatadas a contração dos brônquios e o derrame na pleura. Foi preciso instalar um dreno para retirar o excesso de líquido do pulmão direito e uma nova bateria de exames foi realizada. O resultado da biópsia não detectou sinais de rejeição do coração, mas a situação era muito preocupante. A ciclosporina, droga destinada a recémtransplantados, inibe o sistema imunológico do paciente para evitar problemas com o novo órgão, mas, ao mesmo tempo, baixa as defesas do organismo e faz com que qualquer problema seja potencializado. Foi o que aconteceu com os pulmões de Mussum, que não responderam positivamente aos tratamentos e passaram a funcionar com péssima eficiência, afetando sua saúde de forma exponencial.

Quatro dias após o derrame, o mangueirense precisou iniciar um tratamento diário de diálise para ϐiltragem do sangue e procedimentos para a retirada de líquido acumulado nos pulmões. A essa altura, já havia também complicações nos rins, que perderam sua capacidade durante o uso da medicação pesada.

O coração novo não apresentava nenhum problema, mas a vida de Mussum estava chegando aos seus momentos ϐinais. A medicação deixou seu corpo frágil demais e, com o comprometimento de pulmões e rins, restava pouco a fazer. Antônio Carlos Bernardes Gomes lutou até as 2h45 de 29 de julho de 1994. Depois, se empirulitou.

Após os familiares, quem primeiro recebeu a notícia triste foi Dedé. O telefone tocou na madrugada e o trapalhão já sabia o que ouviria do outro lado da linha. Segurou a onda e telefonou para Renato, mas não precisou falar nada. Os dois parceiros de riso tinham sincronizado seus sentimentos também para aquele momento de incrível dor, mas coube ao cumpadi Dedé chegar antes ao necrotério e, a pedido dos chocados familiares de Mussum, reconhecer o corpo do seu melhor amigo. Às 12h30 do sábado nublado, saía um caixão da Bene ϐicência Portuguesa em direção ao Cemitério de Congonhas, sob os aplausos de algumas dezenas de fãs e amigos que faziam vigília na porta do hospital. Em Mangueira, a triste con ϐirmação foi sendo espalhada de barraco em barraco, até que o estandarte da escola foi colocado a meio pau.

Ainda com a espetacularização do enterro de Zacarias em mente, Mussum, nos seus últimos dias, teria pedido aos seus entes queridos uma cerimônia simples, em São Paulo mesmo, sem grande alarde. Falar desse assunto era um grande tabu para ele, a ϐinal, não conseguia admitir um ϐinal triste daqueles para sua vida. Tinha certeza de que as coisas iam se resolver de um jeito ou de outro, como sempre tinham se resolvido até então. Por isso, o plano do velório e do enterro não eram públicos nem muito elaborados. Não contava com aquela possibilidade. Mas ela veio. Foram apenas 17 dias com o coração novo.

Às 15h30, havia mais de 200 pessoas com o intuito de dar o adeus ϐinal ao trapalhão no Cemitério de Congonhas e, em torno do esquife, estavam Neila, Augusto, Alexandro, Antônio Carlos, Fausto, Paula, os integrantes dos Originais do Samba, Roberto Guilherme, Ronald Golias, Carlos Alberto de Nóbrega, Beto Carrero, Dedé e Renato Aragão, entre outros amigos de longa data e familiares. Alguns minutos depois, quando o céu da tarde tentava se pintar de cor-de-rosa, chegaria um ônibus trazendo uma delegação vinda direto de Mangueira, com Dona Neuma à frente de um cortejo de baianas devidamente vestidas. "Nós perdemos um grande amigo e a Mangueira perde um componente que a amava muito. A Mangueira ϐica mais triste sem ele, mas tenho certeza de que Deus há de estar sorrindo com as gracinhas do nosso Mussum. Era um irmão de todas as horas para o pessoal do morro", disse a matriarca emocionada.48 O caixão foi coberto por uma bandeira da Estação Primeira e por uma camisa branca do Flamengo. Ao som do surdo solitário e profundo, reservado aos grandes sambistas que morrem, Mussum foi enterrado. Descansou para sempre na lápide 174, por coincidência na Quadra 51, e, por opção, ao lado do antigo parceiro de Originais, Rubão. Juntos poderiam tocar novamente "Testamento de partideiro", partidoalto de Candeia gravado pelos Originais em 1976, que diz: "O sambista não precisa ser membro da academia / Ao ser natural em sua poesia / O povo lhe faz imortal".

 

44. O Globo, 04/12/1993.

 

45. Jornal do Brasil, 19/02/1994.

 

46. Folha de S.Paulo, 11/07/1994.

47. Folha de S.Paulo, 15/06/1994.

 

48. Jornal do Brasil, 30/07/1994.